A Luneta Âmbar
27. A Plataforma
O primeiro fantasma a deixar o mundo dos mortos foi Roger.
Ele deu um passo à frente, virou-se para trás para olhar para Lyra,
então deu uma risada de surpresa quando se viu virando-se de volta
para a noite, para a luz das estrelas, para o ar. . . e então desapareceu,
deixando atrás de si uma pequenina explosão de felicidade tão vivida
que Will se lembrou das borbulhas numa taça de champanhe.
Os outros fantasmas o seguiram, e Will e Lyra caíram exaustos
na relva carregada de orvalho, cada nervo em seus corpos
abençoando o cheiro agradável e aromático da terra fértil, o ar
noturno, as estrelas.
A PLATAFORMA
SIM, EM MEIO À RAMAGEM, MINHA’ALMA PLANA; LÁ,
COMO UM PÁSSARO DESCANSA, E CANTA, DEPOIS
AFIA E PENTEIA SUAS ASAS DE PRATA...
ANDREW MARVELL
Vão logo os mulefas começaram a construir a plataforma
para Mary, trabalharam rápido e bem. Ela gostava de ficar
observando-os, porque podiam discutir sem brigar e cooperar sem
atrapalhar uns aos outros, e porque as técnicas que usavam para
rachar, cortar e encaixar a madeira eram tão elegantes e eficientes.
Em dois dias, a plataforma de observação foi projetada,
construída e alçada para a posição determinada. Era firme, espaçosa
e confortável, e depois que ela subiu para lá sentiu-se feliz de uma
maneira singular, como jamais havia se sentido. Aquela maneira tão
singular era física. Em meio ao denso verde do dossel das árvores,
com o azul intenso do céu entre as folhas; com uma brisa mantendo
sua pele fresca, e o perfume suave das flores deliciando-a sempre que
o sentia; com o farfalhar das folhas, o canto das centenas de
pássaros e o murmúrio distante das ondas na beira do mar, todos os
seus sentidos estavam acalentados, nutridos e satisfeitos, e se ela
tivesse podido parar de pensar, teria sido totalmente envolvida pelo
êxtase.
Mas, é claro, era para pensar que estava ali.
E quando olhou pela luneta e viu a flutuação incessante do
sraf, das partículas de Sombra, para longe da terra, pareceu-lhe que a
felicidade, a vida e a esperança também estavam flutuando para
longe junto com elas. Mary não conseguia encontrar nenhuma
explicação.
Trezentos anos, os mulefas tinham dito: era há esse tempo
todo que as árvores vinham ficando debilitadas. Dado o fato de que
as partículas de Sombra passavam igualmente através de todos os
mundos, presumivelmente a mesma coisa também estava
acontecendo no universo de Mary e em todos os outros. Trezentos
anos atrás a Real Sociedade havia sido criada: a primeira verdadeira
sociedade científica em seu mundo. Quando Newton estivera
fazendo suas descobertas sobre a óptica e a gravitação.
Trezentos anos antes, no mundo de Lyra, alguém havia
inventado o aletômetro.
Na mesma época, naquele estranho mundo por onde havia
passado para chegar até ali, a faca sutil havia sido inventada.
Ela se deitou nas tábuas de madeira, sentindo a plataforma se
mover num ritmo muito suave, muito lento, à medida que a árvore
imensa balançava sob a brisa do mar. Levando a luneta ao olho, ela
observou a miríade de minúsculas centelhas flutuar em meio às
folhas, passando pelas bocas abertas das florescências, em meio às
ramagens maciças, movendo-se contra o vento, numa correnteza
lenta e deliberada que parecia quase consciente.
O que havia acontecido 300 anos atrás? Seria isso a causa da
correnteza de Pó, ou seria exatamente o contrário? Ou será que
ambas as coisas eram resultado de uma causa totalmente diferente?
Ou será que simplesmente não estavam absolutamente ligadas?
A flutuação era hipnótica. Como seria fácil cair num transe e deixar
sua mente vagar para longe junto com as partículas que fluíam
flutuando...
Antes que ela se desse conta do que estava fazendo e porque
seu corpo estava calmo, aquietado, isso foi exatamente o que
aconteceu. Ela de repente despertou de estalo e descobriu que estava
fora de seu corpo e entrou em pânico.
Estava um pouco acima da plataforma e alguns centímetros fora dela,
em meio aos galhos. E alguma coisa tinha acontecido com o vento de Pó:
em vez daquela flutuação lenta, ele estava correndo como as águas de um rio
numa enchente. Teria ganhado velocidade ou será que o tempo estava se
movendo de maneira diferente para ela, agora que estava fora de seu corpo?
Qualquer dos dois que fosse, ela teve consciência do mais terrível dos
perigos, pois a enchente estava ameaçando arrastá-la e carregá-la
completamente para longe dali, e era imensa. Ela abriu os braços para se
agarrar a qualquer coisa sólida — mas não tinha braços. Não conseguiu
contato com nada. Agora estava quase em cima daquela queda abominável
e seu corpo estava cada vez mais distante e fora de alcance, adormecido de
forma tão egoísta abaixo dela. Tentou gritar e despertar: nem um som. O
corpo continuou dormindo, e o eu que observava estava sendo levado
embora para muito longe do dossel das folhas e para o céu aberto.
E, por mais que ela lutasse, não conseguia oferecer nenhuma
resistência. A força que a carregava era serena e poderosa como água
jorrando sobre uma comporta: as partículas de Pó estavam fluindo
junto, como se elas também estivessem jorrando sobre alguma beira
invisível.
E levando-a para longe de seu corpo.
Ela lançou uma corda de salvação mental para aquele eu físico e
tentou se lembrar da sensação de estar dentro dele: todas as sensações
que consistiam em estar viva. Exatamente como era o toque da tromba,
de ponta macia, de sua amiga Atai acariciando seu pescoço. O sabor de
bacon com ovos. O esforço triunfante em seus músculos quando ela se
impulsionava, subindo uma parede de rocha. A dança delicada de seus
dedos no teclado de um computador. O cheiro de café sendo torrado. O
calor de sua cama numa noite de inverno.
E, gradualmente, ela parou de se mover; a corda de salvação se
manteve firme e ela sentiu o peso e a força da correnteza empurrando
na direção oposta, enquanto se mantinha parada ali no céu.
E então aconteceu uma coisa estranha. Pouco a pouco (à
medida que ela reforçava aquelas memórias de sentidos,
acrescentando outras: o sabor de uma Margarita com gelo picado,
que havia tomado na Califórnia, estar sentada debaixo dos limoeiros
no pátio de um restaurante em Lisboa, limpar o gelo do pára-brisa de
seu carro), ela sentiu o vento de Pó amainar. A pressão estava
diminuindo.
Mas só sobre ela: por toda parte ao redor, acima e abaixo, a
grande enchente corria forte como nunca. De alguma forma havia
um pequenino retalho de quietude em torno dela, onde as partículas
estavam resistindo ao fluxo.
Elas eram conscientes! Tinham sentido sua ansiedade e
respondido a ela. Então começaram a carregá-la de volta para seu
corpo abandonado e quando estava perto o suficiente para vê-lo de
novo, tão pesado, tão seguro, um soluço silencioso sacudiu seu
coração.
E então ela mergulhou de volta em seu corpo e despertou.
Respirou fundo sentindo-se tremer. Pressionou as mãos e as
pernas contra as pranchas ásperas de madeira da plataforma e, um
minuto antes quase tendo enlouquecido de medo, naquele instante
sentiu-se de novo tomada por uma profunda e lenta sensação de
êxtase por estar de novo unida a seu corpo, à terra e a tudo o que
importava.
Finalmente sentou-se e tentou avaliar a situação. Seus dedos
encontraram a luneta e ela a levou ao olho, apoiando a mão
trêmula com a outra. Não havia dúvida de que o fluxo lento de
flutuação em toda a amplidão do céu tinha se intensificado
tornando-se uma enchente. Não havia nada para ouvir e nada para
sentir, e, sem a luneta, nada para ver, mas mesmo depois que
tirou a luneta do olho aquela sensação de inundação rápida
permaneceu vivida, junto com uma outra coisa em que não havia
reparado devido ao terror de estar fora de seu corpo: o profundo
e impotente pesar que se espalhava pelo ar.
As partículas de Sombra sabiam o que estava acontecendo e
estavam pesarosas.
E então aconteceu uma coisa estranha. Pouco a pouco (à
medida que ela reforçava aquelas memórias de sentidos,
acrescentando outras: o sabor de uma Margarita com gelo picado,
que havia tomado na Califórnia, estar sentada debaixo dos limoeiros
no pátio de um restaurante em Lisboa, limpar o gelo do pára-brisa
de seu carro), ela sentiu o vento de Pó amainar. A pressão estava
diminuindo.
Mas só sobre ela: por toda parte ao redor, acima e abaixo, a
grande enchente corria forte como nunca. De alguma forma havia
um pequenino retalho de quietude em torno dela, onde as partículas
estavam resistindo ao fluxo.
Elas eram conscientes! Tinham sentido sua ansiedade e
respondido a ela. Então começaram a carregá-la de volta para seu
corpo abandonado e quando estava perto o suficiente para vê-lo de
novo, tão pesado, tão seguro, um soluço silencioso sacudiu seu
coração.
E então ela mergulhou de volta em seu corpo e despertou.
Respirou fundo sentindo-se tremer. Pressionou as mãos e as
pernas contra as pranchas ásperas de madeira da plataforma e, um
minuto antes quase tendo enlouquecido de medo, naquele instante
sentiu-se de novo tomada por uma profunda e lenta sensação de
êxtase por estar de novo unida a seu corpo, à terra e a tudo o que
importava.
Finalmente sentou-se e tentou avaliar a situação. Seus dedos
encontraram a luneta e ela a levou ao olho, apoiando a mão
trêmula com a outra. Não havia dúvida de que o fluxo lento de
flutuação em toda a amplidão do céu tinha se intensificado
tornando-se uma enchente. Não havia nada para ouvir e nada para
sentir, e, sem a luneta, nada para ver, mas mesmo depois que
tirou a luneta do olho aquela sensação de inundação rápida
permaneceu vivida, junto com uma outra coisa em que não havia
reparado devido ao terror de estar fora de seu corpo: o profundo
e impotente pesar que se espalhava pelo ar.
As partículas de Sombra sabiam o que estava acontecendo e
estavam pesarosas.
E ela própria era parcialmente matéria de Sombra. Parte dela
estava sujeita àquela maré que estava se movendo através do
cosmos. Como também estavam os mulefas e os seres humanos em
todos os mundos e todos os tipos de seres conscientes, onde quer que
estivessem.
E, a menos que descobrisse o que estava acontecendo, eles
poderiam todos acabar por se ver derivando rumo ao total
apagamento, todos eles.
De repente, ela desejou ardentemente estar em terra de novo.
Guardou a luneta no bolso e começou a longa escalada para descer
até o solo.
O Padre Gomez atravessou a janela quando a luz do
entardecer se tornava mais oblíqua e mais suave. Viu os grandes
grupos de árvores-das-rodas e as estradas serpenteando através da
pradaria, exatamente como Mary tinha visto, do mesmo ponto,
algum tempo antes. Mas o ar estava limpo, sem névoa, pois havia
chovido um pouco antes e ele podia ver mais longe do que ela tinha
visto; em particular, ele podia ver o cintilar de um mar distante e
algumas formas brancas em movimento que poderiam ser velas.
Levantou a mochila mais alto nos ombros e seguiu na direção
delas para ver o que poderia descobrir. Era agradável caminhar na
calma do longo entardecer naquela estrada lisa, com o som de alguns
animais semelhantes a cigarras cantando na relva alta e com o sol suave
em seu rosto. O ar estava fresco e agradavelmente perfumado,
completamente limpo dos vapores imundos de nafta, querosene, ou lá
o que fosse, que tinham pairado tão pesadamente na atmosfera de um
dos mundos por onde ele havia passado: o mundo ao qual seu alvo, a
tentadora em pessoa, pertencia.
Ao pôr-do-sol, ele chegou a um pequeno promontório à beira
de uma baía de águas rasas; a maré estava alta, porque só havia uma
faixa estreita de areia macia e branca acima da linha da água.
E, flutuando nas águas calmas da baía, havia uma dúzia ou mais... o Padre Gomez teve que parar e pensar com cuidado. Uma