A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 6 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo VIII

Sobre os olhos as palpebras, que affrouxa

Do anjo da morte o resonante grito.

 

VIII.

 

Mas troa a voz do monge, e no meu seio

O coração bateu. Eia, retumbem

Pela abobada aguda os sons dos psalmos,

Que em dia de afflicção ignoto vate

Teceu, banhado em dôr: talvez foi elle

O primeiro cantor que em varias cordas,

Á sombra das palmeiras da Idumea,

Soube entoar melodioso um hymno.

Deus inspirava então os trovadores

Do seu povo querido, e a Palestina,

Rica dos meigos dons da natureza,

Tinha o sceptro tambem do enthusiasmo.

Virgem o genio ainda, o estro puro

Louvava Deus somente, á luz da aurora,

E ao esconder-se o sol entre as montanhas

De Bethoron:--agora o genio é morto

Para o Senhor, e os cantos dissolutos

Do lodoso folguedo os ares rompem,

Ou sussurram por paços de tyrannos,

Assellados de putrida lisonja,

Por preço vil, como o cantor que os tece.

 

IX.

O Psalmo.

 

Quanto é grande o meu Deus!... Té onde chega

O seu poder immenso!

Elle abaixou os ceus, desceu, calcando

Um nevoeiro denso.

Dos cherubins nas azas radiosas

Sentado elle voou:

E sobre turbilhões de rijo vento

O mundo rodeou.

Se lança á terra o olhar, a terra treme,

E os mares assustados

Bramem ao longe, e os montes lançam fumo,

Da sua mão tocados.

Se pensou no Universo, ei-lo patente

Todo perante o Eterno:

Se o quiz, o firmamento os seios abre,

Abre os seios o inferno.

Dos olhos do Senhor, homem, se podes,

Esconde-te um momento:

Vê onde encontrarás logar que fique

Da sua vista isento:

Sobe aos ceus, transpõe mares, busca o abysmo,

Lá teu Deus has-de achar;

Elle te guiará, e a dextra sua

Lá te ha-de sustentar:

Desce á sombra da noite, e no seu manto

Involver-te procura;

Mas as trévas para elle não são trévas;

Nem é a noite escura.

No dia do furor, em vão buscáras

Fugir ante o Deus forte,

Quando do arco tremendo, irado, impelle

Setta em que pousa a morte.

Mas o que o teme dormirá tranquillo

No dia extremo seu,

Quando na campa se rasgar da vida

Das illusões o véu.