A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 6 de 39

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A Luneta Âmbar

5. A Torre Adamantina

A T ORRE

 

ADAMANTINA

 

...E COM TAL AMBIÇÃO, COM TAL INSÂNIA DO

ONIPOTENTE CONTRA O IMPÉRIO E TRONO FEZ

AUDAZ E ÍMPIO GUERRA, DEU BATALHAS.

JOHN MILTON – CANTO I, 7

 

De enxofre liquefeito se estendia por todo o comprimento de

um imenso desfiladeiro soltando seus vapores pestilentos em lufadas e

explosões repentinas, e impedindo a passagem da figura alada solitária

parada à sua margem. Se ele subisse para o céu, os batedores inimigos

que o tinham avistado e perdido o encontrariam de novo,

imediatamente; mas se ele ficasse em terra, levaria tanto tempo para

conseguir atravessar aquele poço insalubre que sua mensagem

poderia chegar demasiado tarde.

Teria que correr o risco maior. Ele esperou até que uma

nuvem de fumaça fedorenta se elevasse da superfície amarela e subiu

voando rapidamente em seu ponto mais espesso.

Quatro pares de olhos em locais diferentes do céu viram o breve

movimento e imediatamente quatro pares de asas bateram

vigorosamente no ar empesteado pela fumaça, lançando os

observadores adiante em meio a ela.

Então teve início uma caçada em que os perseguidores não

conseguiam ver a caça, e em que a caça não conseguia ver

absolutamente nada. O primeiro a sair da nuvem de fumaça na

margem oposta do lago levaria vantagem e isto poderia significar

sobrevivência, ou poderia significar sucesso em apanhar a presa.

E, infelizmente, para o voador solitário, ele alcançou o ar limpo

alguns segundos depois de um de seus perseguidores. Imediatamente eles

se aproximaram, deixando para trás esteiras de vapor, tontos, todos os

dois, por causa dos vapores nocivos. Inicialmente, a presa levou

vantagem, mas então um outro caçador saiu voando da nuvem e num

combate rápido e furioso todos os três, girando no ar como línguas de

chamas, subiram e desceram e subiram de novo, apenas para cair,

finalmente, entre as rochas do outro lado. Os outros caçadores não

emergiram da nuvem.

Na extremidade oeste de uma cadeia de montanhas com

cumes agudos serrilhados, em um pico que dominava os amplos

panoramas da planície abaixo e dos vales atrás, uma fortaleza de

basalto parecia nascer da montanha como se algum vulcão a tivesse

lançado para o alto um milhão de anos antes.

Nas vastas cavernas abaixo das altas muralhas, provisões de

todos os tipos estavam armazenadas e rotuladas; nos arsenais e

depósitos, máquinas e artefatos de guerra estavam sendo calibrados,

armados e testados; nas fábricas abaixo da montanha, fogos

vulcânicos alimentavam forjas imensas onde fósforo e titânio

estavam sendo fundidos e combinados em ligas jamais conhecidas ou

usadas antes.

No lado mais exposto da fortaleza, num ponto escondido no

fundo da sombra de um espigão, onde as imponentes muralhas se

elevavam diretamente dos antiqüíssimos rios de lava, havia um

pequeno portão, uma passagem subterrânea onde uma sentinela

montava guarda dia e noite, e desafiava qualquer um que tentasse

entrar.

Enquanto se efetuava a troca da guarda nas trincheiras acima, a

sentinela bateu os pés uma ou duas vezes e passou as mãos

enluvadas nos braços para se aquecer, pois era a hora mais fria da

noite e a pequena labareda de nafta no suporte de pedra a seu lado

não aquecia nada. Seu substituto viria dentro de mais dez minutos e

esperava ansioso pela caneca de chocolate, pela folha de fumo e,

sobretudo, por sua cama.

Ouvir a barulheira de alguém esmurrando a pequena porta era a

última coisa que ele esperava.

Contudo, estava alerta e abriu a portinhola, ao mesmo tempo

abrindo a torneira que permitia que um jato de nafta passasse além da

chama do piloto de gás do suporte do lado de fora. No clarão da

chama, viu três vultos encapuzados carregando entre eles uma quarta

pessoa, cuja forma estava indistinta e que parecia doente ou ferida.

O vulto que vinha à frente atirou o capuz para trás. Tinha um

rosto que a sentinela conhecia, mas, de qualquer maneira, deu a

senha e disse:

— Nós o encontramos no lago de enxofre. Diz que seu nome é

Baruch. Ele tem uma mensagem urgente para Lorde Asriel.

A sentinela destrancou a porta e seu daemon terrier estremeceu à

medida que os três vultos manobravam seu fardo pela entrada

estreita. Então o daemon emitiu um uivo suave, involuntário, que

rapidamente se calou, quando a sentinela viu que o vulto sendo

carregado era um anjo ferido: um anjo de baixa posição na hierarquia

e com pouco poder, mas mesmo assim um anjo.

— Deitem-no no quarto da guarda — instruiu a sentinela e,

enquanto eles o faziam, girou a manivela da campainha do telefone e

relatou o que estava acontecendo ao oficial no comando do turno.

 

Na muralha mais alta da fortaleza havia uma torre de rocha de

diamante: apenas um lance de escadas conduzindo a um conjunto de

aposentos que tinham vista para o norte, para o sul, leste e oeste. O

aposento maior era mobiliado com uma mesa e cadeiras, um gaveteiro de mapas, um outro tinha uma cama de campanha. Um pequeno

banheiro completava o conjunto.

Lorde Asriel estava sentado na torre adamantina de frente

para seu capitão espião, a mesa entre eles coberta por uma pilha de

papéis espalhados. Uma lamparina de nafta ficava pendurada sobre a

mesa e um braseiro cheio de carvões em brasa quebrava o frio

intenso da noite. Logo após o vão da porta, um pequenino falcão azul

fêmea estava pousado num suporte.

O capitão espião chamava-se Lorde Roke. Tinha uma

aparência bastante incomum: sua altura não alcançava mais que o

tamanho da palma da mão de Lorde Asriel e era esguio como uma

libélula, mas os outros comandantes de Lorde Asriel o tratavam com

profundo respeito, pois estava armado com um ferrão venenoso nas

esporas dos calcanhares.

Era seu costume sentar-se sobre a mesa e, típico de seu

comportamento habitual, rejeitar qualquer coisa exceto enorme

cortesia com um linguajar arrogante e uma língua ferina. Ele e os

outros de seu povo, os galivespianos, possuíam poucas das qualidades

dos bons espiões, exceto, é claro, o tamanho excepcionalmente

pequenino: eram tão orgulhosos e cheios de melindres que jamais

teriam passado despercebidos se fossem do tamanho de Lorde Asriel.

— Sim — disse ele, a voz clara e penetrante, os olhos brilhando

como gotículas de tinta —, sua filha, Lorde Asriel: tenho

informações a respeito dela. Evidentemente, sei mais do que o

senhor.

 

Lorde Asriel o encarou abertamente e o homenzinho soube

imediatamente que havia levado a melhor sobre a cortesia de seu

comandante: a força do olhar de Lorde Asriel o empurrou como se

tivesse levado um peteleco, de modo que perdeu o equilíbrio e

precisou estender a mão para se apoiar no copo de vinho de Lorde

Asriel. Um instante depois a expressão de Lorde Asriel havia

recuperado a brandura e virtuosidade características, exatamente

como a expressão de sua filha podia ser, e dali por diante Lorde

Roke tratou de ser mais cuidadoso.

— Não duvido disso, Lorde Roke — disse Lorde Asriel —,

mas, por motivos que não compreendo, a menina é o centro da

atenção da igreja e preciso saber por quê. O que estão dizendo a

respeito dela?

— O Magisterium está fervilhando de especulações; um grupo

de um setor diz uma coisa, uma outra facção está investigando outra e

cada uma delas está tentando esconder suas descobertas das outras.

Os grupos mais ativos são o Tribunal Consistorial de

Disciplina e a Sociedade da Obra do Espírito Santo — disse Lorde

Roke. - Tenho espiões em ambos.

— Então conseguiu atrair um membro da Sociedade? —

comentou Lorde Asriel. — Meus parabéns. Eles costumavam ser

inexpugnáveis.

— Meu espião na Sociedade é Lady Salmakia — disse Lorde

Roke —, uma agente muito hábil. Há um padre cujo daemon é um camundongo, que ela abordou quando dormiam. Minha agente

sugeriu que o homem realizasse um ritual proibido, destinado a

invocar a presença da Sabedoria. No momento crítico, Lady

Salmakia apareceu diante dele. O padre agora pensa que pode se

comunicar com a Sabedoria sempre que quiser, e que ela tem a

forma de uma galivespiana e que mora na estante de livros dele.

Lorde Asriel sorriu e perguntou:

— E o que ela descobriu?

— A Sociedade acredita que sua filha é a criança mais

importante que jamais viveu. Eles acham que uma grande crise

ocorrerá dentro de pouco tempo e que o destino de tudo dependerá

de como ela se com portar nessa ocasião. Quanto ao Tribunal

Consistorial de Disciplina, no momento eles estão conduzindo um

inquérito, ouvindo testemunhas de Bolvangar e de outros lugares.

Meu espião no Tribunal, o Cavaleiro Tialys, mantém contato comigo

todos os dias através do magneto ressonante, e tem me mantido

informado sobre o que eles descobrem. Em resumo, eu diria que a

Sociedade da Obra do Espírito Santo descobrirá, muito brevemente,

onde está a menina, mas não tomarão nenhuma medida. O Tribunal

Consistorial levará um pouco mais de tempo, mas quando

descobrirem agirão de maneira decisiva e imediatamente.

— Avise-me assim que souber de mais alguma coisa.

Lorde Roke fez uma mesura e estalou os dedos; o pequeno falcão

azul fêmea, pousado no suporte de metal junto à porta, abriu as asas e

planou até a mesa. Tinha rédeas, sela e estribos. Em um segundo

Lorde Roke montou em seu dorso e saíram voando pela janela que

Lorde Asriel estava mantendo aberta para eles.

Ele deixou a janela aberta por um minuto, a despeito do ar

gelado, e se reclinou no banco embutido sob a janela, brincando

com as orelhas de seu daemon pantera branca.

— Ela veio me procurar em Svalbard e eu a ignorei — disse.

— Você se lembra do choque que levei. . . precisava oferecer um

sacrifício e a primeira criança a chegar foi minha própria filha... Mas

quando percebi que havia uma outra criança com ela, de modo que

estaria segura, eu relaxei. Será que foi um erro fatal? Depois disso

não dei nenhuma atenção a ela, nem por um momento, mas ela é

importante, Stelmaria!

— Vamos pensar com clareza — respondeu o daemon. — O

que ela pode fazer?

— Fazer. . . não muito. Será que ela sabe de alguma coisa?

— Lyra sabe ler o aletômetro; ela tem acesso ao conhecimento.

— Isso não é nada de especial. Outros também têm. E onde,

por todos os infernos, ela pode estar?

Alguém bateu à porta atrás dele e Lorde Asriel se virou

imediatamente.

— Milorde — disse o oficial que entrou —, um anjo acabou

de chegar ao portão oeste, está ferido, ele insiste em falar com o

senhor.

E, um minuto depois, Baruch estava deitado na cama de

campanha que havia sido trazida para o aposento principal. Um

ordenança médico havia sido chamado, mas era evidente que havia

pouca esperança para o anjo: estava terrivelmente ferido, as asas

rasgadas e os olhos baços.

Lorde Asriel sentou perto dele e atirou um punhado de ervas

nos tições do braseiro. Como Will havia descoberto com a fumaça de

sua fogueira, isso teve o efeito de definir o corpo do anjo, de modo

que pôde vê-lo mais claramente.

— Bem, senhor — disse Lorde Asriel —, que informações

tem para mim?

— Três coisas. Por favor, deixe-me contar todas elas antes de fa

lar. Meu nome é Baruch. Meu companheiro Balthamos e eu somos

do grupo rebelde, de maneira que quisemos lutar a seu lado, assim

que o senhor levantou seu estandarte. Mas queríamos trazer-lhe

alguma coisa valiosa, porque nosso poder é pequeno e, não faz muito

tempo, conseguimos descobrir o caminho e chegar ao coração

da Montanha Nublada, a cidadela da Autoridade no Reino. E lá

descobrimos. . .

Ele teve que parar um instante para respirar e absorver a

fumaça das ervas, que pareceu acalmá-lo. Então prosseguiu:

— Descobrimos a verdade a respeito da Autoridade.

Descobrimos que ele se isolou numa câmara de cristal nas profundezas

do interior da Montanha Nublada e que não se ocupa mais das

questões do dia-a-dia do Reino. Em vez disso, contempla mistérios

mais profundos. Em seu lugar, governando em seu nome, está um

anjo chamado Metatron.

Tenho motivos para conhecer bem esse anjo, embora na ocasião

em que o conheci. . .

A voz de Baruch se calou. Os olhos de Lorde Asriel soltavam

fa-gulhas, mas ele controlou a língua e esperou que Baruch

continuasse.

— Metatron é orgulhoso — prosseguiu Baruch, depois de recu

perar um pouco as forças — e sua ambição é ilimitada. A Autoridade

o escolheu quatro mil anos atrás para ser seu Regente e fizeram seus

planos juntos. Eles têm um novo plano, que meu companheiro e eu

conseguimos descobrir. A Autoridade acredita que os seres

conscientes de todos os tipos se tomaram perigosamente

independentes, de modo que Metatron vai intervir muito mais

ativamente nas questões humanas.

Ele pretende transferir secretamente a Autoridade da Montanha Nu

blada para uma cidadela permanente, em algum outro lugar, e transfor

mar a montanha numa máquina de guerra. Em sua opinião, as

igrejas em todos os mundos são corruptas e fracas, fazem concessões

com muita facilidade. . . ele quer instaurar uma inquisição

permanente, controlada diretamente a partir do Reino. E a primeira

campanha dele será destruir sua república. . .

Agora os dois estavam tremendo, o anjo e o homem, mas um de

fraqueza e o outro de excitação.

Baruch reuniu o que restava de suas forças e prosseguiu:

— A segunda coisa é a seguinte. Existe uma faca que corta

aberturas entre os mundos, bem como qualquer coisa que existir

neles. Seu poder é ilimitado, mas somente nas mãos daquele que

souber usá-la. E esta pessoa é um menino. . .

Mais uma vez o anjo teve que parar para se recuperar. Estava

com muito medo; sentia que estava se desvanecendo. Lorde Asriel

percebeu o esforço que ele estava fazendo para se manter inteiro e

ficou tenso, sentado, agarrando os braços da cadeira até que Baruch

encontrou forças para continuar.

— Meu companheiro está com esse menino, agora.

Queríamos trazê-lo diretamente ao senhor, mas ele se recusou a vir,

porque. . . Esta é a terceira coisa que tenho que lhe contar: ele e sua

filha são amigos. E ele não aceitará vir enquanto não a encontrar.

Ela está —

— Quem é esse menino?

— É o filho do xamã. De Stanislaus Grumman.

Lorde Asriel ficou tão surpreendido que involuntariamente se

levantou, lançando rolos de fumaça na direção do anjo.

— Grumman tinha um filho — perguntou. — Grumman não nasceu em seu mundo. Seu nome

também

não era Grumman. Meu companheiro e eu fomos levados a ele exata

mente por seu desejo de encontrar a faca. Nós o seguimos, sabendo

que ele nos conduziria à faca e a seu portador, com a intenção de

trazer o portador ao senhor. Mas o garoto se recusou a vir. . .

Mais uma vez Baruch precisou parar. Lorde Asriel tornou a

sentar, amaldiçoando sua própria impaciência, e salpicou mais

algumas ervas no fogo. Seu daemon estava deitado bem perto, a

cauda varrendo lentamente o chão de carvalho, os olhos dourados de

pantera jamais se despregando do rosto contorcido de dor do anjo.

Baruch respirou devagar várias vezes e Lorde Asriel se manteve em

silêncio. O bater da corda no mastro, lá no alto, era o único som que

se fazia ouvir.

— Vá com calma, senhor — disse Lorde Asriel com gentileza.

— Sabe onde está minha filha?

— Himalaia. . . em seu próprio mundo — sussurrou Baruch.

— Grandes montanhas. Uma caverna próxima a um vale cheio de

arco-íris. . .

— Fica a uma enorme distância daqui em ambos os mundos.

Você voou muito depressa.

— Este é o único dom que possuo — disse Baruch —, exceto

o amor de Balthamos, a quem nunca mais verei.

— E se o senhor a encontrou tão facilmente —

— Então qualquer outro anjo também poderá encontrar.

Lorde Asriel pegou um atlas no gaveteiro de mapas e o abriu,

procurando as páginas que mostravam o Himalaia.

— Poderia ser preciso? — perguntou. — Pode me mostrar

exatamente onde?

— Com a faca. . . — Baruch tentou dizer e Lorde Asriel

percebeu que sua mente estava divagando: — Com a faca ele pode

entrar e sair de qualquer mundo que quiser. . . O nome dele é Will.

Mas eles estão correndo perigo, ele e Balthamos. .. Metatron sabe

que descobrimos seu segredo. Eles nos perseguiram. . . Eles me

apanharam sozinho nas fronteiras de seu mundo. . . eu era irmão

dele. . . foi por isso que descobrimos o caminho na Montanha

Nublada. Metatron um dia foi Enoque, filho de Jared, filho de

Mahalalel. . . Enoque teve muitas esposas. Amava os prazeres da carne... Meu irmão Enoque me expulsou,porque eu. . . Ah, meu caro

Balthamos. . .

— Onde está a garota?

— Sim. Sim. Uma caverna. . . a mãe dela. . . vale cheio de

ventos e arco-íris. . . bandeirolas rasgadas no relicário. . .

Ele se levantou na cama para olhar para o atlas.

Então a pantera branca levantou-se de um salto, num

movimento rápido e pulou para a porta, mas era tarde demais. O

ordenança que bateu à porta abriu sem esperar. Era assim que as

coisas eram feitas; não era culpa de ninguém, mas ao ver a

expressão no rosto do soldado, que olhava para além dele, Lorde

Asriel se virou e viu Baruch lutando e tremendo de esforço, na

tentativa de manter inteira sua forma ferida. O esforço foi mais do

que ele podia suportar. Uma corrente de vento vinda da porta

aberta enviou uma lufada de ar para cima da cama e as partículas

da forma do anjo, frouxas devido à sua força que se esvaía,

rodopiaram para o alto ao acaso e desapareceram.

— Balthamos! — veio um sussurro do ar.

Lorde Asriel pôs a mão no pescoço de seu daemon pantera; ela

o sentiu tremer e o acalmou. Ele se virou para o ordenança.

— Milorde, desculpe-me —

— Não foi culpa sua. Leve meus cumprimentos ao Rei Ogunwe.

Gostaria que ele e meus outros comandantes viessem até aqui

imediatamente. Também gostaria que o Sr. Basilides estivesse presente,

com o aletômetro. Finalmente, quero que a Esquadrilha nº 2 de

girópteros seja armada e abastecida, bem como um zepelim tanque, e

que estejam prontos para decolar imediatamente rumo ao sudoeste.

Enviarei ordens complementares quando estiverem no ar.

O ordenança bateu continência e, com mais um olhar rápido e

constrangido para a cama vazia, saiu e fechou a porta.

Lorde Asriel batucou no tampo da escrivaninha com um

compasso de metal e cruzou o aposento, indo até a janela aberta que

dava para o sul. Na distância abaixo, as fogueiras sempre acesas

lançavam sua luz e fumaça no ar sombrio e mesmo àquela grande

altura o bater de martelos podia ser ouvido em meio ao uivar do

vento.

— Bem, descobrimos um bocado de coisas, Stelmaria — disse

ele em voz baixa.

— Mas não o suficiente.

Houve outra batida à porta e o aletometrista entrou. Era um

homem pálido, magro, de meia-idade; seu nome era Teukros

Basilides e seu daemon era um rouxinol.

— Sr. Basilides, boa noite — disse Lorde Asriel. — Vou explicar

qual é o nosso problema e gostaria que pusesse de lado tudo o mais

enquanto trata dele. . .

Então ele relatou ao homem o que Baruch havia contado e

mostrou o atlas.

— Localize a tal caverna — instruiu. — Obtenha as coordenadas

com tanta precisão quanto for possível. Comece imediatamente, por favor.