A Luneta Âmbar
15. A Forja
A FORJA
...ENQUANTO EU CAMINHAVA EM MEIO ÀS CHMAS
DO INFERNO, ENCANTADO COM OS PRAZERES
DOS ESPÍRITOS...
William Blake
Naquele momento, os galivespianos estavam conversando
a respeito da faca. Tendo feito um duvidoso acordo de paz com
Iorek Byrnison, subiram de volta para sua saliência na rocha, para se
manter fora do caminho e enquanto o crepitar das chamas crescia e
os estalos e os rugidos do fogo enchiam o ar, Tialys disse:
— Não devemos nunca sair do lado dele. Tão logo a faca
esteja consertada, devemos nos manter mais perto que uma
sombra.
— Ele é vivo demais. Vigia todos os cantos atrás de nós —
observou Salmakia. — A garota é mais crédula. Acho que
poderíamos conquistá-la. Ela é inocente e ama com facilidade.
Poderíamos nos dedicar a ela. Acho que deveríamos fazer isso,
Tialys.
— Mas ele tem a faca. É ele quem pode usá-la.
— Ele não vai a lugar nenhum sem ela.
— Mas ela tem que segui-lo, se ele tiver a faca. E creio que,
assim que a faca estiver intacta de novo, vão usá-la para fugir de nós.
Você viu como ele fez e a impediu de falar quando ia dizer mais
alguma coisa? Eles têm algum objetivo secreto, e é muito diferente
do que queremos que façam.
— Vamos ver. Mas creio que você tem razão, Tialys.
Devemos nos manter perto do menino a qualquer custo.
Ambos tinham observado com algum ceticismo enquanto
Iorek Byrnison arrumava suas ferramentas na oficina improvisada.
Os poderosos operários nas fábricas de peças de artilharia no subsolo
da fortaleza de Lorde Asriel, com seus altos-fornos e laminadores,
suas forjas ambáricas e prensas hidráulicas, teriam rido do fogo
aberto, do martelo de pedra, da bigorna consistindo em um pedaço
da armadura de Iorek. Não obstante isso, o urso havia avaliado as
dificuldades, tomado as providências e assumido muito seriamente
sua tarefa, e na precisão de seus movimentos os pequenos espiões
começaram a ver alguma qualidade que fazia calar seu escárnio.
Quando Lyra e Will entraram trazendo a lenha, Iorek os
instruiu sobre como colocar os galhos cuidadosamente na fogueira.
Examinava cada galho, virando-o de um lado para outro, e depois
dizia a Will ou a Lyra para colocá-lo neste ou naquele ângulo
específico, ou para quebrar uma parte e colocá-la separadamente na
beira. O resultado foi uma fogueira de extraordinária ferocidade,
com toda a sua energia concentrada em um dos lados.
A essa altura o calor na caverna era intenso. Iorek continuou a
alimentar a fogueira e mandou as crianças fazerem mais duas viagens
descendo a trilha para garantir que houvesse combustível suficiente
para a operação inteira.
Então o urso apanhou uma pequena pedra no chão e pediu
a Lyra para procurar mais pedras do mesmo tipo. Explicou que
aquelas pedras, quando aquecidas, deixavam escapar um gás que
cercaria e envolveria a lâmina, impedindo o ar de entrar em contato
com ela, pois se o metal quente entrasse em contato com o ar, o
absorveria um pouco e seria enfraquecido por ele.
Lyra pôs-se a procurar e, com a ajuda dos olhos de coruja de
Pantalaimon, logo tinha juntado uma dúzia de pedras ou mais para
entregar. Iorek explicou-lhe como colocá-las e onde, e mostrou a ela
exatamente o tipo de corrente de ar que deveria obter, abanando um
galho cheio de folhas, para se assegurar de que o gás fluísse de
maneira constante sobre a peça trabalhada.
Will foi encarregado de cuidar do fogo, e Iorek passou vários
minutos lhe dando instruções e se assegurando de que
compreendesse os princípios que deveria usar. Havia uma
quantidade de coisas que dependiam de posicionamento exato e
Iorek não podia parar para corrigir cada uma delas. Will tinha que
compreender todas, pois só assim as faria corretamente.
Além disso, ele não deveria esperar que a faca tivesse
exatamente o mesmo aspecto depois de consertada. Ficaria mais
curta, pois cada pedaço da lâmina partida deveria recobrir
ligeiramente o seguinte, de maneira a poderem ser forjados juntos; e
a superfície oxidaria um pouco, a despeito do gás da pedra, de
modo que parte do jogo de cores se perderia; e sem dúvida o cabo
ficaria queimado. Mas a lâmina voltaria a ser igualmente afiada e
funcionaria.
De modo que Will ficou observando enquanto as chamas
rugiam, lambendo os galhos de madeira resinosa e, com os olhos
lacrimejando e as mãos chamuscadas, ajustou cada novo galho que foi
acrescentando até que o calor estivesse concentrado como Iorek
queria.
Enquanto isso, o próprio Iorek amolava e martelava uma pedra
do tamanho de um punho, depois de ter rejeitado várias até
encontrar uma com o peso certo. Com golpes poderosos foi lhe
dando forma e polindo, o cheiro de cordite de pedras espatifadas se
juntando à fumaça nas narinas dos dois espiões que observavam lá do
alto. Até Pantalaimon estava em ação, tomando a forma de um corvo
para poder bater as asas e avivar as chamas fazendo o fogo arder mais
depressa.
Finalmente o martelo ficou pronto, com o formato que Iorek
queria, e ele colocou os dois primeiros pedaços da lâmina da faca
sutil no meio da lenha que ardia com ferocidade no centro da
fogueira e disse a Lyra para começar a abanar para dirigir o gás das
pedras sobre eles. O urso ficou observando, seu focinho branco
comprido e pálido no clarão do fogo, e Will viu a superfície do metal
começar a reluzir, ficando incandescente, primeiro vermelha, depois
amarela e então branca.
Iorek estava acompanhando isso muito atentamente, a pata
estendida pronta para retirar rapidamente os pedaços. Depois de
alguns momentos, o metal mudou novamente e a superfície ficou
brilhante e faiscante, e fagulhas, exatamente como as de fogos de
artifício, saltavam dela, espirrando para o alto.
Então Iorek entrou em ação. A pata direita se moveu, rápida
como um dardo, e tirou primeiro um pedaço depois outro,
segurando-os entre as pontas de suas garras maciças e colocando-os
sobre a placa de ferro que era a chapa das costas de sua armadura.
Will sentiu o cheiro das garras queimando, mas Iorek não deu
atenção àquilo e, movendo-se com uma velocidade extraordinária,
ajustou o ângulo em que os pedaços se sobrepunham e então
levantou a pata esquerda bem alto e bateu violentamente com o
martelo de ferro.
A ponta da faca saltou na pedra sob o golpe violento. Will
estava pensando que todo o resto de sua vida dependia do que
acontecesse naquele minúsculo triângulo de metal, aquela ponta que
encontrava as frestas no interior dos átomos, e todos os seus nervos
tremeram, percebendo cada faísca e cada chama, e o alargamento de
todos os átomos na gelosia do metal. Antes que isso começasse,
tinha imaginado que apenas uma fornalha de tamanho normal, com
todas as ferramentas e equipamento da maior qualidade, poderia
dar conta do trabalho naquela lâmina; mas naquele instante se deu
conta de que aquelas eram as melhores ferramentas e que o grande
talento de Iorek havia construído a melhor fornalha do mundo.
Iorek rugiu acima do clangor:
— Segure-a mantendo-a imóvel em sua mente! Você
também tem que forjá-la! Esta tarefa é tão sua quanto minha!
Will sentiu todo o seu ser tremer sob os golpes do martelo de
pedra no punho do urso. O segundo pedaço da lâmina também
estava se aquecendo e o galho com folhas na mão de Lyra
empurrava o gás ao longo de seu comprimento para banhar os dois
pedaços em seu fluxo e impedir a entrada do ar corrosivo. Will
percebia tudo aquilo e sentia os átomos de metal se ligarem uns aos
outros fechando a fratura, mais uma vez formando novos cristais, se
fortalecendo e se ordenando na grade invisível à medida que a fusão
se efetuava.
— A ponta! — rugiu Iorek. — Mantenha a ponta alinhada!
Ele queria dizer com sua mente, e Will o fez imediatamente,
percebendo os minúsculos obstáculos e depois os minúsculos
encaixes à medida que as extremidades se alinhavam com perfeição.
Então, aquela solda se fez e Iorek se virou para o pedaço seguinte.
— Mais uma pedra — gritou para Lyra, que jogou a primeira
para o lado e colocou uma segunda no ponto exato para aquecer.
Will verificou o combustível e quebrou um galho em dois
para direcionar melhor as chamas, e Iorek começou a trabalhar
novamente com o martelo. Will sentiu uma nova camada de
complexidade ser acrescentada à sua tarefa, porque tinha que
manter o novo pedaço conectado na posição exata com os dois
anteriores, ao mesmo tempo, e compreendia que somente se fizesse
isso com absoluta precisão poderia ajudar Iorek a consertá-lo.
E assim o trabalho continuou. Will não tinha idéia de
quanto tempo levou; Lyra, por sua vez, começou a sentir os
braços doerem, os olhos lacrimejarem, a pele chamuscada e
vermelha, e todos os ossos de seu corpo doíam de cansaço; mas,
mesmo assim, continuou a colocar cada pedra exatamente como
Iorek lhe explicara, e mesmo o exausto Pantalaimon continuava a
levantar as asas e a batê-las sobre as chamas.
Quando chegou a hora de fazer a última solda, a cabeça de
Will zunia e ele estava tão exausto pelo esforço intelectual que mal
conseguiu levantar o galho seguinte para botar na fogueira. Tinha
que compreender cada conexão, caso contrário a faca não ficaria
inteira e unida; e quando chegasse a hora da conexão mais
complicada, a última, que fixaria a lâmina quase terminada na
pequena parte que permanecia presa ao cabo — se não conseguisse
segurá-las com sua plena consciência, juntamente com todas as
outras, então a faca simplesmente se desfaria em pedaços, como se
Iorek nunca tivesse começado.
O urso percebeu isso também e fez uma pausa, antes de
começar a aquecer o último pedaço. Olhou para Will e em seus
olhos Will não conseguia ver nada, nenhuma expressão, apenas um
brilho negro sem fundo. Apesar disso, compreendeu: aquilo era
trabalho, e era trabalho duro, difícil, mas que estavam à altura de
realizá-lo, todos eles.
E isso foi o bastante para Will, de modo que se virou de volta
para o fogo e direcionou sua mente para o pedaço quebrado da
lâmina no cabo da faca e se preparou para a última e mais difícil
parte da tarefa.
E assim, juntos, ele, Iorek e Lyra forjaram a faca, e quanto
tempo demorou para que a última solda fosse concluída, não tinha
idéia; mas depois que Iorek deu a última martelada, depois que
Will sentiu que o último minúsculo alinhamento se fez, à medida
que os átomos se ligavam, soldando-se sobre a linha quebrada,
deixou-se cair no chão da caverna e permitiu que a exaustão o
dominasse. Ali perto, Lyra estava no mesmo estado, os olhos
vidrados e vermelhos, irritados, o cabelo cheio de fuligem e de
fumaça; e mesmo Iorek estava com a cabeça baixa, pesada, o pêlo
chamuscado em vários lugares, riscas escuras de cinza marcando seu
tom branco-cremoso.
Tialys e Salmakia tinham se revezado, dormindo em turnos, um
deles sempre alerta. Agora ela estava acordada e ele dormindo, mas à
medida que a lâmina esfriava, passando de vermelha para cinzenta e,
finalmente, prateada, e quando Will estendeu a mão para o cabo, ela
acordou seu parceiro pondo a mão em seu ombro. Ele imediatamente
ficou alerta.
Mas Will não tocou na faca: apenas manteve a palma perto
dela pois o calor ainda era intenso demais para sua mão. Os espiões
relaxa ram na saliência de rocha quando Iorek disse para Will:
— Vamos lá fora.
Então disse para Lyra:
— Fique aqui e não toque na faca.
Lyra ficou sentada perto da bigorna onde a faca estava
esfriando e Iorek disse a ela para abafar o fogo e não deixar que se
apagasse: ainda faltava uma última operação.
Will seguiu o grande urso até a encosta escura da montanha.
O frio veio intenso e instantâneo, depois do calor infernal na
caverna.
— Eles não deveriam ter feito aquela faca — disse Iorek,
depois de terem caminhado um pouco. — Talvez eu não devesse tê-
la consertado. Sinto-me inquieto e nunca me senti inquieto antes,
nunca tive dúvidas. Agora estou cheio de dúvidas. Ter dúvidas é
uma coisa humana, não é coisa de urso. Se estou me tornando
humano, alguma coisa está errada, alguma coisa vai mal. E eu a
tornei pior.
— Mas quando o primeiro urso fez a primeira peça de uma
armadura, isso também não foi mau, do mesmo modo?
Iorek ficou em silêncio. Continuaram caminhando até
alcançarem um grande monte de neve fofa e Iorek se deitou nele, e
rolou de um lado para o outro, de frente, de bruços e mergulhando,
lançando nuvens de neve bem alto, no ar noturno, até que pareceu
que ele próprio era feito de neve, que era a personificação de toda a
neve do mundo.
Depois que acabou, rolou de bruços, se levantou e se sacudiu
vigorosamente; então, vendo que Will ainda esperava uma resposta
para sua pergunta, disse:
— Sim, creio que pode ter sido, também. Mas antes daquele
primeiro urso de armadura, não havia outros. Não conhecemos
nada anterior a isso. Foi naquela ocasião que o costume começou.
Conhecemos nossos costumes, eles são firmes e sólidos, e os
seguimos sem fazer mudanças. A natureza do urso é fraca sem os
costumes consagrados, como a carne do urso fica desprotegida sem
armadura — declarou.
— Mas acho que eu saí dos limites da natureza do urso ao
consertar esta faca. Creio que fui tão tolo quanto Iofur Raknison.
O tempo dirá. Mas estou inseguro e cheio de dúvidas. Agora você
tem que me contar: por que a faca quebrou?
Will esfregou a cabeça dolorida com as duas mãos.
— A mulher olhou para mim e eu pensei que ela tivesse o
rosto de minha mãe — relatou, tentando se recordar da
experiência com toda a honestidade que possuía. — E a faca
encontrou um obstáculo, alguma coisa que não conseguiu cortar e,
porque minha mente estava empurrando-a para cortar e fazendo
força para puxá-la para trás, as duas coisas ao mesmo tempo, ela
se partiu. Isso é o que eu acho. A mulher sabia o que estava
fazendo, tenho certeza. Ela é muito esperta.
— Quando você fala da faca, você fala de sua mãe e de seu
pai.
— Falo? É verdade. . . acho que falo sim.
— O que vai fazer com ela?
— Não sei.
De repente, Iorek investiu contra Will e o esbofeteou com
força com a pata esquerda: com tanta força que Will caiu meio
atordoado na neve e saiu rolando e rolando até que acabou parando
a alguma distância mais abaixo na encosta com a cabeça zunindo.
Iorek desceu lentamente até onde Will estava se esforçando
para se levantar e exigiu:
— Responda e me diga a verdade.
Will sentiu a tentação de dizer: "Você não teria feito isso se eu
estivesse com a faca em minha mão." Mas sabia que Iorek tinha
conhecimento disso e que Iorek sabia que ele próprio também tinha
conhecimento disso, e que seria uma descortesia e uma estupidez
dizê-lo; mas mesmo assim sentiu-se tentado.
Controlou a língua até estar de pé, ereto e encarando Iorek,
cara a cara.
— Eu disse que não sabia — explicou, se esforçando muito
para manter a voz calma — porque ainda não examinei com clareza
exatamente o que vou fazer. O que isso significa. E uma coisa que me
dá medo. E também deixa Lyra com medo. Mas, de qualquer
maneira, concordei assim que ouvi o que ela disse.
— E o que foi isso?
— Queremos descer à terra dos mortos e falar com o espírito
do amigo de Lyra, Roger, aquele que foi morto em Svalbard. E, se
realmente existir um mundo dos mortos, então meu pai também
estará lá, e se pudermos falar com espíritos, quero falar com ele
— explicou, continuando:
— Mas estou dividido, estou em conflito, indeciso, porque
também quero voltar e cuidar de minha mãe, porque eu poderia fazer isso e também porque meu pai e o anjo Balthamos me
disseram que eu deveria ir até Lorde Asriel e oferecer a ajuda da
faca a ele, e acho que eles também estavam certos. . .
— O anjo fugiu — disse o urso.
— Ele não era um guerreiro. Fez o máximo que podia e
então chegou um momento em que não podia fazer mais nada. Ele
não foi o único a sentir medo; eu também sinto medo. De modo
que tenho que refletir sobre tudo isso. Talvez, às vezes a gente não
faça a coisa certa porque a coisa errada parece mais perigosa, e não
queremos parecer medrosos, de modo que vamos lá e fazemos a coisa
errada só porque é perigosa; nos empenhamos mais em não parecer medrosos do que em escolher corretamente. É muito
difícil. Foi por isso que não respondi.
— Compreendo — disse o urso.
Eles ficaram parados ali, em silêncio, pelo que pareceu muito
tempo, especialmente para Will, que tinha pouca proteção contra o
frio intenso. Mas Iorek ainda não havia acabado e Will ainda estava
enfraquecido e atordoado por causa da pancada,\e não estava muito
confiante na firmeza de seus pés, de modo que ficaram onde
estavam.
— Bem, eu me comprometi de várias maneiras — disse o
urso rei. — É possível que ao ajudar você eu tenha condenado meu
reino à destruição definitiva. E é possível que não tenha, e que essa
destruição a caminho de qualquer maneira; e é possível que eu a
tenha impedido de ocorrer. De modo que estou angustiado, tendo
que fazer coisas que não são da natureza do urso e ficar tecendo
possibilidades e tendo dúvidas como um ser humano —
prosseguiu.
— E vou lhe dizer uma coisa. Você já sabe disso, mas não
quer saber, e é por isso que vou lhe dizer francamente, de modo que
não possa se enganar. Se quiser ser bem-sucedido em sua tarefa, não
deve mais pensar em sua mãe. Deve deixá-la de lado, tirá-la da mente.
Se sua mente estiver dividida, a faca se quebrará — advertiu.
— Agora vou me despedir de Lyra. Você deve esperar na
caverna; aqueles dois espiões não vão querer você longe dos olhos
deles e eu não quero que estejam ouvindo quando eu estiver
falando com ela.
Will ficou sem palavras, embora seu peito e sua garganta
parecessem que iam explodir. Afinal conseguiu falar:
— Obrigado, Iorek Byrnison — mas isso foi tudo o que
conseguiu dizer.
Foi subindo a encosta, andando ao lado de Iorek, em direção
à caverna, onde as brasas da fogueira ardiam quentes e brilhantes
ainda incandescentes na vasta escuridão em volta.
Chegando lá, Iorek executou os últimos procedimentos para
concluir o conserto da faca sutil. Ele a colocou entre as cinzas em
brasa mais vivas, até a lâmina ficar incandescente, e Will e Lyra
viram uma centena de cores rodopiando nas profundezas
enfumaçadas do metal e, quando julgou que o momento estava
certo, Iorek disse a Will para pegá-la e mergulhá-la diretamente na
neve que havia se acumulado lá fora.
O cabo de pau-rosa estava enegrecido pelo fogo e
chamuscado, mas Will enrolou a mão numa camisa dobrada, dando
várias voltas, e fez o que Iorek havia mandado. No silvar e no clarão
de vapor que subiu, sentiu os átomos finalmente se acomodarem
unidos, e soube que a faca estava afiada como antes, a ponta
infinitamente aguçada.
Mas, de fato, tinha um aspecto diferente. Estava mais curta e
muito menos elegante, e havia uma superfície fosca prateada sobre
cada um dos pontos de solda. Ela agora tinha um aspecto feio;
parecia estar exatamente como estava, ferida.
Depois que esfriou, ele a guardou na mochila e, ignorando os
espiões, sentou para esperar por Lyra.
Iorek a levara um pouco mais para cima na encosta, para um
ponto fora do raio de visão da caverna, e lá, deixara que ela se
sentasse aconchegada no abrigo de seus grandes braços, com
Pantalaimon, sob a forma de camundongo, aninhado em seu peito.
Iorek inclinou a cabeça para Lyra e passou o focinho nas mãos
chamuscadas e cheias de cinza e fumaça. Sem dizer uma palavra,
começou a lambê-las e limpá-las; o toque de sua língua foi
apagando o ardor das queimaduras e ela se sentiu mais segura do
que nunca em sua vida.
Mas quando suas mãos estavam livres da fuligem e fumaça,
Iorek falou. Ela sentiu sua voz vibrar nas suas costas.
— Lyra da Língua Mágica, que plano é esse de visitar os
mortos?
— Isso me veio num sonho, Iorek. Eu vi o espírito de Roger
e soube que estava chamando por mim. . . Você se lembra de
Roger; bem, depois que deixamos você, ele foi morto e foi por
minha culpa, pelo menos senti que tinha sido. E acho que eu deveria
acabar o que comecei, é só isso: devo ir e dizer a ele que sinto muito
e, se puder, devo tirá-lo de lá. Se Will puder abrir um caminho até
o mundo dos mortos, então devemos fazer isso.
— Poder não é a mesma coisa que dever.
— Mas se você deve e pode fazer, então não há desculpa.
— Enquanto você estiver viva, seu compromisso é com a
vida.
— Não, Iorek — disse ela, com delicadeza —, nosso
compromisso é cumprir nossas promessas, por mais difíceis que
sejam. Sabe, vou lhe contar um segredo: estou morrendo de medo. E
gostaria muito de nunca ter tido aquele sonho, e que Will nunca tivesse
pensado em usar a faca para ir lá. Mas já aconteceu, de maneira que
não podemos deixar de ir.
Lyra sentiu Pantalaimon tremendo e o acariciou com as
mãos doloridas.
— Mas nós não sabemos como chegar lá — prosseguiu ela.
— Não vamos saber coisa nenhuma, enquanto não tentarmos. O
que você vai fazer, Iorek?
— Vou voltar para o norte, com meu povo. Não podemos
viver nas montanhas. Até mesmo a neve é diferente. Pensei que
pudéssemos viver aqui, mas para nós é mais fácil viver no mar,
mesmo se estiver quente. Valeu a pena descobrir isso. E, além disso,
acho que vão precisar de nós. Sinto que vai haver uma guerra, Lyra
da Língua Mágica; sinto cheiro de guerra no ar, ouço seus ruídos.
Conversei com Serafina Pekkala antes de vir para cá e ela me disse
que ia se juntar a Lorde Faa e aos gípcios. Se houver guerra, vão
precisar de nós.
Lyra se endireitou, excitada ao ouvir o nome de seus velhos
amigos. Mas Iorek não havia acabado. Ele prosseguiu:
— Se você não descobrir uma maneira de sair do mundo
dos mortos, não voltaremos a nos encontrar, porque eu não tenho
espírito. Meu corpo permanecerá na terra e depois se tornará parte
dela. Mas se acontecer de você e eu sobrevivermos, então você será
sempre uma visitante bem-vinda e honrada em Svalbard; e o mesmo
se aplica a Will. Ele contou a você o que aconteceu quando nos
encontramos?
— Não — respondeu Lyra —, disse apenas que tinha sido
na margem de um rio.
— Ele me desafiou e me venceu. Pensei que nunca ninguém
poderia fazer isso, mas esse garoto ainda criança foi audacioso demais
para mim e muito esperto. Não estou nada contente com o fato de que
venha a fazer o que está planejando, mas não há mais ninguém em
quem eu confiaria para acompanhá-la, exceto este garoto. Vocês dois
estão à altura um do outro. Boa viagem, Lyra da Língua Mágica,
minha querida amiga.
Ela levantou os braços, abraçou o pescoço dele e apertou o
rosto contra seu pêlo, sem conseguir falar.
Depois de um minuto, ele se levantou com delicadeza e soltou
os braços dela; então se virou e foi se afastando silenciosamente,
caminhando para a escuridão. Lyra achou que o contorno de seu
corpo desapareceu quase que imediatamente na brancura do
terreno coberto de neve, mas isso poderia ter sido porque seus olhos
estavam cheios de lágrimas.
Quando Will ouviu os passos de Lyra vindo pela trilha, olhou
para os espiões e disse:
— Não se movam, a faca está aqui, não vou usá-la. Fiquem
onde estão.
Ele saiu e encontrou Lyra parada, chorando, com
Pantalaimon sob a forma de lobo levantando a cabeça para o céu
escuro. Ela estava muito calada. A única luz vinha do reflexo pálido
do que restava da fogueira sobre a escarpa de neve e isso, por sua vez,
se refletia nas faces molhadas de Lyra, e suas lágrimas encontraram
reflexo nos olhos de Will, e assim, aqueles fótons uniram os dois
numa teia silenciosa.
— Eu amo tanto o Iorek, Will! — Lyra conseguiu sussurrar,
com a voz trêmula. — E ele parecia velha. Parecia estar com fome, velho e triste. . . Será que agora tudo depende de nós, Will? Não
podemos contar com mais ninguém, não é. . . Somos só nós. Mas
ainda não somos crescidos. Somos apenas crianças. Somos jovens
demais. Se o pobre Sr. Scoresby está morto e Iorek está velho. . . Tudo fica dependendo de nós, tudo o que tem de ser feito.
— Vamos conseguir — respondeu ele. — Não vou mais
pensar no que já aconteceu. Nós vamos conseguir. Mas, agora, temos
que dormir, e se ficarmos neste mundo, aqueles tais dos girópteros
podem vir, os tais que os espiões pediram que viessem. . . Vou
cortar uma abertura agora e encontraremos um outro mundo para
dormir, e se os espiões vierem conosco, vai ser uma pena; vamos ter
que nos livrar deles numa outra oportunidade.
— Está bem — concordou ela, e fungou, limpou o nariz com
as costas do punho, depois esfregou os olhos com as palmas das
duas mãos. — Vamos fazer isso. Você tem certeza que a faca vai
funcionar? Testou a faca?
— Eu sei que vai funcionar.
Com Pantalaimon em forma de tigre, o que, esperavam,
desencorajaria os espiões de se aproximar, Will e Lyra voltaram à
caverna e pegaram suas mochilas.
— O que vocês estão fazendo? — perguntou Salmakia.
— Vamos para um outro mundo — respondeu Will,
pegando a faca. Segurar a faca fez com que se sentisse inteiro
novamente; não havia percebido o quanto a amava.
— Mas devem esperar pelos girópteros de Lorde Asriel —
disse Tialys, em tom duro.
— Não vamos esperar — retrucou Will. — Se chegar perto
da faca, eu mato você. Venham conosco se quiserem, mas não
podem nos obrigar a ficar aqui. Nós vamos embora.
— Você mentiu!
— Não — interveio Lyra —, eu menti. Will não mente.
Você não pensou nisso.
— Mas para onde estão indo?
Will não respondeu. Procurou à sua frente, no ar sombrio, e
cortou uma abertura.
Salmakia argumentou:
— Isto é um erro. Vocês deveriam perceber isso e nos
escutar. Vocês não pensaram —
— Sim, pensamos sim — retrucou Will —, pensamos
muito e contaremos a vocês o que pensamos amanhã. Podem vir
conosco para onde estamos indo, ou podem voltar para junto de
Lorde Asriel.
A janela aberta dava para o mundo para onde Will tinha
fugido com Baruch e Balthamos, e onde tinham dormido em
segurança: a praia sem fim, quente e úmida, com as árvores
gigantescas parecendo samambaias, atrás das dunas.
— Aqui, vamos dormir aqui, aqui está bom — disse.
Deixou que os outros atravessassem e imediatamente fechou a
janela. Enquanto Lyra se deitava onde estavam, exausta, Lady
Salmakia ficou montando guarda e o cavaleiro abriu seu magneto
ressonante e começou a tocar sua mensagem para a escuridão.