A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 25 de 39

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A Luneta Âmbar

24. A Sra. Coulter em Genebra

A SRA. COULTER EM GENEBRA

 

T QUAL A MÃE, TAL É A SUA FILHA.

 

Ezequiel 16, 44

 

A Sra. Coulter esperou até anoitecer antes de se aproximar

da Faculdade St. Jerome. Depois que escureceu, ela manobrou a

nave da intenção descendo através das nuvens e seguiu

lentamente pela margem do lago mantendo-se na altura das

copas das árvores.

O prédio da Faculdade era uma construção que se

destacava entre os outros prédios antigos de Genebra, e

logo ela encontrou o pináculo, a escuridão vazada dos

claustros, a torre quadrada onde ficavam os alojamentos do

Presidente do Tribunal Consistorial de Disciplina. Tinha

visitado a Faculdade três vezes antes; sabia que as

reentrâncias e os espigões das chaminés no telhado

ofereciam uma variedade de esconderijos, mesmo para

algo tão grande quanto a nave da intenção.

Voando lentamente sobre as telhas que cintilavam, molhadas

pela chuva recente, ela entrou devagar com a nave num pequeno

vão.

E assim eles se puseram em marcha, e os milhões de

fantasmas começaram a segui-los. Atrás deles, muito distante para

que as crianças pudessem ver, outros habitantes do mundo dos

mortos tinham ouvido o que estava acontecendo e estavam vindo se

juntar à grande marcha. Tialys e Salmakia voaram até lá atrás para

olhar, e ficaram radiantes ao ver fantasmas de seu próprio povo

acompanhando, e de todos os outros tipos de seres conscientes que

algum dia haviam sido punidos pela Autoridade com o exílio e a

morte. Entre eles havia seres que não pareciam absolutamente

humanos, seres como os mulefas, que Mary Malone teria

reconhecido, e também fantasmas ainda mais estranhos.

Mas Will e Lyra não tinham forças para olhar para trás; tudo o

que conseguiam fazer era seguir adiante atrás das harpias e ter

esperança.

— Estamos quase chegando, Will? — sussurrou Lyra. — Isso

está quase acabando?

Ele não sabia dizer. Mas estavam tão fracos e doentes

que respondeu:

— Sim, está quase acabando, estamos quase chegando.

Logo estaremos fora daqui.

Entre um telhado de inclinação muito acentuada e o

paredão vertical da torre. O lugar só era visível do campanário

da Capela da Santa Penitência, nas vizinhanças; serviria

perfeitamente.

Ela pousou a nave delicadamente, deixando seus seis pés e

pernas encontrarem seus pontos de apoio e se ajustarem de modo

a deixar a cabine horizontal. Estava começando a amar aquela

máquina: respondia a seus comandos com a mesma rapidez com

que ela conseguia pensar e era tão silenciosa; podia pairar sobre a

cabeça de alguém, perto o bastante para ser tocada, sem que a

pessoa jamais soubesse que estava lá. Ao longo do dia depois que

a roubara, a Sra. Coulter tinha aprendido tudo sobre os controles,

mas ainda não tinha idéia de qual era o combustível que a

movia, e isso era a única coisa a respeito de que se preocupava:

não tinha nenhum meio de saber quando o combustível ou as

baterias acabariam.

Depois de se assegurar que a nave estava bem firme e que o

teto era sólido o bastante para sustentá-la, tirou o capacete e

desembarcou.

Seu daemon já estava puxando com força uma das pesadas

telhas antigas, para soltá-la. Ela foi ajudá-lo e logo tinham

soltado e tirado meia dúzia delas, abrindo um espaço, depois ela

quebrou e arrancou as ripas nas quais tinham estado fixadas,

fazendo um buraco grande o suficiente para permitir sua

passagem através dele.

— Entre e examine o terreno — sussurrou ela, e o daemon

saltou pelo buraco para a escuridão.

Ela podia ouvir o ruído de suas garras enquanto se movia

cuidadosamente sobre o assoalho do sótão e depois a face negra

franjada de dourado apareceu na abertura. Ela compreendeu

imediatamente e o seguiu, entrando e esperando até que seus

olhos se habituassem ao escuro. Na semi-obscuridade,

gradualmente viu um sótão comprido, onde sombras escuras de

armários, mesas, estantes e peças de mobília de todo tipo tinham

sido guardadas.

A primeira coisa que fez foi empurrar um armário alto para

cobrir o buraco aberto no lugar onde as telhas haviam estado.

Então foi andando nas pontas dos pés até a porta na parede na

extremidade oposta do sótão e girou a maçaneta. Estava trancada,

é claro, mas ela tinha um grampo e a tranca era simples. Três

minutos depois, ela e seu daemon estavam no fundo de um longo

corredor, onde uma clarabóia empoeirada lhes permitia ver uma

escada estreita que descia na outra ponta.

E cinco minutos depois disso, tinham aberto uma janela na

despensa, ao lado da cozinha, dois andares abaixo, e saltado para

o beco. Os portões da Faculdade e a guarita ficavam logo adiante, dobrando a esquina, e, como ela disse ao macaco

dourado, era importante chegar da maneira ortodoxa, qualquer

que fosse a maneira como eles pretendessem ir embora.

— Tire as mãos de cima de mim — disse ela calmamente ao

guarda — e mostre alguma cortesia, ou mandarei esfolar você.

Diga ao Presidente que a Sra. Coulter chegou e que deseja vê-lo

imediatamente.

O homem recuou e seu daemon, uma cadelinha pinscher que

estivera arreganhando os dentes para o bem-comportado macaco

dourado, imediatamente se encolheu e enfiou tanto quanto pôde

o toco de rabo entre as pernas.

O guarda girou a manivela de um telefone e, menos de um

minuto depois, um jovem padre de rosto simpático entrou

correndo na guarita, esfregando as palmas das mãos na batina, caso

ela quisesse dar-lhe um aperto de mão. Ela não quis.

— Quem é você? — perguntou.

— Frade Louis — respondeu o homem, acalmando seu

daemon coelha. — Convocador do Secretariado do Tribunal

Consistorial. Por favor, faria a gentileza de —

— Não vim aqui para parlamentar com um secretário —

declarou ela. — Leve-me ao Padre MacPhail. E faça isso já.

O homem inclinou-se numa mesura de submissão e levou-a

consigo. Ao vê-la pelas costas, o guarda deixou escapar um suspiro

de alívio.

Depois de tentar puxar conversa duas ou três vezes, Frade

Louis desistiu e conduziu-a em silêncio até os aposentos do

Presidente, na torre. O Padre MacPhail estava fazendo suas

orações, e a mão do pobre Frade Louis tremia violentamente

quando bateu à porta. Eles ouviram um suspiro e um gemido,

depois passadas pesadas cruzaram o assoalho.

Os olhos do Presidente se arregalaram quando viu quem era

e ele deu um sorriso feroz.

— Sra. Coulter — disse, oferecendo a mão. — Estou muito

contente por vê-la. Meu gabinete é frio e nossa hospitalidade

humilde, mas entre, entre.

— Boa noite — disse ela, seguindo-o para o interior do

aposento, frio e desolado, de paredes de pedra, permitindo que ele

se desmanchasse em atenções e lhe oferecesse uma cadeira. —

Obrigada — disse ela para o Frade Louis, que permanecia no

aposento —; gostaria de um copo de chocolate.

Nada havia sido oferecido e ela sabia que era um insulto

tratá-lo como se fosse um criado, mas a atitude dele era tão

subserviente que merecia isso. O Presidente assentiu e Frade Louis

teve que se retirar para atender ao pedido, muito a contragosto.

— Sabe, é claro, que está presa — declarou o Presidente,

sentando na outra cadeira e acendendo uma luminária de mesa.

— Ah, mas por que estragar nossa conversa antes mesmo de

termos começado? — perguntou a Sra. Coulter. — Vim para cá

voluntariamente, assim que consegui fugir da fortaleza de Lorde

Asriel. O fato é, Presidente, que tenho uma enorme quantidade de

informações sobre as forças dele e sobre a criança, e vim até aqui

para dá-las ao senhor.

— A criança, então. Comece pela criança.

— Minha filha agora está com 12 anos. Muito brevemente

ela se aproximará do vértice da curva da adolescência e então será

tarde demais para que qualquer um de nós possa impedir a

catástrofe; a natureza e a oportunidade se unirão como centelha em

madeira seca. Graças à sua intervenção, isso agora é muito mais

provável. Espero que esteja satisfeito.

— Era seu dever trazê-la para cá, para ficar sob nossos

cuidados. Em vez disso, preferiu fugir e esconder-se numa caverna

na montanha... embora como uma mulher de sua inteligência

pudesse ter a esperança de se manter escondida seja um mistério

para mim.

— Provavelmente há muita coisa que seja um mistério para

o senhor, Senhor Lorde Presidente, a começar pelas relações entre

uma mãe e sua filha. Se pensou por um instante que eu entregaria

minha filha aos cuidados. . . cuidados!. . . de uma corporação de

homens com uma obsessão fervorosa pela sexualidade, homens

de unhas sujas, fedendo a suor azedo, homens cujas imaginações

furtivas se arrastariam sobre o corpo dela como baratas, se

pensou que eu exporia minha filha a isso, Lorde Presidente, o

senhor é mais estúpido do que pensa que eu sou.

Bateram à porta antes que ele pudesse responder, e o Frade

Louis entrou com dois copos de chocolate numa bandeja de

madeira. Ele colocou a bandeja sobre a mesa com uma reverência

nervosa, sorrindo para o Presidente, na esperança de ser

convidado a ficar; mas o Padre MacPhail balançou a cabeça em

direção à porta e o rapaz se retirou relutantemente.

— Então o que pretendia fazer? — perguntou o Presidente.

— Eu ia mantê-la em segurança até que o perigo tivesse

passado.

— E que perigo seria esse? — perguntou ele, passando-lhe

um copo.

— Ah, acho que o senhor sabe de que estou falando. Em

algum lugar há uma tentadora, uma serpente, por assim dizer, e

eu tinha que impedir que elas se encontrassem.

— Há um menino com ela.

— Sim. E se não tivesse interferido, ambos estariam sob

meu controle. Nas atuais circunstâncias, eles poderiam estar em

qualquer lugar. Pelo menos não estão com Lorde Asriel.

— Não tenho dúvida de que Lorde Asriel esteja procurando

por eles. O garoto tem uma faca de um poder extraordinário. Só

por isso valeria a pena persegui-los.

— Tenho conhecimento disso — disse a Sra. Coulter. —

Eu consegui quebrar a faca e ele conseguiu consertá-la.

Ela estava sorrindo. Seria possível que ela aprovasse aquele

menino desgraçado?

— Nós sabemos — ele retrucou secamente.

— Ora, ora — comentou ela. — Frei Pavel deve estar sendo

mais rápido. Quando o conheci, ele teria levado no mínimo um mês

para ler isso.

Ela bebericou o chocolatl, que estava ralo e fraco; como era

típico daqueles padres enfadonhos, pensou, impor sua abstinência

hipócrita também aos visitantes.

— Fale-me de Lorde Asriel — disse o Presidente. — Conte-me

tudo.

A Sra. Coulter se recostou confortavelmente na cadeira e começou a

contar a ele — não tudo, mas ele jamais acreditou, nem por um

segundo que contaria tudo. A Sra. Coulter falou sobre a fortaleza,

sobre os aliados, sobre os anjos, sobre as minas e sobre as fábricas de

fundição.

O Padre MacPhail permaneceu sentado sem mover um

músculo, seu daemon lagarto absorvendo e recordando cada palavra.

— E como conseguiu chegar aqui? — perguntou.

— Roubei um giróptero. Fiquei sem combustível e tive que

abandoná-lo no campo, não muito longe daqui. O resto do caminho

fiz a pé.

— Lorde Asriel está efetivamente procurando a menina e o

menino?

— É claro.

— Presumo que esteja atrás daquela faca. Sabe se tem um

nome? Os avantesmas-do-penhasco do norte a chamam de

destruidora-de-deus — prosseguiu ele, indo até a janela e

olhando para baixo, para os claustros. — É isso que Asriel está

pretendendo fazer, não é? Destruir a Autoridade? Há algumas

pessoas que afirmam que Deus já está morto. Presumivelmente

Asriel é uma dessas, se tem a ambição de matá-lo.

— Bem, onde está Deus — perguntou a Sra. Coulter —, se

está vivo? E por que ele não fala mais? No princípio do mundo,

Deus andava no jardim e falava com Adão e Eva. Então começou

a se retirar, e somente Moisés ouvia sua voz. Mais tarde, na época

de Daniel, estava idoso, e era o Deus dos Antigos. Onde está ele

agora? Ainda está vivo, com alguma idade inconcebível, decrépito

e demente, incapaz de pensar ou de agir, e incapaz de morrer, uma

imensidão apodrecida? E se esta for a condição em que se

encontra, não seria a mais misericordiosa das coisas, a mais

verdadeira prova de seu amor por Deus, ir procurá-lo e oferecer-

lhe a dádiva da morte?

A Sra. Coulter sentia uma alegria libertadora e calma

enquanto falava. Perguntou a si mesma se conseguiria escapar

com vida; mas era inebriante falar daquela maneira com aquele

homem.

— E o Pó? — perguntou ele. — Das profundezas de sua

heresia, qual é sua visão do Pó?

— Não tenho nenhuma visão do Pó — respondeu ela. —

Não sei o que é. Ninguém sabe.

— Compreendo. Muito bem, eu comecei recordando-a de

que está presa. Creio que está na hora de encontrarmos um lugar

para a senhora dormir. Vai ficar muito confortável; ninguém vai

machucá-la; mas não vai fugir. E conversaremos mais amanhã.

Ele tocou uma campainha e Frade Louis entrou quase que

imediatamente.

— Leve a Sra. Coulter para o melhor quarto de hóspedes

— ordenou o Presidente. — E deixe-a trancada nele.

O melhor quarto de hóspedes era velho, maltratado, e a

mobília era ordinária, mas pelo menos estava limpo. Depois que a

tranca girou às suas costas, a Sra. Coulter imediatamente olhou

em volta procurando o microfone e encontrou um na luminária

requintada e outro debaixo do estrado da cama. Desligou os dois

e então teve uma surpresa horrível.

Observando-a de cima do tampo de uma cômoda atrás da

porta estava Lorde Roke.

Ela deu um grito e estendeu a mão para a parede para se

equilibrar. O galivespiano estava sentado de pernas cruzadas,

inteiramente à vontade, e nem ela nem o macaco dourado o

tinham visto. Depois que o bater disparado de seu coração se

acalmou e sua respiração voltou ao normal, ela disse:

— E quando o senhor teria me feito a cortesia de me avisar

que estava aqui, milorde? Antes que eu me despisse, ou depois?

— Antes — respondeu ele. — Diga a seu daemon para se

acalmar, caso contrário o imobilizarei.

Os dentes do macaco dourado estavam arreganhados e todo

o seu pêlo estava em pé. A maldade ardente de sua expressão era

o bastante para fazer qualquer pessoa se acovardar, mas Lorde

Roke apenas sorria. Suas esporas reluziam sob a luz fraca.

O pequenino espião se levantou e se espreguiçou.

— Acabei de falar com meu agente na fortaleza de Lorde

Asriel — prosseguiu. — Lorde Asriel apresenta seus

cumprimentos e pede que o avise assim que descobrir quais são

as intenções dessa gente.

Ela sentia dificuldade para respirar, como se Lorde Asriel a

tivesse golpeado violentamente numa luta. Seus olhos se

arregalaram e ela sentou lentamente na cama.

— Veio para cá para me espionar ou para ajudar? —

perguntou.

— As duas coisas, e é sorte sua que eu esteja aqui. Assim

que chegou, eles puseram em funcionamento algum aparelho

ambárico nos porões. Não sei o que é, mas há uma equipe de

cientistas trabalhando nele agora, neste momento. Você

parece tê-los deixado empolgados.

— Não sei se devo ficar lisonjeada ou preocupada. Para

falar francamente, estou exausta e vou dormir. Se estiver aqui

para ajudar, pode ficar de vigia. Poderia começar olhando para o

outro lado.

Ele fez uma mesura e virou-se para a parede até ela acabar

de se lavar na pia de louça lascada afixada à parede, se enxugar

com a toalha fina e tirar a roupa e se deitar. Seu daemon revistou o

quarto, examinando o armário, o arame atrás da moldura do

quadro, as cortinas, a vista dos claustros que se via pela janela.

Lorde Roke o observou a cada centímetro que se moveu.

Finalmente o macaco dourado juntou-se à Sra. Coulter e eles

adormeceram imediatamente.

Lorde Roke não havia contado a ela tudo o que tinha sabido

através de Lorde Asriel. Os aliados tinham estado acompanhando

o vôo de todos os tipos de seres no ar acima das fronteiras da

república e tinham notado uma concentração do que poderia ter

sido anjos, e poderia ter sido algo inteiramente diferente, a oeste.

Haviam mandado patrulhas para investigar, mas até o momento

não tinham descoberto nada: o que quer que fosse que estivesse

concentrado lá, tinha se embrulhado numa neblina impenetrável.

Contudo, o espião achou melhor não preocupar a Sra.

Coulter com aquilo; ela estava exausta. Melhor deixá-la dormir,

decidiu, e se movimentou silenciosamente pelo quarto, ouvindo

através da porta, olhando pela janela, desperto e alerta.

Uma hora depois de ela ter vindo para o quarto, ele ouviu um

ruído abafado do lado de fora da porta: um leve arranhar e um

sussurro. No mesmo instante, uma luz fraca surgiu no vão da

porta. Lorde Roke foi para o canto mais afastado e se posicionou

atrás de uma das pernas da cadeira em que a Sra. Coulter tinha

posto suas roupas.

Passou-se um minuto e então a chave girou, muito

silenciosamente, na fechadura. A porta se abriu dois

centímetros e meio, não mais que isso, e então a luz se apagou.

Lorde Roke podia enxergar bastante bem na luz esmaecida

que passava através das cortinas finas, mas o intruso estava

precisando esperar até que seus olhos se adaptassem. Finalmente a

porta se abriu mais, muito lentamente, e o jovem padre, Frade

Louis, entrou.

Ele fez o sinal-da-cruz e foi andando, pé ante pé, até a

cama. Lorde Roke preparou-se para saltar para o ataque, mas o

padre apenas ficou ouvindo o som regular da respiração da Sra.

Coulter, examinou-a atentamente para se certificar de que estava

dormindo e então virou-se para a mesa-de-cabeceira.

Ele cobriu a lâmpada da lanterna à bateria com a mão e a

acendeu, deixando um pequeno raio de luz passar através dos

dedos. Examinou a mesinha tão de perto que seu nariz quase

tocou a superfície, mas o que quer fosse que estivesse

procurando, não encontrou. A Sra. Coulter tinha posto algumas

coisas ali antes de se deitar: um par de moedas, um anel, o relógio

de pulso; mas Frade Louis não estava interessado naquilo.

Ele tornou a se virar para ela e então viu o que estava

procurando, deixando escapar um leve sibilar por entre os dentes.

Lorde Roke pôde constatar seu desapontamento: o objeto da

busca era o medalhão pendurado no cordão de ouro no pescoço

da Sra. Coulter.

Lorde Roke se moveu silenciosamente pelo rodapé em

direção à porta.

O padre tornou a se benzer, pois ia ter de tocar nela.

Prendendo a respiração, inclinou-se sobre a cama — e o macaco

dourado se mexeu.

O rapaz ficou imóvel, com as mãos estendidas. Seu daemon

coelha tremia a seus pés, absolutamente inútil: ela poderia pelo

menos ter ficado de vigia para o pobre homem, pensou Lorde

Roke. O macaco se virou, dormindo, e depois ficou quieto

novamente.

Depois de um minuto, parado como uma estátua de cera,

Frade Louis baixou as mãos trêmulas até o pescoço da Sra.

Coulter. Manuseou desajeitadamente o cordão durante tanto

tempo que Lorde Roke pensou que o dia fosse raiar antes que ele

conseguisse abrir o fecho, mas finalmente conseguiu puxar o

medalhão delicadamente e se levantou.

Lorde Roke, rápido e silencioso como um camundongo,

tinha saído pela porta antes que o padre se virasse. Esperou no

corredor escuro e quando o rapaz saiu pé ante pé e trancou a

porta, o galivespiano começou a segui-lo.

Frade Louis seguiu para a torre e, quando o Presidente abriu

sua porta, Lorde Roke passou rapidamente e seguiu para o

genuflexório no canto do aposento. Ali encontrou uma saliência

coberta pelas sombras onde se agachou e ficou ouvindo.

O Padre MacPhail não estava sozinho: o aletometrista, Frei

Pavel, estava trabalhando com seus livros e uma outra pessoa

estava parada nervosamente junto à janela. Era o Dr. Cooper, o

teólogo experimental de Bolvangar. Ambos levantaram o olhar.

— Bom trabalho, Frade Louis — disse o Presidente. —

Traga-o aqui, sente-se, mostre-me, mostre-me. Excelente

trabalho!

Frei Pavel afastou alguns de seus livros e o jovem padre

colocou o cordão de ouro sobre a mesa. Os outros se inclinaram

para olhar enquanto o Padre MacPhail desajeitadamente tentava

abrir o fecho. O Dr. Cooper lhe ofereceu um canivete e então

houve um estalido baixo.

— Ah! — suspirou o Presidente.

Lorde Roke subiu para o tampo da mesa de maneira a poder

ver. Sob a luz do lampião de nafta havia um reflexo de brilho

dourado-es-curo: era uma mecha de cabelos, e o Presidente a

estava torcendo entre os dedos, enrolando-a de um lado para o

outro.

— Temos certeza de que é da menina? — perguntou.

— Eu tenho certeza — afirmou a voz cansada de Frei

Pavel.

— E o que temos é o bastante, Dr. Cooper?

O homem de rosto pálido se inclinou todo sobre a mesa e

tomou a mecha de cabelos dos dedos do Padre MacPhail. Então

levantou-a junto à luz.

— Ah, é sim — respondeu. — Um único fio de cabelo

seria o bastante. Isso aqui é muita coisa.

— Fico muito satisfeito em saber — disse o Padre

MacPhail. — Agora, Frade Louis, deve colocar o medalhão de

volta no pescoço da boa senhora.

O padre se curvou ligeiramente, abatido: ele tinha esperado

que sua tarefa estivesse concluída. O Presidente colocou o cacho de

cabelos de Lyra num envelope e fechou o medalhão, levantando a

cabeça e olhando em volta enquanto o fazia, e Lorde Roke teve que

se esconder rapidamente.

— Senhor Presidente — disse Frade Louis —, é claro que

cumprirei suas ordens, mas posso saber para que precisa do cabelo

da menina?

— Não, Frade Louis, porque isso o afligiria. Deixe essas

questões por nossa conta. Trate de ir andando.

O rapaz pegou o medalhão e se foi, reprimindo seu

ressentimento. Lorde Roke pensou em voltar com ele e em

acordar a Sra. Coulter, exatamente quando ele estivesse tentando

colocar de volta o cordão, de modo a ver o que ela faria; mas era

mais importante descobrir o que aquelas pessoas estavam

planejando.

Quando a porta fechou, o galivespiano voltou para seu

canto nas sombras e ficou ouvindo.

— Como sabia que ela possuía isso? — perguntou o

cientista.

— Toda vez que mencionava a menina — explicou o

Presidente —, sua mão tocava o medalhão. Muito bem, dentro de

quanto tempo poderá estar pronto?

— É uma questão de horas — respondeu o Dr. Cooper.

— E o cabelo? O que vai fazer com ele?

— Vamos colocar o cabelo na câmara ressonante. O senhor

compreende, cada indivíduo é singular, e a organização de

partículas genéticas absolutamente distinta.. . Bem, assim que a

análise for completada, as informações serão codificadas em uma

série de pulsos ambáricos e transferidas para o dispositivo que faz

a pontaria. Ele localiza a origem do material, do cabelo, onde quer

que ela esteja. É um processo que na verdade utiliza a heresia de

Barnard-Stokes, o conceito de múltiplos mundos.. .

— Não se preocupe, Doutor. Frei Pavel já me disse que a

menina está em um outro mundo. Por favor, prossiga. A

potência da bomba é direcionada através do cabelo?

— É. Para cada um dos fios de cabelo dos quais estes foram

cortados. É exatamente isso.

— Então, quando for detonada, a menina será destruída, não

importa onde esteja?

O cientista respirou fundo, pesadamente, e então, com

relutância, disse:

— Sim. — Ele engoliu em seco e prosseguiu: — A

potência de energia necessária é enorme. A energia ambárica.

Exatamente como uma bomba atômica precisa de uma

potência altamente explosiva para iniciar a fissão do urânio e

fazer com que desenvolva-se a reação em cadeia, este artefato

precisa de uma corrente colossal para liberar a energia muito

maior do processo seccional. Estava me perguntando. . .

— E não importa de onde seja detonada, certo?

— Não. A idéia é exatamente essa. Qualquer lugar serve.

— E está totalmente pronta?

— Agora que temos o cabelo, está. Mas a quantidade de

energia, compreende —

— Eu já cuidei disso. A usina geradora hidroambárica em

Saint-Jean-Les-Eaux foi requisitada para nosso uso exclusivo.

Lá se produz energia suficiente, não acha?

— Sim — respondeu o cientista.

— Então partiremos imediatamente. Por favor, vá

preparar o equipamento, Dr. Cooper. Tome as providências para

que esteja pronto para ser transportado o mais rápido possível. O

tempo muda muito rapidamente na montanha e há uma

tempestade se aproximando.

O cientista pegou o envelope contendo os cabelos de Lyra e

nervosamente fez uma mesura ao se retirar. Lorde Roke saiu com

ele, sem fazer ruído, como uma sombra.

Tão logo estavam fora do alcance dos ouvidos do gabinete

do Presidente, o galivespiano partiu para o ataque. O Dr. Cooper,

abaixo dele, na escada, sentiu uma pontada de dor penetrante no

ombro e estendeu a mão para segurar o corrimão, mas seu braço

estava estranhamente fraco e ele escorregou e desceu rolando todo

o lance seguinte de escada, indo parar semiconsciente na base da

escada.

Com alguma dificuldade, Lorde Roke arrancou o envelope

da mão do homem que se crispava em espasmos, pois tinha a

metade de seu tamanho, e seguiu pelas sombras em direção ao

quarto onde a Sra. Coulter dormia.

A fenda entre a porta e o chão era larga o bastante para que

ele se arrastasse para dentro do quarto. Frade Louis tinha vindo e

ido embora, mas não havia ousado tentar colocar o cordão em

volta do pescoço da Sra. Coulter: estava a seu lado sobre o

travesseiro.

Lorde Roke apertou a mão dela para acordá-la. Embora

estivesse profundamente exausta, ela concentrou a atenção nele

imediatamente, e sentou na cama, esfregando os olhos.

Ele explicou o que havia acontecido e deu-lhe o envelope.

— Deve destruí-lo imediatamente — disse-lhe —; um

único fio seria suficiente, foi o que o homem disse.

Ela olhou para o pequeno cacho de cabelos louro-escuros e

sacudiu a cabeça.

— É tarde demais para isso — declarou. — Isto é apenas a

metade da mecha que cortei do cabelo de Lyra. Ele deve ter

guardado uma parte.

Lorde Roke chiou de raiva.

— Foi quando ele olhou em volta! — exclamou. — Droga!

Tive que me mexer depressa para sair do campo de visão dele...

deve ter sido quando ele guardou a outra parte. . .

— E não há maneira de saber onde pode ter guardado —

disse a Sra. Coulter. — Apesar disso, se conseguirmos encontrar

a bomba —

— Psiu!

Era o macaco dourado pedindo silêncio. Estava agachado

junto à porta, ouvindo, e então eles também ouviram: passadas

pesadas, vindo apressadas em direção ao quarto.

A Sra. Coulter empurrou o envelope e a mecha de cabelo

para Lorde Roke, que os pegou e saltou para o alto do armário.

Então ela se deitou ao lado de seu daemon enquanto a chave

girava ruidosamente na fechadura.

— Onde está? O que você fez com o cabelo? Como atacou

o Dr. Cooper? — perguntou a voz áspera do Presidente,

enquanto a luz iluminava a cama.

A Sra. Coulter levantou um braço para cobrir os olhos e fez

um esforço para sentar na cama.

— O senhor realmente gosta de divertir seus hóspedes —

comentou ela com a voz sonolenta. — Esse jogo é uma nova

invenção? O que tenho que fazer? E quem é o Dr. Cooper?

O guarda da guarita entrou com o Padre MacPhail e

vasculhou os cantos do quarto e debaixo da cama com uma

lanterna. O Presidente ficou ligeiramente desconcertado: os olhos

da Sra. Coulter estavam pesados de sono e ela mal podia enxergar

ofuscada pelo clarão da luz do corredor. Era evidente que não

tinha saído da cama.

— Você tem um cúmplice — acusou ele. — Alguém

atacou um convidado da faculdade. Quem é seu cúmplice?

Quem veio para cá com você? Onde está ele?

— Não tenho a menor idéia a respeito do que o senhor

está falando. E o que é isso. . .?

A mão dela, que tinha apoiado na cama para se levantar,

havia encontrado o medalhão no travesseiro. Ela parou, pegou o

medalhão, olhou para o Presidente com os olhos sonolentos

arregalados e Lorde Roke assistiu a um soberbo desempenho de

atriz, quando disse, com a voz carregada de perplexidade:

— Mas isso é o meu... o que está fazendo aqui? Padre

MacPhail, quem esteve aqui em meu quarto? Alguém tirou isso

de meu pescoço. E. . . onde está o cabelo de Lyra}. Havia uma

mecha de cabelo de minha filha aqui dentro. Quem tirou? Por

quê? O que está acontecendo?

E agora ela estava ficando de pé, os cabelos

desalinhados, a voz cheia de paixão — visivelmente tão confusa

quanto o próprio Presidente.

O Padre MacPhail deu um passo para trás e pôs a mão

na cabeça.

Alguma outra pessoa deve ter vindo com você. Tem que

ter um cúmplice — insistiu ele, a voz estridente raspando o ar

como uma lixa. — Onde está escondido?

— Não tenho nenhum cúmplice — retrucou ela furiosa. —

Se há algum assassino invisível aqui neste lugar, só posso imaginar

que seja o Diabo em pessoa. Imagino que ele deva se sentir muito

à vontade.

O Padre MacPhail ordenou ao guarda:

— Leve-a para os porões. Trate de acorrentá-la. Sei

exatamente o que podemos fazer com esta mulher; deveria ter

pensado nisso assim que ela apareceu.

Ela olhou em volta agitadamente e, por uma fração de

segundo, seus olhos encontraram os olhos de Lorde Roke,

reluzindo na escuridão perto do teto. Ele compreendeu a

expressão dela imediatamente e entendeu exatamente o que

queria que fizesse.