A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 3 de 39

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A Luneta Âmbar

2. Balthamos e Baruch

BALTHAMOS E

 

BARUCH

 

... ENTÃO UM ESPÍRITO PASSOU POR DIANTE DE

MIM; FEZ-ME ARREPIAR OS CABELOS DA MINHA

CARNE.

LIVRO DE JÓ 4,15

 

Fique calado — disse Will. — Apenas trate de ficar calado. Não

me perturbe.

Isso foi logo depois de Lyra ter sido levada, logo depois de Will

ter descido do topo da montanha, logo depois de a bruxa ter matado

seu pai. Will acendeu a lamparina de latão que havia tirado da bolsa

de pele de seu pai, usando os fósforos que havia encontrado junto, e

agachou-se na reentrância do rochedo para abrir a mochila de Lyra.

Ele tateou lá dentro com a mão boa e encontrou o pesado

aletômetro embrulhado no veludo. O instrumento brilhou como sob

a luz da lamparina e Will o estendeu para as duas formas que estavam

a seu lado, as formas que diziam ser anjos.

— Sabem ler isso? — perguntou.

— Não — disse uma voz. — Venha conosco. Precisa vir. Venha

agora, vamos levar você a Lorde Asriel.

— Quem mandou vocês seguirem meu pai? Disseram que ele

não sabia que o estavam seguindo. Mas ele sabia — disse em tom

feroz.

— Ele me avisou que podia esperar que aparecessem. Sabia

mais coisas que imaginavam. Quem enviou vocês?

— Ninguém nos enviou. Apenas nós mesmos — veio a voz. —

Queremos servir Lorde Asriel. E o homem morto, o que ele queria que você fizesse com a faca?

Will foi forçado a hesitar.

— Ele disse que deveria levá-la para Lorde Asriel — admitiu.

— Então venha conosco.

— Não. Não, enquanto eu não encontrar Lyra.

Ele dobrou o veludo sobre o aletômetro e o enfiou em sua bolsa

de lona. Uma vez seguro de que estava bem guardado, pôs a mochila no

ombro, enrolou-se no pesado manto de seu pai para proteger-se da chuva e agachou-se onde estava olhando com firmeza para as duas sombras.

— Vocês dizem a verdade? — perguntou.

— Sim.

— Então são mais fortes ou mais fracos que seres humanos?

— Mais fracos. Vocês têm carne de verdade, nós não temos.

Apesar disso, você tem de vir conosco.

— Não. Se sou mais forte, vocês têm que me obedecer. Além

disso, eu tenho a faca. De modo que posso ordenar: ajudem-me a

encontrar Lyra. Não me importa quanto tempo vai levar,

primeiro vou encontrá-la e depois irei ver Lorde Asriel.

Os dois vultos ficaram em silêncio durante vários segundos.

Então se afastaram um pouco e conversaram entre si, embora Will não

conseguisse ouvir nada do que diziam.

Finalmente se aproximaram de novo e ele ouviu:

— Muito bem. Você está cometendo um erro, embora não nos

deixe opção. Vamos ajudá-lo a encontrar essa criança.

Will forçou os olhos tentando penetrar a escuridão e vê-los mais

claramente, mas a chuva o impediu.

— Cheguem mais perto para que eu possa vê-los.

Eles se aproximaram, mas pareceram se tornar ainda mais obscuros.

— Verei vocês melhor à luz do dia?

— Não, pior. Não somos de uma hierarquia muito elevada entre

os anjos.

— Bem, se eu não consigo ver vocês, mais ninguém vai

conseguir, de modo que podem se manter escondidos. Vejam se

conseguem descobrir para onde Lyra foi. Ela certamente não pode

estar muito longe. Havia uma mulher, deve estar com ela, foi a mulher

que levou Lyra.

Andem, tratem de procurar e voltem para me contar o que virem.

Os anjos se elevaram no ar em meio à tempestade e

desapareceram. Will sentiu uma grande e pesada melancolia apoderar-

se dele; já lhe restava muito pouca força antes da luta com seu pai e agora estava praticamente exausto. Tudo o que queria era fechar os

olhos que estavam pesados e doloridos de tanto chorar.

Puxou o manto sobre a cabeça, abraçou a mochila de lona e

adormeceu imediatamente.

 

— Não estão em lugar nenhum.

Will ouviu isso lá das profundezas do sono e se esforçou para

acordar. Finalmente (e levou mais de um minuto, porque estava profundamente adormecido) conseguiu abrir os olhos para a manhã que

tinha diante de si.

— Onde estão vocês?

— Ao seu lado — respondeu um anjo. — Deste lado.

O sol havia acabado de nascer e as rochas, os líquenes e musgos

que as cobriam cintilavam frescos e brilhantes sob a luz da manhã, mas

em lugar nenhum ele conseguia ver algum vulto.

— Eu disse que seria mais difícil nos ver à luz do dia —

continuou a voz. — Você vai nos ver melhor à meia-luz, no

crepúsculo ou ao raiar do dia; a segunda melhor situação é quando estiver escuro; e a pior situação é sob a luz do sol. Meu companheiro

e eu procuramos mais abaixo na montanha e não encontramos nem a

mulher nem a criança. Mas há um lago de água azul onde ela deve ter

acampado. Tem um homem morto lá e uma bruxa comida por um

Espectro.

— Um homem morto? Como ele é?

— Devia ter seus 60 anos. Corpulento e de pele lisa. Cabelos

grisalhos. Vestia roupas caras e havia vestígios de um perfume forte ao

redor dele.

— Sir Charles — disse Will. — Esse que descreveu é Sir Charles. A

Sra. Coulter deve tê-lo matado. Bem, pelo menos isso é uma boa notícia.

— Ela deixou pistas. Meu companheiro as seguiu e voltará quan

do tiver descoberto para onde ela foi. Eu vou ficar com você.

Will se levantou e olhou em volta. A tempestade tinha limpado a

atmosfera e a manhã estava fresca e clara, o que apenas tornava o

cenário ao seu redor mais perturbador e aflitivo; pois nas proximidades

jaziam os corpos de várias das bruxas que haviam escoltado Will e

Lyra até o local do encontro com o pai dele. Um corvo comedor de

carniça, de bico brutal, já estava atacando o rosto de uma delas e Will

podia ver um pássaro maior, voando em círculos mais acima, como se

estivesse escolhendo o melhor para se banquetear.

Will examinou os corpos, um de cada vez, mas nenhum deles era

o de Serafina Pekkala, a rainha do clã de bruxas e amiga pessoal de Lyra.

Então se lembrou: ela não tinha partido de repente, para cuidar de uma

outra tarefa, não muito antes do anoitecer?

De modo que ainda poderia estar viva. Aquele pensamento o

alegrou; Will vasculhou o horizonte em busca de algum sinal dela,

mas não encontrou nada exceto céu azul e rochas pontiagudas em

todas as direções para onde olhou.

— Onde você está? — perguntou ao anjo.

— Ao seu lado — veio a voz —, como sempre.

Will olhou para a esquerda, onde estava a voz, mas não viu nada.

— Então ninguém pode ver você. Alguma outra pessoa poderia

ouvi-lo tão bem quanto eu?

— Não se eu sussurrar — respondeu o anjo em tom ríspido e

rabugento.

— Qual é o seu nome? Vocês têm nomes?

— Temos. Meu nome é Balthamos. O de meu companheiro é

Baruch.

Will refletiu sobre o que fazer. Quando você escolhe um caminho

dentre muitos, todos os caminhos que você não segue são apagados

como se fossem velas, como se nunca tivessem existido. Naquele momento todas as escolhas de Will existiam simultaneamente. Mas

fazer com que todas elas continuassem existindo significava não fazer

nada. Ele tinha que escolher, apesar de tudo.

— Vamos tornar a descer a montanha — decidiu. — Vamos até

aquele lago. Pode ser que haja alguma coisa por lá que eu possa

aproveitar. E, de qualquer maneira, estou ficando com sede. Vou

seguir pelo caminho que acho que vai para lá e você pode me guiar se

eu errar.

Só quando já estava andando há vários minutos, descendo pela

encosta rochosa sem nenhuma trilha, foi que Will se deu conta que sua

mão não estava mais doendo. Na verdade, não tinha pensado no ferimento desde que havia acordado.

Will parou e examinou a atadura de linho que seu pai havia

colocado em volta de sua mão depois da luta. Estava melada com o

ungüento que ele havia espalhado sobre os ferimentos, mas não havia

nenhum sinal de sangue e depois dos sangramentos incessantes que

tinha sofrido desde que havia perdido os dedos, aquilo era tão bom que

sentiu o coração quase que saltar de alegria.

Experimentou mexer os dedos. Era verdade que os ferimentos

ainda doíam, mas era um tipo diferente de dor: não aquela dor

profunda, que o consumia e lhe engolia a vida, do dia anterior, mas

uma sensação menor, mais embotada. Parecia que estava se curando. O

pai dele tinha feito isso. O feitiço das bruxas tinha fracassado, mas seu

pai o havia curado.

Então continuou a descer pela encosta, sentindo-se mais animado.

Foram necessárias três horas e várias palavras de orientação até

que chegasse ao pequeno lago azul. Quando afinal o alcançou, estava

morto de sede e, sob o sol forte, o manto pareceu-lhe pesado e quente;

embora sentisse falta de sua proteção depois que o tirou, pois seus braços e o pescoço nus ardiam. Largou o manto e a bolsa de lona no

chão e correu os últimos metros até a água, deixando-se cair nela com o

rosto sedento e bebendo um gole após o outro de água supergelada.

Estava tão gelada que fez seus dentes e a cabeça doerem.

Depois de ter matado a sede, levantou a cabeça e ficou sentado

olhando em torno. Não estivera em condições de reparar em coisa alguma no dia anterior, mas agora via mais claramente a cor intensa da

água e ouvia os ruídos estridentes dos insetos por toda parte.

— Balthamos?

— Sempre aqui.

— Onde está o homem morto?

— Depois daquele pedregulho alto, à sua direita.

— Há Espectros por aqui?

— Não, nenhum.

Will pegou a mochila de lona e o manto e foi contornando o

lago, seguindo pela beira, depois subiu até o pedregulho que Balthamos tinha indicado.

Atrás dele um pequeno acampamento havia sido montado, com

cinco ou seis tendas e restos de fogueiras para cozinhar. Will se aproximou com cuidado, caso alguém ainda estivesse vivo e escondido.

Mas o silêncio era profundo, com o ruído dos insetos apenas

arranhando sua superfície. As tendas estavam desertas, a água plácida, com ondulações ainda se espalhando lentamente em círculos

a partir de onde ele havia bebido. Um lampejo de movimento verde

próximo de seu pé o sobressaltou por um instante, mas era apenas um

minúsculo lagarto.

As tendas eram feitas de tecido de camuflagem, o que as realçava

ainda mais, em meio às rochas vermelhas desbotadas. Examinou o

interior da primeira tenda e viu que estava vazia. A segunda também,

mas na terceira encontrou algo de valor: uma lata de rancho e uma

caixa de fósforos. Também havia uma tira de alguma substância escura, do mesmo comprimento e largura que seu antebraço. De

início, pensou que fosse couro, mas, sob a luz do sol, viu mais claramente e constatou que era carne-seca.

Bem, afinal, ele tinha uma faca. Cortou um pedaço fino e

descobriu que era meio dura de mastigar e ligeiramente salgada, mas

cheia de sabor bem gostoso. Colocou a carne e os fósforos junto com a

lata na bolsa de lona e revistou as outras tendas, mas estavam vazias.

Deixou a maior por último.

— É lá que está o homem morto? — perguntou para o ar.

— É — respondeu Balthamos. — Ele foi envenenado.

Will foi caminhando cautelosamente até a entrada, que dava

para o lago. Caído ao lado de uma cadeira de lona virada estava o

corpo do homem conhecido no mundo de Will como Sir Charles

Latrom e no mundo de Lyra como Lorde Boreal, o homem que havia

roubado o aletômetro de Lyra, roubo que, por sua vez, tinha conduzido Will ao encontro da faca sutil. Sir Charles havia sido hipócrita, desonesto e poderoso, e agora estava morto. O rosto dele

estava distorcido de maneira desagradável e Will não queria olhar

para ele, mas uma espiada rápida no interior da tenda revelou que ali

havia um bocado de coisas para roubar, de modo que passou por cima

do corpo para olhar melhor.

Seu pai, o soldado, o explorador, teria sabido exatamente o que

levar. Will tinha que adivinhar. Pegou uma pequena lupa num estojo

de metal, porque poderia usá-la para acender fogueiras e economizar os

fósforos; um carretel de barbante bem resistente; um cantil de liga de

metal, muito mais leve do que o recipiente de pele de cabra que estivera

carregando, e uma pequena caneca de latão; um binóculo pequenino,

um cilindro de moedas de ouro do tamanho de um polegar de homem, embrulhado em papel; uma caixa de primeiros socorros; tabletes para purificar água; um pacote de café; três pacotes de frutas

secas prensadas; um saco de biscoitos de aveia; seis barras de Kendal

Mint Cake; um saco de anzóis de pesca e linha de náilon e, finalmente, um bloco de anotações e um par de lápis e uma pequena

lanterna elétrica. Arrumou tudo isso em sua bolsa de lona, cortou

outra fatia de carne, encheu a barriga e depois o cantil com água do

lago e perguntou para Balthamos:

— Acha que preciso de mais alguma coisa?

— Um pouco de bom senso lhe seria útil — veio a resposta. —

Alguma faculdade para tornar você capaz de reconhecer a sabedoria e

mais inclinado a respeitá-la e obedecê-la.

— Você é sábio?

— Muito mais do que você.

— Bem, como vê, eu não saberia dizer. Você é homem? Fala

como homem.

— Baruch era homem. Eu não. Agora ele é angelical.

— Então — Will interrompeu o que estava fazendo, que era ar

rumar a bolsa de lona de modo que os objetos mais pesados ficassem

no fundo, e tentou ver o anjo. Não havia nada para ver. — Então ele

era um homem — prosseguiu — e então. . . As pessoas se tornam

anjos quando morrem? É isso que acontece?

— Nem sempre. Não na grande maioria dos casos. . . Muito

raramente.

— Então quando ele esteve vivo?

— Há quatro mil anos, mais ou menos. Eu sou muito mais velho.

— E ele vivia no meu mundo? No de Lyra? Ou neste aqui?

— No seu. Mas existem miríades de mundos. Você sabe disso.

— Mas como as pessoas se tornam anjos?

— Qual é o objetivo dessa especulação metafísica?

— Só quero saber.

— É melhor cuidar de sua tarefa. Você saqueou os objetos

pessoais desse morto, tem todos os brinquedos de que precisa para se

manter vivo; agora podemos seguir adiante?

— Quando eu souber para onde ir.

— Para onde quer que escolhamos ir, Baruch nos encontrará.

— Então ele nos encontrará mesmo se ficarmos aqui. Tenho

mais umas coisas a fazer.

Will sentou num lugar de onde não pudesse ver o corpo de Sir

Charles e comeu três quadrados do Kendal Mint Cake. Era maravilhoso como foi se sentindo refeito e fortalecido à medida que a

comida começou a nutri-lo. Então examinou novamente o aletômetro.

As 36 pequeninas ilustrações pintadas sobre o marfim eram todas perfeitamente claras: não havia dúvida de que isso era um bebê, aquilo

uma marionete, isso uma bisnaga de pão e assim por diante. O que era

obscuro era o que elas significavam.

— Como Lyra lia isso? — perguntou a Balthamos.

— É muito possível que ela inventasse. As pessoas que usam

esses instrumentos estudaram durante muitos anos e mesmo assim só

podem compreendê-los com a ajuda de muitos livros de referência.

— Ela não estava inventando. Realmente sabia ler. Lyra me

disse coisas que de outra forma jamais poderia ter sabido.

— Então é igualmente misterioso para mim, posso lhe garantir

declarou o anjo.

Olhando para o aletômetro, Will se lembrou de uma coisa que

Lyra havia comentado sobre como ler: alguma coisa a respeito do

estado de relaxamento em que deveria pôr sua mente para fazer com

que funcionasse. Aquilo, por sua vez, o havia ajudado a sentir as sutilezas da lâmina de prata.

Sentindo curiosidade, pegou a faca e cortou uma pequena janela

bem na frente de onde estava sentado. Através dela não viu nada

exceto o ar azul, porém abaixo, muito abaixo, havia uma paisagem de

árvores e campos: era seu próprio mundo, sem sombra de dúvida.

Então as montanhas neste mundo não correspondiam a

montanhas no mundo dele. Fechou a janela, usando a mão esquerda

pela primeira vez. Que felicidade poder usá-la de novo!

Então uma idéia ocorreu-lhe tão subitamente, que foi como se

tivesse levado um choque elétrico.

Se existiam miríades de mundos, por que a faca só abria janelas

entre este mundo e o seu?

Certamente ela deveria poder cortar abrindo janelas para

qualquer um deles.

Ele levantou a faca de novo, deixando sua mente fluir seguindo

pela lâmina até chegar à ponta da faca como Giacomo Paradisi lhe

havia ensinado, até que sua consciência estivesse aninhada entre os

próprios átomos e sentisse cada minúsculo ponto e ondulação no ar.

Em vez de cortar tão logo sentiu a primeira fenda, como

geralmente fazia, deixou que a faca seguisse adiante para uma outra e

depois para mais uma outra. Era como seguir uma fileira de pontos

cirúrgicos enquanto os pressionava muito ligeiramente de maneira que

nenhum deles fosse danificado.

— O que está fazendo? — disse a voz saindo do ar e trazendo-o

de volta.

— Estou explorando — respondeu Will. — Fique calado e não

se meta no meu caminho. Se você chegar perto disso será cortado e,

como não posso ver você, não tenho como evitar.

Balthamos emitiu um som de descontentamento. Will estendeu

a faca novamente e procurou aquelas minúsculas paradas e hesitações

nas fendas. Havia um número muito maior delas do que tinha imaginado. E enquanto as sentia sem precisar cortá-las, imediatamente

descobriu que cada uma possuía uma característica diferente: esta aqui

era dura e definida, aquela ali meio indistinta; uma terceira era escorregadia, a quarta quebradiça e frágil. . .

Mas entre todas elas havia algumas que ele podia sentir com mais

facilidade que outras e, já conhecendo a resposta, cortou uma só para

ter certeza: era seu próprio mundo de novo.

Ele a fechou e procurou com a ponta da faca uma fenda com uma

característica diferente. Encontrou uma que era elástica e resistente e

deixou a faca deslizar para dentro dela e cortar.

Sim! O mundo que viu através daquela janela não era o seu: ali o

chão estava mais próximo e a paisagem não era de campos verdes e

cercas, mas um deserto com dunas ondulantes.

Will fechou aquela janela e abriu outra: a atmosfera carregada de

fumaça de uma cidade industrial, com uma fila de trabalhadores, acorrentados e de expressão sombria, caminhando penosamente para uma

fábrica.

Fechou aquela também e voltou a si. Sentia-se ligeiramente tonto.

Pela primeira vez compreendeu parte da dimensão do verdadeiro poder

da faca e a pousou muito cuidadosamente sobre a rocha à sua frente.

— Você vai ficar aqui o dia inteiro? — perguntou Balthamos.

— Estou pensando. Você só pode passar com facilidade de um

mundo para outro se o chão estiver no mesmo lugar. E talvez haja lu

gares em que está, e talvez seja nesses lugares que ocorram muitos cor

tes entre os mundos. . . E você teria que saber exatamente como é seu

próprio mundo com a ponta da faca, caso contrário poderia não con

seguir voltar nunca. Estaria perdido para sempre.

— Realmente. Mas será que poderíamos —

— E você teria que saber que mundo tem o chão no mesmo

lugar, caso contrário não haveria sentido em abri-lo — disse Will,

tanto para si mesmo quanto para o anjo. — De maneira que não é tão

fácil quanto eu havia imaginado. Talvez simplesmente tenhamos tido

sorte em Oxford e em Cittàgazze. Mas eu vou apenas. . .

Ele tornou a pegar a faca. Além da sensação bem nítida e

evidente que sentia quando tocava um ponto que abriria uma fenda

para seu mundo, tinha havido um outro tipo de sensação em que

havia tocado mais de uma vez: uma espécie de ressonância, como a

sensação de bater num tambor pesado de madeira, exceto, é claro, que

vinha, como todas as outras, num movimento minúsculo através do ar

vazio.

Lá estava ela. Ele se afastou e procurou sentir em outro lugar: lá

estava de novo.

Will fez um corte e descobriu que seu raciocínio estava correto. A

ressonância significava que o solo no mundo que ele havia aberto estava no mesmo lugar que neste. Estava olhando para uma campina

verdejante numa região montanhosa, sob um céu carregado, em que

um rebanho de animais plácidos pastavam — animais de um tipo que

nunca vira antes —, grandes como bisões, com chifres largos e de pêlo

azul comprido, com uma crista de pêlos duros eriçados descendo ao

longo de suas costas.

Ele entrou pela janela. O animal mais próximo levantou a

cabeça, olhou para ele sem curiosidade e então virou de volta para a

relva. Deixando a janela aberta, na campina do outro mundo, Will

levantou a faca, com sua ponta procurou os pontos familiares e experimentou abri-los.

Sim, ele podia abrir seu próprio mundo a partir daquele e ainda

estava bem acima das fazendas e das cercas; e sim, podia encontrar com

facilidade a ressonância sólida que era característica do mundo

Cittàgazze de onde acabara de sair.

Com uma profunda sensação de alívio, Will voltou para o

acampamento à beira do lago, fechando todas as janelas atrás de si.

Agora podia encontrar seu caminho de volta para casa; agora não se

perderia; agora poderia se esconder quando precisasse e se deslocar em

segurança.

Cada acréscimo no conhecimento vinha acompanhado de um

ganho em força. Ele embainhou a faca na cintura e jogou a mochila

sobre o ombro.

— Bem, agora está pronto? — disse a voz sarcástica.

— Estou. Posso explicar se quiser, mas não me parece muito

interessado.

— Ah, acho qualquer coisa que você faça uma fonte perpétua de

fascinação. Mas não se incomode comigo. O que vai dizer para aquelas

pessoas que estão chegando?

Will olhou em volta, espantado. Mais abaixo na trilha — bem

longe, muito mais abaixo — havia uma fileira de viajantes com cavalos

de carga, subindo em marcha regular em direção ao lago. Eles ainda não

o tinham visto, mas se ficasse onde estava, logo veriam.

Will recolheu o manto de seu pai, que havia estendido sobre um

pedregulho para tomar sol. Pesava muito menos, agora que estava seco.

Olhou ao redor: não havia mais nada que pudesse levar.

— Vamos seguir adiante — disse.

Gostaria de ter podido refazer o curativo, mas aquilo podia

esperar. Começou a andar junto da beira do lago, afastando-se dos

viajantes, e o anjo o seguiu, invisível na claridade do dia.

 

Muito mais tarde naquele dia eles desceram das montanhas de

rochas nuas, para um contraforte coberto de relva e rododendros

anões. Will estava louco para descansar e logo, decidiu, faria uma

parada.

O anjo tinha falado pouco. De tempos em tempos Balthamos

havia advertido: — Não vá por aí — ou: — Há um caminho mais

fácil à esquerda — e ele aceitava o conselho; mas na verdade estava

caminhando só por caminhar e para se manter longe daqueles viajantes, porque enquanto o outro anjo não voltasse com mais notícias, ele poderia muito bem ter ficado onde estavam.

Agora o sol estava se pondo, e Will achou que podia ver seu

estranho companheiro. A silhueta de um homem parecia tremular sob

a luz e o ar estava mais denso dentro dela.

— Balthamos? — chamou. — Quero encontrar um riacho.

Existe algum por perto?

— Há uma nascente um pouco mais abaixo na encosta — disse

o anjo —, logo acima daquelas árvores.

— Obrigado — agradeceu Will.

Encontrou a nascente e bebeu bastante água, enchendo o cantil.

Mas antes que pudesse descer até o pequeno bosque, ouviu uma exclamação de Balthamos e quando Will se virou avistou sua silhueta

movendo-se rapidamente pela encosta em direção — a quê? O anjo

era visível apenas como um lampejo de movimento e Will conseguia

vê-lo melhor se não olhasse diretamente para ele; mas Balthamos.pareceu fazer uma pausa e ouvir, então se lançou pelo ar

para deslizar rapidamente de volta para junto de Will.

— Aqui! — disse ele, e pela primeira vez sua voz não tinha

nenhum traço de desaprovação ou de sarcasmo. — Baruch veio

por aqui! E há uma daquelas janelas, quase invisível. Venha, venha.

Venha

logo.

Will o seguiu cheio de entusiasmo, o cansaço esquecido. A

janela, observou quando a alcançou, se abria para uma região sombria, de paisagem semelhante à tundra que era mais plana que as

montanhas no mundo Cittàgazze e mais fria, com um céu carregado.

Ele passou pela janela e Balthamos o seguiu imediatamente.

— Que mundo é este? — perguntou Will.

— É o mundo da garota. Foi por aqui que elas passaram e Baruch

também atravessou e foi em frente para segui-las. Estão indo para o sul,

já estão bem longe em direção ao sul.

— Como sabe? Você lê a mente dele?

— Claro que leio a mente dele. Aonde quer que ele vá, minha ca

beça vai com ele; sentimos as mesmas coisas, como se fôssemos um só,

embora sejamos dois.

Will examinou o terreno a seu redor. Não havia nenhum sinal de

vida humana e o ar frio estava ficando mais gelado, a cada minuto que

se passava, à medida que a luz ia morrendo.

— Não quero dormir aqui — declarou. — Vamos ficar no

mundo Cittàgazze para passar a noite e voltar para cá de manhã. Pelo

menos por lá tem lenha e podemos fazer uma fogueira. E agora que

seicomo é o mundo dela, posso encontrá-lo com a faca... Ah,

Balthamos?

Você pode assumir alguma outra forma?

— Por que eu haveria de querer fazer isso?

— Neste mundo, os seres humanos têm daemons e se eu aparecer

sem daemon, ficarão desconfiados. Lyra, inicialmente, teve medo de mim por causa disso. De modo que se formos viajar pelo mundo dela,

você vai ter que fingir que é meu daemon e assumir a forma de algum animal. Um pássaro, talvez. Assim pelo menos poderia voar.

— Ah, mas que coisa mais tediosa.

— Mas você pode fazer isso?

— Eu poderia. . . — Então faça agora. Deixe-me ver.

A silhueta do anjo pareceu se condensar e girar num pequeno

redemoinho no meio do espaço e então um melro rodopiou e pousou

na relva aos pés de Will.

— Voe para o meu ombro — disse Will.

O pássaro fez isso e depois falou no tom de voz ácido, já familiar,

do anjo:

— Eu só farei isso quando for absolutamente necessário. É

indescritivelmente humilhante.

— Sinto muito — retrucou Will. — Sempre que encontrarmos

gente neste mundo, você se tornará um pássaro. Não adianta reclamar

nem discutir. Apenas faça.

O melro levantou vôo de seu ombro e desapareceu no ar; em

seguida, lá estava o anjo de novo, emburrado na semi-obscuridade.

Antes de voltarem pela janela, Will examinou bem o terreno que o

cercava, farejando o ar, fazendo um reconhecimento do mundo onde

Lyra estava prisioneira.

— Onde está seu companheiro agora? — perguntou.

— Seguindo a mulher rumo ao sul.

— Então seguiremos nessa direção também, amanhã de manhã.

 

No dia seguinte, Will caminhou durante horas e não viu

ninguém. A região consistia, em sua maior parte, em pequenas colinas

cobertas por uma relva baixa, seca, e, sempre que se encontrava em

qualquer ponto mais elevado, ele olhava em volta buscando sinais de

habitação humana, mas não encontrou nenhum. A única variação naquele vazio poeirento verde-acastanhado era uma mancha distante

de um verde mais escuro, para onde Will se dirigiu, porque Balthamos

disse que era uma floresta e que lá havia um rio, que corria em direção

ao sul. Quando o sol estava em seu ápice, ele tentou e não conseguiu

dormir em meio a alguns arbustos baixos; e, à medida que o anoitecer

se aproximava, sentiu-se cansado e com os pés doloridos.

— Progresso lento — comentou Balthamos acidamente.

— Não posso fazer nada quanto a isso — retrucou Will. — Se

não puder dizer alguma coisa construtiva, é melhor não falar nada.

Quando finalmente alcançou as bordas da floresta, o sol estava

baixo e o ar carregado de pólen, tão carregado que Will espirrou várias

vezes, espantando um passarinho que voou piando com estridência de

algum lugar próximo.

— Foi a primeira coisa viva que vi hoje — observou Will.

— Onde vai acampar? — perguntou Balthamos.

Agora, ocasionalmente, o anjo ficava visível nas sombras alongadas

das árvores. O que Will conseguia ver de sua expressão era petulante.

— Vou ter que parar por aqui, em algum lugar — respondeu

Will. — Você poderia ajudar a procurar um bom local. Estou ouvindo

um riacho, veja se consegue encontrá-lo.

O anjo desapareceu. Will continuou andando penosamente, em

meio às moitas de urze e de mirtilo silvestre, desejando que houvesse

alguma coisa como um caminho para que seus pés seguissem e observando a luz com apreensão: teria que escolher onde parar

rapidamente, antes que a escuridão o obrigasse a fazê-lo sem opção de

escolha.

— À esquerda — disse Balthamos, a um braço de distância.

—Um riacho e uma árvore morta para servir de lenha. Por

aqui. . .

Will seguiu a voz do anjo e logo encontrou o local que ele havia

descrito. Um riacho corria rapidamente em meio à rochas cobertas de

musgo e desaparecia sobre uma protuberância numa fenda pequenina

e estreita, escura sob as árvores em arco. Junto ao riacho, uma margem

verdejante se estendia um pouco mais para trás até os arbustos e plantas rasteiras.

Antes de se permitir descansar, Will tratou de catar lenha e não

demorou a encontrar um círculo de pedras enegrecidas pelo fogo, em

meio à relva, onde alguma outra pessoa fizera uma fogueira em alguma

ocasião muito tempo antes. Juntou uma pilha de gravetos e de galhos

mais pesados e com a faca os cortou em achas de bom tamanho antes

de tentar acendê-los. Não sabia qual era a melhor maneira de fazer

aquilo e desperdiçou vários fósforos antes de conseguir acender as

chamas.

O anjo o observava com uma espécie de paciência fatigada.

Depois que a fogueira estava ardendo, Will comeu dois biscoitos

de aveia, um pedaço de carne-seca e um pouco do Kendal Mint Cake,

arrematando com uns goles de água gelada. Balthamos ficou sentado ali

perto e finalmente Will perguntou:

— Você vai ficar me vigiando o tempo todo? Não vou para lugar

nenhum.

— Estou esperando Baruch. Ele logo estará de volta e então

posso ignorar você, se quiser.

— Quer comer alguma coisa?

Balthamos se mexeu ligeiramente: estava tentado.

— Quero dizer, eu nem sei se você come — emendou Will,

mas se quiser alguma coisa, pode comer.

— O que é aquilo?. . . — perguntou o anjo cheio de melindres,

apontando para o Kendal Mint Cake.

— É um doce, acho que feito principalmente de açúcar e menta.

Tome.

Will partiu um quadrado e ofereceu na mão estendida.

Balthamos inclinou a cabeça e o cheirou. Então pegou o quadrado,

seus dedos leves e frios contra a palma da mão de Will.

— Creio que isto vai me alimentar — comentou. — Um

pedaço é mais que suficiente, obrigado.

Ficou sentado e foi mordiscando em silêncio. Will descobriu que

se olhasse para o fogo, com o anjo bem no canto de seu campo de

visão, tinha uma impressão mais forte dele.

— Onde está Baruch? — perguntou. — Ele pode se comunicar

com você?

— Sinto que ele está perto. Logo estará aqui. Quando ele voltar,

nós conversaremos. Conversar é melhor.

E menos de dez minutos depois o som suave de asas batendo

chegou aos ouvidos deles e Balthamos se levantou ansioso. No instante

seguinte os dois anjos estavam se abraçando e Will, contemplando as

chamas, observou a afeição mútua dos dois. Era mais que afeição: eles

se amavam apaixonadamente.

Baruch sentou ao lado de seu companheiro e Will mexeu no

fogo, de maneira que uma nuvem de fumaça subisse e passasse pelos

dois. A fumaça teve o efeito de delinear seus corpos, de modo que

pôde vê-los claramente pela primeira vez. Balthamos era esguio, as asas

estreitas dobradas elegantemente atrás dos ombros, e seu rosto tinha

uma expressão que mesclava desdém arrogante com uma terna e ardente simpatia, como se ele fosse capaz de amar todas as coisas se sua

natureza lhe permitisse esquecer seus defeitos. Mas ele não via defeitos

em Baruch, isto era evidente. Baruch parecia ser mais jovem, como Balthamos dissera que era, e era mais forte de constituição, as asas

brancas como neve e maciças. Era mais simples por natureza; olhava

para Balthamos como se este fosse a fonte de todo conhecimento e

felicidade. Will se deu conta de que estava intrigado e comovido com

o amor que tinham um pelo outro.

— Descobriu onde está Lyra? — perguntou, impaciente pelas

notícias.

— Encontrei — respondeu Baruch. — Há um vale do Himalaia,

fica muito alto, próximo de uma geleira, onde a luz é transformada em

arco-íris pelo gelo. Vou desenhar um mapa para você aqui na terra, para

que não deixe de encontrá-lo. A menina está prisioneira numa caverna,

a mulher a mantém adormecida.

— Adormecida? E a mulher está sozinha? Não há soldados com

ela?

— Está sozinha, sim. Se escondendo.

— E não aconteceu nada de mau com Lyra?

— Não. Está apenas adormecida e sonhando. Deixe-me mostrar

a você onde estão.

Com o dedo pálido, Baruch desenhou um mapa na terra nua

junto da fogueira. Will pegou o bloco de anotações e o copiou com

exatidão. Mostrava uma geleira com uma curiosa formação espiralada,

estendendo-se para baixo entre dois picos montanhosos quase idênticos.

— Agora — disse o anjo — vamos chegar mais perto. O vale on

de fica a caverna desce pelo lado esquerdo da geleira e um rio de água

de neve derretida corre através dele. O alto do vale fica aqui. . .

Ele desenhou outro mapa e Will também o copiou; e depois um

terceiro, cada vez chegando mais perto, de modo que Will sentiu que

encontraria o caminho para chegar lá sem dificuldade — desde que

cruzasse os sete ou oito mil quilômetros entre a tundra e as montanhas.

A faca era boa para cortar aberturas entre mundos, mas não era capaz

de abolir as distâncias que existiam dentro deles.

— Há um relicário perto da geleira — Baruch concluiu seu rela

to — com bandeirolas de seda vermelha meio rasgadas pelos ventos.

— E uma garotinha traz comida até a caverna. Eles acreditam

que a mulher

é uma santa que os abençoará se cuidarem de suas necessidades.

— É mesmo? — comentou Will. — E ela está se escondendo. . .

É isso que eu não compreendo. Se escondendo da igreja?

— Parece que sim.

Will dobrou os mapas e os guardou cuidadosamente. Tinha posto

a caneca de latão nas pedras na borda da fogueira para esquentar a água

e então salpicou um pouco de café solúvel dentro dela, mexendo com um

graveto, e enrolou a mão num lenço antes de pegá-la para beber.

Um graveto em chamas acomodou-se na fogueira; uma ave

noturna piou.

De repente, sem nenhum motivo que Will pudesse ver, os dois

anjos olharam para cima e na mesma direção. Acompanhou o olhar

deles, mas não viu nada. Certa ocasião, tinha visto sua gata fazer isso:

levantar de repente, alerta e desperta de seu cochilo, e ficar vigiando

alguma coisa ou alguém invisível entrar no quarto e atravessá-lo de

uma ponta à outra. Aquilo o havia deixado de cabelos em pé, e o que

estava acontecendo agora também.

— Apague a fogueira — sussurrou Balthamos.

Will pegou um punhado de terra com a mão boa e apagou as

chamas. Imediatamente, o frio o envolveu até os ossos e ele começou a

tremer. Puxou o manto enrolando-se nele e olhou para cima de novo.

E agora havia alguma coisa para ver: acima das nuvens uma

forma brilhava, e não era a lua.

Ouviu Baruch murmurar:

— A Carruagem? Será possível?

— O que é? — sussurrou Will.

Baruch se inclinou chegando bem perto dele e sussurrou em resposta:

— Eles sabem que estamos aqui. Nos encontraram. Will, pegue

a sua faca e

— Antes que pudesse terminar, alguma coisa se lançou do céu e

se abateu sobre Balthamos. Numa fração de segundo Baruch tinha

saltado sobre ela e Balthamos estava se torcendo para libertar sua asa. Os

três seres lutaram assim, indo para lá e para cá na semi-obscuridade,

como três enormes vespas apanhadas numa imensa teia de aranha, sem

emitir nenhum som: tudo o que Will podia ouvir eram os gravetos se

partindo e as folhas roçando enquanto eles lutavam.

Não podia usar a faca: todos se moviam muito depressa. Em vez

disso, tirou a lanterna elétrica da bolsa de lona e a acendeu.

Nenhum deles esperava por isso. O atacante abriu e levantou as

asas, Balthamos jogou o braço cobrindo os olhos e somente Baruch

teve a presença de espírito de se manter na posição em que estava.

Mas Will podia ver o que era, esse inimigo: um outro anjo, muito

maior e mais forte do que eles, e a mão de Baruch estava cravada

sobre sua boca.

— Will! — gritou Balthamos. — A faca, corte uma saída —

E no mesmo instante o atacante conseguiu se soltar

violentamente das mãos de Baruch e gritou:

— Senhor Regente! Eu os apanhei! A voz dele fez a cabeça de Will tinir; nunca havia escutado um

grito daqueles. E um instante depois o anjo teria levantado vôo e escapado, mas Will deixou cair a lanterna e saltou na frente dele. Já

havia matado um avantesma dos penhascos, mas usar a faca contra

um ser com uma forma igual à sua era muito mais difícil. A despeito

disso, envolveu as grandes asas que batiam em seus braços e golpeou

repetidamente as penas até que o ar se encheu de um redemoinho de

flocos brancos, lembrando-se, mesmo em meio à onda de sensações violentas, das palavras de Balthamos: Vocês têm carne de verdade, nós não. Os seres humanos eram mais fortes que os anjos e era verdade: ele estava levando o anjo ao chão.

O atacante ainda estava gritando naquela voz de arrebentar os

tímpanos:

— Senhor Regente! Para mim, para mim!

Will conseguiu lançar um olhar para o alto e viu as nuvens se

movendo e rodopiando, e aquele clarão — alguma coisa imensa —

ficando cada vez mais poderoso, como se as próprias nuvens estivessem se tornando luminosas, carregadas de energia, como plasma.

Balthamos gritou:

— Will, vamos embora e acabe logo com isso antes que ele venha —

Mas o anjo estava lutando violentamente e agora tinha consegui

do libertar uma das asas e estava fazendo força para se levantar do chão,

e Will tinha que continuar a segurá-lo, caso contrário o perderia. Baruch

correu para ajudá-lo e forçou a cabeça do atacante para trás.

— Não! — gritou Balthamos de novo. — Não! Não!

Ele se lançou sobre Will, sacudindo-lhe o braço, o ombro, as

mãos, e o atacante estava tentando gritar novamente, mas a mão de

Baruch cobria-lhe a boca. Do alto veio um profundo tremor, como um

poderosíssimo dínamo, um som quase baixo demais para se ouvir,

embora sacudisse até os próprios átomos do ar e desse solavancos na

medula dos ossos de Will.

— Ela está chegando — disse Balthamos, quase soluçando, e

naquele momento parte de seu medo se transmitiu para Will. — Por

favor, por favor Will —

Will olhou para o alto.

As nuvens estavam se abrindo e através da fenda escura um vulto

descia rapidamente: pareceu pequenino inicialmente, mas, à medida

que foi se aproximando, a cada segundo sua forma foi se tornando

maior e mais imponente. Vinha diretamente para eles, com inconfundível malignidade; Will teve certeza de que podia até ver seus

olhos.

— Will, você precisa — disse Baruch em tom aflito.

Will se levantou, com a intenção de dizer "Segure-o bem firme",

mas no instante em que as palavras vieram à sua mente, o anjo vergou

tombando contra o chão, se dissolvendo e se espalhando como névoa, e

depois desapareceu. Will olhou em torno, sentindo-se tolo e nauseado.

— Eu o matei? — perguntou com a voz trêmula.

— Você teve de fazer isso — disse Baruch. — Mas agora —

— Detesto isso — declarou Will, em tom inflamado —, eu

realmente, mas realmente detesto esse negócio de matar! Quando é que vai

parar?

— Nós temos que ir — interrompeu Balthamos em tom abati

do. — Depressa, Will, depressa, por favor —

Os dois estavam mortalmente assustados.

Will tateou o ar com a ponta da faca: qualquer mundo, desde que

saíssem daquele. Cortou rapidamente e olhou para o alto: aquele outro

anjo vindo do céu estava a apenas segundos de distância e sua expressão era aterradora. Mesmo àquela distância e mesmo naquele

segundo ou pouco mais, Will sentiu estar sendo examinado e vasculhado de uma ponta à outra de seu ser por um intelecto vasto,

brutal e impiedoso.

E, o que era pior, ele tinha uma lança — estava erguendo-a para

atirá-la

—E no instante que o anjo precisou para interromper seu vôo,

assumir uma posição ereta e levar o braço para trás para lançar a arma,

Will seguiu Baruch e Balthamos atravessando a abertura e fechou a

janela atrás de si. Enquanto seus dedos apertavam os últimos centímetros das bordas, sentiu uma onda de impacto de ar — mas

aquilo desapareceu, estava em segurança: era a lança que o teria trespassado naquele outro mundo.

Eles estavam nas areias de uma praia sob uma lua brilhante.

Árvores gigantescas parecendo samambaias cresciam a alguma distância

mais para o interior; dunas baixas se estendiam ao longo de quilômetros pela costa. Estava quente e úmido.

— Quem era aquele? — perguntou Will, tremendo, encarando

os dois anjos.

— Aquele era Metatron — respondeu Balthamos. — Você deve

ria ter —

— Metatron? Quem é ele? Por que atacou? E não minta para

mim.

— Temos que contar a ele — disse Baruch para seu

companheiro. — Você já deveria ter contado.

— Sim, deveria — concordou Balthamos —, mas estava

aborrecido com ele e preocupado com você.

— Conte agora, então — disse Will. — E lembre-se, não

adianta me dizer o que devo fazer, nada disso me interessa, nada. A única

pessoa que me interessa é Lyra, e minha mãe. E este — acrescentou para

Balthamos — é o objeto de toda aquela especulação metafísica, como

você a definiu.

— Creio que devemos contar a você nossas informações — disse

Baruch. — Will, o motivo por que nós dois estivemos procurando você

e por que devemos levar você até Lorde Asriel é o seguinte. Nós

descobrimos um segredo do Reino, do mundo da Autoridade, e

devemos compartilhá-lo com ele. Estamos seguros aqui? —

acrescentou, olhando ao redor.

— Não há alguma abertura?

— Este é um mundo diferente. Um universo diferente.

A areia onde estavam era macia e a curva da duna mais próxima,

convidativa. Sob a luz do luar podiam ver quilômetros de distância;

estavam absolutamente sozinhos.

— Então conte-me — disse Will. — Conte-me quem é

Metatron e qual é esse segredo. Por que aquele anjo o chamou de

Regente?

E o que é a Autoridade? É Deus?

Ele se sentou e os dois anjos, as formas tão nítidas, sob a luz do luar,

como jamais as vira antes, sentaram-se com ele. Balthamos começou a

falar em tom calmo.

— A Autoridade, Deus, o Criador, o Senhor, Yahweh, El,

Adonai, o Rei, o Pai, o Todo-Poderoso, todos esses são nomes que ele

deu a si mesmo. Ele nunca foi o criador. Ele era um anjo como nós, o

primeiro anjo, é verdade, o mais poderoso, mas era feito de Pó como

nós somos, e Pó é apenas um nome para o que acontece quando a

matéria começa a compreender a si mesma. A matéria ama a matéria.

E busca saber mais a respeito de si mesma, e o Pó adquire forma. Os

primeiros anjos se condensaram a partir do Pó e a Autoridade foi o

primeiro de todos. Ele disse aos outros, que vieram depois, que ele os

havia criado, mas era mentira. Um desses que vieram mais tarde era

mais esperto do que ele e ela descobriu a verdade, de modo que ele a

baniu. Nós ainda a ser vimos. E a Autoridade ainda prevalece no

Reino e Metatron é seu Regente.

Contudo, o essencial com relação ao que descobrimos na

Montanha Nublada, não podemos lhe contar. Juramos um ao outro

que o primeiro a ouvir seria Lorde Asriel."

— Então conte-me o que puder. Não me mantenha na ignorância.

— Descobrimos um meio de chegar à Montanha Nublada —

disse Baruch e prosseguiu imediatamente: — Desculpe-me; usamos

esses termos com demasiada facilidade. Às vezes é chamada de a

Carruagem. Não é um lugar fixo, ela se move de um lugar para outro.

Aonde quer que vá, é o coração do Reino, a cidadela dele, seu palácio.

Quando a Autoridade era jovem, não era cercada de nuvens, mas à

medida que o tempo passou, ele as foi reunindo em torno de si, cada

vez mais espessas. Ninguém vê o cume há milhares de anos. De modo

que a cidadela agora é conhecida como a Montanha Nublada.

— O que vocês descobriram lá?

— A Autoridade reside numa câmara no coração da montanha.

Não pudemos chegar perto, embora o tenhamos visto. Seu poder —

— Ele delegou grande parte de seu poder — interrompeu

Balthamos — para Metatron, como eu estava dizendo. Você viu como

ele é. Escapamos dele antes, e agora ele nos viu de novo, e o que é pior,

viu você e viu a faca. Eu bem que disse —

— Balthamos — interveio Baruch delicadamente —, não censu

re Will. Nós precisamos da ajuda dele, e ele não pode ser culpado por

não saber o que nós levamos tanto tempo para descobrir.

Balthamos virou o rosto.

— Então não vão me contar esse segredo de vocês? — perguntou

Will. — Tudo bem. Em vez disso, digam-me o seguinte: o que acon

tece quando morremos?

Balthamos olhou de volta para ele, surpreendido.

Baruch respondeu:

— Bem, existe um mundo dos mortos. Onde fica e o que

acontece lá, ninguém sabe. Meu espírito, graças a Balthamos, nunca

foi para lá; eu sou o que um dia foi o espírito de Baruch. O

mundo dos mortos é simplesmente uma escuridão para nós.

— É um campo de prisioneiros — disse Balthamos. —A

Autoridade o criou no princípio dos tempos. Por que quer saber?

Quando

chegar a hora você verá.

— Meu pai acabou de morrer, é por isso que quero saber. Ele te

ria me contado tudo o que sabia, se não tivesse sido morto. Você diz que

é um mundo, quer dizer um mundo como este, um outro universo?

Balthamos olhou para Baruch, que deu de ombros.

— E o que acontece no mundo dos mortos? — prosseguiu Will.

— É impossível dizer — respondeu Baruch. — Tudo a respeito

do mundo dos mortos é segredo. Nem as igrejas sabem; elas dizem a

seus seguidores que viverão no Céu, mas isso é mentira. Se as pessoas

soubessem. . .

— E o espírito de meu pai foi para lá.

— Sem sombra de dúvida, da mesma forma que incontáveis

milhões de pessoas que morreram antes dele.

Will sentiu sua imaginação tremer.

— E por que não foram procurar diretamente Lorde Asriel para

contar seu grande segredo, seja lá o que for — perguntou —, em vez

de procurarem por mim?

— Não tínhamos certeza — explicou Balthamos — de que acre

ditaria em nós, a menos que trouxéssemos uma prova de nossas boas

intenções. Dois anjos de baixo escalão, dentre todos os poderes com

que ele está lidando, por que haveria de nos levar a sério? Mas se

pudesse mos levar a faca para ele e seu portador, poderia nos ouvir. A

faca é uma arma poderosa e Lorde Asriel ficaria satisfeito de ter você a

seu lado.

— Bem, sinto muito — disse Will —, mas isso me parece mui

to fraco. Se tivessem alguma confiança em seu segredo, não precisariam

de uma desculpa para ver Lorde Asriel.

— Há um outro motivo — disse Baruch. — Sabíamos que

Metatron estaria em nosso encalço e queríamos nos assegurar de que a

faca não caísse em suas mãos. Se pudéssemos convencer você a

procurar Lorde Asriel antes, então pelo menos.

— Ah, não, isso não vai acontecer — disse Will. — Vocês estão

tornando mais difícil para mim a chance de alcançar Lyra, não mais fácil. Ela é a coisa mais importante e vocês a estão esquecendo

completamente. Bem, eu não estou. Por que simplesmente não vão

procurar

Lorde Asriel e me deixam em paz? Façam com que ele ouça. Poderiam voar até onde ele está muito mais rápido do que eu posso andar e,

primeiro, eu vou encontrar Lyra, haja o que houver. Façam isso.

Podem ir. Podem me deixar.

— Mas você precisa de mim — disse Balthamos em tom

arrogante —, porque posso fingir ser o seu daemon e no mundo de Lyra você chamaria atenção sem um daemon.

Will estava furioso demais para falar. Levantou-se e caminhou se

afastando 20 passos pela areia macia, então parou, pois o calor e a

umidade eram atordoantes.

Ele se virou e viu os dois anjos juntos, conversando

animadamente, e então os dois vieram até junto dele, humildes e

constrangidos, mas orgulhosos também.

Baruch disse:

— Sentimos muito. Eu vou seguir sozinho ao encontro de Lorde

Asriel e dar a ele nossa informação; também vou pedir que lhe mande

ajuda para encontrar a filha dele. Levará dois dias de vôo se eu navegar

corretamente.

— E eu ficarei com você — disse Balthamos.

— Bem — disse Will —, obrigado.

Os dois anjos se abraçaram. Então Baruch envolveu Will em seus

braços e o beijou em ambas as faces. O beijo foi leve e fresco, como as

mãos de Balthamos.

— Se continuarmos seguindo na direção de Lyra, você nos

encontrará? — perguntou Will.

— Eu nunca perderei Balthamos — respondeu Baruch e deu um

passo para trás.

Então ele saltou no ar, se elevou rapidamente no céu e

desapareceu em meio às estrelas que o salpicavam. Balthamos ficou

olhando na direção para onde ele se fora com anseio desesperado.

— Vamos dormir aqui ou deveríamos seguir adiante? —

perguntou finalmente, virando-se para Will.

— Dormir aqui — respondeu Will.

— Então durma, eu ficarei montando guarda contra qualquer

perigo. Will, eu fui rude com você e isso não foi correto de minha

parte. Você é quem tem que carregar o maior fardo e eu deveria ajudá-

lo, não censurá-lo. Vou tentar ser mais gentil daqui por diante.

Desse modo Will se deitou na areia morna e, em algum lugar ali

perto, pensou, o anjo estava montando guarda; mas aquilo não era grande consolo.

darei um jeito para escaparmos daqui, Roger, prometo. E Will está vindo,

tenho certeza de que está!

Ele não compreendeu. Abriu as palmas das mãos pálidas e sacudiu a

cabeça.

— Eu não sei quem é esse e ele não virá aqui — disse Roger —, e se

vier, ele não me conhecerá.

— Ele está vindo me buscar — disse ela —, e Will e eu, ah, não sei

como, Roger, mas juro que vamos ajudar. E não se esqueça de que temos

outras pessoas do nosso lado. Temos Serafina e temos Iorek, e