A Luneta Âmbar
37. As DUNAS
As DUNAS
MINH’ALMA, NÃO BUSQUES A VIDA ETERNA, MAS ESGOTA O
REINO DO POSSÍVEL.
PÍNDARO
No dia seguinte, Will e Lyra saíram sozinhos denovo, falando
pouco, ansiosos para estarem a sós. Pareciam atordoados, como se algum
feliz acidente lhes tivesse roubado a agilidade de pensamento; eles se
moviam devagar; seus olhos não estavam concentrados nas coisas para
as quais olhavam.
Passaram o dia inteiro nas vastas colinas e, no calor da tarde,
visitaram a clareira de ouro e prata no bosque. Conversaram,
banharam-se, comeram, beijaram-se, depois ficaram deitados, num
transe de felicidade, murmurando aquelas palavras cujos sons eram
tão confusos quanto seu sentido, e tiveram a impressão de que
estavam se derretendo de amor.
Ao anoitecer, sentaram para comer com Mary e Atai, mais
uma vez falando pouco e, como o ar estava quente, decidiram fazer
uma caminhada até a beira do mar, onde achavam que poderia haver
uma brisa fresca. Foram seguindo pela margem do rio até
chegarem à praia larga, clara sob a luz do luar, onde a maré baixa
estava virando.
Deitaram-se na areia macia na base das dunas e então ouviram
o primeiro pássaro cantar.
Os dois viraram a cabeça imediatamente, porque era um canto
de pássaro que não se parecia em nada com nenhum dos outros seres
que pertenciam ao mundo em que estavam. De algum lugar acima,
na escuridão, veio o som de um trinado e um outro respondeu,
vindo de uma direção diferente. Encantados, Will e Lyra
levantaram-se de um salto e tentaram ver os cantores, mas tudo o que
conseguiram avistar foram dois vultos que planavam, voando baixo, e
depois saíam como dardos para as alturas, o tempo todo cantando e
cantando, em sons ricos e límpidos como sinos, uma melodia de
infinitas variações.
E então, com um bater de asas que levantou um pequeno
chafariz de areia à sua frente, o primeiro pássaro pousou a poucos
metros de distância.
Lyra chamou:
— Pan?
Ele estava com a forma de um pombo, mas sua cor era escura
e difícil de distinguir ao luar; e, de qualquer maneira, ele aparecia
claramente sobre a areia branca. O outro pássaro ainda voava em
círculos acima, ainda cantando, e então ela desceu voando para vir
se juntar a ele: uma pomba também, mas branco-perolada e com uma
crista de penas vermelho-escuras.
E então Will descobriu como era ver seu daemon. Quando
ela desceu voando até a areia, ele sentiu seu coração se apertar e
depois se soltar de uma maneira que nunca esqueceria. Mais de 60
anos se passariam e, já na velhice, ele ainda sentiria algumas
sensações com a mesma intensidade e o mesmo frescor de sempre:
os dedos de Lyra pondo a frutinha entre seus lábios, sob as árvores
banhadas de ouro e prata; seus lábios cálidos contra os dele; seu
daemon sendo arrancado de seu peito inocente, enquanto entravam no mundo dos mortos; e a retidão, a doce correção de ela voltar para
ele ali, na base das dunas iluminadas pelo luar.
Lyra fez um movimento para se aproximar deles, mas
Pantalai-mon falou.
— Lyra — disse ele —, Serafina Pekkala veio nos procurar
ontem à noite. Ela nos contou uma porção de coisas. Já foi embora
para ir se encontrar com os gípcios e trazê-los até aqui. Farder
Coram está a caminho e Lorde Faa também, eles estarão aqui —
— Pan — disse ela, aflita. — Ah, meu Pan, você não está feliz...
o que foi? O que foi que aconteceu?
Então ele mudou e voou sobre a areia num movimento
fluido, com a forma de arminho branco como a neve. O outro
daemon também mudou de forma — Will sentiu isso acontecer, como um pequeno aperto em seu coração — e transformou-se
numa gata.
Antes de se aproximar dele, a gata disse:
— A bruxa me deu um nome. Eu não precisava de um nome
antes. Ela me chamou de Kirjava. Mas ouçam, vocês agora têm que nos
ouvir...
— Sim, vocês precisam nos ouvir — declarou Pantalaimon.
— Isso é difícil de explicar.
Se alternando, os daemons conseguiram explicar a eles tudo o
que Serafina lhes havia contado, começando pela revelação sobre a
natureza das crianças: sobre como, sem querer, eles haviam se
tornado iguais às bruxas em sua capacidade de se separar de seus
daemons e mesmo assim continuar sendo um único ser.
— Mas isto não é tudo — advertiu Kirjava.
E Pantalaimon disse:
— Ah, Lyra, perdoe-nos, mas temos que contar a vocês o
que descobrimos. . .
Lyra estava perplexa. Quando, algum dia, Pan havia precisado
ser perdoado? Ela olhou para Will e viu sua perplexidade tão
claramente quanto a que sentia.
— Pode contar — disse ele. — Não tenha medo.
— É sobre o Pó — disse o daemon gata, e Will ficou
maravilhado ao ouvir uma parte de seu próprio ser contar-lhe uma
coisa que ele não sabia. — Todo o Pó estava fluindo para fora do
mundo, todo o Pó que existia, e descendo pelo abismo que vocês
viram. Alguma coisa fez com que parasse de fluir e desaparecer lá
dentro, mas —
—Will, era aquela luz dourada! — exclamou Lyra. — Aquela luz
toda que fluía para o abismo e desaparecia... E aquilo era Pó? Era
mesmo?
— Era. Mas ainda há mais Pó vazando para lá o tempo todo
— prosseguiu Pantalaimon. — E isso não pode acontecer. É muito
importante que todo ele não continue a vazar. O Pó tem que ficar
no mundo e não desaparecer, pois caso contrário tudo o que existe
de bom vai murchar e morrer.
— Mas de onde o resto está saindo? — perguntou Lyra.
Os dois daemons olharam para Will e para a faca.
— Toda vez que fizemos uma abertura — explicou Kirjava, e
novamente Will sentiu aquele pequeno arrepio de prazer: Ela sou eu e eu sou ela. . . — toda vez que alguém fez uma abertura entre os mundos, nós ou os homens da antiga Guilda, qualquer pessoa, a
faca cortava uma abertura no vazio que fica do lado de fora. O
mesmo vazio que existe no fundo do abismo. Nós nunca soubemos
disso. Ninguém nunca soube, porque a borda era fina demais para ser
vista. Mas era grande o bastante para que o Pó vazasse através dela.
Se a abertura fosse de novo fechada, imediatamente, não havia
tempo para que vazasse muito, mas houve milhares de aberturas
que eles nunca fecharam. De modo que, durante todo esse tempo, o
Pó esteve vazando para fora dos mundos e indo para o nada.
A compreensão do que tudo aquilo significava estava
começando a surgir, como a luz do dia raiando, na mente de Will
e de Lyra. Eles lutaram contra isso, empurraram para longe, mas era
exatamente como a luz cinzenta que penetra no céu e apaga as
estrelas: ela foi se infiltrando através de todas as barreiras que eles
conseguiram levantar, e por baixo de todos os biombos, e pelos
cantos de todas as cortinas que conseguiram fechar contra ela.
— Todas as aberturas — disse Lyra num murmúrio.
— Todas as aberturas. . . todas elas têm de ser fechadas? —
perguntou Will.
— Sim, todas — respondeu Pantalaimon, num murmúrio,
como Lyra.
— Ah, não — exclamou Lyra. — Não, não pode ser verdade
— E por isso teremos de deixar nosso mundo e ficar no de
Lyra — disse Kirjava — ou Pan e Lyra terão de deixar o deles e vir
ficar no nosso. Não há outra escolha.
E então a luz plena e desoladora do dia se fez.
E Lyra começou a gritar e chorar. O grito de coruja de
Pantalaimon, da noite anterior, havia assustado todas as pequeninas
criaturas que o haviam ouvido, mas aquele grito não era nada diante do
pranto desesperado, carregado de paixão que Lyra não podia conter.
Os daemons ficaram chocados e Will, vendo a reação deles, compreendeu por quê: eles não conheciam o resto da verdade; não
tinham conhecimento do que Will e Lyra sabiam.
Lyra estava tremendo de raiva e desespero, andando em
passadas largas de um lado para o outro, com os punhos cerrados e
virando o rosto banhado de lágrimas, para a esquerda e para a direita
como se buscando uma resposta. Will levantou-se de um salto e a
agarrou pelos ombros, e a sentiu tensa e tremendo.
— Ouça — disse. — Lyra, escute: o que foi que meu pai
disse?
— Ah — exclamou, chorando, sacudindo a cabeça sem parar
—, ele disse. . . você sabe o que ele disse. . . você estava lá, Will, você
também ouviu!
Will pensou que ela fosse morrer ali, naquela hora, de dor e
de tristeza. Lyra atirou-se nos braços dele e soluçou, agarrando-se
apaixonadamente aos ombros dele, enfiando as unhas nas costas dele e
seu rosto no pescoço de Will, e tudo o que ele conseguia ouvir era:
— Não — não — não. . .
— Escute — disse ele, de novo —, Lyra, vamos tentar nos
lembrar exatamente. Poderia haver alguma saída. Poderia haver algum
meio.
Ele afastou os braços dela delicadamente e fez com que se
sentasse. Assustado, Pantalaimon imediatamente saltou para o colo
de Lyra, e o daemon gata se aproximou hesitante de Will. Ele ainda não havia tocado nela, mas naquele momento estendeu a mão em
sua direção e ela encostou sua face de gata em seus dedos movendo-
a numa carícia, depois, delicadamente, subiu em seu colo.
— Ele disse — começou Lyra, engolindo os soluços —, ele
disse que as pessoas podiam passar algum tempo em outros mundos
sem serem afetadas. Podiam. E nós já passamos, não passamos?
Além do que tivemos de fazer para ir ao mundo dos mortos, ainda
estamos saudáveis, não estamos?
— Mas como era com Lorde Boreal? Sir Charles? Ele era
bastante saudável, não era?
— Era, mas lembre-se, ele podia voltar para seu próprio
mundo sempre que quisesse e recuperar a saúde. Afinal, foi lá que
você o viu pela primeira vez, no seu mundo. Ele deve ter descoberto
alguma janela secreta que mais ninguém conhecia.
— Bem, nós poderíamos fazer isso!
— Poderíamos, só que. . .
— Todas as janelas têm que ser fechadas — disse
Pantalaimon. — Todas elas.
— Mas como você sabe. — questionou Lyra. — Um anjo nos disse — respondeu Kirjava. —
Encontramos um anjo. Ela nos contou tudo a respeito disso e
outras coisas também. É verdade, Lyra.
— Ela? — perguntou Lyra em tom exaltado, desconfiado.
— Era um anjo mulher.
— Nunca ouvi falar de anjo mulher. Talvez ela
estivesse mentindo.
Will estava pensando numa outra possibilidade.
— E se fechássemos todas as outras janelas — sugeriu — e
fizéssemos uma, apenas quando precisássemos, e passássemos por ela
tão depressa quanto pudéssemos e a fechássemos imediatamente...
assim seria seguro, não acha? Se não deixássemos muito tempo para
que o Pó saísse?
— Claro!
— Nós faríamos a janela num lugar onde ninguém pudesse
encontrá-la — prosseguiu ele — e só nós saberíamos —
— Ah, isso daria certo! Tenho certeza que daria! —
exclamou Lyra.
— E poderíamos passar de um mundo para outro e nos
manter saudáveis —
Mas os daemons estavam angustiados e Kirjava estava
murmurando:
— Não, não — e Pantalaimon disse:
— Os Espectros. . . Ela também nos falou dos Espectros.
— Os Espectros? — perguntou Will. — Nós os vimos
durante a batalha, pela primeira vez. O que têm eles?
— Bem, descobrimos de onde eles vêm — respondeu Kirjava.
— E essa é a pior parte: eles são como filhos do abismo. Cada vez que
abrimos uma janela com a faca, ele faz um Espectro. É como se um
pedacinho do abismo saísse flutuando e entrasse no mundo. Era por
isso que o mundo de Cittàgazze era tão cheio deles, por causa de
todas as janelas que deixaram abertas por lá.
— E eles crescem se alimentando de Pó — disse Pan. — E
de daemons. Porque Pó e daemons são meio parecidos; pelo menos os daemons de adultos. E os Espectros ficam maiores e mais fortes como os adultos. . .
Will sentiu um terror sombrio em seu coração e Kirjava
apertou-se contra o peito dele, sentindo-o também, e tentando
confortá-lo.
— De modo que toda vez que eu usei a faca — disse —,
cada uma das vezes, fiz nascer mais um Espectro?
Ele se lembrou de Iorek na caverna onde havia forjado de
novo a faca, dizendo: O que você não sabe é o que a faca faz sozinha. Suas intenções podem ser boas. Mas afaça também tem intenções.
Os olhos de Lyra estavam cravados nele, arregalados de
angústia.
— Ah, Will, nós não podemoi — declarou. — Não podemos
fazer isso com as pessoas... não podemos deixar que outros Espectros
venham, não agora, depois que vimos o que eles fazem!
— Está bem — disse ele, se levantando, abraçando seu
daemon contra o peito. — Então teremos que. . . um de nós terá que... eu irei para o seu mundo e. . .
Ela sabia o que ele ia dizer e o viu carregando no colo o
daemon lindo e saudável, que nem sequer tinha começado a conhecer; e pensou na mãe dele, e teve certeza que ele estava
pensando nela também. Abandoná-la para viver com Lyra, mesmo
pelos poucos anos que teriam juntos — será que poderia fazer isso?
Ele poderia viver com Lyra, mas ela sabia que ele não seria capaz de
viver consigo mesmo.
— Não — exclamou, pondo-se de pé ao lado dele, e Kirjava
foi se juntar a Pan na areia, enquanto o menino e a menina se
abraçavam desesperadamente. — Eu faço isso, Will! Nós iremos para o seu mundo e viveremos lá! Não faz mal se ficarmos doentes,
eu e o Pan. . . nós somos fortes, aposto que duraremos um bom
tempo e, provavelmente, existem bons médicos em seu mundo... a
Dra. Malone deve saber! Ah, vamos fazer isso!
Ele estava sacudindo a cabeça, fazendo que não, e ela viu as
lágrimas brilhando em suas faces.
— Você acha que eu poderia suportar isso, Lyra? —
perguntou. — Acha que eu poderia viver feliz vendo você adoecer e
piorar, ir minguando e depois morrer, enquanto eu fosse ficando
mais forte e adulto a cada dia? Dez anos. . . Isso não é nada.
Passaria num instante. Estaríamos com vinte e poucos anos. Não
falta muito para chegarmos lá. Pense nisso, Lyra, você e eu adultos,
acabando de nos preparar para fazer todas as coisas que queremos
fazer... e então... tudo acabará. Você acha que eu suportaria continuar
vivendo depois que você morresse? Ah, Lyra, eu seguiria você na
descida até o mundo dos mortos sem pensar duas vezes, exatamente
como você seguiu Roger; e assim seriam duas vidas perdidas por
nada, a minha vida desperdiçada assim como a sua.
Não, nós deveríamos passar nossa vida inteira juntos, ter uma
vida longa e produtiva, os dois, e se não pudermos vivê-la juntos,
nós.. . nós teremos que viver separados.
Mordendo o lábio, ela o observou enquanto ficava
caminhando para baixo e para cima em sua terrível angústia.
Ele parou, se virou e prosseguiu:
— Você se lembra de uma outra coisa que ele disse, meu pai?
Ele disse que temos que construir uma república do céu onde
estivermos. Disse que para nós não existe nenhum outro lugar. Era
isso que estava querendo dizer, agora compreendo. Ah, mas é
cruel e triste demais. Pensei que ele estivesse se referindo apenas a
Lorde Asriel e a seu novo mundo, mas estava falando de nós,
falando de você e de mim. Temos que viver em nossos próprios
mundos. . .
— Eu vou perguntar ao aletômetro — disse Lyra. — Ele vai
saber. Não sei por que não pensei nisso antes.
Ela sentou na areia, enxugando o rosto com a palma de uma
das mãos e estendendo a outra para a sacola de lona. Lyra a levava
consigo para toda parte: quando Will pensasse nela anos depois, com
freqüência seria com aquela pequena sacola no ombro. Ela empurrou
o cabelo para trás, enfiando-o atrás das orelhas com aquele
movimento rápido que ele amava, e tirou o embrulho de veludo
preto.
— Consegue enxergar? — perguntou ele, pois embora a lua
estivesse clara, os símbolos em círculo no mostrador eram muito
pequenos.
— Eu sei onde todos eles estão — respondeu ela —, sei de
cor. Agora fique calado.
Ela cruzou as pernas, puxando a saia sobre as pernas para
fazer um apoio. Will se deitou, apoiado num cotovelo, e observou.
A luz intensa do luar, refletida na areia, iluminava o rosto de Lyra
com um brilho que parecia refletir uma outra luz que vinha de
dentro dela; seus olhos brilhavam e sua expressão estava tão séria e
concentrada que Will poderia ter se apaixonado por ela de novo, se
o amor já não possuísse cada fibra de seu ser.
Lyra respirou fundo e começou a girar os ponteiros. Mas
depois de apenas alguns instantes ela parou e virou o instrumento ao
contrário.
— Lugar errado — disse simplesmente e tentou de novo.
Will, acompanhando tudo, via seu rosto amado claramente. E
como o conhecia tão bem e já havia observado sua expressão na
alegria e no desespero, na esperança e no sofrimento, logo ficou
sabendo que alguma coisa estava errada; pois não havia sinal da
concentração nítida em que ela costumava mergulhar tão
rapidamente. Em vez disso, uma expressão de perplexidade infeliz
começou a se espalhar gradualmente: ela mordeu o lábio, começou a
piscar cada vez mais e seus olhos se moveram lentamente de um
símbolo para outro, quase que ao acaso, em vez de dardejar rápida
e confiantemente.
— Não sei — disse ela, sacudindo a cabeça —, não sei o que
está acontecendo... Eu o conheço tão bem, mas parece que não
consigo entender o que está querendo dizer. . .
Ela respirou fundo, trêmula, e virou o instrumento para o
outro lado. Parecia estranho e pesado em suas mãos. Pantalaimon,
sob a forma de camundongo, esgueirou-se para o colo dela e
descansou as patinhas negras sobre o cristal, olhando fixamente para
um símbolo depois do outro. Lyra girou um ponteiro, girou outro,
depois virou a coisa inteira ao contrário e então levantou a cabeça e
olhou para Will, arrasada.
— Ah, Will — exclamou —, não consigo mais ler!
Perdi a capacidade!
— Calma — disse ele —, não se preocupe. Ainda está aí dentro
de você, todo aquele conhecimento. Agora trate de se acalmar e
procure encontrá-lo. Não faça força. Apenas relaxe e vá flutuando até
tocá-lo. . .
Ela engoliu em seco e assentiu, irritada, esfregou o punho nos
olhos, depois respirou fundo várias vezes; mas ele podia ver que
estava tensa demais, e pôs as mãos nos ombros dela e a sentiu
tremer, então a abraçou bem apertado. Lyra afastou-se dele e tentou
novamente. Mais uma vez olhou para os símbolos e girou os
ponteiros, mas aqueles degraus invisíveis de significado em que ela
havia pisado, descendo aos vários níveis com tanta facilidade e
confiança, simplesmente não estavam mais lá. Ela não sabia o que
nenhum dos símbolos significava.
Ela se virou de volta, se agarrou em Will e disse desesperada:
— Não adianta, eu não sei mais... desapareceu para
sempre...simplesmente vinha quando eu precisava, para todas as
coisas que eu tinha que fazer... para salvar Roger, depois para nós
dois... e agora acabou, agora tudo se acabou, simplesmente perdi a
capacidade de ler... estava com medo de que isso acontecesse,
porque tem sido tão difícil... pensei que não estava conseguindo
enxergar direito, ou que meus dedos estivessem enrijecidos, ou sei
lá, mas não era nada disso; o conhecimento estava simplesmente me
deixando, estava apenas se apagando aos poucos. . . Ah, foi-se
embora, Will, eu o perdi! E nunca mais vai
voltar!
Ela soluçou com um abandono desesperado. Tudo o que
Will podia fazer era abraçá-la. Não sabia como consolá-la, porque
era evidente que estava certa.
Então os dois daemons se arrepiaram e olharam para o alto.
Will e Lyra também perceberam e seguiram os olhos deles para o
céu. Uma luz estava se movendo na direção deles: uma luz com
asas.
— Ê o anjo que vimos — disse Pantalaimon, arriscando
um palpite.
E adivinhou corretamente. Enquanto o menino e a menina
observavam sua aproximação, Xaphania abriu mais as asas e veio
planando até a areia. Will, a despeito de todo o tempo que tinha
passado na companhia de Balthamos, não estava preparado para a
estranheza daquele encontro. Ele e Lyra seguraram a mão um do
outro, bem apertadas, enquanto o anjo se aproximava deles, com a
luz de um outro mundo brilhando sobre ela. Estava despida, mas isso
não significava nada: de qualquer maneira, que roupas poderia um
anjo vestir, pensou Lyra? Era impossível dizer se era velha ou moça,
mas sua expressão era austera e compassiva, e tanto Will quanto
Lyra tiveram a sensação de que ela os conhecia até o fundo do
coração.
— Will — disse ela —, vim para pedir sua ajuda.
— Minha ajuda? Como posso ajudar?
— Quero que me mostre como se fecham as aberturas que a faca
faz.
Will engoliu em seco.
— Eu mostro — respondeu —; e, em troca, pode nos
ajudar?
— Não da maneira como vocês querem. Sei a respeito do que
estiveram falando. O sofrimento de vocês deixou marcas até no
ar. Sei que isso não é consolo, mas creiam-me, todos os seres que
têm conhecimento do dilema de vocês desejariam que as coisas
pudessem ser diferentes: mas há destinos a que mesmo os mais
poderosos dentre nós temos que nos submeter. Não há nada que eu
possa fazer para ajudar vocês a mudar a maneira como são as
coisas.
— Por que — Lyra começou a falar e descobriu que sua voz
estava fraca e trêmula —, por que não consigo mais ler o aletômetro?
Por que não consigo sequer fazer isso? Era a única coisa que eu
sabia fazer realmente bem, e simplesmente não está mais lá. . .
desapareceu como se nunca tivesse existido. . .
— Sua capacidade de ler era uma graça — disse Xaphania,
olhando para ela —, e pode recuperá-la através de trabalho.
— Quanto tempo vai levar?
— Uma vida inteira.
— Tudo isso. . .
— Mas sua leitura, então, será muito melhor, depois de uma
vida inteira de reflexão e esforço, porque virá da compreensão e do
conhecimento conscientes. Graças alcançadas assim são mais
profundas e mais plenas que uma graça que vem sem custar nada e,
além disso, depois que a tiver alcançado, nunca mais a deixará.
— Está querendo dizer toda uma vida inteira, não é? —
sussurrou Lyra. — Uma vida longa inteira? Não... não apenas...
alguns anos...
— Sim, exatamente — respondeu o anjo.
— E todas as janelas têm que ser fechadas? — perguntou Will.
— Todas elas mesmo?
— Compreenda o seguinte — disse Xaphania. — O Pó não
é uma constante. Não existe uma quantidade fixa que sempre tenha
sido a mesma. Seres conscientes produzem Pó. . . e o renovam o
tempo todo, ao pensar, e sentir, e refletir, ao adquirir saber e ao
transmiti-lo para os outros.
"E se vocês ajudarem todas as outras pessoas em seus mundos
a fazer isso, ajudando-as a conhecerem e compreenderem a si
mesmas e às outras e a maneira como tudo funciona, e mostrando-
lhes como serem gentis em vez de serem cruéis, pacientes em vez de
apressados, alegres em vez de grosseiras e, sobretudo, como
manter suas mentes abertas, livres e curiosas. . . então elas
renovarão o suficiente para repor o que se perde através de uma
janela aberta. De modo que poderia haver uma deixada aberta."
Will tremeu de excitação e sua mente saltou para um único
ponto: para uma nova janela no ar, entre seu mundo e o de Lyra.
E seria o segredo deles, poderiam atravessá-la sempre que quisessem
e viver por algum tempo no mundo um do outro, não vivendo o
tempo todo em nenhum dos dois, de modo que seus daemons pudessem se manter saudáveis; e poderiam crescer juntos e talvez,
muito mais tarde, poderiam ter filhos que seriam cidadãos secretos
de dois mundos; e poderiam trazer todo o conhecimento de um
mundo para o outro, poderiam fazer todo tipo de coisas boas —
Mas Lyra estava sacudindo a cabeça.
— Não — disse ela, num lamento sufocado. — Não
podemos, Will —
E, de repente, ele soube em que ela estava pensando e no
mesmo tom angustiado disse:
— Não, os mortos —
— Temos que deixá-la aberta para eles! Nós temos!
— É, caso contrário. . .
— E temos que fazer bastante Pó para eles, e manter a
janela aberta —
Ela estava tremendo. Sentia-se muito jovem, apenas uma
menininha, enquanto ele a abraçava, mantendo-a colada ao seu
corpo.
— E se fizermos — disse ele quase chorando, a voz trêmula —,
se vivermos nossa vida corretamente e pensarmos neles enquanto a
vivermos, então terão alguma coisa para contar às harpias, também.
Precisamos dizer isso às pessoas, Lyra.
— Para terem histórias verdadeiras, claro — concordou ela
—, as histórias verdadeiras que as harpias querem ouvir em troca.
Claro. Pois se as pessoas viverem a vida inteira e, quando tiver
acabado, não tiverem nada para contar a respeito dessa vida, então
nunca deixarão o mundo dos mortos. Nós precisamos dizer isso a
elas, Will.
— Mas, cada um de nós, sozinho. . .
— Sim — concordou ela —, sozinho. . .
E diante da palavra sozinho, Will sentiu uma enorme onda de
raiva e de desespero começar a se mover, levantando-se para sair,
vinda de um lugar muito profundo dentro dele, como se sua mente
fosse um oceano que alguma profunda convulsão tivesse agitado.
Sua vida inteira tinha estado sozinho e, agora, ele teria que ficar
sozinho de novo e aquela bênção infinitamente preciosa que lhe
tinha sido concedida teria que lhe ser tomada quase que
imediatamente. Ele sentiu a onda crescer, ficando mais alta e mais
escarpada para escurecer o céu, e sentiu a crista tremer e começar a
cair, sentiu a grande massa descer, despencando, com todo o peso do
oceano atrás de si, para explodir contra a costa rochosa e dura do
que tinha que ser. E descobriu-se arquejando, soluçando, tremendo
e chorando alto, com mais raiva e sofrimento do que jamais tinha
sentido em sua vida, e encontrou Lyra igualmente desamparada em
seus braços. Mas, à medida que a onda despendia sua força e as
águas recuavam, as rochas frias e desoladas permaneceram lá; não
havia como discutir com o destino; nem seu desespero nem o de
Lyra as tinham movido um único centímetro.
Quanto tempo durou aquela raiva, ele não tinha idéia. Mas,
finalmente, teve que diminuir e o oceano ficou um pouco mais calmo
depois da convulsão. As águas ainda estavam agitadas e talvez elas
nunca mais fossem ficar realmente calmas de novo, mas a força
imensa se fora.
Eles se viraram para o anjo e viram que ela compreendia, e que
se sentia tão triste e infeliz quanto eles. Mas ela era capaz de ver mais
longe do que eles e havia uma esperança calma em sua expressão
também.
Will engoliu com dificuldade e disse:
— Está bem. Vou lhe mostrar como se fecha uma janela.
Mas primeiro terei que abrir uma e fazer mais um Espectro.
Nunca soube de nada sobre os Espectros, caso contrário teria sido
mais cuidadoso.
— Nós cuidaremos dos Espectros — disse Xaphania.
Will pegou a faca e virou-se de frente para o mar. Para sua
surpresa, suas mãos estavam bastante firmes. Cortou uma janela
para seu próprio mundo, e eles se viram olhando para uma enorme
fábrica ou indústria química, onde tubulações complicadas se
estendiam entre os prédios e tanques de armazenagem, onde luzes
brilhavam em cada canto, onde filetes de vapor subiam no ar.
— É estranho pensar que anjos não saibam como fazer isso —
comentou Will.
— A faca foi uma invenção humana.
— E vai fechar todas elas, exceto uma — disse Will. —
Todas, exceto a do mundo dos mortos.
— Sim, isso está prometido. Mas é uma promessa
condicional e vocês sabem qual é a condição.
— É, nós sabemos. São muitas as janelas que existem para
fechar?
— Milhares. E há o terrível abismo feito pela bomba e há a
grande abertura que Lorde Asriel fez para sair de seu mundo. Ambos
devem ser fechados e serão. Mas existem muitas aberturas menores
também, algumas em lugares muito profundos debaixo da terra,
algumas bem altas no ar, que foram criadas de outras maneiras.
— Baruch e Balthamos disseram-me que usavam aberturas
assim para viajar entre os mundos. Os anjos não poderão mais
fazer isso? Vocês serão confinados a um mundo como nós somos?
— Não, nós temos outras maneiras de viajar.
— A maneira que vocês têm de viajar — interessou-se Lyra —
seria possível de nós aprendermos?
— Seria. Vocês poderiam aprender a fazê-lo, como o pai de
Will fez. Ela utiliza a faculdade que vocês chamam de imaginação.
Mas isso não significa inventar coisas. É uma forma de visão.
— Então não é viagem de verdade — argumentou Lyra. — Ê
só simulação, só faz-de-conta. . .
— Não — retrucou Xaphania —, não tem nada de parecido
com faz-de-conta. Fazer de conta é fácil. Essa maneira é difícil,
mas muito mais verdadeira.
— E é como o aletômetro? — perguntou Will. — Leva-se
uma vida inteira para aprender?
— Exige muito tempo de prática, sim. Você tem que
trabalhar muito. Você pensou que poderia estalar os dedos e
conseguir tê-la como se fosse um presente? Tudo que vale a pena
ter, vale a pena o esforço de trabalhar para ter. Mas você tem
uma amiga que já deu os primeiros passos e que poderia ajudá-lo.
Will não tinha nenhuma idéia de quem pudesse ser e, no
momento, não estava com disposição para perguntar.
— Compreendo — disse, suspirando. — E nós a veremos de
novo? Alguma vez voltaremos a falar com um anjo depois que
voltarmos para nossos mundos?
— Eu não sei — respondeu ela. — Mas não deveria
desperdiçar seu tempo esperando.
— E tenho que quebrar a faca — disse Will.
— Sim.
Enquanto estavam conversando, a janela tinha ficado aberta
ao lado deles. As luzes estavam acesas na fábrica, o trabalho
continuava; máquinas funcionavam, substâncias químicas se
combinavam, pessoas estavam produzindo materiais e ganhando a
vida. Aquele era o mundo a que Will pertencia.
— Bem, vou lhe mostrar o que fazer.
E assim ele ensinou ao anjo como tatear com delicadeza e
encontrar as bordas da janela, exatamente como Giacomo Paradisi
tinha lhe mostrado, procurando-as com as pontas dos dedos,
tateando, encontrando as bordas e apertando-as uma contra a outra.
Pouco a pouco a janela foi fechada e a fábrica desapareceu.
— As aberturas que não foram feitas pela faca sutil —
perguntou Will. — É realmente necessário fechar todas elas? Porque
certamente o Pó só escapa pelas aberturas que a faca fez. As outras
devem ter estado lá há milhares de anos e o Pó continua a existir.
— Devemos fechar todas as aberturas — declarou o anjo —,
porque se você acreditasse que ainda restava alguma, passaria a vida
procurando por ela e isso seria um desperdício do tempo que tem.
Você tem outras coisas a fazer, um trabalho muito mais importante
e mais valioso, em seu mundo. Não haverá mais tempo para viajar
fora dele.
— Que trabalho tenho que fazer então? — perguntou
Will, mas emendou imediatamente. — Não, pensando bem,
não me diga. Eu vou decidir o que vou fazer. Se disser que meu trabalho é lutar, curar, ou fazer explorações, ou seja lá o que for
que possa dizer, sempre ficarei pensando nisso e se realmente
acabar fazendo isso, me sentirei ressentido porque seria como
se eu não tivesse tido escolha, e se não fizer, me sentirei
culpado porque deveria ter feito. Qualquer coisa que eu faça,
quero que seja por minha escolha, de mais ninguém.
— Então já deu os primeiros passos para alcançar a sabedoria
— declarou Xaphania.
— Tem uma luz lá longe no mar — disse Lyra.
— Aquilo é o navio trazendo seus amigos para levá-la para
casa. Estarão aqui amanhã.
A palavra amanhã para eles foi como um golpe violento. Lyra
nunca havia imaginado que poderia se sentir relutante em ver
Fardei Coram, John Faa e Serafina Pekkala.
— Agora, eu vou embora — disse o anjo. — Aprendi o que
precisava saber.
Ela abraçou cada um deles com seus braços leves e frescos e
os beijou na testa. Depois se abaixou para beijar os daemons e eles se transformaram em pássaros e voaram junto com ela quando
abriu as asas e se elevou rapidamente no ar. Apenas alguns segundos
depois, tinha desaparecido.
Alguns instantes depois de ela ter ido embora, Lyra deixou
escapar uma pequena exclamação.
— O que foi?
— Eu nem perguntei a ela sobre meu pai e minha mãe... e
também não posso mais perguntar ao aletômetro, agora. . . será que
algum dia vou saber o que aconteceu a eles?
Ela sentou devagar e ele sentou ao lado dela.
— Ah, Will — suspirou —, o que podemos fazer? Será que
há alguma coisa que possamos fazer? Eu quero viver com você para
sempre. Quero beijar você, deitar e acordar com você todos os dias
da minha vida até morrer, daqui a muitos, e muitos, e muitos
anos. Não quero uma lembrança, apenas uma lembrança. . .
— Não — concordou ele —, apenas uma lembrança é
muito pouco para ter. São seus cabelos, sua boca, seus braços, seus
olhos e suas mãos, de verdade, que eu quero. Eu não sabia que
jamais poderia amar tanto alguma coisa. Ah, Lyra, eu queria que
esta noite nunca acabasse! Se ao menos pudéssemos ficar aqui
assim, e o mundo pudesse parar de girar e todo mundo
adormecesse. . .
— Todo mundo menos nós! E você e eu pudéssemos viver
aqui para sempre e apenas continuar nos amando.
— Eu vou amar você para sempre, aconteça o que
acontecer.
Até o dia em que eu morrer e depois que eu morrer, e quando
encontrar meu caminho de saída da terra dos mortos, vou ficar
flutuando para sempre, todos os meus átomos, até eu encontrar
você denovo. . .
— E eu estarei procurando por você, Will, em todos os
momentos, em cada um e todos os instantes. E quando voltarmos a
nos encontrar, vamos nos abraçar tão apertados que nada e
ninguém jamais vai nos separar. Todos os meus átomos e todos os
seus átomos. . . Nós viveremos em passarinhos e em flores, em
libélulas e em pinheiros, em nuvens e naquelas partículas de luz
que você vê flutuando em raios de sol. . . E quando eles usarem
seus átomos para fazer novas vidas, não poderão pegar um, terão que pegar dois, um de você e um de mim, pois estaremos abraçados
tão apertados. . .
Eles ficaram deitados lado a lado, de mãos dadas, olhando para
o céu.
— Você se lembra — cochichou ela — da primeira vez que
nos encontramos, quando você entrou naquele café em Cittàgazze,
e que você nunca tinha visto um daemon?
— Eu não conseguia entender o que ele era. Mas quando vi
você, gostei de você imediatamente, porque era corajosa.
— Não, eu gostei de você primeiro.
— Que nada! Você lutou comigo!
— Bem — rebateu ela —, lutei. Mas você me atacou.
— Não, eu não! Você entrou correndo, se jogou em cima de
mim e me atacou.
— É verdade, mas parei logo.
— É verdade, mas — zombou ele, falando baixinho.
Will a sentiu estremecer e então, sob suas mãos, sentiu os
ossos delicados das costas de Lyra começarem a subir e descer e a
ouviu soluçar baixinho. Ele acariciou seus cabelos macios, os ombros
frágeis, e então beijou seu rosto uma porção de vezes, uma vez após
outra até que, algum tempo depois, ela deixou escapar um suspiro
profundo e trêmulo e se aquietou.
Os daemons voltaram voando, pousaram e, depois de
novamente mudarem de forma, se aproximaram deles andando pela
areia macia. Lyra sentou-se para recebê-los e Will ficou
maravilhado com a maneira como sabia identificar, imediatamente,
quem era quem entre os daemons, pouco importando a forma que tivessem. Pantalaimon agora era um animal cujo nome não
conseguia muito bem encontrar: parecia um furão, grande e forte, de
cor vermelho-dourada, esbelto, sinuoso e cheio de graça. Kirjava era
de novo uma gata. Mas, não era uma gata de tamanho comum, e seu
pêlo era lustroso e farto, com mil cintilações e matizes diferentes de
negro-carvão e de sombreados de cinza, o tom de azul de um lago
profundo sob o sol do meio-dia, névoa-lavanda-luar-neblina. . . Para
ver o significado da palavra sutileza, era só olhar para o seu pêlo.
— Uma marta — disse ele, encontrando o nome do animal
de Pantalaimon —, uma marta de floresta de pinheiros.
— Pan — chamou Lyra, enquanto ele subia para seu colo
num movimento fluido —, você não vai mais mudar muito de
forma, vai?
— Não — respondeu ele.
— É engraçado — comentou ela —, você se lembra de
quando éramos pequenos e eu não queria que você parasse de
mudar de forma nunca...? Bem, agora já não me importo tanto, não
se você ficar assim.
Will pôs a mão sobre a mão de Lyra. Um estado de espírito novo
e diferente havia se apoderado dele, e sentia-se decidido e sereno.
Sabendo exatamente o que estava fazendo e exatamente o que
significaria, tirou a mão do pulso de Lyra e acariciou o pêlo vermelho-
dourado de seu daemon.
Lyra deixou escapar uma exclamação. Mas sua surpresa estava
mesclada com um prazer tão semelhante à felicidade que havia
dominado seus sentidos quando pusera a frutinha nos lábios dele que
não conseguiu protestar, porque estava sem fôlego. Com o coração
batendo disparado, ela reagiu da mesma maneira: pôs a mão sobre o
pêlo deliciosamente sedoso do daemon de Will e, quando seus dedos penetraram, seguraram e alisaram a pelagem, Lyra sabia que Will
estava sentindo exatamente o que ela estava sentindo.
E também sabia que agora nenhum dos dois daemons
mudaria mais de forma, depois de ter sentido na pele a carícia das
mãos de seu amado. Aquelas seriam suas formas para o resto da
vida: não quereriam nenhuma outra.
E assim, se perguntando se outros amantes apaixonados antes
deles teriam feito aquela descoberta capaz de proporcionar tamanha
felicidade e prazer, ficaram deitados juntos enquanto a Terra girava
lentamente e a Lua e as estrelas brilhavam com fulgor no céu acima
deles.