A Luneta Âmbar
17. Óleo e Laca
ÓLEO E LACA
...ORA A SERPENTE ERA A MAIS ASTUTA DE
TODOS OS ANIMAIS DO CAMPO QUE O SENHOR
DEUS TINHA FEITO
Gênesis 2, 3
Mary Malone estava construindo um espelho. Não por
vaidade, pois tinha muito pouca vaidade, mas porque queria
testar uma idéia que tivera. Queria tentar capturar as Sombras e, sem
os instrumentos de seu laboratório, tinha que improvisar com os
materiais de que dispunha.
A tecnologia dos mulefas praticamente não empregava
metais. Eles faziam coisas extraordinárias com pedra, madeira,
cordas, conchas e chifre, mas os poucos metais de que dispunham
eram arrancados a marteladas de pepitas, em estado bruto, de cobre
e de outros metais que encontravam na areia do rio, e nunca eram
usados para fazer ferramentas. Eram usados para ornamentos. Por
exemplo, na celebração do casamento, o casal mulefa trocava tiras
de cobre reluzente, que eram dobradas de maneira a fazer um anel
em volta de um de seus chifres, com um significado muito
semelhante ao de uma aliança.
De modo que ficaram fascinados com o canivete do
exército suíço que era o objeto mais precioso que Mary possuía.
A zalif que era sua amiga pessoal, chamada Atai, soltou uma
exclamação espantada, certo dia quando Mary abriu o canivete,
mostrou todos os acessórios e explicou o melhor que pôde, com seu
vocabulário limitado, para que serviam. Um dos acessórios era uma
lupa em miniatura com a qual começou a queimar um desenho num
galho seco e foi isso que a fez começar a pensar nas Sombras.
Naquela ocasião, estavam pescando, mas o rio estava com as
águas baixas e os peixes deveriam estar em outro lugar, de modo que
deixaram as redes estendidas na água, sentaram na margem coberta
de relva e ficaram conversando, até que Mary viu o galho seco, que
tinha uma superfície branca e lisa. Ela queimou o desenho — uma
simples margarida — na madeira e encantou Atai; mas, à medida
que a linha fina de fumaça foi subindo do ponto onde a luz do sol
focalizada tocava a madeira, Mary pensou: Se isso se tornasse um
fóssil e um cientista o encontrasse daqui a dez milhões de anos,
ainda poderiam encontrar Sombras rodeando-o porque eu trabalhei
nele.
Ela mergulhou num estado de torpor e devaneio induzido
pelo sol até que Atai perguntou:
Com o que está sonhando?
Mary tentou explicar de que tratava seu trabalho, sua pesquisa,
o laboratório, a descoberta das partículas de Sombra, a revelação
fantástica de que eram conscientes e sentiu o relato da experiência
inteira se apoderar dela novamente, de tal modo que desejou
profundamente estar de volta em meio ao seu equipamento.
Não esperava que Atai acompanhasse sua explicação, em
parte por causa de seu domínio imperfeito da língua deles, mas em
parte porque os mulefas pareciam tão práticos, tão fortemente
enraizados no mundo físico do dia-a-dia, e muito do que estava
falando era matemática; mas Atai a surpreendeu ao dizer:
Sim — sabemos de que você está falando — nós chamamos de. . .
e então ela usou uma palavra que soou como a palavra que usavam
para dizer luz.
Mary perguntou: Luz?, e Atai respondeu: Não luz, mas. . . e disse a palavra mais devagar para que Mary
aprendesse, explicando: como a luz batendo na água quando faz
pequenos círculos, ao pôr-do-sol, e a luz batendo sai em flocos brilhantes,
nós chamamos desse nome, mas é um faz-parece.
Faz-parece era o termo que eles empregavam para metáfora,
Mary havia descoberto.
De modo que disse:
Não é realmente luz, mas você vê e parece com aquela luz
batendo na água ao pôr-do-sol?
E Atai respondeu:
Sim. Todos os mulefas têm isso. Você tem também. Foi assim que
soubemos que você era como nós e não como os animais de pasto, que não
têm isso. Apesar de você ter uma aparência tão estranha e horrível. Você é
como nós porque você tem — e de novo veio aquela palavra que Mary
não conseguia ouvir de maneira suficientemente clara para repetir: algo
como sraf, ou sarf, acompanhada por um ligeiro movimento da tromba
para a esquerda.
Mary ficou excitada. Tinha que se controlar e se manter calma
de maneira a encontrar as palavras certas.
O que vocês sabem a respeito disso? De onde vem?
De nós e do óleo, foi a resposta de Atai, e Mary sabia que estava
se referindo ao óleo nas grandes rodas feitas daquelas nozes.
De vocês?
Depois que já somos crescidos. Mas sem as árvores isso
simplesmente desapareceria de novo. Com as rodas e o óleo, fica conosco.
Depois que já somos crescidos. . . Mais uma vez Mary teve
que se controlar para não se tornar incoerente. Uma das coisas que
havia começado a desconfiar com relação às Sombras era que
crianças e adultos reagiam de maneira diferente a elas, ou atraiam
tipos diferentes de atividade de Sombra. Lyra não tinha dito que os
cientistas de seu mundo haviam descoberto algo assim com relação
ao Pó, que era o nome que davam às Sombras? Aqui estava a mesma
coisa novamente.
E estava relacionado ao que as Sombras tinham lhe dito na tela
do computador, pouco antes de ela partir de seu próprio mundo:
qualquer que fosse aquela questão, estava relacionada com a grande
mudança na história humana simbolizada pela história de Adão e Eva;
com a Tentação, a Queda, o Pecado Original. Em suas investigações
com crânios fósseis, seu colega Oliver Payne tinha descoberto que
cerca de 30 mil anos atrás, havia ocorrido um grande aumento no
número de partículas de Sombra associadas aos restos mortais de seres
humanos. Alguma coisa havia acontecido naquela ocasião, algum
desenvolvimento na evolução, para tornar o cérebro humano um canal
ideal para ampliar seus efeitos.
Mary perguntou a Atai:
Há quanto tempo existem mulefas?
E Atai respondeu:
Trinta e três mil anos.
Àquela altura ela já era capaz de interpretar as expressões de
Mary, ou pelo menos as mais óbvias, e deu uma risada ao ver o
queixo de Mary cair. O riso deles era tão franco e cheio de alegria,
tão contagiante, que Mary geralmente não se continha e ria
também, mas naquele momento permaneceu séria e espantada, e
disse:
Como pode saber com tanta exatidão? Vocês têm uma história de
todos esses anos?
Ah, sim, temos, disse Atai. A partir do momento que tivemos o
sraf, tivemos memória e despertar. Mas, antes disso, não sabíamos nada.
O que aconteceu que deu o sraf a vocês?
Descobrimos como usar as rodas. Um dia um ser sem nome
descobriu uma noz e começou a brincar, e enquanto ela brincava ela
—Ela?
Ela, sim. Não tinha nome antes disso. Ela viu uma serpente se
enroscando através do buraco na esfera e a serpente disse —
A serpente falou com ela?
Não! Não! Isso é faz-parece. A história conta que a serpente disse:
O que você sabe? De que se lembra? O que vê adiante? E ela disse: Nada,
nada, nada. De modo que a serpente disse: Enfie o pé no buraco do fruto
onde eu estava brincando e se tomará sábia. Então ela enfiou o pé no
lugar onde a serpente estivera. E o óleo penetrou em seu pé e fez com
que ela visse com mais clareza do que antes e a primeira coisa que ela
viu foi o sraf. Era uma coisa tão estranha e agradável que quis
compartilhar imediatamente com todos os seus parentes. De modo que ela
e seu parceiro pegaram as primeiras e descobriram que sabiam quem
eram, sabiam que eram mulefas e não animais de pasto. Eles deram
nome um ao outro. Chamaram a si mesmos de mulefas. Deram nome à
árvore-das-sementes e a todas as criaturas e plantas.
Porque ficaram diferentes, disse Mary.
Sim, ficaram. E seus filhos também, porque à medida que mais
nozes caíam, eles mostraram a seus filhos como usá-las. E quando as
crianças ficavam crescidas, começavam a gerar o sraf também, e quando
estavam bastante grandes para usar as rodas, o sraf voltava com o óleo e
ficava com eles. De modo que viram que tinham que plantar mais
árvores-de-rodas, por causa do óleo, mas a casca das nozes era tão dura
que raramente germinavam. E os primeiros mulefas viram o que
deveriam fazer para ajudar as árvores, que era usar as rodas para circular
e quebrá-las, de modo que mulefas e árvores-de-rodas sempre viveram
juntos.
Mary compreendeu de imediato cerca de um quarto do que
Atai estava dizendo, mas depois, fazendo perguntas e deduções,
descobriu o resto de maneira bastante precisa; e seu domínio da
língua também estava aumentando a cada minuto. Quanto mais
aprendia, mais difícil as coisas se tornavam, pois cada coisa nova que
descobria sugeria meia dúzia de perguntas, cada uma conduzindo a
uma direção diferente.
Mas ela forçou sua mente a continuar seguindo a questão do
sraf porque era a mais importante; e fora por isso que tinha pensado no
espelho.
Fora a comparação do sraf com os reflexos de luz na água que
lhe sugerira o espelho. A luz refletida como clarão do sol sobre o
mar era polarizada: era possível que as partículas de Sombra,
quando se comportassem como ondas de luz, também pudessem ser
polarizadas.
Não posso ver o srafcomo você pode, explicou, mas gostaria
defasxr um espelho com a laca-de-seiva, porque acho que poderia me
ajudar a ver.
Atai ficou animada com essa idéia e, imediatamente, elas
recolheram a rede e começaram a juntar as coisas de que Mary iria
precisar. Como prova de que a sorte lhes sorria, havia três belos
peixes na rede.
A laca-de-seiva era um produto de uma outra árvore, muito
menor, que os mulefas cultivavam para este propósito. Ao ferver e
dissolver a seiva no álcool, que faziam com suco de frutas
destilado, os mulefas preparavam uma substância com uma
consistência semelhante à do leite e de uma cor âmbar delicada, que
utilizavam como verniz. Chegavam a passar até 20 mãos numa base
de madeira ou de concha, deixando que cada mão curtisse sob um
pano molhado antes de aplicar a seguinte e, gradualmente, iam
criando uma superfície de grande dureza e brilho. Geralmente a
tornavam opaca com a aplicação de vários óxidos, mas por vezes a
deixavam transparente e aquilo era o que interessara Mary: porque a
laça transparente de tonalidade âmbar tinha a mesma curiosa
propriedade do mineral conhecido como espato-de-islândia. Ela
dividia os raios de luz em dois, de modo que quando se olhava
através dela via-se duplo.
Mary não tinha muita certeza do que queria fazer; só sabia que
se fizesse várias tentativas com diferentes abordagens pelo tempo que
fosse necessário, sem se preocupar e sem se impacientar, acabaria
descobrindo. Lembrou-se de citar as palavras do poeta Keats para
Lyra e de sua compreensão imediata de que aquele era seu estado
de espírito quando lia o aletômetro — era disso que Mary
precisava.
De modo que começou tratando de encontrar um pedaço mais
ou menos achatado de madeira semelhante ao pinho e de lixar a
superfície com arenito (como não havia metal, não havia plainas) até deixá-la o mais lisa e plana que pôde. Aquele era o método usado
pelos mulefas e funcionava bastante bem, desde que se dedicasse
tempo e esforço.
Então ela visitou a plantação de laça com Atai, tendo
explicado cuidadosamente o que pretendia fazer, e pediu permissão
para retirar um pouco de seiva. Os mulefas tiveram prazer em
concordar, mas estavam ocupados demais para lhe dar atenção. Com
a ajuda de Atai, ela extraiu uma quantidade da seiva pegajosa e
resinosa e, então, seguiu-se o longo processo de ferver, dissolver,
ferver de novo, até que o verniz estivesse pronto para ser usado.
Os mulefas usavam mechas de uma fibra de uma outra planta
semelhante a algodão para aplicá-lo e, seguindo as instruções de um
artesão, ela entregou-se ao trabalho paciente de pintar e repintar,
uma vez após a outra, o seu espelho, sem ver quase nenhuma
diferença a cada vez, uma vez que a camada de laça era tão fina, mas,
deixando-as secar sem pressa e descobrindo que, gradualmente, a
espessura estava aumentando. Mary passou mais de 40 mãos —
perdeu a conta de quantas —, mas, quando afinal sua laça acabou, a
superfície estava com pelo menos cinco milímetros de espessura.
Depois da última camada, vinha o trabalho de dar
polimento: um dia inteiro esfregando a superfície, delicadamente, em
suaves movimentos circulares, até que seus braços começaram a doer
e sua cabeça a latejar e ela não tinha mais condições de trabalhar.
Então ela dormiu.
Na manhã seguinte, o grupo foi trabalhar numa capoeira que
chamavam de madeira-de-nó, para verificar se os brotos estavam
crescendo conforme planejado quando haviam sido plantados,
apertando os trançados de modo que os galhos adquirissem as formas
adequadas. Eles apreciavam muito a ajuda de Mary nessa tarefa, pois
sozinha ela podia penetrar em espaços mais estreitos que os mulefas
e, com suas duas mãos, trabalhar em espaços mais apertados.
Só quando esse trabalho foi concluído e voltaram ao povoado foi
que Mary pôde começar a fazer sua experiência — ou melhor, sua
brincadeira, uma vez que não tinha uma idéia muito clara do que estava
fazendo.
Primeiro tentou usar a folha de laça simplesmente como um
espelho, mas, por falta de um fundo prateado, tudo o que conseguia
ver era um tênue duplo reflexo na madeira.
Então pensou que do que precisava realmente era da laça sem
a madeira, mas sentiu-se desanimada diante da idéia de fazer outra
folha de laça; e, de qualquer modo, como conseguiria deixá-la lisa
sem uma superfície para servir de base?
Ocorreu-lhe a idéia de simplesmente ir cortando fora a
madeira de modo a deixar só a laça. Aquilo também levaria tempo,
mas pelo menos tinha o canivete suíço. E ela então começou a
cortar lascas muito delicadamente a partir da borda, tomando o
maior cuidado para não arranhar a laça por trás, mas, finalmente,
conseguindo remover a maior parte do pinho, e deixando uma
desordem de restos e lascas de madeira colados de maneira
irremovível na placa de verniz claro e duro.
Ela se perguntou o que aconteceria se deixasse de molho na
água. Será que a laça amoleceria se ficasse molhada? Não, respondeu
seu mestre artesão, ela permanecerá dura para sempre; mas por que
não fazer assim?— e ele lhe mostrou um líquido, que era mantido
numa tigela de pedra, que corroeria qualquer pedaço de madeira em
apenas algumas horas. Pelo cheiro e pelo aspecto, Mary achou que
parecia ser um ácido.
Aquilo praticamente não danificaria em nada a laça, disse o
artesão, e, qualquer dano que houvesse, ela poderia reparar com
bastante facilidade. Ele estava intrigado com o projeto de Mary e a
ajudou a aplicar, delicadamente, o ácido na madeira, explicando como o
preparavam, moendo, dissolvendo e destilando um mineral que
encontravam nas margens de alguns lagos rasos que ela ainda não
visitara. Gradualmente a madeira amoleceu e se soltou, e Mary ficou
com uma placa de laça transparente amarelo-acastanhada, mais ou
menos do tamanho da página de um livro.
Ela poliu o reverso da mesma forma que fizera com a parte de
cima, até que ambos os lados estivessem lisos e polidos como o mais
refinado dos espelhos.
E quando olhou através dele. . .
Não viu nada em particular. Era perfeitamente límpido, mas
mostrava-lhe uma imagem dupla, a da direita bem perto da que
ficava à esquerda e cerca de 15 graus para cima.
Ela se perguntou o que aconteceria se olhasse através de duas
placas, uma sobre a outra.
Então pegou o canivete suíço novamente e tentou riscar uma
linha na placa de modo a poder cortá-la em dois pedaços. Depois de
várias tentativas e de muito trabalho, usando uma pedra lisa para
manter o canivete afiado, ela conseguiu riscar uma linha de sulco
profundo o bastante para arriscar tentar partir a placa. Colocou um
galho fino sob o sulco riscado e empurrou com força para baixo a
placa de laça, como vira um vidraceiro fazer para cortar uma vidraça,
e funcionou: agora ela tinha duas placas.
Ela as juntou e olhou através delas. A coloração âmbar estava
mais densa e, como um filtro fotográfico, realçava certas cores e
apagava outras, dando uma aparência ligeiramente diferente à
paisagem. A coisa curiosa era que a dupla imagem havia
desaparecido e tudo era de novo uma coisa; mas não havia nenhum
sinal de Sombras.
Mary foi separando as duas peças, observando como a
aparência das coisas mudava à medida que o fazia. Quando estavam
afastadas cerca de um palmo, algo curioso aconteceu: a coloração
âmbar desapareceu e tudo parecia ter sua cor normal, mas em tom
mais lustroso e mais vivido.
Naquele ponto Atai aproximou-se para ver o que ela estava
fazendo.
Agora já pode ver srafi, perguntou. Não, mas posso ver outras coisas, respondeu Mary, e tentou mostrar a
ela.
Atai estava interessada, mas apenas por educação, sem nem
um pouco do sentimento de descoberta que animava Mary, e logo
a zalif se cansou de olhar através das pequenas placas de laça e se acomodou na relva para cuidar da manutenção de suas rodas. Por
vezes, os mulefas cuidavam das garras uns dos outros, por pura
sociabilidade, e, uma ou duas vezes, Atai havia convidado Mary a
cuidar das suas. Mary, por sua vez, deixava Atai arrumar seu
cabelo, apreciando como a tromba macia o levantava e deixava cair,
acariciando e massageando seu couro cabeludo.
Ela percebeu que Atai queria fazer isso agora, de modo que
largou as duas placas de laça e passou as mãos sobre a superfície
incrivelmente lisa e macia das garras de Atai, aquela superfície mais
macia e escorregadia que Teflon que se encaixava na borda inferior
do buraco central e servia de mancai quando a roda girava. Os
contornos se encaixavam com perfeição, é claro, e quando Mary
passou a mão pelo interior da roda não sentiu nenhuma diferença de
textura: era como se os mulefas e as nozes realmente fossem um
único ser que, por um milagre, podiam se separar e depois se
encaixar unindo-se de novo.
Esse contato acalmava Atai e, portanto, Mary também. Sua
amiga era jovem e solteira, e não havia jovens machos naquele
grupo, de modo que ela teria que se casar com um zalif de fora;
mas, contatos com outros grupos não eram fáceis, e por vezes Mary
achava que Atai se preocupava com seu futuro. De maneira que
não se incomodava com o tempo que passava com ela e naquela
ocasião estava contente por limpar os buracos da roda de toda a
poeira e fuligem que ali se acumulavam, e espalhar gentilmente o
óleo perfumado sobre as garras de sua amiga, enquanto a tromba de
Atai se levantava arrumando seus cabelos.
Quando Atai estava satisfeita, voltou a encaixar suas rodas e se
afastou para ajudar na preparação da refeição da noite. Mary
retomou suas placas de laça e quase que imediatamente fez a
descoberta.
Ela levantou as duas placas, mantendo-as a uma distância de
um palmo uma da outra, de modo que mostrassem a imagem nítida
e clara que vira anteriormente, mas alguma coisa havia acontecido.
Enquanto olhava através delas, viu um enxame de cintilações
douradas rodeando a silhueta de Atai. As cintilações só eram visíveis
através de uma pequena parte da laça e então Mary se deu conta do
porquê: naquele ponto havia pegado na superfície com os dedos
cobertos de óleo.
— Atai! — chamou. — Depressa! Volte aqui!
Atai se virou e veio rodando.
— Deixe-me tirar um pouco de óleo — pediu Mary —, só o
bastante para passar sobre as placas de laça.
De boa vontade, Atai deixou que ela tornasse a passar os
dedos pelos buracos das rodas e observou curiosamente enquanto
Mary cobria uma das placas com um filme da substância suave e
límpida.
Então ela juntou e pressionou as placas uma contra a outra, e
as fez girar, para espalhar o óleo de maneira uniforme e, mais uma
vez, as levantou mantendo-as a uma distância de um palmo uma da
outra.
E quando olhou através delas, tudo estava diferente. Ela
podia ver Sombras. Se Mary tivesse estado na Sala Privativa da
Faculdade Jordan quando Lorde Asriel havia projetado os
fotogramas que tinha feito com a emulsão especial, teria
reconhecido o efeito. Por toda parte para onde olhava havia
partículas de ouro, exatamente como Atai havia descrito: cintilações
de luz, flutuando e se deslocando, por vezes movendo-se numa
corrente de intenção, um fluxo com direção e propósito. Em meio a
tudo aquilo estava o mundo que ela via a olho nu: a relva, o rio, as
árvores; mas onde quer que visse um ser consciente, um dos
mulefas, a luz era mais espessa e mais cheia de movimento. A luz de
maneira alguma obscurecia suas formas; ao contrário, tornava-as
mais nítidas.
Eu não sabia que era bonito, disse Mary para Atai. Ora, mas é claro que é, respondeu sua amiga. É estranho
imaginar que você não pudesse ver. Olhe para o pequenino. . .
Ela indicou uma das crianças pequenas brincando na relva
alta, saltando desajeitadamente atrás de gafanhotos, parando de
repente para examinar uma folha, tropeçando e caindo, logo se
levantando depressa outra vez, para ir correndo dizer alguma coisa
para sua mãe, se distraindo novamente com um pedaço de galho
partido, tentando apanhá-lo, descobrindo formigas em sua tromba e
gritando cheio de agitação. . . Havia uma névoa dourada em volta
dele, da mesma forma que em volta dos abrigos, das redes de pesca,
da fogueira acesa — contudo, a dele era mais forte, embora não
muito. Porém, ao contrário da névoa que envolvia as outras coisas, a
dele era cheia de pequenas correntes rodopiantes de intenção, que se
moviam em círculos, em redemoinhos que, de repente, paravam de
se mover e ficavam flutuando, se deslocando no ar até desaparecer,
enquanto outros nasciam.
Por outro lado, já ao redor de sua mãe, as partículas douradas
cintilantes eram muito mais intensas, e as correntes em que se
moviam eram mais tranqüilas e mais fortes. Ela estava preparando a
comida, espalhando farinha numa pedra achatada, fazendo o pão
fino que se parecia com pão sírio ou tortilhas, ao mesmo tempo
vigiando seu filho, e as Sombras ou o srafon o Pó que a banhava
parecia a mais perfeita imagem de responsabilidade e de sábia
atenção e cuidado.
Então finalmente você consegue ver, disse Atai. Bem, agora deve
vir comigo.
Mary olhou para sua amiga sem compreender. O tom de Atai
era estranho: era como se estivesse dizendo: "Finalmente você está
pronta; estivemos esperando; agora as coisas têm que mudar!'
E outros estavam aparecendo, vindo do outro lado da colina,
saindo de seus abrigos, vindo da margem do rio: membros do
grupo, mas estranhos também, mulefas que ela não conhecia e que
olhavam curiosamente para onde ela estava. O som de suas rodas na
terra batida era baixo e constante.
Para onde devo ir?, perguntou Mary. Por que todos eles estão
vindo para cá?
Não se preocupe, disse Atai, venha comigo, não vamos machucar
você.
Aquela reunião parecia ter sido planejada há muito tempo,
pois todos eles sabiam para onde ir e o que esperar. Havia um monte,
uma pequena elevação, numa das extremidades do povoado, que
tinha uma forma simétrica e era coberto de terra batida compactada,
com rampas em cada um dos cantos, e o grupo de mulefas — mais
ou menos uns 50, no mínimo, Mary calculava — estava se
dirigindo para ele. A fumaça das fogueiras onde se cozinhava
pairava no ar do entardecer e o sol que se punha espalhava seu tipo
particular de névoa dourada sobre tudo; e Mary sentia o cheiro de
milho assando, e o cheiro agradável característico dos mulefas —
parte óleo, parte carne de temperatura relativamente alta e constante,
um cheiro doce parecido com o de cavalos.
Atai insistiu para que ela seguisse para o monte.
O que está acontecendo? Conte-me!, pediu Mary. Não, não. . . Não eu. Sattamax vai falar. . .
Mary não conhecia o nome Sattamax e o zalif que Atai
indicou era um estranho para ela. Era mais velho do que qualquer
um que tivesse visto até então: na base de sua tromba havia uns tufos
de fios brancos dispersos e ele se movia com dificuldade, como se
tivesse artrite. Todos os outros se movimentavam com cuidado em
torno dele e quando Mary deu uma espiada através das placas de
laça, viu por que: a nuvem de Sombras do velho zalif era tão rica e
complexa que a própria Mary sentiu-se tomada por um grande
respeito, embora soubesse muito pouco sobre o que aquilo
significava.
Quando Sattamax estava pronto para falar, o resto do grupo
ficou em silêncio. Mary parou bem perto do monte, Atai manteve-
se junto dela, para tranqüilizá-la; mas podia perceber todos os olhos
cravados nela e se sentia como se fosse uma aluna nova, no
primeiro dia de aula.
Sattamax começou a falar. Sua voz era grave, com tons ricos e
variados, os gestos de sua tromba, pequenos e graciosos.
Estamos todos aqui reunidos para dar as boas-vindas à
estrangeira Mary. Aqueles dentre nós que já a conhecem têm motivos
para ser gratos a ela por suas atividades desde que chegou para viver
entre nós. Esperamos até que ela tivesse algum domínio de nossa língua.
Com a ajuda de muitos de nós, mas especialmente da zalif Atai, a
estrangeira Mary agora pode nos compreender.
Mas havia uma outra coisa que ela precisava compreender e isso
era o sraf. Ela sabia de sua existência, mas não podia vê-lo como nós,
até que fez um instrumento através do qual pôde olhar.
E agora que conseguiu, está pronta para aprender mais sobre o
que deve fazer para nos ajudar.
Mary, suba até aqui, venha ficar junto comigo.
Ela se sentia atordoada, embaraçada, perplexa e confusa, mas
fez o que tinha que fazer e subiu, posicionando-se ao lado do velho
zalif. Achou que era melhor falar, de modo que começou:
Todos vocês fizeram com que eu me sentisse como uma amiga.
São gentis e hospitaleiros. Eu venho de um mundo onde a vida é muito
diferente, mas alguns de nós têm conhecimento do sraf, como vocês, e
estou grata pela ajuda que me deram para fazer este vidro através do
qual posso vê-lo. Se, de alguma maneira, eu puder ajudá-los, terei muito
prazer em fazê-lo.
Ela falou de maneira muito mais desajeitada do que quando
conversava com Atai e ficou temerosa de não ter sido muito clara
no que dissera. Era difícil saber para onde se virar quando se tinha
que gesticular ao mesmo tempo em que se falava, mas eles
pareceram compreender.
Sattamax de novo tomou a palavra.
É bom ouvi-la falar. Esperamos que possa nos ajudar. Se não
puder, não sei como sobreviveremos. Os tualapi matarão todos nós. Há
mais deles do que jamais houve e, a cada ano que passa, o número
deles aumenta. Alguma coisa em nosso mundo saiu de seu eixo. Durante
a maioria dos 33 mil anos desde que os mulefas existem, sempre
cuidamos da terra. Tudo era equilibrado. As árvores prosperavam, os
animais de pasto eram saudáveis e, mesmo que de vez em quando os
tualapi atacassem, a proporção entre quantos de nós e quantos deles
existiam permanecia constante.
Mas há 300 anos as árvores começaram a adoecer. Nós as
observamos com preocupação e tratamos delas com grande cuidado, mas
mesmo assim descobrimos que estavam produzindo menos nozes e
perdendo suas folhas fora da estação, algumas delas morreram
imediatamente, algo que jamais havia acontecido. Toda a nossa
memória reunida não foi capaz de encontrar uma causa para isso.
Sem dúvida, tudo isso aconteceu lentamente, mas também é lento
o ritmo de nossa vida. Não sabíamos disso até que você viesse. Tínhamos
visto borboletas e pássaros, mas eles não têm sraf. Você tem, por mais
estranha que possa nos parecer; mas é rápida e age de imediato,
como os pássaros, como as borboletas. Você percebeu que havia
necessidade de alguma coisa para ajudá-la a ver sraf e no mesmo
instante, com os materiais que conhecemos há milhares de anos,
inventou um instrumento para fazer isso. Comparada conosco, você
pensa e age com a velocidade de um pássaro. É assim que nos parece, e
épor isso que sabemos que nosso ritmo parece lento para você.
Mas esse fato é nossa única esperança. Você pode ver coisas que
não podemos, consegue ver conexões, possibilidades e alternativas que são
invisíveis para nós, exatamente como o sraf era invisível para você. E
embora não possamos ver uma maneira de sobreviver, esperamos que
você possa. Esperamos que você descubra rapidamente a causa da doença
das árvores e encontre uma cura; esperamos que invente um meio de
lidarmos com os tualapi, que são tão numerosos e tão fortes.
E esperamos que possa fazê-lo brevemente, caso contrário todos
nós morreremos.
Houve um murmúrio de acordo e aprovação do grupo. Todos
eles olhavam para Mary e ela se sentia, mais do que nunca, como a
nova aluna numa escola que aguardasse com convicção e grandes
esperanças seu bom desempenho. Também sentia-se estranhamente
lisonjeada: a imagem de si mesma como sendo rápida e ágil como um
pássaro era nova e agradável, porque sempre havia pensado em si
mesma como determinada e vagarosa. Mas junto com isso veio o
sentimento de que eles haviam percebido as coisas de maneira
terrivelmente errada, se a viam desse modo; que absolutamente não compreendiam; ela não tinha a menor possibilidade de satisfazer
aquela esperança desesperada que alimentavam.
Mas, da mesma maneira, tinha. Eles estavam esperando.
Sattamax, disse, mulefas, vocês depositaram sua confiança em
mim e farei o melhor que puder. Vocês têm sido gentis e a vida de vocês
é boa e bonita, de modo que tentarei com todo o meu empenho ajudar vocês, e agora que vi o sraf, sei o que estou fazendo. Obrigada por
confiarem em mim.
Eles assentiram, murmuraram e a acariciaram com suas
trombas, enquanto ela descia. Estava amedrontada com o que havia
concordado em fazer.
Exatamente naquele momento no mundo de Cittàgazze, o
padre assassino, Padre Gomez, vinha caminhando com esforço,
subindo por uma trilha difícil e irregular nas montanhas, entre os
troncos retorcidos das oliveiras. A luz do entardecer passava
obliquamente entre as folhas prateadas e a atmosfera estava cheia do
ruído de grilos e cigarras.
Mais adiante ele podia avistar uma pequenina casa de fazenda,
abrigada entre os vinhedos, onde uma cabra balia e um riacho corria
descendo pelos rochedos cinzentos. Havia um homem idoso
cuidando de alguma tarefa ao lado da casa e uma mulher idosa
conduzindo a cabra na direção de um banco e um balde.
Na aldeia, a alguma distância mais para trás, haviam-lhe dito
que a mulher que estava seguindo tinha passado por ali e que havia
falado em subir para as montanhas; talvez aquele casal de velhos a
tivesse visto. No mínimo poderia haver queijo e azeitonas para
comprar e água da nascente para beber. O Padre Gomez estava
muito habituado a viver frugalmente e havia tempo de sobra.