A Luneta Âmbar
21. As HARPIAS
As HARPIAS
T ODEIO COISAS INVENTADAS, PURA FANTASIA...
TUDO SEMPRE DEVERIA TER COMO BASE A VERDADE
DOS FATOS
BYRON
Tanto Will como Lyra acordaram tomados por um forte
sentimento de apreensão: sentiam-se como presos condenados
na manhã do dia marcado para a execução, Tialys e Salmakia
estavam cuidando de suas libélulas, trazendo-lhes mariposas
capturadas a laço perto da lamparina ambárica sobre o barril de
gasolina, lá fora, moscas tiradas de teias de aranha e água num
prato de latão. Quando viu a expressão no rosto de Lyra e a
maneira como Pantalaimon, sob a forma de camundongo, estava
se apertando contra seu peito, Lady Salmakia deixou de lado o que
estava fazendo e foi falar com ela. Enquanto isso, Will saiu do
casebre para dar uma volta lá fora.
— Vocês ainda podem modificar sua decisão — disse
Salmakia.
— Não, não podemos. Nós já decidimos — retrucou
Lyra, ao mesmo tempo obstinada e temerosa.
— E se nós não voltarmos?
— Vocês não precisam vir — recordou Lyra. — Não vamos abandonar vocês.
— Então, e se vocês não voltarem? — Teremos morrido fazendo alguma coisa importante.
Lyra ficou em silêncio. Na verdade, não havia olhado
direito para a pequenina dama antes; mas agora podia vê-la muito
claramente, na luz fumegante da lamparina de nafta, colocada
sobre a mesa a apenas um braço de distância. O rosto dela era
calmo e gentil, não era bonito, nem delicadamente atraente, mas
era exatamente o tipo de rosto que você ficaria contente de ver se
estivesse doente, infeliz, ou com medo. A voz dela era baixa e
expressiva, com uma corrente de riso e de felicidade fluindo sob a
superfície límpida. Em toda a vida de que pudesse se recordar,
nunca ninguém tinha lido para Lyra quando ia para a cama;
ninguém tinha lhe contado histórias, nem cantado cantigas de
ninar para ela, antes de dar-lhe um beijo e apagar a luz. Mas
naquele momento, de repente, pensou que se algum dia houvesse
uma voz capaz de envolvê-la em segurança e aquecê-la com
amor, seria uma voz como a de Lady Salmakia, e sentiu um
desejo profundo no coração de ter um filho seu para ninar,
acalmar, para quem cantar, um dia, numa voz como aquela.
— Bem — disse Lyra, e descobriu que estava com um nó na
garganta, de modo que engoliu em seco e encolheu os ombros.
— Veremos — disse a pequenina dama, e retomou suas
tarefas.
Depois de terem comido o pão fino e seco e tomado o chá
amargo que era tudo o que as pessoas tinham para lhes oferecer,
eles agradeceram a seus anfitriões, pegaram suas mochilas e
partiram, seguindo pela cidade de casebres em direção à beira do
lago. Lyra olhou ao redor, procurando pelo vulto de sua morte, e,
de fato, lá estava ele, caminhando educadamente um pouco mais
adiante; mas ele não quis se aproximar, embora volta e meia
olhasse para trás para ver se o estavam seguindo.
O dia estava carregado de uma neblina sombria. Parecia
mais o anoitecer do que dia, e colunas e tiras compridas daquele
nevoeiro subiam desalentadoramente das poças no caminho, ou
se enrascavam como amantes abandonados nos cabos ambáricos
acima. Eles não viram pessoas, apenas uns poucos vultos de mortes,
mas as libélulas voavam baixo, rapidamente, pelo ar úmido como se
estivessem costurando aquilo tudo com fios invisíveis e era uma
alegria para os olhos observar suas cores vivas dardejando de um
lado para outro.
Pouco depois, chegaram aos limites onde acabava o
aglomerado de casebres e seguiram adiante, acompanhando a
margem de um riacho moroso, em meio a moitas de galhos nus e
secos. Ocasionalmente, ouviam o coaxar rouco ou um espirrar de
água, quando algum anfíbio se assustava, mas o único animal
que viram foi um sapo, grande como o pé de Will, que só
conseguia sacudir-se num doloroso arfar lateral como se estivesse
terrivelmente ferido. Ele estava caído no meio da trilha, tentando
sair do caminho e olhando para eles como se soubesse que tinham
a intenção de machucá-lo.
— Seria um ato de misericórdia matá-lo — disse Tialys.
— Como sabe? — perguntou Lyra. — Ele pode gostar de
ainda estar vivo, apesar de tudo.
— Se o matássemos, o estaríamos levando conosco — disse
Will.
— Ele quer ficar aqui. Já matei coisas vivas demais. Mesmo uma
poça de água estagnada e imunda pode ser melhor do que estar
morto.
— Mas e se estiver sentindo dor? — perguntou Tialys.
— Se pudesse nos dizer, saberíamos. Mas, como não pode,
não vou matá-lo. Isso seria levar em consideração os nossos
sentimentos em vez de os sentimentos do sapo.
Eles seguiram adiante. Pouco depois, o som diferente que
suas passadas faziam indicou que havia um espaço aberto por
perto, embora o nevoeiro estivesse ainda mais cerrado.
Pantalaimon transformara-se num lêmure, com os maiores olhos
que ele pôde conseguir, agarrado ao ombro de Lyra, encostado em
seus cabelos cobertos de gotículas peroladas de neblina,
espreitando e examinando tudo ao redor e não conseguindo ver
nada além dela. E ainda continuava tremendo e tremendo sem
parar.
De repente, todos eles ouviram uma pequena onda quebrar. O
ruído foi baixo, mas veio de muito perto. As Libélulas retornaram
com seus cavaleiros para junto das crianças, e Pantalaimon enfiou-
se por dentro da camisa colando-se ao peito de Lyra, enquanto ela e
Will chegavam mais perto um do outro, pisando com cuidado no
solo escorregadio.
E então chegaram à praia. A água oleosa, cheia de espuma,
estava lisa, parada, diante deles, uma ondulação ocasional
quebrava languidamente nos seixos.
O caminho fazia uma curva para a esquerda e, um pouco
mais adiante, mais como um espessamento da neblina que como
um objeto sólido, um molhe de madeira se projetava
estranhamente sobre a água. Os pilares estavam apodrecidos e as
tábuas verdes de limo, e não havia mais nada; nada além dele; o
caminho acabava onde o molhe começava e onde o molhe
acabava, começava a neblina. O vulto da morte de Lyra, os tendo
guiado até ali, fez uma mesura para ela, e saiu andando para a
neblina, e desapareceu antes que ela pudesse lhe perguntar o que
fazer a seguir.
— Escute disse Will.
Havia um som lento, lá fora, na água invisível: um ranger de
madeira e um suave e regular espadanar de água. Will pôs a mão
sobre a faca enfiada na bainha no cinto e se adiantou caminhando
pelo molhe pisando com cuidado nas tábuas meio apodrecidas.
Lyra o seguiu logo atrás. As libélulas se empoleiraram nos dois
pilares de atracação cobertos de ervas, parecendo guardiões
heráldicos, e as crianças pararam na ponta do molhe, esforçando-
se para ver através do nevoeiro e tendo que limpar os cílios das
gotas que se acomodavam neles. O único som era aquele lento
ranger e espadanar que, cada vez mais, estava se aproximando.
— Vamos desistir de ir! — implorou Pantalaimon
baixinho.
— Temos que ir — cochichou Lyra em resposta.
Ela olhou para Will. A expressão de seu rosto era dura,
implacável e impaciente: ele não desistiria. E os galivespianos,
Tialys no ombro de Will, Salmakia no de Lyra, pareciam calmos e
vigilantes. As asas das libélulas estavam cobertas de pérolas de
gotículas de umidade da neblina, como teias de aranha, e, volta e
meia, tinham que batê-las rapidamente para limpá-las, pois as
gotas deviam fazer com que ficassem pesadas, pensou Lyra. Ela
esperava que houvesse comida para elas na terra dos mortos.
Então, de repente, o barco apareceu.
Era um barco a remo muito antigo, maltratado, remendado,
carcomido; e a pessoa que estava remando era tão velha que sua
idade era inimaginável, um homem encolhido numa túnica de
tecido grosseiro para fazer sacos, com um cinto de corda,
deformado e encurvado, as mãos esqueléticas permanentemente
retorcidas em volta dos remos e seus olhos claros e úmidos muito
fundos entre as dobras de rugas de pele acinzentada.
Ele soltou um remo e estendeu a mão retorcida para cima,
para a argola de ferro no pilar de atracação, no canto do molhe, e
com a outra mão manobrou o remo para encostar o barco nas
pranchas.
Não houve necessidade de falar. Will embarcou primeiro e
então Lyra se adiantou para embarcar também.
Mas o barqueiro levantou a mão.
— Ele não — disse, num sussurro rouco.
— Quem?
— Ele.
Estendeu um dedo cinza-amarelado, apontando diretamente
para Pantalaimon, cuja forma castanho-avermelhada de arminho,
com pelagem de verão, imediatamente adquiriu a cor branca
alvíssima de inverno.
— Mas ele sou eu! — exclamou Lyra. — Se você vier, ele terá que ficar.
— Mas não podemos! Nós morreríamos!
— Não é isso o que você quer?
E então, pela primeira vez, Lyra realmente se deu conta do
que estava fazendo. Aquela era a verdadeira conseqüência. Ela
ficou parada ali, consternada, trêmula, e abraçou seu daemon tão apertado que ele gemeu de dor.
— Eles. . . disse Lyra, em tom desamparado, então se
calou:
não era justo argumentar que os outros três não teriam que abrir
mão de nada.
Will olhava para ela apreensivamente. Ela correu os olhos
observando tudo o que havia ao seu redor, o lago, o molhe, a
trilha irregular, as poças de água estagnada, os arbustos mortos e
ensopados. . . O seu Pan, sozinho ali: como ele poderia viver sem
ela? Ele tremia dentro da camisa de Lyra, contra sua pele nua, a
pelagem dele precisando do calor dela. Impossível! Nunca!
— Ele vai ter que ficar se você vier — repetiu o barqueiro.
Lady Salmakia agitou as rédeas e sua libélula voou rapidamente
do ombro de Lyra e foi pousar na amurada do barco, onde
Tialys foi se juntar a ela. Os dois disseram alguma coisa para o
barqueiro. Lyra ficou observando como um preso condenado
vigia o movimento no fundo da sala do tribunal, que poderia ser
um mensageiro trazendo o perdão. O barqueiro inclinou-se para
ouvir e então sacudiu a cabeça.
— Não — disse ele. — Se ela vier, ele tem que ficar.
— Mas isso não está certo. Nós não temos que deixar para
trás uma parte de nós. Por que Lyra tem? — disse Will.
— Ah, mas vocês deixam — disse o barqueiro. — A
infelicidade dela é que pode ver e falar com a parte que tem de
deixar. Vocês não saberão até estarem na água e então, será tarde
demais. Mas todos vocês têm de deixar essa parte de vocês aqui.
Não há passagem para a terra dos mortos para seres como ele.
Não, pensou Lyra, e Pantalaimon pensou com ela: Nós não
passamos por tudo o que passamos em Bolvangar para isto, não;
como jamais poderemos voltar a nos encontrar?
E ela olhou para trás de novo, para a costa malcheirosa e
sombria, tão desolada e fria, arruinada por doenças e veneno, e
pensou em seu querido Pan, esperando ali sozinho, o companheiro
de seu coração vendo-a desaparecer na neblina e explodiu numa
tempestade de lágrimas. Seus soluços desesperados não tinham
eco, porque a neblina os abafava, mas ao longo da costa em
inúmeras lagoas e brejos, em tristes tocos quebrados de árvores, os
animais feridos que se escondiam ali ouviram seu grito sentido,
saído do fundo do coração, e se encolheram mais junto do solo,
com medo de tamanha paixão.
— Se ele pudesse vir — gritou Will, desesperado para acabar
com a imensa tristeza de Lyra, mas o barqueiro sacudiu a cabeça.
— Ele pode entrar no barco mas, se entrar, o barco fica
aqui disse ele.
— Mas como ela vai poder tornar a encontrá-lo?
— Eu não sei.
— Quando viermos embora, vamos voltar por aqui?
— Vir embora?
— Nós vamos voltar. Vamos até a terra dos mortos e vamos
voltar.
— Não por aqui.
— Então, de alguma outra maneira, mas vamos voltar.
— Eu já levei milhões e nenhum voltou.
— Então seremos os primeiros. Encontraremos uma
maneira de sair. E, já que vamos fazer isso, seja gentil, barqueiro,
tenha compaixão, deixe que ela leve seu daemon.
— Não — disse ele, e sacudiu a cabeça velhíssima. —
Não é uma regra que se possa violar. É uma lei como esta... —
apanhou um punhado de água na mão em concha e então
inclinou a mão para que a água escorresse de volta. — A lei que
faz com que a água caia de volta no lago, é uma lei como esta.
Não posso inclinar a mão e fazer com que a água flua para o
alto. Da mesma forma, não posso levar o daemon dela para a
terra dos mortos. Quer ela venha ou não, ele tem que ficar.
Lyra não podia ver nada: seu rosto estava enterrado no pêlo
de gato de Pantalaimon. Mas Will viu Tialys desmontar de sua
libélula e se preparar para saltar sobre o barqueiro e em parte
concordou com a intenção do espião; mas o ancião tinha visto
Tialys e virou a cabeça antiqüíssima para dizer:
— Há quantos séculos vocês acham que estou
transportando pessoas para a terra dos mortos? Vocês pensam que
se alguma coisa pudesse me ferir já não teria acontecido? Pensam
que as pessoas que levo vêm comigo de boa vontade? Elas se
debatem e gritam, tentam-me subornar, elas me ameaçam e
lutam; nada funciona. Você não pode me ferir, pode ferroar à
vontade. É melhor consolar a criança; ela virá; não percam
tempo comigo.
Will tinha dificuldade em olhar. Lyra estava fazendo a coisa
mais cruel que já fizera, odiando a si mesma, odiando o que fazia,
sofrendo por Pan, e com Pan, e por causa de Pan; tentando botá-
lo no chão, no solo frio da trilha, soltando suas unhas de gato de
suas roupas, chorando e chorando. Will tapou as orelhas: era um
som triste demais para se suportar ouvir. Uma vez após outra ela
afastou seu daemon, empurrando-o para longe de si, e a cada vez ele chorava e tentava se agarrar a ela.
Ela podia voltar atrás. Ela podia dizer não, essa é uma péssima idéia, não devemos fazer
isso.
Ela podia ser leal ao laço profundo e sincero, de coração e
de vida, que a unia a Pantalaimon, ela podia pôr isso em primeiro
lugar, podia tirar todo o resto de sua mente —
Mas não podia.
— Pan, ninguém fez isso antes — sussurrou com a
voz trêmula —, mas Will disse que vamos voltar e tu juro, Pan, eu amo você, eu juro que vamos voltar. . . eu vou voltar. . . cuide-se, meu querido, você vai ficar bem. . . nós vamos voltar. . . e se
eu tiver que passar todos os minutos de minha vida procurando
para tornar a encontrar você, eu passo, não vou parar de
procurar até encontrar, não vou descansar, não vou. . . Ah, Pan,
Pan querido, eu tenho que, eu tenho que. . .
E ela o empurrou para longe de si, de modo que ele se
agachou, infeliz, com frio e assustado, no solo lamacento.
Que animal ele era agora, Will não sabia mais dizer. Parecia
tão pequenino, um filhote, um bebê, alguma coisa indefesa e
derrotada, um ser tão mergulhado na infelicidade que era mais
infelicidade do que um ser. Os olhos dele não deixavam o rosto de
Lyra e Will pôde observá-la se obrigar a não desviar o olhar, a
não fugir da culpa, e admirou sua honestidade e sua coragem, ao
mesmo tempo em que se sentia dilacerado pelo choque da
separação deles. Havia tantas correntes vividas de sentimento
entre eles que a própria atmosfera lhe parecia carregada de
eletricidade.
E Pantalaimon não disse "Por quê?", porque ele sabia; e não
perguntou a Lyra se amava Roger mais do que ele, porque
conhecia a verdadeira resposta para isso também. E sabia que, se
falasse, ela não conseguiria resistir; de modo que o daemon se manteve em silêncio de maneira a não afligir o ser humano que o
estava abandonando, e agora, estavam ambos fingindo que isso
não lhes traria sofrimento, que não demoraria muito para que
estivessem novamente juntos, que era melhor que fosse assim.
Mas Will sabia que a garotinha estava praticamente arrancando o
coração do peito.
Ela desceu do molhe e entrou no barco. Era tão leve que o
barco quase nem balançou. Sentou-se ao lado de Will e seus
olhos continuaram cravados em Pantalaimon, que continuava
parado, tremendo, na ponta do molhe ligada à terra; mas, quando
o barqueiro soltou a argo-la de ferro e baixou seus remos para
afastar o barco, o cachorrinho daemon veio correndo aflito, desamparado, até a outra ponta sobre a água, as unhas das
patinhas macias batendo muito suavemente nas tábuas de madeira
macia, e parou, e ficou olhando, só olhando enquanto o barco se
afastava e desaparecia na neblina.
Lyra deu um grito tão dolorido e cheio de paixão que,
mesmo naquele mundo amortecido e carregado de neblina,
levantou um eco, mas é claro que não era um eco, era a outra
parte dela gritando em resposta da terra dos vivos, enquanto Lyra
se afastava rumo à terra dos mortos.
— Meu coração, Will. . — gemeu ela, e se agarrou nele, o
rosto molhado, contorcido de dor.
E assim, a profecia que o Reitor da Universidade Jordan
fizera para o Bibliotecário, de que ela cometeria uma grande
traição e que aquilo seria uma experiência terrível, se cumpriu.
Mas Will também descobriu uma agonia enorme crescendo
em seu íntimo e, em meio àquela dor, viu que os dois galivespianos
estavam juntos, abraçados um ao outro, exatamente como ele e
Lyra estavam fazendo, sofrendo com a mesma angústia.
Parte de sensação era física. Parecia que uma mão de ferro
havia agarrado seu coração e que o estava puxando para fora, pelo
meio das costelas, de modo que apertou as mãos contra aquele
ponto e tentou em vão segurá-lo lá dentro. Era uma dor muito
mais profunda e muito pior do que a dor de perder os dedos.
Mas também era mental: alguma coisa secreta e pessoal estava
sendo arrastada para fora, sendo exposta, num lugar onde não
queria de forma alguma estar, e Will quase foi derrubado por uma
mistura de dor, vergonha, medo e remorso, porque ele mesmo
tinha causado aquilo.
Mas era pior que isso. Era como se ele tivesse dito: "Não,
não me mate, estou com medo; mate minha mãe em vez de me
matar; ela não importa, eu não a amo", e ela o tivesse ouvido dizer
isso, e fingido que não tinha ouvido para poupá-lo, para impedir
que sofresse e, de qualquer maneira, tivesse se oferecido para ir
em seu lugar porque o amava. Ele se sentia mal a esse ponto. Não
havia nada que fosse pior sentir.
De modo que Will ficou sabendo que todas aquelas coisas
faziam parte de se ter um daemon e, qualquer que fosse seu
daemon, ele também havia sido deixada para trás, com
Pantalaimon, naquela costa tóxica e desolada. O pensamento
ocorreu a Will e Lyra no mesmo instante e eles trocaram um olhar
cheio de lágrimas. E pela segunda vez em suas vidas, mas não pela
última, cada um deles viu na face do outro a sua própria
expressão.
Apenas o barqueiro e as libélulas pareciam indiferentes à
viagem que estavam fazendo. Os grandes insetos estavam
plenamente vivos e intensamente coloridos com brilho e beleza,
mesmo na neblina pesada, sacudindo as asas transparentes para se
livrar da umidade; e o ancião em sua túnica de pano de saco se
inclinava para a frente e para trás, apoiando os pés nus no fundo
do barco coberto de poças de limo.
A viagem durou mais tempo do que Lyra queria calcular.
Embora parte dela estivesse em carne viva de angústia, imaginando
Pantalaimon abandonado na margem do lago, uma outra parte
estava se adaptando à dor, medindo sua própria força, curiosa
para ver o que aconteceria e onde iriam desembarcar.
O braço de Will a envolvia com força, segurando-a, mas ele
também estava olhando para o que estava adiante, esforçando-se
para tentar enxergar alguma coisa em meio à escuridão cinzenta e
úmida e ouvir qualquer outra coisa além do espadanar dos remos.
E, logo depois, algo de fato mudou: um penhasco ou uma ilha
erguia-se adiante. Eles ouviram o som sendo abafado antes de
verem a neblina escurecer.
O barqueiro levantou um dos remos para virar o barco um
pouco para a esquerda.
— Onde estamos? — perguntou a voz do Cavaleiro
Tialys, pequenina, mas forte como sempre, embora nela
houvesse uma ponta de dolorosa estridência, como se ele também
estivesse sofrendo e sentindo dor.
— Perto da ilha — respondeu o barqueiro. — Mais cinco
minutos e estaremos desembarcando.
— Que ilha? — perguntou Will. Viu que sua voz também
soava cansada, tão tensa que mal a reconhecia.
— O portão para a terra dos mortos fica nesta ilha —
explicou o barqueiro. — Todo mundo vem para cá, reis, rainhas,
assassinos, poetas, crianças; todo mundo passa por aqui e
ninguém volta.
— Nós vamos voltar — sussurrou Lyra em tom feroz. O homem não disse nada, mas seus olhos velhíssimos
estavam cheios de pena.
A medida que foram se aproximando, viram galhos de
ciprestes e de teixos que se projetavam baixos sobre a água, verde-
escuros, densos e tristes. A terra se elevava numa encosta íngreme
e as árvores cresciam tão juntas umas das outras que nem um
furão conseguiria passar entre elas e, diante deste pensamento,
Lyra deixou escapar um pequeno soluço, pois Pan teria mostrado
a ela como poderia tê-lo feito muito bem; mas agora não podia,
talvez nunca mais pudesse outra vez.
— Estamos mortos? — perguntou Will para o barqueiro.
— Não faz diferença — respondeu ele. — Alguns vieram
para cá sem jamais acreditarem que estavam mortos. Insistiram
durante todo o caminho em que estavam vivos, que era um erro, que
alguém pagaria por isso; não fez diferença. Outros ansiavam por
estarem mortos quando estavam vivos, pobres almas; vidas cheias
de dor ou grande infortúnio; mataram-se em busca de uma chance
de terem um abençoado descanso e descobriram que nada havia
mudado, exceto para pior, e que dessa vez não havia saída; você não
pode se fazer voltar à vida. E houve outros tão fracos e doentes,
bebês pequenos, às vezes, que mal tinham nascido entre os vivos
antes de descerem aos mortos. Já remei este barco com um bebê
pequeno, chorando em meu colo, muitas, muitas vezes, bebês que
jamais souberam a diferença entre estar lá em cima e aqui
embaixo. E os velhos também, os ricos são os piores, rosnando, xingando e me
amaldiçoando, me insultando e berrando: o que eu pensava que era?
Eles não tinham ganho e juntado todo o ouro que podiam coletar?
Eu não aceitaria um pouco agora, para levá-los de volta para a
costa? Iriam mandar a polícia atrás de mim, tinham amigos
poderosos, conheciam o Papa e o Rei disso e o Duque daquilo,
tinham posição para garantir que eu seria punido, castigado. .. Mas
eles souberam a verdade no fim: a única posição em que estavam
era no meu barco, indo para a terra dos mortos, e quanto aos reis e
papas, também acabariam por aqui, quando chegasse a vez deles,
mais cedo do que desejavam. Eu os deixo gritar e delirar à
vontade; não podem me fazer mal; no fim eles se calam —
concluiu.
— De modo que, se não sabem se estão mortos ou não, e a
garotinha jura de pés juntos que vai tornar a sair para o mundo
dos vivos, não vou dizer nada que os contradiga. O que vocês
são, logo saberão.
O tempo todo ele estivera remando em ritmo regular ao
longo da costa e naquele momento recolheu os remos, ajeitando-
os dentro do barco e estendendo a mão para a direita para
segurar o primeiro pilar de madeira que se erguia da água ao
lado.
Ele puxou o barco paralelamente a um cais estreito e o
manteve parado para que saltassem. Lyra não queria desembarcar:
enquanto estivesse perto do barco, então Pantalaimon conseguiria
pensar nela com clareza, porque era como ele a vira pela última
vez; mas, quando se afastasse do barco, ele não saberia mais como
visualizá-la. De modo que ela hesitou, mas as libélulas levantaram
vôo e Will desembarcou, pálido e apertando o peito; e, assim, ela
teve que ir também.
— Obrigada — disse para o barqueiro. — Quando você
voltar, se vir meu daemon, diga a ele que o amo mais que tudo na
terra dos vivos ou dos mortos e que juro que vou voltar para ele,
mesmo que ninguém tenha feito isso antes, juro que vou.
— Está bem, eu digo isso a ele — respondeu o barqueiro.
Ele foi embora; o barco se afastou e o som de suas remadas
lentas foi gradualmente sumindo na neblina.
Os galivespianos voltaram voando, tendo se afastado apenas
um pouco, e se empoleiraram nos ombros das crianças como antes,
ela no de Lyra, ele no de Will. E assim ficaram, os viajantes, na
margem da terra dos mortos. Diante deles não havia nada, exceto
neblina, embora pudessem ver por seu escurecimento que um
grande paredão se erguia mais à frente.
Lyra tremeu de frio. Tinha a impressão de que sua pele havia
se transformado em renda e que a umidade e o ar gelado podiam
passar através dela, entrando e saindo por suas costelas, queimando
com o ardor de frio intenso na ferida aberta onde estivera
Pantalaimon. Apesar disso, pensou ela, Roger devia ter se sentido
assim quando mergulhara pela encosta da montanha abaixo,
tentando se agarrar a seus dedos desesperados.
Eles permaneceram em silêncio e ouviram. O único som era
um gotejar incessante de água das folhas e quando levantaram a
cabeça para olhar para cima sentiram uma ou duas gotas baterem
geladas em suas faces.
— Não podemos ficar aqui — disse Lyra.
Eles se afastaram do cais, mantendo-se juntos, e foram
seguindo para a parede cinzenta. Blocos gigantescos de pedras
verdes de limo antiqüíssimo erguiam-se mais alto na neblina do
que podiam ver. E, agora que estavam mais perto, podiam ouvir o
som de gritos vindos de trás da parede, embora fosse impossível
dizer se eram vozes humanas gritando: eram gritos e gemidos altos,
estridentes e lamentosos, que pairavam no ar como filamentos
flutuantes de águas-vivas, provocando dor onde quer que
tocassem.
— Tem uma porta — disse Will, numa voz rouca, tensa.
Era uma porta dos fundos de madeira maltratada, sob uma
laje de pedra. Antes que Will pudesse levantar a mão para abri-
la, um daqueles gritos estridentes e agudos soou muito próximo,
causando um choque desagradável aos ouvidos deles e
assustando-os horrivelmente.
Imediatamente os galivespianos levantaram vôo, dardejando
pelo ar, as libélulas, como pequenos cavalos de guerra, prontas
para a batalha. Mas a coisa que desceu voando as varreu para o
lado com um golpe brutal da sua asa e então pousou
pesadamente sobre uma saliência de rochedo que se projetava
logo acima da cabeça das crianças. Tialys e Salmakia se
reagruparam e acalmaram suas montarias assustadas.
A coisa era um grande pássaro do tamanho de um abutre,
com o rosto e seios de mulher. Will tinha visto quadros de seres
como ela, e a palavra harpia lhe veio à mente, tão logo a viu com clareza. Seu rosto era liso e sem rugas, mas envelhecido muito
além da idade das bruxas: aquele rosto havia visto milhares de
anos se passarem, e a crueldade e infelicidade de todos eles
tinham moldado a expressão odiosa de suas feições. Mas, à
medida que os viajantes puderam vê-la mais claramente, tornou-se
ainda mais repulsiva. As órbitas de seus olhos estavam coalhadas
de um limo imundo e o vermelho de seus lábios coberto por
camadas de crostas ressecadas, como se tivesse vomitado sangue
antiqüíssimo, incontáveis vezes. Os cabelos negros emaranhados,
imundos, desciam até os ombros; as garras pontiagudas
agarravam a pedra ferozmente; as asas escuras poderosas
estavam fechadas ao longo de seu dorso e um bafo de fedor
pútrido flutuava no ar toda vez que se mexia. Will e Lyra, ambos
nauseados e cheios de dor, tentaram ficar de pé bem eretos e
encará-la.
— Mas vocês estão vivos! — disse a harpia, a voz
estridente zombando deles.
Will constatou que a odiava e a temia mais do que a
qualquer ser humano que tivesse conhecido.
— Quem é você? — perguntou Lyra, que sentia
tanta repulsa quanto Will.
À guisa de resposta, a harpia gritou. Ela abriu a boca e
lançou um jato de ruído diretamente para o rosto deles, de modo
que a cabeça dos dois tiniu e eles quase caíram para trás. Will
agarrou Lyra e os dois se abraçaram enquanto o grito se
transformava em selvagens gargalhadas zombeteiras e
estrepitosas, que foram respondidas por outras vozes de harpias
na neblina ao longo da costa. O som de zombaria cheio de ódio
recordava Will da crueldade impiedosa de crianças num pátio de
recreio, mas aqui não havia professores para controlar as coisas,
ninguém a quem pedir ajuda, nenhum lugar onde se esconder.
Ele pôs a mão sobre a faca em seu cinto e a olhou bem nos
olhos, embora sua cabeça estivesse zumbindo e a força absoluta de
seu grito o deixasse tonto.
— Se estiver tentando nos deter — desafiou —,
então melhor estar pronta para lutar além de gritar. Porque
vamos entrar por aquela porta.
A boca nojenta da harpia se mexeu de novo, mas dessa vez
foi para franzir os lábios num arremedo de beijo. Então ela disse:
—Sua mãe está sozinha. Enviaremos pesadelos para ela.
Gritaremos com ela quando estiver dormindo!
Will não se mexeu, porque pelo canto do olho podia ver
Lady Salmakia se movendo delicadamente ao longo de um galho
onde a harpia agora estava empoleirada. Sua libélula, com as asas
trêmulas, estava sendo mantida no chão por Tialys e então
aconteceram duas coisas: a dama saltou sobre a harpia e girou
para enfiar sua espora bem fundo na perna escamosa do monstro e
Tialys arremessou a libélula para o alto. Em menos de um
segundo Salmakia tinha se afastado rodopiando e saltado do
galho, diretamente para o dorso de sua montaria azul-elétrica, e
se elevava no ar.
O efeito na harpia foi imediato. Um outro grito quebrou o
silêncio, muito mais alto do que antes, e ela bateu as asas escuras
com tanta força que Will e Lyra foram empurrados pelo vento e
cambalearam. Mas ela se agarrou na pedra com as garras e seu
rosto estava tingido de vermelho-escuro de raiva, os cabelos
tinham se levantado de sua cabeça como uma crista de serpentes.
Will puxou a mão de Lyra e os dois tentaram correr para a
porta, mas a harpia lançou-se sobre eles tomada de fúria e só recuou
de seu mergulho quando Will se virou, enfiando Lyra atrás de si e de
faca em punho.
Os galivespianos partiram para atacar a harpia
imediatamente, dardejando perto de seu rosto e depois se
afastando rapidamente de novo, sem conseguir acertar um golpe,
mas distraindo-a de modo que bateu as asas desajeitada mente e
tombou parcialmente no chão.
Lyra gritou:
— Tialys! Salmakia! Parem, parem!
Os espiões puxaram as rédeas de suas libélulas e voaram raso
sobre a cabeça das crianças. Outras formas escuras estavam se
agrupando na neblina e os gritos zombeteiros de mais uma centena
de harpias soavam, vindos de mais além na costa. A primeira
estava sacudindo as asas, sacudindo o cabelo, esticando uma perna
de cada vez e flexionando suas garras. Não estava ferida, Lyra
havia reparado.
Os galivespianos pairaram no ar por um instante e depois
mergulharam de volta na direção de Lyra, que estava com as duas
mãos abertas, estendidas para que pousassem. Salmakia percebeu o
ue Lyra tinha querido dizer e falou para Tialys:
— Ela tem razão. Por algum motivo, não podemos feri-la.
Lyra perguntou:
— Senhora, qual é o seu nome?
A harpia sacudiu as asas bem abertas e os viajantes quase
desmaiaram com os odores fétidos de imundície e podridão que
saíam dela.
— Sem-Nome! — gritou.
— O que quer conosco? — perguntou Lyra.
— O que você pode me dar?
— Poderíamos contar onde estivemos e talvez ficasse
interessada, não sei. Vimos coisas estranhas de todos os tipos no
caminho para cá.
— Ah, e está se oferecendo para me contar uma história?
— Se quiser.
— Talvez eu queira. Mas e depois?
— Poderia nos deixar passar por aquela porta e encontrar o
espírito que viemos aqui procurar, espero que deixe, de qualquer
maneira. Se puder nos fazer a gentileza.
— Então tente — disse Sem-Nome.
E a despeito de sua náusea e sofrimento, Lyra achou que
tinha acabado de receber o ás, a carta de trunfo no baralho.
— Ah, tenha cuidado — cochichou Salmakia, mas a
mente de Lyra já estava correndo adiante, repassando a história
que havia conta do na noite anterior, modelando, cortando
partes, dando retoques e acrescentando: pais mortos; tesouro de família; naufrágio; fuga. . .
— Bem — disse, acomodando-se em seu estado de
espírito de contar histórias —, na verdade, começou quando eu
era um bebê. Meu pai e minha mãe eram o Duque e a Duquesa
de Abingdon, compreende, e eram riquíssimos. Meu pai era um
dos conselheiros do rei e o rei, pessoalmente, costumava vir se
hospedar conosco, ah, o tempo todo. Costumavam caçar na
floresta. A casa, lá onde eu nasci, era a maior casa de todo o sul da
Inglaterra. Chamava-se —
Sem dar sequer um grito de advertência, a harpia lançou-se
sobre Lyra, com as garras estendidas. Lyra teve tempo apenas de
se abaixar, mas mesmo assim uma das garras se enfiou em seu
couro cabeludo e arrancou uma mecha de cabelos.
— É mentira! Mentira! — gritava a harpia. — Mentira!
Ela voou num círculo se posicionando de novo, pronta para
se lançar diretamente sobre o rosto de Lyra; mas Will puxou a faca
e se atirou no caminho. Sem-Nome deu uma guinada saindo de
seu alcance bem a tempo, e Will rapidamente arrastou Lyra para a
porta, porque ela estava paralisada pelo choque e meio cega por
causa do sangue que escorria em seu rosto. Will não tinha idéia de
onde estavam os galivespianos, mas a harpia estava voando para
atacá-los de novo e berrando, berrando com raiva e ódio:
— Mentira! Mentira! Mentira! E parecia que sua voz estava vindo de todos os lados, e que
a palavra ecoava batendo no paredão e voltando, em meio à
neblina, abafada e modificada, de modo que ela parecia estar