A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 17 de 39

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A Luneta Âmbar

16. A Nave da Intenção

A NAVE DA INTENÇÃO

 

DA CÚPULA LUSTROSA PENDURADOS POR MAGIA SUTIL DESCEM

BRILHANTES EM FILEIRAS DIVERSAS, COMO ESTRELAS,

CANDELABROS E LAMPARINAS FORNIDAS DE ASFALTO E NAFTA

QUE DE SI PRODUZEM LUZ...

John Milton – Canto I, 30

 

Minha filha! Minha filha! Onde está ela? O que vocês fizeram?

Minha Lyra, melhor seria se arrancassem as fibras de meu coração,

ela estava segura comigo, segura, e agora, onde está ela?

O grito da Sra. Coulter ressoou no pequeno gabinete no

alto da torre adamantina.

Ela estava amarrada a uma cadeira, os cabelos desgrenhados,

as roupas rasgadas, os olhos desesperados; e seu daemon macaco se debatia e lutava no chão preso por uma corrente de elos de prata.

Lorde Asriel estava sentado ali perto, escrevendo num pedaço

de papel, sem dar nenhuma atenção. Um ordenança estava postado

a seu lado, olhando nervosamente para a mulher. Quando Lorde

Asriel lhe entregou o papel, ele bateu continência e saiu apressado,

seu daemon terrier colado nos calcanhares, com o rabo entre as pernas.

Lorde Asriel virou-se para a Sra. Coulter.

— Lyra? Francamente, não me interessa — disse, a voz baixa

e rouca. — Aquela criança miserável deveria ter ficado onde foi

deixada e feito o que lhe mandavam fazer. Não posso mais

desperdiçar tempo nem recursos com ela; se ela se recusa a ser

ajudada, que arque com as conseqüências.

— Você não está falando sério, Asriel, senão não teria —

— Estou falando seriíssimo, cada palavra. A confusão que

ela provocou é totalmente fora de proporção com relação a seus

méritos. Uma menina inglesa comum, não muito inteligente —

— Mas ela é! — rebateu a Sra. Coulter.

— Está bem; esperta, mas não intelectualmente inteligente;

impulsiva, desonesta, ambiciosa —

— Corajosa, generosa, carinhosa.

— Uma criança absolutamente comum, sem nenhuma

qualidade que a distinga —

— Absolutamente comum? Lyra? Ela é singular. Pense no que

ela já fez. Pode não gostar dela, se quiser, Asriel, mas não ouse

falar com ares condescendentes sobre sua filha. E ela estava segura comigo, até —

— Você tem razão — disse ele, se levantando. — Ela é

singular. Ter conseguido domesticar e amolecer você, isso não é

feito corriqueiro. Ela conseguiu lhe tirar seu veneno, Marisa. Ela lhe

arrancou os dentes. Seu ardor se apagou numa garoa de piedade

sentimental. Quem poderia imaginar? A agente impiedosa da igreja,

a perseguidora fanática de crianças, a inventora de máquinas

horrendas para seccioná-las e vasculhar as entranhas aterrorizadas de

seus pequenos seres em busca de qualquer prova de pecado. . . e então aparece uma pirralha, insolente, malcriada e ignorante, de

unhas sujas, e você cacareja e abre as asas como uma galinha

chocadeira. Bem, admito: a menina deve ter algum dom que eu

nunca vi. Mas se tudo o que esse dom faz é transformar você em

mãe dedicada, é um dom um bocado enfadonho, pequeno e

insignificante. E agora é melhor você tratar de ficar calada. Mandei

chamar meus comandantes de estado-maior para uma conferência

urgente e, se não puder se controlar e parar com essa gritaria, vou

mandar amordaçá-la.

A Sra. Coulter era mais parecida com sua filha do que

imaginava. Sua resposta àquelas palavras foi cuspir na cara de Lorde

Asriel. Ele limpou o rosto calmamente e disse:

— Uma mordaça também acabaria com esse tipo de

comportamento.

— Ah, por favor, corrija-me se eu estiver errada, Asriel —

retrucou —; alguém que exibe a seus oficiais subordinados uma

prisioneira amarrada numa cadeira é, evidentemente, um

príncipe de cortesia. Desamarre-me, senão vou obrigar você a me amordaçar.

— Como quiser — respondeu ele, e pegou um lenço de seda

numa gaveta; mas antes que pudesse amarrá-lo sobre a boca da

Sra. Coulter, ela sacudiu a cabeça.

— Não, não — pediu —, Asriel, não faça isso, estou

implorando, por favor, não me humilhe.

Lágrimas de raiva escorreram de seus olhos.

— Muito bem, vou desamarrar você, mas ele vai ficar

acorrentado — disse, e colocou o lenço de volta na gaveta antes de

cortar as cordas com um canivete.

Ela esfregou os punhos, se levantou, se espreguiçou e, só

então, percebeu o estado em que estavam suas roupas e cabelos.

Estava abatida e pálida; ainda havia resquícios do veneno dos

galivespianos em seu corpo, provocando dores terríveis em suas

articulações, mas não ia deixar que ele visse isso.

— Pode se lavar ali dentro — disse Lorde Asriel, apontando

para um pequeno aposento, pouco maior que um armário.

Ela pegou seu daemon acorrentado, cujos olhos malévolos

lançaram um olhar furioso para Lorde Asriel por sobre seu ombro, e

entrou para se lavar e se arrumar.

O ordenança entrou para anunciar:

— Sua Majestade o Rei Ogunwe e Lorde Roke.

O general africano e o galivespiano entraram: o Rei Ogunwe

vestindo um uniforme limpo, com um ferimento na têmpora

coberto por um curativo, e Lorde Roke planando rapidamente até

pousar na mesa, montado em seu falcão azul.

Lorde Asriel os cumprimentou calorosamente e ofereceu

vinho. O pássaro deixou que seu cavaleiro desmontasse e depois

voou para a arandela junto da porta, enquanto o ordenança

anunciava o terceiro dos comandantes supremos, um anjo

chamado Xaphania. Ela era de hierarquia muito mais alta que

Baruch ou Balthamos e visível, através de uma luz tremeluzente,

desconcertante, que parecia vir de algum outro lugar.

Nesse momento a Sra. Coulter reapareceu, mais arrumada, e

todos os três comandantes lhe fizeram uma mesura; se ela ficou

surpreendida com a aparência deles, não deu sinal, mas inclinou a

cabeça retribuindo o cumprimento e sentou-se calmamente com o

macaco acorrentado nos braços.

Sem perder tempo, Lorde Asriel pediu:

— Diga-me o que aconteceu, Rei Ogunwe.

O africano, um homem forte, de voz grave, relatou:

— Matamos 17 guardas suíços e destruímos dois zepelins.

Perde mos cinco homens e um giróptero. A menina e o menino

fugiram. Capturamos Lady Coulter, a despeito de sua resistência

corajosa, e a trouxemos para cá. Espero que ela sinta que a tratamos

com cortesia.

— Estou muito contente com a maneira com que o senhor

me tratou, majestade — disse ela, com uma ligeiríssima ênfase nas

palavras o senhor.

— Os outros girópteros sofreram algum estrago? Temos

feridos? — perguntou Lorde Asriel.

— Algum estrago e alguns feridos, mas nada sério.

— Bom. Muito obrigado, Rei; seus homens se saíram

muito bem. Lorde Roke, quais são as notícias?

O galivespiano respondeu:

— Meus espiões estão com o menino e a menina em um

outro mundo. As duas crianças estão bem e em segurança, apesar

de a menina ter sido mantida drogada, dormindo, durante vários

dias. O menino perdeu a possibilidade de usar a faca durante os

eventos na caverna; por causa de algum acidente, a faca se partiu em

pedaços. Mas agora está inteira de novo, graças ao animal do

norte, de seu mundo, Lorde Asriel, um urso gigante, um ferreiro muito habilidoso. Tão logo a faca foi consertada, o garoto cortou

uma passagem para um outro mundo, onde eles estão agora. Meus

espiões estão com eles, é claro, porém há uma dificuldade:

enquanto o menino tiver a faca, não pode ser compelido a fazer

nada; contudo, se o matassem quando estivesse dormindo, a

faca seria inútil para nós. Por enquanto, o Cavaleiro Tialys e

Lady Salmakia irão com eles para onde forem, de modo que pelo

menos saibamos onde estão. Eles parecem ter um plano; de qualquer

maneira, estão se recusando a vir para cá.

— Eles estão em segurança nesse outro mundo onde estão

agora?

— perguntou Lorde Asriel.

— Estão numa praia próxima de uma floresta de árvores

samambaias. Não há nenhum sinal de vida animal nas redondezas.

Neste exato momento, o menino e a menina estão dormindo; falei

com o Cavaleiro Tialys há menos de cinco minutos.

— Muito obrigado — disse Lorde Asriel. — Agora que seus

dois agentes estão seguindo as crianças, evidentemente não temos mais

espiões no Magisterium. Teremos que confiar no aletômetro. Pelo

menos —

Então a Sra. Coulter falou, para a surpresa de todos.

— Não posso falar com relação aos outros órgãos da igreja —

disse —, mas no que diz respeito ao Tribunal Consistorial de

Disciplina, o leitor em quem confiam é Frei Pavel Rasek. E ele é

competente, mas lento. Não saberão onde Lyra está por pelo menos

mais algumas horas.

— Obrigado, Marisa — disse Lorde Asriel. — Por acaso você

tem alguma idéia do que Lyra e esse garoto pretendem fazer a

seguir?

— Não — respondeu ela —, nenhuma. Conversei com o

menino e ele pareceu ser uma criança teimosa, e uma criança muito

habituada a guardar seus segredos. Não posso imaginar o que vá

fazer. Quanto a Lyra, ela é absolutamente imprevisível.

— Milorde — disse o Rei Ogunwe —, poderíamos saber se a

senhora agora faz parte deste conselho de estado-maior? E se fizer,

qual é sua função? Se não fizer, não deveria ser levada para outro

lugar?

— Ela é nossa prisioneira e minha convidada, e, na qualidade

de ex-agente da Igreja, pode ter informações que seriam úteis.

— E revelará alguma coisa por sua livre e espontânea

vontade? Ou precisará ser torturada? — perguntou Lorde Roke,

observando-a francamente enquanto falava.

A Sra. Coulter deu uma gargalhada.

— Eu imaginava que os comandantes de Lorde Asriel

fossem mais bem informados e que soubessem que não deveriam

esperar obter a verdade através de tortura — declarou.

Lorde Asriel não pôde deixar de apreciar sua insinceridade

descarada.

— Eu garantirei o comportamento da Sra. Coulter — disse

ele.

— Ela sabe o que acontecerá se nos trair; embora não vá ter

oportunidade de fazer isso. Contudo, se algum dos senhores tiver

qualquer dúvida, por favor, que se manifeste agora, sem receio.

— Eu tenho — disse o Rei Ogunwe —; mas duvido do

senhor, não dela.

— Por quê? — disse Lorde Asriel.

— Se ela o tentasse, não resistiria. Foi correto capturá-la, mas

errado convidá-la a participar deste conselho. Trate-a com a maior

cortesia, ofereça-lhe todo o conforto, mas faça com que seja

levada para algum outro lugar e fique longe dela.

— Bem, eu o convidei a falar — comentou Lorde Asriel — e devo aceitar sua censura. Sua presença é mais valiosa para mim do

que a dela, Rei. Mandarei que seja levada daqui.

Ele estendeu a mão para a campainha, mas antes que pudesse

tocar, a Sra. Coulter falou.

— Por favor — disse em tom urgente —, primeiro ouçam-me.

Eu posso ajudar. Estive mais próxima do coração do Magisterium do que

qualquer outra pessoa que vocês possam vir a encontrar. Eu sei como

eles pensam, posso prever como vão agir. Estão se perguntando por que

deveriam confiar em mim, o que me fez deixá-los? É simples: eles vão

matar minha filha. No momento em que descobri quem ela é, o que

ela é, as profecias que as bruxas fazem a respeito dela, soube que tinha

que abandonar a igreja; soube que era inimiga deles e eles eram meus

inimigos; eu não sabia o que vocês eram, nem o que eu era para vocês, isso era um mistério; mas sabia que tinha que me posicionar contra a

igreja, contra tudo em que eles acreditavam e, se necessário, contra a

Autoridade. Eu...

Ela parou de falar. Todos os comandantes estavam ouvindo

atentamente. Então ela olhou para Lorde Asriel, encarando-o olhos

nos olhos, e pareceu estar falando somente para ele, a voz baixa

apaixonada, os olhos brilhantes faiscando.

— Eu fui a pior mãe do mundo. Permiti que minha única

filha fosse levada para longe de mim quando era um bebê pequeno,

porque não me interessava por ela; a única coisa que me interessava

era satisfazer minha ambição. Não pensei nela durante anos e as

poucas vezes em que pensei, foi apenas para lamentar o

constrangimento que seu nascimento me causou — confessou.

— Mas a igreja começou a se interessar pelo Pó e por

crianças, e alguma coisa despertou em meu coração, e me lembrei

que era mãe e que Lyra era. . . minha filha — disse.

— E como havia uma ameaça, eu a salvei dessa ameaça. Agora,

já em três ocasiões, interferi para tirá-la de perigo. Primeiro

quando o Conselho de Oblação começou seu trabalho: fui à

Faculdade Jordan e a levei para morar comigo, em Londres, onde

podia mantê-la a salvo do Conselho. . . pelo menos era o que eu

esperava. Mas ela fugiu. — Depois de uma pausa, ela continuou.

— A segunda vez foi em Bolvangar, quando a encontrei bem

a tempo, sob a lâmina. . . sob a lâmina da.. . Meu coração quase

parou.. . Era o que eles, nós, tínhamos feito com as outras crianças,

mas quando foi com a minha. . . Ah, vocês não podem nem conceber o horror daquele momento, espero que nunca venham a

sofrer o que sofri naquela ocasião... Mas consegui libertá-la; eu a tirei

de lá; eu a salvei pela segunda vez.

“Mas mesmo quando estava fazendo isso, ainda me sentia

fazendo parte da igreja, uma servidora, uma servidora leal, devotada

e fiel, porque estava trabalhando a serviço da Autoridade —

continuou”.

— E então tomei conhecimento da profecia das bruxas. De

alguma forma, em algum momento, brevemente, Lyra será tentada,

como Eva foi tentada, isso é tudo o que dizem. Que forma esta

tentação terá, não sei, mas afinal, ela está crescendo. Não é difícil

imaginar. E agora que a igreja sabe disso também, eles vão matá-la.

Se tudo depende dela, poderiam se arriscar a deixá-la viver?

Ousariam correr o risco de que ela recuse essa tentação, qualquer que

seja? — perguntou.

— Não, eles estão determinados a matá-la. Se pudessem,

voltariam ao Jardim do Éden para matar Eva, antes que ela fosse

tentada. Matar não é difícil para eles; o próprio Calvino ordenou

a morte de crianças; eles a matariam com pompa e circunstância,

preces, lamentações, salmos e hinos, mas a matariam. Se ela cair nas

mãos deles, já estará morta — prosseguiu.

— De modo que, quando ouvi o que a bruxa disse, salvei

minha filha pela terceira vez. Eu a levei para um lugar onde a

mantive a salvo e onde pretendia ficar.

— Você a drogou — disse o Rei Ogunwe. — Manteve Lyra

inconsciente.

— Fui obrigada a fazer isso — explicou a Sra. Coulter —

por que ela me odiava. — Nesse ponto, a voz dela, que estivera

carregada de emoção, mas controlada, explodiu num soluço e

tremeu enquanto continuava: — Ela sentia medo de mim e me

odiava, e teria fugido de minha presença como um passarinho

foge de um gato se não a tivesse drogado, deixando-a totalmente

inconsciente. Sabe o que isso significa para uma mãe? Mas era a

única maneira de mantê-la em segurança! Todo aquele tempo na

caverna. . . adormecida, os olhos fechados, o corpo impotente,

seu daemon aninhado em seu pescoço. . . Oh, eu senti um amor

tão grande, uma tamanha ternura, tão profunda, tão profunda. . .

Era minha própria filha, foi a primeira vez que eu pude fazer

aquelas coisas por ela, a minha pequenina. . . Eu dava banho nela

e a alimentava, mantendo-a em segurança e agasalhada, cuidando

para que seu corpo estivesse nutrido, enquanto dormia. . . Deitava

ao lado dela, à noite, a embalava em meus braços, chorava em seus

cabelos, beijava seus olhos fechados, minha pequenina. . .

Ela não tinha nenhuma vergonha. Falava baixinho; não

declamava ou levantava a voz; e quando um grande soluço a sacudia,

era abafado, transformando-se quase num pequeno gemido, como

se estivesse contendo suas emoções por uma questão de cortesia.

O que tornava suas mentiras deslavadas ainda mais eficazes, pensou

Lorde Asriel com desagrado; ela mentia até a medula dos ossos.

Dirigia suas palavras principalmente para o Rei Ogunwe, sem

parecer fazê-lo, e Lorde Asriel percebeu isso também. Não só o rei

era seu principal acusador, como também era humano, ao contrário

do anjo ou de Lorde Roke, e ela sabia muito bem como influenciá-

lo.

Na verdade, contudo, foi no galivespiano que ela causou

maior impressão. Lorde Roke percebeu nela uma natureza tão

próxima da natureza do escorpião como jamais encontrara e tinha

pleno conhecimento da força da picada que podia detectar sob seu

tom gentil. Melhor manter os escorpiões onde se pudesse vê-los,

pensou.

De modo que ele apoiou o Rei Ogunwe quando este último

mudou de opinião e defendeu que ela ficasse, e Lorde Asriel se viu

vencido: pois ele agora a queria fora dali, mas já havia concordado em cumprir os desejos de seus comandantes.

A Sra. Coulter olhou para ele com uma expressão de leve e

virtuosa preocupação. Estava certo de que mais ninguém podia

perceber o brilho de triunfo furtivo nas profundezas de seus belos

olhos.

— Então fique — disse ele. — Mas já falou demais. Agora

fique calada. Quero considerar esta proposta de uma guarnição na

fronteira sul. Os senhores viram o relatório: é factível? É desejável?

Depois quero passar em revista o arsenal. E depois quero ouvir

Xaphania sobre as disposições das forças angelicais. Primeiro a

guarnição. Rei Ogunwe?

O líder africano começou. Eles falaram durante algum tempo

e a Sra. Coulter ficou impressionada com a precisão das

informações que eles tinham das defesas da igreja, e a avaliação clara

que tinham das forças de seus líderes.

Mas agora que Tialys e Salmakia estavam com as crianças, e

Lorde Asriel não tinha mais um espião no Magisterium, os

conhecimentos deles logo estariam perigosamente desatualizados.

Uma idéia veio à mente da Sra. Coulter, e ela e o daetnon macaco trocaram um olhar que pareceu uma poderosa centelha ambárica;

mas não disse nada, e acariciou seu pêlo dourado enquanto ouvia

os comandantes.

Então Lorde Asriel disse:

— Agora basta. Este é um problema que teremos que resolver

mais adiante. Agora vamos passar em revista o arsenal. Pelo que me

informaram, estão prontos para testar a nave da intenção. Vamos até

lá para ver.

Ele tirou uma chave de prata de seu bolso e abriu o cadeado

da corrente que prendia os pés e mãos do macaco, e cuidadosamente

evitou tocar até mesmo a ponta de um pêlo dourado.

Lorde Roke montou em seu falcão e acompanhou os outros

enquanto Lorde Asriel seguia na frente, descendo a escada da torre e

saindo para as muralhas.

Estava soprando um vento frio, mordiscando-lhes as

pálpebras, e o falcão azul-escuro voou bem alto numa poderosa

lufada, fazendo círculos e gritando no vento forte. Rei Ogunwe

vestiu o casaco e pousou sua mão na cabeça de seu daemon na forma de guepardo.

A Sra. Coulter disse humildemente para o anjo:

— Se me permite, senhora, seu nome é Xaphania?

— É — respondeu o anjo.

Sua aparência impressionava a Sra. Coulter exatamente como

a de seus companheiros tinha impressionado a bruxa Ruta Skadi,

quando os encontrara no céu: ela não estava brilhando, mas

resplandecia, embora não houvesse fonte de luz. Era alta, estava nua,

tinha asas e seu rosto marcado era mais velho do que o de qualquer

ser vivo que a Sra. Coulter jamais tivesse visto.

— E um dos anjos que se rebelaram há muito tempo?

— Sou. E desde então estive vagando entre muitos mundos.

Agora prestei juramento de lealdade a Lorde Asriel porque vejo em

sua grande empreitada a melhor possibilidade de finalmente destruir

a tirania.

— Mas e se fracassarem?

— Então seremos todos destruídos e a crueldade reinará

para sempre.

Enquanto elas falavam, seguiam as passadas rápidas de Lorde

Asriel pelas muralhas batidas pelo vento em direção a uma

imponente escadaria que descia tão profundamente que nem mesmo

as luzes brilhando em candeeiros nas paredes podiam revelar o

fundo. Passando por eles, o falcão azul desceu rápido, voando em

círculos, planando para baixo e mais para baixo na escuridão, com a

luz de cada candeeiro fazendo suas penas bruxulearem enquanto

passava, até se tomar apenas uma minúscula fagulha e depois nada.

O anjo tinha se adiantado pondo-se ao lado de Lorde Asriel, e

a Sra. Coulter viu-se descendo ao lado do rei africano.

— Perdoe minha ignorância, majestade — disse ela —, mas

nunca tinha visto ou ouvido falar em um ser como o homem no

falcão azul até a luta na caverna ontem . . . De onde ele vem? Pode

me dizer alguma coisa sobre seu povo? Não gostaria de ofendê-lo por

nada no mundo, mas se falar sem saber nada a seu respeito, posso ser

involuntariamente indelicada.

— Faz bem em perguntar — respondeu o Rei Ogunwe. —

O povo dele é orgulhoso. O mundo deles se desenvolveu de

maneira diferente do nosso; nele existem dois tipos de seres

conscientes, os humanos e os galivespianos. Os humanos são, em

sua maioria, criados da Autoridade e vêm tentando exterminar o

povo pequenino desde os tempos mais remotos de que se tem

memória. Eles os consideram diabólicos. De modo que os

galivespianos ainda não conseguem confiar realmente naqueles que

têm nosso tamanho. Mas são guerreiros ferozes e orgulhosos,

inimigos mortais e valiosos espiões.

— Todo o povo deles está com vocês ou estão divididos como

os humanos?

— Há alguns que estão com o inimigo, mas a maioria está

conosco.

— E os anjos? Sabe, até recentemente pensei que anjos

fossem uma invenção da Idade Média; que fossem apenas seres

imaginários. . . É desconcertante ver-se falando com um deles, não

acha? Quantos estão com Lorde Asriel?

— Sra. Coulter — comentou o rei —, essas perguntas são

exatamente o tipo de coisa que um espião gostaria de descobrir.

— Belo tipo de espião eu seria, para perguntar assim, de

maneira tão transparente — retrucou ela. — Sou uma prisioneira,

majestade. Não poderia fugir, mesmo se tivesse um lugar seguro para

onde escapar. De agora em diante, sou inofensiva, pode confiar em

minha palavra.

— Se me garante isso, fico contente em acreditar — disse o

rei.

— Os anjos são mais difíceis de compreender que qualquer ser

humano. Para começar, não são todos de um mesmo tipo, alguns

têm poderes maiores que outros; e existem alianças complexas

entre eles, e inimizades antiqüíssimas, a respeito das quais sabemos muito pouco. A Autoridade os vem suprimindo desde que ele

adquiriu existência.

Ela parou de súbito. Estava genuinamente chocada. O rei

africano parou ao lado dela, pensando que estivesse se sentindo mal,

e, de fato, o clarão da luz do candeeiro logo acima lançava sombras de

assustadora palidez em seu rosto.

— Diz isso de maneira tão casual — comentou ela — como

se fosse algo de que eu também devesse ter conhecimento, mas. . .

Como é possível? A Autoridade criou os mundos, não criou? Ele

existia antes de tudo. Como pode ele ter adquirido existência.

— Isso é conhecimento angelical — disse Ogunwe. — Alguns

de nós ficaram chocados ao saber que a Autoridade não é o criador.

Pode ter havido um criador, ou pode não ter havido: não sabemos.

Tudo o que sabemos é que a certo ponto a Autoridade assumiu o

controle e, desde então, os anjos têm se rebelado e seres humanos

também lutaram contra ele. Esta é a última rebelião. Nunca antes

seres humanos, anjos e seres de todos os mundos tiveram uma

causa comum. Esta é a maior força jamais reunida. Mas ainda

assim pode não ser suficiente. Veremos.

— Mas o que pretende Lorde Asriel? O que é este mundo e

por que ele veio para cá?

— Ele nos trouxe para cá porque este mundo é vazio. Isto é,

vazio de vida consciente. Não somos colonialistas, Sra. Coulter. E

não viemos para conquistar, e sim para construir.

— E ele vai atacar o reino do céu? Ogunwe olhou para ela

francamente.

— Não vamos invadir o reino — declarou —, mas se o reino

nos invadir, é melhor estarem prontos para a guerra, porque

estamos preparados. Sra. Coulter, eu sou um rei, mas o feito de que

mais me orgulho foi me unir a Lorde Asriel para criar um mundo

onde não existam quaisquer reinos. Um mundo sem reis, sem

bispos, sem padres. O reino do céu tem sido conhecido por este

nome desde que a Autoridade pela primeira vez se colocou acima

do resto dos anjos. E não queremos ter nada disso. Este mundo é

diferente. Pretendemos ser cidadãos livres da república do céu.

A Sra. Coulter queria falar mais, fazer uma dúzia de

perguntas que subiram a seus lábios, mas o rei tinha seguido adiante,

não querendo deixar seu comandante esperando, e ela teve que

segui-lo.

A escada descia tão fundo, levando tão longe, que quando

afinal chegaram ao andar térreo, o céu atrás deles no alto da

escadaria estava totalmente invisível. Muito antes de chegarem à

metade, ela estava quase sem fôlego, mas não se queixou, e seguiu

descendo até que a escadaria se abriu para um imenso salão iluminado

por cristais incandescentes, nos pilares que sustentavam o teto.

Escadas de mão, pontes de guindastes rolantes, vigas e passadiços

cruzavam a escuridão acima, com pequenos vultos se movimentando

resolutamente.

Lorde Asriel estava falando com seus comandantes quando a

Sra. Coulter os alcançou e, sem esperar para deixá-la descansar, ele

prosseguiu, atravessando o grande salão, onde ocasionalmente um

vulto brilhante passava voando ligeiro pelo ar ou pousava no chão

para dar uma palavra rápida com ele. O ar estava denso e quente. A

Sra. Coulter reparou que, provavelmente como cortesia para Lorde

Roke, cada pilar tinha uma arandela vazia, na altura de uma cabeça

humana, de modo que seu falcão pudesse se empoleirar ali e

permitir que o galivespiano fosse incluído nas conversas.

Mas não ficaram no grande salão por muito tempo. No lado

mais distante, um assistente abriu uma pesada porta dupla para

permitir que passassem, seguindo para a plataforma de uma estrada

de ferro. Ali, esperando, havia um pequeno vagão fechado, puxado

por uma locomotiva ambárica.

O engenheiro fez uma mesura, e seu daemon macaco

recuou para trás de suas pernas ao ver o macaco dourado. Lorde

Asriel falou rapidamente com o homem e convidou os outros a

entrarem no vagão que, como o salão, era iluminado por aqueles

cristais incandescentes, encaixados em luminárias de prata, presas a

painéis espelhados de mogno.

Tão logo Lorde Asriel se juntou a eles, o trem começou a se

mover, deslizando suavemente para fora da plataforma e entrando

num túnel, acelerando rapidamente. Somente o som das rodas no

trilho plano dava alguma idéia da velocidade que estavam

desenvolvendo.

— Para onde estamos indo? — perguntou a Sra. Coulter.

— Para o arsenal — respondeu Lorde Asriel laconicamente, e

virou-se para falar em voz baixa com o anjo.

A Sra. Coulter virou-se para Lorde Roke:

— Diga-me, milorde, seus espiões são sempre enviados em

pares?

— Por que pergunta?

— Simples curiosidade. Meu daemon e eu nos vimos diante

de um impasse quando os encontramos recentemente naquela

caverna e fiquei intrigada ao ver como combatiam bem.

— Por que intrigada. Não esperava que seres de nosso

tamanho fossem bons combatentes?

Ela olhou friamente para ele, consciente da ferocidade de seu

orgulho.

— Não — retrucou. — Pensei que os venceríamos com

facilidade e por muito pouco eles não nos derrotaram. Fico feliz

por admitir meu erro. Mas sempre lutam em pares?

— Vocês formam um par, não formam, você e seu

daemon'. Esperava que lhes concedêssemos a vantagem? —

perguntou ele, e seu olhar arrogante, de faiscante limpidez, mesmo

sob a luz suave dos cristais, a desafiava a perguntar mais.

Ela baixou o olhar modestamente e não disse nada.

Passaram-se alguns minutos e a Sra. Coulter sentiu que o trem

os estava levando para baixo, para ainda mais fundo no coração da

montanha. Não podia calcular qual a distância que haviam

percorrido, mas quando pelo menos 15 minutos tinham se passado,

o trem começou a reduzir a velocidade e, finalmente, pararam

numa plataforma onde as luzes ambáricas pareciam muito fortes

depois da escuridão do túnel.

Lorde Asriel abriu as portas e eles saltaram para uma

atmosfera tão quente e carregada de enxofre que a Sra. Coulter não

pôde conter um grito sufocado. O ar ressoava com as pancadas de

poderosos martelos e com o guinchar fragoroso de ferro sobre

pedra.

Um auxiliar abriu as portas de saída da plataforma e

imediatamente o barulho dobrou de intensidade, e o calor os

envolveu como uma onda quebrando. O fulgor intenso de uma luz

muito quente fez com que protegessem os olhos; somente

Xaphania não pareceu incomodada pelo assalto furioso de som, luz e

calor. Depois que seus sentidos se ajustaram, a Sra. Coulter olhou

em volta, cheia de curiosidade.

Já tinha visto forjas, siderúrgicas e fábricas em seu mundo: as

maiores pareciam uma oficina de ferreiro de aldeia diante daquela.

Martelos do tamanho de casas eram levantados em um momento

até o teto distante e então lançados violentamente para baixo para

achatar blocos de ferro do tamanho de troncos de árvores,

esmagando-os e transformando-os em placas numa fração de

segundo, com uma pancada que fazia a própria montanha tremer;

de uma abertura na parede de rocha corria um rio de metal fundido

sulfuroso até ser contido por um portão de rocha de diamante, e o

fluxo brilhante e fervente corria por canais e comportas, passando

sobre diques, até alcançar fileiras e mais fileiras de formas, onde se

acomodava para esfriar numa nuvem de fumaça malfazeja;

gigantescas máquinas de cortar e cilindros cortavam, dobravam e

comprimiam lâminas de ferro com mais de 25 centímetros de

espessura como se fosse papel de seda e então aqueles martelos

monstruosos as esmagavam, achatando-as de novo, estendendo e

comprimindo o metal em camadas, uma sobre a outra, com tamanha

força que as diferentes camadas se tornavam uma única camada

mais dura, repetidas vezes.

Se Iorek Byrnison pudesse ter visto aquele arsenal, poderia ter

admitido que aquelas pessoas sabiam alguma coisa sobre como

trabalhar com metal. A Sra. Coulter podia apenas olhar e se

maravilhar. Era impossível falar e ser ouvido e ninguém sequer

tentou. E agora Lorde Asriel estava gesticulando para o pequeno

grupo, para que o seguisse por um passadiço gradeado, suspenso

sobre uma galeria ainda maior, abaixo, onde mineiros trabalhavam

com picaretas e pás para arrancar os metais reluzentes da rocha

matriz.

Eles percorreram o passadiço e desceram por um longo

corredor de rocha, onde estalactites pendiam fulgurando com

estranhas cores e onde as pancadas, os rangidos e as marteladas

foram gradualmente desaparecendo. A Sra. Coulter sentiu uma brisa

fresca passar sobre seu rosto acalorado. Os cristais que lhes davam

luz não estavam mais montados em candeeiros nem envoltos em

pilares reluzentes, e sim espalhados no chão, e não havia tochas

acesas para aumentar o calor, de modo que, pouco a pouco, o grupo

começou a sentir frio novamente; e afinal saíram, muito

repentinamente, para o ar livre noturno.

Estavam num lugar onde parte da montanha havia sido coitada

fora, criando um espaço largo e aberto como um campo de exercícios.

Mais adiante, podiam ver, sob uma luz fraca, enormes portões na

encosta da montanha, alguns abertos, outros fechados; e, de uma das

portas gigantescas, homens vinham puxando alguma coisa coberta

por um oleado.

— O que é aquilo? — perguntou a Sra. Coulter para o rei

africano e ele respondeu:

— A nave da intenção.

A Sra. Coulter não tinha nenhuma idéia do que aquilo

pudesse significar e observou com intensa curiosidade enquanto eles

se preparavam para retirar o oleado.

Ela se manteve perto do Rei Ogunwe como se em busca de

abrigo e perguntou:

— Como funciona? O que faz?

— É o que vamos ver — respondeu o rei.

Tinha a aparência de uma espécie de complexo aparelho de

perfuração, ou a cabine de comando de um giróptero, ou a cabine de

um gigantesco guindaste. Tinha uma abóbada de vidro sobre um

assento, com pelo menos uma dúzia de alavancas e manivelas

enfileiradas diante dele. Repousava sobre seis pernas, cada uma delas

articulada e aparafusada num ângulo diferente no corpo, de modo

que parecia ao mesmo tempo vigorosa e deselegante; e o corpo em si

era uma massa de tubulações, cilindros, pistões, cabos enrolados em

anéis, engrenagens, válvulas e calibradores. Era difícil dizer o que era

estrutura e o que não era, porque só estava iluminado por trás e a

maior parte estava escondida na sombra.

Lorde Roke, montado em seu falcão, tinha planado

diretamente acima do aparelho, voando em círculos no alto,

examinando-o de todos os lados. Lorde Asriel e o anjo estavam

juntos numa animada discussão com os engenheiros e havia homens

descendo da própria nave, um carregando uma prancheta, outro um

pedaço de cabo.

Os olhos da Sra. Coulter observaram a nave avidamente,

memorizando cada peça, fazendo sentido de sua complexidade. E

enquanto observava, Lorde Asriel saltou para o assento, prendendo

um cinturão de couro sobre a cintura e os ombros, e colocando e

ajustando um capacete na cabeça. Seu daemon, a pantera branca,

saltou para segui-lo e ele se virou para ajustar alguma coisa ao lado

dela. O engenheiro chamou, Lorde Asriel respondeu, e os homens se

afastaram, recuando para a porta.

A nave da intenção se moveu, embora a Sra. Coulter não

tivesse muita certeza de como. Era quase como se tivesse

estremecido, embora lá estivesse, absolutamente imóvel, ainda

equilibrada com uma estranha energia sobre aquelas seis pernas de

inseto. Enquanto olhava, a nave se moveu de novo, e então ela viu

o que estava acontecendo: várias de suas peças estavam girando,

virando de um lado para o outro, vasculhando o céu escuro acima.

Lorde Asriel estava totalmente absorvido, ora empurrando uma

alavanca, ora checando o mostrador de um instrumento, ajustando

os vários controles; e então, de repente, a nave da intenção

desapareceu.

De alguma forma tinha saltado para o ar. Estava pairando

acima deles agora, alta como o topo da copa de uma árvore,

virando lentamente para a esquerda. Não havia ruído de motor,

nenhuma indicação de como se elevava vencendo a gravidade.

Simplesmente pairava no ar.

— Ouça — disse o Rei Ogunwe. — Ao sul.

Ela virou a cabeça e esforçou-se para ouvir. Havia um vento

que gemia, na curva da face da montanha, e havia os golpes

violentos de martelo das prensas que ela sentia através das solas dos

pés, e havia o som de vozes vindo da porta iluminada, mas, diante

de algum sinal, as vozes se calaram e as luzes foram apagadas. E no

silêncio a Sra. Coulter pôde ouvir, muito indistintamente, o chop-chop-chop ritmado dos motores de girópteros nas rajadas de vento.

— Quem são eles? — perguntou em voz baixa.

— Chamarizes — respondeu o rei. — Meus pilotos, voando

numa missão cujo objetivo é levar inimigos a segui-los. Observe.

Ela abriu bem os olhos tentando ver alguma coisa através da

pesada escuridão com suas poucas estrelas. Acima deles, a nave da

intenção se mantinha firme, estacionaria, como se estivesse ancorada

e presa com ferrolho naquele mesmo ponto; nenhuma rajada de

vento provocava o mais leve efeito nela. Nenhuma luz saía da

cabine, de modo que era muito difícil vê-la, e o vulto de Lorde Asriel

havia desaparecido completamente de vista.

Então ela avistou o primeiro grupo de luzes voando baixo no

céu, no mesmo instante em que o ruído do motor se tornou alto o

bastante para ser ouvido constantemente. Seis girópteros voavam em

alta velocidade, um deles aparentemente com problemas, pois

deixava uma esteira de fumaça atrás de si e voava mais baixo que os

outros. Eles vinham voando em direção à montanha, mas num curso

que os levaria a passar por ela e seguir adiante.

E, atrás deles, em perseguição cerrada, vinha uma variada

coleção de objetos voadores. Não era fácil distinguir o que eram,

mas a Sra. Coulter viu um pesado giróptero de um tipo estranho,

duas aeronaves de asas retas, um enorme pássaro que planava

velozmente sem esforço, carregando dois passageiros armados e três

ou quatro anjos.

— Um ataque aéreo — comentou o Rei Ogunwe.

Eles estavam se aproximando dos girópteros. Então um feixe

de luz irrompeu de uma das aeronaves de asas retas, seguido, um ou

dois segundos depois, pelo som, um estampido surdo. Mas o projétil

não atingiu seu alvo, o giróptero danificado, pois no mesmo instante

que viram a luz e antes que ouvissem o estampido, os observadores na

montanha viram um clarão sair da nave da intenção e o projétil

explodiu no ar.

A Sra. Coulter mal teve tempo para compreender aquela

seqüência quase instantânea de luz e som antes que a batalha

estivesse em curso. Tampouco a batalha foi fácil de acompanhar,

uma vez que o céu estava tão escuro e o movimento da cada um

dos objetos voadores era tão rápido; mas uma série de clarões

quase silenciosos iluminou a encosta da montanha, acompanhada

por silvos curtos como vapor escapando. Cada clarão, de alguma

forma, acertou um atacante diferente: o avião se incendiou e

explodiu, o pássaro gigante emitiu um grito como o rasgar de uma

cortina da altura de uma montanha e despencou para as rochas

distantes abaixo e, quanto aos anjos, cada um deles simplesmente

desapareceu numa pluma de ar brilhante, uma miríade de

partículas cintilando e reluzindo cada vez menos intensamente até

que se apagavam como fogos de artifício que se esgotam.

E então fez-se o silêncio. O vento levou embora o som dos

giróp-teros chamarizes, que agora haviam desaparecido atrás do

flanco da montanha. Muito distantes vindas de baixo, chamas

iluminavam a parte inferior da nave da intenção, de alguma forma

ainda pairando no ar e agora se virando lentamente, como se para

olhar em torno. A destruição dos participantes do raide aéreo era tão

completa que a Sra. Coulter, que já vira muitas coisas chocantes para

se deixar impressionar, não pôde deixar de ficar chocada com

aquilo. Enquanto olhava para a nave da intenção, esta pareceu

tremeluzir ou se deslocar e então ali estava ela, de novo solidamente

em terra.

O Rei Ogunwe correu apressado em sua direção, bem como

os outros comandantes e os engenheiros, que tinham aberto as

portas e deixado a luz iluminar o campo de provas. A Sra. Coulter

ficou onde estava, intrigada com o funcionamento da nave da

intenção.

— Por que ele está nos mostrando a nave? — perguntou seu

damon em voz baixa.

— Certamente não pode ler nossos pensamentos —

respondeu ela, no mesmo tom.

Estavam pensando naquele momento na torre adamantina,

quando a centelha de idéia brilhara entre eles. Tinham pensado em

fazer uma proposta a Lorde Asriel: de se oferecerem para ir para o

Tribunal Consistorial de Disciplina e trabalhar como seus espiões.

Ela conhecia todas as alavancas do poder; era capaz de manipular

todas. De início, seria difícil convencê-los de sua boa-fé, mas

conseguiria fazê-lo. E agora que os espiões galivespianos tinham

partido para ir com Will e Lyra, certamente Asriel não resistiria a

uma oferta semelhante.

Mas agora, enquanto observavam a estranha máquina

voadora, uma outra idéia ocorreu com ainda maior intensidade e ela

abraçou o macaco dourado com alegria.

— Asriel — chamou em tom inocente —, posso ver como

funciona a máquina?

Ele olhou para baixo, a expressão distraída e impaciente, mas

também cheia de satisfação. Estava encantado com a nave da

intenção: ela sabia que não conseguiria resistir à vontade de exibi-la.

O Rei Ogunwe se afastou e Lorde Asriel estendeu a mão e a

puxou para cima, para a cabine de comando. Ajudou-a a se instalar

no assento e observou enquanto ela examinava os controles.

— Como funciona? Que energia move a nave?

— As suas intenções — respondeu ele. — Daí o nome. Se

você tenciona que se mova para a frente, ela se moverá.

— Isto não é resposta. Vamos, diga-me. Que tipo de motor é este? Como voa? Não pude ver nada de aerodinâmico. Mas esses

controles. . . vista por dentro, é quase igual a um giróptero.

Ele estava achando difícil não contar a ela; e, uma vez que

era uma decisão que dependia apenas de sua vontade, contou.

Estendeu um cabo na extremidade do qual havia um punho de

couro, com marcas fundas feitas pelos dentes de seu daemon.

— Seu daemon — explicou — tem que segurar este punho,

com os dentes ou com as mãos, pouco importa. E você tem que

usar o capacete. Há uma corrente que flui entre eles, e um capacitor

amplifica a corrente. Ah, é mais complicado que isso, mas a

máquina é fácil de pilotar. Pusemos controles iguais aos de um

giróptero porque já estamos familiarizados com eles, mas no final

acabaremos não precisando de controles ou instrumentos. É claro, só

um ser humano com um daemon pode pilotá-la.

— Compreendo.

E ela o empurrou violentamente, de modo que ele caiu da

nave.

No mesmo instante, ela enfiou o capacete na cabeça e o

macaco dourado agarrou o punho de couro. Ela pegou e puxou o

instrumento que num giróptero inclinaria o aerofólio e empurrou o

acelerador para a frente e, imediatamente, a nave da intenção saltou

para o ar.

Mas ela ainda não tinha perfeito domínio dos controles. A

nave ficou parada durante alguns momentos, ligeiramente

inclinada, antes que ela encontrasse os controles para fazê-la se

mover para a frente e, naqueles poucos segundos, Lorde Asriel fez

três coisas. Levantou-se de um salto; ergueu a mão para impedir o

Rei Ogunwe de ordenar aos soldados que atirassem na nave da

intenção e disse:

— Lorde Roke, vá com ela, por favor.

O galivespiano comandou seu falcão azul para que subisse

imediatamente, e o pássaro voou direto para a porta ainda aberta da

cabi-ne. Os observadores abaixo podiam ver a cabeça da mulher

olhando para um lado e para outro, o macaco dourado fazendo o

mesmo, e puderam constatar que nenhum dos dois percebeu o

corpo pequenino de Lorde Roke saltar de seu falcão para dentro da

cabine, bem atrás deles.

Um momento depois, a nave da intenção começou a se

mover e o falcão se afastou num círculo e veio pousar no punho de

Lorde Asriel. Não mais de dois segundos depois, a nave estava

desaparecendo de vista no céu úmido e estrelado.

Lorde Asriel observou com pesarosa admiração.

— Bem, Rei, estava absolutamente certo — disse ele —, e eu

deveria tê-lo ouvido logo de início. Ela é a mãe de Lyra; eu deveria

ter esperado alguma coisa desse tipo.

— Não vai persegui-la? — perguntou o Rei Ogunwe.

— Para que, e destruir uma nave em perfeitas condições? Não,

de jeito nenhum.

— Para onde acha que ela vai? Procurar a criança?

— Não inicialmente. Ela não sabe onde encontrá-la. Sei

exatamente o que ela vai fazer: vai procurar o Tribunal Consistorial

e entregar a nave a eles como prova de boa-fé, e então vai ficar

espionando.

Será nossa espiã no Tribunal. Ela já tentou todos os outros tipos de

duplicidade, esta será uma experiência nova. E tão logo descobrir

onde está a garota, irá para lá e nós a seguiremos.

— E quando Lorde Roke contará a ela que foi junto?

— Ah, creio que ele vai preferir fazer disso uma surpresa,

não acha?

Os dois riram e seguiram de volta para a oficina, onde um

modelo mais novo e mais avançado da nave da intenção aguardava

para ser inspecionado por eles.