A Luneta Âmbar
36. A Flecha Quebrada
A FLECHA QUEBRADA
O DIA CHEGOU EM QUE NASCEU MINHA VIDA, MEU AMOR
CHEGOU PARA MIM.
CHRISTINA ROSSETI
Os dois daemons foram andando pelo povoado silencioso,
entrando e saindo das sombras, com patas macias, sob a forma de
gatos, atravessando o platô iluminado pelo luar que era o pódio de
reuniões, parando diante da porta aberta da casa de Mary.
Cautelosamente, espiaram o interior da casa e viram
apenas a mulher dormindo; de modo que recuaram e seguiram
novamente pelo luar, em direção à árvore-abrigo.
Seus galhos longos e baixos estendiam as folhas espiraladas,
perfumadas, quase até o chão. Muito lentamente, muito
cuidadosamente para não farfalhar uma folha, nem quebrar um graveto
caído, as duas formas se esgueiraram pela cortina de folhas e viram o
que estavam procurando: o menino e a menina, profundamente
adormecidos, nos braços um do outro.
Eles se aproximaram andando sobre a grama e muito
levemente tocaram as crianças dormindo com o focinho, a pata, os
bigodes, banhando-se no calor vivificante que eles irradiavam, mas
tendo um cuidado infinito para não acordá-los.
Enquanto estavam examinando suas pessoas (delicadamente
limpando a ferida quase cicatrizada de Will, levantando uma mecha
de cabelo do rosto de Lyra), houve um som suave atrás deles.
Imediatamente, em silêncio total, os dois daemons se viraram
rapidamente, transformando-se em lobos: olhos claros ferozes,
dentes brancos arreganhados, ameaça em cada linha de seus corpos.
Havia uma mulher parada ali, sua silhueta iluminada pela
lua. Não era Mary e quando falou eles a ouviram nitidamente,
embora sua voz não tivesse nenhum som.
— Venham comigo — disse ela.
O coração de daemon de Pantalaimon deu um salto em seu
peito, mas não disse nada até poder cumprimentá-la longe das
crianças que dormiam.
— Serafina Pekkala! — exclamou com alegria. — Por onde
você tem andado? Sabe do que aconteceu?
— Psiu. Vamos voar para algum lugar onde possamos
conversar — respondeu ela, preocupada com os habitantes do
povoado que dormiam.
Seu galho de pinheiro-nubígeno estava encostado ao lado da
porta da casa de Mary e, enquanto ela o pegava, os dois daemons se transformaram em pássaros — um rouxinol e uma coruja — e
voaram com ela sobre os telhados de colmo, sobre as pradarias, sobre
a cadeia de colinas e em direção ao grupo de árvores-das-rodas mais
próximo, imenso como um castelo, a copa parecendo coalhada de
prata sob a luz do luar.
Ali Serafina Pekkala se acomodou no galho mais alto e
confortável, entre as flores abertas que absorviam o Pó, e os dois
pássaros se em-poleiraram perto dela.
— Vocês não serão pássaros por muito tempo — comentou.
— Dentro de muito pouco tempo suas formas definitivas se
fixarão. Olhem bem ao redor e guardem esta imagem na
memória.
— Que vamos ser? — perguntou Pantalaimon.
— Você vai descobrir mais cedo do que pensa. Escute —
disse Serafina Pekkala —, vou lhe contar algo que faz parte do saber
das bruxas de que ninguém tem conhecimento, só as bruxas. O
motivo porque posso fazer isso é o fato de que vocês estão aqui
comigo e seus humanos estão lá embaixo, dormindo. Quem são as
únicas pessoas para quem isso é possível?
— Bruxas — respondeu Pantalaimon — e xamãs. Então. . .
— Ao deixar vocês dois nas margens do mundo dos mortos,
Lyra e Will fizeram, sem saber, uma coisa que bruxas sempre
fizeram desde a primeira vez em que bruxas surgiram no mundo.
Existe uma região em nossa terra do norte, um lugar desolado,
abominável, onde uma grande catástrofe aconteceu na infância do
mundo e onde nada jamais viveu desde então. Nenhum daemon pode entrar lá. Para se tornar bruxa, uma menina tem que atravessar
essa região sozinha e deixar para trás o seu daemon. Vocês sabem o sofrimento que têm que suportar. Mas, tendo feito isso, elas
descobrem que seus daemons não foram seccionados, como em Bolvangar; ainda são um único ser inteiro, mas podem
se deslocar livremente e ir a lugares distantes, ver coisas estranhas e
trazer os conhecimentos de volta.
"E vocês não foram seccionados, certo?"
— Não — respondeu Pantalaimon. — Ainda somos um
único ser. Mas foi tão doloroso e ficamos com tanto medo. . .
— Bem — disse Serafina —, eles dois não vão voar como
bruxas e não viverão tanto tempo quanto nós vivemos; mas, graças
ao que fizeram, vocês e eles são bruxas em todos os aspectos, menos
esses.
Os dois daemons refletiram sobre a estranheza daquela
informação.
— Isso significa que vamos ser pássaros como os daemons de
bruxas? — perguntou Pantalaimon.
— Seja paciente.
— E como Will pode ser uma bruxa? Pensei que todas as
bruxas fossem mulheres.
— Aqueles dois mudaram muitas coisas. Todos nós
estamos aprendendo novos costumes, até as bruxas. Mas uma
coisa não mudou: vocês têm que ajudar seus humanos, não criar
dificuldades para eles. Têm que ajudá-los, orientá-los e encorajá-
los a adquirir sabedoria. É para isso que daemons servem.
Eles ficaram em silêncio. Serafina virou-se para o rouxinol e
perguntou:
— Como se chama?
— Não tenho nome. Eu não sabia que tinha nascido até o
instante em que fui arrancada do coração dele.
— Então vou chamá-la de Kirjava.
— Kirjava — repetiu Pantalaimon, para ver como soava. —
Que quer dizer isso?
— Logo você vai saber o que significa. Mas agora —
prosseguiu Serafina —, precisam me ouvir com muita atenção,
porque vou dizer o que devem fazer.
— Não — disse Kirjava com veemência.
— Estou vendo pelo seu tom de voz que você já sabe o que
vou dizer — observou Serafina com imensa delicadeza.
— Não queremos ouvir! — exclamou Pantalaimon.
— É cedo demais — argumentou o rouxinol. — É realmente
cedo demais.
Serafina ficou em silêncio, porque concordava com eles e
sentia-se muito triste. Mas, apesar disso, era a pessoa de maior saber
ali e tinha que orientá-los para que seguissem a conduta certa;
porém, deixou que a agitação deles se acalmasse, antes de
prosseguir.
— Onde estiveram, durante suas viagens? — perguntou.
— Passamos por muitos mundos — respondeu Pantalaimon.
— Em toda parte onde encontramos uma janela, atravessamos.
Existem mais janelas do que havíamos pensado.
— E viram —
— Vimos — respondeu Kirjava —; assistimos de perto e
vimos o que estava acontecendo.
— Vimos uma porção de outras coisas — acrescentou
Pantalaimon rapidamente. — Vimos anjos e falamos com eles. Vimos o
mundo de onde vem o povo pequenino, os galivespianos. Também
tem gente grande lá que tenta matá-los.
Eles falaram à bruxa sobre as outras coisas que tinham visto e
estavam tentando distraí-la, ela sabia; mas deixou-os falar, por causa
do amor que sentiam pela voz um do outro.
Mas, finalmente, esgotaram as coisas que tinham para contar
e eles se calaram. O único som era o sussurro incessante das folhas,
até que Serafina Pekkala disse:
— Vocês têm se mantido longe de Will e Lyra para castigá-
los. Sei por que estão fazendo isso; meu daemon, Kaisa, fez exatamente a mesma coisa depois que atravessei a terra estéril
desolada. Mas depois acabou voltando para mim porque ainda nos
amávamos. E, brevemente, eles vão precisar de vocês para ajudá-los a
fazer o que tem que ser feito a seguir. Porque vocês têm que contar a
eles o que sabem.
Pantalaimon gritou alto, um grito gelado de coruja, um som
que nunca tinha sido ouvido antes naquele mundo. Em ninhos e
tocas a uma grande distância ao redor, e onde quer que houvesse
quaisquer pequeninos animais noturnos caçando, pastando, ou
comendo carniça, um novo e inesquecível terror nasceu.
Serafina ficou observando de perto e não sentiu nada, exceto
uma enorme compaixão, até que olhou para o daemon de Will, Kirjava, o rouxinol. Lembrou-se da conversa que tivera com a bruxa
Ruta Skadi, que havia perguntado, depois de ter visto Will apenas uma
vez, se Serafina já o olhara bem nos olhos; e Serafina tinha respondido
que não tivera coragem. Aquele pequenino pássaro marrom estava
irradiando uma ferocidade implacável, tão palpável quanto o calor, e
Serafina teve medo dele.
Finalmente os gritos desesperados de Pantalaimon se calaram
e Kirjava disse:
— E temos que contar a eles.
— Sim, têm que contar — respondeu a bruxa com
grande gentileza.
Gradualmente a ferocidade foi desaparecendo do olhar do
passarinho marrom e Serafina conseguiu olhar para ela de novo. Em
seu lugar viu uma tristeza desolada.
— Há um navio a caminho — disse Serafina. — Eu o deixei
para voar até aqui e encontrar vocês. Vim com os gípcios, lá de
nosso mundo. Eles estarão aqui dentro de um ou dois dias.
Os dois pássaros ficaram empoleirados juntos e um instante
depois tinham mudado de forma, tornando-se dois pombos.
Serafina prosseguiu:
— Esta pode ser a última vez que vocês voam. Posso ver um
pouco o futuro; vejo que vocês dois poderão subir a esta altura,
desde que haja árvores deste tamanho; mas creio que não serão
pássaros quando suas formas se fixarem. Aproveitem tudo o que
puderem e depois lembrem-se bem. Eu sei que vocês, Lyra e Will
vão pensar seriamente e que vai ser doloroso, e sei que farão a melhor
escolha. Mas cabe a vocês fazer essa escolha e a mais ninguém.
Eles não responderam. Ela pegou seu galho de pinheiro-
nubígeno, montou e saiu voando, afastando-se das copas gigantescas
das árvores, voando em círculos bem alto, sentindo na pele o
frescor da brisa e o formigar da luz das estrelas e o peneirar
benevolente do Pó que nunca havia visto.
Serafina voou mais uma vez até o povoado e entrou
silenciosamente na casa da mulher. Não sabia nada a respeito de
Mary, exceto que ela vinha do mesmo mundo que Will e que seu
papel nos acontecimentos era crucial. Serafina não tinha como saber
se era agressiva ou amistosa; mas tinha que acordar Mary sem assustá-
la, e havia um feitiço para isso.
Ela sentou no chão junto da cabeça da mulher e olhou-a
fixamente, com os olhos semicerrados, inspirando e exalando,
respirando no mesmo compasso que ela. Pouco depois, através dos
olhos entreabertos, a visão começou a lhe mostrar as formas claras
que Mary estava vendo em seus sonhos e ajustou sua mente para
ressoar com elas, como se estivesse afinando uma corda de instrumento. Depois, com um esforço um pouco maior, a própria
Serafina entrou no meio delas. Depois que estivesse lá, poderia falar
com Mary, e fez isso com a afeição instantânea e natural que por
vezes sentimos por pessoas que conhecemos em sonhos.
Um momento depois elas estavam conversando
animadamente em murmúrios de que Mary mais tarde não
lembraria nada e andando por uma paisagem tola de leitos de juncos
e transformadores elétricos. Estava na hora de Serafina assumir o
controle.
— Dentro de poucos instantes — explicou —, você vai
acordar. Não se assuste. Vai me encontrar a seu lado. Estou
acordando você assim para que saiba que está em segurança, que
não há nada que vá lhe fazer mal. E então poderemos conversar
direito.
Ela se retirou, trazendo consigo a Mary do sonho, até se
encontrar de volta na casa, sentada de pernas cruzadas no chão de
terra batida, com os olhos de Mary brilhando enquanto olhavam
para ela.
— Você deve ser a bruxa — sussurrou Mary.
— Eu sou. Meu nome é Serafina Pekkala. Como se chama?
— Mary Malone. Nunca fui acordada de maneira tão
tranqüila. Estou mesmo acordada?
— Está. Precisamos ter uma conversa e uma conversa de
sonho é difícil de controlar e ainda mais difícil de lembrar. É melhor
conversar acordada. Você prefere ficar aqui dentro ou me
acompanharia numa caminhada ao luar?
— Vou com você — respondeu Mary, sentando-se e
espreguiçando-se. — Onde estão Lyra e Will?
— Dormindo debaixo da árvore.
As duas saíram da casa, passaram pela árvore com sua cortina
de galhos que escondia tudo e foram caminhando até a margem do
rio.
Mary observou Serafina Pekkala com uma mistura de
desconfiança e admiração: nunca tinha visto um ser humano tão
esguio e gracioso. Parecia ser mais jovem que a própria Mary,
embora Lyra tivesse dito que ela estava com centenas de anos; a
única insinuação de idade vinha de sua expressão, cheia de uma
complexa tristeza.
Elas sentaram na margem do rio, acima da água preto-
prateada, e Serafina contou a Mary o que havia conversado com os
daemons das crianças.
— Os dois foram procurá-los hoje — disse Mary —, mas
alguma outra coisa aconteceu. Will nunca viu seu daemon direito, exceto na ocasião em que eles fugiram da batalha e apenas por um
segundo. Ele não sabia com certeza que de fato tinha um.
— Bem, ele tem. E você também. Mary arregalou os olhos
para ela.
— Se pudesse vê-lo — prosseguiu Serafina —, veria um
pássaro preto com pernas vermelhas e um bico amarelo-vivo,
ligeiramente recurvado. Um pássaro das montanhas.
— Uma gralha dos Alpes. . . Como você pode vê-lo?
— Com meus olhos semicerrados, posso vê-lo. Se
tivéssemos tempo, eu poderia lhe ensinar a vê-lo também, e a ver
os daemons de outras pessoas em seu mundo. É estranho para nós pensar que vocês não conseguem vê-los.
Então ela contou a Mary o que tinha dito aos daemons e o
que significava.
— E os daemons terão que contar a eles? — perguntou Mary. — Pensei em acordá-los e eu mesma falar com eles. Pensei em
dizer a você e deixar que ficasse com essa responsabilidade. Mas
estive com os daemons e vi que assim seria melhor.
— Eles estão apaixonados.
— Eu sei.
— Eles acabaram de descobrir isso. . .
Mary tentou avaliar todas as implicações do que Serafina
acabara de lhe contar, mas era duro e difícil demais.
Depois de mais ou menos um minuto, Mary perguntou:
— Você pode ver o Pó?
— Não, nunca vi. Até as guerras começarem, nunca
tínhamos ouvido falar de Pó.
Mary tirou a luneta do bolso e ofereceu-a à bruxa. Serafina
levou-a ao olho e soltou uma exclamação de espanto.
— Aquilo é Pó. . . É lindo! — Vire-se para olhar para a árvore-abrigo.
Serafina obedeceu e exclamou de novo.
— Eles fizeram isso? — perguntou. — Alguma coisa aconteceu hoje, ou ontem, se já for mais de
meia-noite — disse Mary, procurando encontrar as palavras para
explicar e lembrando-se de sua visão do fluxo de Pó como um
grande rio, como o Mississípi. — Alguma coisa minúscula, mas
crucial. . . Se você quisesse desviar um rio enorme para um curso
diferente e tudo o que tivesse fosse um único seixo, poderia fazê-lo,
desde que o pusesse no lugar certo, para enviar o primeiro gotejar de
água naquela direção em vez dessa. Alguma coisa assim aconteceu ontem. Não sei o que foi. Eles se viram de uma maneira diferente,
ou algo assim... Até então, não tinham sentido aquilo, mas, de
repente, sentiram. E então o Pó foi atraído para eles, de maneira muito
poderosa, e parou de fluir na outra direção.
— Então era assim que deveria acontecer! — exclamou
Serafina, maravilhada. — E agora está tudo salvo, ou estará, quando
os anjos encherem o grande abismo no mundo dos mortos.
Ela contou a Mary sobre o abismo e sobre como tinha ficado
sabendo de sua existência.
— Eu estava voando alto — explicou —, procurando terra,
um ponto para descer, e encontrei um anjo: um anjo mulher. Ela era
muito estranha, era velha e jovem ao mesmo tempo — prosseguiu,
esquecendo que era assim que ela própria parecia para Mary. — O
nome dela era Xaphania. E me contou tantas coisas. . . Disse que
toda a história da vida humana tem sido uma luta entre o
conhecimento e a ignorância. Ela e os anjos rebeldes, os seguidores
do conhecimento, sempre tentaram abrir as mentes; a Autoridade e
suas igrejas sempre tentaram mantê-las fechadas, ignorantes. Ela me deu muitos exemplos de meu mundo.
— Posso pensar em muitos do meu.
— E, durante a maior parte do tempo, o saber teve que
trabalhar em segredo, sussurrando suas palavras, movendo-se
como um espião pelos lugares mais humildes do mundo, enquanto
as cortes e os palácios eram ocupados por seus inimigos.
— Sim — disse Mary —, também reconheço isso.
— E agora o combate ainda não acabou, embora as forças do
reino tenham tido um sério revés. Elas vão se reorganizar sob um
novo comandante e voltar com plena força, e devemos estar prontos
para resistir.
— Mas o que aconteceu com Lorde Asriel? — perguntou
Mary.
— Ele lutou com o Regente do céu, o anjo Metatron, e, em
combate corpo a corpo, conseguiu arrastá-lo para dentro do abismo.
Metatron foi-se para sempre. E Lorde Asriel também.
Mary prendeu a respiração.
— E a Sra. Coulter? — perguntou.
A título de resposta, a bruxa tirou uma flecha de sua aljava. Ela
demorou algum tempo para escolhê-la: a melhor, a mais reta, a mais
perfeitamente equilibrada.
E partiu-a em dois pedaços.
— Numa ocasião, em meu mundo — explicou —, vi aquela
mulher torturando uma bruxa e jurei a mim mesma que lançaria
essa flecha em sua garganta. Agora nunca farei isso. Ela se
sacrificou com Lorde Asriel para lutar contra o anjo e tornar o
mundo seguro para Lyra. Nenhum deles poderia ter feito isso
sozinho, mas juntos fizeram.
Angustiada, Mary perguntou:
— Como vou contar isso a Lyra?
— Espere até que ela pergunte — disse Serafina. — E pode
ser que não pergunte. De qualquer maneira, ela tem seu
instrumento leitor de símbolos, ele dirá qualquer coisa que ela
queira saber.
As duas ficaram em silêncio por algum tempo,
amigavelmente, enquanto as estrelas lentamente giravam no céu.
— Você pode ver o futuro e adivinhar o que eles vão escolher
fazer? — perguntou Mary.
— Não, mas se Lyra voltar para o seu mundo, eu serei sua
irmã enquanto ela viver. E você, o que vai fazer?
— Eu... — começou Mary, e descobriu que não havia
refletido sobre isso em nenhum momento. — Suponho que meu
lugar seja em meu próprio mundo. Vou lamentar deixar este aqui;
tenho sido muito feliz aqui. Creio que mais feliz do que já fui em
qualquer outra ocasião em minha vida.
— Bem, se você voltar para casa, terá uma irmã em outro
mundo — declarou Serafina —, e eu também. Nós voltaremos a nos
ver denovo, daqui a um ou dois dias, quando o navio chegar, e
conversaremos mais durante a viagem de volta para casa; e então
nos despediremos para sempre. Agora, abrace-me, irmã.
Mary a abraçou e Serafina Pekkala se foi voando em seu galho de pinheiro-nubígeno, sobrevoando os juncos, depois os baixios de
lama, a praia e o mar até que Mary a perdeu de vista.
Mais ou menos naquela mesma hora, um dos grandes
lagartos azuis encontrou o corpo do Padre Gomez. Naquela tarde,
Will e Lyra tinham voltado para o povoado por um caminho
diferente e não o tinham visto; o padre jazia intocado onde
Balthamos o havia deitado. Os lagartos eram comedores de carniça,
mas eram animais mansos e inofensivos, e através de um acordo
antiqüíssimo com os mulefas, tinham o direito de levar qualquer
criatura que fosse deixada morta, ao ar livre, depois do anoitecer.
O lagarto arrastou o corpo do padre de volta para sua toca
e seus filhotes se banquetearam fartamente. Quanto ao rifle, estava
caído na relva, onde o Padre Gomez o deixara, silenciosamente
virando ferrugem.