A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 30 de 39

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A Luneta Âmbar

29. A Batalha na Planície

sentinela tentou falar com eles, fazê-los entrar, mas não quiseram se

aproximar. Isso foi há apenas um minuto. . .

Lorde Asriel endireitou-se na cadeira, transfigurado. Toda a

fadiga havia sido apagada de seu rosto em um instante. Ele se

levantou de um salto e agarrou o sobretudo.

Ignorando a Sra. Coulter, jogou o casaco sobre os ombros e

disse para o ordenança:

— Avise Madame Oxentiel imediatamente. Faça circular esta

ordem: os daemons não devem ser ameaçados, nem assustados, ou coagidos de nenhuma forma. Qualquer um que os veja deve

primeiro. . .

A Sra. Coulter não ouviu mais nada do que ele estava

dizendo, porque Lorde Asriel já tinha saído e estava a meio

caminho, descendo a escada. Quando o som de seus passos correndo

também desapareceu, os únicos sons eram o sibilar suave da

lamparina de nafta e o gemido do vento selvagem lá fora.

Os olhos dela encontraram os olhos de seu daemon. A

expressão do macaco dourado era sutil e complexa, como sempre

tinha sido, ao longo de todos os seus 35 anos de vida.

— Muito bem — disse ela. — Não vejo nenhuma outra

alternativa. Acho. . . Acho que nós vamos. . .

Ele soube instantaneamente o que ela queria dizer. Saltou para

o colo dela e eles se abraçaram. Depois ela pegou seu casaco forrado

de pele e muito silenciosamente os dois deixaram o gabinete e

desceram pelas escadas escuras.

A BATALHA

NA PLANÍCIE

 

TODO HOMEM ESTÁ SOB O DOMÍNIO DE SEU ESPECTRO

ATÉ QUE É CHEGADA A HORA EM QUE SUA HUMANIDADE

DESPERTA...

WILLIAM B LAKE

 

F

Foi terrivelmente difícil para Lyra e Will deixar aquele mundo agradável onde tinham dormido na noite anterior, mas, se

quisessem reencontrar seus daemons, tinham que entrar de novo na escuridão. E agora, depois de horas se arrastando exaustivamente

pelo túnel quase escuro, Lyra inclinou-se pela vigésima vez para

consultar o aletômetro, inconscientemente emitindo pequenos

sons de angústia — gemidos e suspiros que teriam sido soluços se

tivessem mais força. Will também sentia uma dor onde seu daemon estivera, um lugar escaldante, queimado, de profunda sensibilidade

que era rasgado por ganchos gelados cada vez que respirava. Com

que cansaço ela fez girar os ponteiros; como seus pensamentos se

moviam lentos, como se fossem pés calçados de chumbo. Os degraus

de significado que a conduziam a cada um dos 36 símbolos do

aletômetro, pelos quais ela costumava descer tão rapidamente e tão

confiante, pareciam soltos e trêmulos. E estabelecer as conexões

entre eles em sua mente. . . Antigamente tinha sido como correr,

ou cantar, ou contar uma história: uma coisa natural. Agora tinha

que fazê-lo com um enorme esforço, e sua compreensão estava

falhando, e não podia falhar, caso contrário tudo o mais fracassaria. .

.

— Não está longe — disse ela finalmente. — E temos pela

frente todo tipo de perigos, está havendo uma batalha, está

havendo... Mas estamos quase no lugar certo agora. Bem no final

deste túnel existe um grande pedregulho liso, com uma nascente de

onde sai uma corrente de água. É lá que você pode cortar a abertura.

Os fantasmas que iriam lutar seguiram adiante, cheios de

entusiasmo, e ela sentiu Lee Scoresby chegar bem perto, a seu lado.

Ele disse:

— Lyra, minha menina, agora não falta muito. Quando você

encontrar aquele velho urso, diga a ele que Lee se foi lutando. E

depois que a batalha tiver terminado, terei todo o tempo do mundo

para flutuar ao sabor do vento e encontrar os átomos que

costumavam ser Hester, e minha mãe, na terra das artemísias, e

minhas namoradas, todas as minhas namoradas. . . Lyra, minha

querida, trate de descansar quando tudo isso tiver acabado, está me

ouvindo? A vida é boa e a morte morreu. . .

A voz dele foi se calando. Ela queria abraçá-lo, mas é claro que

isso era impossível. De maneira que, em vez disso, apenas olhou

para seu vulto pálido e o fantasma viu a paixão e o brilho em seus

olhos e recebeu a força que transmitiam.

E no ombro de Lyra e no de Will vinham os dois

galivespianos. O tempo curto de vida que tinham estava quase

esgotado, cada um dos dois sentia o enrijecimento nos músculos,

um frio ao redor do coração. Ambos estariam de volta ao mundo

dos mortos brevemente, dessa vez como fantasmas, mas eles

trocaram um olhar e juraram que ficariam com Will e Lyra por

tanto tempo quanto pudessem e que não diriam nem uma palavra a

respeito de estarem perto da morte.

As crianças foram escalando com dificuldade, para o alto,

cada vez mais para o alto. Não falaram. Ouviam a respiração

ofegante um do outro, ouviam os sons de seu passos, ouviam o ruído

das pedrinhas que seus passos deslocavam. À frente deles, o tempo

todo, a harpia subia pesadamente, com dificuldade, suas asas se

arrastando, as garras arranhando, calada e carrancuda.

E então surgiu um novo som: um gotejar constante, ecoando

no túnel. E depois um gotejar mais rápido, um escorrer devagar,

um som de água corrente.

— Aqui! — exclamou Lyra, estendendo a mão para a frente

para tocar uma parede de pedra que bloqueava o caminho, lisa e

fria. — É aqui.

Ela se virou para a harpia.

— Estive pensando — disse ela — sobre como me salvou, e

como prometeu guiar todos os fantasmas que passarem pela

terra dos mortos para aquele mundo onde dormimos ontem à

noite. E pensei que se você não tem nome, isso não pode estar

certo, não para o futuro. Assim pensei que eu podia dar um nome a

você, como o Rei Iorek Byrnison me deu o meu nome, Lyra da

Língua Mágica. Vou chamar você de Asas da Bondade. De

maneira que, de agora em diante, este é o seu nome e é isso que

você vai ser para sempre: Asas da Bondade.

— Um dia — disse a harpia — eu verei você de novo, Lyra

da Língua Mágica.

— E se eu souber que você está aqui, não vou ter medo —

declarou Lyra. — Adeus, Asas da Bondade, até o dia em que eu

morrer.

Ela abraçou a harpia bem apertado e beijou-lhe as duas faces.

Então o Cavaleiro Tialys perguntou:

— Este é o mundo da república de Lorde Asriel?

— É — confirmou Lyra —, foi o que o aletômetro disse.

Estamos perto da fortaleza dele.

— Então deixe-me falar com os fantasmas. Ela o levantou

bem alto e ele gritou:

— Ouçam, porque Lady Salmakia e eu somos os únicos

dentre nós que já vimos este mundo antes. Há uma fortaleza no

cume de uma montanha: é isso que Lorde Asriel está defendendo.

Quem é o inimigo não sei dizer. Lyra e Will agora têm apenas uma

missão, que é procurar seus daemons. A nossa missão é ajudá-los. Vamos ser corajosos e combater bem.

Lyra virou-se para Will.

— Tudo bem — disse —, estou pronta.

Ele pegou a faca e olhou bem nos olhos do fantasma de seu pai, que se mantinha bem perto. Eles não se conheceriam por muito

mais tempo e Will pensou em como teria ficado satisfeito de ver sua

mãe ao lado deles também, os três juntos —

— Will — chamou Lyra, assustada.

Ele se deteve. A faca estava presa, enfiada no ar. Afastou a mão

e ela ficou pendurada ali, presa na substância de um mundo

invisível. Will deixou escapar um profundo suspiro.

— Eu quase. . .

— Eu vi — disse ela. — Olhe para mim, Will. Na luz pálida ele viu seus cabelos claros, brilhantes, a boca

firme, os olhos francos: sentiu o calor de seu hálito, reconheceu o

perfume familiar de sua pele.

A faca se soltou.

— Vou tentar de novo — declarou.

Dando as costas para todos, ele se virou para a parede de

pedra. Concentrando-se com toda a intensidade, deixou sua mente

fluir descendo até a ponta da faca, tateando, recuando, procurando,

e então encontrou a fenda. A ponta entrou, cortou para o lado, para

baixo e de volta para o lado: os fantasmas estavam agrupados em

massa, tão junto deles que o corpo de Will e o de Lyra sentiam

pequenos choques de frio em cada nervo.

E então ele fez o corte final.

A primeira coisa que assaltou seus sentidos foi o barulho. A luz

que penetrou de um golpe era ofuscante e tiveram que cobrir os

olhos, fantasmas e vivos igualmente, de modo que não puderam

enxergar nada durante vários segundos; mas as pancadas

incessantes, as explosões, o matraquear de rajadas de artilharia, os

berros e gritos, instantaneamente, ficaram todos muito nítidos e

terrivelmente assustadores.

O fantasma de John Parry e o fantasma de Lee Scoresby foram

os primeiros a recuperar a presença de espírito. Como ambos tinham

sido soldados, com experiência de combate, não ficaram tão

desorientados pelo barulho. Will e Lyra simplesmente ficaram

olhando tomados pelo medo e pelo espanto.

Foguetes explosivos estavam eclodindo no ar acima,

despejando uma chuva de fragmentos de rocha e metal sobre as

encostas da montanha, que viram um pouco mais adiante; e nos

céus, anjos lutavam com anjos, e bruxas também, arremetendo,

voando baixo e depois subindo às alturas, berrando os gritos de

guerra de seus clãs enquanto disparavam flechas contra seus

inimigos. Viram um galivespiano, montado numa libélula,

mergulhando para atacar uma máquina voadora cujo piloto

tentou lutar contra ele em combate corpo a corpo. Enquanto a

libélula dardejava e dava vôos rasantes sobre a máquina, seu

cavaleiro saltou dela para enfiar suas esporas bem fundo no

pescoço do piloto; e então o inseto voltou, voando baixo para

deixar que seu cavaleiro saltasse sobre seu dorso verde-brilhante

enquanto a máquina voadora se chocava diretamente contra as

rochas nos contrafortes da fortaleza.

— Aumente a abertura — disse Lee Scoresby. — Deixe-nos

sair!

— Espere, Lee — disse John Parry. — Alguma coisa está

acontecendo. . . olhe ali.

Will cortou uma outra pequena janela na direção que ele

indicou e, quando olharam para fora, puderam ver uma mudança na

evolução do combate. As forças atacantes começaram a ceder

terreno e a recuar: um grupo de veículos armados parou de avançar

e, sob o fogo de cobertura, virou pesadamente e bateu em retirada.

Uma esquadrilha de máquinas voadoras, que estivera levando a

melhor numa dura batalha contra os girópteros de Lorde Asriel, fez

um círculo no céu e se afastou rumo ao oeste. As forças do reino em

terra — colunas de fuzileiros, tropas equipadas com lança-chamas,

com canhões que disparavam uma cKuva venenosa, com armas que

nenhum dos observadores jamais havia visto — começaram a se

dispersar e a recuar.

— O que está acontecendo? — perguntou Lee. — Eles estão

batendo em retirada, mas por quê?

Parecia não haver nenhuma razão para isso: os aliados de

Lorde Asriel estavam superados em número, suas armas eram

menos potentes e havia muitos mais deles caídos feridos.

Então Will sentiu um movimento repentino entre os

fantasmas. Estavam apontando para alguma coisa flutuando no ar.

— Espectros! — exclamou John Parry. — Este é o motivo.

E, pela primeira vez, Will e Lyra acharam que podiam ver

aquelas coisas, como véus de gaze tremeluzente, caindo do céu como

lanu-gem de cardo. Mas eram muito transparentes, e quando

chegavam ao chão eram muito mais difíceis de ver.

— O que eles estão fazendo? — perguntou Lyra.

— Eles estão se dirigindo para aquele pelotão de fuzileiros —

E Will e Lyra sabiam o que iria acontecer e os dois

gritaram apavorados:

— Corram! Fujam daí!

Alguns dos soldados, ouvindo vozes de crianças gritando de

perto, olharam em torno, espantados. Outros, vendo um Espectro se

aproximando na direção deles, tão estranho, vazio e ávido,

levantaram as armas e atiraram, mas, é claro, sem nenhum efeito. E

então o Espectro atacou o primeiro homem que alcançou.

Era um soldado do mundo de Lyra, um africano. Seu daemon

era uma gata de pernas longas, castanho-amarelada com pintas

pretas, e ela arreganhou os dentes e preparou-se para saltar.

Eles viram o homem fazer pontaria com a metralhadora,

destemido, sem ceder um centímetro — e então viram o daemon lutando contra uma rede invisível, rosnando, uivando impotente e o

homem tentando alcançá-la, largando sua arma, gritando o nome dela

e caindo, ele próprio desmaiando de dor e náusea brutal.

— Muito bem, Will — disse John Pariy. — Deixe-nos sair

agora; nós podemos lutar contra essas coisas.

De modo que Will abriu mais a janela, alargando-a, e saiu

correndo, encabeçando o exército de fantasmas; e então teve início a

batalha mais estranha que ele podia imaginar.

Os fantasmas escalavam a janela, saindo de dentro da terra,

vultos pálidos, ainda mais pálidos sob a luz do meio-dia. Agora não tinham mais nada que temer e se lançavam contra os Espectros

invisíveis, atracando-se, lutando e dilacerando coisas que Will e

Lyra absolutamente não conseguiam ver.

Os fuzileiros e os outros aliados vivos estavam perplexos: não

conseguiam ver nem entender nada daquele combate

fantasmagórico, espectral. Will foi abrindo caminho até o meio

deles, brandindo a faca, lembrando-se de como os Espectros tinham

fugido dela antes.

Aonde quer que ele fosse, Lyra ia atrás, desejando ter alguma

coisa com que pudesse lutar como Will estava fazendo, mas olhando

ao redor, observando mais atentamente. Achou que de vez em

quando podia ver os Espectros, num brilho oleoso no ar; e foi Lyra

quem sentiu o primeiro arrepio de medo.

Com Salmakia em seu ombro, ela se encontrava numa

pequena elevação, apenas um monte de terra coberto por arbustos

de espinheiro, de onde podia ver a enorme amplitude do terreno

que os invasores estavam destruindo.

O sol estava bem acima de Lyra. Adiante, no horizonte a

oeste, as nuvens se aglomeravam empilhadas e brilhantes,

fendidas por abismos de escuridão, seus topos abertos sob os

ventos fortes que sopravam a grande altitude. Naquela direção

também, na planície, as forças terrestres do inimigo esperavam:

máquinas reluziam muito claras, bandeiras em movimentos de

cor, regimentos em formação, esperando.

Atrás, e à sua esquerda, havia a cadeia de colinas pontiagudas

que conduziam à fortaleza. Elas brilhavam em um tom cinza-claro,

refletindo a luz sinistra que precede a tempestade, e nas

fortificações distantes das muralhas de basalto negro, conseguia ver

até pequeninos vultos se movimentando de um lado para outro,

fazendo reparos nas muralhas danificadas, trazendo mais armas

para disparar ou simplesmente observando.

E foi mais ou menos nesse instante que Lyra sentiu o primeiro

solavanco distante de náusea, dor e medo que era o toque

inconfundível dos Espectros.

Ela soube o que era imediatamente, embora nunca o tivesse

sentido antes. E aquilo disse-lhe duas coisas: a primeira, que devia ter

crescido o suficiente para se tornar vulnerável aos Espectros; e a

segunda, que Pan devia estar em algum lugar bem perto.

— Will. . . Will — gritou.

Ele a ouviu e se virou, de faca em punho e olhos faiscantes.

Mas, antes que ele pudesse falar, arquejou, sacudido por um

solavanco sufocante, e agarrou o peito, e ela soube que a mesma

coisa devia estar acontecendo com ele.

— Pan! Pan! — gritou, ficando nas pontas dos pés para olhar

ao redor.

Will estava dobrado para a frente, tentando não vomitar.

Depois de alguns instantes a sensação passou, como se seus

daemons tivessem escapado; mas não estavam mais perto de encontrá-los e por toda parte o ar estava cheio de tiros, gritos,

vozes berrando de dor ou de pânico, o ioque-ioque-ioque distante dos avantesmas-dos-penhascos voando em círculos acima, volta e meia o zunido tzim e a pancada tuque de flechas e então um som novo: o vento se tornando mais intenso.

Lyra o sentiu primeiro nas faces e depois viu a relva se

dobrando sob sua força, e então o ouviu nos espinheiros. O céu mais

adiante estava tomado por uma tempestade colossal: toda a brancura

havia desaparecido das massas arredondadas de nuvens carregadas e

elas vinham avançando e rodopiavam em tons amarelo-enxofre,

verde-mar, cinza-enfumaçado, negro-petróleo, um violento

encrespamento com quilômetros de altura e largo como o

horizonte.

Atrás dela o sol ainda estava brilhando, de modo que todos os

pequenos arbustos e cada uma das árvores entre ela e a tempestade

fulguravam fervorosos e vividos, coisas pequeninas e frágeis

desafiando a escuridão com folha e galho e flor.

E através de tudo aquilo seguiram as duas não-mais-

exatamente-crianças, vendo os Espectros agora quase que

claramente. O vento estava fustigando os olhos de Will e

chicoteando os cabelos de Lyra contra sua face, e deveria ter

conseguido soprar os Espectros para longe, mas as coisas desciam

flutuando em linha reta para o solo diretamente através dele. O

menino e a menina, de mãos dadas, foram caminhando

cautelosamente em meio aos mortos e feridos, Lyra chamando seu

daemon, Will, com todos os seus sentidos alerta, buscando o seu.

E agora o céu estava rendado de relâmpagos, então o primeiro

estrondo poderosíssimo de um trovão acertou seus tímpanos como

um machado. Lyra pôs as mãos na cabeça e Will quase tropeçou,

como se empurrado para baixo pelo som. Eles se agarraram um no

outro, olharam para o alto e se depararam com uma visão que

ninguém jamais tinha visto antes em nenhum dos milhões de

mundos.

Bruxas, do clã de Ruta Skadi e do clã de Reina Miti, e de

mais uma meia dúzia de outros, cada uma delas carregando uma

tocha de pinheiro do pez encharcada de betume, vinham voando

numa torrente sobre a fortaleza vindas do leste, do último canto de

céu claro, seguindo diretamente para a tempestade.

Aqueles que estavam no solo podiam ouvir o rugido e o

crepitar dos voláteis hidrocarbonetos ardendo lá no alto. Uns poucos

Espectros ainda permaneciam nas alturas e algumas bruxas voaram

de encontro a eles, sem vê-los, e gritando despencaram em

chamas no chão; mas, àquela altura, a maioria das coisas pálidas

tinha chegado ao solo e a grande esquadrilha de bruxas passou

correndo como um rio de fogo penetrando no meio da tempestade.

Uma esquadrilha de anjos, armados de lanças e espadas,

tinha saído da Montanha Nublada para vir ao encontro das bruxas.

Eles tinham o vento soprando às suas costas e vieram avançando

mais rápidos que flechas; mas as bruxas estavam à altura deles, e

as primeiras subiram voando muito alto e depois mergulharam nas

fileiras de anjos, golpeando à esquerda e à direita com suas tochas

ardentes. Um anjo após outro, delineado em fogo, com as asas em

chamas, despencou gritando do ar.

E então as primeiras grandes gotas de chuva caíram. Se o comandante das nuvens de tempestade queria apagar as tochas das