A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 23 de 39

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A Luneta Âmbar

22. Os SUSSURRANTES

gritando o nome de Lyra, de tal maneira que Lyra e Mentira

eram a mesma coisa.

Will estava com a menina apertada contra o peito, com o

ombro curvado para protegê-la, e a sentia tremer e soluçar contra

seu corpo; mas então enfiou a faca na madeira podre da porta e

cortou fora a tranca, dando um golpe rápido com a lâmina.

Então ele e Lyra, com os espiões ladeando-os montados em

suas libélulas dardejantes, entraram tropeçando no reino dos

espíritos enquanto o grito da harpia era duplicado e reduplicado

por outros na costa coberta pela neblina atrás deles.

Os SUSSURRANTES

 

BASTO COM DO OUTONO AS FOLHAS JUNCAM DE VALUMBROSA, AS

PLÁCIDAS RIBEIRAS, SOBRE AS QUAIS DENSA ARCADA SEMPRE ENRAMAM DA BELA ETRÚPIA OS ALTOS ARVOREDOS...

JOHN MILTON, CANTO I, 15

 

A primeira coisa que Will fez foi botar Lyra sentada e então

pegou o potinho de ungüento de musgo-sangüíneo e examinou a

ferida em sua cabeça. Estava sangrando muito, como é habitual em

feridas no couro cabeludo, mas o corte não era fundo. Ele rasgou

uma tira da fralda da camisa e limpou a ferida, depois passou

um pouco do ungüento no corte, tentando não pensar no estado

de imundície da garra que o fizera.

Os olhos de Lyra estavam vidrados e ela estava branca como giz.

— Lyra! Lyra! — chamou e a sacudiu de leve. — Agora

vamos, temos que ir embora.

Ela estremeceu dos pés à cabeça, respirou fundo, ainda

trêmula, e seus olhos se concentraram nele, cheios de um

intenso desespero.

— Will. . . eu não sei mais fazer direito, não consigo mais!

Não sei mais contar mentiras! Achava que era tão fácil, mas não

funcionou, é a única coisa que sei fazer e não funciona!

— Não é a única coisa que sabe fazer. Você sabe ler o

aletômetro, não sabe? Vamos lá, vamos ver onde estamos. Vamos

procurar Roger.

Ele a ajudou a se levantar e pela primeira vez olharam ao

redor para a terra onde ficavam os espíritos.

Encontravam-se numa grande planície que se estendia para

muito longe na neblina. A luz que lhes permitia enxergar era uma

luminescência baça, que parecia existir por toda parte com igual

intensidade, de modo que não havia realmente sombras nem luz

de verdade e tudo era de uma mesma cor encardida.

De pé no chão daquele espaço imenso estavam adultos e

crianças — fantasmas de pessoas —, tantos que Lyra não seria

capaz nem de calcular seu número. Pelo menos a maioria estava

de pé, embora alguns estivessem sentados e outros deitados sem

energia, ou adormecidos. Ninguém estava se mexendo, nem

correndo, nem brincando, embora muitos deles se virassem para

olhar para aqueles recém-chegados com uma curiosidade

temerosa nos olhos arregalados.

— Fantasmas — sussurrou ela. — Ê aqui que estão todos

eles, os espíritos de todo mundo que morreu. . .

Sem dúvida era porque ela não tinha mais Pantalaimon, mas

o fato é que se manteve agarrada, colada ao braço de Will, e ele

ficou satisfeito com isso. Os galivespianos tinham saído voando

adiante, e Will conseguia ver suas formas pequeninas e coloridas

dardejando e fazendo vôos rasantes sobre as cabeças dos

fantasmas, que olhavam para cima e os seguiam maravilhados;

mas o silêncio era imenso e opressivo, a luz cinza o enchia de

medo e a presença calorosa de Lyra a seu lado era a única coisa

que lhe passava a sensação de vida.

Atrás deles, do lado de fora do paredão, os gritos das harpias

ainda ecoavam ao longo da costa. Alguns, dentre aquele povo-

fantasma, estavam olhando para o alto apreensivamente, mas um

número maior deles olhava fixamente para Will e Lyra e então

começaram a se aproximar todos juntos. Lyra se encolheu e

recuou; ainda não tinha forças, por enquanto, para encará-los como

gostaria de fazer e foi Will quem falou primeiro.

— Vocês falam nossa língua? — perguntou. — Podem

falar?

Mesmo tremendo de frio, assustados e cheios de dor como estavam,

ele e Lyra tinham mais autoridade do que toda aquela massa

de mortos juntos. Aqueles pobres fantasmas tinham muito pouca

força e ao ouvir a voz de Will, a primeira voz clara que havia

soado ali em toda a memória dos mortos, muitos deles se

adiantaram, prontos para responder.

Mas só conseguiam sussurrar. Um som pálido, não mais

que um sopro suave, era tudo o que conseguiam emitir. E,

enquanto avançavam, empurrando-se uns aos outros e

desesperados, os galivespianos voaram baixo e começaram a

dardejar, ziguezagueando na frente deles para impedi-los de

chegar perto demais. As crianças fantasmas olharam para cima

com uma expressão de anseio apaixonado, e Lyra imediatamente

soube por que: achavam que as libélulas eram daemons; estavam desejando de todo coração que pudessem novamente ter seus

próprios daemons.

— Ah, mas eles não são daemons — Lyra não pôde se

conter, cheia de compaixão —, e se meu daernon estivesse aqui, vocês poderiam todos fazer carinho nele, juro —

E estendeu as mãos para as crianças. Os fantasmas

adultos se mantiveram mais atrás, indiferentes ou temerosos,

mas as crianças todas se aproximaram em massa. Tinham a

mesma substância que uma névoa espessa, pobrezinhas, e as

mãos de Lyra as atravessavam completamente, assim como as

de Will. Elas continuaram vindo, se aglomerando, leves e sem

vida, para se aquecer no sangue que fluía e nos corações que

batiam forte dos dois viajantes, e tanto Will quanto Lyra

sentiram uma sucessão de delicadas sensações de ligeiros toques

frios, à medida que os fantasmas passavam atravessando seus

corpos, aquecendo-se no caminho. As duas crianças vivas

sentiram que, pouco Í pouco, estavam começando a morrer também, não tinham uma reserva infinita de vida e de calor

para dar e já estavam com tanto frio mas as multidões fazendo

pressão e avançando pareciam que nunca iriam parar.

Finalmente Lyra teve que implorar a eles que parassem. Ela

levantou as mãos e disse:

— Por favor, gostaríamos de poder tocar todos vocês, mas

viemos aqui para procurar uma pessoa e preciso que me digam

onde ele está e como posso encontrá-lo. Ah, Will — disse ela

encostando a cabeça na dele —, gostaria de saber o que fazer!

Os fantasmas estavam fascinados com o sangue na testa de

Lyra. Brilhava vividamente como um fruto de azevim na semi-

obscuridade e vários deles tinham passado através dele, ansiando

pelo contato com algo tão vibrantemente vivo. Uma menina

fantasma, que quando estava viva devia ter tido nove ou dez

anos, levantou a mão timidamente para tentar tocar nele, depois

recuou temerosa; mas Lyra disse:

— Não tenha medo, a gente não veio aqui para machucar

vocês, falem com a gente, se puderem!

A menina fantasma falou, mas sua voz frágil, pálida, foi

apenas um sussurro.

— Foram as harpias que fizeram isso? Elas atacaram e

machucaram você?

— Machucaram — respondeu Lyra —, mas se é só isso

que podem fazer, não estou nem um pouco preocupada.

— Ah, mas não é. . . elas fazem coisa pior —

— O quê? O que elas fazem?

Mas pareciam relutantes em contar a ela. Sacudiram a

cabeça e mantiveram-se calados, até que um menino disse:

— Não é tão ruim pra eles que já estão aqui há centenas de

anos, porque você fica cansado depois desse tempo todo, elas não

conseguem mais te meter tanto medo.

— É com os novos que elas gostam mais de falar — disse a

primeira menina. — É tão... Ah, é tão horrível. Elas... eu não

posso contar a você.

As vozes deles não eram mais altas que o som de folhas secas

caindo. E eram apenas as crianças que falavam; os adultos

pareciam todos ter mergulhado numa letargia tão antiga que

poderiam nunca mais se mexer ou falar.

— Escutem — pediu Lyra —, por favor, escutem. Nós

viemos aqui, eu e meus amigos, porque temos que encontrar um

menino chamado Roger. Ele não está aqui há muito tempo, só há

algumas semanas,de modo que não deve ter conhecido muita

gente, mas se souberem onde ele está.

Mas, ao mesmo tempo em que falava, ela sabia que

poderiam ficar ali até se tornarem velhos, procurando por toda

parte e olhando cada rosto e, ainda assim, poderiam nunca ver

mais que uma minúscula fração dos mortos. Lyra sentiu o

desespero descer sobre seus ombros, tão pesado como se a harpia

estivesse empoleirada ali.

Contudo, ela cerrou os dentes e tentou manter o queixo

erguido. Nós chegamos aqui, pensou; de qualquer maneira, isso

já é uma parte que está feita.

A primeira menina fantasma estava dizendo alguma coisa

naquele pequeno sussurro perdido.

— Quer saber por que queremos encontrar o menino? —

perguntou Will. — Bem, Lyra quer falar com ele. Mas também

tem uma pessoa que eu quero encontrar. Eu quero encontrar

meu pai, John Parry. Ele também está aqui, em algum lugar, e

quero falar com ele antes de voltar para o mundo. Assim, por

favor, se puder, peça a Roger e peça a John Parry para virem falar

com Lyra e com Will. Peça a eles —

Mas, de repente, todos os fantasmas lhes deram as costas e

saíram correndo, inclusive os adultos, como folhas secas

espalhadas por uma súbita rajada de vento. Num instante o espaço

em volta das crianças ficou vazio e então eles ouviram por que:

gritos, berros, guinchos altos e agudos vinham do ar acima, e

então as harpias estavam em cima deles, com rajadas de fedor

pútrido, asas batendo e aqueles berros roucos, escarnecendo,

zombando, gargalhando, chacoteando.

Lyra encolheu-se no chão imediatamente, cobrindo as

orelhas, e Will, de faca em punho, agachou-se sobre ela. Podia

ver Tialys e Salmakia voando rapidamente na direção deles, mas

ainda estavam a alguma distância e ele teve apenas um instante

para observar as harpias enquanto giravam em círculos e

mergulhavam. Viu suas faces humanas abocanharem o ar, como

se estivessem comendo insetos, e ouviu as palavras que estavam

gritando — palavras de escárnio, palavras imundas, tudo sobre

sua mãe, palavras que faziam tremer seu coração; mas parte de

sua mente estava absolutamente fria e separada, pensando,

calculando, observando. Nenhuma delas queria chegar sequer

perto da faca.

Para ver o que aconteceria, ele se levantou. Uma delas —

podia ter sido a própria Sem-Nome — teve que se desviar

pesadamente para sair do caminho, porque ela estivera

mergulhando baixo, pretendendo fazer um vôo rasante logo acima

de sua cabeça. As asas pesadas bateram desastradamente e foi por

um triz que ela conseguiu mudar de direção. Will poderia ter

estendido o braço e cortado fora sua cabeça com a faca.

Mas, a essa altura, os galivespianos tinham chegado e os

dois estavam prontos para atacar, mas Will chamou:

— Tialys! Venha cá! Salmakia venha me ajudar!

Os dois pousaram em seus ombros e ele disse:

— Observem. Vejam o que elas fazem. Elas só chegam

perto e gritam. Acho que foi um erro, quando ela acertou Lyra.

Não acho que queiram realmente nos tocar. Podemos ignorá-las.

Lyra olhou para cima, os olhos arregalados. Os monstros

voavam fazendo círculos sobre a cabeça de Will, às vezes, a

apenas cerca de 30 centímetros de distância, mas sempre davam

uma guinada desviando-se para o lado ou para o alto no último

momento. Ele podia sentir que os espiões estavam loucos para

entrar em combate e as asas das libélulas tremendo de desejo de

sair dardejando velozmente pelo ar com seus cavaleiros letais,

mas eles se contiveram: viram que Will estava certo.

E aquilo teve um efeito sobre os fantasmas também: vendo

Will de pé sem medo e ileso, eles começaram a se movimentar

de volta, na direção dos viajantes. Observavam as harpias

cautelosamente, mas, apesar disso, a atração de carne e sangue

frescos, daquelas batidas fortes de coração, era demais para

resistirem.

Lyra se levantou para se juntar a Will. A ferida tinha aberto

de novo e sangue fresco escorria descendo por sua face, mas ela o

limpou com as costas da mão.

— Will — disse —, estou tão feliz por termos vindo aqui

juntos...

Ele ouviu uma inflexão na voz dela e viu uma expressão em seu

rosto que conhecia e de que gostava mais do que qualquer coisa

que jamais conhecera: mostravam que ela estava pensando em

fazer alguma coisa arriscada, mas que ainda não estava pronta

para falar disso.

Ele balançou a cabeça, para mostrar que tinha

compreendido.

A menina fantasma disse:

— Por aqui, venham conosco, vamos encontrá-los!

E os dois sentiram a mais estranha das sensações, como se

pequeninas mãos fantasmas estivessem se enfiando lá dentro e

puxando-lhes as costelas para fazer com que as seguissem.

E assim eles iniciaram a travessia da imensa planície deserta,

e as harpias voaram em círculos cada vez mais alto, acima deles,

gritando incessantemente. Mas mantiveram-se à distância e os

galivespianos voaram logo acima deles, vigilantes.

Enquanto iam caminhando, os fantasmas conversaram com

eles.

— Não me leve a mal — disse uma menina fantasma —,

mas onde estão seus daemons Desculpe a pergunta. Mas. . .

Presente na consciência de Lyra, em cada um dos segundos

que se passavam, estava seu querido Pantalaimon abandonado.

Para ela não era fácil falar, de modo que foi Will quem

respondeu:

— Deixamos nossos daemons do lado de fora — explicou

—, onde é mais seguro para eles. Vamos buscá-los depois. Você

tinha um daemon?

— Tinha — disse a menina fantasma —, o nome dele era

Sanling. . . Ah, eu o amava.. .

— E ele já tinha fixado uma forma definitiva? — perguntou

Lyra.

— Não, ainda não. Ele achava que ia ser um pássaro e eu

esperava que não, porque gostava dele bem peludo, à noite, em

minhacama. Mas cada vez mais ele era um pássaro. Como se

chama o seu daemon?

Lyra disse a ela e os fantasmas se aproximaram em bloco,

novamente animados. Todos eles queriam falar sobre seus

daemons, cada um deles.

— O meu se chamava Matapan —

— Costumávamos brincar de esconde-esconde, ela

mudava de forma como um camaleão e eu não conseguia vê-la,

era tão rápida —

— Uma vez machuquei meu olho e não conseguia ver e

ele me guiou o caminho inteiro, até chegar em casa —

— Ele não queria se fixar numa forma só, mas eu queria

crescer e costumávamos discutir —

— Ela gostava de se enroscar em minha mão e dormir —

— Eles ainda estão lá, em algum outro lugar? Nós os

veremos de novo?

— Não. Quando você morre, seu daemon simplesmente se

apaga como a chama de uma vela. Eu vi isso acontecer. Mas não

vi o meu Castor, nem pude me despedir —

— Eles não estão em lugar nenhum Têm que estar em

algum lugar. Meu daemon ainda está lá em algum lugar, sei que ele está!

Os fantasmas se acotovelando estavam animados e

impacientes, os olhos brilhantes e as faces calorosas, como se

estivessem tomando vida emprestada dos viajantes.

— Alguém aqui vem do meu mundo, onde não temos

daemons! — perguntou Will.

Um menino fantasma magro, mais ou menos de sua idade,

assentiu e Will virou-se para ele.

— Pois é — veio a resposta. — Não compreendíamos o

que eram daemons, mas sabíamos como era estar sem eles. Tem gente aqui de todos os tipos de mundos.

— Eu conheci o vulto de minha morte — disse uma

garota

eu o conheci durante todo o tempo em que estive crescendo.

Quando os ouvia falar sobre daemons, pensava que queriam dizer alguma coisa parecida com nossa morte. Minha tarefa está terminada, não precisa mais se preocupar com isso foi a última coisa que ele me disse e então foi embora para sempre. Quando

estava comigo, eu sabia que sempre havia alguém em quem

podia confiar, alguém que sabia para onde a gente estava indo e o

que fazer. Mas agora não tenho mais ele. Não sei mais o que vai

acontecer.

— Não tem nada que vai acontecer! — disse uma outra

pessoa.

— Nada, para sempre!

— Você não sabe — rebateu uma outra. — Eles vieram, não

foi? Ninguém nunca soube que isso iria acontecer.

Ela estava se referindo a Will e Lyra.

— Esta é a primeira coisa que já aconteceu aqui — disse um

me nino fantasma. — Talvez agora tudo vá mudar.

— O que vocês fariam, se pudessem? — perguntou Lyra.

— Subir de novo para o mundo!

— Mesmo se isso significasse que só iriam poder ver o

mundo uma única vez, mesmo assim iriam querer fazer isso?

— Queremos! Queremos! Queremos!

— Bem, de qualquer maneira, tenho que encontrar Roger

— disse Lyra, entusiasmadíssima com sua nova idéia; mas o

primeiro a saber deveria ser Will.

No solo da planície infindável, houve um vasto movimento

lento entre os incontáveis fantasmas. As crianças não podiam

ver, mas Tialys e Salmakia, voando acima, observaram as

pequenas figuras pálidas todas se movendo com um efeito que se

parecia com a migração de imensos bandos de pássaros ou

rebanhos de renas. No centro do movimento estavam as duas

crianças que não eram fantasmas, seguindo adiante em ritmo

constante; sem liderar e sem seguir, mas de alguma forma

concentrando o movimento numa intenção de todos os mortos.

Os espiões, seus pensamentos voando ainda mais ligeiros que

suas impetuosas montarias dardejantes, trocaram um olhar e

conduziram as libélulas a pousar lado a lado num galho seco e

murcho.

— E nós temos daemons, Tialys? — perguntou a dama. — Desde que embarcamos naquele barco, me senti como se

meu coração tivesse sido arrancado e arremessado, ainda

batendo, para a margem do lago — disse ele. — Mas não foi;

ainda está pulsando aqui em meu peito. De modo que alguma

coisa minha ficou lá com o daemon da garotinha e alguma coisa sua também, Salmakia, porque seu rosto e suas mãos estão

pálidos e tensos. De maneira que, sim, temos daemons, sejam lá o que forem. Talvez as pessoas no mundo de Lyra sejam os únicos

seres vivos que sabem que os têm. Talvez seja por isso que foi um

deles quem iniciou a revolta.

Ele desmontou da libélula e a amarrou bem, e então pegou

o magneto ressonante. Mas mal tinha começado a tocar quando

parou.

— Não há resposta — comentou em tom sombrio.

— Então estamos fora do alcance de tudo?

— Fora do alcance de qualquer ajuda, com certeza. Bem,

sabíamos que estávamos vindo para a terra dos mortos.

— O menino iria com ela até o fim do mundo.

— Você acha que a faca de Will vai abrir o caminho de

volta?

— Tenho certeza que ele acredita que sim. Mas, ah,

Tialys, eu não sei.

— Ele é muito jovem. Bem, eles dois são crianças. Você

sabe, se ela não sobreviver a isto, a questão se ela escolherá a

coisa certa quando estiver diante da tentação deixará de existir.

Não terá mais importância.

— Você acha que ela já fez a escolha? Quando escolheu

deixar seu daemon na margem do lago? Será que aquela foi a escolha que ela tinha que fazer?

O cavaleiro olhou para baixo, para os milhões que se moviam

lentamente no solo da terra dos mortos, todos se deslocando atrás

da centelha viva e brilhante de Lyra da Língua Mágica. Podia

apenas distinguir seu cabelo, a coisa mais clara na escuridão

parcial e ao lado, a cabeça do menino, de cabelos pretos, forte e

sólida.

— Não — respondeu Tialys —, ainda não. Isso ainda está

por vir, seja lá o que for.

— Então devemos cuidar para que ela chegue lá a salvo.

— Os dois. Eles agora estão estreitamente ligados, unidos.

Lady Salmakia sacudiu as rédeas leves de teia de aranha e sua

libélula imediatamente levantou vôo, arremessando-se do galho

rápida como um dardo e, ganhando velocidade, foi descendo em

direção às crianças, com o cavaleiro vindo logo atrás.

Mas não pararam junto delas; depois de fazer um vôo

rasante para se assegurarem de que estavam bem, seguiram

voando adiante, em parte porque as libélulas estavam

impacientes e em parte porque queriam descobrir até onde aquele

lugar desolador se estendia.

Lyra os viu passar num lampejo rápido acima e foi tomada

por uma forte sensação de alívio de que ainda houvesse alguma

coisa que dardejava e brilhava com beleza. Então, não

conseguindo mais guardar sua idéia em segredo, virou-se para

Will; mas tinha que cochichar. Chegou os lábios junto da orelha

dele e, numa borbulhante torrente de animação, ele a ouviu dizer:

— Will, quero que a gente leve todas essas pobres crianças-

fantasmas mortas para fora daqui, os adultos também, podíamos

libertar todos! Vamos encontrar o Roger e seu pai e depois,

vamos abrir o caminho para o mundo lá fora e libertar todos!

Ele se virou e deu a ela um largo e verdadeiro sorriso, tão

caloroso e feliz que Lyra sentiu alguma coisa tropeçar e quase

cambalear em seu íntimo; pelo menos, foi essa a impressão que

teve, mas, sem Pantalaimon, não podia perguntar a si mesma o

que aquilo queria dizer. Podia ter sido uma nova maneira de seu

coração bater. Profundamente surpreendida, disse a si mesma

para tratar de andar em linha reta e parar de se sentir tonta,

atordoada.

E assim eles seguiram adiante. O sussurro Roger estava se

espalhando mais depressa do que eles conseguiam se mexer; as

palavras "Roger — Lyra veio — Roger — Lyra está aqui —"

eram passadas de um fantasma para outro como a mensagem

elétrica que uma célula do corpo transmite para a célula ao lado.

E Tialys e Salmakia, avançando em velocidade de cruzeiro

lá no alto, montados em suas incansáveis libélulas, e vasculhando

com o olhar tudo o que havia ao redor enquanto voavam,

finalmente perceberam um novo tipo de movimento. A alguma

distância havia uma pequena rotação de atividade. Chegando mais

perto em vôo rasante, viram-se ser ignorados, pela primeira vez,

porque alguma coisa mais interessante estava dominando a atenção

de todos os fantasmas. Estavam falando excitadamente em seus

sussurros quase silenciosos, estavam apontando, estavam

persuadindo alguém a avançar.

Salmakia desceu voando baixo, mas não pôde pousar: a

aglomeração era grande demais e nenhuma das mãos ou ombros

deles suportaria seu peso, mesmo se ousassem tentar. Ela viu um

menino fantasma ainda bem criança, com um rosto honesto e