A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 7 de 39

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A Luneta Âmbar

6. Absolvição Antecipada

bateu o pé com tanta força que chegou a doer, mesmo no sonho. — Você não acredita que eu seja capaz de fazer uma coisa dessas, Roger, de maneira que não diga isso. Eu vou acordar e não vou esquecer, pronto.

Lyra olhou em volta, mas tudo o que podia ver eram olhos

arregalados e rostos sem esperança, rostos pálidos, rostos escuros, rostos velhos, rostos jovens, todos os mortos reunidos se acotovelando em torno deles, silenciosos e tristes.

O rosto de Roger era diferente. A expressão dele era a única que

tinha esperança.

— Por que você tem essa expressão? — perguntou ela. — Por que

não está infeliz como eles? Por que não perdeu a esperança?

E ele respondeu:

— Porque

ABSOLVIÇÃO

ANTECIPADA

 

CONTOS, RELÍQUIAS, BULAS, INDULGÊNCIAS,

BEATOS, BONZOS, PEREGRINOS, FRADES EM MIL

JUNTOS MONTÕES, BRINCOS DO VENTO...

JOHN MILTON – CANTO III, 88

 

— Pois bem, Frei Pavel — disse o Inquisidor do Tribunal

Consistorial de Disciplina —, quero que se lembre exatamente, se

puder, das palavras que ouviu a bruxa dizer no navio.

Os 12 membros do Tribunal observaram o clérigo no banco das

testemunhas sob a luz fraca do entardecer; era a última testemunha.

Era um padre com a aparência de estudioso, cujo daemon tinha

a forma de um sapo. O Tribunal vinha ouvindo os depoimentos

daquele caso já há oito dias, no prédio antigo, de torres altas, da

Faculdade de São Jerônimo.

— Não consigo me lembrar com exatidão das palavras da bruxa

— disse Frei Pavel, em tom fatigado. — Nunca tinha presenciado

tortura antes, conforme já expliquei ao Tribunal ontem, e descobri que

me deixava tonto e nauseado. De modo que, exatamente 2S palavras que ela disse, não sei dizer, mas me lembro do significado. A bruxa

disse que a menina Lyra tinha sido reconhecida pelos clãs do norte

como aquela que realizaria uma profecia de que tinham conhecimento

há muito tempo. Ela teria o poder de fazer uma escolha

importantíssima e que o destino de todos os mundos dependeria dessa

escolha. Além disso, havia um nome que faria com que recordássemos

um caso semelhante e que faria com que a igreja a odiasse e a temesse.

—E a bruxa revelou este nome?

—Não. Antes que pudesse pronunciá-lo, uma outra bruxa, que

estivera presente graças a um feitiço que lhe dava invisibilidade,

conseguiu matá-la e fugir.

—Então, nessa ocasião, a mulher Coulter também não poderia

ter ouvido o nome?

—Exatamente.

—E pouco depois a Sra. Coulter partiu?

—Exato.

—E o que descobriu depois disso?

—Descobri que a criança tinha ido para aquele outro mundo

através da fenda aberta por Lorde Asriel e que lá ela conseguiu a ajuda

de um menino que possui, ou obteve, o uso de uma faca com poderes

extraordinários — respondeu Frei Pavel. Então ele pigarreou nervosa

mente e prosseguiu. — Posso falar com franqueza e inteira liberdade

para este tribunal?

—Com total liberdade, Frei Pavel — veio a resposta na voz de

tom áspero e claro do Presidente. — Não será punido por nos contar

as coisas de que tem conhecimento, que lhe foram ditas por outros. Por

favor, continue.

Tranqüilizado, o padre prosseguiu.

— A faca que está em poder desse garoto é capaz de fazer

aberturas entre os mundos. Além disso, ela tem um poder maior que

esse por favor, mais uma vez, tenho medo do que estou dizendo. . . É

capaz de matar os anjos de mais alta hierarquia e o que existe acima

deles. Não há nada que esta faca não possa destruir.

Ele estava suando e tremendo, c seu daemon rã caiu da beirada do

banco das testemunhas para o chão, tamanha era sua agitação. Frei Pavel

arquejou de dor e a recolheu rapidamente, deixando que bebesse um

pouco da água do copo que tinha diante de si.

—E perguntou mais alguma coisa sobre a menina? —

perguntou o Inquisidor. — Descobriu o tal nome de que a bruxa

falou?

—Descobri. Mais uma vez suplico que me dêem a garantia de que —

—O senhor tem essa garantia — declarou o Presidente em tom

brusco. — Não tenha medo. O senhor não é um herege. Relate o que

descobriu e não perca mais tempo.

—Realmente suplico que me perdoem. A criança, portanto, es

tá na posição de Eva, a mulher de Adão, a mãe de todos nós e origem

de todo pecado.

As estenógrafas anotando todas as palavras eram freiras da ordem

de Santa Filomela, que haviam feito voto de silêncio; mas, ao ouvir as

palavras de Frei Pavel, uma delas não conseguiu conter uma

exclamação abafada e houve uma agitação de mãos enquanto elas

faziam o si-nal-da-cruz. Frei Pavel estremeceu e prosseguiu:

— Por favor, lembrem-se, o aletômetro não faz previsões; ele diz:

"Se certas coisas ocorrerem de tal maneira, então as conseqüências

serão...", e assim por diante. E ele diz que se calhar de ocorrer de a

criança ser tentada, como Eva foi, então é provável que ela caia em

tentação. Do resultado disso dependerá. . . tudo. E se essa tentação

realmente ocorrer e se a criança ceder a ela, então o Pó e o pecado

triunfarão.

O silêncio foi total na sala do Tribunal. A luz pálida do sol que

se filtrava através das grandes janelas com esquadrias e molduras de

chumbo sustentava em seus raios inclinados um milhão de partículas

douradas, mas eram de poeira, não Pó; embora mais de um dos

membros do Tribunal tivesse visto nelas uma imagem daquele outro Pó

invisível que pousava sobre todos os seres humanos, por mais ordeiros

e respeitadores da lei que fossem.

—Para finalizar, Frei Pavel — disse o Inquisidor —-, diga-nos o

que sabe sobre onde se encontra a criança atualmente.

—Ela está nas mãos da Sra. Coulter — respondeu Frei Pavel. —

E estão no Himalaia. Até o momento, isso foi tudo o que consegui des

cobrir. Irei imediatamente pedir uma localização mais precisa e tão lo

go a tiver comunicarei ao Tribunal, mas. . .

Ele se calou, se encolhendo de medo, e levou o copo até os lábios com a mão trêmula.

— Sim, diga, Frei Pavel — pediu o Padre MacPhaü. — Não

esconda nada.

—- Senhor Presidente, creio que a Sociedade da Obra do Espírito

Santo sabe mais a respeito disso do que eu.

A voz de Frei Pavel estava tão baixa que era quase um sussurro.

— É verdade? — perguntou o Presidente, seus olhos parecendo

irradiar sua paixão, enquanto raiscavam.

O daemon de Frei Pavel emitiu um pequeno coaxar. O religioso

tinha conhecimento da rivalidade entre as duas divisões do

Magisterium, e sabia que ser apanhado no fogo cruzado entre elas seria

muito perigoso; mas esconder as informações que conhecia seria ainda

mais perigoso.

— Eu acredito — prosseguiu, tremendo — que estão mais

próximos de descobrir, exatamente, onde a criança está. Eles dispõem

de outras fontes de conhecimento que me são proibidas.

—Sem dúvida — concordou o Inquisidor. — E o aletômetro lhe

falou a respeito disso?

—Falou sim.

—Muito bem. Frei Pavel, deve continuar a seguir esta linha de

investigação. Se precisar de qualquer coisa em termos de assistência

religiosa ou de secretariado, é só pedir. Por favor, pode descer.

Frei Pavel fez um mesura, e com seu daemon rã no ombro,

reuniu suas anotações, e saiu da sala de audiência. As freiras flexionaram

os dedos.

O Padre MacPhail tamborilou com um lápis no tampo de

carvalho da mesa à sua frente.

— Irmã Agnes, Irmã Monica — disse —, podem se retirar ago

ra. Por favor, deixem a transcrição sobre a minha mesa de trabalho ao

final do dia.

As duas freiras assentiram baixando a cabeça e se foram.

— Cavalheiros — disse o Presidente, pois esta era a forma de

tratamento no Tribunal Consistorial —, vamos suspender a sessão.

Os 12 membros, do mais velho (Padre Makepwe, muito idoso,

de olhos remelentos) ao mais jovem (Padre Gomez, pálido e trêmulo

de zelo fanático), reuniram suas anotações e seguiram o Presidente até

a câmara do conselho, onde poderiam encarar uns aos outros sentados

à mesa e conversar com a mais absoluta privacidade.

O atual Presidente do Tribunal Consistorial era um escocês

chamado Hugh MacPhail. Havia sido eleito jovem: o cargo de

presidente era vitalício e ele estava apenas com 40 e poucos anos, de

modo que esperava-se que o Padre MacPhail moldasse o destino do

Tribunal Consistorial e, dessa maneira, de toda a igreja, por muitos

anos ainda. Era um homem de feições sombrias, alto e imponente,

com uma massa de cabelos crespos grisalhos, e teria sido gordo não

fosse pela disciplina brutal que impunha a seu corpo: só bebia água e

só comia pão e frutas; além disso, praticava exercícios diariamente,

uma hora por dia, sob a supervisão de um treinador de atletas

campeões. Em resultado disso, era esquelético, mas com a musculatura

bem delineada, enrugado e irrequieto. Seu daemon era um lagarto.

Depois que estavam sentados, o Padre MacPhail disse:

— De modo que este é o estado atual das coisas. Parece haver

vários pontos que devemos ter em mente.

“Em primeiro lugar, Lorde Asriel. Uma bruxa simpática à igreja

relatou que ele está reunindo um grande exército, incluindo forças que

podem ser angelicais. Suas intenções, até onde a bruxa tem

conhecimento, são malévolas com relação à igreja e com relação à

própria Autoridade”.

"Em segundo lugar, o Conselho de Oblação. As ações deles ao

criar o programa de pesquisa em Bolvangar e ao financiar as atividades

da Sra. Coulter sugerem que estão na esperança de substituir o

Tribunal Consistorial de Disciplina como o braço mais poderoso e

eficaz da Santa Igreja. Fomos passados para trás, cavalheiros. Eles

agiram impiedosa e habilmente. Deveríamos nos sentir repreendidos por

nossa lassidão ao permitir que isso acontecesse. Voltarei a abordar o

que poderíamos fazer a respeito disso brevemente.

“Em terceiro lugar, o garoto mencionado no depoimento de Frei

Pavel, com a faca que pode fazer aquelas coisas extraordinárias.

Claramente, devemos encontrá-lo e nos apoderar da faca o mais rápido

possível”.

"Em quarto lugar, o Pó. Tomei providências para descobrir o que

o Conselho de Oblação sabe a respeito do assunto. Um dos teólogos

experimentais trabalhando em Bolvangar foi persuadido a nos contar

exatamente o que eles descobriram. Conversarei com ele hoje à tarde,

lá embaixo."

Um ou dois padres se mexeram incomodados, pois "lá embaixo"

significava os porões no subsolo do prédio: salas de ladrilhos brancos,

com tomadas para passagem de corrente anbárica, à prova de som e

com bom escoamento de líquidos.

— Contudo, independentemente do que descobrirmos a

respeito do Pó — prosseguiu o Presidente —, devemos manter nosso

propósito em mente com muita firmeza. O Conselho de Oblação fez

esforços para compreender os efeitos do Pó: nós devemos destruí-lo

totalmente. Nada menos que isso. Se, para destruir o Pó, também

tivermos de destruir o Conselho de Oblação, o Colegiado dos Bispos,

todas as agências individuais através das quais a Santa Igreja faz o

trabalho da Autoridade, assim seja. Pode ser, cavalheiros, que a própria

Santa Igreja tenha sido criada para realizar exatamente esta tarefa e para

perecer ao fazê-lo. Mas é melhor um mundo sem igreja e sem Pó que

um mundo onde a cada dia temos que lutar sob o fardo odioso do

pecado. Melhor um mundo purgado de tudo isso!

Com os olhos fàiscantes, o Padre Gomez assenriu

apaixonadamente.

—E, finalmente — disse o Padre MacPhail —, a criança. Ainda

apenas uma criança, creio. Essa Eva, que será tentada e que, se a prece

dente de alguma forma servir de exemplo, cairá e cederá à tentação, e

sua queda trará a ruína de todos nós. Cavalheiros, de todas as maneiras

de lidar com o problema que ela representa para nós, vou propor a mais

radical e tenho confiança em que obterei sua concordância — depois

de uma breve pausa, ele prosseguiu.

—Proponho que enviemos urn homem para encontrá-la e matá-

la antes que ela possa ser tentada.

—Padre Presidente — interveio o Padre Gomez imediatamente

—, venho fazendo penitências por antecipação todos os dias de mi

nha vida adulta. Estudei, treinei —

O Presidente levantou a mão. Penitência e absolvição antecipadas

eram doutrinas pesquisadas e desenvolvidas pelo Tribunal Consistorial,

mas não conhecidas pela grande maioria dos membros da igreja.

Implicavam fazer penitência por um pecado ainda não cometido,

penitência fervorosa e intensa, acompanhada por castigos e

autoflagelação, de maneira a acumular, por assim dizer, uma reserva

de crédito. Quando a penitência tivesse atingido o nível apropriado

para um pecado em particular, o penitente recebia a absolvição

antecipada, embora pudesse nunca ser conclamado a cometer o pecado.

Por vezes, era necessário matar pessoas, por exemplo: e era muito

menos perturbador para o assassino se ele pudesse fazê-lo em estado de

graça.

— Eu havia pensado em você — o Padre MacPhail retrucou

gentilmente. — Então tenho o acordo do Tribunal? Sim. Quando o

Padre Gomez partir, com nossa bênção, ele estará sozinho, não

poderá ser contatado ou chamado de volta. Independentemente do que

acontecer com qualquer outra coisa, ele seguirá seu caminho como a

flecha de Deus, seguindo direto para a criança, e a abaterá. Ele será

invisível; chegará à noite, como o anjo que destruiu os assírios; será

silencioso. Quão melhor seria para todos nós se tivesse havido um

Padre Gomez no jardim do Éden! Nunca teríamos saído do paraíso.

O jovem padre estava quase chorando de orgulho. O Tribunal

concedeu sua bênção.

E, no canto mais escuro do teto, escondido entre as vigas escuras

de carvalho, estava sentado um homem do tamanho de um palmo.

Seus calcanhares estavam armados com esporas e ele ouviu todas as

palavras que eles disseram.

Nos porões, o homem de Bolvangar, vestindo apenas uma

camisa branca suja e calças frouxas, sem cinto, estava de pé sob a

lâmpada, segurando as calças com uma das mãos e seu daemon coelho com a outra. Diante dele, na única cadeira, sentava-se o Padre

MacPhail.

— Dr. Cooper — começou o Presidente —, por favor, sente-se.

Não havia mobília exceto a cadeira, o catre de madeira e um

balde. A voz do Presidente ecoou desagradavelmente nos ladrilhos

brancos que revestiam a parede e o teto.

O Dr. Cooper sentou no catre. Não conseguia tirar os olhos do

rosto esquálido, de cabelos grisalhos, do Presidente. Lambeu os lábios

ressecados e esperou para ver que nova provação estaria por vir.

— Então, quase teve sucesso em fazer o corte e separar a criança

de seu daemon. — perguntou Padre MacPhail.

Com a voz trêmula, o Dr. Cooper respondeu:

— Chegamos à conclusão que não adiantaria nada esperar, uma

vez que a experiência deveria se realizar de qualquer maneira, e

pusemos a criança na câmara experimental, mas então a Sra. Coulter

interveio pessoalmente e levou a criança para seus aposentos.

O daemon coelho abriu os olhos redondos e lançou um olhar

assustado para o Presidente, depois tornou a fechá-los e escondeu o

rosto.

—Isso deve ter sido aflitivo — comentou o Padre MacPhail.

—O programa todo era tremendamente difícil — disse o Dr.

Cooper, apressando-se em concordar.

—Fico surpreendido que não tenham procurado a ajuda do

Tribunal Consistorial, onde temos nervos de aço.

—Nós. . . Eu. . . nós tínhamos conhecimento de que o

programa havia sido autorizado pelo. . . Era um assunto do

Conselho de Oblação, mas disseram-nos que tinha a aprovação do

Tribunal Consistorial de Disciplina. Caso contrário, nunca teríamos

participado. Nunca!

—Não, é claro que não. E agora, passando para uma outra

questão. Vocês tinham alguma idéia — disse Padre MacPhail,

abordando o verdadeiro tema de sua visita — do que tratavam as

pesquisas de Lorde Asriel? De qual poderia ter sido a fonte da energia

colossal que ele conseguiu utilizar em Svalbard?

O Dr. Cooper engoliu em seco. No silêncio, uma gota de suor

caiu de seu queixo para o chão de concreto e ambos os homens a

ouviram nitidamente.

—Bem. . . — começou ele — houve alguém em nossa equipe

que observou que durante o processo de corte havia uma liberação de

energia. Controlá-la envolveria forças imensas, mas, exatamente como

uma explosão atômica é detonada por explosivos convencionais, isto

poderia ser feito através da concentração de uma poderosa corrente

ambárica. . . Contudo, ele não foi levado a sério. Eu não dei atenção a

suas idéias — acrescentou com sinceridade — por saber que sem a

devida autorização seriam heréticas.

—Muito prudente. E este colega agora, onde está?

—Ele foi um dos que morreram durante o ataque.

O Presidente sorriu. Era uma expressão tão gentil que o daemon

do Dr. Cooper estremeceu e desmaiou em seu peito.

— Coragem, Dr. Cooper — disse o Padre MacPhail. — Precisa

mos que seja forte e bravo! Há um trabalho muito importante a ser

feito e uma grande batalha a ser travada. Precisa merecer o perdão da

Autoridade através de plena cooperação conosco, sem nos esconder

nada, nem mesmo especulações insensatas, nem sequer disse-me-

disse.

Agora quero que dedique toda a sua atenção ao que se recorda

de ter ouvido seu colega dizer. Ele chegou a conduzir alguma

experiência? Deixou anotações? Relatou suas idéias a mais alguém?

Que tipo de equipamento estava usando? Pense em tudo, Dr. Cooper.

Terá uma caneta e papel e todo o tempo de que precisar.

"E esta sala não é muito confortável. Vou mandar transferi-lo

para um local mais adequado. Há alguma outra coisa de que precise,

alguma peça de mobiliário, por exemplo? Prefere escrever sobre uma

mesa ou uma escrivaninha? Gostaria de uma máquina de escrever? Ou

será que prefere ditar para uma estenógrafa?

"Diga aos guardas o que quer e terá tudo o que precisar. Mas em

todos os momentos, Dr. Cooper, quero que pense em seu colega e se

lembre de sua teoria. Sua grande tarefa é se recordar e, se necessário,

redescobrir o que ele sabia. Depois que souber de que instrumentos vai precisar, também os receberá. É uma tarefa importante, Dr. Cooper!

É uma bênção que lhe tenha sido confiada! Agradeça à Autoridade."

— Eu agradeço, Padre Presidente! Agradeço!

Agarrando a cintura frouxa de suas calças, o filósofo se levantou e

fez uma mesura, quase sem perceber, depois continuou fazendo

mesuras enquanto o Presidente do Tribunal Consistorial de Disciplina

deixava a cela.

Naquela noíte, o Cavaleiro Tialys, o espião galivespiano, foi

seguindo seu caminho pelas ruas e vielas de Genebra para se encontrar

com sua colega, Lady Salmakia. Era uma jornada perigosa para ambos:

perigosa para qualquer um ou qualquer coisa que tentasse impedi-los

também, mas certamente cheia de perigos para os pequeninos

galivespianos. Mais de um gato à espreita havia encontrado a morte em

suas esporas, mas apenas uma semana antes o Cavaleiro quase perdera o

braço para os dentes de um cachorro vira-lata; só a ação rápida da Lady

o salvara.

Eles se encontraram no sétimo dos locais combinados de

encontro, entre as raízes de um plátano, numa pracinha maltratada, e

trocaram as notícias. O contato de Lady Salmakia na Sociedade lhe

relatara que um pouco antes, naquela noite, tinham recebido uma

convite amistoso do Presidente do Tribunal Consístorial para se

reunirem e discutirem questões de interesse mútuo.

— Trabalho rápido — comentou o Cavaleiro. — Contudo,

aposto 100 contra um que ele não vai falar a respeito de seu assassino.

Contou a ela sobre o plano para matar Lyra. Não ficou

surpreendida.

—É a coisa lógica a fazer — observou. — São pessoas muito

lógicas. Tialys, acha que algum dia veremos essa criança?

—Não sei, mas eu gostaria de ver. Boa sorte, Salmakia. Amanhã,

na fonte.

Naquelas últimas breves palavras, não havia sido mencionada a

única coisa a respeito da qual eles nunca falavam: o breve tempo que

tinham de vida, se comparado com o tempo de vidas humanas. Os

galivespianos viviam nove ou dez anos, raramente mais, e Tialys e

Salmakia já estavam em seu sétimo ano de vida. Eles não temiam a

velhice; a gente de seu povo morria na plenitude da força e do vigor,

repentinamente, e tinham uma infância muito breve; mas, comparada à

deles, a vida de uma criança como Lyra se estenderia tão longe no

futuro como a vida das bruxas se estendia muito além da vida de Lyra.

O Cavaleiro retornou para a Faculdade de São Jerônimo e

começou a redigir a mensagem que enviaria para Lorde Roke através do

magneto ressonante.

Mas enquanto ele estava no local do encontro, conversando com

Salmakia, o Presidente tinha mandado chamar o Padre Gomez. Em seu

estúdio, os dois rezaram juntos durante uma hora e então o Presidente

concedeu ao jovem padre a absolvição antecipada que transformaria o

assassinato de Lyra em algo que não era de forma alguma assassinato.

I O Padre Gomez parecia transfigurado; a certeza que pulsava em

suas veias parecia tornar incandescentes até mesmo seus olhos.

Discutiram questões práticas como dinheiro, e assim por diante,

e então o Presidente disse:

—Depois que sair daqui, Padre Gomez, estará completamente

isolado, para sempre, de qualquer auxílio que possamos dar. Nunca

poderá voltar; nunca mais terá notícias nossas. Não posso lhe dar

melhor conselho do que o seguinte: não procure a criança. Isto revelaria

suas intenções. Em vez disso, procure a tentadora. Siga a tentadora e ela

o conduzirá à criança.

—Ela? — perguntou o Padre Gomez chocado.

—Sim, ela — confirmou o Padre MacPhail. — Descobrimos

muita coisa através do aletômetro. O mundo de onde vem a tentadora

é um mundo estranho. Verá muitas coisas que o surpreenderão, Padre

Gomez. Não permita que essas coisas estranhas o distraiam da tarefa sa

grada que tem que cumprir. Eu tenho fé — acrescentou gentilmente

— na força de sua fé. A mulher está vagando, guiada pelos poderes de

mal, para um lugar onde poderá, finalmente, encontrar a criança a

tempo de oferecer-lhe a tentação. Isto é, claro, se não tivermos sucesso

em acabar com a menina no local onde se encontra atualmente. Este

permanece sendo nosso primeiro plano. O senhor, Padre Gomez, é

nossa derradeira garantia de que, se isso falhar, ainda assim os poderes

infernais não vencerão.

O Padre Gomez assentiu. Seu daemon, um grande besouro de

dorso verde iridescente, estalou os élitros.

O Presidente abriu uma gaveta e entregou ao jovem padre um

maço de documentos dobrados.

— Aqui está tudo o que sabemos sobre a mulher — disse — e

mundo de onde ela vem, o lugar onde foi vista pela última vez. Lê

com atenção, meu caro Luís, e vá com minha bênção.

Ele nunca havia usado o nome de batismo do padre antes. Padre

Gomez sentiu lágrimas de alegria arderem em seus olhos enquanto dava

um beijo de despedida no Presidente.