A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 13 de 39

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A Luneta Âmbar

12. A Quebra

A QUEBRA

 

AINDA QUANDO FUGIA, O OLHAR MANTINHA VOLTADO

PARA TRÁS, COMO SE SEU MEDO AINDA O ESTIVESSE

SEGUINDO, VINDO LOGO ATRÁS

EDMUND SPENSER

 

À medida que a escuridão da noite ia caindo, ii as coisas se

encontravam no seguinte pé.

Em sua torre adamantina, inquieto, Lorde Asriel andava de um

lado para outro, sem cessar. Sua atenção estava cravada na figura

pequenina ao lado do magneto ressonante e todas as outras

transmissões tinham sido desviadas, todas as partículas de sua mente

estavam concentradas no pequeno bloco quadrado de pedra sob a

luz da lamparina.

O Rei Ogunwe estava na cabine de comando de seu giróptero,

rapidamente preparando um plano para frustrar as intenções do

Tribunal Consistorial, das quais acabara de tomar conhecimento através

do galivespiano em sua aeronave. O navegador escreveu alguns números

num pedaço de papel, que entregou ao piloto. A questão essencial era

velocidade: conseguir pôr as tropas em terra primeiro faria toda a

diferença. Os girópteros eram mais velozes que os zepelins, mas ainda

estavam um pouco atrasados.

Nos zepelins do Tribunal Consistorial, a Guarda Suíça

preparava seu equipamento de combate. Suas bestas eram mortais

numa distância de até 460 metros e um arqueiro podia carregar e

disparar 15 flechas curtas por minuto. As barbatanas em espiral, feitas

de chifre, davam a essas setas um movimento giratório e tornavam a

pontaria da arma precisa como a de uma espingarda. Também era, é

claro, silenciosa, algo que podia ser uma grande vantagem.

A Sra. Coulter estava acordada na entrada da caverna. O

macaco dourado estava inquieto e frustrado: os morcegos tinham

deixado a caverna quando começara a escurecer e não havia nada que

pudesse atormentar. Ficou rondando em volta do saco de dormir da

Sra. Coulter, esmigalhando com um dedo pontudo os vaga-Iumes

que ocasionalmente vinham pousar na caverna e esfregando sua

luminescência na pedra.

Lyra continuava deitada, acalorada e quase que igualmente

inquieta, mas muito, muito profundamente adormecida, confinada

ao esquecimento pelo trago de bebida que sua mãe a havia forçado a

engolir, apenas uma hora antes. Havia um sonho que a ocupara

durante muito tempo anteriormente e agora ele tinha voltado, e

pequenos gemidos, tão característicos de Lyra, de pena, de raiva e

de determinação, sacudiam seu peito e sua garganta, fazendo

Pantalaimon ranger seus dentes de arminho em solidariedade.

Não muito longe, sob os pinheiros batidos pelo vento na trilha

da floresta, Will e Ama estavam se aproximando a caminho da

caverna. Wiil tinha tentado explicar a Ama o que iria fazer, mas o

daemon dela não tinha conseguido compreender e quando ele cortou uma janela e mostrou a ela, ficou tão apavorada que quase

desmaiou. Ele teve que andar mais devagar e falar baixinho para

conseguir mantê-la por perto, pois ela se recusava a deixá-lo tocar no

embrulho de pó e até mesmo contar a ele como deveria ser usado.

Afinal ele foi obrigado a dizer simplesmente:

— Mantenha-se em silêncio e siga-me — e a esperar que ela

o fizesse.

Iorek, vestido em sua armadura, estava em algum lugar nas

proximidades, esperando para impedir a passagem dos soldados dos

zepelins, de modo a dar a Will tempo suficiente para agir. O que

nenhum dos dois sabia era que as forças de Lorde Asriel também

estavam se aproximando: o vento, de tempos em tempos, trazia aos

ouvidos de Torek um ruído distante de batimentos, mas, apesar de

conhecer o barulho que os motores de um zepelim faziam, nunca

tinha ouvido o som de um giróptero, de modo que aquilo não lhe

dizia nada.

Balthamos talvez pudesse ter-lhes dito, mas Will estava

preocupado com ele. Agora que tinham encontrado Lyra, o anjo

começara a se recolher novamente em seu luto: estava calado,

distraído e mal-humorado. E aquilo, por sua vez, tornava mais

difícil falar com Ama.

Quando fizeram uma parada na trilha, Will disse para o ar:

— Balthamos? Você está aí?

— Estou — respondeu o anjo monotonamente.

— Balthamos, por favor, fique comigo. Fique perto e me avise

de qualquer perigo. Eu preciso de você.

— Eu ainda não abandonei você — retrucou o anjo.

E isso foi o máximo que Will conseguiu arrancar dele.

Bem longe nas alturas, no ar turbulento, Tialys e Salmakia

voavam alto sobre o vale, tentando ver onde ficava a caverna. As

libélulas fariam exatamente o que ordenassem, mas seus corpos

não lidavam com facilidade com o frio e, além disso, estavam sendo

perigosamente sacudidas e jogadas pelo vento fone. Seus cavaleiros

as guiaram para mais baixo, sob a proteção das árvores, e então

foram voando de galho em galho, procurando se situar na escuridão

que aumentava.

Will e Ama se esgueiraram sob o vento forte, ao luar, até o

ponto mais próximo que podiam alcançar que ainda ficasse fora do

ângulo de visão da caverna. Calhou de ser atrás de um arbusto

muito frondoso a pouca distância da trilha; ali ele cortou uma janela

no ar.

O único mundo que conseguiu encontrar, com a mesma

conformação de terreno, era um lugar deserto, rochoso, onde a lua

brilhava forte, do alto de um céu estrelado, sobre um solo

esbranquiçado, descorado como osso, onde pequenos insetos se

arrastavam e emitiam seus ruídos secos, rangidos, em meio a um

vasto silêncio.

Ama o seguiu pela janela, com dedos e polegares se esfregando

furiosamente para protegê-la dos demônios que deviam estar

assombrando aquele lugar horrível; e seu daemon, imediatamente se

adaptando, se transformou num lagarto e correu sobre as rochas

com pés ligeiros.

Will percebeu um problema. Era simplesmente que o luar

intenso, banhando as rochas esbranquiçadas, iria brilhar como uma

lanterna quando ele abrisse a janela na caverna da Sra. Coulter.

Teria que abri-la rapidamente, puxar Lyra para o outro lado e fechá-

la imediatamente. Podiam deixar para acordá-la naquele mundo,

onde era mais seguro.

Ele parou na encosta ofuscante e disse para Ama:

— Temos que agir muito rápido e nos manter completamente

silenciosos. Não fazer nenhum barulho, nem um sussurro.

Ama compreendeu, embora estivesse assustada. O pequeno

embrulho de pó estava no bolso de seu peito: tinha verificado uma

dúzia de vezes, ela e seu daemon tinham ensaiado a tarefa tantas

vezes que tinha certeza de que seriam capazes de executá-la até na

escuridão total.

Eles foram escalando as rochas esbranquiçadas, cor de osso,

Will medindo cuidadosamente a distância até que calculou que

estariam dentro da caverna.

Então pegou a faca e cortou a menor janela possível, por onde

pudesse ver, não maior que o círculo que ele fazia juntando o polegar

com o indicador.

Rapidamente encostou o olho nela, para impedir que o luar

passasse, e olhou para o outro lado. Estava tudo lá: tinha calculado

bem. Podia ver a entrada da caverna mais para a frente, as rochas

escuras, delineadas no céu noturno; podia ver o vulto da Sra.

Coulter, dormindo, com seu daemon dourado a seu lado; podia ver

até o rabo do macaco, descansando negligentemente sobre o saco

de dormir.

Mudando de ângulo e olhando para mais perto, viu a rocha

atrás da qual Lyra estivera deitada. Contudo não conseguia vê-la.

Estaria perto demais? Ele fechou a janela, deu um ou dois passos

para trás e abriu de novo.

Ela não estava lá.

— Escute — disse para Ama e seu daemon —, a mulher

mudou Lyra de lugar e não consigo ver onde ela está. Vou ter que

atravessar a janela e procurar dentro da caverna até descobrir onde

ela está, então corto outra janela assim que tiver encontrado. De

modo que fique um pouco afastada, mantenha-se fora do caminho

para eu não cortar você acidentalmente quando voltar.

— Nós devíamos atravessar juntos — disse Ama — porque eu

sei como acordá-la e você não sabe, e eu conheço a caverna melhor que

você.

O rosto dela tinha uma expressão teimosa, os lábios

comprimidos, os punhos cerrados. Seu daemon lagarto adquiriu um

colar natural que ele levantou e abriu em volta do pescoço.

— Ah, então está bem — concordou Will. — Mas

vamos atravessar rapidamente e em silêncio absoluto, e você faz

exatamente o que eu mandar, na hora em que eu disser, entendeu?

Ela balançou a cabeça concordando e, mais uma vez, bateu de

leve no bolso para se certificar de que o remédio estava lá.

Will fez uma pequena abertura, bem baixa, olhou através dela e

a aumentou rapidamente, e de quatro, engatinhando nas mãos e nos

joelhos, atravessou num instante. Ama estava bem atrás dele e, no

total, a janela ficou aberta durante menos de dez segundos.

Os dois se agacharam no solo da caverna, se escondendo atrás

de um grande pedregulho, com Balthamos, sob a forma de passarinho,

bem ao lado; os olhos deles levaram alguns instantes para se ajustar à

luz brilhante do luar do outro mundo. Dentro da caverna estava muito

mais escuro e muito mais cheio de sons: principalmente do vento

agitando as árvores, mas também havia um outro som mais baixo.

Era o rugido do motor de um zepelim, e não estava muito distante.

Com a faca na mão direita, Will se equilibrou com cuidado e

olhou em volta.

Ama estava fazendo a mesma coisa e, com olhos de coruja, seu

daemon também olhava de um lado para outro; mas Lyra não estava daquele lado da caverna. Quanto a isso não havia mais dúvida.

Will levantou a cabeça sobre o pedregulho e lançou um longo

olhar na direção da entrada, onde a Sra. Coulter e seu daemon estavam dormindo.

E então seu coração se contraiu. Lá estava Lyra, deitada nas

profundezas de seu sono, bem ao lado da Sra. Coulter. Os contornos

das duas se fundiam na escuridão; não era de espantar que ele não a

tivesse visto.

Will tocou na mão de Ama e apontou.

— Vamos ter que fazer isto com muito cuidado — sussurrou.

Alguma coisa estava acontecendo do lado de fora. O rugído

dos zepelins agora estava muito mais alto que o vento batendo nas

árvores e havia luzes se movendo por lá, vindas do alto, iluminando o

solo, através dos galhos. Quanto mais depressa conseguissem tirar

Lyra dali, melhor, e isso significava correr até lá agora, antes que a Sra. Coulter acordasse, cortar uma abertura, puxá-la por ela e fechar

de novo.

Ele sussurrou para Ama. Ela assentiu.

Então, quando ele estava pronto para agir, a Sra. Coulter

acordou.

Ela se mexeu e disse alguma coisa; imediatamente o macaco

dourado se levantou de um salto. Will podia ver a silhueta dele na

boca da caverna, agachado, alerta, e então a Sra. Coulter se levantou,

protegendo os olhos da luz que vinha de fora.

A mão esquerda de Will segurava o pulso de Ama com

firmeza. A Sra. Coulter se levantou, totalmente vestida, ágil, alerta,

como se absolutamente não tivesse estado dormindo pouco antes.

Talvez tivesse estado acordada o tempo todo. Ela e o macaco

dourado estavam agachados, escondidos junto à entrada da caverna,

observando e ouvindo, enquanto as luzes dos zepelins balançavam

de um lado para outro acima das copas das árvores e os motores

rugiam, e gritos de vozes masculinas fazendo advertências ou dando

ordens deixavam evidente que eles deveriam tratar de se mexer

depressa, muito depressa.

Will apertou o pulso de Ama e avançou rapidamente,

observando o solo para não tropeçar, correu depressa, mantendo-se

abaixado.

Logo estava ao lado de Lyra e ela estava profundamente

adormecida, com Pantalaimon aninhado em volta de seu pescoço; e

então Will levantou a raça e um minuto depois teria havido uma

abertura através da qual poderia puxar Lyra para um lugar seguro.

Mas ele levantou o olhar. Olhou para a Sra. Coulter. Ela tinha

se virado para trás, em silêncio; o clarão vindo do céu, refletindo na

parede úmida da caverna, iluminou seu rosto e, por um instante,

não era mais absolutamente o rosto dela; era o rosto da mãe dele,

censurando-o, e seu coração tremeu de dor; então, quando ele

golpeou com a taça, sua mente devaneou e, com uma torção e um

estalo, a faca caiu em pedaços no chão.

Estava quebrada.

Agora ele não poderia mais cortar uma abertura para sair.

Ele disse para Ama:

— Acorde-a. Agora.

Então se levantou, pronto para lutar. Primeiro iria estrangular

aquele macaco. Estava tenso, pronto para enfrentar seu bote, e

descobriu que ainda tinha o cabo da faca na mão: pelo menos

poderia usá-lo para bater nele.

Mas não houve ataque, nem do macaco dourado, nem da Sra.

Coulter. Ela simplesmente se moveu um pouco para permitir que a

luz vinda de fora mostrasse a pistola em sua mão. Ao fazer isso,

permitiu que a luz passasse mostrando o que Ama estava fazendo: ela

estava salpicando um pó no lábio superior de Lyra e observando

enquanto Lyra inspirava o pó, ajudando a empurrá-lo para dentro

das narinas, usando a cauda de seu daemon como pincel.

Will ouviu uma alteração nos sons que vinham de fora:

havia uma outra nota além do rugido dos zepelins. Parecia

familiar, como uma intrusão vinda de seu mundo, e ele então

reconheceu o ruído de um helicóptero. Logo veio outro e mais outro,

e mais luzes estavam varrendo as árvores em movimento contínuo lá

fora, num leque de radiação verde brilhante.

A Sra. Coulter virou-se rapidamente quando ouviu o novo

som, mas por um instante muito breve para que Wiil pudesse saltar e

tomar-lhe a arma. Quanto ao macaco dourado, olhava furioso para

Will, sem piscar, agachado, pronto para saltar em cima dele.

Lyra estava se mexendo e murmurando. Will se abaixou e

apertou a mão dela, e o outro daemon sacudiu de leve Pantalaimon,

levantando sua cabeça, sussurrando para ele.

Do lado de fora veio um grito e um homem caiu do céu com

uma pancada violenta, nauseante, a menos de cinco metros da

entrada da caverna. A Sra. Coulter se manteve impassível; olhou

friamente para ele, depois se virou de volta para Will. Um instante

depois houve um disparo de tiros de uma carabina vindo do alto e

um segundo depois uma tempestade de tiros se desencadeou, e o céu

se encheu de explosões, do crepitar de chamas, de rajadas de balas

de armas de fogo.

Lyra estava lutando para recuperar a consciência, arquejando,

suspirando, gemendo, se apoiando para se levantar e depois caindo

enfraquecida e Pantalaimon estava bocejando, se espreguiçando e

resmungando com o outro daemon, despencando desajeitada mente para o lado quando seus músculos se recusavam a obedecer.

Quanto a Will, ele estava vasculhando o solo da caverna com

o maior cuidado, catando os pedaços da faca quebrada. Não havia

tempo para se perguntar como aquilo teria acontecido, ou se ela

poderia ser reparada; mas ele era o portador da faca e tinha que juntar

e guardar todos os pedaços. A medida que foi encontrando cada

pedaço, pegava-o cuidadosamente, cada nervo em seu corpo

consciente dos dedos que faltavam, e o enfiava na bainha. Podia ver

os pedaços com facilidade porque o metal refletia a luz vinda de fora:

eram sete, o menor sendo a ponta. Ele recolheu todos os pedaços e

então se virou para tentar entender a luta que estava ocorrendo lá

fora.

Em algum lugar acima das árvores, os zepelins estavam

pairando no ar, e homens vinham descendo por cordas, mas o vento

tornava difícil para os pilotos manterem as aeronaves estacionárias.

Enquanto isso, os primeiros girópteros tinham chegado ao alto do

penhasco. Só havia espaço para que aterrissasse um de cada vez e

depois os carabineiros africanos tinham que descer pela parede de

rocha. Fora um deles que tinha sido abatido por um tiro

afortunado, disparado por alguém nos zepelins oscilantes.

A essa altura os dois lados já tinham desembarcado tropas.

Alguns tinham sido mortos entre o céu e o solo; vários estavam

feridos e caídos na encosta ou entre as árvores. Mas nenhuma das

duas forças havia alcançado a caverna, e o poder ali dentro ainda

estava nas mãos da Sra. Coulter.

Will disse, falando mais alto que o barulho:

— O que vai fazer?

— Manter vocês prisioneiros.

— O que, como reféns? Por que eles haveriam de dar

qualquer importância a isso? Eles querem nos matar.

— Uma força quer, sem dúvida — respondeu ela —, mas não

tenho certeza com relação à outra. Devemos torcer para que os

africanos vençam.

Ela parecia satisfeita e, no clarão que vinha de fora, Will viu

que seu rosto estava cheio de felicidade, de vida e energia.

— Você quebrou a faca.

— Não, eu não quebrei. Eu a queria inteira, de modo que

pudéssemos escapar. Foi você quem a quebrou.

A voz de Lyra chamou aflita:

— Will — murmurou. — Will, é você?

— Lyra! — exclamou ele e se ajoelhou ao lado dela. Ama a

estava ajudando a se levantar.

— O que está acontecendo? — perguntou Lyra. — Onde

estamos? Ah, Will, eu tive um sonho. . .

— Estamos numa caverna. Não se mexa muito depressa,

senão vai ficar tonta. Vá andando devagar. Procure recuperar

suas forças. Você esteve dormindo durante dias e dias.

Os olhos dela ainda estavam pesados e ela era sacudida por

profundos bocejos, mas estava desesperada para ficar desperta e ele a

ajudou a se levantar, pondo o braço dela sobre seu ombro e

sustentando a maior parte de seu peso. Ama observou timidamente,

pois agora que a estranha menina estava acordada, a deixava nervosa.

Will inspirou sentindo o perfume do corpo de Lyra com alegre

satisfação: ela estava ali, ela era real.

Eles sentaram num pedregulho. Lyra segurou a mão dele e

esfregou os olhos.

— O que está acontecendo, Will?

— Nossa amiga aqui, Ama, conseguiu um pó para acordar

você — explicou ele, falando muito depressa, e Lyra se virou para a

menina, vendo-a pela primeira vez, e pôs a mão sobre o ombro de

Ama em sinal de agradecimento. — Vim para cá o mais rápido que

pude — prosseguiu Will —, mas alguns soldados também vieram.

Não sei quem são eles. Vamos sair assim que pudermos,

Lá fora o barulho e a confusão estavam chegando ao auge; um

dos girópteros tinha levado uma rajada de balas de uma

metralhadora de um zepelim, enquanto os carabineiros saltavam

para o alto do penhasco, e explodira em chamas, não somente

matando sua tripulação, como impedindo os girópteros que faltavam

de aterrissar.

Enquanto isso, mais um zepelim havia encontrado uma área

livre mais abaixo no vale, e os homens armados de bestas que

desembarcaram dele agora vinham correndo, subindo pela trilha para

dar reforço aos que já estavam em ação. A Sra. Coulter estava seguindo

tudo que podia da entrada da caverna e, naquele momento, levantou a

pistola, segurando-a com as duas mãos, e mirou cuidadosamente antes

de arirar. Will viu o darão do disparo, mas não ouviu nada por causa

das explosões e do tiroteio lá fora.

Se ela fizer isso de novo, pensou, vou correr e derrubá-la, e ele

se virou para sussurrar para Balthamos, mas o anjo não estava em

nenhum lugar por perto. Em vez disso, Will viu com desolação que ele

estava encolhido contra a parede da caverna, de volta à sua forma

de anjo, tremendo e choramingando.

— Balthamos! — chamou aflito. — Deixe disso, eles não

podem machucar você! E tem que nos ajudar! Você pode lutar, sabe

disso, você não é um covarde, e nós precisamos de você —

Mas, antes que o anjo pudesse responder, uma outra coisa

aconteceu.

A Sra. Coulter gritou e abaixou-se para segurar o tornozelo;

simultaneamente, o macaco dourado agarrou alguma coisa no ar,

com um rosnado de satisfação.

Uma voz — uma voz de mulher — mas de alguma forma

minúscula — veio da coisa nas garras do macaco.

— Tialys! Tialys!

Era uma mulher minúscula, não maior que a mão de Lyra, e

o macaco já estava puxando e puxando um dos braços dela, de modo que ela gritava de dor. Ama sabia que ele não pararia até tê-lo

arrancado fora, mas Will saltou para a frente quando viu a pistola

cair da mão da Sra. Coulter.

E ele pegou a arma — mas então a Sra. Coulter ficou imóvel

e Will percebeu que estava diante de um estranho impasse.

O macaco dourado e a Sra. Coulter estavam ambos

absolutamente imóveis. O rosto dela estava contorcido de dor e de

fúria, mas ela não ousava se mexer, porque de pé sobre seu ombro

estava um homem minúsculo, com o calcanhar pressionado contra o

seu pescoço, as mãos agarrando-lhe os cabelos; e Will, a despeito

de seu espanto, viu naquele calcanhar uma reluzente espora de chifre

e soube o que a fizera gritar um momento antes. Ele devia ter

espetado o tornozelo dela.

Mas o homenzinho não podia mais ferir a Sra. Coulter, por

causa do perigo que sua companheira corria nas mãos do macaco; e

o macaco não podia machucar a mulher, caso contrário o homenzinho enfiaria sua espora envenenada na veia jugular da

Sra. Coulter. Nenhum deles podia se mover.

Respirando fundo e engolindo com dificuldade para controlar

a dor, a Sra. Coulter virou os olhos cheios de lágrimas para Will e

disse calmamente:

— Então, Mestre Will, o que acha que devemos fazer agora?