A Luneta Âmbar
14. Saiba o que É
atentamente para o cabo da faca, mas sem tocar nela.
— Vamos ter que continuar com eles por enquanto —
disse Will. — Assim que a faca estiver consertada, fugiremos.
— Eles são tão rápidos, Will — disse ela. — E não se
incomoda riam nem um pouco, matariam você.
— Espero apenas que Iorek possa consertá-la. Não tinha
percebi do quanto precisamos dela.
— Ele vai consertar — disse ela confiante.
Lyra estava observando Pantalaimon, enquanto esvoaçava e
dardejava no ar, abocanhando minúsculas mariposas como as outras
libélulas. Não conseguia ir tão longe quanto elas iam, mas era
igualmente rápido e o colorido de suas cores ainda mais vivo.
Levantou a mão e ele pousou nela, as longas asas transparentes
vibrando.
— Acha que podemos confiar neles enquanto dormimos?
— perguntou Will.
— Podemos. São impetuosos, violentos, mas acho que são
honestos.
Os dois voltaram para o rochedo e Will disse para os galivespianos:
— Agora eu vou dormir. Seguiremos adiante quando
amanhecer.
O cavaleiro assentiu e Will se deitou encolhido, adormecendo
imediatamente.
Lyra sentou ao lado dele, com Pantalaimon sob a forma de
gato, confortavelmente aninhado em seu colo. Que sorte para Will
que ela agora estivesse acordada para cuidar dele! Era realmente
muito corajoso e ela o admirava tanto que nem saberia dizer o
quanto; mas Will não sabia mentir, nem trair, nem enganar, coisas
que ela fazia tão naturalmente quanto respirar. Quando pensou
nisso, sentiu-se animada e virtuosa, pois ela o fazia por Will, nunca
por si mesma.
Tinha pretendido consultar o aletômetro novamente, mas,
para sua profunda surpresa, descobriu que estava tão cansada
quanto se tivesse passado todo aquele tempo acordada em vez de
inconsciente e deitou-se ali perto, fechou os olhos, só para tirar um
cochilo rápido, garantiu a si mesma, antes de adormecer.
SAIBA O QUE É
LABUTA SEM ALEGRIA É VIL LABUTA SEM
SOFRIMENTO É VIL SOFRIMENTO SEM LABUTA É
VIL ALEGRIA SEM LABUTA É VIL
John Ruskin
Will e Lyra dormiram a noite inteira e acordaram quando o sol
bateu em suas pálpebras. Na verdade, acordaram quase juntos, num
intervalo de segundos, com o mesmo pensamento: mas quando
olharam em volta o Cavaleiro Tialys estava calmamente montando
guarda nas proximidades.
— As forças do Tribunal Consistorial bateram em retirada —
disse-lhes. — A Sra. Coulter está nas mãos do Rei Ogunwe e a
caminho de Lorde Asriel.
— Como sabe disso? — perguntou Will, sentando-se com o
corpo ainda enrijecido. — Você voltou lá pela janela?
— Não. Nós falamos pelo magneto ressonante. Relatei
nossa conversa — disse Tialys para Lyra — ao nosso comandante,
Lorde Roke, e ele concordaram que fôssemos com vocês encontrar o
urso, e que depois que o tiverem visto, deverão vir conosco. De modo
que somos aliados, e nós ajudaremos vocês tanto quanto pudermos.
Ótimo — disse Will. — Então vamos comer juntos.
Vocês comem a nossa comida?
— Obrigada, comemos sim — disse Lady Salmakia.
Will tirou da mochila seus últimos pêssegos secos e o pão de
centeio dormido, que era tudo o que lhe restava, e dividiu tudo entre
eles, embora, é claro, os espiões não comessem muito.
— Quanto à água, parece não haver nenhuma aqui neste
mundo — comentou Will. — Teremos que esperar até voltarmos
para beber.
— Então é melhor fazermos isso logo — disse Lyra.
Primeiro, contudo, ela pegou o aletômetro. Agora podia ver com
clareza., ao contrário da noite anterior, mas seus dedos estavam lentos e endurecidos depois de ter dormido tanto. Ela perguntou se ainda
havia algum perigo no vale. Não, veio a resposta, todos os soldados se
foram e os aldeões estão em suas casas; de modo que eles se
prepararam para partir.
A janela parecia estranha na luz forte, ofuscante do deserto,
dando para o arbusto frondoso na sombra, um quadrado de vegetação
espessa muito verde, pendurada no espaço, como uma pintura. Os
galivespianos quiseram examiná-la e ficaram espantadíssimos ao ver
como simplesmente não estava lá se olhada por trás, e como apenas
passava a existir quando se dava a volta para o outro lado.
— Eu terei que fechá-la depois que atravessarmos — disse
Will.
Lyra tentou apertar e juntar as bordas, mas seus dedos não
conseguiam encontrá-las; os espiões também não conseguiram, a
despeito da delicadeza de suas mãos. Só Will era capaz de sentir
exatamente onde estavam as bordas e ele as fechou bem e
rapidamente.
— Em quantos mundos se pode entrar com a faca? —
perguntou Tialys.
— Tantos quantos existirem — respondeu Will. — Ninguém
teria tempo para descobrir quantos.
Ele levantou a mochila nas costas e foi encabeçando o grupo
seguindo pelo caminho na floresta. As libélulas ficaram encantadas
com o ar fresco e úmido e saíram dardejando como agulhas pelos
raios de sol. O movimento das árvores acima estava menos violento
e o ar fresco e tranqüilo; de modo que foi ainda mais chocante ver os
escombros de um giróptero pendurado entre os galhos, com o
corpo de seu piloto africano preso pelo cinto com a metade caída
para fora pela porta, e encontrar a carcaça carbonizada do zepelim
um pouco mais acima — tiras negras de fuligem, esteios e
tubulações enegrecidos, vidros quebrados, e depois os corpos: três
homens reduzidos a cinzas, seus membros contorcidos e encolhidos
como se ainda estivessem ameaçando lutar.
E aqueles eram apenas os que tinham tombado perto da
trilha. Havia outros corpos e mais destruição no penhasco acima e
entre as árvores mais abaixo. Chocadas e silenciadas, as duas crianças
seguiram em meio à carnificina, enquanto os espiões em suas
libélulas olhavam em torno mais friamente, acostumados a
combates, reparando em como aquele havia decorrido e em quem
tinha sofrido mais perdas.
Quando chegaram ao alto do vale, onde as árvores escasseavam
e as cachoeiras com arco-íris começavam, pararam para beber
bastante daquela água fria como gelo.
— Espero que a menina esteja bem — disse Will. — Nunca
teríamos conseguido tirar você de lá se ela não a tivesse acordado. Ela
foi consultar um religioso especialmente para obter aquele pó.
— Ela está bem — disse Lyra —, porque eu perguntei ao
aletômetro, ontem à noite. Porém, ela acha que somos demônios.
Tem medo de nós. Provavelmente deseja que nunca tivesse se
metido nessa coisa toda, mas está bem e em segurança.
Subiram pelo lado das cachoeiras e tornaram a encher o cantil
de Will antes de começarem a atravessar o platô em direção à
cordilheira para onde o aletômetro dissera a Lyra que Iorek tinha
ido.
E então veio um dia de longa e dura caminhada: nenhum problema para Will, mas um tormento para Lyra, cujas pernas
estavam enfraquecidas e fora de forma depois de seu sono
prolongado. Mas Lyra teria preferido que lhe cortassem a língua a
confessar como se sentia mal: mancando, apertando os lábios,
tremendo, ela acompanhou o passo de Will e não disse nada. Só
quando sentaram ao meio-dia ela se permitiu um gemido e isso
somente quando Will havia se afastado para satisfazer suas
necessidades.
Lady Salmakia disse:
— Descanse. Não há nenhuma vergonha em estar cansada.
— Mas não quero desapontar Will! E não quero que ele
pense que sou fraca e que o estou atrasando.
— Isso é a última coisa que ele pensaria.
— Você não sabe — retrucou Lyra em tom malcriado. —
Não conhece Will, do mesmo jeito que não me conhece.
— Mas conheço impertinência quando ouço — disse a
pequenina dama calmamente. — Faça o que estou dizendo agora e
descanse. Guarde sua energia para a caminhada.
Lyra teve vontade de se rebelar, mas as esporas reluzentes da
dama estavam muito nítidas à luz do sol, de modo que se calou.
Seu companheiro, o cavaleiro, estava abrindo o estojo do
magneto ressonante e, com a curiosidade vencendo o ressentimento,
Lyra ficou observando para ver o que ele fazia. O instrumento
parecia um pedaço curto de lápis feito de pedra fosca, de cor preta-
acinzentada, deitado sobre uma base de madeira, e o cavaleiro movia
rapidamente um pequeno arco, como um arco de violino, sobre a
extremidade, enquanto apertava os dedos em vários pontos ao longo
da superfície. Os lugares não eram marcados, de modo que ele parecia
estar tocando ao acaso, mas pela intensidade de sua expressão e a
fluência precisa de seus movimentos, Lyra percebeu que era um
processo difícil, exigindo habilidade da mesma forma que quando lia
o aletômetro.
Depois de vários minutos, o espião guardou o arco e colocou
um par de fones de ouvido, os fones não maiores que a unha do dedo
mindinho de Lyra, e foi enrolando, bem apertada, uma das pontas
do fio em volta de um gancho numa das extremidades da pedra,
esticando o resto até o outro gancho na outra ponta e enrolando em
volta daquela.
Através da manipulação dos dois ganchos e da tensão no fio
entre eles, ele evidentemente podia ouvir a resposta para sua
mensagem.
— Como é que isto funciona? — perguntou ela depois que
ele acabou.
Tialys olhou para ela como se para avaliar se estava realmente
interessada, depois disse:
— Seus cientistas, como é que os chama, teólogos
experimentais, devem conhecer algo que se chama enredamento
quântico. Significa que podem existir duas partículas que têm
somente propriedades em comum, de modo que o que quer que
aconteça com uma, acontece com a outra no mesmo instante, não
importa a que distância estejam. Bem, em nosso mundo existe uma maneira de pegar um magneto ou ímã comum, enredar todas as suas
partículas e depois dividi-lo em dois, de modo que ambas as partes
ressoem juntas. A outra parte deste está com Lorde Roke, nosso
comandante. Quando toco neste aqui com meu arco, o outro
reproduz os sons com exatidão, e assim nos comunicamos.
Ele guardou todo o equipamento e disse alguma coisa para a
dama. Ela veio se juntar a ele e os dois se afastaram um pouco, falando
baixo demais para que Lyra pudesse ouvir, embora Pantalaimon
tivesse se transformado numa coruja e virado suas grandes orelhas
para eles.
Pouco depois, Will voltou e eles seguiram adiante, mais
lentamente, à medida que o dia foi passando, e a trilha se tornava
mais íngreme e a linha de neve se aproximava. Descansaram mais
uma vez no alto do vale, pois Will sabia que Lyra estava quase
chegando ao limite de suas forças: estava mancando muito e seu
rosto estava pálido.
— Deixe-me ver seus pés — disse ele —, porque se estiverem
com bolhas, passo um pouco de ungüento neles.
E estavam muito empolados e feridos, de modo que ela
deixou que ele esfregasse o bálsamo de musgo-sangüíneo, fechando
os olhos e rangendo os dentes.
Enquanto isso, o cavaleiro estava ocupado e, depois de alguns
minutos, guardou seu magneto ressonante e disse:
— Comuniquei nossa posição a Lorde Roke e eles estarão
enviando um giróptero para nos buscar assim que tiverem falado
com seu amigo.
Will assentiu. Lyra não prestou atenção. Pouco depois ela se
endireitou, esgotada, sentou-se e calçou as meias e os sapatos, e mais
uma vez retomaram a caminhada.
Mais uma hora se passou e a maior parte do vale ficou na
sombra, Will começou a se perguntar se encontrariam algum abrigo
antes que a noite caísse; e então Lyra deu um grito de alívio e de
alegria.
— Iorek! Iorek!
Ela o tinha visto antes de Will. O urso rei ainda estava a
alguma distância, o pêlo branco se confundindo contra um trecho de
neve, mas quando a voz de Lyra ecoou ele virou a cabeça, levantou-
a para farejar e desceu aos saltos pela encosta da montanha ao
encontro deles.
Ignorando Will, ele abraçou Lyra, encobrindo o rosto dela
com seu pêlo, grunhindo tão profundamente que Will pôde sentir da
cabeça aos pés. Lyra, entretanto, sentiu aquilo com prazer e até
esqueceu, por instantes, as bolhas e o cansaço.
— Ah, Iorek, meu querido, estou tão contente de ver
você! Nunca imaginei que fosse voltar a encontrar você, depois do
ocorrido em Svalbard e de todas as coisas que aconteceram. .. o Sr.
Scoresby está bem? Como vai seu reino? Está aqui sozinho?
Os pequenos espiões tinham desaparecido; em todo caso,
agora parecia que só havia eles três na encosta da montanha que
escurecia, o menino, a menina e o grande urso branco. Como se
nunca tivesse querido estar em nenhum outro lugar, Lyra montou quando Iorek lhe ofereceu as costas e seguiu orgulhosa e feliz
enquanto seu amigo querido a carregava para o alto, cobrindo o
último trecho do caminho até chegar a sua caverna.
Will, preocupado, não ficou escutando, enquanto Lyra
conversava com Iorek, embora ouvisse seu grito de consternação a
certo ponto e a ouvisse dizer:
— O Sr. Scoresby... Oh, não! Ah, mas que coisa terrível! De
verdade, morto? Você tem certeza, Iorek?
— A bruxa me contou que ele partiu para tentar encontrar
um homem chamado Grumman.
Will agora começou a ouvir com mais atenção, pois Baruch e
Balthamos tinham lhe contado parte daquilo.
— O que aconteceu? Quem o matou? — perguntou Lyra,
com a voz trêmula.
— Ele morreu lutando. Impediu uma companhia inteira de
soldados moscovitas de avançar, enquanto o homem escapava. Eu
encontrei seu corpo. Morreu com bravura. Eu o vingarei.
Lyra estava chorando copiosamente e Will não sabia o que
dizer, pois aquele homem desconhecido morrera para salvar seu pai;
e tanto Lyra quanto o urso tinham conhecido e amado Lee
Scoresby, e ele não.
Logo Iorek virou para um lado e se dirigiu para a entrada de
uma caverna muito escura, fazendo contraste com a neve. Will não
sabia onde estavam os espiões, mas tinha certeza absoluta de que
estavam por perto. Queria falar discretamente com Lyra, mas não
enquanto não pudesse ver os galivespianos e ter certeza de não estar
sendo ouvido.
Deixou a mochila na entrada da caverna e sentou-se exausto.
Atrás dele o urso estava acendendo fogo e Lyra observava, curiosa,
apesar de sua tristeza. Iorek segurou uma pequena pedra de algum
tipo de minério de ferro na pata dianteira esquerda e bateu com ela,
não mais que três ou quatro vezes, contra uma outra similar, no chão.
A cada vez que batia, uma porção de fagulhas irrompiam e iam
exatamente para onde Iorek as estava direcionando: uma pilha de
gravetos quebrados e mato seco. Pouco depois aquilo estava em
chamas e Iorek calmamente colocou uma acha de lenha, depois outra
e mais outra até que a fogueira estivesse ardendo bem.
As crianças gostaram, porque fazia muito frio agora, e veio,
então, algo ainda melhor: o pernil de alguma coisa que deveria ter
sido uma cabra. Iorek comeu sua parte crua, é claro, mas espetou o
pedaço inteiro da carne num galho bem pontudo, e colocou-o para
assar para os dois.
— E fácil caçar aqui nessas montanhas, Iorek? — perguntou
ela.
— Não. Meu povo não pode viver aqui. Eu estava enganado,
mas foi um engano de sorte, pois encontrei você. Quais são seus planos
agora?
Will olhou em volta, examinando a caverna. Estavam
sentados perto da fogueira e a luz do fogo lançava reflexos amarelos e
alaranjados no pêlo do rei urso. Will não conseguia ver nenhum sinal
dos espiões, mas não adiantava: tinha que pedir.
— Rei Iorek — começou ele —, minha faca está quebrada. .
.
Então ele lançou um olhar para além de onde o urso estava e disse:
— Não, espere. — Estava apontando para a parede. — Se
estiverem me ouvindo — prosseguiu falando mais alto —,
mostrem-se e façam isso honestamente. Não nos espionem.
Lyra e Iorek Byrnison viraram-se para ver com quem ele estava
falando. O homenzinho saiu das sombras e ficou parado
calmamente na luz, numa reentrância mais alta que a cabeça das
crianças. Iorek rosnou.
— Você não pediu permissão a Iorek Byrnison para entrar na
caverna dele — disse Will. — E ele é um rei, e você apenas um
espião. Deveria demonstrar mais respeito.
Lyra adorou ouvir aquilo. Olhou para Will cheia de prazer e
viu seu rosto feroz, cheio de desprezo.
Mas a expressão do cavaleiro, enquanto olhava para Will, era
de desagrado.
— Temos sido sinceros e dito a verdade para vocês — disse
ele.
— Foi um ato desonroso nos enganar.
Will se levantou. Seu daemon, Lyra pensou, teria a forma de
uma tigresa, e ela se encolheu diante da fúria que imaginou que o
grande animal mostraria.
— Se enganamos vocês, foi porque era necessário — retrucou.
— Por acaso teriam concordado em vir aqui se soubessem que a faca
estava quebrada? Claro que não. Teriam usado seu veneno para nos
deixar inconscientes e teriam pedido ajuda e teriam nos seqüestrado e
nos levado para Lorde Asriel. De modo que tivemos que enganar
você, Tialys, e vai ter que engolir isso.
Iorek Byrnison perguntou:
— Quem é este?
— Espiões — disse Will. — Enviados por Lorde Asriel. Eles
nos ajudaram a escapar ontem, mas se estão do nosso lado, não
deveriam se esconder e ficar ouvindo nossas conversas. E se fizeram
isso, são as últimas pessoas a ter o direito de falar em desonra.
O olhar do espião foi tão furioso que parecia pronto para lutar
contra o próprio Iorek, sem nem dar atenção ao desarmado Will;
mas Tialys estava numa posição indefensável e sabia disso. Tudo o
que podia fazer era baixar a cabeça, fazer uma mesura e pedir
desculpas.
— Majestade — disse para Iorek, que imediatamente rugiu.
Os olhos do cavaleiro lançavam faíscas de ódio para Will, de
desafio e advertência para Lyra, e de um respeito frio e desconfiado
para Iorek. A clareza de suas feições tornava todas essas expressões
vividas e fortes, como se uma luz estivesse voltada para ele. A seu
lado Lady Salmakia estava saindo da sombra e, ignorando
completamente as crianças, fez uma reverência para o urso.
— Perdoe-nos — disse para Iorek. — O hábito de esconder as
coisas é difícil de quebrar e meu companheiro, o Cavaleiro Tialys, e eu,
Lady Salmakia, estivemos vivendo entre nossos inimigos por tanto
tempo que, por uma questão de puro hábito, negligenciamos a obrigação de lhe oferecer a reverência devida. Estamos acompanhando
esse menino e essa menina para assegurar que cheguem em segurança
aos cuidados de Lorde Asriel. Não temos nenhum outro objetivo
e, certamente, não temos quaisquer intenções que lhe possam ser
prejudiciais, Rei Iorek Byrnison.
Se Iorek tinha dúvidas de como seres tão pequeninos
poderiam fazer-lhe mal, não demonstrou; não só sua expressão era
naturalmente difícil de decifrar, como ele também tinha suas
próprias regras de etiqueta e a dama tinha falado com grande
cortesia e elegância.
— Desçam e venham para junto da fogueira — convidou. —
Há bastante comida, mais que de sobra, se estiverem com fome.
Will, você tinha começado a falar da faca.
— Sim — disse Will —, e pensei que isso nunca poderia
acontecer, mas está quebrada. E o aletômetro disse a Lyra que você
poderia consertá-la. Eu ia pedir mais educadamente, mas, indo
direto ao ponto, pode consertar a faca, Iorek?
— Mostre-me.
Will sacudiu a bainha tirando todos os pedaços e os arrumou
no solo rochoso, empurrando-os aqui e ali, até estarem encaixados
em seus lugares certos, de modo que pudesse ver que estavam todos
ali. Lyra levantou um galho em chamas e, sob aquela luz, Iorek se
abaixou todo para olhar bem de perto cada pedaço, tocando
delicadamente com suas garras maciças e levantando para virá-lo
primeiro para um lado, depois para o outro e examinar o ponto em
que quebrara. Will ficou maravilhado com a destreza daquelas
imensas garras negras.
Então Iorek voltou a se endireitar, sentado, a cabeça virada
para o alto, para as sombras.
— Posso — disse ele, respondendo exatamente a pergunta e
nada mais.
Lyra, sabendo o que ele estava querendo dizer, perguntou:
— Ah, mas você vai consertar, Iorek? Você não pode
imaginar como isto é importante; se não pudermos consertá-la, então estaremos numa encrenca desesperadora e não somente nós
— Eu não gosto dessa faca — disse Iorek. — Tenho medo
do que ela pode fazer. Nunca vi nada tão perigoso. As máquinas de
com bate mais mortíferas são brinquedos se comparadas a essa faca,
o mal que ela pode causar é ilimitado. Teria sido infinitamente
melhor se jamais tivesse sido feita.
—Mas com ela. . . — começou Will.Iorek não o deixou
acabar, e prosseguiu:
— Com ela você pode fazer coisas estranhas. O que você não
sabe é o que a faca faz sozinha. Suas intenções podem ser boas. Mas
a faca também tem intenções.
— Como é possível isso? — perguntou Will.
— As intenções de um instrumento são o que ele faz. Um
martelo tem a intenção de golpear, um torno tem a intenção de
segurar, prender bem, uma alavanca tem a intenção de levantar. Elas
são a finalidade para a qual o instrumento é feito. Mas por vezes um
instrumento pode ter outros usos que você não conhece. Por vezes, ao fazer o que você pretende, você também faz o que a faca pretende, sem ter conhecimento disso. Está vendo o gume mais afiado dessa
faca?
— Não — respondeu Will, pois era verdade: o gume se
reduzia a uma finura tão aguda que o olhar não conseguia alcançar.
— Então como pode saber tudo o que faz?
— Não posso. Mas ainda assim tenho que usá-la e fazer o que
puder para ajudar que coisas boas aconteçam. Se não fizesse nada,
eu seria pior que inútil. Eu seria culpado.
Lyra estava acompanhando aquele diálogo atentamente;
vendo que Iorek ainda relutava, disse:
— Iorek, você sabe como eram malvadas aquelas pessoas de
Bolvangar. Se não conseguirmos vencer, eles vão continuar a fazer
aquele tipo de coisas para sempre. E, além disso, se não tivermos a faca,
eles poderiam se apoderar dela. Nunca tínhamos ouvido falar sobre a
faca quando conheci você, e mais ninguém também tinha ouvido,
mas agora conhecemos a faca e temos que usá-la; não podemos simplesmente não usar. Seria covarde e também seria errado, seria a mesma coisa que entregá-la a eles e dizer, tudo bem, tratem de usá-la,
não os impediremos. Está certo, nós não sabemos o que ela faz, mas eu
posso perguntar ao aletômetro, não posso? Então saberíamos. E
poderíamos pensar nela da maneira apropriada, em vez de ficar
imaginando coisas e ficar com medo.
Will não queria mencionar seu motivo mais premente: se a
faca não fosse consertada, ele nunca mais voltaria para casa, nunca
mais vejasse ou pensasse, só que não disse o que seria um bom
pensamento ou um mau pensamento. E prosseguiu:
— Então. . . disse que sim — seus olhos faiscaram em direção
aos espiões. — Disse que sim, que devemos fazê-lo, devemos consertar a
faca.
Iorek olhou para ela com firmeza, então assentiu uma vez.
Tialys e Salmakia desceram para olhar mais de perto e Lyra disse:
— Vai precisar de mais combustível, Iorek? Eu e Will
podemos ir buscar, com certeza.
Will compreendeu o que ela estava querendo dizer: longe dos
espiões eles poderiam conversar. Iorek disse:
— Abaixo do primeiro contraforte na trilha há um arbusto
de madeira resinosa. Tragam o máximo que puderem.
Ela se levantou de um salto imediatamente e Will foi junto.
A lua estava clara, brilhante, o caminho era uma trilha de
marcas de pegadas meio apagadas na neve, o ar cortante e frio. Os
dois se sentiam confiantes, esperançosos e vivos. Não falaram até
estarem bem afastados da caverna.
— O que mais ele disse? — perguntou Will.
— Disse coisas que não compreendi e ainda não
compreendo agora. Disse que a faca seria a morte do Pó, mas depois
disse que era a única maneira de manter o Pó vivo. Não
compreendi, Will. Mas disse novamente que era perigosa, ficava
repetindo isso. Disse que se nós, você sabe, o que eu pensei —
— Se formos ao mundo dos mortos —
— É... se fizermos isso... disse que poderíamos nunca mais voltar, Will. Poderíamos não sobreviver.
Ele não disse nada e continuaram caminhando, agora mais
comedidamente, procurando o arbusto que Iorek havia
mencionado e calados pelo pensamento da responsabilidade que
poderiam estar aceitando.
— Mas temos que ir — argumentou ele —, não temos?
— Eu não sei.
— Ora, mas agora nós sabemos. Você tem que falar com
Roger e eu tenho que falar com meu pai. Agora nós temos que ir.
— Estou com medo — disse ela.
E ele sabia que Lyra nunca admitiria isso para mais ninguém.
— Ele falou o que aconteceria se não fôssemos? —
perguntou.
— Só vazio. Só um branco total. Eu realmente não
compreendi, Will. Mas acho que queria dizer que, mesmo se fosse assim tão perigoso, nós ainda deveríamos tentar salvar o Roger. Mas
não vai ser como quando eu o resgatei de Bolvangar; na verdade, eu
não sabia o que estava fazendo, naquela ocasião, simplesmente fui lá
e tive sorte. Quero dizer, apareceu todo tipo de gente para ajudar,
como os gípcios e as bruxas. Não vai haver ninguém para ajudar lá,
aonde temos que ir. E posso ver... Em meu sonho eu vi. . . O lugar
era. . . Era pior que Bolvangar. É por isso que estou com medo.
— Pois do que eu estou com medo — disse Will depois de
um minuto, sem olhar para ela — é de ficar preso em algum lugar e
nunca mais voltar a ver minha mãe.
De lugar nenhum, uma lembrança veio à sua mente: era bem
pequeno e aquilo foi antes dos problemas dela começarem, e ele estava
doente. A noite inteira, parecia, sua mãe tinha ficado sentada no
escuro, na beira da cama dele, cantando cantigas de ninar, contando
histórias e, enquanto sua voz querida estava lá, ele sabia que estava
seguro. Não podia abandoná-la agora. Não podia! Cuidaria dela a vida inteira, se precisasse.
E como se Lyra soubesse exatamente o que ele estava
pensando, disse, calorosamente:
— É, é verdade, isso seria terrível. . . Sabe, com minha mãe,
nunca percebi... simplesmente cresci sozinha, na verdade; não me
lembro de ninguém me pegando no colo, me abraçando, ou me
fazendo carinho; sempre foi só eu e Pan, desde que me lembro...
Não me lembro da Sra. Lonsdale me tratando assim; ela era a
governanta na Universidade Jordan, tudo o que fazia era se assegurar
de que eu estivesse limpa, só pensava nisso, ah, e em boas maneiras...
Mas na caverna, Will, eu realmente senti... ah, é estranho, eu sei que ela fez coisas terríveis, mas realmente senti que me amava e que estava
cuidando de mim. . . Deve ter pensado que eu ia morrer, dormindo
aquele tempo todo, imagino que devo ter apanhado alguma doença,
mas ela nunca deixou de cuidar de mim. E me lembro de acordar uma
ou duas vezes e ela estava me segurando em seus braços... me lembro
disso realmente, tenho certeza... Isso é o que eu faria no lugar dela, se tivesse uma criança.
De modo que ela não sabia por que estivera adormecida
aquele tempo todo. Será que deveria contar a ela e trair aquela lembrança, ainda que fosse falsa? Não, claro que não devia.
— É aquele o arbusto? — perguntou Lyra.
O luar estava claro o bastante para mostrar cada folha. Will
partiu um galho fino e o cheiro de resina pinífera ficou forte em
seus dedos.
— E não vamos dizer nada àqueles pequenos espiões —
acrescentou ela.
Eles juntaram braçadas de galhos do arbusto e carregaram de
volta para a caverna.