A Luneta Âmbar
28. Meia-Noite
dúzia ou mais de enormes pássaros brancos como neve, cada um do
tamanho de um barco a remo, com longas asas retas que se
arrastavam na água deixando uma esteira atrás deles: asas muito
longas, com 1,80m ou mais de comprimento. Seriam realmente pássaros? Tinham penas e as cabeças e bicos não eram muito
diferentes das de cisnes, mas aquelas asas ficavam situadas uma na
frente da outra, certamente. . .
De repente, eles o avistaram. Cabeças se viraram bruscamente
e, instantaneamente, todas aquelas asas se levantaram bem alto,
exatamente como as velas de um iate, e todas elas se inclinaram para
receber o impulso da brisa, rumando para terra.
O Padre Gomez ficou impressionado com a beleza daquelas
asas-velas, com a maneira como se flexionavam e ajustavam tão
perfeitamente e com a velocidade dos pássaros. Então ele viu que
também estavam remando: tinham pernas debaixo d'água, situadas
não na frente e atrás como as asas, mas lado a lado, e, com as asas e
as pernas se movendo juntas, tinham uma extraordinária velocidade
e graça de movimento na água.
Quando o primeiro chegou à costa, veio andando pesadamente
pela areia seca, diretamente para o padre. Estava sibilando cheio de
maldade, estocando com a cabeça para a frente, como um punhal,
enquanto vinha bamboleando, subindo pela praia, e o bico
abocanhava e estalava. E o bico também tinha dentes, como uma
série de ganchos afiados encurvados.
O Padre Gomez estava a cerca de 90 metros da beira da
água, num longo promontório coberto de relva, e teve tempo de
sobra para botar a mochila no chão, tirar o rifle, carregá-lo e atirar.
A cabeça do pássaro explodiu numa neblina de vermelho-e-
bran-co e a criatura morta continuou andando desajeitadamente,
dando vários passos, antes de tombar sobre o peito. Ainda levou
um minuto ou mais para morrer; as pernas chutavam, as asas
subiam e desciam e o grande pássaro se debateu, dando volta após
volta, num círculo sangrento, chutando para o alto a relva áspera,
até que uma longa expiração borbulhante de seus pulmões acabou
com um gorgolejante jorro vermelho, e ele tombou imóvel.
Os outros pássaros tinham parado assim que o primeiro caiu e
ficaram imóveis, observando-o e observando o homem também.
Havia uma inteligência rápida, feroz nos olhos deles. Olhavam do
homem para o pássaro morto e daí para o rifle, e do rifle para o
rosto dele.
Ele levantou o rifle levando-o ao ombro de novo e os viu
reagir, movendo-se para trás desajeitadamente, juntando-se num
grupo. Eles tinham compreendido.
Eram seres belos e fortes, grandes e de costas largas; na
verdade, eram como barcos vivos. Se sabiam o que era a morte,
pensou o Padre Gomez, e se podiam compreender a ligação entre a
morte e ele, então havia a base para um acordo útil entre eles.
Depois que tivessem realmente aprendido a temê-lo, fariam
exatamente o que ele mandasse.
MEIA-N OITE
INÚMERAS VEZES ME SENTI SEMI-APAIXONADO PELA
INDULGÊNCIA DA MORTE...
JOHN K EATS
— Marisa, acorde. Estamos quase pousando — disse Lorde
Asriel.
Um dia tempestuoso estava raiando sobre a fortaleza de basalto
quando a nave da intenção chegou voando, vinda do sul. Dolorida e
desgostosa, a Sra. Coulter abriu os olhos; não estivera dormindo. Viu
o anjo Xaphania planando acima do campo de pouso e depois se
elevando e seguindo para a torre enquanto a nave da intenção seguia
para a plataforma atrás das trincheiras.
Assim que a nave pousou, Lorde Asriel saltou rapidamente e
correu para se juntar ao Rei Ogunwe na torre de observação a oeste,
ignorando por completo a Sra. Coulter. Os técnicos que vieram
imediatamente cuidar da aeronave também não lhe deram nenhuma
atenção; ninguém lhe fez perguntas sobre a perda da aeronave que ela
havia roubado; era como se ela tivesse se tornado invisível. Dominada
pela tristeza, ela seguiu para os aposentos na torre adamantina, onde
um ordenança ofereceu-se para lhe trazer algo que comer e café.
— Qualquer coisa serve — disse ela. — E obrigada. Ah, a
propósito — prosseguiu, quando o homem se virava para ir embora
—, o aletometrista de Lorde Asriel, o Sr. . .
— Sr. Basilides?
— Sim. Ele estaria livre para vir até aqui um instante?
— Está trabalhando com seus livros, no momento,
madame. Pedirei a ele que venha até aqui quando puder.
Ela se lavou e se trocou, vestindo a única camisa limpa que
lhe restava. O vento frio que sacudia as janelas e a luz da manhã
cinzenta a fizeram tiritar. Colocou mais carvão no braseiro, na
esperança de que aquilo a fizesse parar de tremer, mas o frio estava
em seus ossos, não só na carne.
Dez minutos depois, houve uma batida à porta. O
aletometrista, pálido, de olhos escuros, com seu daemon rouxinol pousado no ombro, entrou e fez uma pequena mesura. Um
momento depois o ordenança voltou trazendo uma bandeja com
pão, queijo e café, e a Sra. Coulter disse:
— Muito obrigada por ter vindo, Sr. Basilides. Posso lhe
oferecer alguma coisa?
— Aceito um café, obrigado.
— Por favor, diga-me — pediu ela, depois de servir a bebida
—, pois tenho certeza que tem estado acompanhando o que
aconteceu: minha filha está viva?
Ele hesitou. O macaco dourado agarrou o braço da Sra.
Coulter.
— Ela está viva — disse Basilides cautelosamente —,
mas também. . .
— Está? Ah, por favor, o que está querendo dizer?
— Ela está no mundo dos mortos. Durante algum tempo
não consegui interpretar o que o instrumento estava me dizendo:
parecia impossível. Mas não há dúvida. Ela e o menino foram
para o mundo dos mortos e abriram uma passagem para os
fantasmas saírem. Tão logo os mortos chegam ao ar livre, eles se
dissolvem como fizeram seus daemons e parece que este é o fim mais agradável e desejável para eles. E o aletômetro me diz que a
menina fez isso porque ela ouviu uma profecia de que a morte
chegaria ao fim, e achou que esta era uma tarefa que deveria
realizar. Em resultado disso, agora existe uma saída do mundo dos
mortos.
A Sra. Coulter não conseguia falar. Teve que se virar e ir até a
janela para esconder a emoção em seu rosto. Finalmente disse:
— E ela sairá de lá viva? Mas não, eu sei que o senhor não
pode prever. Ela está. . . como está ela?. . . Ela. . .
— Ela está sofrendo, sentindo dor, está com medo. Mas
tem a companhia do menino e dos dois espiões galivespianos, e
todos ainda estão juntos.
— E a bomba?
— A bomba não a feriu.
A Sra. Coulter se sentiu exausta, de repente. Não queria mais
nada além de se deitar e dormir durante meses, durante anos. Lá
fora, a corda da bandeira no mastro estalou e se sacudiu com
estrépito sob o vento, e as gralhas grasnaram enquanto voavam em
círculos ao redor das fortificações.
— Muito obrigada, senhor — disse ela, virando-se de volta
para o leitor. — Estou muito agradecida. Por favor, poderia me avisar
se descobrir mais alguma coisa a respeito dela, ou de onde ela está,
ou o que está fazendo?
O homem fez uma mesura e se retirou. A Sra. Coulter foi se
deitar na cama de campanha, mas, por mais que tentasse, não
conseguiu manter os olhos fechados.
— O que acha daquilo, Rei? — perguntou Lorde Asriel.
Ele estava olhando pelo telescópio da torre de observação para
alguma coisa no céu a oeste. Tinha a aparência de uma montanha
pendurada no céu, um palmo acima do horizonte e coberta por
nuvens. Estava a uma grande distância, tão distante, na verdade,
que não era maior que uma unha de polegar afastada à distância de
um braço estendido. Mas não estava ali há muito tempo, e se
mantinha parada lá, absolutamente imóvel.
O telescópio trouxe-a para mais perto, mas não havia maiores
detalhes: uma nuvem ainda tem a aparência de uma nuvem, por mas
ampliada que seja.
— A Montanha Nublada — respondeu Ogunwe. — Ou,
como é que chamam? A Carruagem?
— Com o Regente controlando as rédeas. Ele se escondeu
bem, esse Metatron. Falam a respeito dele nas escrituras apócrifas:
que um dia foi homem, um homem chamado Enoque, o filho de
Jared, seis gerações depois de Adão. E agora ele governa o reino. E
está pretendendo fazer mais do que isso, se aquele anjo encontrado
na beira do lago de enxofre estava certo, o que entrou na
Montanha Nublada para espionar. Se ele vencer esta batalha,
pretende intervir diretamente na vida humana. Imagine isso,
Ogunwe, uma Inquisição permanente, pior que qualquer coisa com
que o Tribunal Consistorial de Disciplina pudesse sonhar,
composta de espiões e traidores em todos os mundos, e dirigida,
pessoalmente, pela inteligência que está mantendo aquela
montanha nas alturas. . . A velha Autoridade pelo menos teve a
graça de se retirar; o trabalho sujo de queimar hereges e enforcar
bruxas foi deixado para os padres. Esta nova será, de longe, muito
pior.
— Bem, ele começou com a invasão da república —
comentou Ogunwe. — Olhe, aquilo é fumaça?
Um fluxo flutuante cinzento estava saindo da Montanha
Nublada, uma mancha que se espalhava lentamente contra o céu
azul. Mas não poderia ter sido fumaça: estava fluindo na direção
oposta à do vento que soprava as nuvens com violência.
O rei levou o binóculo até os olhos e viu o que era.
— Anjos — disse.
Lorde Asriel afastou-se do telescópio e se levantou, a mão
protegendo os olhos do sol. As centenas e depois aos milhares, e
dezenas de milhares, até que metade daquela parte do céu estivesse
escurecida, as silhuetas minúsculas voavam e voavam, e
continuavam vindo. Lorde Asriel tinha visto a força de bandos de
bilhões de estorninhos azuis, que voavam em círculos, ao pôr-do-
sol, ao redor do palácio do Imperador K'ang-Po, mas nunca tinha
visto uma multidão tão vasta em toda a sua vida. Os seres voadores
se reuniram e então se dividiram movendo-se lentamente, bem
lentamente, para o norte e para o sul.
— Ah! E o que é aquilo? — perguntou Lorde Asriel,
apontando. — Aquilo não é o vento.
A nuvem estava rodopiando para o flanco sul da montanha e
longos estandartes esgarçados de vapor jorravam para fora sob os
ventos fortes. Mas Lorde Asriel estava certo: o movimento estava
vindo de dentro, não do ar do lado de fora. A nuvem se turvou e se
retorceu, estremeceu, e então se abriu por um segundo.
Havia mais que uma montanha ali, mas eles só viram por um
instante; então a nuvem rodopiou de volta, como se puxada sobre a
montanha por uma mão invisível, para escondê-la novamente.
O Rei Ogunwe abaixou o binóculo.
— Aquilo não é uma montanha — declarou. — Vi
plataformas para canhões. . .
— Eu também. Toda uma complexidade de coisas. Será que
ele pode ver o que está do lado de fora através da nuvem? Eu
gostaria de saber. Em certos mundos eles têm máquinas para fazer
isso. Mas, quanto a seu exército, se esses anjos são tudo o que eles
têm —
O rei soltou uma breve exclamação, em parte de espanto, em
parte de desespero. Lorde Asriel se virou e agarrou o braço dele,
apertando os dedos com uma força que quase fez doer até o osso.
— Eles não têm isso — afirmou ele, e sacudiu violentamente
o braço de Ogunwe. — Eles não têm carne.
Ele colocou a mão sobre a face áspera do amigo.
— Por mais que sejamos poucos — prosseguiu — e por mais
curta que seja nossa vida, por mais fraca que seja nossa vista, por
mais frágil que seja nossa pele, em comparação com eles, ainda somos
mais fortes. Eles nos invejam, Ogunwe! É isso que alimenta o ódio deles, tenho certeza. Eles anseiam ter nossos corpos preciosos, tão
sólidos e poderosos, tão bem adaptados à boa terra! E se os
golpearmos com força e determinação, podemos varrer para longe, rápida e completamente, essas forças infinitas com a mesma
facilidade que você pode enfiar a mão na névoa. A força deles se
limita a isso!
— Asriel, eles têm aliados de um milhar de mundos, seres
vivos como nós.
— Nós venceremos.
— E suponhamos que ele tenha mandado esses anjos para
procurar sua filha?
— Minha filha! — exclamou Lorde Asriel, exultante. — Não é
extraordinário trazer ao mundo uma criança como ela? Você
imaginaria que teria sido o suficiente ir sozinha procurar o rei dos
ursos de armadura e passá-lo para trás, tomando-lhe seu reino, mas
descer ao mundo dos mortos e calmamente conduzir todos eles para
fora! E aquele menino; eu quero conhecer aquele menino; quero
apertar a mão dele. Por acaso sabíamos o que estávamos
enfrentando quando começamos esta rebelião? Não. Mas será que
eles sabiam, a Autoridade e seu Regente, esse Metatron, será que sabiam o que estariam enfrentando quando minha filha foi
envolvida?
— Lorde Asriel — disse o rei —, o senhor compreende a
importância que ela tem para o futuro?
— Francamente, não. É por isso que quero ver Basilides. Para
onde ele foi?
— Foi ver Lady Coulter. Mas o homem está exausto; não
pode fazer mais nada enquanto não descansar.
— Deveria ter descansado antes. Mande chamá-lo, por favor.
Ah, mais uma coisa: por favor, peça à Madame Oxentiel para vir até
a torre assim que for conveniente. Preciso apresentar minhas
condolências a ela.
Madame Oxentiel tinha sido a comandante substituta dos
galivespianos. Agora ela teria que assumir as responsabilidades de
Lorde Roke. O Rei Ogunwe fez uma mesura e deixou seu
comandante vasculhando o horizonte cinzento.
Durante aquele dia inteiro o exército se reuniu e se preparou.
Anjos da força militar de Lorde Asriel voaram alto sobre a
Montanha Nublada, procurando uma brecha, mas sem sucesso. Nada
mudou; não apareceram mais anjos voando para dentro ou para fora;
os ventos fortíssimos rasgavam as nuvens e as nuvens incessantemente
se renovavam, sem se abrir nem por um segundo. O sol atravessou o
céu azul frio e então começou a descer a sudoeste, dourando as
nuvens e tingindo o vapor ao redor da montanha de todos os
matizes de creme e escarlate, de damasco e tangerina. Quando o sol
se pôs, as nuvens reluziram suavemente iluminadas por dentro.
Os combatentes de todos os mundos onde a rebelião de Lorde
Asriel tinha aliados agora estavam em posição; mecânicos e artífices
estavam pondo combustível nas aeronaves, carregando armas e
calibrando visores de mira e medidas. Quando chegou a escuridão,
alguns reforços bem-vindos também chegaram: as patas ligeiras se
movendo silenciosamente sobre o solo gelado do norte, foram
chegando separadamente, um por um, diversos ursos de armadura
— foi um grande número, muitos ursos vieram e, entre eles, estava
seu rei. Não muito depois, chegou o primeiro de vários clãs de
bruxas, o som de ar passando através dos galhos de seus pinheiros
nubígenos sussurrando no céu escuro durante muito tempo.
Ao longo da planície ao sul da fortaleza, milhares de luzes
brilhavam, marcando os acampamentos daqueles que tinham chegado
vindos de muito longe. Mais além, em todos os quatro cantos da
bússola, esquadrilhas de anjos espiões voavam incansavelmente
montando guarda.
À meia-noite, na torre adamantina, Lorde Asriel estava
sentado discutindo planos com o Rei Ogunwe, o anjo Xaphania,
Madame Oxentiel, a galivespiana, e Teukros Basilides. O
aletometrista tinha acabado de falar e Lorde Asriel se levantou,
atravessou o aposento indo até a janela e olhou para fora para o
brilho distante da Montanha Nublada pairando no céu a oeste. Os
outros estavam em silêncio; tinham acabado de ouvir algo que fizera
Lorde Asriel empalidecer e tremer, e nenhum deles sabia
exatamente como reagir.
Afinal, Lorde Asriel se pronunciou.
— Sr. Basilides — disse —, deve estar muito cansado.
Estou muito grato por todos os seus esforços. Por favor, beba um
pouco de vinho conosco.
— Muito obrigado, senhor.
As mãos dele estavam tremendo. O Rei Ogunwe serviu o
Tokay dourado e passou-lhe o copo.
— O que isto significará, Lorde Asriel? — perguntou a voz
clara de Madame Oxentiel.
Lorde Asriel voltou para a mesa.
— Bem — disse ele —, significará que quando entrarmos
em combate teremos um novo objetivo. Minha filha e esse menino de
alguma forma se separaram de seus daemons e conseguiram sobreviver; e seus daemons estão em algum lugar aqui neste mundo, corrija-me
se estiver resumindo erradamente, Sr. Basilides — seus daemons estão aqui neste mundo e Metatron está decidido a capturá-los. Se
ele capturar os daemons, as crianças terão que segui-lo; e se ele puder controlar essas duas crianças, o futuro será dele, para sempre. Nossa
missão é muito clara: temos que encontrar os daemons antes que ele o faça e mantê-los em segurança até que a menina e o menino voltem a
se juntar a eles.
A líder galivespiana perguntou:
— Que forma eles têm, esses dois daemons perdidos? — Ainda não têm forma fixa, madame — respondeu
Teukros Basilides. — Poderiam ter qualquer forma.
— Portanto — prosseguiu Lorde Asriel —, para resumir:
todos nós, nossa república, o futuro de todos os seres conscientes,
todos nós dependemos de minha filha continuar viva e de impedir
que seu daemon e o do menino caiam nas mãos de Metatron?
— Exatamente.
Lorde Asriel suspirou, quase que com satisfação; era como se
ele tivesse chegado ao fim de um longo e complexo cálculo, e tivesse
encontrado uma resposta que fazia um sentido bastante inesperado.
— Muito bem — declarou, pondo as mãos espalmadas sobre
a mesa. — Então isto é o que vamos fazer quando a batalha começar.
Rei Ogunwe, o senhor assumirá o comando de todos os exércitos
defendendo a fortaleza. Madame Oxentiel, a senhora deverá
mandar seu povo sair imediatamente e conduzir buscas em todas as
direções para encontrar a menina e o menino, e os dois daemons. Quando os encontrarem, devem defendê-los com suas vidas até
que tornem a se reunir. Nesse momento, pelo que compreendi, o
menino poderá escapar para um outro mundo e ficar em segurança.
A dama assentiu. Seus cabelos duros, prateados, refletiram a luz
da lamparina brilhando como aço inoxidável e o falcão azul que ela tinha
herdado de Lorde Roke abriu as asas rapidamente na arandela junto à
porta.
— Agora, Xaphania — disse Lorde Asriel. — O que sabe a
respeito desse Metatron? Ele outrora foi um homem: ainda tem a
força física de um ser humano?
— Ele alcançou a proeminência muito depois que fui exilada
— respondeu o anjo. — Nunca o vi de perto. Mas não teria sido
capaz de dominar o reino a menos que fosse, realmente, muito,
muito forte, forte em todos os sentidos. A maioria dos anjos evitaria
o combate corpo a corpo. Metatron apreciaria o combate e venceria.
Ogunwe percebeu que Lorde Asriel acabara de ter uma idéia.
Sua atenção de repente se retraiu, seus olhos perderam o foco por
um instante e então rapidamente voltaram a se concentrar no
momento em curso com uma carga adicional de intensidade.
— Compreendo — disse ele. — Finalmente, Xaphania, o
Sr. Basilides nos disse que a bomba deles não somente abriu um
abismo abaixo dos mundos, como também fraturou a estrutura das
coisas tão profundamente que há fissuras e rachaduras por toda
parte. Em algum lugar aqui nas vizinhanças deve haver um caminho
de descida até a borda desse abismo. Quero que o encontre.
— O que pretende fazer? — perguntou o Rei Ogunwe
asperamente.
— Vou destruir Metatron. Mas meu papel está quase
encerrado. É minha filha que tem que viver e é nossa missão
manter todas as forças do reino longe dela para que tenha uma
chance de encontrar o caminho para um mundo mais seguro, ela
e aquele menino e seus daemons.
— E a Sra. Coulter? — perguntou o rei. Lorde Asriel passou a
mão na testa.
— Prefiro que não seja incomodada — declarou. — Deixe-a
em paz e proteja-a se puder. Embora. . . Talvez eu esteja
cometendo uma injustiça contra ela. Não importa o que tenha
feito, ela nunca deixou de me surpreender. Mas todos nós sabemos
o que nós devemos fazer e por que temos que fazê-lo: temos que proteger Lyra até ela encontrar seu daemon e fugir. Nossa república poderia ter sido criada com o único objetivo de ajudá-la a fazer isso.
Bem, vamos tratar de fazer isso o melhor que pudermos.
A Sra. Coulter estava deitada na cama de Lorde Asriel no
quarto ao lado. Ao ouvir vozes no aposento vizinho, ela despertou,
pois não estava profundamente adormecida. Acordou de seu sono
agitado sentindo-se aflita e carregada de anseio.
Seu daemon sentou a seu lado, mas ela não queria se
aproximar da porta; era simplesmente o som da voz de Lorde
Asriel que queria ouvir, mais do que quaisquer palavras em
particular. Acreditava que estavam ambos condenados. Acreditava
que todos eles estivessem condenados.
Finalmente ela ouviu a porta se fechar no outro aposento e se
esforçou para se pôr de pé.
— Asriel — chamou, passando pela porta e entrando no
gabinete iluminado pela luz cálída de nafta.
O daemon dele rosnou baixinho: o macaco dourado baixou a
cabeça lá embaixo em sinal de que buscava conciliação com ela.
Lorde Asriel estava enrolando um grande mapa e não se virou.
— Asriel, o que vai acontecer com todos nós? — perguntou
ela, sentando-se numa cadeira.
Ele apertou a base das mãos nos olhos. Seu rosto estava muito
abatido pelo cansaço. Sentou-se e descansou um cotovelo sobre a
mesa. Seus daemons estavam muito quietos: o macaco agachado no encosto da cadeira, a pantera branca sentada bem ereta e alerta ao
lado de Lorde Asriel, observando a Sra. Coulter sem piscar.
— Você não ouviu? — perguntou ele.
— Ouvi um pouco. Não consegui dormir, mas não estava
prestando atenção. Onde está Lyra, alguém sabe?
— Não.
Ele ainda não tinha respondido à primeira pergunta e não ia
responder, ela sabia disso.
— Nós deveríamos ter-nos casado — disse ela — e tê-la
criado juntos.
Foi um comentário tão inesperado que ele levantou a cabeça
e olhou rapidamente para ela. Seu daemon soltou o rosnado mais suave possível lá no fundo da garganta e se acomodou com as patas
estendidas para a frente na posição da Esfinge. Ele não disse nada.
— Não consigo suportar a idéia do apagamento total, Asriel
— prosseguiu ela. — Prefiro qualquer coisa a isso. Costumava pensar
que a dor seria pior, ser torturada para sempre, achava que isso devia
ser pior... Mas, enquanto você estivesse consciente, seria melhor, não
seria? Melhor que não sentir nada, apenas sumir na escuridão, tudo se
apagando para todo o sempre?
O papel dele era apenas ouvir. Seus olhos estavam cravados
nos dela e ele estava prestando profunda atenção; não havia
necessidade de responder. Ela disse:
— No outro dia, quando você falou a respeito dela com
tanta amargura, e de mim. . . Pensei que a odiasse. Podia
compreender que me odiasse. Eu nunca odiei você, mas podia
compreender. . . eu sabia por que poderia me odiar. Mas não
conseguia compreender por que você odiava Lyra.
Ele virou o rosto para o lado, lentamente, depois olhou de
volta para ela.
— Eu me lembro que você disse alguma coisa estranha,
em Svalbard, no topo da montanha, pouco antes de partir de nosso
mundo — prosseguiu ela. — Você disse: venha comigo e
destruiremos a fonte do Pó para sempre. Você se lembra de ter dito
isso? Mas não era o que estava querendo dizer. Estava querendo
dizer exatamente o oposto, não era? Agora compreendo. Por que
não me disse o que realmente estava fazendo? Por que não me disse
que na verdade estava tentando preservar o Pó? Poderia ter-me dito a
verdade.
— Eu queria que você viesse comigo e se unisse a mim —
respondeu ele, com a voz rouca e baixa —, e achei que você preferiria
uma mentira.
— Sim — sussurrou ela —, foi o que pensei.
Ela não conseguia ficar parada na cadeira, mas na verdade não
tinha forças para se levantar. Por um instante sentiu-se tonta, a cabeça
girou, os sons foram sumindo, o aposento escureceu, mas quase que
imediatamente recuperou os sentidos, ainda mais impiedosamente do
que antes, e nada na situação tinha mudado.
— Asriel. . . — murmurou.
O macaco dourado estendeu a mão hesitante para tocar na pata
da pantera branca. O homem observou sem dizer uma palavra e
Stelmaria não se moveu; seus olhos estavam cravados na Sra.
Coulter.
— Ah, Asriel, o que vai acontecer conosco? — perguntou a
Sra. Coulter de novo. — Será isso o fim de tudo?
Ele não disse nada.
Movendo-se como alguém em um sonho, ela se levantou,
apanhou a mochila que estava no canto do gabinete e enfiou a mão
para pegar a pistola; e o que ela teria feito a seguir, ninguém saberia,
porque naquele momento houve o som de passos subindo as escadas
correndo.
Tanto o homem quanto a mulher, e ambos os daemons, se
viraram para olhar para o ordenança que entrou e disse ofegante:
— Com licença, senhor, os dois daemons, eles foram
avistados, não muito longe do portão leste, sob a forma de gatos; a