A Luneta Âmbar
4. AMA E os MORCEGOS
eles virão, eles virão!
— Mas onde está você, Lyra? E isso ela não sabia responder.
— Acho que estou sonhando, Roger —foi tudo o que conseguiu
encontrar para dizer.
Atrás do garotinho, ela podia ver mais espíritos, dúzias, centenas, as
cabeças juntas umas das outras, olhando tudo com muita atenção e ouvindo cada palavra.
— E aquela mulher? —perguntou Roger. — Espero que ela não
esteja morta. Espero que continue viva por tanto tempo quanto
puder.
Porque se ela descer aqui, então não haverá nenhum lugar para nos
escondermos, então ela será nossa dona para sempre. Essa é a única coisa
boa que consigo ver em estar morto, que ela não está. Só que um dia ela
estará. . .
Lyra ficou assustada.
— Eu acho que estou sonhando e não sei onde ela está! — disse. —
Ela está em algum lugar por perto, e eu não consigo
AMA E os
MORCEGOS
ELA JAZIA COMOSE A BRINCAR - A VIDA LHE HAVIA
ESCAPULIDO -COM A INTENÇÃO DE VOLTAR - MAS
NÃO PARA JÁ -
EMILY D ICKINSON
Ama, a filha do pastor, ficou com a imagem . da menina adormecida
marcada na memória: náo conseguia parar de pensar nela. Nem por um
instante duvidou que fosse verdade o que a Sra. Coulter lhe havia
contado. Feiticeiros existiam, sem sombra de dúvida, e era
perfeitamente possível que lançassem feitiços que fizessem as pessoas
adormecer e que uma mãe cuidasse de sua filha com aquela feroz
dedicação e ternura.
Ama desenvolveu uma admiração que quase beirava a adoração
pela bela mulher na caverna e sua filha encantada.
Sempre que podia ia ao pequeno vale, para fazer pequenos
favores à mulher ou simplesmente para tagarelar e ouvir, pois a mulher tinha histórias maravilhosas para contar. Repetidamente, ficava na esperança de ver pelo menos de relance a adormecida, mas
isso só havia acontecido uma vez, e ela aceitava que provavelmente
nunca mais acontecesse.
E durante o tempo que passava ordenhando as ovelhas e fiando a
lã, ou moendo a cevada para fazer pão, pensava incessantemente no
encantamento que fora lançado e por que isso teria acontecido. A Sra.
Coulter nunca lhe contara, de maneira que Ama poderia dar asas à sua
imaginação.
Um dia ela pegou uma porção de pão arredondado, adoçado com
mel, e fez a caminhada de três horas pela trilha até Cho-Lung-Se, onde
havia um monastério. Depois de persuadir, lançando mão de bajulação,
com muita paciência, e de subornar o porteiro com seu pão de mel,
conseguiu obter uma audiência com o grande curandeiro Pagdzin tulku, que havia curado um surto de febre branca apenas um ano antes e que era imensamente sábio.
Ama entrou na cela do grande homem, fazendo uma
reverência muito respeitosa e oferecendo-lhe o restante do pão de
mel com toda a humildade que pôde reunir. O daemon morcego do monge, uma fêmea, esvoaçou e girou rapidamente em torno
dela, assustando seu daemon, Kulang, que enfiou-se entre seus cabelos para se esconder, mas Ama tentou se manter imóvel e em
silêncio até que Pagdzin tulku falou.
— Diga, criança, o que é? Seja rápida, seja rápida — disse ele, a
longa barba grisalha se sacudindo a cada palavra.
Na semi-obscuridade, a barba e os olhos brilhantes eram quase
tudo o que ela conseguia ver. O daemon do monge se acomodou numa viga acima dele, finalmente se aquietando, de modo que ela disse:
— Por favor, Pagdzin tulku, quero adquirir sabedoria. Eu gosta
ria de saber como fazer feitiços e encantamentos. Poderia me ensinar?
— Não — respondeu ele.
Ela estava esperando por isso.
— Bem, então poderia me ensinar apenas um remédio? — pediu
humildemente.
— Talvez. Mas não vou lhe dizer o que é. Posso lhe dar o
remédio, mas não contar seu segredo.
— Está ótimo, muito obrigada, isto é uma grande bênção —
disse ela fazendo várias reverências.
— Qual é a doença e quem sofre dela? — perguntou o velho.
— É uma doença do sono — explicou Ama. — E é o filho do
primo de meu pai que está sofrendo disso.
Ela estava sendo muitíssimo precavida, sabia, trocando o sexo do
doente, apenas para o caso do curandeiro ter ouvido falar da mulher na
caverna.
— E que idade tem o menino?
— Três anos mais velho que eu, Pagdzin tulku — arriscou Ama
—, de modo que ele tem 12 anos de idade. Ele dorme e dorme, não
consegue acordar.
— Por que os pais dele não vieram me procurar? Por que man
daram você?
— Porque moram longe, do lado oposto de minha aldeia, e são
muito pobres, Pagdzin tulku. Só fiquei sabendo da doença de meu pa rente ontem e vim imediatamente pedir seu conselho.
— Eu deveria ver o paciente e fazer-lhe um exame completo,
investigar as posições dos planetas na hora em que ele adormeceu.
Essas
coisas não podem ser feitas apressadamente.
— Não existe nenhum remédio que o senhor possa me dar para
levar comigo?
A fêmea daemon morcego despencou da viga e esvoaçou
furiosamente antes de bater no chão, depois movendo-se rapidamente
de um lado para outro do aposento, depressa demais para que Ama
pudesse acompanhar, mas os olhos do curandeiro viram exatamente
aonde ela ia e quando finalmente se acomodou de cabeça para baixo na
viga e fechou suas asas escuras ao seu redor, o velho se levantou e começou a ir de uma prateleira para outra, de jarro em jarro e de caixa
em caixa, tirando uma colherada de pó aqui, acrescentando uma pitada
de ervas ali, na ordem em que o daemon os havia visitado.
Ele colocou todos os ingredientes num almofariz e os triturou
juntos, balbuciando um encantamento enquanto o fazia. Então
bateu com o pilão na beirada do almofariz, soltando os últimos grãos, e pegou um pincel e tinta, e escreveu alguns caracteres numa
folha de papel. Depois que a tinta secou, virou todo o pó sobre a
inscrição e dobrou o papel rapidamente fazendo um pequeno embrulho quadrado.
— Diga-lhes para passarem este pó com um pincel nas narinas da
criança adormecida, um pouquinho de cada vez, à medida que ele res
pirar — instruiu —, e ele acordará. Isso tem de ser feito com grande
cautela. Se inspirar demais, de uma só vez, ele sufocará. Devem usar um
pincel muito macio.
— Obrigada, Pagdzin tulku — disse Ama, pegando o embrulho
e colocando-o no bolso de sua blusa. — Gostaria de ter mais um pão
de mel para lhe oferecer.
— Um é bastante — disse o curandeiro. — Agora vá, e da
próxima vez que vier, conte-me toda a verdade, não apenas parte dela.
A menina ficou envergonhada e fez uma reverência muito
respeitosa para esconder seu constrangimento. Esperava que não tivesse revelado coisas demais.
Na tarde seguinte correu para o vale assim que pôde, levando
uma porção de arroz-doce embrulhada numa folha de couve. Estava
impaciente para contar à mulher o que tinha feito, dar-lhe o remédio e
receber seus elogios e agradecimentos, mas sobretudo estava ansiosa para que a adormecida enfeitiçada despertasse e conversasse com ela.
Poderiam ser amigas!
Mas quando dobrou a curva no caminho e olhou para cima, não viu
nenhum macaco dourado, nenhuma mulher paciente sentados junto à
entrada da caverna. O lugar estava vazio. Ama correu os últimos metros,
temerosa de que tivessem partido para sempre — mas lá estavam a cadeira na qual a mulher sentava, o equipamento de cozinha e tudo o
mais.
Ama vasculhou a escuridão mais para o fundo da caverna, o
coração batendo acelerado. Mas certamente a adormecida ainda não
havia acordado: na semi-obscuridade Ama podia distinguir o contorno
do saco de dormir, a mancha mais clara que era o cabelo da menina e
a curva branca de seu daemon adormecido.
Ela chegou um pouco mais perto. Não havia dúvida — os dois
haviam saído e deixado a menina enfeitiçada sozinha.
Um pensamento ecoou em Ama como uma nota musical: e se ela
a acordasse antes que a mulher voltasse. . .
Mas mal teve tempo para sentir a excitação dessa idéia quando
ouviu ruídos vindos do caminho e, com um arrepio de culpa, ela e seu
daemon se esconderam correndo num canto, atrás de uma protuberância na rocha num dos lados da caverna. Ela não deveria estar
ali. Estava bisbilhotando. Isso era errado.
E, agora que o macaco dourado estava agachado na entrada,
farejando e virando a cabeça de um lado para outro, Ama o viu mostrar
os dentes afiados e sentiu seu daemon se esconder entrando debaixo de suas roupas, sob a forma de camundongo, tremendo de medo.
— Que foi? — perguntou a mulher falando com o macaco, e
então a caverna escureceu à medida que sua forma ia surgindo na entrada. — A menina esteve aqui? Sim, lá está a comida que ela deixou. Mas creio que não entrou. Devemos combinar um lugar no caminho
para que ela deixe a comida.
Sem lançar um olhar para a adormecida, a mulher se inclinou
para atiçar o fogo e colocou uma panela de água para esquentar enquanto o daemon se agachava não muito longe, montando guarda e vigiando o caminho. De tempos em tempos, ele se levantava e passava
em revista a caverna e Ama, que estava começando a sentir dormência
no corpo e desconforto em seu esconderijo apertado, desejou ardentemente que tivesse esperado do lado de fora em vez de entrar.
Quanto tempo ficaria aprisionada ali?
A mulher estava misturando algumas ervas e pós na água
aquecida. Ama podia sentir o cheiro das essências adstringentes à medida que subiam com o vapor. Então houve um som vindo do
fundo da caverna: a garota estava murmurando e começando a se
mexer. Ama virou a cabeça: podia ver a adormecida enfeitiçada se
mexendo, se virando de um lado para o outro, lançando o braço sobre
os olhos. Ela estava acordando!
E a mulher não deu a menor atenção!
Sem sombra de dúvida tinha ouvido, porque levantou a cabeça
por um instante, mas logo se virou de volta para as ervas na água fervente. Serviu a decocção numa taça e a deixou repousar e, só então,
voltou toda a sua atenção para a menina que estava despertando.
Ama não conseguiu entender nenhuma dessas palavras, mas as
ouviu com espanto e desconfiança crescentes.
— Calma, querida — disse a mulher. — Não se preocupe. Está
em segurança.
— Roger — murmurou a garota, semidesperta. — Serafina! Para
onde foi Roger. . . Onde está ele?
— Não há mais ninguém aqui, só nós — disse sua mãe, em tom
monótono, quase como se a estivesse ninando. — Levante-se e deixe
mamãe lavar você. . . Upa, levante-se, meu amor. . .
Ama observou enquanto a menina, gemendo, lutando para
despertar, tentou afastar a mãe; e a mulher molhou uma esponja na
tigela de água e limpou o rosto e o corpo da menina antes de secá-la.
A esta altura a garota estava quase acordada e a mulher teve que
se mover mais depressa.
— Onde está Serafina? E Will? Ajudem-me, ajudem-me! Não
quero dormir. Não, não! Não quero! Não!
A mulher estava segurando a taça com a mão firme como aço,
enquanto com a outra tentava levantar a cabeça de Lyra.
— Fique quieta, querida, calma, agora fique quieta, beba seu chá —
Mas a garota se debateu e quase derramou a bebida, gritando
mais alto:
— Deixe-me em paz! Eu quero ir! Me larga! Will, Will ajude-me.
A mulher estava agarrando seus cabelos e puxando-os com força,
obrigando-a a virar a cabeça para trás, empurrando a taça contra sua boca.
— Não quero! Não toque em mim, senão Iorek vai arrancar sua
cabeça! Ah, Iorek, onde está você? Iorek Byrnison! Ajude-me, Iorek!
Não vou! Não vou —
Então, depois de uma palavra da mulher, o macaco dourado
saltou sobre o daemon de Lyra, agarrando-o com os fortes dedos negros. O daemon mudou de uma forma para outra, mais rapidamente do que Ama jamais tinha visto um daemon mudar de forma antes: gato-cobra-rato-raposa-lobo-chita-lagarto-doninha
Mas as garras do macaco em momento algum afrouxaram; e
então Pantalaimon se tornou um porco-espinho.
O macaco guinchou de dor e o soltou. Três longos espinhos
estavam enterrados, ainda tremulando, em sua pata. A Sra. Coulter
rosnou e com a mão livre deu um forte tapa na cara de Lyra, um
tabefe com as costas da mão, dado com tanta violência que a jogou
para trás estonteada; e, antes que Lyra pudesse se recuperar, a taça estava em sua boca e ela teria que engolir ou sufocar.
Ama desejou poder cobrir os ouvidos e não ouvir os sons: os
goles forçados, o choro, os soluços, as súplicas, as ânsias de vômito
eram quase impossíveis de suportar. Mas, pouco a pouco, foram se calando e apenas um ou dois soluços trêmulos era o que se podia ouvir
da garota que agora estava mais uma vez mergulhando no sono —
sono provocado por feitiço, por encantamento? Que nada, sono
provocado por veneno! Aquilo não era sono de verdade, ela estava drogada! Ama viu uma faixa de pêlos brancos se materializar junto do
pescoço da garota, enquanto seu daemon se esforçava para assumir a forma de um animal alongado, sinuoso, de pêlos cor de neve, com olhos negros brilhantes e a ponta da cauda preta, e se aninhava em
volta de seu pescoço.
E a mulher estava cantando baixinho, cantigas de ninar, alisando
os cabelos na fronte da garota, acariciando sua face quente e seca,
cantarolando cantigas das quais mesmo Ama podia ver que ela não sabia
as letras, porque tudo o que cantava eram séries de sílabas sem sentido,
la-la-la, ba-ba-boo-boo, a voz doce emitindo sons sem sentido.
Afinal aquilo parou, e então a mulher fez uma coisa curiosa:
pegou uma tesoura e aparou o cabelo da garota, segurando a cabeça
da menina adormecida e virando-a ora para lá, depois para cá, para ver
como ficava melhor. Ela pegou um cacho de cabelos louros queimados e o colocou num medalhão que usava numa corrente em
volta do pescoço. Ama sabia por que: ela iria usá-lo para fazer algum
outro feitiço. Mas, primeiro, a mulher o levou aos lábios e beijou. . .
Ah, mas aquilo tudo era muito estranho.
O macaco dourado arrancou o último espinho e disse alguma
coisa para a mulher, que estendeu a mão para pegar um morcego adormecido no teto da caverna. O animalzinho preto se debateu e guinchou numa voz fina, penetrante como uma agulha que espetou a
cabeça de Ama de uma orelha à outra, e então ela viu a mulher entregar o morcego a seu daemon, e viu o daemon puxar uma das asas pretas, e puxar, até que ela foi arrancada e se partiu ficando pendurada
por um fio branco de músculo, enquanto o morcego moribundo gritava
e seus companheiros voavam em círculos, angustiados e desnorteados.
Craque-craque — estalo — era o que se ouvia enquanto o macaco despedaçava o bichinho membro por membro e a mulher se deitava com
uma expressão melancólica em seu saco de dormir junto da fogueira e
lentamente comia uma barra de chocolatl.
O tempo foi passando. A luz desapareceu e a lua subiu, e a
mulher e seu daemon adormeceram.
Ama, com os músculos enrijecidos e doloridos, se esgueirou para
fora de seu esconderijo e passou andando nas pontas dos pés pelas pessoas que dormiam, sem fazer nenhum barulho, até estar a meio
caminho na descida da trilha.
Com o medo dando-lhe velocidade, ela correu pela trilha
estreita, seu daemon sob a forma de uma coruja batendo as asas silenciosamente a seu lado. O ar limpo e frio, o movimento constante
das copas das árvores, o brilho das nuvens iluminadas pelo luar no
céu escuro e os milhões de estrelas a acalmaram um pouco.
Ela parou quando avistou o pequeno conjunto de casas de pedra
e seu daemon pousou em seu punho.
— Ela mentiu! — exclamou Ama. — Ela mentiu para nós! O que
podemos fazer, Kulang? Podemos contar a Papai? O que podemos fazer?
— Não conte — disse o daemon. — Vai causar ainda mais pro
blemas. Temos o remédio. Podemos acordar a menina. Podemos
voltar lá quando a mulher estiver fora de novo, acordar a garota, e
levá-la embora.
Só pensar naquela idéia enchia os dois de medo. Mas as palavras
haviam sido ditas, o embrulhinho de papel estava bem guardado no
bolso de Ama e eles sabiam como usá-lo.
acordar. Não consigo vê-la, acho que ela está por perto, ela me machucou —
— Ah, Lyra, não fique com medo! Se você também ficar com medo,
eu vou enlouquecer —
Eles tentaram se abraçar bem apertado, mas seus braços passavam
pelo ar vazio. Lyra tentou explicar o que estivera dizendo, sussurrando bem junto do rosto pálido de Roger na escuridão:
— Eu só estou tentando acordar. Estou com tanto medo de dormir a
minha vida inteira e então morrer. . . Eu quero acordar antes! Não me im
portaria que fosse apenas por uma hora, desde que eu estivesse realmente vi
va e acordada. Não sei se isto é mesmo real ou não, mas vou ajudar você,
Roger! Juro que vou!
— Mas se você estiver sonhando, Lyra, pode ser que não acredite mais
quando acordar. Isso é o que eu faria, pensaria que havia apenas sido um
sonho.
— Não!— exclamou ela em tom feroz, e