A Luneta Âmbar
26. O Abismo
O ABISMO
O CÉU DEIXOU SEU NEGRUME & ENCONTROU UM MAIS
FRESCO AMANHECER & A ALVA LUA SE ALEGRA NO CÉU
LIMPO DA NOITE CLARA...
William Blake
Estava escuro, de um negrume envolvente, fazendo pressão tão forte
sobre os olhos de Lyra que ela quase sentia o peso dos milhares de
toneladas de rocha acima deles. A única luz de que dispunham vinha
da cauda luminosa da libélula de Lady Salmakia, e mesmo essa estava
começando a perder a força, pois os pobres insetos não tinham
encontrado o que comer no mundo dos mortos e a libélula do
cavaleiro havia morrido pouco antes.
Assim, enquanto Tialys sentava-se no ombro de Will, Lyra
segurava a libélula da pequena dama nas mãos, e Salmakia a acalmava
e falava baixinho com a criatura trêmula, alimentando-a primeiro
com migalhas de biscoito e depois com seu próprio sangue. Se Lyra a
tivesse visto fazer isso, teria oferecido o seu, uma vez que possuía
maior quantidade; mas as forças que tinha estavam todas dedicadas a
pôr um pé com firmeza diante do outro e evitar as partes mais baixas
do rochedo acima.
A harpia Sem-Nome os conduzira pelo interior de um sistema
de cavernas que os levaria, dizia ela, ao ponto mais próximo no
mundo dos mortos a partir do qual poderiam abrir uma janela para
um outro mundo. Atrás deles vinha a coluna interminável de
fantasmas. O túnel estava cheio de sussurros, pois os que vinham
mais à frente encorajavam os que vinham atrás, enquanto os fortes de
coração encorajavam os fracos, e os velhos davam esperança aos
jovens.
— Ainda falta muito, Sem-Nome? — perguntou Lyra,
baixinho. — Porque esta pobre libélula está morrendo e então sua
luz se apagará.
A harpia parou e virou-se para dizer:
— Apenas siga-me. Se não puder enxergar, ouça. Se não
puder ouvir, sinta.
Os olhos dela brilhavam ferozmente na escuridão. Lyra
assentiu e disse:
— Está bem, mas não estou tão forte como costumava ser e
não sou corajosa, pelo menos, não muito. Por favor, não pare. Eu
vou seguir você, todos nós vamos. Por favor, continue, Sem-
Nome.
A harpia virou-se de volta para a frente e seguiu adiante, a
luminescência da libélula estava ficando mais fraca a cada minuto e
Lyra sabia que logo desapareceria completamente.
Mas enquanto cambaleava para seguir adiante, uma voz
falou bem a seu lado — uma voz muito familiar.
— Lyra... Lyra, minha menina...
E ela se virou radiante.
— Sr. Scoresby! Ah, mas estou tão contente de ouvir sua voz!
E é mesmo o senhor, pelo que estou vendo... Ah, mas eu queria tanto poder tocar no senhor!
A luz fraca, ela conseguiu distinguir o vulto esguio e o sorriso
irônico do aeróstata texano e sua mão se estendeu para a frente por
vontade própria, em vão.
— Eu também, minha querida. Mas preciso que me ouça, eles
estão armando alguma confusão lá fora e você é o alvo, não me
pergunte como. Este é o menino com a faca?
Will estivera olhando para ele, ansioso para ver aquele velho
companheiro de Lyra; mas, naquele instante, seus olhos passaram
direto por Lee para olhar para o fantasma ao lado dele. Lyra viu
imediatamente quem era e ficou maravilhada com aquela visão
adulta de Will — o mesmo queixo pontudo, o mesmo jeito de
levantar a cabeça.
Will ficou mudo, mas seu pai disse:
— Escute, não temos tempo para falar a respeito disso, apenas
faça exatamente o que eu disser. Pegue a faca agora e encontre o lugar
onde cortaram um cacho de cabelos de Lyra.
O tom de sua voz estava angustiado, aflito, e Will não perdeu
tempo perguntando por quê. Lyra, os olhos arregalados de pavor,
levantou a libélula com uma das mãos e apalpou os cabelos com a
outra.
— Não — disse Will —, afaste sua mão, assim não consigo
ver.
E sob a luz fraca ele conseguiu ver o ponto: pouco acima da
têmpora, havia uma pequena mecha de cabelos que estava mais
curta do que o resto.
— Quem fez isso? — perguntou Lyra. — E —
— Psiu, calada — disse Will, e perguntou ao fantasma do pai:
— O que devo fazer?
— Corte o cabelo dela todo, bem rente, raspando o couro
cabeludo. Junte os fios de cabelo com muito cuidado, todos os
fios. Não perca nenhum. Então abra outro mundo, qualquer um
serve, e ponha o cabelo no outro mundo e feche a abertura. Faça
isso agora, imediatamente.
A harpia estava observando, os fantasmas atrás deles estavam
se aglomerando sem parar, chegando cada vez mais perto. Lyra
podia ver as faces pálidas na semi-obscuridade. Assustada e confusa,
ela ficou parada, mordendo o lábio, enquanto Will fazia o que seu
pai tinha mandado, seu rosto bem perto da ponta da faca, sob a luz
fraca da libélula. Ele cortou um pequeno espaço vazio na pedra de
um outro mundo, colocou ali todos os pequenos fios de cabelos
dourados e recolocou a pedra antes de fechar a janela.
E então o solo começou a tremer. De algum lugar muito
profundo veio o som de um rugido, rangente, como se o centro da
Terra inteiro estivesse girando sobre si mesmo, como uma vasta roda
de azenha, e pequenos fragmentos de rocha começaram a cair do
teto do túnel. O solo balançou bruscamente para um lado. Will
agarrou o braço de Lyra e eles se seguraram um no outro enquanto a
rocha sob seus pés começava a se mover e deslizar, e pedaços soltos
de pedra passaram por eles despencando e arranhando suas pernas e
pés —
As duas crianças, protegendo os galivespianos, se agacharam,
cobrindo a cabeça com os braços; e então, num horrível movimento
deslizante, viram-se sendo carregados para baixo e para a esquerda,
e se agarraram um no outro ferozmente, demasiado assustados, sem
fôlego e abalados até para gritar. Seus ouvidos estavam cheios do
som do rugido de milhares de toneladas de rocha despencando e
rolando para baixo junto com eles.
Finalmente o movimento parou, embora por toda parte ao
redor deles pedras menores ainda estivessem despencando e rolando
por uma encosta que um minuto antes não estivera ali. Lyra estava
caída sobre o braço esquerdo de Will. Com a mão direita ele
procurou a faca: ainda estava em seu cinto.
— Tialys? Salmakia? — chamou Will com a voz trêmula.
— Estamos aqui, estamos vivos, os dois — respondeu a voz
do cavaleiro ao lado da orelha dele.
A atmosfera estava carregada de poeira e do cheiro de cordite
de rocha despedaçada. Era difícil respirar e impossível enxergar: a
libélula estava morta.
— Sr. Scoresby? — chamou Lyra. — Não conseguimos ver
nada. .. O que aconteceu?
— Estou aqui — respondeu Lee, bem perto. — Acho que a
bomba explodiu e acho que errou o alvo.
— Bomba? — exclamou Lyra assustada; mas em seguida
chamou: — Roger, você está aí?
— Estou — veio o pequeno sussurro. — O Sr. Parry, ele me
salvou. Eu ia cair e ele me segurou.
— Olhem — disse o fantasma de John Parry. — Mas
segurem-se bem na rocha e não se movam.
A poeira estava baixando e de algum lugar vinha luz: uma luz
trêmula, tênue, estranha e dourada, como uma chuva luminosa de
névoa caindo por toda parte ao redor deles. Foi o bastante para
incendiar o coração deles de medo, pois iluminava o que estava à
esquerda deles, o lugar para onde ela caía — ou fluía, como um rio
sobre a borda de uma cachoeira.
Era um vasto vazio negro, como uma fenda que descia para a
escuridão mais profunda. A luz dourada fluía para dentro dele e se
apagava. Eles podiam ver o outro lado, mas ficava muito mais
distante do que um ponto onde Will poderia ter atirado uma pedra.
À direita, uma encosta de pedras de arestas irregulares, frouxa e
precariamente equilibrada, se erguia alta nas sombras carregadas de
poeira.
As crianças e seus companheiros estavam se agarrando ao que
não era sequer uma protuberância na rocha — apenas uns
afortunados pontos de apoio para as mãos e os pés — na beira
daquele abismo e não havia outra saída, exceto seguir adiante, pela
encosta, em meio às rochas despedaçadas e os rochedos
precariamente equilibrados que, ao que parecia, o menor toque faria
despencar direto para o abismo.
E atrás deles, à medida que a poeira assentou, mais e mais
fantasmas olhavam com horror para o abismo. Estavam agachados
na encosta, demasiado assustados até para se mexer. Só as harpias
não demonstravam medo; tinham aberto as asas e voado alto,
vasculhando a distância mais à frente e mais para trás, voando de
volta para tranqüilizar os que ainda estavam dentro do túnel,
voando para mais adiante para procurar uma saída.
Lyra verificou: pelo menos o aletômetro estava em segurança.
Controlando o medo, olhou ao redor, encontrou o rostinho de
Roger e disse:
— Então vamos lá, todos nós ainda estamos aqui e ninguém
se machucou. E agora, pelo menos, podemos enxergar. De modo
que vamos tratar de ir andando, vamos tratar de ir andando. Não
podemos seguir adiante por nenhum outro caminho, a não ser
contornando toda a borda desse. . . — Ela apontou para o abismo.
— Portanto, temos apenas que tratar de seguir em frente. Eu juro que
Will e eu continuaremos indo até conseguirmos chegar ao outro
lado. De modo que não tenham medo, não desistam, não fiquem
para trás. Digam aos outros. Não posso olhar para trás o tempo todo
porque tenho que olhar com cuidado para onde estou indo, de modo
que tenho que confiar em vocês e ter certeza de que nos seguirão e
estarão bem atrás de nós, está bem?
O pequenino fantasma assentiu. E assim, num silêncio pasmo, a
coluna de mortos começou sua jornada acompanhando a borda do
abismo. Quanto tempo levou, nem Lyra nem Will podiam calcular;
como foi assustador e perigoso jamais poderiam se esquecer. A
escuridão abaixo era tão profunda que parecia puxar o olhar para
dentro dela e uma horrenda tonteira apoderou-se da mente deles.
Sempre que podiam, olhavam fixamente para a frente, para aquela
pedra, aquele ponto de apoio, aquela protuberância, aquele monte de
cascalho solto e mantinham os olhos afastados da garganta; mas ela
sugava, seduzia e eles não podiam deixar de olhar rapidamente para ela,
e então sentiam o equilíbrio oscilar, o olhar perder a clareza e uma
náusea terrível apertar-lhes a garganta.
De vez em quando, os vivos olhavam para trás e viam a fila
infinita de mortos saindo serpenteando da fenda por onde tinham
passado: mães apertando o rosto de seus bebês contra o peito, pais
mais idosos andando pesada e lentamente, crianças pequenas
agarradas às saias da pessoa na frente, meninos e meninas da idade
de Roger mantendo-se firmes e cuidadosos, eram tantos deles. . . E
todos seguindo Will e Lyra, como ainda esperavam, em direção ao
ar livre.
Mas alguns não confiavam neles. Aglomeravam-se bem perto
logo atrás deles e as duas crianças sentiram suas mãos frias em seus
corações e dentro de suas entranhas, e ouviram seus sussurros
malvados:
— Onde fica o mundo superior? Quanto ainda falta?
— Estamos com medo aqui!
— Não deveríamos ter vindo, pelo menos lá no mundo dos
mortos tínhamos um pouco de luz e alguma companhia, isto aqui é
muito pior!
— Vocês fizeram uma coisa errada ao vir para nosso
mundo! Deveriam ter ficado em seu próprio mundo e esperado para
morrer antes de descerem para vir nos perturbar!
— Com que direito estão nos conduzindo? Vocês são
apenas crianças! Quem lhes deu autoridade para isso?
Will queria se virar e censurá-los abertamente, mas Lyra o
segurou pelo braço; eles estavam infelizes e assustados, argumentou
ela.
Então Lady Salmakia falou, e sua voz clara e calma foi muito
longe no grande vazio.
— Amigos, sejam corajosos! Fiquem juntos e continuem
avançando! O caminho é difícil, mas Lyra o encontrará. Sejam
pacientes e tenham ânimo, nós os conduziremos para fora daqui,
não tenham medo!
Lyra se sentiu fortalecida ao ouvir aquelas palavras e essa era a
verdadeira intenção da pequenina dama. E assim prosseguiram na
árdua caminhada, esforçando-se dura e penosamente.
— Will — chamou Lyra, depois de alguns minutos —, está
ouvindo esse vento?
— Estou — respondeu Will. — Mas não estou sentindo
vento nenhum. E vou lhe dizer uma coisa sobre esse buraco lá
embaixo. É o mesmo tipo de coisa que vejo quando corto uma
janela. O mesmo tipo de borda. Tem alguma coisa especial nesse
tipo de borda, depois que você toca nela nunca mais esquece. E
posso vê-la ali embaixo, bem no lugar onde a rocha despenca e
some na escuridão. Mas aquele espaço grande ali, aquilo não é um
outro mundo como todos os outros. É diferente. Não gosto dele.
Gostaria de poder fechá-lo.
— Você não fechou todas as janelas que abriu.
— Não, não fechei algumas delas, porque não pude. Mas sei
que deveria ter fechado. As coisas dão errado se elas são deixadas abertas.
E uma grande como essa. . . — Ele fez um gesto para baixo,
não querendo olhar. — Está errado. Alguma coisa ruim vai
acontecer.
Enquanto os dois conversavam, uma outra conversa estivera
se desenrolando a pouca distância de onde estavam: o Cavaleiro
Tialys estava falando em voz baixa com os fantasmas de Lee
Scoresby e John Pariy.
— Então o que está dizendo, John? — perguntou Lee. —
Está dizendo que não devemos sair para o ar livre? Amigo, cada uma das partículas em mim está louca para se unir de novo ao resto do
universo dos vivos!
— Sim, e eu também — respondeu o pai de Will. — Mas
creio que se aqueles de nós que estão habituados a combater
pudessem resistir e ficar, poderíamos conseguir entrar na batalha
combatendo ao lado de Lorde Asriel. E se fizéssemos isso no
momento certo, faria a maior diferença.
— Fantasmas? — questionou Tialys, tentando esconder o
ceticismo em sua voz, mas sem conseguir. — Como poderiam
lutar?
— Não poderíamos ferir seres vivos, isso é absolutamente
verdade. Mas o exército de Lorde Asriel vai combater outros tipos
de seres também.
— Aqueles Espectros — observou Lee.
— Era exatamente nisso que eu estava pensando. Eles atacam
os daemons, não é? E nossos daemons já se foram há muito tempo. Vale a pena tentar, Lee.
— Bem, estarei com você, meu amigo.
— E o senhor, cavaleiro — disse o fantasma de John Parry
para Tialys: — Estive falando com os fantasmas de seu povo. Vai
viver tempo suficiente para ver novamente o mundo, antes de morrer
e voltar como fantasma?
— Isso é verdade, nossa vida é curta, se comparada com a de
vocês. Tenho mais alguns dias de vida pela frente — respondeu
Tialys — e Lady Salmakia um pouco mais de tempo, talvez. Mas,
graças ao que essas crianças estão fazendo, nosso exílio como
fantasmas não será permanente. Tenho me orgulhado muito por
ajudá-los.
Eles seguiram adiante. E aquela queda abominável bocejava o
tempo todo e um pequeno escorregão, um passo sobre uma pedra
solta, um descuido ao segurar o ponto de apoio, lançaria você lá
para baixo, para todo o sempre, pensou Lyra, tão longe que você
morreria de fome antes de jamais chegar ao fundo e então seu pobre
fantasma continuaria caindo e caindo dentro de uma garganta
infinita, sem ninguém para ajudar, sem mãos que pudessem se
estender para tirá-lo de lá, consciente para sempre e caindo para
sempre. . .
Ah, aquilo seria muito pior que o mundo cinzento silencioso
que estavam deixando para trás, não seria?
Então uma coisa estranha aconteceu com sua mente. O
pensamento sobre a queda induziu uma espécie de vertigem em Lyra
e ela balançou. Will estava logo na frente dela, mas só que um
pouco afastado demais para que ela pudesse estender a mão e tocá-
lo, senão poderia ter segurado a mão dele; mas naquele momento ela
estava mais consciente de Roger e uma pequena centelha de vaidade
se acendeu por um instante em seu coração. Certa vez, no telhado
da Faculdade Jordan, tinha havido uma ocasião em que só para
assustá-lo ela tinha desafiado sua vertigem e caminhado sobre a
beirada da calha de pedra.
Ela olhou para trás para recordá-lo daquilo naquele instante.
Era a Lyra de Roger, cheia de graça e de ousadia; não precisava ir se
arrastando como um inseto.
Mas a voz sussurrante do garotinho disse:
— Lyra, tenha cuidado. . . lembre-se, você não está morta
como a gente —
E pareceu acontecer tão lentamente, mas não houve nada que
ela pudesse fazer: seu peso se deslocou, as pedras se moveram
debaixo de seus pés e, sem conseguir se proteger, ela começou a
escorregar. No primeiro momento foi irritante e, logo depois, foi
cômico: ela pensou mas que besteira! Mas à medida que ela de fato não conseguiu se segurar em coisa alguma, enquanto as pedras
rolavam e despencavam abaixo dela, à medida que foi deslizando
para baixo em direção à borda, ganhando velocidade, o horror da
situação apoderou-se dela com violência. Ela ia cair. Não havia nada
para impedi-la. Já era tarde demais.
Seu corpo foi sacudido por uma convulsão de terror. Ela nem
se deu conta dos fantasmas que se atiraram no chão abaixo dela para
tentar segurá-la, apenas para vê-la passar rapidamente através deles
como uma pedra na neblina. Ela não sabia que Will estava gritando
seu nome tão alto que o abismo ressoava, fazendo eco. Em vez
disso, todo o seu ser era um vórtice que rugia de medo. Depressa,
cada vez mais depressa, ela foi escorregando e rolando, caindo,
caindo, e alguns fantasmas não puderam suportar ver aquilo:
cobriram os olhos e gritaram alto.
Will estava eletrizado pelo medo. Ficou observando, tomado
pela angústia, enquanto Lyra descia, escorregando, escorregando
cada vez mais, sabendo que não podia fazer nada e sabendo que
tinha que olhar. Tão incapaz de ouvir o gemido desesperado que
saía de seus próprios lábios quanto ela. Mais dois segundos — mais
um segundo — e ela estaria na borda, não conseguiria parar, estaria
lá, estava caindo —
E, saindo da escuridão, num movimento rápido e circular
para baixo, surgiu aquela criatura cujas garras, não fazia muito
tempo, tinham aberto lanhos em seu couro cabeludo, a harpia Sem-
Nome, com rosto de mulher, asas de pássaro; e aquelas mesmas
garras se fecharam cerradas em torno do pulso da menina. Juntas
elas continuaram o mergulho para baixo, o peso adicional quase
demais para as asas fortes da harpia, mas elas bateram, e bateram, e
bateram, e as garras seguraram firme e, devagar, pesadamente,
devagar, pesadamente, a harpia veio carregando a criança para cima e
para cima, tirando-a do abismo e a levou frouxa e desmaiada para
os braços estendidos de Will.
Ele a abraçou com força, apertando-a contra o peito, sentindo
o bater descontrolado do coração de Lyra contra suas costelas.
Naquele instante, ela não era Lyra e ele não era Will; ela não era
uma menina e ele não era um menino. Eles eram os dois únicos seres
humanos na vasta garganta da morte. Ficaram abraçados, agarrados
um no outro, e os fantasmas se agruparam ao redor, sussurrando
palavras de consolo, abençoando a harpia. Os dois mais próximos
eram o pai de Will e Lee Scoresby, e como desejaram poder abraçá-la
também; e Tialys e Salmakia falaram com Sem-Nome, elogiando-a,
chamando-a de a salvadora de todos, de a grande generosa,
abençoando sua gentileza.
Tão logo Lyra conseguiu se mexer, ainda trêmula, estendeu
os braços para a harpia e abraçou seu pescoço, beijando e beijando o
rosto devastado. Ela não conseguia falar. Todas as palavras, toda a
confiança, toda a vaidade tinham-lhe sido arrancadas.
Ficaram parados ali por alguns minutos. Depois que o terror
começou a diminuir, puseram-se em marcha novamente, Will
segurando firme a mão de Lyra em sua mão boa, e seguiram
cautelosamente, verificando a firmeza do solo a cada passo, antes
de porem qualquer peso nele, um processo tão lento e cansativo que
pensaram que iriam morrer de fadiga, mas não podiam descansar,
não podiam parar. Como poderia alguém descansar com aquela
pavorosa garganta ali, logo abaixo?
E depois de mais uma hora de árdua caminhada, ele disse a
ela:
— Olhe ali adiante. Acho que há uma saída. . .
Era verdade: a encosta estava se tornando menos íngreme e
era possível até subir um pouco, subir e se afastar da beira. E adiante:
aquilo não era uma concavidade na parede do penhasco? Poderia
realmente ser uma saída?
Lyra olhou bem nos olhos fortes e brilhantes de Will e sorriu.
Continuaram a escalada difícil, usando os pés e as mãos, indo
para cima, mais para cima, a cada passo se afastando mais do
abismo. E à medida que iam subindo, descobriram que o solo ia
ficando mais firme, os apoios para as mãos mais seguros, os pontos
de apoio para os pés com menos probabilidade de rolar e torcer seus
tornozelos.
— Já devemos ter escalado um bom pedaço agora — disse
Will. — Eu poderia fazer uma tentativa com a faca e ver o que
encontro.
— Ainda não — disse a harpia. — Ainda falta um pedaço do
caminho. Este é um lugar ruim para abrir. Tem um lugar melhor
mais acima.
Eles prosseguiram em silêncio, mão, pé, peso para testar,
impulso, mão, pé. . . Estavam com os dedos esfolados, os joelhos e
quadris tremendo por causa do esforço, a cabeça doía e zumbia de
exaustão. Escalaram os últimos metros até a base do penhasco, onde
uma passagem estreita seguia um pouco mais adiante para a
sombra.
Lyra observou com os olhos doloridos enquanto Will tirava a
faca e começava a procurar no ar vazio, tateando, puxando de volta,
procurando, tateando de novo.
— Ah — disse ele.
— Você achou uma fenda?
— Acho que sim. . .
— Will — chamou o fantasma do pai dele —, pare um
instante. Ouça o que vou dizer.
Will baixou a faca e se virou. Com todo aquele esforço, não
tinha podido nem pensar em seu pai, mas era bom saber que ele
estava ali. De repente ele se deu conta de que iam se separar pela
última vez.
— O que vai acontecer quando o senhor sair? — perguntou
Will. — Vai simplesmente desaparecer?
— Ainda não. O Sr. Scoresby e eu temos uma idéia. Alguns
de nós vão permanecer aqui por mais um tempo e precisaremos
que nos deixe entrar no mundo de Lorde Asriel, porque ele poderia
precisar de nossa ajuda. Além disso — prosseguiu em tom sombrio,
olhando para Lyra —, terão que seguir para lá também, se quiserem
tornar a encontrar seus daemons. Porque foi para lá que eles foram.
— Mas, Sr. Parry — disse Lyra —, como sabe que nossos
daemons foram para o mundo de meu pai?
— Eu era um xamã quando estava vivo. Aprendi a ver
coisas. Pergunte a seu aletômetro, ele vai confirmar o que digo.
Mas lembre-se disso a respeito de daemons — disse ele, e sua voz tinha um tom intenso e enfático. — O homem que conheceu como
Sr. Charles Latrom tinha que voltar periodicamente a seu próprio
mundo; ele não podia viver permanentemente no meu. Os filósofos
da Guilda da Torre degli Angeli, que viajaram entre os mundos
durante 300 anos ou mais, descobriram que a mesma coisa era
verdade e, gradualmente, em resultado disso, o mundo deles foi se
enfraquecendo e se degradando.
"Depois houve o que aconteceu comigo. Eu era um soldado;
era um oficial do Corpo de Fuzileiros da Marinha Real e deixei a
carreira militar para ganhar a vida tornando-me um explorador e
guiando expedições; estava em excelente forma física e era tão
saudável quanto é possível que um ser humano seja. Então saí de
meu mundo totalmente por acaso e não consegui mais encontrar o
caminho de volta. Eu fiz muitas coisas e aprendi realmente muito
no mundo onde me encontrava, mas dez anos depois de ter chegado
lá, estava mortalmente doente.
"E este é o motivo de todas essas coisas: seu daemon só poderá
viver plenamente sua vida no mundo em que nasceu. Em outro
mundo ele acabará adoecendo e morrendo. Nós podemos viajar, se
houver aberturas, para outros mundos, mas só podemos viver em
nosso próprio mundo. O grande empreendimento de Lorde Asriel
fracassará no final pelo mesmo motivo: temos que construir a
república do céu no lugar onde estamos porque para nós não há
outro lugar.
"Will, meu filho, você e Lyra podem sair agora, para descansar
um pouco; estão precisando e merecem isso; mas depois devem voltar
aqui para a escuridão comigo e com o Sr. Scoresby para uma última
jornada."
Will e Lyra trocaram um olhar. Então ele cortou uma janela e
foi a coisa mais bonita que eles jamais tinham visto.
O ar noturno encheu seus pulmões, fresco, limpo e leve; os
olhos deles se banquetearam com o dossel de estrelas brilhantes e
com o brilho da água em algum lugar mais abaixo, e havia bosques
de árvores imensas, altas como castelos, salpicando a vastidão da
savana.
Will aumentou a janela alargando-a tanto quanto pôde,
andando na relva para a esquerda e para a direita, tornando-a
grande o bastante para que seis, sete, oito pudessem passar através
dela andando lado a lado, saindo da terra dos mortos.
Os primeiros fantasmas tremeram de esperança e o entusiasmo
foi se propagando, como uma ondulação sobre a água, percorrendo
a longa fileira atrás deles, tanto crianças pequenas como pais idosos
olhando para o alto e para a frente radiantes e maravilhados, enquanto
as primeiras estrelas que viam em séculos brilhavam com esplendor,
através da janela, para seus pobres olhos famintos.