A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 10 de 39

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A Luneta Âmbar

9. Rio Acima

Rio ACIMA

 

...UMA SOMBRA SE LANÇA SOBRE A MENTE

QUANDO UMA NUVEM ENVOLVE, AO MEIO-DIA, O

TODO-PODEROSO SOL...

EMILY DICKINSON

 

Deixe-me ver a faca -- disse Iorek Byrnison. — Eu entendo

de metal. Nada que seja feito de ferro ou aço é um mistério para

um urso. Mas nunca vi uma faca I como a sua e gostaria de

poder examiná-la de perto.

Will e o urso rei estavam na coberta de proa do vapor, sob os

raios quentes do sol que se punha, e a embarcação navegava

rapidamente, fazendo progresso em sua rota rio acima; havia

bastante combustível a bordo, havia comida que Will pudesse

comer, e ele e Iorek Byrnison estavam, pela segunda vez, medindo e

avaliando os méritos um do outro. Já haviam feito isso uma primeira

vez.

Will estendeu a faca para Iorek, oferecendo primeiro o cabo, e

o urso a recebeu delicadamente. Sua garra-polegar ficava de frente

para as quatro garras-dedos, permitindo-lhe manipular objetos com

a mesma destreza que seres humanos, então ele virou a faca para um

lado, depois para o outro, trouxe-a até bem perto dos olhos,

segurando-a de maneira que refletisse a luz, testando o gume — o

gume de aço — num pedaço de ferro velho.

— Este gume é o que você usou para cortar minha armadura

— disse ele. — O outro é muito estranho. Não sei dizer o que é, o

que é capaz de fazer, como foi feito. Mas quero compreender o que

é. Como foi que isto veio parar em suas mãos?

Will contou a ele a maior parte do que havia acontecido,

deixando de fora apenas as coisas que diziam respeito somente a ele:

sua mãe, o homem que tinha matado, seu pai.

— Você lutou por ela e perdeu dois dedos? — perguntou o

urso. — Mostre-me o ferimento.

Will estendeu a mão. Graças ao ungüento de seu pai, as

superfícies cortadas estavam cicatrizando bem, mas ainda estavam

muito sensíveis. O urso as cheirou.

—Musgo-sangüíneo — concluiu. — E mais alguma coisa

que não consigo identificar. Quem lhe deu isso?

—Um homem que me disse o que deveria fazer com a

faca. Então ele morreu. Ele tinha um pouco de ungüento numa caixa

de chifre e curou meu ferimento. As bruxas tentaram, mas o feitiço

que fizeram não funcionou.

—E o que ele disse para você fazer com a faca? —

perguntou Iorek Byrnison, entregando-a de volta a Will

cuidadosamente.

—Disse para usá-la numa guerra combatendo ao lado de

Lorde Asriel — respondeu Will. — Mas primeiro preciso salvar

Lyra da Língua Mágica.

—Então nós ajudaremos — disse o urso, e o coração de Will

deu um pulo de prazer.

Ao longo dos dias seguintes, Will descobriu por que os ursos

estavam fazendo aquela viagem para a Ásia Central, tão longe de sua

terra natal.

Desde a catástrofe que havia aberto os mundos, todo o gelo

do Ártico havia começado a derreter, e novas e estranhas correntes

tinham aparecido nas águas do mar. Uma vez que os ursos

dependiam do gelo e dos seres que viviam no mar gelado,

concluíram que logo estariam passando fome se ficassem onde

estavam; e, sendo racionais, decidiram como deveriam reagir.

Teriam que migrar para onde houvesse neve e gelo em abundância:

iriam para as mais altas montanhas, para a cadeia que tocava o céu,

a meio mundo de distância, mas inabalável, eterna e coberta por

muita neve. De ursos do mar eles se tornariam ursos das montanhas,

pelo tempo que fosse necessário até que o mundo voltasse a se

acomodar.

—Então vocês não estão em guerra? — perguntou Will.

—Nossos velhos inimigos desapareceram com as focas e as

morsas. Se encontrarmos novos inimigos, sabemos como lutar.

—Pensei que uma grande guerra estivesse em vias de começar

e que envolveria todo mundo. De que lado você lutaria se isso

acontecesse?

—Do lado que oferecesse mais vantagem para os ursos.

Que dúvida! Tenho alguma estima por muito poucas pessoas entre

os humanos. Uma delas era um homem que voava num balão.

Ele está morto. Outra é a bruxa Serafina Pekkala. A terceira é a

menina Lyra da Língua Mágica. Primeiro eu faria o que fosse

melhor para os ursos. Depois, o que fosse melhor para a criança,

ou para a bruxa, ou que pudesse vingar meu companheiro morto,

Lee Scoresby. É por isso que vou ajudar você a salvar Lyra da

Língua Mágica daquela abominável mulher Coulter.

Iorek contou a Will como ele e alguns de seus súditos tinham

nadado até a foz do rio e pago o aluguel daquela embarcação com

ouro, contratado a tripulação e utilizado o derretimento do Ártico

de maneira vantajosa para eles ao deixar que o rio os levasse para o

interior até onde fosse possível — e, como sua nascente ficava

exatamente nos contrafortes do norte das montanhas que estavam

procurando e como Lyra também estava prisioneira lá, as coisas

tinham calhado de correr muito bem até agora.

E assim o tempo foi passando.

Durante o dia, Will cochilava no convés, descansando,

reunindo forças, porque estava exausto em cada partícula de seu ser.

Observou, à medida que a paisagem começou a mudar e a estepe de

ondulações suaves foi dando lugar a morros baixos cobertos de relva

verdejante, e depois ao relevo de terras mais altas, com o

desfiladeiro ou a catarata ocasional; e mesmo assim o vapor

continuou navegando rumo ao sul.

Ele conversava com o capitão e com os tripulantes, por

educação, mas lhe faltava a facilidade de comunicação imediata que

Lyra tinha com estranhos, achava difícil encontrar muito para dizer;

e, de qualquer maneira, não estavam muito interessados nele. Aquilo

era apenas um trabalho e, quando estivesse terminado, eles

partiriam sem olhar para trás. Além disso, não gostavam muito dos

ursos, apesar de todo o ouro. Will era um estrangeiro e desde que

pagasse por sua comida, pouco se importavam com o que ele fizesse.

Para completar, havia aquele seu estranho daemon, que parecia tanto

com uma bruxa: às vezes estava lá e outras vezes parecia ter

desaparecido. Supersticiosos, como muitos marinheiros, ficavam

bem contentes em deixá-lo em paz.

Balthamos, por sua vez, também se mantinha calado. Por

vezes seu sofrimento e luto se tornavam demasiado intensos para

que pudesse suportá-los e deixava o barco para voar bem alto, entre

as nuvens, buscando qualquer retalho de luz ou sabor de ar,

quaisquer estrelas cadentes ou arestas de pressão que pudessem

recordá-lo das experiências que havia compartilhado com Baruch.

Quando falava, à noite na escuridão da pequenina cabina onde Will

dormia, era apenas para comunicar quanto tinham progredido e que

distância ainda faltava percorrer para chegarem à caverna e ao vale.

Talvez ele pensasse que Will tinha pouca compreensão e simpatia a

oferecer por seu sofrimento, porém, caso tivesse buscado, teria

encontrado muita. Tornou-se cada vez mais brusco e formal, embora

nunca sarcástico; aquela promessa, pelo menos, ele cumpriu.

Quanto a Iorek, ele examinava a faca obsessivamente. Olhava

para ela durante horas a fio, testando os dois gumes, arqueando-a,

segurando-a no alto, voltada para a luz, tocando-a com a língua,

cheirando-a e até escutando o som que o ar fazia quando fluía sobre

sua superfície. Will não se preocupava com a faca, pois Iorek era,

evidentemente, um artífice de imenso e reconhecível talento;

também não temia por Iorek, por causa da delicadeza de movimento

daquelas patas poderosas. Afinal Iorek veio procurar Will e disse:

—Este outro gume. Ele faz alguma coisa que você não me

contou. O que é e como funciona?

—Não posso mostrar a você aqui — respondeu Will —

porque o navio está em movimento. Mas assim que pararmos eu

mostro.

—Posso imaginar o que é — disse o urso —, mas não

consigo compreender o que estou pensando. E a coisa mais estranha

que já vi.

E devolveu a faca a Will, com um longo olhar desconcertante

e indecifrável de seus olhos negros profundos.

Naquela altura, o rio havia mudado de cor, porque estava se

encontrando com os restos das primeiras águas das enchentes que

tinham descido do Ártico. Will constatou que as convulsões haviam

afetado a terra de maneira diferente em diferentes lugares; uma

aldeia após a outra estava mergulhada em água até a altura de seus

telhados e centenas de pessoas desabrigadas tentavam salvar o que

podiam com barcos a remo e canoas. A terra devia ter afundado um

pouco ali, porque o rio se alargou e seu curso se tornou mais lento, e

era difícil para o piloto traçar sua rota com precisão em meio às

correntes de águas largas e barrentas. O ar ali era mais quente e o sol

ficava mais alto no céu, os ursos tinham dificuldade para se

refrescar; alguns deles nadavam ao lado do vapor enquanto este ia

seguindo, sentindo o sabor das águas de sua terra natal naquela terra

estranha.

Mas finalmente o rio se estreitou e se tornou mais profundo

de novo e, logo adiante deles, começaram a se elevar as montanhas

do grande planalto central asiático. Certo dia, Will viu uma borda

de cor branca no horizonte e ficou observando enquanto ela foi

crescendo pouco a pouco, se separando em diferentes picos, com

cadeias e desfiladeiros entre eles, e tão altos que pareciam que

deviam estar muito próximos — apenas a alguns quilômetros —,

mas ainda estavam muito longe; era só que as montanhas eram

imensas e, a cada hora que delas se aproximavam, pareciam ainda

mais ínconcebivelmente altas.

A maioria dos ursos nunca tinha visto montanhas, exceto

pelos penhascos em sua própria ilha, Svalbard, e ficaram em silêncio

quando levantaram o olhar para os gigantescos contrafortes, ainda tão

distantes.

—O que caçaremos por lá, Iorek Byrnison? — perguntou

um deles. — Existem focas nas montanhas? Como viveremos?

—Existe neve e gelo — foi a resposta do rei. — Nos

sentiremos confortáveis. E existem animais selvagens em

abundância. Nossa vida vai ser diferente durante algum tempo. Mas

vamos sobreviver e, quando as coisas voltarem a ser como devem e

o Ártico congelar de novo, nós ainda estaremos vivos para voltar e

retomá-lo. Se tivéssemos ficado lá, teríamos morrido de fome.

Estejam preparados para coisas estranhas e para novos hábitos,

meus ursos.

Afinal, chegou um momento em que o vapor não podia mais

navegar, porque naquele ponto o leito do rio se estreitava e se

tornava raso. O capitão parou a embarcação no fundo de um vale,

que normalmente teria estado coberto de relva e de flores da

montanha, onde o rio fazia meandros sobre leitos de cascalho; mas o

vale agora era um lago e o capitão insistiu em que não se arriscaria a

ir além dele, porque depois daquele ponto não haveria profundidade

suficiente abaixo da quilha, mesmo com a grande enchente do

norte.

De modo que eles ancoraram junto a uma das paredes do

vale, onde uma saliência de rocha formava uma espécie de

plataforma, e desembarcaram.

— Onde estamos agora? — perguntou Will ao capitão, cujo

inglês era limitado.

O capitão encontrou um velho mapa meio rasgado e

apontou com seu cachimbo, dizendo:

— Este vale aqui, nós agora. Você leva, continua.

— Muito obrigado — agradeceu Wlll, e se perguntou se

deveria oferecer pagamento pelo mapa; mas o capitão já tinha se

afastado para supervisionar o desembarque da carga.

Não demorou muito para que os cerca de 30 ursos e suas

armaduras estivessem na margem estreita. O capitão gritou uma

ordem e a embarcação começou a virar com grande esforço contra a

corrente, manobrando até chegar ao meio do curso, e então soltou

um apito explosivo que ecoou por muito tempo pelas paredes do

vale.

Will sentou sobre um pedregulho, lendo o mapa. Se estivesse

certo, o vale onde Lyra estava prisioneira, de acordo com o anjo,

ficava a alguma distância para leste e para o sul, e o melhor caminho

para chegar lá era através de uma passagem estreita entre as

montanhas chamada desfiladeiro Sungchen.

— Ursos, marquem este lugar — disse Iorek Bvrnison para

seus súditos. — Quando chegar a hora de voltarmos para o Ártico,

nos reuniremos aqui. Agora sigam seus caminhos, cacem,

alimentem-se e vivam. Não façam guerra. Não estamos aqui para

guerrear. Se houver ameaça de guerra, mandarei chamá-los.

Os ursos eram, em sua maioria, criaturas de hábitos solitários e

só se reuniam em tempos de guerra ou em emergências. Agora que

se encontravam nos limites de uma terra de neve, estavam

impacientes para partir, todos eles, fazer suas explorações cada um

por si.

— Então vamos andando, Will — disse Iorek Byrnison —, e

encontraremos Lvra.

Will levantou a mochila e eles se puseram em marcha.

Foi bom caminhar durante a primeira parte da jornada. O sol

estava quente, mas os pinheiros e os rododendros mantinham o

calor mais forte longe de seus ombros e o ar era fresco e límpido. O

terreno era rochoso, mas as pedras eram espessamente recobertas de

musgo e de agulhas de pinheiros, e as encostas que subiram não

eram muito íngremes. Will descobriu que estava adorando o

exercício. Os dias que havia passado a bordo, o repouso forçado

tinham devolvido suas forças. Quando havia encontrado Iorek,

estivera realmente nas últimas. Não sabia disso, mas o urso sabia.

E, tão logo ficaram sozinhos, Will mostrou a Iorek como o

outro gume da faca funcionava. Abriu uma janela para um mundo

onde uma floresta pluvial equatorial de atmosfera escaldante e

úmida gotejava, e onde vapores carregados com perfume forte

escaparam pairando no ar rarefeito da montanha. Iorek observou

atentamente, tocou a borda da janela com a pata e a farejou;

atravessou a janela e entrou no ar quente e úmido para olhar em

silêncio. Os guinchados dos macacos, o piar dos pássaros, os

zumbidos dos insetos, o coaxar dos sapos e o gotejar incessante de

vapor de água se condensando pareceram soar muito alto para Will,

que estava do lado de fora.

Então Iorek voltou e observou Will fechar a janela, então

pediu para ver a faca de novo, olhando tão de perto o gume de prata

que Will achou que estivesse correndo o risco de cortar o olho. Ele

o examinou por muito tempo e depois devolveu a faca sem fazer

maiores comentários, exceto o seguinte:

— Eu estava certo: não teria podido lutar contra isto.

Então seguiram caminho, falando pouco, algo que agradava

aos dois. Iorek Byrnison capturou uma gazela e a comeu quase

inteira, deixando a carne mais macia para que Will cozinhasse. E,

quando a certa altura chegaram a uma aldeia, enquanto Iorek

esperava na floresta, Will trocou uma de suas moedas de ouro por

uma porção de pão rústico achatado, frutas secas, botas de couro de

iaque e um colete de uma espécie de pele de ovelha, pois estava

ficando frio à noite.

Ele também conseguiu perguntar sobre o vale com os arco-

íris. Balthamos o ajudou, assumindo a forma de um corvo, igual ao

daemon do homem com quem Will estava falando; ele tornou mais fácil a troca de informações entre eles e Will conseguiu obter

indicações úteis e claras sobre o caminho.

Ficava a mais três dias de caminhada. Bem, eles estavam

chegando lá.

Mas outros também estavam.

O grupo armado enviado por Lorde Asriel, a esquadrilha de

girópteros e o zepelim-tanque com combustível haviam alcançado a

abertura entre os mundos: a fenda no céu acima de Svalbard. Ainda

tinham um longo caminho pela frente, mas voavam sem parar, exceto

para os trabalhos de manutenção essenciais; o comandante, o africano

Rei Ogunwe, mantinha contato duas vezes por dia com a fortaleza

de basalto. Ele tinha um galivespiano operador de magneto a bordo

de seu giróptero e por seu intermédio tomava conhecimento com a

mesma rapidez que Lorde Asriel do que estava acontecendo nos

outros lugares.

As notícias eram desconcertantes. A pequena espia, Lady

Salmakia, havia observado escondida nas sombras enquanto os dois

poderosos braços da igreja, o Tribunal Consistorial de Disciplina

e a Sociedade do Ofício do Espírito Santo, concordavam em pôr de

lado suas diferenças e reunir seus conhecimentos. A Sociedade

tinha um aletometrista que era mais ágil e mais talentoso que Frei

Pavel e, graças a ele, agora o Tribunal Consistorial sabia exatamente

onde Lyra estava, e mais: eles sabiam que Lorde Asriel havia

enviado tropas para resgatá-la. Sem perder tempo, o Tribunal havia

convocado uma frota de zepelins e, naquele mesmo dia, um

batalhão da Guarda Suíça começou a embarcar nos zepelins que

esperavam no ar tranquilo acima do lago de Genebra.

De modo que cada lado tinha conhecimento de que o outro

também estava se dirigindo para a caverna nas montanhas. E ambos

sabiam que quem chegasse lá primeiro levaria vantagem, mas essa

vantagem não fazia grande diferença: os girópteros de Lorde Asriel

eram mais rápidos que os zepelins do Tribunal Consistorial, mas

tinham uma distância maior a percorrer, e eram limitados pela

velocidade de seu zepelim-tanque.

E havia uma outra questão a considerar: quem quer que se

apoderasse primeiro de Lyra, teria que lutar contra o exército

adversário para sair. Seria uma tarefa mais fácil para o Tribunal

Consistorial, porque eles não tinham que se preocupar em retirar

Lyra em segurança. Estavam voando para lá para matá-la.

O zepelim que transportava o Presidente do Tribunal

Consistorial também levava outros passageiros, sem que ele

tivesse conhecimento. O Cavaleiro Tialys havia recebido uma

mensagem em seu magneto resso-nante, ordenando que ele e

Lady Salmakia entrassem clandestinamente a bordo. Quando os

zepelins chegassem ao vale, ele e Lady Salmakia deveriam

abandonar o grupo e seguir adiante independentemente,

encontrar um meio de chegar à caverna onde Lyra estava sendo

mantida e protegê-la, da melhor forma possível, até que as forças

do Rei Ogunwe chegassem para resgatá-la. A segurança de Lyra

deveria ser considerada mais importante que qualquer outra

coisa.

Entrar clandestinamente no zepelim era arriscado para os

espiões e não apenas por causa do equipamento que tinham

que carregar. Além do magneto ressonante, os itens mais

importantes eram um par de larvas de inseto e seus alimentos.

Quando os insetos adultos emergissem, eles se pareceriam mais

com libélulas do que com qualquer outra coisa, mas não seriam

semelhantes a nenhum tipo de libélula que os humanos do

mundo de Will, ou de Lyra, jamais tivessem visto antes. Para

começar, seriam muito maiores. Os galivespianos criavam esses

insetos com muito cuidado e os insetos de cada clã diferiam dos

de outros. O clã do Cavaleiro Tialys criava robustas Übélulas

listradas de vermelho e amarelo, de apetites vigorosos e brutais,

enquanto a que Lady Salmakia estava alimentando seria uma

criatura esguia, capaz de voar rapidamente, com um corpo azul

elétrico e a capacidade de brilhar na escuridão.

Cada espião era equipado com uma quantidade dessas larvas

que, ao serem alimentadas com quantidades cuidadosamente

medidas de óleo e de mel, podiam manter em estado de animação

suspensa ou trazer rapidamente à maturidade. Tialys e Salmakia

agora disporiam de 36 horas, dependendo dos ventos, para trazer à

plena maturidade aquelas larvas; porque este era

aproximadamente o tempo que o vôo levaria e precisavam que os

insetos emergissem antes que o zepelim aterrissasse.

O Cavaleiro e sua colega encontraram um lugar esquecido

atrás de uma antepara e trataram de se acomodar em segurança,

enquanto a aeronave era carregada e abastecida; e então os

motores começaram a rugir, fazendo tremer a estrutura leve de

ponta a ponta, enquanto a equipe de terra soltava as amarras e os

oito zepelins subiam no céu noturno.

O povo deles teria considerado a comparação um insulto

mortal, mas os doís conseguiram se esconder no mínimo tão bem

quanto ratos. Daquele esconderijo, os galivespianos conseguiam

ouvir muita coisa e mantiveram contato de hora em hora com

Lorde Roke, que estava a bordo do giróptero do Rei Ogunwe.

Mas havia uma coisa que não podiam mais descobrir no

zepelim, porque o Presidente em nenhum momento tocou no

assunto: e era a questão do assassino, Padre Gomez, que já havia

sido absolvido do pecado que iria cometer se o Tribunal

Consistorial fracassasse em sua missão. O Padre Gomez estava em

outro lugar e ninguém sabia disso, nem o estava seguindo.