A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 35 de 39

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A Luneta Âmbar

34. Agora Existe

AGORA EXISTE

 

 

MOSTRO A TODOS VÓS O MUNDO PLENO DE VIDA, ONDE TODA

PARTÍCULA DE PÓ EXALA O ALENTO DE SUA ALEGRIA

 

WILLIAM BLAKE

 

,

Mary não conseguia dormir. Cada vez que fechava os olhos,

alguma coisa a fazia oscilar e parar com um tranco, como se

estivesse à beira de um precipício, e despertava sobressaltada, tensa

de medo.

Isso aconteceu três, quatro, cinco vezes, até que ela se deu

conta de que o sono não viria; de modo que se levantou e se vestiu

silenciosamente, saiu da casa e se afastou da árvore com seus

galhos em forma de tenda, debaixo dos quais Will e Lyra dormiam.

A lua estava alta e clara no céu. Havia um vento vigoroso e a

paisagem grandiosa estava sarapintada de sombras de nuvens se

movendo, Mary pensou, como se fosse a migração de algum

rebanho de bichos inimagináveis. Mas os animais migravam por um

motivo; quando se viam os rebanhos de renas em movimento,

atravessando a tundra, ou animais selvagens cruzando a savana, se

sabia que estavam indo para onde estava a comida, ou para lugares

onde era bom se acasalar e ter as crias. O movimento deles tinha um

significado. Aquelas nuvens estavam se movendo em resultado de

simples casualidade, em virtude do efeito de eventos inteiramente

aleatórios no nível dos átomos e das moléculas; suas sombras

passando rápidas sobre a pradaria não tinham absolutamente

nenhum significado.

A despeito disso, pareciam ter. Elas pareciam tensas e

movidas pelo impulso de um propósito. A noite inteira parecia ter.

Mary também o sentia, só que não sabia qual era aquele propósito.

Mas, ao contrário dela, as nuvens pareciam saber o que estavam fazendo e por que, e o vento sabia, e a relva sabia. O mundo inteiro

estava vivo e consciente.

Mary subiu a encosta e olhou para trás, para a extensão do

pântano, onde a maré montante tecia uma renda prateada cintilante

sobre os baixos escuros, reluzentes de lama, e os juncos no leito do

rio. As sombras das nuvens ficavam muito nítidas ali: pareciam

estar fugindo de alguma coisa terrível que vinha atrás delas, ou

correndo para abraçar alguma coisa maravilhosa que havia adiante.

Mas o que era, Mary nunca saberia.

Ela se virou em direção ao bosque onde ficava a árvore que

escalava para suas observações. Ficava a 20 minutos de caminhada;

podia vê-la claramente, enorme lá no alto, sacudindo a cabeça num

diálogo urgente com o vento. Eles tinham coisas a dizer e ela não

conseguia ouvir.

Seguiu rapidamente em direção à árvore, movida pela agitação

da noite e desesperada para fazer parte dela. Aquilo era exatamente a

sensação de que falara a Will, quando ele havia perguntado se ela

sentia falta de Deus: era a sensação de que o universo inteiro estava

vivo e que tudo estava ligado e conectado a tudo o mais por fios de

significado. Enquanto fora cristã, também tinha se sentido

conectada; mas, depois que havia deixado a Igreja, tinha se sentido

livre, leve e solta, num universo sem propósito definido.

E então viera a descoberta das Sombras e sua jornada para um

outro mundo e, agora, havia aquela noite cheia de vida, em que era

evidente que tudo estava pulsando cheio de propósito e de

significado, mas que Mary estava excluída desse contato. E era

impossível encontrar um meio de se conectar, pois não existia Deus.

Em parte movida pela exultação e em parte pelo desespero,

resolveu subir em sua árvore e tentar mais uma vez se deixar levar

pelo Pó.

Mas, não havia percorrido nem a metade do caminho até o

arvoredo, quando ouviu um som diferente em meio ao chicotear das

folhas e ao vento fluindo através da relva. Alguma coisa gemendo, uma

nota grave, sombria como um órgão. E acima disso o som de estalidos —

de coisas estalando e quebrando, e o guinchado e o grito estridente de

madeira sobre madeira.

Certamente não podia ser a sua árvore? Ela parou onde estava, na pradaria aberta e, com o vento

açoitando seu rosto e as sombras de nuvens passando rápidas acima,

as folhas altas de relva chicoteando suas coxas, observou o dossel do

arvoredo. Os ramos gemiam, galhos se quebravam, grandes traves de

madeira verde se partiam como se fossem gravetos secos e

despencavam a longa distância lá do alto até o solo, e então a parte

superior da copa daquela árvore que ela conhecia tão bem se

inclinou, se inclinou e, lentamente, começou a desabar.

Cada fibra no tronco, a casca, as raízes pareciam estar gritando

separadamente contra aquele assassinato. Mas ela foi caindo e

caindo, todo o seu grandioso comprimento despencando e abrindo

caminho para fora do arvoredo e pareceu se inclinar na direção de

Mary, antes de tombar com estrépito no chão, como uma onda

contra um quebra-mar e o tronco colossal quicou um pouco e

finalmente pareceu se acomodar com um gemido de madeira

partida.

Ela correu até lá para tocar as folhas que se sacudiam. Lá

estava sua corda, lá estavam os destroços de sua plataforma. Com o

coração batendo descontrolado, dolorosamente, ela subiu na árvore,

em meio aos galhos caídos, se alçando e se segurando nos ramos tão

conhecidos e familiares, em seus novos ângulos desconhecidos, e se

equilibrou no ponto mais alto que conseguiu alcançar.

Mary apoiou-se contra um galho e pegou a luneta. Através

dela viu dois movimentos bastante diferentes no céu.

Um era o das nuvens passando ligeiras sobre a lua numa

determinada direção e o outro era o do fluxo da corrente de Pó

parecendo cruzá-las, numa direção muito diferente.

E, dentre os dois movimentos, o do Pó estava fluindo mais

rapidamente e em volume muito maior. De fato, o céu inteiro

parecia estar fluindo, impregnado de Pó. Uma grandiosa e

inexorável torrente jorrando para fora do mundo, para fora de

todos os mundos, para algum vazio definitivo.

Lentamente, como se estivessem se movendo em sua mente,

as coisas se juntaram.

Will e Lyra tinham dito que a faca sutil tinha pelo menos

300 anos de idade. Fora isso que o velho na torre dissera a eles.

Os mulefas tinham contado a ela que o sraf, que havia

nutrido suas vidas e seu mundo durante 33 milhares de anos, tinha

começado a diminuir exatamente há 300 anos.

De acordo com Will, a Guilda da Torre degli Angeli, os donos

da faca sutil, tinha sido descuidada; nem sempre eles haviam fechado

as janelas que abriam. Tanto que, afinal, Mary tinha encontrado

uma, e deveria haver muitas outras.

Suponha-se que durante todo esse tempo, pouco a pouco, o

Pó estivesse vazando, escorrendo pelos cortes que a faca sutil tinha

feito na natureza. . .

Ela se sentiu atordoada e não era apenas o balançar e o subir e

descer dos galhos entre os quais estava apoiada. Guardou a luneta

cuidadosamente no bolso e enganchou os braços sobre o galho da

frente, contemplando o céu, a lua, as nuvens ligeiras.

A faca sutil era responsável pelo vazamento em pequena escala,

de baixa intensidade. Era nocivo e o universo estava sofrendo por

causa disso; ela precisava conversar com Will e Lyra e descobrir

uma maneira de fazê-lo parar.

Mas a vasta enchente no céu era uma questão inteiramente

diferente. Aquilo era novo e era catastrófico. E, se não fosse detida,

toda a vida consciente chegaria ao fim. Como os mulefas tinham

mostrado a ela, o Pó começava a existir quando as próprias coisas

vivas se tornavam conscientes de si mesmas; mas ele precisava de

algum sistema de alimentação para reforçá-lo e torná-lo seguro,

como os mulefas tinham suas rodas e o óleo das árvores. Sem

alguma coisa desse tipo, tudo desapareceria. Pensamento,

imaginação, sentimento, tudo murcharia e seria dispersado pela

corrente, sem deixar nada para trás, exceto um automatismo

animalesco; e aquele breve período em que a vida fora consciente

de si mesma se apagaria como uma vela em todos os bilhões de

mundos onde havia ardido tão claramente.

Mary sentiu intensamente o peso de tudo aquilo. Parecia o

peso da idade. Sentia-se como se estivesse com 80 anos, velha, gasta,

exausta e ansiando pela morte.

Ela desceu pesadamente dos galhos da grande árvore caída e,

com o vento ainda soprando forte nas folhas, na relva e em seus

cabelos, tomou o caminho de volta para o povoado.

No alto da encosta, olhou pela última vez para a correnteza de

Pó, com as nuvens correndo e o vento que soprava na direção oposta

e a lua parada, firme, bem no meio.

E então, finalmente, ela viu o que estavam fazendo: viu qual

era aquele grande e urgente propósito.

Eles estavam tentando conter a torrente de Pó. Estavam

lutando para levantar algumas barreiras contra a terrível correnteza:

vento, lua, nuvens, folhas, relva, todas aquelas coisas adoráveis

estavam gritando por ajuda e se lançando na luta para manter as

partículas de Sombra naquele universo, que elas enriqueciam tanto.

A matéria amava o Pó. Não queria vê-lo ir embora. Este era o

significado daquela noite e era o significado de Mary também.

Não tinha ela pensado que não havia significado na vida,

nenhum propósito, quando Deus se fora? Sim, tinha pensado isso.

— Bem, agora existe — disse em voz alta, depois, de novo,

ainda mais alto: — Agora existe!

Quando tornou a olhar para as nuvens e a lua no fluxo de Pó,

pareceram-lhe frágeis e condenadas ao fracasso, como uma represa de

pequenos galhos e minúsculos seixos tentando represar o Mississípi.

Mas, mesmo assim, estavam tentando. Continuariam tentando até o

fim de tudo.

 

Mary não tinha idéia de quanto tempo havia estado fora.

Quando a intensidade de seus sentimentos começou a amainar e a

exaustão a substituiu, foi se encaminhando devagar para o povoado,

descendo a colina.

E, quando estava a meio caminho da descida, perto de uma

moita de pés de trigo sarraceno, viu uma coisa estranha nos baixios

de lama. Havia um brilho branco, um movimento constante: alguma

coisa estava subindo com a maré.

Ela ficou imóvel, observando atentamente. Não podiam ser os

tualapi, porque eles sempre andavam em bandos e aquele estava

sozinho; mas tudo em sua forma era igual — as asas que pareciam

velas, o pescoço longo —; era um dos pássaros, não havia dúvida

quanto a isso. Nunca tinha ouvido falar deles aparecendo sozinhos e

hesitou, antes de correr para alertar o povoado, porque, de

qualquer maneira, a coisa tinha parado. Estava flutuando na água

perto da trilha.

E estava se dividindo... Não, alguma coisa estava saltando de

seu dorso.

A coisa era um homem.

Ela podia vê-lo bastante claramente, mesmo àquela distância;

a luz do luar estava forte, clara, e seus olhos tinham se habituado a

ela. Olhou através da luneta e excluiu qualquer dúvida que ainda

restasse: era o vulto de um ser humano, irradiando Pó.

Ele estava carregando alguma coisa: algum tipo de vara

comprida. Veio andando pela trilha com rapidez e facilidade,

sem correr, mas movendo-se com a agilidade de um atleta ou de

um caçador. Vestia roupas escuras, simples, que normalmente o

teriam escondido bem; mas, através da luneta, ele aparecia como se

estivesse sob um foco de luz.

E à medida que se aproximava do povoado, ela se deu conta

do que era a vara. Ele estava carregando um rifle.

Mary sentiu como se alguém tivesse derramado um balde de

água gelada sobre seu coração. Todos os pêlos em sua pele ficaram

em pé.

Estava longe demais para fazer alguma coisa: mesmo se

gritasse, ele não ouviria. Teve que observar enquanto ele entrava no

povoado, olhando para a esquerda e para a direita, parando de vez

em quando para ouvir, indo de casa em casa.

A mente de Mary parecia a lua e as nuvens tentando conter o

Pó, enquanto gritava silenciosamente: Não olhe debaixo da árvore — afaste-se da árvore —

Mas ele foi chegando mais perto, cada vez mais perto da

árvore, finalmente, parando do lado de fora da casa de Mary. Ela

não conseguiu mais suportar aquilo; enfiou a luneta no bolso e

começou a correr, descendo a encosta. Estava prestes a gritar,

qualquer coisa, um grito descontrolado, mas, bem a tempo, deu-se

conta de que poderia acordar Will ou Lyra e fazer com que se

mostrassem.

Então, como não podia suportar não saber o que o homem

estava fazendo, parou e tornou a pegar a luneta, e teve que se

manter imóvel, enquanto olhava através dela.

Ele estava abrindo a porta de sua casa. Ia entrar na casa. Ele

desapareceu de vista, embora houvesse um movimento na esteira de

Pó que deixou para trás, como fumaça quando se passa a mão através

dela. Mary esperou por um minuto interminável e então ele tornou a

aparecer.

Ficou parado no vão da porta, olhando em volta lentamente,

da esquerda para a direita, e seu olhar passou pela árvore e seguiu

adiante.

Então ele saiu do vão da porta e ficou parado, imóvel, quase

como se não soubesse o que fazer. De repente, Mary teve

consciência de como estava exposta na encosta nua da colina, um

alvo fácil para um tiro de rifle, mas ele só estava interessado no

povoado; e depois que se passou mais um minuto, fez meia-volta e

foi se afastando, andando silenciosamente.

Ela observou cada passo que ele deu descendo pela trilha ao

longo da margem do rio e viu, muito claramente, como ele montou

nas costas do pássaro e se sentou de pernas cruzadas, enquanto o

pássaro se virava para sair deslizando sobre a água. Cinco minutos

depois tinham desaparecido de vista.