A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 2 de 39

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A Luneta Âmbar

1. A Adormecida Enfeitiçada

A ADORMECIDA

 

ENFEITIÇADA

 

... ENQUANTO FERAS ATRÁS DE PRESAS SAÍDAS DE COVIS

NAS PROFUNDEZAS ESPREITAVAM A DONZELA ADORMECIDA...

WILLIAM BLAKE

 

Em um vale sombreado por rododentros, próximo da linha de

neve, onde um riacho de águas leitosas de neve derretida passava

ligeiro espumando, onde pombos e milheiros voavam entre os

imensos pinheiros, havia uma caverna, que ficava semi-escondida

pelo rochedo acima e pelas folhas secas e pesadas que se acumulavam

abaixo. A floresta era repleta de sons: das águas do riacho correndo

entre as pedras, do vento entre as folhas alongadas dos galhos de

pinheiros, do zumbido dos insetos e de guinchos de pequenos

mamíferos arbóreos, bem como do cantar de passarinhos; e, de

tempos em tempos, uma lufada mais forte de vento fazia com que um

dos galhos de um cedro ou de um abeto roçasse contra um outro e

gemesse como um violoncelo.

Era um lugar claro e ensolarado, nunca monótono; raios de

claridade, dourado-limão, penetravam até o solo da floresta entre retângulos e círculos de sombra verde-acastanhados, e a luz estava sempre em movimento, nunca era constante, porque a névoa que passava com freqüência flutuava em meio às copas das árvores, filtrando todos os raios de sol até adquirirem um brilho perolado e salpicando cada cone de pinheiro com gotículas de umidade que cintilavam quando a névoa se desfazia. Por vezes a umidade nas nuvens se condensava formando minúsculas gotas, metade neblina, metade chuva, que desciam flutuando em vez de cair, fazendo um ruído

suave como um tamborilar farfalhante entre os milhares de folhas aciculadas dos pinheiros.

Havia um caminho estreito passando junto do riacho, que levava

de uma aldeia — pouco mais que um aglomerado de choupanas de pastores —, na entrada do vale, até um relicário, semi-arruinado, próximo da geleira lá no fundo, um lugar onde bandeirolas de seda esvoaçavam sob os ventos perpétuos das altas montanhas e oferendas de

bolos de cevada e chá seco eram colocadas pelos fiéis aldeões. Um estranho efeito da luz, do gelo e do vapor fazia com que a parte mais

alta do vale ficasse envolta em eternos arco-íris.

A caverna ficava a alguma distância acima do caminho. Muitos

anos antes, um homem religioso morara ali, meditando, jejuando e

orando, e o local ainda era venerado em sua memória. Tinha 30 metros de profundidade, mais ou menos, com o solo bem seco: um

abrigo ideal para um urso ou para um lobo, mas os únicos seres morando nela durante anos haviam sido pássaros e morcegos.

Mas o vulto que estava se agachando logo após a entrada, os olhos

negros atentos vigiando um lado e depois o outro, as orelhas pontudas

levantadas, não era pássaro nem morcego. A luz do sol descia pesada e

forte sobre seu lustroso pêlo dourado e as mãozinhas de macaco

reviravam uma pinha para lá e para cá, com os dedos fortes, partindo a

casca em lascas e raspando as nozes doces.

Atrás dele, pouco além do ponto que a luz do sol alcançava, a Sra.

Coulter estava aquecendo água numa panelinha sobre um fogareiro à

nafta. Seu daemon emitiu um murmúrio de advertência e a Sra. Coulter

levantou a cabeça.

Vindo pelo caminho da floresta havia uma menina da aldeia.

A Sra. Coulter sabia quem ela era: Ama vinha lhe trazendo comida

já há alguns dias. Logo ao chegar, a Sra. Coulter fizera circular a

notícia de que era uma mulher religiosa, dedicada a meditações e

preces, que fizera um voto de jamais falar com um homem. Ama era

a única pessoa cujas visitas aceitava receber.

Dessa vez, contudo, a menina não estava sozinha. Seu pai estava

com ela e enquanto Ama subia até a caverna, ele esperou, mantendo

alguma distância.

Ama chegou à entrada da caverna e fez uma mesura.

— Meu pai me pediu que viesse trazendo preces para sua boa

vontade — disse.

— Bons olhos a vejam, criança — disse a Sra. Coulter.

A menina trazia uma trouxa embrulhada em algodão desbotado,

que colocou aos pés da Sra. Coulter. Então estendeu um raminho de

flores, cerca de uma dúzia de anêmonas amarradas com um fio de

algodão, e começou a falar rápida e nervosamente. A Sra. Coulter

compreendia um pouco da língua daquela gente da montanha, mas

nunca permitiria que percebessem o quanto. De modo que sorriu e fez um

gesto para que a menina se calasse e para que observassem seus daemons.

O macaco dourado estava estendendo a mãozinha negra e o daemon

borboleta de Ama esvoaçava, chegando cada vez mais perto, até pousar no

caloso dedo indicador.

O macaco o aproximou lentamente de sua orelha e a Sra. Coulter

sentiu uma corrente de compreensão fluir para sua mente,

esclarecendo as palavras da menina. Os aldeões estavam felizes que

uma santa mulher religiosa como ela estivesse abrigada na caverna,

mas havia rumores de que também tinha uma acompanhante, uma

mulher como ela, que de alguma forma era perigosa e muito

poderosa.

Isso era o que estava deixando os aldeões assustados. Seria aquele

outro ser mestra da Sra. Coulter ou sua criada? Teria a intenção de

fazer mal? Por que estava ali, para começar? Pretendia ficar muito

tempo? Ama transmitiu essas perguntas com infindáveis apreensões.

Uma resposta totalmente nova ocorreu à Sra. Coulter, à medida

que a compreensão do daemon foi penetrando em sua mente. Ela podia contar a verdade. Não toda, naturalmente, mas parte. Estremeceu ao conter a vontade de rir diante da idéia, mas manteve

isso longe de sua voz quando explicou:

— Sim, há uma outra pessoa comigo. Mas não há nada a temer.

É minha filha e ela foi vítima de um feitiço que fez com que

adormecesse. Viemos aqui para nos esconder do feiticeiro que laçou este

feitiço, enquanto eu tento curá-la e impedir que qualquer mal lhe

ocorra. Venha ver, se quiser.

Ama ficou parcialmente tranqüilizada pela voz suave da Sra.

Coulter, mas ainda estava com medo; e toda aquela conversa sobre

feiticeiros e feitiços aumentava seus temores. Mas o macaco dourado

estava segurando seu daemon com tamanha gentileza e, além disso, estava tão curiosa, que seguiu a Sra. Coulter até o interior da caverna.

O pai de Ama, que esperava mais abaixo no caminho, deu um

passo adiante e seu daemon corvo levantou as asas uma ou duas vezes, mas ficou onde estava.

A Sra. Coulter acendeu uma vela, porque a luz estava indo

embora rapidamente, e conduziu Ama até o fundo da caverna. Os

olhos da garotinha faiscavam, arregalados, na semi-obscuridade e suas

mãos se moviam, fazendo um gesto repetitivo de esfregar o dedo no

polegar, o dedo no polegar, para afastar o perigo confundindo os maus

espíritos.

— Está vendo? — perguntou a Sra. Coulter. — Ela não pode

fazer mal a ninguém. Não há motivo para ter medo.

Ama olhou para a pessoa no saco de dormir. Era uma menina,

mais velha que ela, talvez três ou quatro anos; e tinha cabelos de uma

cor que Ama nunca vira antes — de um tom fulvo, amarelo-tostado

como o pêlo de um leão. Seus lábios estavam bem fechados, comprimidos, e estava profundamente adormecida, não havia dúvida

quanto a isso, pois seu daemon estava deitado, enrascado em seu pescoço e inconsciente. Ele tinha a forma de um animal parecido com

um mangusto, mas de cor vermelho-dourada e menor. O macaco

dourado estava alisando carinhosamente o pêlo entre as orelhas do

daemon adormecido e, enquanto Ama observava, a criatura-mangusto mexeu-se incomodada e emitiu um pequeno miado rouco. O daemon de Ama, na forma de camundongo, se apertou contra o pescoço de

Ama e espiou assustado entre seus cabelos.

— De maneira que pode contar a seu pai o que você viu —

prosseguiu a Sra. Coulter. — Não há nenhum espírito mau. Apenas

minha filha, adormecida por causa de um feitiço e de quem estou cuidando. Mas por favor, Ama, diga a seu pai que isso tem de ser mantido em segredo. Ninguém, exceto vocês dois, deve saber que Lyra

está aqui. Se o feiticeiro souber onde ela está, virá procurá-la e destruí-

la, a mim também e tudo que estiver nas vizinhanças. De maneira que

trate de ficar calada! Conte a seu pai e a mais ninguém.

Ela se ajoelhou junto de Lyra e afastou o cabelo úmido do rosto

da menina adormecida antes de se inclinar para beijar a face de sua filha. Então levantou a cabeça, com uma expressão triste e carinhosa no olhar, e sorriu para Ama com tamanha bravura e sábia compaixão

que a garotinha sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

A Sra. Coulter pegou a mão de Ama, enquanto iam voltando

para a entrada da caverna, e viu o pai da menina observando cheio de

ansiedade lá de baixo. A mulher juntou as mãos e inclinou a cabeça para ele num cumprimento, que ele respondeu com alívio, enquanto

sua filha, depois de fazer uma mesura para a Sra. Coulter e para a menina adormecida enfeitiçada, fez meia-volta e desceu correndo pela

encosta sob a luz do crepúsculo. Pai e filha inclinaram a cabeça mais

uma vez em direção à caverna, num cumprimento respeitoso, e se

foram, desaparecendo em meio às sombras dos rododendros.

A Sra. Coulter virou-se de volta para a água no fogareiro, que

estava quase fervendo.

Abaixando-se, ela esmigalhou algumas folhas secas sobre a água,

tirando duas pitadas de um saquinho, uma pitada de outro e

acrescentou três gotas de um óleo amarelo-claro. Mexeu rapidamente

a mistura, contando silenciosamente até terem se passado cinco

minutos. Então tirou a panela do fogo e sentou-se para esperar que o

líquido esfriasse.

Espalhada ao seu redor estava parte da equipagem do

acampamento, próximo ao laguinho azul, onde Sir Charles Latrom

havia morrido: um saco de dormir, uma mochila com mudas de roupas,

produtos de limpeza e assim por diante. Também havia uma valise de

lona com uma armação resistente de madeira, acolchoada com paina,

contendo vários instrumentos; e havia uma pistola num coldre.

A de cocção esfriou depressa no ar rarefeito e tão logo atingiu a

temperatura do corpo, ela a colocou cuidadosamente numa taça de

metal de boca larga e levou-a até o fundo da caverna. O daemon

macaco largou a pinha e foi junto com ela.

Cuidadosamente, a Sra. Coulter colocou a taça sobre uma rocha

e se ajoelhou junto de Lyra. O macaco dourado se abaixou ao lado

dela, pronto para agarrar Pantalaimon, se este acordasse.

O cabelo de Lyra estava úmido, seus olhos se moviam atrás das

pálpebras cerradas. Ela estava começando a despertar: a Sra. Coulter

tinha sentido seus cílios se mexerem quando a beijara e sabia que não

dispunha de muito tempo antes que Lyra despertasse totalmente.

Enfiou a mão sob a cabeça da menina e com a outra afastou as

mechas úmidas de cabelo de sua testa. Os lábios de Lyra se

entreabriram e ela gemeu baixinho; Pantalaimon se aconchegou mais

junto de seu peito. Os olhos do macaco dourado não se descravavam do

daemon de Lyra e seus pequeninos dedos negros repuxavam a beirada

do saco de dormir.

Depois de um olhar da Sra. Coulter, ele largou o saco de dormir

e se afastou um palmo para trás. A mulher levantou a filha com

delicadeza de modo que seus ombros saíssem do chão e a cabeça

balançou ligeiramente. Então Lyra respirou fundo e seus olhos se

entreabriram, piscando pesados.

— Roger — murmurou. — Roger... onde está você... não

consigo ver. . .

— Ssh — sussurrou sua mãe —, ssh, minha querida, beba isso.

Levando a taça até a boca de Lyra, ela a inclinou para deixar que

uma gota umedecesse os lábios da menina. A língua de Lyra percebeu

isso e se moveu para lambê-los, e então a Sra. Coulter deixou que um

pouco mais do líquido pingasse em sua boca, com muito cuidado,

deixando-a engolir cada gole antes de lhe dar mais.

Passaram-se vários minutos, mas finalmente a taça ficou vazia e a

Sra. Coulter tornou a deitar a filha. Tão logo a cabeça de Lyra

repousou no chão, Pantalaimon voltou a se acomodar em volta de seu

pescoço. Seu pêlo vermelho-dourado estava tão úmido quanto os

cabelos de Lyra. Ambos estavam de novo profundamente adormecidos.

O macaco dourado foi saltitando graciosamente até a entrada da

caverna e sentou-se, mais uma vez vigiando o caminho. A Sra. Coulter

umedeceu uma flanela numa bacia de água fria e passou no rosto de

Lyra, depois, abriu o saco de dormir e lavou seus braços, pescoço e

ombros, porque Lyra estava acalorada. Então sua mãe pegou um pente

e com delicadeza desembaraçou o cabelo de Lyra, afastando-o da

testa e repartindo-o cuidadosamente.

Ela deixou o saco de dormir aberto de modo que a menina

pudesse se refrescar e abriu a trouxa que Ama havia trazido: algumas

bisnagas achatadas de pão, um retângulo de chá prensado, um pouco

de arroz meio grudento, embrulhado numa folha larga. Estava na

hora de acender a fogueira. O frio nas montanhas era intenso durante a

noite. Trabalhando metodicamente, ela cortou algumas achas de lenha, preparou a fogueira e acendeu um fósforo. Aquilo era outra

coisa a respeito da qual teria que pensar: os fósforos estavam acabando e a nafta para o fogareiro também; teria que manter a fogueira acesa dia e noite, dali por diante.

Seu daemon estava aborrecido. Não gostava do que ela estava

fazendo e quando tentou manifestar sua preocupação ela não lhe

deu atenção. Ele deu-lhe as costas, o desprezo evidente em cada linha de

seu corpo enquanto continuava a descascar pinhas na escuridão. Ela

nem reparou e continuou a trabalhar atenta e habilmente para aumentar a fogueira e preparar uma panela para esquentar água para

fazer um chá. A despeito disso, o ceticismo dele a afetava e enquanto ia

desmanchando o chá prensado na água, repetidamente perguntou a si

mesma o que achava que estava fazendo e se teria enlouquecido, o que

aconteceria quando a igreja descobrisse. O macaco dourado tinha razão. Ela não estava apenas escondendo Lyra: estava cobrindo os

olhos para esconder a verdade de si mesma.

Saindo da escuridão o garotinho veio, esperançoso e assustado,

sussurrando uma vez após a outra:

— Lyra, Lyra, Lyra. . .

Atrás dele havia outros vultos, ainda mais indistintos do que ele,

ainda mais silenciosos. Pareciam ser de um mesmo grupo e do mesmo tipo,

mas não tinham rostos que fossem visíveis ou vozes que falassem; e a voz

dele se elevou um pouco acima de um sussurro e seu rosto ficou sombreado

e borrado como algo semi-esquecido.

— Lyra. . . Lyra. . .

Onde estavam eles?

Numa grande planície onde nenhuma luz brilhava no céu escuro cor

de chumbo e onde uma neblina obscurecia o horizonte em todas as direções.

O solo era de terra nua, socada e achatada por milhões de pés, embora

esses pés tivessem menos peso que penas; de modo que deveria ter sido o tempo que o achatara daquele jeito, embora o tempo tivesse parado

naquele lugar; de modo que as coisas deviam ser assim mesmo. Aquele era

o fim de todos os lugares e o último de todos os mundos.

— Lyra. . .

Por que estavam ali?

Eram prisioneiros. Alguém havia cometido um crime, embora

ninguém soubesse qual era o crime, quem o havia cometido, nem que

autoridade o havia julgado.

Por que o garotinho continuava a chamar pelo nome de Lyra?

Esperança.

Quem eram eles?

Fantasmas.

E Lyra não conseguia tocá-los, por mais que tentasse. Desnorteadas,

suas mãos se moviam procurando, tentando, de um lado para o outro, e o

garotinho continuava parado ali suplicando.

— Roger — chamou ela, mas sua voz saiu num sussurro. — Ah,

Roger, onde está você? O que é este lugar?

— Éo mundo dos mortos, Lyra — respondeu ele. — Não sei o que fa

zer, não sei se estou aqui para sempre e não sei se fiz coisas más ou o que, por

que tentei ser bom, mas detesto estar aqui, estou com medo de tudo isso,

detesto —

E Lyra disse:

— Eu