A Luneta Âmbar
11. As LIBÉLULAS
alguma coisa útil para eles.
Mais tarde naquela noite, depois de uma parca refeição de
raízes doces, eles contaram a ela por que tinham ficado tão
preocupados com as rodas. Outrora, tinha havido um tempo em que
as nozes eram abundantes e em que o mundo era rico e cheio de
vida, e os mulefas viviam com suas árvores em perpétua felicidade.
Mas alguma coisa havia acontecido, muitos anos attás; alguma
virtude havia saído e abandonado aquele mundo; porque, a
despeito de todo o esforço, todo o amor e atenção que os mulefas pudessem dar a elas, as árvores-das-rodas estavam morrendo.
As LIBÉLULAS
UMA VERDADE DE MÁ-FÉ CONTADA É CAPAZ DE
DERROTAR QUALQUER MENTIRA POR TI
INVENTADA
William Blake
Ama subiu a trilha que levava à caverna com leite e pão na
sacola às costas e uma dúvida terrível fazendo pesar seu
coração. Que jeito neste mundo poderia dar para conseguir
chegar perto da menina adormecida?
Ela alcançou o pedregulho onde a mulher lhe dissera para
deixar a comida. Colocou as coisas no chão, mas não voltou
direto para casa; subiu mais um pouco, ultrapassando a caverna e
a massa espessa de rododendros, depois mais um pouco ainda, até
onde as árvores ficavam mais escassas e os arco-íris começavam.
Ali, ela e seu daemon costumavam fazer uma brincadeira:
subiam acima das reentrâncias na rocha e das pequenas cachoeiras
verde-esbranquiçadas, passando pelos redemoinhos e pela
espuma colorida do espectro solar, até que os cabelos e as
pálpebras dela e o pêlo de esquilo dele ficavam totalmente
cobertos por um milhão de minúsculas pérolas de água. A
brincadeira era chegar ao topo sem limpar os olhos, apesar da
tentação, e logo a luz do sol brilhava e se dispersava em vermelho,
amarelo, verde, azul e todas as cores intermediárias, mas não
podia passar a mão nos olhos para ver melhor até que se tivesse
chegado ao topo, senão estaria perdido o jogo.
Seu daemon, Kulang, saltou para a rocha que ficava na
beira da pequena cachoeira mais alta e ela sabia que
imediatamente se viraria para se assegurar de que ela não
limparia a água dos cílios — só que ele não se virou.
Em vez disso, ficou agarrado na pedra, olhando para a
frente.
Ama limpou os olhos, porque o jogo estava cancelado pela
surpresa que seu daemon estava sentindo. Quando escalou até ali para olhar por sobre a beirada, deu um pequeno soluço de
susto e ficou imóvel, porque olhando para baixo, direto para ela,
estava a cara de um bicho que nunca vira antes: um urso, mas
imenso, aterrador, com quatro vezes o tamanho dos ursos pardos
da floresta e branco como marfim, com um focinho preto e
olhos pretos, e garras compridas como punhais. Ele estava
apenas à distância de um braço. Ela podia ver cada pêlo em sua
cabeça.
— Quem é essa? — disse a voz de um garoto e, embora
Ama não compreendesse as palavras, percebeu o sentido com
muita facilidade.
Depois de um instante o garoto apareceu ao lado do urso:
com uma expressão feroz, olhos franzidos e o queixo levantado. E
seria aquilo ao lado dele um daemon, com forma de pássaro? Mas
um pássaro tão estranho: diferente de todos que ela conhecia. Ele
voou até Kulang e falou rapidamente: Amigos. Não vamos
machucar vocês.
O grande urso branco não havia se movido um
milímetro.
— Suba até aqui — disse o garoto e mais uma vez seu
daemon traduziu para ela o sentido do que ele dizia.
Vigiando o urso com respeito e temor supersticiosos, Ama
subiu até o lado da pequena cachoeira e ficou parada
timidamente no rochedo. Kulang se transformou numa
borboleta e pousou por um instante em sua face, mas logo saiu
para esvoaçar em volta do outro daemon, que estava pousado no
ombro do garoto.
— Will — disse o garoto apontando para si mesmo, e ela
respondeu: — Ama. — Agora que podia vê-lo direito, estava
quase com mais medo do garoto do que do urso: ele tinha um
ferimento terrível: faltavam dois de seus dedos. Ama ficou
tonta quando viu aquilo.
O urso se virou, entrando no riacho de águas leitosas, e se
deitou na água, como que para se refrescar. O daemon do garoto
levantou vôo e ficou esvoaçando com Kulang entre os arco-íris e
pouco a pouco eles começaram a se entender.
E o que ela descobria que eles estavam procurando, senão
uma caverna com uma garota adormecida?
As palavras jorraram numa torrente em sua resposta:
— Eu sei onde é! E ela está sendo mantida adormecida à
força, pela mulher que diz ser sua mãe, mas nenhuma mãe seria
tão malvada, não é? A mulher a obriga a beber um líquido que a
faz dormir, mas eu tenho umas ervas para fazer com que ela
acorde, se ao menos conseguisse chegar junto dela!
Will podia apenas sacudir a cabeça e esperar que
Balthamos traduzisse. Levou mais de um minuto.
— Iorek — chamou, e o urso veio andando pesadamente
até junto da margem do riacho, lambendo os beiços, pois
acabara de engolir um peixe. -— Iorek — disse Will —, essa
menina diz que sabe onde Lyra está. Vou até lá com ela para ver,
enquanto você fica aqui de vigia.
Iorek Bymison, parado de quatro dentro do riacho,
assentiu silenciosamente. Will escondeu a mochila e afivelou a
faca no cinto, antes de descer com alguma dificuldade entre os
arco-íris com Ama. Ele teve que esfregar os olhos e se esforçar
para enxergar em meio aos reflexos oruscantes para ver onde era
seguro pôr os pés; a névoa que enchia o ar estava gelada.
Quando chegaram à base das cachoeiras, Ama indicou que
deveriam ír com cuidado e não fazer barulho, e Will foi andando
atrás dela, descendo a encosta, por entre os rochedos cobertos
de musgo e os imensos troncos retorcidos dos pinheiros, onde a
luz salpicada dançava num verde intenso, e um bilhão de
minúsculos insetos zumbiam e cantavam. E seguiram descendo e
descendo cada vez mais; ainda assim, a luz do sol os seguiu,
penetrando nas profundezas do vale, enquanto acima os galhos se
agitavam sem cessar no céu claro.
Então Ama parou. Will se escondeu atrás do tronco
maciço de um cedro e olhou para onde ela estava apontando.
Através de um emaranhado de folhas e de galhos, ele viu a parede
lateral de um penhasco que se erguia verticalmente à direita e, a
meio caminho na subida —
— A Sra. Coulter — sussurrou, seu coração batendo
acelerado.
A mulher apareceu saindo de trás de um pedregulho e sacudiu um
galho coberto de folhas antes de largá-lo e esfregar as mãos para
limpá-las. Será que estivera varrendo o chão? Suas mangas
estavam arregaçadas e o cabelo preso por um lenço. Will nunca
poderia tê-la imaginado com uma aparência tão doméstica.
Mas então houve um lampejo de dourado e aquele macaco
feroz apareceu, saltando sobre seu ombro. Como se estivessem
desconfiando de alguma coisa, os dois olharam atentamente ao
redor e, de repente, a Sra. Coulter não parecia mais nem um
pouco doméstica.
Ama estava sussurrando em tom urgente: tinha medo do
daemon macaco dourado; ele gostava de arrancar as asas de morcegos enquanto ainda estavam vivos.
— Há mais alguém com ela? — perguntou Will. —
Nenhum soldado ou coisa parecida?
Ama não sabia. Nunca tinha visto soldados, mas, de fato, as
pessoas falavam de homens estranhos e assustadores, ou podiam
ser fantasmas, vistos nas encostas durante a noite... Mas sempre
houvera espíritos e fantasmas nas montanhas, todo mundo sabia
disso. De modo que podiam não ter nada a ver com a mulher.
Bem, pensou Will, se Lvra está na caverna e a Sra. Coulter
não sair, vou ter que ir lá fazer uma visita.
— O que é esse remédio que você tem? — perguntou
Will. — 0 que você tem de fazer para acordá-la?
Ama explicou.
— E onde está agora?
Em minha casa, respondeu. Escondido.
— Então está certo. Espere aqui e não se aproxime.
Quando encontrar com ela, não deve dizer que me conhece.
Você nunca me viu, nem viu o urso. Quando deve voltar para
trazer comida para ela?
Meia hora antes do pôr-do-sol, respondeu o daemon de
Ama.
— Então, quando voltar traga o remédio — instruiu Will.
— Eu me encontro com você aqui.
Ela ficou observando com intensa preocupação enquanto
ele seguia descendo a trilha. Com certeza não acreditava no que
ela havia acabado de contar sobre o daemon macaco, caso
contrário ele não estaria indo para a caverna tão
displicentemente.
Na verdade, Will estava muito nervoso. Todos os seus
sentidos pareciam mais aguçados, de modo que percebia até os
insetos mais minúsculos esvoaçando nos raios de sol e o farfalhar
de cada folha, o movimento das nuvens acima, apesar de seus
olhos em nenhum momento terem se despregado da boca da
caverna.
— Balthamos — sussurrou, e o anjo daemon voou até seu
ombro
sob a forma de um passarinho de olhos brilhantes com asas
vermelhas.
— Fique perto de mim e vigie aquele macaco.
— Então olhe para a direita — respondeu Balthamos
secamente.
E Will viu um lampejo de luz dourada na boca da caverna
que tinha cara e olhos e os estava observando. Eles estavam a
menos de 20 passos de distância. Will se deteve, ficando imóvel,
e o macaco dourado virou a cabeça para olhar para dentro da
caverna, disse alguma coisa e virou-se de volta para ele.
Wiíl pôs a mão no cabo da faca, então continuou a andar.
Quando chegou à caverna, a mulher estava esperando por
ele.
Estava sentada muito confortavelmente em sua cadeirinha
de lona, com um livro no colo, observando-o calmamente. Vestia
roupas de viagem de cor caqui, mas eram tão bem cortadas e
seu corpo era tão gracioso que parecia um modelo de altíssima
costura, e o pequeno buquê de botões de flores vermelhas que ela
tinha prendido na camisa parecia a mais elegante das jóias. Os
cabelos dela brilhavam e seus olhos escuros faiscavam, as pernas
nuas reluziam bronzeadas sob a luz dourada do sol.
Ela sorriu. Will quase retribuiu o sorriso, porque não
estava habituado com a doçura e delicadeza que uma mulher
podia incutir num sorriso, e aquilo o deixou inquieto.
— Você é Will — disse ela, naquela voz baixa, inebriante.
— Como sabe o meu nome? — perguntou em tom mal-
educado.
— Lyra diz seu nome quando está dormindo.
— Onde está ela?
— A salvo.
— Quero vê-la.
— Então venha — disse ela e se levantou, largando o livro
sobre cadeira.
Pela primeira vez desde que chegara à presença da Sra.
Coulter, Cill olhou para o daemon macaco dourado. O pêlo dele era
longo e lus-oso, cada fio parecendo ser feito de ouro puro,
muito mais fino do que cabelo humano, e sua carinha e mãos
eram pretas. Da última vez ue Will tinha visto aquela cara,
contorcida de ódio, fora na noite em ue ele e Lyra tinham
roubado de volta o aletômetro de Sir Charles atrom, na casa em
Oxford. O macaco tinha tentado mordê-lo com os dentes afiados
até que Will golpeara, da esquerda para a direita, com a faca,
obrigando o daemon a recuar, de modo que pudesse fechar a janela e prendê-los num mundo diferente. Will refletiu que,
agora, nada no mundo o faria dar as costas àquele macaco.
Mas Balthamos, sob a forma de passarinho, o estava vigiando
atentamente, e Will entrou pisando com cuidado no solo da
caverna e seguiu ira. Coulter até o vulto pequenino deitado
imóvel nas sombras.
E lá estava ela, sua amiga mais querida, adormecida.
Parecia tão menina! Ele ficou surpreendido com o fato de que
toda a força e fogo que eram Lyra pudessem torná-la frágil e
delicada quando estava dormindo. Enroscado em seu pescoço
estava Pantalaimon sob sua forma de arminho, a pelagem
reluzindo, e os cabelos de Lyra escorriam úmidos colados em
sua testa.
Will se ajoelhou ao lado dela e afastou os cabelos. O rosto
de Lyra estava pelando. Pelo canto do olho Will viu o macaco
dourado agacha-do, pronto para dar o bote, e pôs a mão sobre a
faca, mas a Sra. Coulter sacudiu a cabeça muito ligeiramente e o
macaco relaxou.
Sem parecer fazê-lo, Wül estava memorizando com exatidão
o interior da caverna: a forma e o tamanho de cada rocha, a
inclinação do solo, a altura exata do teto acima da garota
dormindo. Teria que saber por onde passar e encontrá-la no
escuro, e aquela era a única oportunidade que teria de investigar
isso.
— Como está vendo, ela está em segurança — disse a Sra.
Coulter.
— Por que a está mantendo aqui? E por que não deixa Lyra
acordar?
— Vamos nos sentar.
Ela não voltou para a cadeira em vez disso, veio sentar-se
com ele nas pedras cobertas de musgo na entrada da caverna.
Parecia tão gentil e havia uma sabedoria tão triste em seus olhos,
que a desconfiança de Will aumentou. Sentia que cada palavra
que ela dizia era uma mentira, que todas as suas ações escondiam
uma ameaça e cada sorriso era uma máscara de fingimento. Bem,
ele teria que lhe dar o troco e enganá-la: teria que fazê-la
acreditar que era inofensivo. Mas havia enganado muito bem
todos os professores e policiais, todas as assistentes sociais e
vizinhos que algum dia tinham demonstrado algum interesse
por ele e por sua casa; vinha se preparando para isso durante sua
vida inteira.
Certo, pensou ele. Posso cuidar muito bem de você.
— Gostaria de beber alguma coisa? — perguntou a Sra.
Coulter.
-— Eu também vou beber. . . Não há nenhum perigo. Veja.
Ela cortou uma estranha fruta marrom enrugada e
espremeu o suco leitoso em duas pequenas canecas. Bebeu numa
e ofereceu a outra a Will, que também bebericou e achou o suco
fresco e doce.
— Como você conseguiu chegar aqui? — perguntou ela.
— Não foi difícil seguir vocês.
— Estou vendo. Você está com o aletômetro de Lyra?
— Estou — respondeu, e deixou que ela tentasse descobrir
sozinha se sabia usá-lo ou não.
— E você tem uma faca, pelo que me disseram.
— Foi Sir Charles quem lhe contou isso, não foi?
— Sir Charles? Ah. . . o Cario, é claro. Foi ele, sim. Deve
ser fascinante. Posso vê-la?
— Não, é claro que não — retrucou. — Por que está
mantendo Lyra aqui?
— Porque eu a amo — disse ela. — Sou a mãe dela. Ela
está correndo um perigo terrível e não vou permitir que nada
aconteça a ela.
— Perigo de quê? — perguntou Will.
— Bem. . . — disse ela, e colocou a canequinha no chão,
inclinando-se para a frente de maneira que seus cabelos
balançassem dos dois lados de seu rosto. Quando tornou a erguer
o tronco, puxou os cabelos para trás, enfiando-os atrás das
orelhas com as duas mãos, e Will sentiu a fragrância de algum
perfume que ela estava usando, combinado com o cheiro fresco
de seu corpo, e se sentiu inquieto.
Se a Sra. Coulter percebeu sua reação, não demonstrou.
Então prosseguiu.
— Olhe, Will, não sei como você veio a conhecer minha
filha e não sei do que você já sabe, e, certamente, não sei se
posso confiar em você; mas, igualmente, estou cansada de ter
que mentir. De modo que aqui vai a verdade: E prosseguiu.
— Descobri que exatamente as pessoas da instituição à qual
eu pertencia, a igreja, constituem um perigo para minha filha.
Francamente, eu acho que eles querem matá-la. De modo que me vi
diante de um dilema, sabe: obedecer à igreja ou salvar minha filha.
E eu também era uma servidora fiel da igreja. Não havia ninguém
mais dedicado; dei minha vida à igreja; fui sua servidora
apaixonada — ela fez uma pausa.
Mas tive esta filha. . . — Ela se calou.
— Sei que não cuidei bem dela quando era pequena. Foi
tirada de mim e criada por estranhos. Talvez isso tenha tornado
difícil para ela confiar em mim. Mas quando estava crescendo,
vi o perigo que estava correndo e, agora, já por três vezes, tentei
salvá-la desse perigo. Tive que me tornar uma renegada e me
esconder neste lugar remoto e pensei que estivéssemos em
segurança; mas, agora, acabo de descobrir que você nos achou
com tanta facilidade. . . bem, acho que pode compreender, isso
me preocupa. A igreja não deve estar muito longe de você. E eles
querem matá-la, Will. Eles não permitirão que ela viva.
— Por quê? Por que eles a odeiam tanto?
— Por causa do que acreditam que ela vai fazer. Não sei o
que é; gostaria muito de saber, pois assim poderia mantê-la
ainda mais segura. Mas tudo o que sei é que eles a odeiam e que
não têm misericórdia, nenhuma.
Ela se inclinou para a frente, falando em tom urgente,
baixo e cauteloso.
— Por que estou contando isso a você? — continuou. —
Posso confiar em você? Acho que vou ter que confiar. Não posso
mais fugir, não há mais para onde ir. E se você é amigo de Lyra,
poderia ser meu amigo também. E eu realmente estou precisando
de amigos, realmente estou precisando de ajuda. Agora tudo está
contra mim. A igreja vai me destruir também, exatamente como
Lyra, se nos encontrarem. Eu estou sozinha, Will, sou só eu
numa caverna com minha filha e todas as forças de todos os
mundos estão tentando nos encontrar. E aqui está você, para
mostrar como, aparentemente, é fácil nos achar. O que você vai
fazer, Will? O que você quer?
— Por que a mantém adormecida? — perguntou ele,
teimosamente, evitando as perguntas.
— Porque, o que aconteceria se eu a deixasse acordar? Ela
fugiria imediatamente. E ela não sobreviveria nem cinco dias.
— Mas por que não explica a ela e lhe dá uma escolha?
— Você acha que ela me ouviria? Acha que, mesmo se me
ouvisse, que acreditaria em mim? Ela não confia em mim. Ela
me detesta, Will. Você deve saber disso. Ela me despreza. Eu,
bem. . . eu não sei como dizer isso. . . eu a amo tanto que
abandonei tudo o que eu tinha, uma carreira brilhante, uma
grande felicidade, posição e riqueza, tudo, para vir para esta
caverna nas montanhas e viver de pão seco e frutas
amargas, só para poder manter minha filha viva. E se para fazer
isso eu tiver que mantê-la adormecida, assim seja. Mas eu tenho que salvar sua vida. Sua mãe não faria o mesmo por você?
Will sentiu o impacto de um choque de raiva diante do
fato de que a Sra. Coulter tivesse ousado se referir à mãe dele para
defender seus argumentos. Depois, esse primeiro choque foi
complicado pelo pensamento de que sua mãe, afinal, não o havia
protegido; ele tivera que protegê-la. Será que a Sra. Coulter amava
Lyra mais do que Elaine Parry o amava? Mas isso era injusto: sua
mãe não estava bem.
Ou a Sra. Coulter não tinha conhecimento do turbilhão de
sentimentos que suas palavras simples haviam criado ou ela era
monstruosamente esperta. Seus belos olhos observaram com
brandura, enquanto o rosto de Will ficava afogueado e ele se
mexia desconfortavelmente; e, por um momento, a Sra. Coulter
ficou espantosamente parecida com sua filha.
— Mas o que você vai fazer? — perguntou. — Bem, agora eu já vi Lyra — respondeu Will —, e ela
está viva, isso está claro para mim e, creio, está em segurança.
Isso é tudo o que eu ia fazer. De maneira que agora que já fiz,
posso ir embora, para ajudar Lorde Asriel, como já deveria ter
feito.
Aquilo de fato a surpreendeu um pouco, mas ela se
controlou.
— Você não quer dizer. . . eu pensei que poderia nos
ajudar — argumentou, bastante calmamente, sem suplicar,
mas questionando. — Com a faca. Eu vi o que você fez na casa
de Sir Charles. Poderia nos botar em segurança, não poderia?
Poderia nos ajudar a fugir?
— Agora, eu vou embora — disse Will, levantando-se.
Ela estendeu a mão. Um sorriso triste, um dar de ombros e
um meneio de cabeça, como se cumprimentando um adversário
inteligente que tivesse feito um bom movimento no tabuleiro de
xadrez: isso foi tudo o que seu corpo disse. Will descobriu que
estava gostando dela, porque era corajosa e porque parecia ser
uma Lyra mais complexa, mais rica e mais profunda. Não
conseguiu se impedir de gostar dela.
De modo que apertou a mão dela e viu que era firme, fresca
e macia. A Sra. Coulter se virou para o macaco dourado, que
estivera sentado atrás dela o tempo todo, e houve uma troca de
olhares entre eles que Will não conseguiu interpretar.
Então ela se virou de volta com um sorriso.
— Adeus — disse ele, e ela respondeu baixinho:
— Adeus, Will.
Will saiu da caverna, sabendo que os olhos dela o estavam
seguindo, e não se virou para trás nem uma vez. Ama não estava
em nenhum lugar a vista. Foi caminhando de volta por onde
tinha vindo, seguindo a trilha, até que ouviu o som da cachoeira
mais adiante.
Ela está mentindo — disse para Iorek Byrnison, 30
minutos depois. — É claro que está mentindo. Ela mentiria
mesmo se isso tornasse as coisas piores para si mesma, porque ela
simplesmente gosta demais de mentir para parar.
— Então qual é o seu plano? — perguntou o urso, que
estava tomando um banho de sol, a barriga achatada contra um
pedaço de neve entre as rochas.
Will andou de um lado para o outro, se perguntando se
poderia usar a mesma manobra que tinha funcionado em
Headington: usar a faca para passar para outro mundo e então ir
para um ponto que ficasse bem ao lado de onde Lyra estava
deitada, cortar uma outra abertura para voltar a entrar nesse
mundo, puxá-la pela abertura para um local seguro e tornar a
fechar. Era a coisa óbvia a fazer: por que estava hesitando?
Balthamos sabia. Sob sua própria forma de anjo,
tremeluzindo como uma névoa de calor sob a luz do sol,
declarou:
— Você foi tolo de ir vê-la. Agora tudo o que quer é vê-la de
novo.
Iorek soltou um rosnado baixo e grave. De início, Will
pensou que estivesse fazendo uma advertência a Balthamos, mas
depois, com um ligeiro choque de vergonha, percebeu que o urso
estava concordando com o anjo. Os dois tinham dado pouca
atenção um ao outro até agora; suas maneiras de ser eram
totalmente diferentes; mas, com relação àquilo, claramente
tinham a mesma opinião.
E Will fez uma careta de desprezo, mas era verdade. Tinha
sido seduzido pela Sra. Coulter. Todos os seus pensamentos se
voltavam para ela: quando pensava em Lyra, era para se perguntar
como seria parecida com a mãe quando crescesse; se pensava na
igreja, era para se perguntar quantos padres e cardeais estariam
enfeiriçados por ela; se pensasse em seu pai, morto, era para se
perguntar se ele a teria detestado ou admirado; e se pensasse em
sua mãe. . .
Ele sentiu seu coração se contrair. Foi andando para
longe do urso e ficou parado no alto de um pedregulho de
onde podia ver o vale inteiro. No ar limpo e frio podia ouvir
o toque-toque distante de alguém cortando lenha, podia ouvir
um sino de ferro tilintando surdamente em volta do pescoço
de uma ovelha, podia ouvir o farfalhar das copas das árvores
bem longe, lá embaixo. Mesmo as mais minúsculas fendas nas
rochas no horizonte estavam nítidas e claras diante de seus
olhos, bem como os abutres que voavam em círculos sobre
algum animal quase morto a muitos quilômetros de distância.
Não havia dúvida quanto àquilo: Balthamos estava certo. A
mulher o enfeitiçara. Era agradável e tentador pensar naqueles
belos olhos e na doçura daquela voz, e recordar a maneira como
seus braços tinham se levantado para empurrar para trás os
cabelos brilhantes. . .
Com um esforço, recuperou o controle de seus sentidos e
ouviu um outro som, totalmente diferente: um zumbido muito
distante.
Virou-se para um lado e depois para outro, tentando
localizá-lo, e o descobriu ao norte, exatamente na mesma
direção de onde ele e Iorek tinham vindo.
— Zepelins — disse a voz do urso, assustando Will, pois
não tinha ouvido o imenso animal se aproximar. Iorek estava
a seu lado, olhando na mesma direção, e então se levantou nas
duas patas traseiras, ficando duas vezes mais alto que Will, olhar
fixo, atento.
— Quantos?
— Uns oito — disse Iorek depois de um minuto e, então,
Will também os avistou: minúsculos pontos enfileirados.
— Sabe me dizer quanto tempo vão levar para chegar
aqui? — perguntou Will.
— Estarão aqui não muito depois do anoitecer.
— Então não teremos muito tempo de escuridão. Isso é uma
pena.
— Qual é o seu plano?
— Fazer uma abertura e através dela levar Lyra para um
outro mundo, e fechar antes que sua mãe possa nos seguir. A
menina tem um remédio para fazer Lyra acordar, mas não
conseguiu explicar com muita clareza como usá-lo, de modo que
ela terá que entrar na caverna também. Contudo, não quero
colocá-la em perigo. Talvez você pudesse distrair a Sra.
Coulter enquanto cuidamos disso.
O urso grunhiu e fechou os olhos. Will olhou ao redor
procurando o anjo e viu sua forma delineada em gotículas de
névoa sob a luz do final da tarde.
— Balthamos — disse —, vou voltar à floresta agora, para
encontrar um lugar seguro para fazer a primeira abertura.
Preciso que fique de vigia para mim e me avise no minuto em
que ela se aproximar, ela ou aquele daemon dela.
Balthamos assentiu e levantou as asas para sacudir a água.
Então voou bem alto no ar frio e foi planando sobre o vale
enquanto Will começava a procurar um mundo onde Lyra
pudesse estar em segurança.
Na antepara dupla do zepelim líder da esquadrilha, que
estalava e tamborilava, as libélulas estavam saindo de seus casulos.
Lady Salmakia se inclinou para a frente, sobre o casulo da libélula
azul-elétrico, ajudando a soltar as asas delicadas e úmidas, tomando
cuidado para que seu rosto fosse a primeira coisa a ser registrada
pelos olhos multifacetados, acalmando os nervos delicadamente
tensos, sussurrando seu nome para a pequena criatura de cor
brilhante, ensinando-lhe quem ela era.
Alguns minutos depois o Cavaleiro Tialys faria o mesmo
com a sua. Mas no momento estava enviando uma mensagem
através do mag-neto ressonante e sua atenção estava totalmente
ocupada com o arco e seus dedos.
Ele transmitiu:
"Para Lorde Roke:
"Estamos a três horas do horário previsto de chegada ao vale.
0 Tribunal Consistorial de Disciplina pretende enviar um pelotão de
combate para a caverna assim que aterrissarem.
"Esse pelotão vai se dividir em duas unidades. A primeira
abrirá caminho até a caverna, combatendo, se necessário, e matará a
criança, cortando-lhe fora a cabeça de maneira a comprovar sua
morte. Se possível, também querem capturar a mulher; porém, se isto
for impossível, pretendem matá-la.
"A segunda unidade tem a missão de capturar o garoto vivo.
"O restante da força enfrentará os gírópteros do Rei Ogunwe.
Eles estimam que os girópteros chegarão pouco depois dos zepelins.
De acordo com suas ordens, Lady Salmakia e eu brevemente
deixaremos o zepelim e voaremos diretamente para a caverna, onde
tentaremos defender a menina contra a primeira unidade de soldados
e mantê-los à distância até que cheguem os reforços.
"Aguardamos sua resposta."
A resposta veio quase imediatamente.
"Para o Cavaleiro Tialys:
"A luz de suas informações, aqui vai uma mudança de planos.
"De maneira a impedir que o inimigo mate a criança, que
seria o pior resultado possível, você e Lady Salmakia devem
cooperar com o garoto. Enquanto ele tiver afaça, ele também tem a
iniciativa, de modo que se ele abrir um outro mundo e levar a
menina para lã, permitam que o faça e tratem de segui-los na
passagem. Permaneçam ao lado deles em todos os momentos,
quaisquer que sejam as circunstâncias."
O Cavaleiro Tialys respondeu:
"Para Lorde Roke:
"Sua mensagem foi recebida e compreendida. Lady Salmakia
e eu partiremos imediatamente."
O pequenino espião fechou o magneto ressonante e
recolheu seu equipamento.
— Tialys — veio um sussurro da escuridão —, está saindo
do casulo. Deve vir imediatamente.
Ele saltou para cima do esteio onde sua libélula estivera se
esforçando para vir ao mundo e a ajudou delicadamente a se
libertar do casulo partido. Acariciando a grande cabeça feroz,
levantou as antenas pesadas, ainda úmidas e enroscadas, e
permitiu que a criatura sentisse o gosto de sua pele até que
estivesse inteiramente sob seu comando.
Lady Salmakia estava equipando sua libélula com os arreíos
que sempre tinha consigo onde quer que fosse: rédeas de seda de
teia de aranha, estribos de titânio, uma sela de pele de beija-flor.
Não pesava quase nada. Tialys fez o mesmo com a sua, ajeitando
os tirantes em torno do corpo do inseto, apertando, ajustando. A
libélula usaria os arreios até morrer.
Então ele rapidamente colocou a mochila sobre os
ombros e cortou uma abertura no tecido oleado da carcaça do
zepelim. Ao lado dele, Lady Salmakia havia montado em sua
libélula e agora a incitou a sair pela abertura estreita, para as
fortes rajadas de vento. As asas alongadas e frágeis tremeram
enquanto se espremia para passar e então o êxtase de voar se
apoderou da pequenina criatura e ela mergulhou no vento.
Poucos segundos depois Tialys se juntou a ela no ar
turbulento, sua montaria ansiosa para lutar contra a própria
noite que caía rapidamente.
Os dois rodopiaram em direção ao alto nas correntes de
vento geladas; levaram uns poucos momentos para descobrir onde
estavam e tomar o curso rumo ao vale.