A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 18 de 39

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A Luneta Âmbar

17. Óleo e Laca

ÓLEO E LACA

 

...ORA A SERPENTE ERA A MAIS ASTUTA DE

TODOS OS ANIMAIS DO CAMPO QUE O SENHOR

DEUS TINHA FEITO

Gênesis 2, 3

 

Mary Malone estava construindo um espelho. Não por

vaidade, pois tinha muito pouca vaidade, mas porque queria

testar uma idéia que tivera. Queria tentar capturar as Sombras e, sem

os instrumentos de seu laboratório, tinha que improvisar com os

materiais de que dispunha.

A tecnologia dos mulefas praticamente não empregava

metais. Eles faziam coisas extraordinárias com pedra, madeira,

cordas, conchas e chifre, mas os poucos metais de que dispunham

eram arrancados a marteladas de pepitas, em estado bruto, de cobre

e de outros metais que encontravam na areia do rio, e nunca eram

usados para fazer ferramentas. Eram usados para ornamentos. Por

exemplo, na celebração do casamento, o casal mulefa trocava tiras

de cobre reluzente, que eram dobradas de maneira a fazer um anel

em volta de um de seus chifres, com um significado muito

semelhante ao de uma aliança.

De modo que ficaram fascinados com o canivete do

exército suíço que era o objeto mais precioso que Mary possuía.

A zalif que era sua amiga pessoal, chamada Atai, soltou uma

exclamação espantada, certo dia quando Mary abriu o canivete,

mostrou todos os acessórios e explicou o melhor que pôde, com seu

vocabulário limitado, para que serviam. Um dos acessórios era uma

lupa em miniatura com a qual começou a queimar um desenho num

galho seco e foi isso que a fez começar a pensar nas Sombras.

Naquela ocasião, estavam pescando, mas o rio estava com as

águas baixas e os peixes deveriam estar em outro lugar, de modo que

deixaram as redes estendidas na água, sentaram na margem coberta

de relva e ficaram conversando, até que Mary viu o galho seco, que

tinha uma superfície branca e lisa. Ela queimou o desenho — uma

simples margarida — na madeira e encantou Atai; mas, à medida

que a linha fina de fumaça foi subindo do ponto onde a luz do sol

focalizada tocava a madeira, Mary pensou: Se isso se tornasse um

fóssil e um cientista o encontrasse daqui a dez milhões de anos,

ainda poderiam encontrar Sombras rodeando-o porque eu trabalhei

nele.

Ela mergulhou num estado de torpor e devaneio induzido

pelo sol até que Atai perguntou:

Com o que está sonhando?

Mary tentou explicar de que tratava seu trabalho, sua pesquisa,

o laboratório, a descoberta das partículas de Sombra, a revelação

fantástica de que eram conscientes e sentiu o relato da experiência

inteira se apoderar dela novamente, de tal modo que desejou

profundamente estar de volta em meio ao seu equipamento.

Não esperava que Atai acompanhasse sua explicação, em

parte por causa de seu domínio imperfeito da língua deles, mas em

parte porque os mulefas pareciam tão práticos, tão fortemente

enraizados no mundo físico do dia-a-dia, e muito do que estava

falando era matemática; mas Atai a surpreendeu ao dizer:

Sim — sabemos de que você está falando — nós chamamos de. . .

e então ela usou uma palavra que soou como a palavra que usavam

para dizer luz.

Mary perguntou: Luz?, e Atai respondeu: Não luz, mas. . . e disse a palavra mais devagar para que Mary

aprendesse, explicando: como a luz batendo na água quando faz

pequenos círculos, ao pôr-do-sol, e a luz batendo sai em flocos brilhantes,

nós chamamos desse nome, mas é um faz-parece.

Faz-parece era o termo que eles empregavam para metáfora,

Mary havia descoberto.

De modo que disse:

Não é realmente luz, mas você vê e parece com aquela luz

batendo na água ao pôr-do-sol?

E Atai respondeu:

Sim. Todos os mulefas têm isso. Você tem também. Foi assim que

soubemos que você era como nós e não como os animais de pasto, que não

têm isso. Apesar de você ter uma aparência tão estranha e horrível. Você é

como nós porque você tem — e de novo veio aquela palavra que Mary

não conseguia ouvir de maneira suficientemente clara para repetir: algo

como sraf, ou sarf, acompanhada por um ligeiro movimento da tromba

para a esquerda.

Mary ficou excitada. Tinha que se controlar e se manter calma

de maneira a encontrar as palavras certas.

O que vocês sabem a respeito disso? De onde vem?

De nós e do óleo, foi a resposta de Atai, e Mary sabia que estava

se referindo ao óleo nas grandes rodas feitas daquelas nozes.

De vocês?

Depois que já somos crescidos. Mas sem as árvores isso

simplesmente desapareceria de novo. Com as rodas e o óleo, fica conosco.

Depois que já somos crescidos. . . Mais uma vez Mary teve

que se controlar para não se tornar incoerente. Uma das coisas que

havia começado a desconfiar com relação às Sombras era que

crianças e adultos reagiam de maneira diferente a elas, ou atraiam

tipos diferentes de atividade de Sombra. Lyra não tinha dito que os

cientistas de seu mundo haviam descoberto algo assim com relação

ao Pó, que era o nome que davam às Sombras? Aqui estava a mesma

coisa novamente.

E estava relacionado ao que as Sombras tinham lhe dito na tela

do computador, pouco antes de ela partir de seu próprio mundo:

qualquer que fosse aquela questão, estava relacionada com a grande

mudança na história humana simbolizada pela história de Adão e Eva;

com a Tentação, a Queda, o Pecado Original. Em suas investigações

com crânios fósseis, seu colega Oliver Payne tinha descoberto que

cerca de 30 mil anos atrás, havia ocorrido um grande aumento no

número de partículas de Sombra associadas aos restos mortais de seres

humanos. Alguma coisa havia acontecido naquela ocasião, algum

desenvolvimento na evolução, para tornar o cérebro humano um canal

ideal para ampliar seus efeitos.

Mary perguntou a Atai:

Há quanto tempo existem mulefas?

E Atai respondeu:

Trinta e três mil anos.

Àquela altura ela já era capaz de interpretar as expressões de

Mary, ou pelo menos as mais óbvias, e deu uma risada ao ver o

queixo de Mary cair. O riso deles era tão franco e cheio de alegria,

tão contagiante, que Mary geralmente não se continha e ria

também, mas naquele momento permaneceu séria e espantada, e

disse:

Como pode saber com tanta exatidão? Vocês têm uma história de

todos esses anos?

Ah, sim, temos, disse Atai. A partir do momento que tivemos o

sraf, tivemos memória e despertar. Mas, antes disso, não sabíamos nada.

O que aconteceu que deu o sraf a vocês?

Descobrimos como usar as rodas. Um dia um ser sem nome

descobriu uma noz e começou a brincar, e enquanto ela brincava ela

—Ela?

Ela, sim. Não tinha nome antes disso. Ela viu uma serpente se

enroscando através do buraco na esfera e a serpente disse —

A serpente falou com ela?

Não! Não! Isso é faz-parece. A história conta que a serpente disse:

O que você sabe? De que se lembra? O que vê adiante? E ela disse: Nada,

nada, nada. De modo que a serpente disse: Enfie o pé no buraco do fruto

onde eu estava brincando e se tomará sábia. Então ela enfiou o pé no

lugar onde a serpente estivera. E o óleo penetrou em seu pé e fez com

que ela visse com mais clareza do que antes e a primeira coisa que ela

viu foi o sraf. Era uma coisa tão estranha e agradável que quis

compartilhar imediatamente com todos os seus parentes. De modo que ela

e seu parceiro pegaram as primeiras e descobriram que sabiam quem

eram, sabiam que eram mulefas e não animais de pasto. Eles deram

nome um ao outro. Chamaram a si mesmos de mulefas. Deram nome à

árvore-das-sementes e a todas as criaturas e plantas.

Porque ficaram diferentes, disse Mary.

Sim, ficaram. E seus filhos também, porque à medida que mais

nozes caíam, eles mostraram a seus filhos como usá-las. E quando as

crianças ficavam crescidas, começavam a gerar o sraf também, e quando

estavam bastante grandes para usar as rodas, o sraf voltava com o óleo e

ficava com eles. De modo que viram que tinham que plantar mais

árvores-de-rodas, por causa do óleo, mas a casca das nozes era tão dura

que raramente germinavam. E os primeiros mulefas viram o que

deveriam fazer para ajudar as árvores, que era usar as rodas para circular

e quebrá-las, de modo que mulefas e árvores-de-rodas sempre viveram

juntos.

Mary compreendeu de imediato cerca de um quarto do que

Atai estava dizendo, mas depois, fazendo perguntas e deduções,

descobriu o resto de maneira bastante precisa; e seu domínio da

língua também estava aumentando a cada minuto. Quanto mais

aprendia, mais difícil as coisas se tornavam, pois cada coisa nova que

descobria sugeria meia dúzia de perguntas, cada uma conduzindo a

uma direção diferente.

Mas ela forçou sua mente a continuar seguindo a questão do

sraf porque era a mais importante; e fora por isso que tinha pensado no

espelho.

Fora a comparação do sraf com os reflexos de luz na água que

lhe sugerira o espelho. A luz refletida como clarão do sol sobre o

mar era polarizada: era possível que as partículas de Sombra,

quando se comportassem como ondas de luz, também pudessem ser

polarizadas.

Não posso ver o srafcomo você pode, explicou, mas gostaria

defasxr um espelho com a laca-de-seiva, porque acho que poderia me

ajudar a ver.

Atai ficou animada com essa idéia e, imediatamente, elas

recolheram a rede e começaram a juntar as coisas de que Mary iria

precisar. Como prova de que a sorte lhes sorria, havia três belos

peixes na rede.

A laca-de-seiva era um produto de uma outra árvore, muito

menor, que os mulefas cultivavam para este propósito. Ao ferver e

dissolver a seiva no álcool, que faziam com suco de frutas

destilado, os mulefas preparavam uma substância com uma

consistência semelhante à do leite e de uma cor âmbar delicada, que

utilizavam como verniz. Chegavam a passar até 20 mãos numa base

de madeira ou de concha, deixando que cada mão curtisse sob um

pano molhado antes de aplicar a seguinte e, gradualmente, iam

criando uma superfície de grande dureza e brilho. Geralmente a

tornavam opaca com a aplicação de vários óxidos, mas por vezes a

deixavam transparente e aquilo era o que interessara Mary: porque a

laça transparente de tonalidade âmbar tinha a mesma curiosa

propriedade do mineral conhecido como espato-de-islândia. Ela

dividia os raios de luz em dois, de modo que quando se olhava

através dela via-se duplo.

Mary não tinha muita certeza do que queria fazer; só sabia que

se fizesse várias tentativas com diferentes abordagens pelo tempo que

fosse necessário, sem se preocupar e sem se impacientar, acabaria

descobrindo. Lembrou-se de citar as palavras do poeta Keats para

Lyra e de sua compreensão imediata de que aquele era seu estado

de espírito quando lia o aletômetro — era disso que Mary

precisava.

De modo que começou tratando de encontrar um pedaço mais

ou menos achatado de madeira semelhante ao pinho e de lixar a

superfície com arenito (como não havia metal, não havia plainas) até deixá-la o mais lisa e plana que pôde. Aquele era o método usado

pelos mulefas e funcionava bastante bem, desde que se dedicasse

tempo e esforço.

Então ela visitou a plantação de laça com Atai, tendo

explicado cuidadosamente o que pretendia fazer, e pediu permissão

para retirar um pouco de seiva. Os mulefas tiveram prazer em

concordar, mas estavam ocupados demais para lhe dar atenção. Com

a ajuda de Atai, ela extraiu uma quantidade da seiva pegajosa e

resinosa e, então, seguiu-se o longo processo de ferver, dissolver,

ferver de novo, até que o verniz estivesse pronto para ser usado.

Os mulefas usavam mechas de uma fibra de uma outra planta

semelhante a algodão para aplicá-lo e, seguindo as instruções de um

artesão, ela entregou-se ao trabalho paciente de pintar e repintar,

uma vez após a outra, o seu espelho, sem ver quase nenhuma

diferença a cada vez, uma vez que a camada de laça era tão fina, mas,

deixando-as secar sem pressa e descobrindo que, gradualmente, a

espessura estava aumentando. Mary passou mais de 40 mãos —

perdeu a conta de quantas —, mas, quando afinal sua laça acabou, a

superfície estava com pelo menos cinco milímetros de espessura.

Depois da última camada, vinha o trabalho de dar

polimento: um dia inteiro esfregando a superfície, delicadamente, em

suaves movimentos circulares, até que seus braços começaram a doer

e sua cabeça a latejar e ela não tinha mais condições de trabalhar.

Então ela dormiu.

Na manhã seguinte, o grupo foi trabalhar numa capoeira que

chamavam de madeira-de-nó, para verificar se os brotos estavam

crescendo conforme planejado quando haviam sido plantados,

apertando os trançados de modo que os galhos adquirissem as formas

adequadas. Eles apreciavam muito a ajuda de Mary nessa tarefa, pois

sozinha ela podia penetrar em espaços mais estreitos que os mulefas

e, com suas duas mãos, trabalhar em espaços mais apertados.

Só quando esse trabalho foi concluído e voltaram ao povoado foi

que Mary pôde começar a fazer sua experiência — ou melhor, sua

brincadeira, uma vez que não tinha uma idéia muito clara do que estava

fazendo.

Primeiro tentou usar a folha de laça simplesmente como um

espelho, mas, por falta de um fundo prateado, tudo o que conseguia

ver era um tênue duplo reflexo na madeira.

Então pensou que do que precisava realmente era da laça sem

a madeira, mas sentiu-se desanimada diante da idéia de fazer outra

folha de laça; e, de qualquer modo, como conseguiria deixá-la lisa

sem uma superfície para servir de base?

Ocorreu-lhe a idéia de simplesmente ir cortando fora a

madeira de modo a deixar só a laça. Aquilo também levaria tempo,

mas pelo menos tinha o canivete suíço. E ela então começou a

cortar lascas muito delicadamente a partir da borda, tomando o

maior cuidado para não arranhar a laça por trás, mas, finalmente,

conseguindo remover a maior parte do pinho, e deixando uma

desordem de restos e lascas de madeira colados de maneira

irremovível na placa de verniz claro e duro.

Ela se perguntou o que aconteceria se deixasse de molho na

água. Será que a laça amoleceria se ficasse molhada? Não, respondeu

seu mestre artesão, ela permanecerá dura para sempre; mas por que

não fazer assim?— e ele lhe mostrou um líquido, que era mantido

numa tigela de pedra, que corroeria qualquer pedaço de madeira em

apenas algumas horas. Pelo cheiro e pelo aspecto, Mary achou que

parecia ser um ácido.

Aquilo praticamente não danificaria em nada a laça, disse o

artesão, e, qualquer dano que houvesse, ela poderia reparar com

bastante facilidade. Ele estava intrigado com o projeto de Mary e a

ajudou a aplicar, delicadamente, o ácido na madeira, explicando como o

preparavam, moendo, dissolvendo e destilando um mineral que

encontravam nas margens de alguns lagos rasos que ela ainda não

visitara. Gradualmente a madeira amoleceu e se soltou, e Mary ficou

com uma placa de laça transparente amarelo-acastanhada, mais ou

menos do tamanho da página de um livro.

Ela poliu o reverso da mesma forma que fizera com a parte de

cima, até que ambos os lados estivessem lisos e polidos como o mais

refinado dos espelhos.

E quando olhou através dele. . .

Não viu nada em particular. Era perfeitamente límpido, mas

mostrava-lhe uma imagem dupla, a da direita bem perto da que

ficava à esquerda e cerca de 15 graus para cima.

Ela se perguntou o que aconteceria se olhasse através de duas

placas, uma sobre a outra.

Então pegou o canivete suíço novamente e tentou riscar uma

linha na placa de modo a poder cortá-la em dois pedaços. Depois de

várias tentativas e de muito trabalho, usando uma pedra lisa para

manter o canivete afiado, ela conseguiu riscar uma linha de sulco

profundo o bastante para arriscar tentar partir a placa. Colocou um

galho fino sob o sulco riscado e empurrou com força para baixo a

placa de laça, como vira um vidraceiro fazer para cortar uma vidraça,

e funcionou: agora ela tinha duas placas.

Ela as juntou e olhou através delas. A coloração âmbar estava

mais densa e, como um filtro fotográfico, realçava certas cores e

apagava outras, dando uma aparência ligeiramente diferente à

paisagem. A coisa curiosa era que a dupla imagem havia

desaparecido e tudo era de novo uma coisa; mas não havia nenhum

sinal de Sombras.

Mary foi separando as duas peças, observando como a

aparência das coisas mudava à medida que o fazia. Quando estavam

afastadas cerca de um palmo, algo curioso aconteceu: a coloração

âmbar desapareceu e tudo parecia ter sua cor normal, mas em tom

mais lustroso e mais vivido.

Naquele ponto Atai aproximou-se para ver o que ela estava

fazendo.

Agora já pode ver srafi, perguntou. Não, mas posso ver outras coisas, respondeu Mary, e tentou mostrar a

ela.

Atai estava interessada, mas apenas por educação, sem nem

um pouco do sentimento de descoberta que animava Mary, e logo

a zalif se cansou de olhar através das pequenas placas de laça e se acomodou na relva para cuidar da manutenção de suas rodas. Por

vezes, os mulefas cuidavam das garras uns dos outros, por pura

sociabilidade, e, uma ou duas vezes, Atai havia convidado Mary a

cuidar das suas. Mary, por sua vez, deixava Atai arrumar seu

cabelo, apreciando como a tromba macia o levantava e deixava cair,

acariciando e massageando seu couro cabeludo.

Ela percebeu que Atai queria fazer isso agora, de modo que

largou as duas placas de laça e passou as mãos sobre a superfície

incrivelmente lisa e macia das garras de Atai, aquela superfície mais

macia e escorregadia que Teflon que se encaixava na borda inferior

do buraco central e servia de mancai quando a roda girava. Os

contornos se encaixavam com perfeição, é claro, e quando Mary

passou a mão pelo interior da roda não sentiu nenhuma diferença de

textura: era como se os mulefas e as nozes realmente fossem um

único ser que, por um milagre, podiam se separar e depois se

encaixar unindo-se de novo.

Esse contato acalmava Atai e, portanto, Mary também. Sua

amiga era jovem e solteira, e não havia jovens machos naquele

grupo, de modo que ela teria que se casar com um zalif de fora;

mas, contatos com outros grupos não eram fáceis, e por vezes Mary

achava que Atai se preocupava com seu futuro. De maneira que

não se incomodava com o tempo que passava com ela e naquela

ocasião estava contente por limpar os buracos da roda de toda a

poeira e fuligem que ali se acumulavam, e espalhar gentilmente o

óleo perfumado sobre as garras de sua amiga, enquanto a tromba de

Atai se levantava arrumando seus cabelos.

Quando Atai estava satisfeita, voltou a encaixar suas rodas e se

afastou para ajudar na preparação da refeição da noite. Mary

retomou suas placas de laça e quase que imediatamente fez a

descoberta.

Ela levantou as duas placas, mantendo-as a uma distância de

um palmo uma da outra, de modo que mostrassem a imagem nítida

e clara que vira anteriormente, mas alguma coisa havia acontecido.

Enquanto olhava através delas, viu um enxame de cintilações

douradas rodeando a silhueta de Atai. As cintilações só eram visíveis

através de uma pequena parte da laça e então Mary se deu conta do

porquê: naquele ponto havia pegado na superfície com os dedos

cobertos de óleo.

— Atai! — chamou. — Depressa! Volte aqui!

Atai se virou e veio rodando.

— Deixe-me tirar um pouco de óleo — pediu Mary —, só o

bastante para passar sobre as placas de laça.

De boa vontade, Atai deixou que ela tornasse a passar os

dedos pelos buracos das rodas e observou curiosamente enquanto

Mary cobria uma das placas com um filme da substância suave e

límpida.

Então ela juntou e pressionou as placas uma contra a outra, e

as fez girar, para espalhar o óleo de maneira uniforme e, mais uma

vez, as levantou mantendo-as a uma distância de um palmo uma da

outra.

E quando olhou através delas, tudo estava diferente. Ela

podia ver Sombras. Se Mary tivesse estado na Sala Privativa da

Faculdade Jordan quando Lorde Asriel havia projetado os

fotogramas que tinha feito com a emulsão especial, teria

reconhecido o efeito. Por toda parte para onde olhava havia

partículas de ouro, exatamente como Atai havia descrito: cintilações

de luz, flutuando e se deslocando, por vezes movendo-se numa

corrente de intenção, um fluxo com direção e propósito. Em meio a

tudo aquilo estava o mundo que ela via a olho nu: a relva, o rio, as

árvores; mas onde quer que visse um ser consciente, um dos

mulefas, a luz era mais espessa e mais cheia de movimento. A luz de

maneira alguma obscurecia suas formas; ao contrário, tornava-as

mais nítidas.

Eu não sabia que era bonito, disse Mary para Atai. Ora, mas é claro que é, respondeu sua amiga. É estranho

imaginar que você não pudesse ver. Olhe para o pequenino. . .

Ela indicou uma das crianças pequenas brincando na relva

alta, saltando desajeitadamente atrás de gafanhotos, parando de

repente para examinar uma folha, tropeçando e caindo, logo se

levantando depressa outra vez, para ir correndo dizer alguma coisa

para sua mãe, se distraindo novamente com um pedaço de galho

partido, tentando apanhá-lo, descobrindo formigas em sua tromba e

gritando cheio de agitação. . . Havia uma névoa dourada em volta

dele, da mesma forma que em volta dos abrigos, das redes de pesca,

da fogueira acesa — contudo, a dele era mais forte, embora não

muito. Porém, ao contrário da névoa que envolvia as outras coisas, a

dele era cheia de pequenas correntes rodopiantes de intenção, que se

moviam em círculos, em redemoinhos que, de repente, paravam de

se mover e ficavam flutuando, se deslocando no ar até desaparecer,

enquanto outros nasciam.

Por outro lado, já ao redor de sua mãe, as partículas douradas

cintilantes eram muito mais intensas, e as correntes em que se

moviam eram mais tranqüilas e mais fortes. Ela estava preparando a

comida, espalhando farinha numa pedra achatada, fazendo o pão

fino que se parecia com pão sírio ou tortilhas, ao mesmo tempo

vigiando seu filho, e as Sombras ou o srafon o Pó que a banhava

parecia a mais perfeita imagem de responsabilidade e de sábia

atenção e cuidado.

Então finalmente você consegue ver, disse Atai. Bem, agora deve

vir comigo.

Mary olhou para sua amiga sem compreender. O tom de Atai

era estranho: era como se estivesse dizendo: "Finalmente você está

pronta; estivemos esperando; agora as coisas têm que mudar!'

E outros estavam aparecendo, vindo do outro lado da colina,

saindo de seus abrigos, vindo da margem do rio: membros do

grupo, mas estranhos também, mulefas que ela não conhecia e que

olhavam curiosamente para onde ela estava. O som de suas rodas na

terra batida era baixo e constante.

Para onde devo ir?, perguntou Mary. Por que todos eles estão

vindo para cá?

Não se preocupe, disse Atai, venha comigo, não vamos machucar

você.

Aquela reunião parecia ter sido planejada há muito tempo,

pois todos eles sabiam para onde ir e o que esperar. Havia um monte,

uma pequena elevação, numa das extremidades do povoado, que

tinha uma forma simétrica e era coberto de terra batida compactada,

com rampas em cada um dos cantos, e o grupo de mulefas — mais

ou menos uns 50, no mínimo, Mary calculava — estava se

dirigindo para ele. A fumaça das fogueiras onde se cozinhava

pairava no ar do entardecer e o sol que se punha espalhava seu tipo

particular de névoa dourada sobre tudo; e Mary sentia o cheiro de

milho assando, e o cheiro agradável característico dos mulefas —

parte óleo, parte carne de temperatura relativamente alta e constante,

um cheiro doce parecido com o de cavalos.

Atai insistiu para que ela seguisse para o monte.

O que está acontecendo? Conte-me!, pediu Mary. Não, não. . . Não eu. Sattamax vai falar. . .

Mary não conhecia o nome Sattamax e o zalif que Atai

indicou era um estranho para ela. Era mais velho do que qualquer

um que tivesse visto até então: na base de sua tromba havia uns tufos

de fios brancos dispersos e ele se movia com dificuldade, como se

tivesse artrite. Todos os outros se movimentavam com cuidado em

torno dele e quando Mary deu uma espiada através das placas de

laça, viu por que: a nuvem de Sombras do velho zalif era tão rica e

complexa que a própria Mary sentiu-se tomada por um grande

respeito, embora soubesse muito pouco sobre o que aquilo

significava.

Quando Sattamax estava pronto para falar, o resto do grupo

ficou em silêncio. Mary parou bem perto do monte, Atai manteve-

se junto dela, para tranqüilizá-la; mas podia perceber todos os olhos

cravados nela e se sentia como se fosse uma aluna nova, no

primeiro dia de aula.

Sattamax começou a falar. Sua voz era grave, com tons ricos e

variados, os gestos de sua tromba, pequenos e graciosos.

Estamos todos aqui reunidos para dar as boas-vindas à

estrangeira Mary. Aqueles dentre nós que já a conhecem têm motivos

para ser gratos a ela por suas atividades desde que chegou para viver

entre nós. Esperamos até que ela tivesse algum domínio de nossa língua.

Com a ajuda de muitos de nós, mas especialmente da zalif Atai, a

estrangeira Mary agora pode nos compreender.

Mas havia uma outra coisa que ela precisava compreender e isso

era o sraf. Ela sabia de sua existência, mas não podia vê-lo como nós,

até que fez um instrumento através do qual pôde olhar.

E agora que conseguiu, está pronta para aprender mais sobre o

que deve fazer para nos ajudar.

Mary, suba até aqui, venha ficar junto comigo.

Ela se sentia atordoada, embaraçada, perplexa e confusa, mas

fez o que tinha que fazer e subiu, posicionando-se ao lado do velho

zalif. Achou que era melhor falar, de modo que começou:

Todos vocês fizeram com que eu me sentisse como uma amiga.

São gentis e hospitaleiros. Eu venho de um mundo onde a vida é muito

diferente, mas alguns de nós têm conhecimento do sraf, como vocês, e

estou grata pela ajuda que me deram para fazer este vidro através do

qual posso vê-lo. Se, de alguma maneira, eu puder ajudá-los, terei muito

prazer em fazê-lo.

Ela falou de maneira muito mais desajeitada do que quando

conversava com Atai e ficou temerosa de não ter sido muito clara

no que dissera. Era difícil saber para onde se virar quando se tinha

que gesticular ao mesmo tempo em que se falava, mas eles

pareceram compreender.

Sattamax de novo tomou a palavra.

É bom ouvi-la falar. Esperamos que possa nos ajudar. Se não

puder, não sei como sobreviveremos. Os tualapi matarão todos nós. Há

mais deles do que jamais houve e, a cada ano que passa, o número

deles aumenta. Alguma coisa em nosso mundo saiu de seu eixo. Durante

a maioria dos 33 mil anos desde que os mulefas existem, sempre

cuidamos da terra. Tudo era equilibrado. As árvores prosperavam, os

animais de pasto eram saudáveis e, mesmo que de vez em quando os

tualapi atacassem, a proporção entre quantos de nós e quantos deles

existiam permanecia constante.

Mas há 300 anos as árvores começaram a adoecer. Nós as

observamos com preocupação e tratamos delas com grande cuidado, mas

mesmo assim descobrimos que estavam produzindo menos nozes e

perdendo suas folhas fora da estação, algumas delas morreram

imediatamente, algo que jamais havia acontecido. Toda a nossa

memória reunida não foi capaz de encontrar uma causa para isso.

Sem dúvida, tudo isso aconteceu lentamente, mas também é lento

o ritmo de nossa vida. Não sabíamos disso até que você viesse. Tínhamos

visto borboletas e pássaros, mas eles não têm sraf. Você tem, por mais

estranha que possa nos parecer; mas é rápida e age de imediato,

como os pássaros, como as borboletas. Você percebeu que havia

necessidade de alguma coisa para ajudá-la a ver sraf e no mesmo

instante, com os materiais que conhecemos há milhares de anos,

inventou um instrumento para fazer isso. Comparada conosco, você

pensa e age com a velocidade de um pássaro. É assim que nos parece, e

épor isso que sabemos que nosso ritmo parece lento para você.

Mas esse fato é nossa única esperança. Você pode ver coisas que

não podemos, consegue ver conexões, possibilidades e alternativas que são

invisíveis para nós, exatamente como o sraf era invisível para você. E

embora não possamos ver uma maneira de sobreviver, esperamos que

você possa. Esperamos que você descubra rapidamente a causa da doença

das árvores e encontre uma cura; esperamos que invente um meio de

lidarmos com os tualapi, que são tão numerosos e tão fortes.

E esperamos que possa fazê-lo brevemente, caso contrário todos

nós morreremos.

Houve um murmúrio de acordo e aprovação do grupo. Todos

eles olhavam para Mary e ela se sentia, mais do que nunca, como a

nova aluna numa escola que aguardasse com convicção e grandes

esperanças seu bom desempenho. Também sentia-se estranhamente

lisonjeada: a imagem de si mesma como sendo rápida e ágil como um

pássaro era nova e agradável, porque sempre havia pensado em si

mesma como determinada e vagarosa. Mas junto com isso veio o

sentimento de que eles haviam percebido as coisas de maneira

terrivelmente errada, se a viam desse modo; que absolutamente não compreendiam; ela não tinha a menor possibilidade de satisfazer

aquela esperança desesperada que alimentavam.

Mas, da mesma maneira, tinha. Eles estavam esperando.

Sattamax, disse, mulefas, vocês depositaram sua confiança em

mim e farei o melhor que puder. Vocês têm sido gentis e a vida de vocês

é boa e bonita, de modo que tentarei com todo o meu empenho ajudar vocês, e agora que vi o sraf, sei o que estou fazendo. Obrigada por

confiarem em mim.

Eles assentiram, murmuraram e a acariciaram com suas

trombas, enquanto ela descia. Estava amedrontada com o que havia

concordado em fazer.

Exatamente naquele momento no mundo de Cittàgazze, o

padre assassino, Padre Gomez, vinha caminhando com esforço,

subindo por uma trilha difícil e irregular nas montanhas, entre os

troncos retorcidos das oliveiras. A luz do entardecer passava

obliquamente entre as folhas prateadas e a atmosfera estava cheia do

ruído de grilos e cigarras.

Mais adiante ele podia avistar uma pequenina casa de fazenda,

abrigada entre os vinhedos, onde uma cabra balia e um riacho corria

descendo pelos rochedos cinzentos. Havia um homem idoso

cuidando de alguma tarefa ao lado da casa e uma mulher idosa

conduzindo a cabra na direção de um banco e um balde.

Na aldeia, a alguma distância mais para trás, haviam-lhe dito

que a mulher que estava seguindo tinha passado por ali e que havia

falado em subir para as montanhas; talvez aquele casal de velhos a

tivesse visto. No mínimo poderia haver queijo e azeitonas para

comprar e água da nascente para beber. O Padre Gomez estava

muito habituado a viver frugalmente e havia tempo de sobra.