A Luneta Âmbar
23. Sem Saída
infeliz, atordoado e perplexo com o que estavam lhe dizendo, e
gritou para ele:
— Roger? Você é Roger?
Ele levantou a cabeça, confuso, nervoso, e assentiu.
Salmakia voou de volta para junto de seu companheiro e
juntos seguiram rapidamente para onde estava Lyra. Era uma
longa distância e de difícil navegação, mas observando os padrões
de movimento, finalmente a encontraram.
— Lá está ela — disse Tialys, e gritou: — Lyra! Lyra! Seu
amigo está lá!
Lyra levantou a cabeça e estendeu a mão para a libélula. O
grande inseto pousou imediatamente, seu colorido vermelho-e-
amarelo re-luzindo como esmalte, e as asas transparentes
retesadas e imóveis de cada lado. Tialys equilibrou-se enquanto
ela o erguia trazendo-o à altura de seus olhos.
— Onde? — perguntou, arquejando de excitação. — Está
muito longe?
— Uma hora de caminhada — respondeu o cavaleiro. —
Mas ele sabe que você está a caminho. Os outros contaram a ele e
já confirmamos que era ele. Trate de ir andando e logo se
encontrará com ele.
Tialys viu Will fazer um esforço para ficar de pé ereto e se
obrigar a encontrar mais alguma energia. Lyra já estava carregada
de energia e encheu os galivespianos de perguntas: como parecia
estar Roger? Tinham falado com eles? Parecia satisfeito? As
outras crianças sabiam do que estava acontecendo e estavam
ajudando, ou estavam apenas atrapalhando?
E assim por diante. Tialys tentou responder a todas com
sinceridade e paciência e, passo a passo, a menina viva se
aproximou do menino que havia conduzido para a morte.
SEM SAÍDA
E CONHECEREIS A VERDADE, E A VERDADE
VOS LIBERTARÁ –
S. João, 8, 32
Will o que você acha que as harpias vão fazer quando
libertarmos os fantasmas – perguntou Lyra . Pois as
criaturas estavam gritando cada vez mais alto e voando
mais perto e a cada instante que se passava havia um
numero cada vez maior delas, como se a escuridão
estivesse se reunindo em pequenos coágulos de malignidade e
dando-lhes asas. Os fantasmas ficavam olhando para cima,
temerosos.
— Estamos chegando perto? — Lyra gritou para Lady
Salmakia.
— Agora não estamos longe — respondeu ela, voando em
círculos acima deles. — Você poderia vê-lo, se subisse naquela
pedra.
Mas Lyra não queria perder tempo. Estava tentando de
todo o coração se controlar e apresentar uma cara alegre para
Roger mas, na sua mente, a todo momento, estava aquela imagem
terrível de Pan cachorrinho pequenino, abandonado no molhe,
enquanto a neblina se fechava ao seu redor, e ela mal estava
conseguindo impedir-se de chorar bem alto. Mas tinha que
conseguir, tinha que se mostrar confiante para Roger, como
sempre havia sido.
Quando afinal se encontraram cara a cara, aconteceu muito
de repente. Em meio à pressão da multidão de todos os
fantasmas, lá estava ele, as feições familiares pálidas, mas sua
expressão tão cheia de contentamento quanto um fantasma podia
ter. Ele correu para abraçá-la.
Mas passou como fumaça fria através dos braços de Lyra e
embora ela sentisse a mãozinha dele agarrar seu coração, não
tinha força para se segurar. Eles nunca mais voltariam a se tocar
de verdade.
Mas ele podia sussurrar e a voz dele disse:
— Lyra, eu nunca imaginei que voltaria a ver você, pensei
que mesmo se você descesse até aqui, depois que tivesse
morrido, estaria muito mais velha, seria adulta e não falaria
comigo —
— Por que eu não haveria de falar?
— Porque eu fiz a coisa errada quando Pan conseguiu soltar
meu daemon do daemon pantera de Lorde Asriel! Deveríamos ter
fugido, não deveríamos ter tentado lutar contra ela! Deveríamos
ter corrido para junto de você! Então ela não teria podido
capturar meu daemon de novo, e quando o rochedo deslizou, ela
estaria comigo!
— Mas isso não foi culpa sua, seu bobo! — retrucou Lyra. —
Fui eu que levei você para lá, para começar, e deveria ter deixado você
voltar com as outras crianças e os gípcios. A culpa foi minha. Eu
lamento tanto, Roger, de verdade, foi minha culpa, se não fosse por
mim você não teria estado lá...
— Bem — disse ele —, não sei não. Talvez eu tivesse sido
mor to de alguma outra maneira. Mas não foi culpa sua, Lyra,
entenda.
Ela se sentiu começando a acreditar nisso; mas, de qualquer
maneira, era de partir o coração ver o pobre coitadinho gelado,
tão perto e, ao mesmo tempo, tão fora de seu alcance. Tentou
agarrar o pulso dele, contudo seus dedos se fecharam no ar vazio;
mas ele compreendeu e sentou ao lado dela.
Os outros fantasmas recuaram um pouco, deixando-os
sozinhos, e Will também se afastou, para sentar e cuidar de sua
mão. Estava sangrando de novo e, enquanto Tialys voava
ferozmente atacando os fantasmas para obrigá-los a se afastarem,
Salmakia ajudou Will a cuidar do ferimento.
Mas Lyra e Roger nem tomaram conhecimento de nada
disso.
— E você não está morta — declarou ele. — Como
conseguiu vir até aqui se ainda está viva? E onde está Pan?
— Ah, Roger... eu tive que deixar o Pan na outra
margem... foi a pior coisa que já tive que fazer na vida, doeu
tanto, você sabe como dói, e ele ficou lá parado, só olhando. Ah,
eu me senti como uma assassina, Roger, mas eu tive que fazer
aquilo, senão não poderia ter vindo!
— Eu estive fazendo de conta que estava conversando com
você o tempo todo desde que morri — disse ele. — Estive
desejando que pudesse falar com você e desejando tanto... Apenas
desejando que pudesse sair daqui, eu e todos os outros mortos,
porque este é um lugar terrível, Lyra, é sem esperança, nada
muda depois que você morre, e aquelas coisas voadoras... Você
sabe o que elas fazem? Elas esperam até que você esteja
descansando. . . nunca se pode dormir direito, você só meio que
dá uma cochilada. .. e então elas chegam bem perto de você, sem
fazer barulho, e cochicham todas as coisas ruins que você fez
quando estava vivo, de modo que não possa se esquecer delas. Elas
sabem de todas as piores coisas a seu respeito. Sabem como fazer
com que você se sinta horrível, só de pensar em todas as coisas
estúpidas e más que fez algum dia. E todos os pensamentos
invejosos e cruéis que você teve, elas conhecem todos, e fazem
com que sinta muita vergonha e deixam você com nojo de si
mesmo. . . Mas não se pode escapar delas.
— Bem — interrompeu ela —, escute.
Baixando a voz e curvando o corpo para chegar mais perto
do pequeno fantasma, exatamente como costumavam fazer
quando estavam planejando suas travessuras na Jordan, ela
prosseguiu:
— Você provavelmente não sabe, mas as bruxas, você se
lembra de Serafina Pekkala, as bruxas têm uma profecia a respeito
de mim. Elas não sabem que eu sei... ninguém sabe. Nunca falei a
respeito disso com ninguém antes. Mas quando estava em
Trollesund e Farder Coram, o gípcio, me levou para ver o Cônsul
das Bruxas, o Dr. Lanselius, ele me fez passar por uma espécie de
teste. Disse que eu tinha que sair até o quintal da casa e escolher,
dentre vários galhos de pinheiro-nubígeno, o que tivesse sido
usado por Serafina Pekkala, para mostrar que eu realmente sabia
ler o aletômetro — relatou.
—Bem, eu fiz isso e depois voltei depressa, porque estava
frio e só levou um segundo, foi fácil. O cônsul estava
conversando com Farder Coram e eles não sabiam que eu
estava ouvindo o que diziam.Ele disse que as bruxas tinham uma
profecia a respeito de mim, que eu iria fazer alguma coisa
incrível e importante, e que isso iria acontecer num outro
mundo. . .
"Só que nunca falei disso e acho que devo até ter esquecido
disso, pois havia tantas outras coisas acontecendo. De modo
que, meio que saiu de minha cabeça. Nunca conversei a respeito
disso, nem com Pan, porque acho que ele teria rido na minha
cara" — confessou.
— Mas depois, quando a Sra. Coulter me capturou e me
manteve num estado de transe, fiquei sonhando e sonhando com
isso, e sonhei com você. E me lembrei que Mãe Costa, da
família dos príncipes dos gípcios, do povo das águas, você se
lembra, foi no barco deles que entramos a bordo, em Jerico, com
Simon e Hugh, e eles —
— Claro! E quase navegamos com ele até Abingdon!
Aquilo foi a melhor de todas as coisas que fizemos Lyra! Nunca
vou me esquecer daquilo, mesmo se estiver morto aqui embaixo
por mil anos —
— Certo, mas escute, quando fugi da Sra. Coulter da
primeira vez, sabe, eu encontrei os gípcios de novo e eles
cuidaram de mim e. .. Ah, Roger, mas tem tanta coisa que eu
descobri, você ficaria besta de espanto. . . mas esta é a coisa
importante: foi Mãe Costa que me contou, ela disse que tenho
óleo-de-bruxa na alma, ela disse que sou uma pessoa do fogo —
afirmou.
— E o que acho que isto significa é que ela estava, assim,
meio que me preparando para a profecia das bruxas. Eu sei que
tenho alguma coisa importante a fazer e o Dr. Lanselius, o
cônsul, disse que era vital que eu nunca descobrisse qual é o meu
destino antes que acontecesse, entende, que nunca deveria fazer
perguntas a respeito dele. . . De modo que nunca fiz. Nunca nem
pensei no que poderia ser. Nunca perguntei, nem mesmo ao
aletômetro — continuou.
— Mas agora, eu acho que sei. E encontrar você de novo é
apenas uma espécie de prova. O que tenho que fazer, Roger, o
destino que tenho que cumprir é que tenho que ajudar todos os
fantasmas a saírem da terra dos mortos para sempre. Eu e Will,
nós temos que salvar todos vocês. Tenho certeza de que é isso.
Deve ser. E por causa de Lorde Asriel, por causa de uma coisa
que meu pai disse. . . A morte vai morrer, ele disse. Porém, não
sei o que vai acontecer. Você não deve contar a eles ainda,
prometa. Tenho medo que possa não agüentar até lá.
Mas — Ele estava desesperado para falar, de modo que ela
parou.
—Isso é exatamente o que eu queria contar a você! —
exclamou.
— Eu disse a eles, a todos os outros mortos, eu disse a eles que
você viria! Exatamente como veio e salvou as crianças de
Bolvangar! Eu falei: se alguém puder, esse alguém é Lyra. Eles
desejaram que fosse verdade, queriam acreditar em mim, mas, na
verdade, nunca acreditaram, dava para perceber.
"Para começar — continuou ele —, todas as crianças que
chegam aqui, todas sem exceção, começam dizendo: aposto que
meu pai vai vir me buscar, ou aposto que minha mãe, assim que
souber onde estou, virá me buscar pra me levar de volta pra casa.
Se não é o pai ou a mãe, são os amigos, ou o avô, mas alguém
virá para salvá-los. Só que ninguém nunca vem. De modo que
ninguém acreditou em mim quando eu disse que você viria. Só
que eu estava certo!
— Estava — disse ela —, bem, mas eu não poderia ter vindo
sem o Will. Aquele ali é o Will, e aqueles outros são o Cavaleiro
Tialys e a Lady Salmakia. Tenho tanta coisa para contar a você,
Roger. . .
— Quem é Will? De onde ele veio?
Lyra começou a explicar, sem nem perceber como sua voz
tinha mudado, como se sentava mais ereta e como até seus olhos
ficavam diferentes, quando contava a história de seu encontro
com Will e da luta pela faca sutil. Como poderia ter sabido? Mas
Roger percebeu, com a inveja triste e silenciosa dos mortos
imutáveis.
Enquanto isso, Will e os galivespianos estavam um pouco
afastados, conversando em voz baixa.
— O que vocês vão fazer, você e a menina? — perguntou
Tialys.
— Abrir este mundo e deixar os fantasmas saírem. É para
isto que tenho a faca.
Will nunca tinha visto tamanho espanto no rosto de duas
pessoas, quanto mais aquelas pessoas cuja boa opinião era
importante para ele. Tinha adquirido um grande respeito por
aqueles dois. Eles ficaram sentados em silêncio por alguns
instantes e então Tialys disse:
— Isso vai desfazer tudo. É o maior golpe que se poderia
infligir. A Autoridade vai ficar sem nenhum poder depois disso.
— Como eles poderiam jamais prever isso? — comentou a
pequena dama. — Vai pegá-los completamente desprevenidos!
— E depois, o quê? — perguntou Tialys a Will.
— E depois? Bem, depois nós teremos que sair e encontrar
nossos daemons, imagino. Não pense em depois. Basta pensar em
agora. Eu não falei nada para os fantasmas, caso aconteça... caso
aconteça de não funcionar. De modo que também não digam
nada. Agora vou procurar um mundo que eu possa abrir, e
aquelas harpias estão nos vigiando. De maneira que, se quiserem
ajudar, podem ir e tratar de distraí-las enquanto faço isso.
Imediatamente os galivespianos incitaram suas libélulas a
subir para a escuridão acima, onde as harpias se aglomeravam
como um bando de moscas varejeiras. Will observou os grandes
insetos atacando-as destemidamente, diante de todo mundo,
como se as harpias fossem moscas e eles pudessem abocanhá-las
com suas mandíbulas, por maiores que fossem. Pensou em como
aquelas criaturas cintilantes adorariam quando o céu estivesse
aberto e elas pudessem novamente dar vôos rasantes, a toda a
velocidade, sobre águas límpidas.
Então ele pegou a faca. E imediatamente as palavras que as
harpias haviam lançado contra ele voltaram — as zombadas sobre
sua mãe — e ele parou. Guardou a faca e tentou limpar sua
mente.
Tentou de novo, com o mesmo resultado. Podia ouvi-las
vociferando acima, a despeito da ferocidade dos galivespianos;
elas eram tantas que dois cavaleiros voadores sozinhos podiam
fazer muito pouco para detê-las.
Bem, era assim que as coisas iam ser. Não iriam ficar nem
um pouco mais fáceis. De maneira que Will deixou sua mente
relaxar e se distanciar, e apenas ficou sentado ali, segurando a
faca com os dedos frouxos, até que sentiu que estava pronto
novamente.
Dessa vez a faca penetrou e cortou o ar — e encontrou uma
rocha. Ele tinha aberto uma janela naquele mundo para o subsolo
de um outro mundo. Fechou a janela e tentou de novo.
E a mesma coisa aconteceu, embora ele soubesse que era
um mundo diferente. Tinha aberto janelas antes e encontrara-
se acima do solo de um outro mundo, de modo que não
deveria ter-se surpreendido ao descobrir que estava no subsolo,
para variar, mas era desconcertante.
Na vez seguinte, tateou cuidadosamente, da maneira
como tinha aprendido, deixando que a ponta da faca procurasse
a ressonância que revelava um mundo em que o solo estava no
mesmo lugar. Mas o toque estava errado em todos os lugares
onde procurou com a ponta da faca. Não havia nenhum
mundo, em lugar nenhum, onde pudesse cortar e abrir uma
saída; em toda parte onde tocava, encontrava rocha sólida.
Lyra tinha percebido que alguma coisa estava errada e
levantou-se de um salto, interrompendo sua conversa íntima com
o fantasma de Roger, para correr para o lado de Will.
— O que foi? — perguntou baixinho.
Ele contou a ela e acrescentou:
— Vamos ter que ir para algum outro lugar antes que eu
consiga encontrar um mundo para onde possa cortar uma
abertura. E aquelas harpias não vão nos deixar. Você contou aos
fantasmas o que estávamos planejando?
— Não. Só para Roger, e disse a ele que mantivesse
segredo. Ele sempre faz qualquer coisa que eu peça. Ah, Will,
estou com medo, estou com tanto medo. Podemos nunca sair.
Imagine se ficarmos presos aqui para sempre?
— A faca pode cortar através da rocha. Se precisarmos,
simples mente abriremos um túnel. Vai levar muito tempo e
espero que a gente não tenha que fazer isso, mas podemos fazer.
Não se preocupe.
— Claro. Você tem razão. Claro que podemos.
Mas ela achava que ele parecia estar tão doente, com o rosto
contraído de dor, com olheiras escuras em volta dos olhos e a mão
dele estava tremendo, os dedos sangrando de novo; parecia
estar tão mal quanto ela se sentia. Não poderiam continuar por
muito mais tempo sem seus daemons. Ela sentiu seu próprio
espírito tremer em seu corpo e apertou bem os braços em volta do
corpo, sentindo uma falta desesperada de Pan.
Mas, nesse meio tempo, os fantasmas estavam se agrupando
e se aproximando cada vez mais, coitados, e as crianças,
especialmente, não conseguiam deixar Lyra em paz.
— Por favor — disse uma menina —, não vai se esquecer de
nós quando for embora, não é?
— Não — respondeu Lyra —, nunca.
— Vai falar a eles a respeito de nós?
— Prometo. Qual é o seu nome?
Mas a pobre da menina ficou constrangida e envergonhada:
tinha se esquecido. Deu-lhe as costas, escondendo o rosto, e um
menino falou:
— Acho que é melhor esquecer. Eu me esqueci do meu.
Alguns não estão aqui há muito tempo e ainda sabem quem são.
Há algumas crianças que estão aqui há milhares de anos. Não são
mais velhas que nós e esqueceram quase tudo. Exceto a luz do sol.
Ninguém esquece isso. E o vento.
— Isso — disse um outro —, fale para nós a respeito disso!
E um número cada vez maior deles começou a gritar para
que Lyra lhes falasse sobre as coisas de que se lembrava, o sol, o
vento e o céu, e das coisas de que tinham se esquecido, tipo
como brincar; e ela se virou para Will e cochichou:
— O que devo fazer, Will?
— Fale para eles.
— Estou com medo. Depois do que aconteceu lá atrás, as
harpias
— Fale a verdade. Nós manteremos as harpias à distância.
Ela olhou para ele, hesitante. Na verdade, estava louca de
apreensão. Virou-se de volta para os fantasmas que, em massa,
vinham se aproximando cada vez mais.
— Por favor! — sussurravam. — Você acabou de vir do
mundo! Conte para nós, conte! Fale sobre o mundo.
Havia uma árvore, não muito longe — apenas um tronco
morto com seus galhos, brancos como ossos, estendidos no ar frio
cinzento —, e como Lyra estava se sentindo fraca e porque não
achava que pudesse conseguir andar e falar ao mesmo tempo,
dirigiu-se para lá, para ter um lugar onde sentar. A multidão de
fantasmas se comprimiu e se empurrou para abrir espaço.
Quando estavam quase chegando à árvore, Tialys pousou na
mão de Will e indicou que Will deveria baixar a cabeça para
ouvir.
—Elas estão voltando — disse baixinho —, aquelas harpias.
Um número cada vez maior delas. Fique com a faca preparada. A
dama e eu as manteremos à distância pelo máximo de tempo que
pudermos, mas talvez você precise lutar.
Sem preocupar Lyra, Will afrouxou a faca em sua bainha e
manteve a mão bem perto dela. Tialys decolou de novo e então
Lyra alcançou a árvore e sentou numa das raízes grossas.
Tantos vultos de mortos se aglomeravam à sua volta,
insistindo esperançosos, com os olhos arregalados, que Will teve
que fazê-los recuar para abrir espaço; mas deixou que Roger
ficasse perto, porque ele olhava fixamente para Lyra, ouvindo
cheio de paixão.
E Lyra começou a falar sobre o mundo que conhecia.
Contou-lhes a história de como ela e Roger tinham subido
até o telhado da Faculdade Jordan e encontrado o corvo com a
pata quebrada, e como tinham cuidado dele até ficar bom e estar
pronto para voltar a voar; e como tinham explorado as Adegas
de vinho nos porões, todas cobertas de poeira e teias de aranha,
e bebido um bocado de Canary, ou podia ter sido Tokay, não
sabia dizer qual dos dois, e como tinham ficado embriagados. E o
fantasma de Roger ficou ouvindo, orgulhoso e desesperado,
balançando a cabeça e sussurrando:
— Sim, sim! Isso foi exatamente o que aconteceu, isto é
verdade mesmo!
Então contou a eles sobre a grande batalha entre as crianças
da cidade de Oxford e os filhos dos oleiros.
Primeiro descreveu os Barreiros, tomando cuidado para
incluir tudo de que conseguia se lembrar, os largos tanques de
tintura de cor ocre, o cabo do reboque, os fornos que pareciam
imensas colméias de tijolos. Falou a eles sobre os salgueiros-
chorões nas margens do rio com as folhas todas prateadas por
baixo; e falou de como, quando o sol brilhava por mais de dois
dias, a argila começava a rachar em belas e enormes placas, com
rachaduras profundas entre elas, e como era a sensação de enfiar os
dedos nas rachaduras apertadas e, lentamente, levantar uma
grande placa de argila seca, tentando conservá-la tão grande
quanto podia, sem quebrá-la. A parte de baixo, ainda molhada e
pegajosa, era ideal para atirar nas pessoas.
E descreveu os odores naqueles lugares: a fumaça dos
fornos, o cheiro de mofo de folhas apodrecidas do rio, quando o
vento soprava de sudoeste, o cheiro gostoso das batatas assadas
que os oleiros costumavam comer; e o som da água deslizando
escorregadia sobre as calha?
Que a conduziam aos tanques de lavagem; e a sucção lenta e
forte quando você tentava puxar o pé para fora do chão; e o bater
pesado e molhado das pás das rodas nas comportas, na água
cheia de argila.
Enquanto falava, estimulando todos os sentidos deles, os
fantasmas se acotovelaram mais, chegando cada vez mais perto, se
alimentando de suas palavras, recordando a época em que tinham
carne, pele, nervos e sentidos; e desejando que ela nunca mais
parasse.
Então ela contou como os filhos dos oleiros sempre
declaravam guerra às crianças da cidade, mas como eram lentos e
embotados, com barro no cérebro, e como as crianças da cidade,
em comparação, eram espertas e rápidas como pardais; e como,
certo dia, todas as crianças da cidade e todas as crianças de
todas as faculdades tinham engolido as rivalidades, acertando
uma trégua, e planejado e feito um ataque vindo de três direções
contra os Barreiros, encurralando os filhos dos oleiros na beira
do rio, atirando incontáveis grandes punhados de argila uns nos
outros, ocupando e derrubando o castelo de barro que eles
haviam construído, transformando as fortificações em mísseis, até
que o ar, o solo e a água estivessem total e absolutamente
misturados, e todas as crianças estivessem exatamente iguais:
cobertas de barro dos pés à cabeça; nenhum deles se lembrava de
um dia melhor em toda a sua vida.
Quando acabou, ela olhou para Will, exausta. Então teve
um choque.
Além dos fantasmas, silenciosos e por toda parte, e de seus
companheiros, próximos e vivos, também havia uma outra
platéia; porque os galhos da árvore estavam repletos daquelas
formas escuras de pássaros, seus rostos de mulher olhando
fixamente para ela, solenes e fascinados.
Lyra se levantou, assustada, de repente, mas elas não se
moveram.
— Você — disse, desesperada —, você me atacou antes,
quando tentei lhe contar uma coisa. O que está impedindo você
agora? Vamos, venha e me despedace com suas garras, e faça de
mim um fantasma!
— Esta é a última coisa que faremos — disse a harpia no
centro, que era a própria Sem-Nome. — Escute-me. Milhares de anos
atrás, quando os primeiros fantasmas vieram para cá, a Autoridade
nos concedeu o poder de ver o pior em todo mundo, e nos
alimentamos do pior desde então, até nosso sangue estar rançoso e
fedido disso e nossos corações enojados.
"Mas, mesmo assim, era só o que tínhamos para nos
alimentar. Era tudo o que tínhamos. E agora descobrimos que
vocês estão planejando abrir um caminho para o mundo da
superfície e conduzir todos os fantasmas para fora, para o ar —"
E sua voz áspera foi abafada por um milhão de sussurros, à
medida que todos os fantasmas que podiam ouvir gritavam de
alegria e esperança; mas todas as harpias gritaram e bateram as
asas até que os fantasmas se calaram de novo.
— Sim — gritou Sem-Nome —, querem levá-los para
fora! O que nós faremos agora? Vou lhe contar o que vamos
fazer: de agora em diante, não vamos mais controlar nenhum de
nossos impulsos. Vamos ferir e profanar, rasgar e despedaçar
todo fantasma que entrar e os deixaremos loucos de medo, de
remorso e de ódio por si próprios. Isto aqui agora é um deserto;
nós o tornaremos um inferno!
Todas as harpias sem exceção berraram e escarneceram e
muitas delas levantaram vôo da árvore seguindo direto para cima
dos fantasmas, fazendo com que se dispersassem apavorados.
Lyra agarrou-se ao braço de Will e disse:
— Eles revelaram nosso plano e agora não vamos mais
poder fazer o que tínhamos planejado, eles vão nos odiar, vão
pensar que os traímos! Tornamos as coisas piores, não melhores!
— Fique calada — disse Tialys. — Não se desespere.
Chame-os de volta e faça com que nos ouçam.
De modo que Will gritou:
— Voltem aqui! Voltem aqui, todos vocês! Voltem e
ouçam!
Uma a uma as harpias, com os rostos ávidos e famintos, tingido;
pelo desejo de sofrimento, se viraram e voaram de volta para a
árvore e os fantasmas também se aproximaram. O cavaleiro
deixou sua libélula aos cuidados de Salmakia e sua silhueta
pequenina e tensa, vestida de verde e de cabelos escuros, saltou
sobre um pedregulho onde todos poderiam vê-lo.
— Harpias — disse ele —, podemos lhes oferecer algo
melhor que isso. Respondam às minhas perguntas com
sinceridade e ouçam o que vou dizer, depois tomem a decisão.
Quando Lyra falou com vocês do lado de fora do paredão, vocês
a atacaram. Por que fizeram aquilo?
— Mentiras! — gritaram todas as harpias. —
Mentiras e fantasias!
— Contudo, quando ela falou ainda há pouco, vocês
ouviram, todas vocês, e ficaram quietas e em silêncio. Mais uma vez,
por que foi isso?
— Porque era verdade — disse Sem-Nome. — Porque ela
falou a verdade. Porque ouvir a verdade nos nutriu. Porque
estava nos alimentando. Porque não pudemos nos impedir de
fazer isso. Porque era verdade. Porque não tínhamos nenhuma
idéia de que pudesse haver alguma coisa que não fosse maldade.
Porque ouvir nos trouxe notícias do mundo e do sol, do vento e
da chuva. Porque era verdade.
— Então — propôs Tialys —, vamos fazer um acordo. Em
vez de verem somente a maldade, a crueldade e a cobiça dos
fantasmas que vêm aqui para baixo, de agora em diante vocês
terão o direito de pedir a cada fantasma que lhes conte a história
de sua vida e eles terão que
— contar a verdade sobre o que viram e tocaram, ouviram,
amaram e conheceram no mundo. Cada um desses fantasmas tem
uma história; cada um deles que descer no futuro terá coisas
verdadeiras para contar a vocês sobre o mundo. E vocês terão o
direito de ouvi-los e eles terão que contar.
Lyra ficou maravilhada com a coragem do pequenino
espião. Como ousava falar com aquelas criaturas como se tivesse
poderes para dar-lhes direitos? Qualquer uma delas poderia tê-lo
abocanhado num segundo, despedaçado com suas garras ou
carregado para o alto e depois deixado que despencasse no chão
de maneira que se arrebentasse em pedaços. E no entanto lá
estava ele, orgulhoso e destemido, fazendo um acordo com elas!
E elas ouviram e conferenciaram, os rostos se virando uns para os
outros, as vozes baixas.
Todos os fantasmas ficaram observando, temerosos e
calados.
Então Sem-Nome virou-se de volta.
— Isso não é suficiente — disse ela. — Queremos mais que
isso. Tínhamos uma tarefa de acordo com a antiga dispensação.
Cumpríamos diligentemente a vontade e as ordens da
Autoridade e, por causa disso, éramos honradas. Odiadas e
temidas, mas também respeitadas e honradas. O que acontecerá
com nossa honra agora? Por que os fantasmas haveriam de nos dar
atenção, se simplesmente pudessem sair e voltar para o mundo?
Temos nosso orgulho, e não se deve prescindir disso. Precisamos
de um lugar honroso! Precisamos ter um dever e uma tarefa a
cumprir, isso nos trará o respeito que merecemos!
Elas se agitaram nos galhos, resmungando e levantando as
asas. Mas um instante depois Salmakia saltou para ir se juntar ao
cavaleiro e gritou para elas:
— Vocês têm toda a razão. Todo mundo deve ter uma tarefa a
fazer que seja importante, uma tarefa que lhes traga honra, que
possam desempenhar com orgulho. De modo que esta é a tarefa, e
é uma tarefa que só vocês podem desempenhar, porque são as
guardiãs e as protetoras deste lugar. A tarefa de vocês será guiar os
fantasmas do local de desembarque, na margem do lago, durante
todo o caminho pela terra dos mortos, até a nova abertura para o
mundo. Em troca, eles lhes contarão suas histórias como pagamento
justo e certo por essa orientação. Assim lhes parece correto?
Sem-Nome olhou para suas irmãs e elas assentiram. Então
disse:
— E teremos o direito de recusar guiá-los se mentirem ou
se esconderem alguma coisa, ou se não tiverem nada para nos
contar. Se viveram no mundo, eles deveriam ver e tocar, ouvir,
amar e aprender coisas. Faremos uma exceção no caso de
crianças muito pequenas que não tiveram tempo de aprender
coisa nenhuma, mas caso contrário, se descerem até aqui sem
trazer nada, nós não os levaremos até a saída.
— Isto é justo — declarou Salmakia e os outros
viajantes concordaram.
E assim fizeram um acordo. E em troca da história de Lyra,
que já tinham ouvido, as harpias se ofereceram para levar os
viajantes e sua faca até uma parte da terra dos mortos onde o
mundo superior estava próximo. Ficava a uma grande distância,
passando por túneis e cavernas, mas elas os guiariam fielmente e
todos os fantasmas poderiam segui-los.
Mas antes que pudessem começar, uma voz gritou, tão alto
quanto um sussurro pode gritar. Era o fantasma de um homem
magro com uma voz passional, raivosa, e ele gritou:
— O que vai acontecer? Quando deixarmos o mundo dos
mortos, vamos viver de novo? Ou vamos desaparecer como nossos
daemons! Irmãos e irmãs, não devemos seguir esta criança a
lugar nenhum enquanto não soubermos o que vai acontecer
conosco!
Os outros repetiram a pergunta:
— Sim, diga-nos para onde vamos. Diga-nos o que esperar!
Não iremos enquanto não soubermos o que vai acontecer
conosco!
Lyra virou-se para Will em desespero, mas ele disse:
— Diga a verdade. Pergunte ao aletômetro e conte a eles o
que o aletômetro responder.
— Está bem.
Ela tirou o instrumento dourado da bolsa. A resposta veio
imediatamente. Lyra guardou o aletômetro e se levantou.
— Isto é o que vai acontecer — declarou —, e é verdade,
absolutamente verdade. Quando saírem daqui, todas as
partículas que os constituem se desprenderão e flutuarão se
dispersando, exatamente como aconteceu com seus daemons. Se já
viram pessoas morrerem, sabem como é. Mas seus daemons não
são simplesmente nada agora; eles fazem parte de tudo. Todos os
átomos que eles eram fazem parte do ar e do vento, das árvores,
da terra e de todas as coisas vivas. Eles nunca desaparecerão.
Apenas fazem parte de tudo. E é exatamente o que vai
acontecer com vocês, juro, dou a vocês minha palavra de honra.
Vocês vão se dispersar, é verdade, mas estarão lá fora ao ar livre,
novamente fazendo parte de tudo que está vivo.
Ninguém falou. Aqueles que tinham visto como os
daemons se dissolviam estavam recordando isso e aqueles que
não tinham estavam imaginando, e ninguém falou até que uma
jovem mulher se adiantou. Ela havia morrido como mártir séculos
antes. Olhou para todos em volta e disse:
— Quando estávamos vivos, disseram-nos que quando
morrêssemos iríamos para o céu. E disseram que o céu era um
lugar de alegria e glória, e que passaríamos a eternidade em
companhia dos santos e dos anjos louvando o Todo-poderoso, em
estado de êxtase. Isso é o que nos diziam. E foi o que levou
alguns de nós a dar nossas vidas, e outros a passar anos orando
em isolamento e solidão, enquanto toda a alegria de viver ia se
perdendo, abandonada ao nosso redor, sem que jamais nos
déssemos conta.
"Porque a terra dos mortos não é um lugar de recompensa
nem um lugar de punição. E um lugar de nada. Os bons vêm
para cá da mesma forma que os maus, e todos nós definhamos
aqui nessa escuridão para sempre, sem nenhuma esperança de
libertação ou de alegria, de sono, de descanso ou de paz.
"Mas agora esta criança veio nos oferecer uma saída e eu
vou segui-la. Mesmo que isso signifique o apagamento total,
amigos, eu o receberei de braços abertos, porque não será nada,
estaremos vivos de novo em mil folhas de relva, e em um milhão
de folhas, estaremos caindo nas gotas de chuva e soprando na
brisa fresca, estaremos brilhando no orvalho sob a luz das
estrelas e da lua, lá fora no mundo físico que é nosso verdadeiro
lar e sempre foi.
"De maneira que recomendo e insisto: venham com a
criança para sairmos para o céu!"
Mas seu fantasma foi empurrado, afastado com violência
pelo fantasma de um homem que parecia um monge: magro e
pálido, mesmo depois de morto, com olhos escuros ardentes.
Ele se persignou e murmurou uma prece, depois disse:
— Esta é uma mensagem amarga, uma brincadeira triste e
cruel. Será que não enxergam a verdade? Esta menina não é
uma criança. E uma agente do próprio Satanás! O mundo em que
vivíamos era um vale de depravação e de lágrimas. Nada ali
podia nos satisfazer. Mas o Todo-poderoso nos concedeu este
lugar abençoado por toda a eternidade, este paraíso, que para as
almas caídas parece desolado e árido, mas que os olhos da fé vêem
tal como é, transbordante de leite e mel e ressoando com os doces
hinos dos anjos. Isto é o céu, verdadeiramente! O que esta menina
má promete nada mais é que mentira. Ela quer conduzi-los para
o Inferno! Sigam-na e estarão se expondo por vontade própria
a um grande perigo. Meus companheiros e eu, aqueles de fé
verdadeira, permaneceremos aqui em nosso paraíso abençoado e
passaremos a eternidade cantando louvores ao Todo-poderoso,
que nos concedeu juízo para distinguir a mentira da verdade.
Mais uma vez se persignou e então ele e seus
companheiros se afastaram tomados pelo horror e pela
repugnância.
Lyra sentia-se confusa. Será que estava enganada? Estaria
cometendo algum grande erro? Ela olhou em volta: escuridão e
desolação por toda parte. Mas já havia sido enganada antes pela
aparência das coisas, confiando na Sra. Coulter, por causa de seu belo
sorriso e seu encanto de perfume sedutor. Era tão fácil se enganar
com as coisas; e sem seu daemon para orientá-la, talvez também
estivesse enganada a respeito da presente situação.
Mas Will estava sacudindo seu braço. Depois tomou o
rosto dela nas mãos e o segurou de modo bruto.
— Você sabe que isso não é verdade — declarou —,
exatamente como é capaz de sentir isso. Não dê atenção ao que ele
disse! Eles todos também sabem que ele está mentindo, E
estão contando conosco. Vamos, vamos tratar de ir embora.
Ela assentiu. Tinha que confiar em seu corpo e na verdade
do que seus sentidos lhe diziam; sabia que Pan teria confiado.
E assim eles se puseram em marcha, e os milhões de
fantasmas começaram a segui-los. Atrás deles, muito distante para
que as crianças pudessem ver, outros habitantes do mundo dos
mortos tinham ouvido o que estava acontecendo e estavam vindo
se juntar à grande marcha. Tialys e Salmakia voaram até lá atrás
para olhar, e ficaram radiantes ao ver fantasmas de seu próprio povo
acompanhando, e de todos os outros tipos de seres conscientes que
algum dia haviam sido punidos pela Autoridade com o exílio e a
morte. Entre eles havia seres que não pareciam absolutamente
humanos, seres como os mulefas, que Mary Malone teria
reconhecido, e também fantasmas ainda mais estranhos.
Mas Will e Lyra não tinham forças para olhar para trás; tudo o
que conseguiam fazer era seguir adiante atrás das harpias e ter
esperança.
— Estamos quase chegando, Will? — sussurrou Lyra. —
Isso está quase acabando?
Ele não sabia dizer. Mas estavam tão fracos e doentes
que respondeu:
— Sim, está quase acabando, estamos quase chegando.
Logo estaremos fora daqui.