A Harpa do Crente
Capítulo VIII
Sobre os olhos as palpebras, que affrouxa
Do anjo da morte o resonante grito.
VIII.
Mas troa a voz do monge, e no meu seio
O coração bateu. Eia, retumbem
Pela abobada aguda os sons dos psalmos,
Que em dia de afflicção ignoto vate
Teceu, banhado em dôr: talvez foi elle
O primeiro cantor que em varias cordas,
Á sombra das palmeiras da Idumea,
Soube entoar melodioso um hymno.
Deus inspirava então os trovadores
Do seu povo querido, e a Palestina,
Rica dos meigos dons da natureza,
Tinha o sceptro tambem do enthusiasmo.
Virgem o genio ainda, o estro puro
Louvava Deus somente, á luz da aurora,
E ao esconder-se o sol entre as montanhas
De Bethoron:--agora o genio é morto
Para o Senhor, e os cantos dissolutos
Do lodoso folguedo os ares rompem,
Ou sussurram por paços de tyrannos,
Assellados de putrida lisonja,
Por preço vil, como o cantor que os tece.
IX.
O Psalmo.
Quanto é grande o meu Deus!... Té onde chega
O seu poder immenso!
Elle abaixou os ceus, desceu, calcando
Um nevoeiro denso.
Dos cherubins nas azas radiosas
Sentado elle voou:
E sobre turbilhões de rijo vento
O mundo rodeou.
Se lança á terra o olhar, a terra treme,
E os mares assustados
Bramem ao longe, e os montes lançam fumo,
Da sua mão tocados.
Se pensou no Universo, ei-lo patente
Todo perante o Eterno:
Se o quiz, o firmamento os seios abre,
Abre os seios o inferno.
Dos olhos do Senhor, homem, se podes,
Esconde-te um momento:
Vê onde encontrarás logar que fique
Da sua vista isento:
Sobe aos ceus, transpõe mares, busca o abysmo,
Lá teu Deus has-de achar;
Elle te guiará, e a dextra sua
Lá te ha-de sustentar:
Desce á sombra da noite, e no seu manto
Involver-te procura;
Mas as trévas para elle não são trévas;
Nem é a noite escura.
No dia do furor, em vão buscáras
Fugir ante o Deus forte,
Quando do arco tremendo, irado, impelle
Setta em que pousa a morte.
Mas o que o teme dormirá tranquillo
No dia extremo seu,
Quando na campa se rasgar da vida
Das illusões o véu.