A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 39 de 39

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A Luneta Âmbar

38. O Jardim Botânico

O JARDIM BOTÂNICO

 

Os gípcios chegaram na tarde do

dia seguinte. Não havia porto, é claro,

de modo que tiveram que ancorar o

navio a alguma distância ao largo da

costa e John Faa, Farder Coram e o capitão vieram à terra num grande

barco a motor tendo Serafina Pekkala

como guia.

Mary t i n h a contado, aos muletas tudo o que sabia e, quando

afinal os gípcios chegaram à costa, desembarcando na praia grande,

havia uma multidão curiosa esperando para recebê-los. Ambos os lados,

é claro, estavam ardendo de curiosidade com relação ao outro, mas

John Faa tinha aprendido a ter cortesia e paciência de sobra em sua

longa vida e estava firmemente decidido a que aquele mais estranho

de todos os povos recebesse dos gípcios ocidentais unicamente gentil

elegância e amizade.

De modo que, durante algum tempo, ficou parado, de pé, sob

o sol quente, enquanto o zalif ancião, Sattamax, fazia um discurso de

boas-vindas, que Mary deu o melhor de si para traduzir; e ao qual

John Faa respondeu, apresentando-lhes as saudações dos Pântanos e

dos canais e cursos d'água que eram sua terra natal.

Quando começaram a seguir pela região pantanosa em direção

ao povoado, os mulefas perceberam como era difícil para Farder

Coram caminhar e imediatamente se ofereceram para transportá-lo.

Ele aceitou agradecido e foi assim que chegaram ao monte do pódio

de reuniões, onde Will e Lyra vieram encontrá-los.

Quanto tempo havia se passado desde que Lyra tinha visto

aqueles homens queridos! A última vez em que tinham estado

juntos, conversando, fora nas neves do Ártico, quando estavam a

caminho na missão para resgatar as crianças dos Papões. Ela estava

quase tímida e estendeu a mão para um cumprimento, com

insegurança; mas John Faa levantou-a do chão num abraço apertado

e beijou-lhe as duas faces, e Farder Coram fez a mesma coisa,

examinando-a dos pés à cabeça, antes de pegá-la no colo apertando-

a contra o peito.

— Ela está crescida, John — comentou. — Lembra-se

daquela garotinha que levamos para as terras do norte? Olhe só para

ela agora! Ah! — exclamou com uma risada de satisfação. — Lyra,

minha querida, nem se eu tivesse a língua de um anjo seria capaz de

lhe dizer como estou contente em ver você de novo.

Mas ela parece estar tão magoada, tão sofrida, pensou, parece

tão frágil e cansada. E nem ele nem John Faa puderam deixar de

perceber a maneira como ela ficava perto de Will e como o garoto

de sobrancelhas negras e retas estava atento, a cada segundo, a onde

ela estava e se assegurava de nunca se afastar muito dela.

Os dois anciões o cumprimentaram respeitosamente, porque

Serafina Pekkala lhes havia contado boa parte do que Will tinha

feito. De sua parte, Will admirou o ar de poder maciço e autoridade

da presença de Lorde Faa, um poder temperado pela cortesia, e

pensou que seria uma boa maneira de se comportar quando ele

próprio ficasse velho; John Faa era um abrigo e uma força

acolhedora.

— Dra. Malone — disse John Faa —, precisamos nos

reabastecer de água doce e de qualquer coisa que possa nos servir

de alimento que seus amigos possam nos vender. Além disso,

nossos homens estão embarcados a bordo desse navio já há um bom

tempo e temos alguns desentendimentos que precisam ser resolvidos

com boas brigas e seria uma bênção se todos eles pudessem passar

algum tempo desembarcados de modo que pudessem respirar o ar

dessa terra, para depois contar a suas famílias em casa sobre o

mundo para onde viajaram.

— Lorde Faa — respondeu Mary —, os mulefas me pediram

para lhe dizer que fornecerão tudo o que precisa e que ficariam

honrados se todos vocês aceitassem ser seus convidados esta noite e

viessem compartilhar sua refeição.

— É com grande prazer que aceitamos o convite — disse John

Faa.

De modo que, naquela noite, pessoas de três mundos

sentaram-se e dividiram pão, carne, frutas e vinho. Os gípcios

ofereceram a seus anfitriões presentes de todos os cantos de seu

mundo: cântaros de aguardente de zimbro, esculturas entalhadas em

marfim de morsa, tapeçarias em seda do Turquestão, canecas de

prata das minas de Sveden, pratos esmaltados da Coréia.

Os mulefas os receberam encantados e, em troca, ofereceram

objetos de seu próprio artesanato: vasos raros feitos de madeira-de-nó

antiqüíssima, peças de seus mais requintados trabalhos de cordame,

tigelas laqueadas e redes de pesca, tão resistentes e leves, que mesmo

os gípcios que viviam nos Pântanos nunca tinham visto igual.

Depois de comparecer ao banquete, o capitão agradeceu a

seus anfitriões e partiu para supervisionar o trabalho dos tripulantes

enquanto levavam para bordo os mantimentos e a água de que

precisavam, porque pretendiam partir assim que a manhã chegasse.

Enquanto eles faziam isso, o velho zalif disse a seus convidados:

Uma grande mudança ocorreu em todas as coisas. E, como

prova disso, uma responsabilidade nos foi concedida.

Gostaríamos de mostrar a vocês o que isso significa.

De modo que John Faa, Farder Coram, Mary e Serafina

foram com eles até o lugar onde a terra dos mortos se abria e de

onde os fantasmas continuavam saindo, ainda em sua infindável

procissão. Os mulefas estavam plantando um bosque ali ao redor,

porque era um lugar sagrado, disseram; cuidariam dele para sempre;

era uma fonte de alegria.

— Bem, isto é um mistério — comentou Farder Coram —, e

estou contente por ter vivido o bastante para ver isso. Partir para a

escuridão da morte é algo que todos nós tememos, por mais que

digamos o contrário. Mas se existe uma saída para aquela parte de nós

que tem que descer até lá, então isso deixa meu coração mais leve.

— Você tem razão, Coram — concordou John Faa. — Já vi

muita gente morrer; eu mesmo já mandei um bocado de homens lá

para baixo para a escuridão, embora fosse sempre no calor da batalha.

Saber que depois de passar algum tempo na escuridão voltaremos a

sair para uma terra tão bonita como esta, para estarmos livres no céu

como os pássaros, bem, essa é a mais bela promessa que qualquer um

poderia desejar.

— Precisamos falar com Lyra a respeito disso —

comentou Farder Coram — e descobrir como aconteceu e o que

significa.

Mary achou extremamente difícil se despedir de Atai e dos

outros mulefas. Antes de embarcar no navio, eles lhe deram um

presente: um frasco de laça contendo óleo da árvore-das-rodas e,

ainda mais preciosa que qualquer coisa, uma pequena sacola de

sementes.

Pode ser que elas não cresçam em seu mundo, disse Atai, mas se

isso acontecer, você tem o óleo. Não nos esqueça, Mary.

Nunca, declarou Mary. Nunca. Mesmo se eu viver tanto tempo

quanto as bruxas e esquecer de tudo o mais, nunca me esquecerei de você

e da gentileza de seu povo, Atai.

E assim a jornada de volta para casa começou. O vento estava

suave, as águas do mar calmas e, embora eles avistassem o cintilar

daquelas enormes asas brancas como neve mais de uma vez, os

pássaros se mantiveram bem distantes. Will e Lyra passavam todas as

horas juntos e, para eles, as duas semanas de viagem se passaram

num piscar de olhos.

Xaphania tinha dito a Serafina Pekkala que, quando todas as

aberturas estivessem fechadas, os mundos retornariam mais uma

vez às posições exatas e correspondentes que tinham entre si, e a

Oxford de Lyra e a de Will ficariam de novo uma sobre a outra,

como imagens transparentes em folhas de filme, sendo levadas

cada vez para mais perto uma da outra até se fundirem; embora, na

verdade, nunca realmente fossem se tocar.

Naquele momento, contudo, estavam separadas por uma

grande distância — uma distância tão grande quanto a que Lyra

tivera que percorrer em sua viagem de Oxford para Cittàgazze. A

Oxford de Will agora havia chegado, estava bem ali, à distância

apenas de um corte de faca. Era de tardinha quando chegaram e,

enquanto a âncora caía levantando água, o sol banhava de uma luz

morna as colinas verdes, os telhados de terracota, aquela elegante

avenida à beira-mar, o porto em ruínas e o pequeno café de Will e

Lyra. Uma busca demorada com o telescópio do capitão não havia

revelado quaisquer sinais de vida, mas, por via das dúvidas, John Faa

estava planejando levar meia dúzia de homens armados para terra.

Eles não interfeririam, mas estariam lá se precisassem deles.

Fizeram uma última refeição juntos, vendo a noite cair. Will

despediu-se do capitão e de seus oficiais, de John Faa e de Farder

Coram. Ele mal parecia ter consciência da presença deles, e eles o

viam mais claramente do que Will os via: viam uma pessoa jovem,

mas muito forte e profundamente abalada.

Finalmente, Will, Lyra e seus daemons, Mary e Serafina

Pekkala iniciaram a caminhada pela cidade deserta. E estava

deserta; o único som de passadas e as únicas sombras eram as deles.

Lyra e Will foram na frente, de mãos dadas, para o lugar onde

teriam que se separar, e as mulheres ficaram a alguma distância

mais atrás, conversando como irmãs.

— Lyra quer fazer uma pequena visita à minha Oxford —

comentou Mary. — Ela tem alguma coisa em mente. Disse que

voltará logo depois.

— O que você vai fazer, Mary?

— Eu... vou com Will, é claro. Iremos para meu

apartamento, minha casa, esta noite e depois, amanhã de manhã,

vamos tratar de descobrir onde está a mãe dele e ver o que podemos

fazer para ajudá-la a melhorar. Há tantas regras e regulamentos em

meu mundo, Serafina; você tem que dar satisfações às autoridades

e responder a milhares de perguntas; eu vou ajudá-lo a resolver as

formalidades legais, com os serviços sociais, a questão de moradia e

coisas desse tipo, e deixarei que ele se concentre na mãe. Will é um

menino forte. . . Mas vou ajudá-lo. Além disso, eu preciso dele. Não tenho mais meu emprego, nem muito dinheiro no banco, e não

ficaria nada surpreendida se a polícia estiver atrás de mim. . . Ele

será a única pessoa no meu mundo inteiro com quem vou poder

falar a respeito de tudo isso.

Elas continuaram caminhando pelas ruas silenciosas,

passando por uma torre quadrada com uma porta se abrindo para a

escuridão, passaram por um pequeno café em que as mesas ficavam

na calçada e entraram numa larga avenida arborizada com duas

pistas e uma fileira de palmeiras no meio.

— Foi aqui que eu atravessei — declarou Mary.

A janela que Will tinha visto da primeira vez, na rua

residencial tranqüila, em Oxford, se abria ali, e do lado que ficava

em Oxford estava sob vigilância da polícia — ou pelo menos

estivera quando Mary os enganara, fazendo-os deixá-la passar. Ela

viu Will alcançar o ponto exato e tatear com as mãos rapidamente

no ar e a janela desapareceu.

— Vai ser uma surpresa para eles da próxima vez em que

olharem — comentou.

A intenção de Lyra era ir para a Oxford de Mary e mostrar

uma coisa a Will, antes de voltar com Serafina e, evidentemente, eles

tinham que ser cuidadosos na escolha do lugar onde cortariam a

janela para atravessar; de modo que as duas mulheres continuaram

seguindo atrás deles, caminhando pelas ruas iluminadas pelo luar de

Cittàgazze. À direita delas havia um amplo e gracioso terreno de

jardins cercados, gramado e arborizado, com uma floresta ao

fundo, tendo no centro uma grandiosa mansão com um pórtico

clássico que reluzia como uma cobertura de glacê ao luar.

— Quando você me disse qual era a forma de meu daemon —

recordou Mary —, disse que poderia me ensinar a vê-lo, se

tivéssemos tempo. . . gostaria tanto que tivéssemos.

— Ora, mas nós tivemos tempo — retrucou Serafina —, e

não estivemos conversando? Eu lhe ensinei alguns conhecimentos e

tradições das bruxas; isso teria sido proibido de acordo com os

antigos costumes de meu mundo. Mas você está voltando para o seu

mundo, e os velhos costumes mudaram. E também aprendi muita

coisa com você. De maneira que vamos lá: quando você falou com

as Sombras em seu computador, teve que colocar sua mente num

certo estado especial, não teve?

— Tive... exatamente como Lyra fazia com o aletômetro.

Está querendo dizer que se eu tentar assim, consigo?

— Mas não é só isso; você tem que usar a visão comum ao

mesmo tempo. Faça uma tentativa agora.

No mundo de Mary, eles tinham um tipo de imagem que,

quando se olhava pela primeira vez, parecia uma porção de pontos de

cor espalhados aleatoriamente, mas quando se olhava de uma certa

maneira, a imagem parecia avançar para três dimensões: e ali na

frente do papel haveria uma árvore ou um rosto, ou alguma outra

coisa surpreendentemente sólida que simplesmente não estava lá

antes.

O que Serafina ensinou Mary a fazer naquele momento era

parecido com aquilo. Ela deveria manter sua maneira de olhar

normal, enquanto, simultaneamente, ia mergulhando no estado de

semitranse, de sonhar acordada, em que podia ver as Sombras. Mas

agora tinha que manter as duas coisas juntas, a visão de todo dia e o

transe, exatamente como você tem que olhar em duas direções ao

mesmo tempo para ver as imagens tridimensionais entre os pontos.

E, exatamente como acontece com as imagens de pontos, ela

de repente conseguiu.

— Ah! — exclamou e segurou o braço de Serafina para se

equilibrar, pois ali, na cerca de metal do jardim, havia um pássaro

pousado: um pássaro negro lustroso, com pernas vermelhas e um

bico amarelo curvo: uma gralha dos Alpes, exatamente como

Serafina havia descrito. O pássaro, ele, estava a apenas uns 30

centímetros ou meio metro de distância, olhando fixamente para ela

com a cabeça ligeiramente inclinada para o lado, por mais incrível

que parecesse, como se estivesse achando graça.

Mas ela ficou tão surpreendida que sua concentração escapuliu

e ele desapareceu.

— Você conseguiu uma vez e da próxima vai ser mais fácil —

observou Serafina. — Quando estiver em seu mundo, aprenderá a

ver os daemons de outras pessoas também, exatamente da mesma maneira. Contudo, elas não verão o seu, nem o de Will, a menos

que lhes ensine o que ensinei a você.

— Certo. . . Ah, mas isso é extraordinário. Que maravilha!

Mary pensou: Lyra conversava com seu daemon, não conversava?

Será que ela ouviria aquele pássaro assim como o via? E

continuou a andar, radiante de expectativa.

Mais à frente, Will estava cortando uma janela; ele e Lyra

esperaram que as duas mulheres os alcançassem para que ele pudesse

tornar a fechá-la.

— Você sabe onde estamos? — perguntou Will. Mary olhou ao redor. A rua em que estavam agora, no mundo

de Mary, era tranqüila e bem arborizada, com grandes casas de estilo

vitoriano cercadas por jardins cheios de arbustos.

— Em algum lugar na zona norte de Oxford — disse Mary.

— Não muito longe de meu apartamento, na verdade, embora não

saiba exatamente que rua é esta.

— Eu quero ir ao Jardim Botânico — disse Lyra.

— Tudo bem. Acho que isso fica a uns 15 minutos de

caminha da. Vamos por aqui. . .

Mary experimentou usar a visão dupla de novo. Descobriu

que era mais fácil dessa vez e lá estava a gralha, com ela em seu

próprio mundo, empoleirada num galho que se estendia bem baixo

quase até a calçada. Para ver o que aconteceria, ela estendeu a mão e

ela veio pousar nela sem hesitação. Mary sentiu o ligeiro peso, o

aperto firme das garras em seu dedo e delicadamente a levou até o

ombro. Ela se acomodou sobre seu ombro como se tivesse estado ali

durante a vida inteira de Mary.

Bem, ela esteve, pensou, e seguiu adiante.

Não havia muito tráfego na High Street e quando desceram a

escadaria defronte à Faculdade Magdalen em direção aos portões do

Jardim Botânico estavam completamente sozinhos. Havia uma

passagem ornamentada que dava para um caminho com bancos de

pedra logo adiante e, enquanto Mary e Serafina sentavam ali, Will e

Lyra subiram pela grade de ferro e entraram no jardim propriamente

dito.

— Por aqui — disse Lyra, puxando a mão de Will.

Ela o conduziu, passando por um lago com uma fonte que

ficava debaixo de uma árvore de grandes ramagens, e depois

seguiu para a esquerda, andando em meio aos canteiros de

plantas em direção a um pinheiro imenso com um número

infindável de galhos. Ali havia um muro maciço de pedras com

uma porta de entrada e, mais para dentro, na parte mais distante

do jardim, as árvores eram mais jovens e plantadas num arranjo

menos formal. Lyra o levou quase até o fim do jardim, passando

por uma pequena ponte, até um banco de madeira, que ficava

debaixo de uma árvore de galhos abertos e baixos.

— Achei! — exclamou ela. — Eu tinha tanta esperança de que

fosse assim e aqui está, exatamente igual... Will, eu costumava vir a

este lugar na minha Oxford e sentar exatamente neste mesmo banco sempre que queria ficar sozinha, só eu e Pan. O que pensei foi

que se você... talvez apenas uma vez por ano... se pudéssemos vir aqui

ao mesmo tempo, para passar uma hora ou coisa assim, então

poderíamos fazer de conta que estávamos juntos de novo. . . porque

estaríamos juntos, se você sentasse aqui e eu sentasse bem aqui no meu mundo —

— Isso — disse ele —; enquanto eu viver, sempre voltarei

aqui. Não importa onde eu esteja no mundo, voltarei aqui —

— No dia do Solstício de Verão — completou ela. — Ao

meio-dia. Enquanto eu viver. Enquanto eu viver. . .

Ele descobriu que não conseguia enxergar, mas deixou as

lágrimas ardentes escorrerem e apenas a abraçou bem apertado.

— E se nós... se mais adiante... — ela estava falando num

murmúrio trêmulo — ... se um dia conhecermos alguém de quem

gostarmos e se nos casarmos com essas pessoas, então deveremos ser

bons com elas e não ficar fazendo comparações o tempo todo, nem

desejar que em vez disso tivéssemos nos casado um com o outro. .

. Mas apenas continuar essas vindas até aqui uma vez por ano,

apenas por uma hora, só para estarmos juntos. . .

Eles se abraçaram com força e ficaram assim. Minutos se

passaram; uma ave aquática no rio ali perto se agitou e gritou um

chamado; de vez em quando passava um carro pela Ponte

Magdalen.

Finalmente eles se afastaram.

— Bem — disse Lyra em tom suave.

Tudo nela naquele momento era suave; e aquela seria uma das

lembranças favoritas de Will, bem depois — a tensão de sua graça

ansiosa suavizada pela meia-luz, seus olhos e mãos e, especialmente,

seus lábios, infinitamente suaves. Ele a beijou uma vez depois da

outra e cada beijo chegava mais perto de ser o último de todos os

beijos.

Com os corações pesados, mas ao mesmo tempo enternecidos

pelo amor, eles foram caminhando de volta até o portão onde

Mary e Serafina esperavam.

— Lyra — disse Will.

E ela chamou:

— Will.

Ele cortou uma janela para Cittàgazze. Estavam bem no fundo

do terreno ajardinado da grande mansão, não muito longe da beira

da floresta. Atravessaram pela última vez e olharam para baixo, para a

cidade silenciosa, para os telhados de terracota reluzindo ao luar, a

torre acima deles, o navio iluminado esperando, ao largo, nas águas

calmas do mar. Will virou-se para Serafina e disse com tanta

firmeza quanto conseguiu:

— Obrigado, Serafina Pekkala, por ter-nos salvado no

belvedere e por todas as outras coisas. Por favor, seja gentil com

Lyra enquanto ela viver. Eu a amo mais que qualquer pessoa jamais

foi amada.

Em resposta, a rainha-bruxa o beijou nas duas faces. Lyra

estivera cochichando no ouvido de Mary e então elas também se

abraçaram e, primeiro Mary e depois Will, atravessaram a última

janela, voltando para seu próprio mundo, sob as sombras das árvores

do Jardim Botânico.

Trate de se animar, e comece agora, pensou Will, esforçando-

se o máximo que podia, mas era como tentar segurar um lobo

lutando em seus braços, quando ele queria arranhar seu rosto e

cravar os dentes em sua garganta; mas mesmo assim ele o fez e

pensou que ninguém veria o esforço que estava lhe custando.

E sabia que Lyra estava fazendo a mesma coisa, e que aquela

tensão e esforço em seu sorriso eram o sinal disso.

Apesar de tudo, ela sorriu.

Um último beijo, apressado e desajeitado, tanto que

esbarraram as maçãs do rosto e uma lágrima escorrendo do olho

dela passou para a face dele; os dois daemons também trocaram um beijo de despedida e Pantalaimon passou num movimento fluido

pela borda da janela e subiu para os braços de Lyra; e então Will

começou a fechar a janela, e estava feito, a passagem estava fechada e

Lyra se fora.

— Agora — disse ele, tentando não demonstrar sua emoção,

mas mesmo assim tendo que dar as costas a Mary — eu tenho que

quebrar a faca.

Ele procurou, tateando no ar, da maneira já familiar, até que

encontrou uma fenda e tentou trazer de volta à sua mente

exatamente o que havia acontecido na ocasião anterior. Estivera

prestes a cortar uma abertura para sair da caverna e a Sra. Coulter,

de maneira repentina e inexplicável, o recordara de sua mãe e a faca

tinha se quebrado porque, refletiu ele, finalmente havia encontrado

uma coisa que não podia cortar e isso era seu amor por ela.

De modo que tentou fazer a mesma coisa agora, evocando

uma imagem do rosto de sua mãe, como a vira da última vez,

assustada e confusa, no pequeno corredor estreito da entrada da

casa da Sra. Cooper.

Mas não funcionou. A faca cortou o ar com facilidade e abriu

uma janela para um mundo onde desabava um grande temporal: a

chuva forte, de gotas pesadas, passou através da janela,

surpreendendo os dois. Ele fechou a janela rapidamente e ficou

parado, confuso, por um instante.

Seu daemon sabia o que ele deveria fazer e disse apenas: — Lyra.

É claro. Ele balançou a cabeça concordando e, com a faca na

mão direita, tocou com a mão esquerda o ponto em seu rosto onde

ainda estava a lágrima de Lyra.

E dessa vez, com um estalar violento, a faca se espatifou e a

lâmina caiu em pedaços no chão, reluzindo sobre as pedras que

ainda estavam molhadas da chuva de outro universo.

Will ajoelhou-se para recolhê-los cuidadosamente; Kirjava,

com seus olhos de gata, ajudava a encontrar todos eles.

Mary estava pondo a mochila no ombro.

— Bem — disse —, bem, agora me ouça, Will. Mal

tivemos oportunidade de conversar, você e eu. . . De modo que,

em certa medida, ainda somos estranhos um para o outro. Mas

Serafina Pekkala e eu trocamos uma promessa, e eu fiz uma

promessa para Lyra ainda há pouco, e mesmo que não tivesse feito

quaisquer outras promessas, eu faria uma promessa a você a

respeito da mesma coisa, que é a seguinte: se você deixar, eu serei

sua amiga pelo resto de nossas vidas. Nós dois estamos

completamente sozinhos e acho que só nos faria bem ter esse tipo

de. . . O que estou querendo dizer é: não há mais ninguém com

quem possamos falar sobre tudo isso, exceto eu com você e você comigo. . . E nós dois temos que nos habituar a viver com nossos

daemons também. . . E estamos os dois numa situação difícil e, se

isso não fizer com que tenhamos alguma coisa em comum, não sei

o que fará.

— Você está numa situação difícil? — perguntou Will, olhando

para ela. O rosto franco, amistoso e inteligente olhou diretamente para

ele.

— Bem, eu destruí alguns equipamentos no laboratório antes

de partir e falsifiquei uma carteira de identidade e. .. Não é nada

que não possamos dar um jeito. E seus problemas, podemos

resolver isso também. Podemos encontrar sua mãe e conseguir que

ela receba um tratamento adequado. E se precisar de um lugar para

morar, bem, se não se importar de morar comigo, se pudermos dar

um jeito de conseguir isso, então não terá que ir para uma, sei lá

como chamam, instituição de assistência social ou abrigo para

jovens. O que quero dizer é que teremos que combinar uma história

e nós dois contaremos a mesma história; poderíamos fazer isso, não

acha?

Mary era uma amiga. Ele tinha uma amiga. Era verdade.

Nunca tinha pensado nisso.

— Claro! — exclamou.

— Bem, então vamos lá. Meu apartamento fica a uns oito

quilômetros daqui e sabe do que eu mais gostaria no mundo agora?

Tomar uma xícara de chá. Vamos andando, vamos para lá botar a

chaleira no fogo.

Três semanas depois do momento em que Lyra viu a mão de

Will fechar a janela de seu mundo para sempre, mais uma vez

encontrava-se sentada à mesa de jantar na Faculdade Jordan, onde

pela primeira vez havia sucumbido aos encantos da Sra. Coulter.

Dessa vez havia um grupo menor: só ela, o Reitor e a Dama

Hannah Relf, a diretora da Sta. Sophia, uma daquelas faculdades só

para mulheres. A Dama Hannah também estivera presente naquele

primeiro jantar e embora Lyra estivesse surpreendida de vê-la ali

agora, a cumprimentou muito educadamente e descobriu que sua

memória estava enganada: pois esta Dama Hannah era muito mais

inteligente e interessante, e de longe muitíssimo mais gentil que a

pessoa apagada e de roupas antiquadas de que se lembrava.

Uma enorme variedade de coisas havia acontecido enquanto

Lyra estivera fora — na Faculdade Jordan, na Inglaterra e no

mundo inteiro. Parecia que o poder da Igreja havia aumentado

enormemente e que muitas leis brutais tinham sido aprovadas, mas

que esse poder havia desaparecido tão rapidamente quanto tinha

crescido: rebeliões no Magisterium tinham derrubado os fanáticos e

trazido ao poder facções mais liberais. O Conselho Geral de

Oblação havia sido dissolvido; o Tribunal Consistorial de

Disciplina estava confuso e sem liderança.

E as faculdades de Oxford, depois de um breve e turbulento

interlúdio, estavam voltando a se acomodar na calma dos estudos e

de seus rituais. Algumas coisas haviam desaparecido, a valiosa coleção

de prataria do Reitor tinha sido saqueada; alguns criados da

faculdade tinham sumido. O criado do Reitor, Cousins, contudo,

ainda estava em seu posto e Lyra estivera pronta para enfrentar sua

hostilidade com desafio, pois tinham sido inimigos desde que

conseguia se lembrar. Ficou um bocado surpreendida quando ele a

recebeu tão calorosamente e apertou a mão dela com as duas mãos:

será que aquilo era afeição na voz dele? Bem, ele tinha mudado.

Durante o jantar, o Reitor e a Dama Hannah conversaram

sobre o que havia acontecido no período em que Lyra estivera ausente

e ela ouviu ora com aflição, ora com tristeza, ora com

encantamento. Quando se retiraram para a sala de visitas do Reitor

para o café, ele disse:

— Bem, Lyra, mal ouvimos você falar. Mas eu sei que viu

muitas coisas. Será que poderia nos contar um pouco das

aventuras que viveu?

— Posso — respondeu ela. — Mas não tudo de uma vez.

Ainda não compreendo parte delas e outras ainda me fazem tremer

e chorar, mas contarei aos senhores, prometo, tudo o que puder.

Só que os senhores também têm que me prometer uma coisa.

O Reitor olhou para a senhora de cabelos grisalhos, com o

daemon sagüi no colo, e trocaram um olhar iluminado por uma centelha de divertimento.

— E o que temos que prometer? — perguntou a Dama

Hannah.

— Têm que me prometer acreditar em mim — disse Lyra,

muito seriamente. — Eu sei que nem sempre contava a verdade e

que só conseguia sobreviver em alguns lugares contando mentiras e inventando histórias. De modo que sei que era assim que eu era, e sei

que sabem disso, mas minha história verdadeira é importante demais

para mim se só forem acreditar em metade dela. De modo que

prometo contar a verdade, se prometerem acreditar nela.

— Está bem, eu prometo — declarou a Dama Hannah.

E o Reitor disse em seguida:

— E eu também.

— Mas sabem qual é a coisa que desejo — disse Lyra —

quase... quase mais que qualquer outra? Gostaria tanto de não ter perdido a capacidade de ler o aletômetro. Ah, foi tão estranho, Reitor,

como surgiu logo de início e como simplesmente se foi! Um dia eu o

conhecia tão bem... conseguia percorrer de alto a baixo os significados

dos símbolos, passar de um nível para outro e fazer todas as conexões. .

. era como. .. — Ela sorriu e continuou: — Bem, eu era como um

macaco pulando de galho em galho nas árvores, eu era tão rápida.

Então, de repente... nada. Nada daquilo fazia sentido; não conseguia

nem me lembrar de nada, exceto os significados básicos, como, por

exemplo, que a âncora significa esperança e que a caveira significa

morte. Todos aqueles milhares de significados... Perdidos.

— Porém, não estão perdidos, Lyra — disse a Dama Hannah.

— Os livros ainda estão na Biblioteca Bodley. A cátedra que se dedica

a estudá-los continua existindo e vai muito bem obrigado.

A Dama Hannah estava sentada defronte ao Reitor, numa

das duas poltronas ladeando a lareira, e Lyra estava no sofá

entre eles.

A lamparina ao lado da poltrona do Reitor era a única luz que

havia, mas mostrava claramente as expressões dos dois velhos

mestres. E foi o rosto da Dama Hannah que Lyra se descobriu

estudando. Gentil, pensou Lyra, e de uma inteligência aguçada,

sábia; mas era tão incapaz de ler o que significava quanto era

incapaz de ler o aletômetro.

— Pois então, muito bem — prosseguiu o Reitor. — Temos

que pensar a respeito de seu futuro, Lyra.

As palavras dele fizeram Lyra tremer. Ela se preparou e sentou-

se bem ereta.

— Todo o tempo em que estive fora — disse Lyra —,

nunca pensei a respeito disso. Tudo em que eu pensava era o

momento que estava vivendo, só o presente. Houve muitas

ocasiões em que pensei que não teria nenhum futuro. E agora. . .

Bem, de repente descobrir que tenho uma vida inteira para viver,

mas nenhuma. . . mas sem nenhuma idéia do que fazer com ela,

bem, é como ter o aletômetro e não ter idéia de como lê-lo.

Imagino que terei que trabalhar, mas não sei em quê. Meu pais

provavelmente eram ricos, mas aposto que nunca pensaram em deixar algum dinheiro para mim e, de qualquer

maneira, acho que a esta altura devem ter gasto todo o dinheiro

que tinham de alguma forma, de modo que mesmo se eu tivesse

algum direito sobre a fortuna deles, não haveria mais nada. Não

sei, Reitor. Eu voltei para a Jordan porque isso aqui costumava ser

minha casa e não tenho nenhum outro lugar para ir. Acho que o

Rei Iorek Byrnison me deixaria viver em Svalbard e creio que

Serafina Pekkala me deixaria viver com seu clã de bruxas; mas não

sou urso e não sou bruxa, de modo que não me adaptaria muito

bem lá, por mais que os ame. Talvez os gípcios me aceitem. . .

Mas realmente não sei mais o que fazer, estou perdida, realmente

perdida, agora.

Os dois olharam para ela: seus olhos estavam brilhando mais

do que habitualmente, o queixo levantado, com uma expressão que

havia aprendido com Will, sem se dar conta. Parecia tão

desafiadora quanto perdida, pensou a Dama Hannah, e admirou-a

por isso; e o Reitor viu algo mais — ele viu como a graça inconsciente da criança havia desaparecido e como estava

desajeitada em seu corpo mais crescido. Mas ele amava

imensamente aquela menina e se sentia metade orgulhoso, metade

maravilhado com a bela mulher adulta que ela seria, tão

brevemente.

— Você nunca estará perdida enquanto esta faculdade

existir, Lyra — disse ele. — Esta é sua casa enquanto precisar dela.

E, quanto à questão do dinheiro, seu pai deixou um legado para

cuidar de tudo que você possa vir a precisar e me nomeou

testamenteiro; de modo que não precisa se preocupar com isso.

Na verdade, Lorde Asriel não tinha feito nada disso, mas a

Faculdade Jordan era rica e o Reitor tinha fortuna pessoal, mesmo

depois das revoltas recentes.

— Não — prosseguiu ele —, eu estava pensando em

estudos. Você ainda é muito jovem e sua educação até agora

dependeu de. . . Bem, falando muito francamente, dependia de qual

de nossos catedráticos se sentia menos intimidado por você —

afirmou, mas estava sorrindo. — Tem sido casual, desordenada.

Agora, pode ser que com o passar do tempo seus talentos a levem

numa direção que não possamos absolutamente prever. Mas se

quisesse fazer do aletômetro o tema de estudos de sua vida, e se

dedicasse a aprender conscientemente o que antes fazia por intuição

—

— Sim — disse Lyra, com determinação e confiança.

— . . . então seria difícil fazer melhor escolha que se entregar

aos cuidados de minha boa amiga, a Dama Hannah. Os

conhecimentos que ela tem nesse campo não têm rival.

— Permita-me fazer uma sugestão — disse a senhora —, e

não precisa responder agora. Pense no assunto durante algum tempo.

Muito bem: minha faculdade não é tão antiga quanto a Jordan e de

qualquer maneira você ainda é muito moça para se tornar uma

estudante universitária; mas, alguns anos atrás, compramos uma

casa bastante grande na zona norte de Oxford e decidimos criar ali

um internato. Eu gostaria que você fosse até lá comigo, conhecesse a

diretora e visse se gostaria de se tornar uma de nossas alunas. Sabe,

Lyra, uma coisa de que vai precisar brevemente é ter a amizade de

outras meninas de sua idade. Existem coisas que aprendemos umas

com as outras quando somos jovens e não creio que a Jordan possa

lhe oferecer todas elas. A diretora é uma mulher jovem, inteligente,

enérgica, uma pessoa criativa e gentil. Temos muita sorte de tê-la

conosco. Você poderá conversar com ela e, se gostar da idéia, ir para

lá e fazer da St. Sophia a sua escola, como a Jordan é a sua casa. E se

quiser começar a estudar o aletômetro de maneira sistemática, você e

eu poderíamos nos encontrar para algumas aulas particulares. Mas

você tem tempo, minha querida, temos tempo de sobra. Não

responda agora. Deixe para responder quando estiver pronta.

— Muito obrigada — disse Lyra —, muito obrigada, vou fazer

isso.

O Reitor tinha dado a Lyra uma chave só para ela da porta

do jardim, de modo que pudesse entrar e sair quando quisesse. Mais

tarde, naquela noite, justo quando o porteiro estava trancando a

casa de guarda, ela e Pantalaimon saíram às escondidas e seguiram

pelas ruas escuras, ouvindo todos os sinos de Oxford repicando o

toque de meia-noite.

Depois que entraram no Jardim Botânico, Pan saiu correndo

pelo gramado, caçando um camundongo, na direção onde ficava o

muro, depois o deixou escapar e saltou para o grande pinheiro que

ficava ali perto. Era uma delícia vê-lo saltando pelos galhos tão

longe dela, mas tinham que ter cuidado para não fazer aquilo quando

alguém estivesse olhando; a capacidade mágica que haviam

adquirido, como as bruxas, às custas de tanto sofrimento, de se

separarem tinha que ser mantida em segredo. Em qutros tempos, ela

teria adorado exibi-la cheia de orgulho para todos os outros moleques

seus amigos e deixá-los de olhos esbuga-lhados de medo, mas Will

tinha lhe ensinado o valor do silêncio e da discrição.

Lyra sentou no banco e esperou que Pan viesse para junto

dela. Ele gostava de surpreendê-la, mas geralmente ela conseguia vê-

lo antes que a alcançasse, e lá estava sua forma indistinta, movendo-

se fluidamente junto da margem do rio. Ela olhou para o outro

lado e fingiu que não o tinha visto, então o agarrou de repente,

quando saltou para o banco.

— Quase consegui — disse ele.

— Vai ter que ficar muito melhor do que isso. Ouvi você se

aproximando ao longo de todo o caminho, desde o portão.

Ele sentou no encosto do banco com as patas da frente

descansando sobre o ombro de Lyra.

— O que vamos dizer a ela? — perguntou.

— Bem, vamos dizer que sim — respondeu. — De

qualquer maneira, só vamos conhecer essa diretora. Isso não quer

dizer ir para a escola.

— Mas nós vamos acabar indo, não é?

— Vamos — concordou —, provavelmente.

— Poderia ser bom.

Lyra se perguntou como seriam as outras alunas. Poderiam ser

mais inteligentes que ela, ou mais sofisticadas, e certamente saberiam

muito mais do que ela sobre todas as coisas que eram importantes

para garotas de sua idade. E ela não poderia contar-lhes nem um

centésimo das coisas que sabia. Sem dúvida pensariam que era

ingênua e ignorante.

— Você acha que a Dama Hannah realmente sabe ler o

aletômetro? — perguntou Pantalaimon.

— Com os livros, tenho certeza que sim. Quantos livros será

que existem? Eu gostaria de saber. Aposto que podemos estudar e

aprender todos eles, depois não precisar mais usá-los. Imagine ter

que carregar uma pilha de livros para tudo quanto é canto. . . Pan?

— O quê?

— Você algum dia vai me contar o que você e o daemon de

Will fizeram, quando estávamos separados?

— Um dia — disse ele. — E ela vai contar a Will, um

dia. Concordamos que saberíamos quando chegasse a hora, mas

fizemos um acordo de que não contaríamos a nenhum dos dois

até esse momento chegar.

— Está bem — respondeu ela tranqüilamente.

Lyra tinha contado tudo a Pantalaimon, mas ele tinha o

direito de não revelar seus segredos a ela, depois da maneira como o

havia abandonado.

E era confortador pensar que ela e Will tinham mais uma coisa

em comum. Ela se perguntou se algum dia jamais chegaria uma

hora em sua vida em que não pensasse nele; em que não conversasse

com ele em sua imaginação, em que não revivesse cada momento que

tinham passado juntos, em que não desejaria ouvir sua voz, sentir

suas mãos e seu amor. Ela jamais havia sonhado como seria amar

tanto alguém; de todas as coisas que lhe haviam causado espanto em

suas aventuras, essa era a que mais a espantava. Pensou na terna

sensibilidade que deixava em seu coração que era como um

machucado, uma dor que nunca iria embora, mas que ela manteria viva na memória com carinho para sempre.

Pan desceu rápido para o banco e se aninhou em seu colo.

Estavam seguros ali no escuro, ela, seu daemon e seus segredos. Em algum lugar naquela cidade adormecida estavam os livros que lhe

diriam como ler o aletômetro de novo e a mulher de grande

conhecimento que iria lhe ensinar a fazer isso, e as garotas na

escola, que sabiam tão mais do que ela.

Lyra pensou: elas não sabem ainda, mas vão ser minhas

amigas.

— Aquele negócio que Will disse... — murmurou

Pantalaimon.

— Quando?

— Na praia, pouco antes de você tentar usar o aletômetro.

Ele disse que não havia nenhum outro lugar. Foi o que o pai dele

disse a você. Mas havia mais alguma coisa.

— Eu me lembro. Ele queria dizer que o reino estava acabado,

o reino do céu, que estava tudo acabado. Que não deveríamos viver

como se o céu fosse mais importante do que esta vida, aqui neste

mundo, porque o lugar onde estamos é sempre o lugar mais

importante.

— Ele disse que tínhamos que construir alguma coisa. . .

— Era por isso que precisávamos viver todo o tempo de vida

que nos foi destinado, Pan. Nós teríamos ido com Will e Kirjava, não teríamos?

— Teríamos. É claro! E eles teriam vindo conosco. Mas —

— Mas então não poderíamos construí-lo. Ninguém poderia,

se permitisse a si mesmo vir em primeiro lugar. Temos que ser todas

essas coisas difíceis como ser alegres, e gentis, e curiosos, e

corajosos, e pacientes, e temos que estudar e pensar, e trabalhar com

afinco, todos nós, em todos os nossos mundos diferentes, e então

construiremos. . .

As mãos dela estavam descansando sobre o pêlo lustroso de

Pan. Em algum lugar no jardim um rouxinol estava cantando e uma

brisa ligeira tocou os cabelos dela e agitou as folhas acima. Todos os

diferentes sinos da cidade repicaram, uma vez cada um, esse alto,

aquele baixo, alguns perto, outros mais distantes, um estridente e

mal-humorado, outro grave e melodioso, mas concordando em todas

as suas vozes diferentes sobre que horas eram, mesmo se alguns

deles fizeram isso um pouco mais devagar do que outros. Naquela

outra Oxford onde ela e Will tinham se beijado, se despedido, os

sinos também estariam tocando, e um rouxinol estaria cantando, e

uma brisa ligeira estaria agitando as folhas no Jardim Botânico.

— E então o quê? — perguntou o daemon, sonolento. —

Construir o quê?

— A república do céu — respondeu Lyra.

Agradecimentos

 

A trilogia Fronteiras do Universo não poderia ter sido criada sem a ajuda e o estímulo de amigos, família, livros e desconhecidos. Devo às seguintes pessoas agradecimentos especiais: Liz Cross, por seu

trabalho meticuloso e incansavelmente feliz de edição em todos os estágios do trabalho, e por um certo tato brilhante com relação às ilustrações de A Faca Sutil, Anne Wallace-Hadrill, por ter-me deixado visitá-la em sua barcaça e casa flutuante; Richard Osgood, do Instituto

Arqueológico da Universidade de Oxford, por ter-me contado como são organizadas expedições arqueológicas; Michael Malleson, da Trem Studio Forge, em Dorset, por me mostrar como se forja ferro; e Mike

Froggatt e Tanaqui Weaver, por terem me trazido mais papel do tipo certo (aquele com dois buracos) quando meu estoque estava acabando. Também devo elogiar o café do Museu de Arte Moderna de Oxford. Sempre que eu estava enfrentando dificuldades na narrativa, uma xícara do café que eles servem e uma hora de trabalho naquele ambiente amistoso resolvia o problema, aparentemente sem nenhum esforço de minha parte. Nunca falhou.

Eu roubei idéias de todos os livros que li em minha vida. Minha

regra geral quando estou na fase de pesquisa para escrever um livro é:

"Leia como uma borboleta, escreva como uma abelha", e se esta história

contiver algum mel, é inteiramente por causa da qualidade do néc-tar

que encontrei na obra de escritores melhores que eu. Mas há três obras com relação às quais — mais do que todas as outras —, devo reconhecer, tenho uma dívida de gratidão. Uma é o ensaio Sobre o Teatro de Marionetes (On the Marionette Theatre), de autoria de Heinrich von Kleist, que li pela primeira vez numa tradução de Idris Parry, no Suplemento Literário do Times, em 1978. A segunda é Paraíso Perdido de John Milton. A terceira são as obras de William Blake.

Finalmente, meus agradecimentos às pessoas a quem mais devo.

A David Fickling e sua fé inesgotável e encorajamento, bem como a seu

instinto certeiro e vivido de como se pode fazer com que histórias funcionem melhor, devo muito de qualquer sucesso que esta obra tenha

alcançado; a Caradoc King devo todos esses anos, mais de metade de

minha vida, de uma amizade e apoio inabaláveis; a Enid Jones, a professora que, já faz tanto tempo, me apresentou ao Paraíso Perdido, devo aquilo que de melhor uma educação pode dar: a noção de que responsabilidade e prazer podem coexistir; à minha mulher, Jude, e a

meus filhos, Jamie e Tom, devo tudo o mais que existe na Terra.

 

Philip Pullman

Você terminou A Luneta Âmbar

Philip Pullman

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