A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 14 de 39

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A Luneta Âmbar

13. Tialys e Salmakia

TIALYS E SALMAKIA

 

NOITE SOMBRIA, SOMBRIA NOITE SOBRE ESTE DESERTO

PERMITE QUE FULGURANTE TUA LUA SE LEVANTE

ENQUANTO MEUS OLHOS EU DESCANSE

WILLIAM BAKE

 

Com a arma pesada na mão, Will fez um movimento

rápido e circular para o lado, e derrubou o macaco dourado de

onde estava empoleirado, deixando-o de tal maneira atordoado que

a Sra. Coulter gemeu alto e a pata do macaco relaxou o suficiente

para que a minúscula mulher conseguisse se soltar.

Um instante depois, ela havia saltado para o alto das rochas e o

homem se afastado depressa da Sra. Coulter, ambos se movendo

com a rapidez de gafanhotos. As três crianças não tiveram tempo

para se espantar. O homem estava preocupado: examinou o ombro e

o braço de sua companheira delicadamente e a abraçou antes de

gritar para Will:

— Você! Garoto! — chamou, e embora sua voz fosse

pequenina em volume, era grossa como a de um homem adulto.

— Está com a faca?

— É claro que estou — respondeu Will. Se não sabiam que

estava quebrada, não iria contar a eles.

— Você e a menina terão que nos seguir. Quem é a outra

criança?

— É Ama, da aldeia — respondeu Will.

— Diga a ela para voltar para lá. Agora vamos andando, antes

que os suíços cheguem.

Will não hesitou. Independentemente de quais fossem as

intenções daqueles dois, ele e Lyra ainda podiam fugir pela janela que

ele tenha aberto atrás do arbusto mais abaixo no caminho.

De modo que a ajudou a se levantar e observou curiosamente

enquanto as duas figuras pequeninas montavam em — quê?

Passarinho; Não, libélulas, quase tão compridas quanto o antebraço

dele, que tenham estado esperando escondidas nas sombras. Eles

voaram rapidamente para a entrada da caverna, onde a Sra. Coulter

estava caída. El estava meio atordoada de dor e sonolenta por causa

da ferroada que tinha levado do cavaleiro, mas estendeu a mão para

cima quando ia passando e gritou:

— Lyra! Lyra, minha filha, minha querida! Lyra, não vá! Não vá!

Lyra olhou para ela, angustiada; mas então passou por cima

do corpo de sua mãe e soltou a mão que segurava sem muita firmeza

se tornozelo. A mulher agora estava soluçando; Will viu as lágrimas

brilhando em suas faces.

Agachando-se junto da entrada da caverna, as três crianças

esperaram até que houvesse uma breve pausa no tiroteio e então

segurar as libélulas enquanto voavam rápidas como setas descendo a

trilha, a luz tinha mudado: além do clarão frio dos holofotes

ambáricos dos zepelins, havia o alaranjado de chamas ardendo.

Will olhou para trás uma vez. Sob a luz intensa, o rosto da Sr;

Coulter era uma máscara trágica de paixão e seu daemon se agarrava tristemente nela, enquanto ela se ajoelhava e estendia os braços,

chorando:

— Lyra! Lyra, meu amor! Tesouro do meu coração, minha

garotinha, só minha! Ah, Lyra, não vá, não me deixe! Minha filha

querida você está partindo meu coração —

Um imenso e furioso soluço sacudiu Lyra, pois afinal a Sra,

Coulter era a única mãe que jamais teria e Will viu uma cascata de

lágrimas escorrer pelas faces da menina.

Mas rinha que ser impiedoso. Puxou a mão de Lyra e, quando

o cavaleiro montado na libélula passou voando ligeiro perto de sua

cabeça, insistindo para que se apressassem, ele a conduziu correndo

agachados, trilha abaixo para longe da caverna. Na mão esquerda

de Will, sangrando novamente por causa do golpe que tinha

acertado no macaco, estava a pistola da Sra. Coulter.

— Sigam para o alto do penhasco — ordenou o cavaleiro —

e entreguem-se aos africanos. Eles são sua única esperança.

Tomando cuidado com aquelas esporas afiadas, Will não

disse nada, embora não tivesse a menor intenção de obedecer. Só

iria para um único lugar, e este era a janela atrás do arbusto; de

modo que manteve a cabeça baixa e correu depressa, e Lyra e Ama

correram atrás dele.

— Alto!

Havia um homem, três homens, bloqueando o caminho

adiante, uniformizados; homens brancos, armados com bestas e

com daemons com forma de mastins, rosnando — a Guarda Suíça.

— Iorek! — gritou Will imediatamente. — Iorek Byrnison!

— Podia ouvir o urso se aproximando ruidosamente e rosnando não

muito longe, e ouvir os gritos e lamentos dos soldados

desafortunados que cruzaram seu caminho.

Mas uma outra pessoa surgiu de lugar nenhum para ajudá-

los: Balthamos, num gesto de desespero, arremessou-se entre as

crianças e s soldados. Os homens caíram para trás, perplexos,

enquanto aquela sanção surgia de repente, tremeluzindo, diante

deles.

Mas eram combatentes bem treinados e, um instante depois,

seus daemons saltaram sobre o anjo, os dentes ferozes brilhando em lampejoss brancos na escuridão — e Balthamos recuou: ele gritou

de medo e vergonha, e se encolheu para trás. Então saltou para o

alto, batendo as asas com força. Will ficou olhando consternado, enquanto o vulto de seu guia e amigo voava nas alturas e desaparecia

de vísta em meio à copa das árvores.

Lyra estava acompanhando tudo aquilo com o olhar ainda

atordoado. Não havia levado mais que dois ou três segundos, mas foi

o suficiente para que os suíços se reagrupassem e agora o líder deles

estava levantando a besta e Will não teve alternativa: levantou a

pistola, cerrou a mão direita sobre a coronha e apertou o gatilho, e a

explosão sacudiu seus ossos, mas a bala acertou o coração do

homem.

O soldado caiu para trás como se tivesse levado um coice de

cavalo. Simultaneamente, os dois pequeninos espiões se lançaram

sobre os outros dois, saltando das libélulas em cima de suas vítimas,

antes que Will pudesse piscar. A mulher encontrou um pescoço, o

homem um pulso e cada um deu um golpe rápido, para trás, com

o calcanhar. Houve um arquejar de sufocamento angustiado e os

dois suíços morreram, seus daemons desaparecendo no meio de um uivo.

Will saltou por cima dos corpos e Lyra foi com ele, correndo

tão rápido quanto podia, com Pantalaimon, sob a forma de gato

selvagem, seguindo em seus calcanhares. Onde esta Ama?, pensou Will e, naquele mesmo momento, a viu se desviando, escapulindo e

correndo por um outro caminho. Agora ela vai estar em segurança,

pensou, e um segundo depois viu o clarão da janela lá atrás dos

arbustos. Ele agarrou o braço de Lyra e a puxou naquela direção. O

rosto deles estava arranhado, as roupas, rasgadas, os tornozelos se

torciam tropeçando em raízes e pedras, mas encontraram a janela e

mergulharam através dela para o outro mundo, sobre as rochas

brancas como osso sob o clarão fulgurante da lua, onde somente o

ranger dos insetos quebrava o imenso silêncio.

E a primeira coisa que Will fez foi abraçar o estômago e

vomitar, sacudido pelas ânsias de náusea, dominado por um horror

mortal. Agora já eram dois os homens que ele havia matado, sem

falar no rapaz na Torre dos Anjos... Will não queria isso. Seu corpo se revoltava contra o que seu instinto o levara a fazer, e o resultado

era aquela agonizante crise de náusea, amarga, seca, e vômitos que o

deixavam de joelhos até que seu estômago e seu coração estivessem

vazios.

Lyra ficou assistindo sem poder fazer nada, segurando Pan no

colo, balançando-o apertado contra o peito.

Finalmente Will se recuperou um pouco e, imediatamente, viu

que não estavam sozinhos naquele mundo, porque os pequeninos

espiões também estavam ali, com seus fardos arrumados no chão ali

por perto. As libélulas estavam voando baixo sobre as rochas, caçando

mariposas. O homem fazia uma massagem no ombro da mulher e

ambos olhavam severamente para as crianças. Os olhos deles eram tão

brilhantes e as feições tão distintas que não havia dúvida quanto a

seus sentimentos, e Will teve certeza de que formavam um par

formidável, fossem quem fossem.

Ele disse para Lyra:

— O aletômetro está na minha mochila, ali.

— Ah, Will, eu quis tanto que você o tivesse encontrado, mas o que foi que aconteceu? Você encontrou seu pai? E meu sonho, Will, é demais para acreditar, as coisas que temos que fazer. Ah, nem

me atrevo a pensar nisso. . . E o aletômetro está em segurança. Você o trouxe até aqui, mantendo-o em segurança para mim. . .

As palavras jorravam, saindo tão depressa de sua boca que ela

nem esperava respostas. Ela virou o aletômetro de um lado para outro,

os dedos alisando o disco pesado de metal e o mostrador de cristal

liso, com os ponteiros facetados que eles conheciam tão bem.

Will pensou: O aletômetro vai nos dizer como consertar afaça! Mas antes perguntou:

— Você está se sentindo bem? Está com fome ou com sede?

— Não sei. .. é, até que estou. Mas não muita. De qualquer

maneira —

— Deveríamos nos afastar dessa janela — disse Will -— por

segurança, para o caso de eles descobrirem e atravessarem também.

— Sim, é verdade — concordou Lyra, e eles foram subindo

pela encosta, Will carregando sua mochila e Lyra, feliz da vida,

carregando a bolsinha onde guardava o aletômetro. Pelo canto do

olho Will viu que os dois pequenos espiões os seguiam, mas que se

mantinham à distância e que não faziam ameaças.

Depois do cume havia uma protuberância na rocha que

oferecia um abrigo e eles sentaram debaixo dela, depois de

verificarem se não havia cobras, fizeram uma refeição de frutas

secas e beberam água do cantil de Will.

Will falou em voz baixa.

— A faca está quebrada. Não sei como aconteceu. A Sra.

Coulter fez alguma coisa, ou disse alguma coisa, e eu pensei em

minha mãe e isso fez a faca se torcer, ou ficar presa ou. . . eu não sei

o que aconteceu. Mas estamos imobilizados enquanto não pudermos

consertá-la. Eu não queria que aquelas pessoas pequeninas

soubessem, porque, enquanto pensarem que ainda posso usar a faca,

estou em posição de superioridade. Achei que talvez você pudesse

perguntar ao aletômetro e —

— Claro! — exclamou ela, imediatamente. — Claro, vou

perguntar.

Um instante depois ela tinha tirado o instrumento da bolsa e

colocado onde o luar batia forte de modo que pudesse ver o

mostrador com clareza. Afastando os cabelos para trás, prendendo-os

atrás das orelhas, exatamente como Will tinha visto sua mãe fazer,

começou a girar os ponteiros da maneira já familiar e Pantalaímon,

agora em forma de camundongo, sentou-se no joelho dela. Mas não

foi fácil ver como ela havia pensado; talvez o luar fosse enganador.

Ela teve que virar o instrumento e mudar de posição umas duas

vezes, e piscar para clarear a visão, antes que os símbolos se

tornassem mais definidos, nítidos, então conseguiu ler.

Ela mal tinha começado quando soltou uma pequena

exclamação de surpresa e olhou para Will, com os olhos brilhando,

enquanto os ponteiros giravam. Mas ainda não havia acabado e ela

continuou lendo, até que o instrumento ficou imóvel.

Ela o guardou, dizendo:

— Iorek? Ele está por perto, Will? Achei que tinha ouvido você chamá-lo, mas depois pensei que fosse apenas meu desejo de

que ele estivesse aqui. Está de verdade Está. Ele poderia consertar a faca? Foi isso que o aletômetro disse?

— Ah, ele pode fazer qualquer coisa com metal, Will! Não

apenas a armadura, também pode fazer coisas delicadas. . . — E

contou a ele sobre a caixinha que Iorek tinha feito para ela para

prender a mosca-espiã. — Mas onde está ele?

— Está por perto. Ele poderia ter vindo quando chamei, mas

evidentemente estava lutando. . . E Balthamos! Ah, mas ele devia

estar com tanto medo. . .

— Quem?

Will explicou rapidamente, sentindo o rosto ficar vermelho

por causa da vergonha que o anjo devia estar sentindo.

— Mas eu lhe contarei mais a respeito dele depois — disse. —

É tão estranho. . . Ele me disse tantas coisas, e acho que também as

compreendo. . . — Ele passou as mãos nos cabelos e esfregou os

olhos.

— Você tem de me contar tudo — disse ela com firmeza.

— Tudo o que você fez depois que ela me apanhou. Ah, Will, você

ainda está sangrando? Coitada de sua mão. . .

— Não. Meu pai curou minha mão. Eu só abri um

pouquinho a ferida, quando bati no macaco, mas agora está

melhor. Ele me deu um ungüento que tinha preparado. . .

— Você encontrou seu pai?

— Isso mesmo, na montanha, naquela noite . . .

Então ele deixou que Lyra limpasse o ferimento e passasse

mais um pouco de ungüento da caixinha de chifre, enquanto

contava a ela parte do que tinha acontecido: a luta com o estranho,

a revelação que os dois tinham tido um segundo antes que a flecha

da bruxa acertasse o alvo, seu encontro com os anjos, a viagem até a

caverna e seu encontro com Iorek.

— Tudo isso aconteceu e eu estava dormindo — admirou-se,

maravilhada. — Sabe, eu acho que ela foi gentil, cuidou bem de mim,

Will. . . eu acho que foi. . . não creio que tenha querido me fazer mal. . . Ela fez tantas coisas más, mas. . .

Lyra esfregou os olhos.

— Ah, mas meu sonho, Will, não consigo nem contar como

foi estranho! Foi como quando leio o aletômetro, toda aquela

nitidez, tudo claro e uma compreensão tão profunda que você não

consegue ver o fundo, tudo claro até lá embaixo.

"Foi. . . Lembra-se de que eu lhe falei de meu amigo Roger e

como os Papões o apanharam, de como tentei salvá-lo e deu tudo

errado e Lorde Asriel o matou? — perguntou.

— Bem, eu o vi. No meu sonho vi o Roger novamente, só

que ele estava morto, era um fantasma e estava, como se estivesse

acenando para mim, me chamado, só que eu não conseguia ouvir.

Ele não queria que eu estivesse morta, não era isso. Ele queria falar comigo.

"E... Fui eu que o levei para lá, para Svalbard, onde ele foi

morto, ele morreu por minha culpa. E me lembrei de quando

costumávamos brincar na Faculdade Jordan, Roger e eu, no telhado, pela cidade inteira, nos mercados e na margem do rio, e lá nos

Barreiros. . . Eu, Roger e todos os outros... E fui para Bolvangar para

trazê-lo de volta para casa em segurança, só que consegui apenas

piorar as coisas e, se eu não pedir desculpas a ele, tudo aquilo não terá

valido nada, terá sido apenas uma enorme perda de tempo. Tenho que

fazer isso, sabe, Will. Tenho que descer à terra dos mortos e

encontrar o Roger e. . . pedir desculpa. Então nós poderemos. . . eu

poderei. . . Depois disso, não importa."

— Esse lugar onde os mortos estão — disse Will. — É um

mundo como este, como o meu ou o seu, como qualquer um dos

outros? E um mundo onde eu poderia chegar com a faca?

Ela olhou para ele, espantada com a idéia.

— Você poderia perguntar — prosseguiu ele. — Faça isso

agora.

Pergunte onde fica e como podemos chegar lá.

Ela se debruçou sobre o aletômetro, tendo que esfregar os

olhos e olhar bem de perto novamente, e seus dedos se moveram

rapidamente. Um minuto depois ela tinha a resposta.

— Certo — disse ela —, mas é um lugar estranho, Will. . .

Tão estranho. . . Será que realmente poderíamos fazer isso? Realmente poderíamos ir até a terra dos mortos? Mas. . . que parte

de nós faz isso? Porque os daemons desaparecem quando morremos, já vi isso, e nossos corpos, bem, eles apenas ficam na cova e

apodrecem, não é?

— Então deve haver uma terceira parte. Uma parte diferente.

— Você sabe — disse ela, cheia de animação —, acho que

isso deve ser verdade! Porque posso pensar em meu corpo e posso

pensar em meu daemon, de modo que tem que haver uma outra parte, para pensar!

— Exato. E isso é o espírito.

Os olhos de Lyra faiscaram. Então disse:

— Talvez pudéssemos libertar o espírito de Roger de lá.

Talvez pudéssemos salvá-lo.

— Talvez. Poderíamos tentar.

— Isso, vamos fazer isso! — concordou imediatamente.

— Vamos juntos. É exatamente isso que vamos fazer!

Mas, se não conseguissem consertar a faca, pensou Will, não

poderiam fazer coisa alguma.

Logo que sua cabeça clareou e seu estômago se acalmou, ele se

levantou e chamou os pequeninos espiões. Estavam nas

proximidades, ocupados com alguma espécie de minúsculo

aparelho.

— Quem são vocês? — perguntou. — E de que lado estão?

O homem acabou o que estava fazendo e fechou uma caixa

de madeira, parecendo um estojo de violino, não maior que uma

casca de noz. A mulher falou primeiro.

— Somos galivespianos — respondeu. — Eu sou Lady

Salmakia e meu companheiro é o Cavaleiro Tialys. Somos espiões de Lorde Asriel.

Ela estava de pé sobre um pedregulho, a uns três passos de

distância de Will e Lyra, seu corpo e feições nítidos e brilhantes sob o luar. Sua voz pequenina era perfeitamente clara e baixa, sua

expressão confiante. Usava uma saia rodada de tecido prateado e

um corpete verde sem mangas, e seus pés, munidos de esporas,

estavam descalços, como os do homem. As roupas dele eram

igualmente coloridas, mas a camisa tinha mangas compridas e as

calças largas chegavam ao meio da batata da perna. Ambos

pareciam fortes, competentes, impiedosos e orgulhosos.

— De que mundo vocês vêm? — perguntou Lyra. — Nunca

vi pessoas como vocês.

— Nosso mundo tem os mesmos problemas que o seu —

disse Tialys. — Somos rebeldes, fora-da-lei. Nosso líder, Lorde

Roke, ouviu falar da revolta de Lorde Asriel e lhe jurou que

seríamos seus aliados, prometeu nosso apoio.

— E o que querem fazer comigo?

— Levá-la para seu pai — respondeu Lady Salmakia. —

Lorde Asriel enviou um exército comandado pelo Rei Ogunwe para

resgatar você e o menino, e levar vocês dois para a fortaleza dele.

Estamos aqui para ajudar.

— Ah, mas e se eu não quiser ir para junto de meu pai? E se

eu não confiar nele?

— Lamento muito ouvir isso — disse ela —, mas estas são as

ordens que recebemos: levar vocês até ele.

Lyra não conseguiu se controlar: deu uma grande gargalhada

diante da idéia daquelas pessoas minúsculas obrigando-a a fazer

qualquer coisa. Mas aquilo foi um erro. Num movimento repentino,

a mulher agarrou Pantalaimon e, segurando seu corpo de

camundongo num aperto feroz, encostou a ponta da espora na perna

dele. Lyra arquejou: foi um choque, exatamente como o choque

que havia sentido quando os homens de Bolvangar o agarraram.

Ninguém devia tocar o daemon de outra pessoa — era uma violação.

Mas então viu que Will havia agarrado o homem com a mão

direita, segurando e apertando com firmeza suas pernas de modo que

não pudesse usar as esporas, e levantando-o alto.

— Estamos novamente num impasse — comentou Salmakia

calmamente. — Ponha o cavaleiro no chão, menino.

— Primeiro largue o daemon de Lyra — disse Will. — Não

estou com disposição para discutir.

Lyra viu, com um frio no estômago de excitação, que Will

estava perfeitamente pronto para esmagar a cabeça do galivespiano

contra a rocha. E os dois seres pequeninos sabiam disso.

Salmakia afastou o pé da perna de Pantalaimon e, imediatamente,

ele lutou para se libertar e assumiu a forma de um gato-do-mato,

sibilando feroz, os pêlos em pé, o rabo batendo de um lado para o outro.

Os dentes arreganhados estavam a um palmo do rosto da mulher e ela

olhou para ele com absoluta compostura. Depois de um momento, ele

lhe deu as costas e fugiu correndo para o colo de Lyra, sob a forma de

arminho, e Will cuidadosamente colocou Tialys de volta sobre a pedra

ao lado de sua parceira.

— Você deveria demonstrar algum respeito — disse o

cavaleiro para Lyra. — É uma criança desatenciosa e insolente, e vários homens bravos morreram esta noite para garantir sua

segurança. É melhor se comportar com educação.

— Sim — disse ela com humildade —, sinto muito,

sinceramente.

— Quanto a você — ele prosseguiu, virando-se para Will.

Mas Will o interrompeu.

— Quanto a mim, não vou admitir que fale comigo desse

modo, de maneira que é melhor não tentar. Respeito a gente dá

e recebe. Agora escute com atenção. Você não está no comando

aqui; nós estamos. Se quiser ficar e ajudar, então vai fazer o que

dissermos. Caso contrário, pode voltar para junto de Lorde Asriel

agora. Não adianta nem discutir o assunto.

Lyra percebeu a indignação dos dois, mas Tialys estava

olhando para a mão de Will, que estava sobre a bainha da faca em

seu cinto, e sabia que ele estava pensando que enquanto Will

tivesse a faca seria mais forte do que eles. Então, a qualquer custo,

eles não deveriam saber que estava quebrada.

— Muito bem — disse o cavaleiro. — Vamos ajudar vocês,

por que esta foi a missão que nos foi dada. Mas têm que nos dizer

o que pretendem fazer.

— Isso é justo — disse Will. — Eu direi a vocês. Nós vamos

voltar ao mundo de Lyra, assim que tivermos descansado, e vamos

nos encontrar com um amigo nosso, um urso. Ele não está longe.

— É o urso de armadura? Muito bem — disse Salmakia. —

Nós o vimos lutar. Ajudaremos vocês a fazer isso. Mas depois devem

vir conosco até Lorde Asriel.

— Iremos — disse Lyra, mentindo, falando com a maior

seriedade. — Ah, sim, depois nós faremos isso, com certeza.

Pantalaimon agora estava mais calmo e curioso, de modo que

ela o deixou subir em seu ombro e mudar de forma. Ele tornou-se

uma libélula, tão grande quanto as outras duas que estavam

esvoaçando no ar enquanto eles conversavam, e saiu voando para se

juntar a elas.

— Aquele veneno — perguntou Lyra, virando-se de volta para

os galivespianos —, esse veneno que têm nas esporas, é mortal?

Porque picaram minha mãe, a Sra. Coulter, não foi? Ela vai morrer?

— Foi apenas uma pequena ferroada — respondeu Tialys. —

Uma dose inteira a teria matado, sim, mas um pequeno arranhão a

deixará fraca e tonta durante meio dia ou coisa assim.

E sentindo uma dor de enlouquecer, ele sabia, mas não contou

isso a ela.

— Preciso falar em particular com Lyra — disse Will. —

Vamos nos afastar apenas por um minuto.

— Com essa faca — disse o cavaleiro —, você pode cortar

uma abertura de um mundo para outro, não é verdade?

— Você não confia em mim?

— Não.

— Está bem, então vou deixá-la aqui. Se não estiver comigo,

não poderei usá-la.

Will desafivelou a bainha da faca e a colocou sobre a pedra e

então ele e Lyra se afastaram e sentaram num ponto de onde podiam ver os galivespianos. Tialys estava olhando muito