A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 33 de 39

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A Luneta Âmbar

32. Manhã

MANHÃ

 

NASCE A MANHÃ, A NOITE SE DESFAZ, OS GUARDAS DEIXAM

PARA TRÁS OS POSTOS DE VIGIA...

 

WILLIAM B LAKE

 

M

A vasta pradaria dourada que o fantasma de Lee Scoresby

tinha avistado, por um breve momento pela janela,

estendia-se tranqüila sob os primeiros raios de sol da manhã.

Dourada, mas também amarela, marrom, verde e com

cada um de todos os milhares de matizes de cor entre eles;

e negra, em certos pontos, com linhas e faixas de piche

reluzente; e prateada também, onde o sol refletia as pontas de

um tipo particular de relva, começando a florir; e azul, onde

um amplo lago a alguma distância e um laguinho bem menor,

mais próximo, refletiam a amplitude do azul do céu.

E tranqüila, mas não silenciosa, pois uma brisa suave

fazia farfalhar os bilhões de pequenas hastes, e um bilhão de

insetos e outras pequenas criaturas arranhavam, zumbiam e

cricrilavam na relva, e um passarinho voando em círculos, alto

demais no azul para ser visto, cantava pequenas notas musicais

como a cadência de sinos repicando, ora bem próximo, ora lá

longe e nunca igual.

Em toda aquela vasta paisagem, as únicas coisas vivas que

estavam silenciosas e imóveis eram o menino e a menina deitados

dormindo, de costas um para o outro, à sombra de uma

protuberância de rocha no alto de uma pequena escarpa.

Estavam tão quietos, tão pálidos, que poderiam estar mortos.

A fome havia esticado a pele sobre os ossos de suas faces, o sofrimento

deixado marcas em torno de seus olhos e eles estavam cobertos de

poeira, lama e de uma boa quantidade de sangue. E, pela absoluta

passividade dos membros de seus corpos, pareciam estar nos

últimos estágios de exaustão.

Lyra foi a primeira a acordar. A medida que o sol foi subindo

no céu, ultrapassou a rocha acima e tocou seus cabelos, ela começou

a se mexer ligeiramente e, quando a luz do sol alcançou suas

pálpebras, ela sentiu ser puxada das profundezas do sono como um

peixe: devagar, pesada, resistindo.

Mas não havia como discutir com o sol e, pouco depois, ela

virou a cabeça, jogou o braço sobre os olhos e murmurou:

— Pan. . . Pan. . .

Sob a sombra do braço, ela abriu os olhos e, de fato,

despertou. Durante algum tempo não se mexeu, porque seus braços

e pernas estavam tão doloridos e sentia todas as partes de seu corpo

pesadas e sem forças por causa da exaustão; mas, ainda assim, estava

acordada e sentiu a brisa suave, e o calor do sol, ouviu os ruídos dos

pequenos insetos e o canto como um repicar de sino daquele

passarinho voando bem alto. Tudo aquilo era delicioso. Tinha se

esquecido de como o mundo era bom.

Pouco depois, virou-se para o lado e viu Will, ainda

profundamente adormecido. A mão dele tinha sangrado muito; sua

camisa estava rasgada e imunda, o cabelo duro de poeira e suor.

Ficou olhando para ele durante muito tempo, para a pequena

pulsação em sua garganta, para o peito que subia e descia

lentamente, para as sombras delicadas que seus cílios criaram

quando o sol finalmente os alcançou.

Ele murmurou alguma coisa e se mexeu de leve. Não querendo

ser apanhada olhando para ele, ela olhou para o outro lado, para a

pequena cova que tinham aberto na noite anterior, com apenas uns

dois palmos de largura, onde os corpos do Cavaleiro Tialys e de Lady

Salmakia agora repousavam. Havia uma pedra achatada ali perto: ela

se levantou sobre o cotovelo, desprendeu-a do solo e a enfiou

verticalmente na parte de cima da cova, então se sentou ereta e

protegeu os olhos do sol com a mão para contemplar a planície.

Parecia sem fim, se estendendo interminavelmente. Em

nenhum ponto era inteiramente plana; ondulações suaves e

pequenas elevações e vales tornavam a superfície diferente para

onde quer que olhasse e, aqui e ali, via grupos de árvores, tão

altas que pareciam mais ser construções do que árvores que

haviam crescido: seus troncos retos e copas verde-escuras

pareciam desafiar a distância, estando tão claramente visíveis no

que deveria ser uma extensão de muitos quilômetros.

Mais perto, no entanto — na verdade, na base da escarpa, a

não mais de 90 metros —, havia um laguinho alimentado por uma

corrente de água que vinha de uma nascente na rocha e Lyra se deu

conta de como estava com sede.

Ela se levantou com as pernas trêmulas e foi andando devagar

naquela direção. A nascente brotava gorgolejando e corria em meio

às rochas cobertas de musgo e ela enfiou as mãos na corrente

d'água uma porção de vezes, lavando-as e limpando a lama e fuligem

antes de levá-las em concha à boca para beber. A água estava gelada

de doer os dentes e Lyra bebeu deliciando-se.

As margens do laguinho eram orladas de juncos, onde um

sapo coaxava. Suas águas eram rasas e mais quentes que as da

nascente, como descobriu quando tirou os sapatos e foi entrando nele.

Ficou parada ali por um longo tempo, com o sol na cabeça e seu

corpo deliciando-se com a lama fresca sob seus pés e o fluxo das

águas frias da nascente correndo em volta de suas pernas.

Ela se abaixou para mergulhar o rosto na água e molhar o

cabelo todo, deixando-o boiar e depois mergulhando de novo,

esfregando-o com os dedos para limpar a poeira e fuligem.

Quando se sentiu um pouco mais limpa e a sede estava

saciada, olhou para o alto da escarpa de novo, para ver se Will havia

acordado. Ele estava sentado com os joelhos encolhidos e os braços

apoiados neles, observando a amplidão da planície como ela havia

feito e maravilhando-se com sua extensão. E com a luz, o calor e a

tranqüilidade.

Ela subiu de volta devagar para se juntar a ele e o encontrou

gravando os nomes dos galivespianos na pequena lápide, depois

enfiando-a mais firmemente no solo.

— Eles estão...? — perguntou ele, e Lyra soube que se

referia aos daemons.

— Não sei. Ainda não vi Pan. Tenho a sensação de que ele

não está longe, mas não sei. Você se lembra do que aconteceu?

Ele esfregou os olhos e deu um bocejo tão grande que ela

ouviu suas mandíbulas estalarem. Depois piscou os olhos e sacudiu a

cabeça.

— Não muito bem — respondeu. — Eu peguei Pan e você

pegou... a outra, atravessamos a janela e estava tudo iluminado pelo

luar e eu o botei no chão perto da janela.

— E a sua... o outro daemon simplesmente saiu pulando

dos meus braços — disse ela. — E eu estava tentando ver o Sr.

Scoresby pela janela, e Iorek, e para onde Pan tinha ido, e quando

olhei em volta eles não estavam mais lá.

— Mas não tenho mais aquela sensação que tive quando

entramos no mundo dos mortos. Quando ficamos realmente

separados.

— Não — concordou ela. — Eles com certeza estão em

algum lugar por perto. Eu me lembro de quando éramos

pequenos e costumávamos brincar de esconder, só que nunca

realmente funcionava, porque eu era grande demais para me

esconder dele e sempre sabia exatamente onde ele estava, mesmo

que se camuflasse de mariposa ou coisa assim. Mas isto é esquisito

— observou, passando a mão sobre a cabeça involuntariamente,

como se estivesse tentando desfazer algum encantamento —, ele

não está aqui, mas não me sinto como se estivesse faltando um

pedaço, me sinto segura e não sei onde ele está.

— Acho que eles estão juntos — disse Will.

— É, devem estar.

Ele se levantou de repente.

— Olhe — mostrou —, ali adiante. . . Will estava sombreando os olhos e apontando. Ela seguiu a

direção de seu olhar e viu um tremor distante de movimento, bem

diferente do tremeluzir da névoa de calor.

— Animais? — perguntou ela em tom de dúvida.

— E ouça — disse ele, pondo a mão em concha atrás da

orelha. Agora que Will tinha chamado sua atenção, Lyra ouviu o

som de um ribombar baixo, contínuo, quase como uma trovoada,

vindo de muito longe.

— Eles desapareceram — disse Will, apontando.

A pequena mancha de sombras em movimento havia

desaparecido, mas o som de trovoada se prolongou por alguns

instantes. Então tudo ficou repentinamente mais tranqüilo, embora

já tivesse estado muito tranqüilo antes. Os dois ainda estavam

olhando para a mesma direção e, pouco depois, viram o movimento

começar de novo. E alguns momentos depois veio o som.

— Eles entraram atrás de uma elevação ou coisa assim —

comentou Will. — Acha que estão mais perto?

— Sinceramente não consigo ver. Sim, estão se virando, olhe,

eles estão vindo para cá.

— Bem, se tivermos que lutar com eles, quero beber água

antes — disse Will e levou a mochila até a nascente, onde bebeu

bastante água e se lavou, limpando a maior parte da sujeira. Seu

ferimento tinha sangrado muito. Ele estava imundo; louco por um

banho de chuveiro quente com muito sabão e roupas limpas para

vestir depois.

Lyra estava observando os. . . lá o que fossem; eram realmente

muito estranhos.

— Will — chamou ela —, eles estão montados em rodas. . .

Mas ela disse isso em tom incerto. Ele subiu um pouco mais

acima na encosta e sombreou os olhos para olhar. Agora era

possível ver indivíduos. O grupo ou rebanho ou bando era de

cerca de uma dúzia e eles estavam se movendo, como Lyra dissera,

sobre rodas. Pareciam um cruzamento de antílopes com

motocicletas, mas eram ainda mais estranhos que isso: tinham

trombas como pequenos elefantes.

E estavam vindo na direção de Will e Lyra, com um ar de

determinação. Will puxou a faca, mas Lyra, sentada na relva a seu

lado, já estava girando os ponteiros do aletômetro.

O instrumento respondeu depressa, enquanto as criaturas

ainda estavam a uns 90 metros de distância. O ponteiro girou

rapidamente para a esquerda e para a direita, e Lyra o observou

ansiosamente, pois suas últimas leituras tinham sido tão difíceis e sua

mente se sentia desajeitada e hesitante enquanto ia descendo pelas

ramificações de compreensão. Em vez de voar rapidamente como

um pássaro, ela seguiu se segurando com as mãos em busca de apoio;

mas o significado estava lá, sólido como sempre, e logo

compreendeu o que estava dizendo.

— Eles são amigos — declarou —, está tudo bem, Will, estão

procurando por nós, sabem onde estávamos. . . E, é muito

estranho, não consigo entender muito bem. . . a Dra. Malone?

Ela disse o nome meio que para si mesma, porque não

conseguia acreditar que a Dra. Malone estivesse naquele mundo.

No entanto, o aletômetro a havia indicado claramente, embora, é

claro, não pudesse dizer seu nome. Lyra guardou o instrumento e se

levantou lentamente ao lado de Will.

— Acho que deveríamos descer para encontrá-los — disse.

— Não vão nos fazer mal.

Alguns deles tinham parado, esperando. O líder se adiantou

um pouco, com a tromba erguida, e eles puderam ver como se

impulsionava, com fortes empurrões para trás com os membros

laterais. Alguns dos seres tinham ido até o laguinho para beber água;

outros esperavam, mas não com a curiosidade passiva de vacas

reunidas junto de uma porteira. Aqueles seres eram indivíduos,

animados por inteligência e propósito. Eles eram gente.

Will e Lyra desceram pela encosta até estarem perto o

bastante para falar com eles. A despeito do que Lyra tinha dito, Will

manteve a mão na faca.

— Não sei se vocês me compreendem — disse Lyra

cautelosamente —, mas sei que são amigos. Acho que deveríamos

— O líder moveu a tromba e disse:

— Venha ver Mary. Vocês montam. Nós levamos. Venha

ver Mary.

— Ah! — exclamou ela e virou-se para Will, sorrindo cheia

de satisfação.

Dois dos seres estavam equipados com rédeas e estribos de

corda trançada. Sem selas; mas seus dorsos em forma de losango se

revelaram bastante confortáveis sem elas. Lyra havia montado num

urso e Will andava de bicicleta, mas nenhum deles havia montado a

cavalo, que era a comparação mas próxima. Contudo, os cavaleiros

que montam cavalos geralmente estão no comando, e as crianças

logo descobriram que não estavam: as rédeas e estribos estavam lá

simplesmente para dar-lhes alguma coisa em que se segurar e se

equilibrar. Os seres é que tomavam todas as decisões.

— Onde estão — Will começou a falar, mas teve que parar e

recuperar o equilíbrio quando o ser se moveu.

O grupo fez meia-volta e desceu a encosta suave, seguindo

devagar pela relva. O movimento era sacolejante, mas não

desconfortável, porque os seres não tinham coluna dorsal: Will e

Lyra tinham a impressão de estarem sentados em cadeiras com

assentos macios de mola.

Logo chegaram ao que não tinham visto claramente da

escarpa: um daqueles trechos de solo negros ou marrom-escuros.

A estrada se parecia mais com um curso d’água que com uma via

expressa, porque em certos lugares se alargava em áreas amplas

como pequenos lagos e em outros se dividia em canais estreitos só

para se unir mais adiante imprevisivelmente. Era completamente

diferente da maneira racional e brutal com que as estradas cortavam

as encostas de colinas e se estendiam em pontes de concreto. Aqui

aquilo era parte integrante da paisagem, não algo imposto a ela.

Estavam seguindo em velocidade cada vez maior. Will e Lyra

levaram algum tempo para se habituar ao impulso vivo dos

músculos e ao rugido trepidante das rodas duras sobre a pedra dura.

Lyra inicialmente teve mais dificuldade que Will, pois nunca tinha

andado de bicicleta e não conhecia o truque de se inclinar para o

lado; mas observou como ele fazia e logo estava achando a

velocidade deliciosa.

As rodas faziam barulho demais para que pudessem conversar.

Em vez disso, tinham que apontar para as árvores, com espanto diante

de seu tamanho e esplendor; para um bando de passarinhos, os mais

estranhos que já tinham visto, as asas à frente e atrás dando-lhes um

movimento em espiral no ar; para um gordo lagarto azul do

comprimento de um cavalo, tomando banho de sol bem no meio da

estrada (os seres de rodas se dividiram para passar pelos lados dele e

o lagarto não deu a menor bola).

O sol estava alto no céu quando começaram a reduzir a

velocidade. E no ar pairava o cheiro salgado inconfundível do mar.

A estrada estava subindo para uma encosta e pouco depois estavam

se movendo na mesma velocidade de alguém andando a pé.

Dolorida e com os músculos enrijecidos, Lyra disse:

— Pode parar? Quero desmontar e andar.

O ser que a transportava sentiu o puxão nas rédeas e quer

tenha compreendido ou não suas palavras, ele se deteve. O de Will

também parou e as duas crianças desmontaram, sentindo-se

doloridas e com os músculos enrijecidos depois da trepidação e

tensão constantes.

Os seres viraram-se para falar uns com os outros, suas

trombas se movendo elegantemente no mesmo compasso dos

sons que faziam. Depois de um minuto seguiram adiante, e Will e

Lyra ficaram satisfeitos de caminhar em meio aos seres com cheiro

de feno e relva cálida que iam rolando sobre suas rodas ao lado

deles. Um ou dois tinham seguido à frente para o topo da elevação

e as crianças, agora que não precisavam mais se concentrar em se

segurar, puderam observar como eles se moviam, e admirar a graça e

a força com que se propeliam para a frente e se inclinavam para

fazer curvas.

Quando chegaram ao alto da encosta, pararam e Will e Lyra

ouviram o líder dizer:

— Mary perto. Mary lá.

Olharam para baixo. No horizonte havia o reflexo azul do mar.

Um rio largo de curso lento serpenteava em meio ao pasto a meia

distância e na base da longa encosta, entre capoeiras de pequenas

árvores e fileiras de plantações de verduras, havia um povoado de casas

com teto de colmo. Mais seres iguais àqueles se movimentavam entre as

casas ou cuidavam das plantações ou trabalhavam entre as árvores.

— Agora, montem de novo — disse o líder.

Não faltava muito para chegarem. Will e Lyra montaram

novamente e os outros seres examinaram meticulosamente se estavam

bem equilibrados e verificaram os estribos com suas trombas, como se

estivessem assegurando-se de que estavam em segurança.

Então eles partiram, batendo na estrada com os membros

laterais, e se impulsionando para a frente para descer a encosta até

estarem se movendo numa velocidade assombrosa. Will e Lyra

seguraram-se firme com mãos e joelhos e sentiram o ar passar

chicoteando por seus rostos, lançando seus cabelos para trás e

fazendo pressão em seus olhos. O trovejar das rodas, o passar

rápido do pasto dos dois lados, a inclinação certeira e poderosa na

curva ampla adiante, o deleite lúcido da velocidade — aqueles seres

adoravam aquilo e Will e Lyra sentiram o contentamento deles e

riram felizes em resposta.

Eles pararam no centro do povoado e os outros que os

tinham visto a caminho se reuniram levantando as trombas e

dizendo palavras de boas-vindas.

E então Lyra exclamou:

— Dra. Malone!

Mary tinha saído de uma das choupanas, a camisa azul

desbotada, seu corpo forte, as faces coradas e calorosas, ao mesmo

tempo estranhas e familiares.

Lyra correu e a abraçou e a mulher lhe deu um abraço

apertado e Will ficou para trás, cauteloso e hesitante.

Mary beijou Lyra carinhosamente e depois se adiantou para

dar as boas-vindas a Will. E então houve uma curiosa dança mental

de simpatia e acanhamento, que ocorreu em um segundo ou

menos.

Movida pela compaixão pelo estado em que eles estavam, Mary

inicialmente quis abraçá-lo como a Lyra. Mas Mary era uma adulta e

Will era quase adulto e ela percebeu que aquele tipo de reação teria

feito dele uma criança, porque ela poderia ter abraçado e beijado um

menino, mas nunca teria feito isso com um homem que não

conhecesse; de modo que recuou mentalmente, querendo sobretudo

demonstrar respeito por aquele amigo de Lyra e não fazer com que

ele se sentisse diminuído.

De modo que, em vez disso, estendeu a mão, ele a apertou e

uma corrente tão poderosa de compreensão e de respeito fluiu entre

os dois que imediatamente tornou-se uma afeição, e cada um dos

dois sentiu que tinha feito um amigo para o resto da vida; como de

fato fizeram.

— Este é Will — disse Lyra —; ele vem de seu mundo,

lembra-se, eu falei dele —

— Sou Mary Malone — apresentou-se —, e vocês estão com

fome, todos os dois, parecem estar morrendo de fome.

Ela se virou para o ser a seu lado e pronunciou alguns

daqueles sons cantados, apitados, movendo o braço enquanto o

fazia.

Imediatamente os seres se afastaram e alguns deles trouxeram

almofadas e tapetes da casa mais próxima e os colocaram na terra

firme debaixo de uma árvore próxima, cujas folhas densas e galhos

baixos ofereciam uma sombra fresca e perfumada.

Tão logo eles estavam confortavelmente acomodados, os

anfitriões trouxeram tigelas cheias até a borda de leite que tinha

uma leve adstringência de limão e era maravilhosamente refrescante;

e pequenas nozes semelhantes a avelãs, mas com um sabor mais

forte, amanteiga-do; e salada feita com verduras frescas acabadas de

ser colhidas, folhas crocantes de sabor forte, apimentado, misturadas

com outras macias e grossas que escorriam uma seiva cremosa, e

pequenas raízes do tamanho de cerejas, com sabor de cenouras

doces.

Mas eles não conseguiram comer muito. Era tudo forte e

suculento demais. Will queria fazer justiça à generosidade deles, mas

a única coisa que conseguiu engolir com facilidade, além da bebida,

foi um pão achatado, de farinha ligeiramente tostada, parecendo

chapatis ou tortilhas. Era simples e nutritivo e foi tudo o que Will

conseguiu comer. Lyra provou um pouco de tudo, mas como Will,

logo descobriu que um pouquinho era mais que o suficiente.

Mary conseguiu evitar fazer perguntas. Aqueles dois tinham

passado por uma experiência que os havia marcado profundamente:

ainda não queriam falar a respeito dela.

De modo que respondeu às perguntas deles sobre os mulefas e

relatou brevemente como havia chegado àquele mundo; então ela os

deixou à sombra da árvore, porque podia ver que estavam com as

pálpebras pesadas e cabeceando de sono.

— Agora vocês não precisam fazer nada, só dormir —

declarou.

A tarde estava agradável e calma, e a sombra da árvore era

modorrenta e murmurante com o som de grilos. Menos de cinco

minutos depois de terem tomado o último gole da bebida, tanto

Will como Lyra dormiam profundamente.

Eles são de dois sexos diferentes?, perguntou Atai, surpreendida.

Mas como pode distinguir?

É fácil, disse Mary. Seus corpos têm formas diferentes. Eles se

mexem de maneiras diferentes.

Eles não são muito menores que você. Mas têm menos sraf

Quando isso chegará para eles?

Não sei, respondeu Mary. Imagino que dentro de muito pouco

tempo. Não sei quando acontece conosco.

Não têm rodas, comentou Atai em tom de simpatia. Elas estavam limpando a horta. Mary tinha feito uma enxada

para evitar ter que se agachar; Atai usava sua tromba, de modo que a

conversa era intermitente.

Mas você sabia que eles estavam vindo, disse Atai. Sabia.

Foram os palitos que disseram?

Não, respondeu Mary, corando. Ela era uma cientista; já era

bastante mau ter que admitir que consultava o I Ching, mas isso

era ainda mais constrangedor. Foi uma imagem-noite, confessou.

Os mulefas não tinham uma palavra determinada, específica

para sonho. Contudo, eles sonhavam vividamente e levavam muito

a sério seus sonhos.

Você não gosta de imagens-noite, disse Atai. Sim, eu gosto. Mas não acreditava nelas até agora. Vi o menino e

a menina tão claramente, e uma voz me disse que eu me preparasse

para a vinda deles.

Que tipo de voz? Como falou com você se não podia ver?

Era difícil para Atai imaginar a fala sem os movimentos da

tromba que a esclareciam e a definiam. Ela havia parado no meio de

uma fileira de pés de feijão e se virado para encarar Mary com uma

curiosidade fascinada.

Bem, mas eu vi, respondeu Mary. Era uma mulher, ou uma voz

feminina, como a nossa, como a de meu povo. Mas muito idosa e ao

mesmo tempo nada idosa.

Pessoa de saber, era assim que os mulefas chamavam seus

líderes. Ela viu que Atai a estava olhando intensamente interessada.

Como ela podia ser velha e também não velha?, perguntou Atai. É um faz-parece, respondeu Mary. Atai balançou a tromba, tranqüilizada.

Mary prosseguiu tentando explicar o melhor que podia. Ela

me disse que eu deveria esperar as crianças, quando eles apareceriam e

onde. Mas não por quê. Devo cuidar deles, protegê-los.

Estão feridos e cansados, disse Atai. Eles vão fazer o sraf parar de

ir embora?

Mary olhou para cima inquieta. Sabia, sem precisar

confirmar olhando pela luneta, que as partículas de Sombra estavam

fluindo para longe mais rapidamente que nunca.

Espero que sim, respondeu. Mas não sei como.

Ao cair da tarde, quando as fogueiras para cozinhar foram acesas

e as primeiras estrelas estavam surgindo, chegou um grupo de

estranhos. Mary estava se lavando; ouviu o trovoar de suas rodas e o

murmúrio agitado da conversa, e se apressou em sair de sua casa, se

enxugando.

Will e Lyra tinham dormido a tarde inteira e só agora estavam

começando a se mexer, ao ouvir o barulho. Lyra se levantou, ainda

meio tonta, para ver Mary falando com cinco ou seis mulefas que a

rodeavam, claramente excitados; mas se estavam aborrecidos ou

contentes, não sabia dizer.

Mary a viu e se afastou do grupo.

— Lyra — disse —, aconteceu alguma coisa... eles

descobriram uma coisa que não sabem explicar e é. . . eu não sei o

que é. . . tenho que ir até lá e olhar. Fica a mais ou menos uma

hora daqui. Volto assim que puder. Pode pegar e usar tudo o que

precisar em minha casa... não posso demorar, eles estão muito

nervosos —

— Tudo bem — respondeu Lyra, ainda atordoada pelo

longo tempo de sono.

Mary olhou para a sombra da árvore. Will estava esfregando

os olhos.

— Realmente não vou demorar muito — prometeu ela. —

Atai vai ficar com vocês.

O líder estava impaciente. Rapidamente, Mary colocou as

rédeas e os estribos no dorso dele, desculpando-se pela falta de

jeito, e montou imediatamente. Eles circularam, tomando

impulso, depois se viraram e se afastaram sob a luz do anoitecer.

Seguiram numa nova direção, acompanhando a cadeia de

colinas que se elevava acima da costa em direção ao norte. Mary

nunca tinha viajado no escuro antes e achou a velocidade ainda

mais assustadora do que de dia. A medida que iam subindo, Mary

podia ver o brilho do luar refletindo no mar a alguma distância à

esquerda e sua luz sépia-prateada parecia envolvê-la num

encantamento fresco e cético. O encantamento estava dentro dela

e o ceticismo estava no mundo que a cercava, o frescor estava

presente nos dois.

Olhava para o alto de vez em quando e tocava na luneta em

seu bolso, mas não podia usá-la enquanto não tivessem parado. E

aqueles mulefas estavam se movendo com grande velocidade, com

o ar de que não quereriam parar para nada. Depois de uma hora de

percurso veloz, eles viraram em direção ao interior, deixando a

estrada de pedra e seguindo lentamente por uma trilha de terra

batida que se estendia entre o pasto de relva alta, passando por um

grupo de árvores-das-rodas, e subia para uma cadeia de colinas. A

paisagem reluzia sob a luz do luar: amplas colinas nuas com

pequenos vales ocasionais onde correntes d'água desciam,

borbulhando, entre as árvores que se aglomeravam às suas

margens.

Foi em direção a um desses vales que eles a conduziram.

Mary tinha desmontado quando eles deixaram a estrada e

caminhou em ritmo constante, acompanhando o ritmo deles até o

alto da colina, e desceu para o vale.

Ouviu o borbulhar da nascente e o vento noturno soprando na

relva. Ouviu o som suave das rodas girando sobre a terra bem

batida e ouviu os mulefas mais adiante dela murmurando uns com

os outros, e então eles pararam.

Na encosta da colina, a apenas uns poucos metros de

distância, havia uma daquelas aberturas feitas pela faca sutil. Era

como a boca de uma caverna, pois o luar iluminava um pequeno

trecho de sua parte interna, como se o interior da abertura fosse o

interior da colina: mas não era. E da abertura estava saindo uma

procissão de fantasmas.

Mary teve a sensação de que o chão tinha se aberto sob sua

mente. Ela se controlou sobressaltada, agarrou-se ao galho mais

próximo, para se assegurar de que ainda havia um mundo físico e

que fazia parte dele.

Ela se aproximou. Homens e mulheres idosos, crianças,

bebês de colo, seres humanos e também outros seres, cada vez

em grupos mais compactos, saíam da escuridão para o mundo

do luar sólido — e desapareciam.

Era a mais estranha das coisas. Eles davam alguns passos no

mundo de relva, ar e luz prateada, olhavam ao redor, seus rostos

transfigurados de felicidade — Mary nunca tinha visto tamanha

felicidade —, e estendiam os braços abertos para o alto como se

estivessem abraçando o universo inteiro; e então, como se fossem

feitos de neblina ou de fumaça, simplesmente saíam flutuando, se

desfazendo, tornando-se parte da terra, do orvalho e da brisa

noturna.

Alguns deles se aproximaram de Mary, como se quisessem

dizer alguma coisa a ela, e estenderam as mãos, e ela sentiu o toque

deles como pequenos choques de frio. Um dos fantasmas — de

uma mulher idosa — acenou, insistindo para que ela se

aproximasse.

Então ela falou e Mary a ouviu dizer:

— Temos que contar histórias a elas. Era disso que não

sabíamos. Todo esse tempo e nunca soubemos! Mas elas precisam

da verdade. É isso que as alimenta. Você tem que contar histórias

verdadeiras e tudo fica bem, tudo. É só contar-lhes as histórias.

E isso foi tudo. Foi um daqueles momentos como quando nos

recordamos, de repente, de um sonho que, inexplicavelmente,

havíamos esquecido, e numa torrente toda a emoção que havíamos

sentido durante o sono volta. Era o sonho que ela tinha tentado

explicar a Atai, a imagem-noite; mas quando Mary tentou

encontrá-la de novo, ela se dissolveu e se afastou, exatamente como

aquelas presenças estavam fazendo ao chegar ao ar livre. O sonho

havia desaparecido.

Tudo o que restou foi a doçura do sentimento e a

recomendação insistente de contar-lhes histórias.

Ela olhou para a escuridão. Até onde podia enxergar naquele