A Luneta Âmbar
31. O Fim da Autoridade
não tinham roupas nem arreios. Contudo, empunhavam armas:
tridentes, redes e cimitarras.
Will e Lyra não pararam para olhar; seguiram aos tropeções
pelo terreno irregular agachados, concentrados apenas em sair dali sem
serem vistos.
Mas tinham que manter a cabeça abaixada, para ver onde
estavam pisando e evitar torcer um tornozelo ou coisa pior; e
trovões explodiam acima, enquanto corriam, de modo que não
puderam ouvir os gritos estridentes e os rosnados dos avantesmas-
dos-penhascos até que deram de cara com eles.
As criaturas estavam cercando alguma coisa que estava caída
brilhando na lama: algo ligeiramente mais alto que eles, que estava
caído sobre um dos lados, uma grande jaula, talvez, com paredes de
cristal. E estavam martelando-a, com punhos e pedras, guinchando
e dando gritos estridentes.
E antes que Will e Lyra pudessem parar e correr em outra
direção, tinham tropeçado bem para o meio do grupo.
O FIM DA AUTORIDADE
POIS IMPÉRIO NÃO MAIS EXISTE, E AGORA O LEÃO & LOBO
HÃO DE CESSAR.
WILLIAM B LAKE
A Sfa. Coulter sussurrou para a sombra a seu lado:
— Veja como ele se esconde, Metatron! Anda se esgueirando
pela escuridão como uma ratazana. . .
Estavam numa saliência bem no alto da grande caverna,
observando Lorde Asriel e a pantera branca que seguiam descendo,
andando muito cautelosamente, a uma grande distância mais
abaixo.
— Eu poderia atacá-lo agora — sussurrou a sombra.
— Sim, é claro que poderia — respondeu ela sussurrando, se
inclinando para bem perto dele —, mas eu quero ver o rosto dele,
caro Metatron; quero que ele saiba que o traí. Venha, vamos segui-lo. . .
A catarata de Pó brilhava como um grande pilar de luz tênue,
precipitando-se suave e incessantemente para dentro da garganta. A
Sra. Coulter não tinha nenhuma atenção disponível para dedicar a
ela, porque a sombra a seu lado estava tremendo de desejo e tinha
que mantê-lo a seu lado, sob o pouco controle que conseguia
impor.
Os dois começaram a descer, em silêncio, seguindo Lorde
Asriel. Quanto mais para baixo iam avançando, mais ela sentia um
enorme cansaço se apoderar dela.
— O que foi? O que foi? — sussurrou a sombra, sentindo
suas emoções e, imediatamente, desconfiado.
— Estava pensando — disse ela com uma doce malevolência
— em como estou satisfeita com o fato de que a criança nunca
crescerá para amar e ser amada. Pensei que a amasse quando era
bebê; mas agora —
— Houve pesar — disse a sombra — em seu coração, houve
pesar porque não a verá crescer.
— Ah, Metatron, quanto tempo faz que você foi um
homem! Será que não sabe realmente distinguir o que estou
lamentando? Por que estou pesarosa? Não é a maturidade dela, mas a minha. Como lamento que não soubesse de sua existência em
minha própria infância; com que paixão teria me devotado a você...
Ela se inclinou para a sombra, como se não conseguisse
controlar os impulsos de seu próprio corpo, e a sombra inalou com
avidez faminta, e pareceu engolir o perfume de sua carne.
Estavam se movendo com dificuldade sobre as rochas
despencadas e espatifadas em direção à base da encosta. Quanto
mais desciam, mais a luz do Pó dava a tudo um halo de névoa
dourada. A Sra. Coulter constantemente estendia a mão como se
procurasse segurar onde a mão dele poderia estar, como se a sombra
fosse um companheiro humano, e então parecia se recordar e
sussurrava:
— Fique atrás de mim, Metatron, espere aqui, Asriel é
desconfiado, deixe-me acalmá-lo primeiro. Quando ele estiver
desprevenído, eu chamarei você. Mas venha como sombra, nessa
forma pequena, de modo que ele não possa vê-lo, caso contrário ele
simplesmente deixará o daemon da menina fugir voando.
O Regente era um ser cujo profundo intelecto tivera milhares
de anos para se desenvolver e se fortalecer, e cuja sabedoria e
conhecimento se estendiam a um milhão de universos. A despeito
disso, naquele momento estava cego por suas duas obsessões:
destruir Lyra e possuir sua mãe. Ele assentiu e ficou onde estava,
enquanto a mulher e o macaco seguiam adiante tão silenciosamente
quanto podiam.
Lorde Asriel estava esperando atrás de um enorme bloco de
granito, fora do raio de visão do Regente. A pantera branca os ouvira
se aproximando e Lorde Asriel se levantou quando a Sra. Coulter
surgiu dando a volta no bloco. Tudo, todas as superfícies, todos os
centímetros cúbicos de ar estavam permeados pelo Pó que caía, que
dava uma claridade suave a cada minúsculo detalhe; e, sob a luz do
Pó, Lorde Asriel viu que o rosto dela estava molhado de lágrimas e
que estava rangendo os dentes para não soluçar.
Ele a tomou nos braços, e o macaco dourado abraçou o
pescoço da pantera branca e enterrou a carinha negra em seu pêlo.
— Lyra está em segurança? Encontrou seu daemori —
murmurou ela.
— O fantasma do pai do menino está protegendo os dois.
— O Pó é lindo. . . nunca imaginei.
— O que disse a ele?
— Eu menti e menti, Asriel. . . Não esperemos muito mais,
eu não agüento. . . Nós não viveremos, não é? Não sobreviveremos
como os fantasmas?
— Não, se cairmos no abismo. Viemos para cá para dar
tempo a Lyra para encontrar seu daemon e, depois, tempo para viver e crescer. Se levarmos Metatron à extinção, Marisa, ela terá esse
tempo e se formos com ele, isso não terá importância.
— E Lyra estará segura? — Sim, estará, sim — respondeu com ternura.
Ele a beijou. Ela se sentiu suave e leve em seus braços, como
havia se sentido quando Lyra tinha sido concebida 13 anos antes.
Ela estava soluçando baixinho. Quando conseguiu falar,
sussurrou:
— Eu disse a ele que ia trair você e trair Lyra, e ele acreditou
em mim porque eu era corrompida e cheia de maldade; e olhou tão
fundo dentro de mim que tive certeza que ele veria a verdade. Mas
menti bem. Estava mentindo com cada fibra, cada nervo e tudo o
que algum dia eu tinha feito. . . queria que ele não encontrasse
nada de bom em mim e ele não encontrou. Não há nada de bom.
Mas eu amo Lyra. De onde veio este amor? Eu não sei; aproximou-
se de mim, sorrateiro como um ladrão na noite, e agora eu a amo
tanto que meu coração está explodindo de amor. Tudo o que eu
podia esperar era que meus crimes fossem tão monstruosos que o
amor não fosse maior que uma semente de mostarda à sombra deles,
e desejei ter cometido crimes ainda maiores para escondê-lo ainda
mais profundamente. . . Mas a semente de mostarda criou raiz e
estava crescendo e o pequeno rebento estava partindo meu coração,
e tive tanto medo que ele visse. . .
Ela teve que parar para se controlar. Ele acariciou seus cabelos
brilhantes cobertos de Pó dourado e esperou.
— A qualquer momento ele vai perder a paciência —
sussurrou ela. — Disse a ele que se mostrasse pequeno. Mas, afinal,
ele é apenas um anjo, mesmo se um dia foi homem. E podemos lutar
com ele e trazê-lo até a borda da garganta, e nós dois cairemos com
ele. . .
Ele a beijou e disse:
— Sim. Lyra vai estar em segurança e o reino ficará
impotente, não poderá fazer nada contra ela. Chame-o agora,
Marisa, meu amor.
Ela respirou fundo e deixou o ar escapar num longo e
trêmulo suspiro. Então alisou a saia sobre as coxas e enfiou os
cabelos atrás das orelhas.
— Metatron — chamou baixinho. — Está na hora.
A forma de Metatron coberta por uma sombra apareceu no
ar dourado e no mesmo instante percebeu o que estava
acontecendo: os dois daemons, agachados e alertas, a mulher com o nimbo de Pó e Lorde Asriel —
Que saltou em cima dele, imediatamente, agarrando-o pela
cintura, e tentou atirá-lo no chão. Contudo, os braços do anjo
estavam livres e, com punhos, palmas, cotovelos, nós dos dedos,
antebraços, ele surrou a cabeça e o corpo de Lorde Asriel: grandes
golpes que batiam com enorme violência forçando o ar a sair de
seus pulmões e repercutiam em suas costelas, que esmurravam sua
cabeça e abalavam seus sentidos.
Contudo, os braços de Lorde Asriel envolviam as asas do
anjo, prendendo-as a seus flancos. E um momento depois a Sra.
Coulter tinha saltado no espaço entre aquelas asas imobilizadas, e
agarrado o cabelo de Metatron. A força do anjo era enorme: era
como segurar a crina de um cavalo empinando, em disparada.
Enquanto ele sacudia a cabeça furiosamente, ela era lançada para lá
e para cá, e sentiu a força nas asas grandiosas fechadas à medida que
se esforçavam para se abrir, se levantar e lutavam contra os braços
do homem, cerrados tão firmemente em torno delas.
Os daemons também o tinham agarrado. Stelmaria havia
cravado os dentes em sua perna e o macaco dourado estava atacando
com unhas e dentes uma das pontas da asa mais próxima, mordendo
e partindo penas, rasgando-lhe as bárbulas, e aquilo só tornava a
fúria do anjo ainda maior. Com um esforço maciço repentino, ele se
lançou para o lado libertando uma das asas e esmagando a Sra.
Coulter contra um rochedo.
A Sra. Coulter ficou atordoada por um segundo e suas mãos se
soltaram. Imediatamente o anjo empinou-se para o alto novamente,
batendo a asa livre, para lançar longe o macaco dourado; mas os
braços de Lorde Asriel ainda o envolviam com firmeza e, na
verdade, o homem agora conseguia segurá-lo melhor uma vez que a
circunferência a abraçar era menor. Lorde Asriel esforçou-se para
esmagar seu peito, de maneira a impedir que Metatron respirasse,
triturando suas costelas e tentando ignorar os golpes tremendos que o
acertavam no crânio e no pescoço.
Mas aqueles golpes estavam começando a se fazer sentir. E,
enquanto Lorde Asriel tentava manter seu ponto de apoio na
superfície de rochas quebradas, algo de destruidor aconteceu com a
parte de trás de sua cabeça. Quando havia se jogado para o lado,
Metatron tinha agarrado uma pedra do tamanho de um punho e
naquele instante bateu com ela, com uma força brutal, na ponta do
crânio de Lorde Asriel. O homem sentiu os ossos de sua cabeça se
moverem uns contra os outros, e soube que mais um golpe como
aquele o mataria imediatamente. Atordoado de dor — uma dor que
se intensificava por causa da pressão de sua cabeça contra o flanco
do anjo —, ele continuou agarrado nele, apertando-o, os dedos da
mão direita quase esmagando os da esquerda, e tropeçou buscando
apoio entre as rochas fraturadas.
E, quando Metatron levantava bem alto a pedra
ensangüentada, uma forma de pêlo dourado saltou em cima dele,
como uma chama saltando sobre uma copa de árvore, e o macaco
cravou fundo os dentes na mão do anjo. A pedra se soltou e
despencou ruidosamente em direção à borda e Metatron sacudiu
violentamente o braço em círculo, movimentando-o para a esquerda
e para a direita, tentando desalojar o daemon; mas o macaco dourado agarrou-se com unhas, dentes e rabo, e então a Sra. Coulter
abraçou a grandiosa asa branca que batia, trazendo-a para junto de
seu corpo, e fez cessar seu movimento.
Metatron estava imobilizado, mas ainda não estava ferido.
Nem estava perto da borda do abismo.
E àquela altura Lorde Asriel estava enfraquecendo. Ele estava
fazendo um enorme esforço para manter consciente e lúcido o
cérebro encharcado de sangue, mas a cada movimento um
pouquinho mais se perdia. Podia sentir as pontas fraturadas dos
ossos roçando umas contra as outras em seu crânio; podia até ouvi-
las. Seus sentidos estavam confusos: tudo o que ele sabia era que
tinha que segurar firme e arrastar para baixo.
Então a Sra. Coulter sentiu a face do anjo sob sua mão e
cravou os dedos bem fundo nos olhos dele.
Metatron soltou um urro de dor. De muito longe, do outro
lado da imensa caverna, ecos responderam, e a voz dele saltou de
rochedo em rochedo, se duplicando e perdendo a intensidade, e
fazendo com que aqueles fantasmas distantes fizessem uma pausa
em sua procissão infindável e olhassem para cima.
E Stelmaria, o daemon pantera branca, sentindo sua própria
consciência ir se apagando junto com a de Lorde Asriel, fez um
último esforço e saltou sobre a garganta do anjo.
Metatron caiu de joelhos. A Sra. Coulter, caindo com ele, viu
os olhos ensangüentados de Lorde Asriel se fixarem nela. E se
levantou rapidamente, empurrando com uma das mãos posta sobre
a outra, obrigando a asa que batia a se afastar para o lado, e agarrou o
cabelo do anjo para puxar violentamente sua cabeça para trás e
deixar a garganta desprotegida, livre para os dentes da pantera.
E então Lorde Asriel começou a arrastá-lo, e arrastá-lo para
trás, os pés tropeçando e as rochas caindo, enquanto o macaco
dourado saltava para baixo junto com eles, mordendo, arranhando e
rasgando la-nhos, e eles quase tinham chegado, estavam quase na
borda; mas, fazendo força, Metatron conseguiu se levantar e, com um
derradeiro esforço, abriu bem as duas asas — um grandioso dossel
branco que batia para baixo e para baixo com força, uma vez após
outra e, de novo, uma vez após outra, e então conseguiu fazer a Sra.
Coulter cair de suas costas e Metatron estava de pé, ereto, e as asas
bateram cada vez mais forte, mais forte, e ele levantou vôo — estava
deixando o solo, com Lorde Asriel ainda segurando-o com força,
mas enfraquecendo rapidamente. Os dedos do macaco dourado
estavam enterrados, torcendo o cabelo do anjo, e ele jamais o
largaria —
Mas eles tinham ultrapassado a beira do abismo. Estavam
começando a se elevar. E se voassem mais alto, Lorde Asriel cairia e
Metatron escaparia.
— Marisa! Marisa! O grito foi arrancado de Lorde Asriel e, com a pantera branca
a seu lado, com um rugido em seus ouvidos, a mãe de Lyra se
levantou, encontrou um ponto de apoio, e saltou com todas as
forças de seu coração, para se arremessar contra o anjo, com seu
daemon, com seu amado que morria e agarrar aquelas asas que batiam, e puxar todos eles juntos para baixo, para dentro do abismo.
Os avantesmas-dos-penhascos ouviram a exclamação de
consternação de Lyra e suas cabeças achatadas se viraram todas
juntas, imediatamente.
Will saltou para a frente e golpeou com a faca atingindo os
que estavam mais próximos. Ele sentiu uma pequena pancada no
ombro, quando Tialys tomou impulso e saltou, caindo na face do
maior, agarrando-lhe os pêlos e chutando violentamente abaixo da
mandíbu-la antes que pudesse arremessá-lo longe. A criatura uivou
e se debateu enquanto caía na lama e uma outra ficou olhando
estupidamente para o coto de seu braço e depois, horrorizada,
para seu próprio tornozelo, que a mão que havia sido cortada fora
tinha agarrado ao cair. Um segundo depois, a faca estava
enterrada em seu peito: Will sentiu o cabo saltar três ou quatro
vezes com os batimentos moribundos do coração e a puxou fora,
antes que o avantesma-dos-penhascos pudesse torcê-la e levá-la ao
cair.
Ouviu os outros gritarem e guincharem de ódio enquanto
fugiam, e soube que Lyra estava ilesa a seu lado; mas ele se jogou na
lama com apenas uma coisa na mente.
— Tialys! Tialys! — gritou, e evitando os dentes que
abocanhavam, empurrou para o lado a cabeça do maior dos
avantesmas-dos-penhascos. Tialys estava morto, suas esporas
enfiadas profundamente em seu pescoço. A criatura ainda estava
esperneando e mordendo, de modo que cortou fora sua cabeça e a
empurrou fazendo-a rolar para longe, antes de retirar o
galivespiano morto do pescoço de pele grossa e peluda como
couro.
— Will — chamou Lyra —, Will, olhe só para isso. . .
Ela estava olhando fixamente para a liteira de cristal. Estava
intacta, embora o cristal estivesse manchado e lambuzado de lama e
sangue do que os avantesmas-dos-penhascos tinham comido antes de a
encontrar. Estava caída num ângulo estranho entre os pedregulhos e
dentro dela.. .
— Ah, Will, ele ainda está vivo! Mas, pobre-coitado. . .
Will viu as mãos de Lyra fazendo pressão contra o cristal,
tentando alcançar o anjo e confortá-lo; pois era tão idoso e estava
apavorado, chorando e gritando como um neném, todo encolhido
no canto mais baixo.
— Ele deve ser tão velho. .. nunca vi ninguém sofrendo
assim... Ah, Will, não podemos deixá-lo sair?
Will cortou o cristal com um único movimento e enfiou a
mão para ajudar o anjo a sair. Enlouquecido e impotente, o ser idoso
só conseguia chorar e balbuciar incoerentemente de medo, de dor e
de infelicidade, e se encolheu para longe do que parecia mais uma
ameaça.
— Não tenha medo — disse Will —, pelo menos podemos
ajudar o senhor a se esconder. Venha, não vamos machucá-lo.
A mão trêmula pegou a mão dele e a segurou sem forças. O
velho estava emitindo um lamento sem palavras, um gemido
desconsolado, que se repetia sem parar, rangendo os dentes e,
compulsivamente, arrancando as próprias penas com a mão livre;
mas quando Lyra também enfiou a mão para ajudá-lo a sair, ele
tentou sorrir e fazer uma mesura, e seus olhos antiqüíssimos muito
fundos em meio às rugas piscaram para ela com inocente
encantamento.
E os dois, juntos, ajudaram o ser mais antigo de todos os
tempos a sair da cela de cristal; não foi difícil, pois ele era leve como
papel, e os teria seguido para qualquer lugar, uma vez que não tinha
vontade própria e respondia à simples gentileza como uma flor ao sol.
Mas, ao ar livre, não havia nada que impedisse o vento de lhe fazer
mal e, para a consternação dos dois, sua forma começou a perder
consistência e a se dissolver. Apenas alguns minutos depois ele
havia desaparecido completamente e a última imagem que Lyra e
Will tiveram foi daqueles olhos, piscando de encantamento, e o som
de um suspiro do mais próximo e então ele havia sumido: um
mistério se dissolvendo misteriosamente. Tudo havia levado menos
de um minuto e, no mesmo instante, Will virou-se de volta para o
cavaleiro morto. Levantou o corpo pequenino, segurando-o
delicadamente nas palmas das mãos, e quando se deu conta as
lágrimas escorriam rápidas por suas faces.
Mas Lyra estava dizendo alguma coisa em tom aflito.
— Will, temos que sair daqui. . . nós temos que ir. . . a dama
ouviu cavalos se aproximando —
Do céu azul-índigo, um falcão azul-índigo desceu, de repente,
num movimento suave e circular; Lyra deu um grito de susto e se
abaixou; mas Salmakia gritou com toda a força que tinha:
— Não, Lyra! Não! Levante-se o mais alto que puder e estenda
o punho para cima!
De modo que Lyra se manteve de pé, imóvel, sustentando
um braço com o outro, e o falcão azul fez uma outra volta, virou-se
e tornou a descer num movimento suave e circular, pousando e
agarrando os nós de seus dedos nas garras afiadas.
No dorso do falcão estava montada uma senhora de cabelos
grisalhos, cujo rosto de olhos claros virou-se primeiro para Lyra,
depois para Salmakia que se segurava em seu colarinho.
— Madame. . . — disse Salmakia, com a voz fraca —,
nós fizemos. . .
— Vocês fizeram tudo o que foi necessário. Agora nós
estamos aqui — declarou Madame Oxentiel e puxou as rédeas.
Imediatamente o falcão gritou três vezes, tão alto que a cabeça
de Lyra zumbiu. Em resposta, dardejando do céu, saíram primeiro
uma, depois duas e mais três, então centenas de libélulas de cores
brilhantes carregando guerreiros, todas voando baixo, tão velozmente
que parecia que inevitavelmente iriam colidir umas contra as outras;
mas os reflexos dos insetos e a destreza de seus cavaleiros eram tão
aguçados que, em vez disso, pareceram tecer uma tapeçaria bordada
de cores fortes e claras, rápida e silenciosa acima e ao redor das
crianças.
— Lyra — disse a dama no falcão — e Will: agora sigam-nos
e os levaremos a seus daemons.
Enquanto o falcão abria as asas e levantava vôo saindo de uma
de suas mãos, Lyra sentiu o peso de Salmakia cair sobre a outra e
soube no mesmo instante que somente a força de vontade da
pequenina dama a mantivera viva até aquele momento. Ela
segurou cuidadosamente o corpo trazendo-o para junto do seu e
correu com Will debaixo da nuvem de libélulas, tropeçando e
caindo mais de uma vez, mas, o tempo todo, mantendo a dama
delicadamente encostada em seu coração.
— Esquerda! Esquerda! — gritou a voz do falcão azul e, na
escuridão rasgada pelos clarões de relâmpagos, eles viraram naquela
direção; à direita deles, Will viu um pelotão de homens vestindo
armaduras cinza-claro, elmos, máscaras, seus daemons lobo caminhando ao lado deles na mesma cadência. Uma corrente de
libélulas partiu para cima deles imediatamente e os homens
vacilaram: suas armas eram inúteis e num instante os galivespianos
estavam entre eles, cada guerreiro saltando das costas de seu inseto,
encontrando uma mão, um braço, um pescoço nu e enfiando sua
espora antes de saltar de volta para o inseto enquanto este fazia
meia-volta e passava de novo em vôo rasante. Eles eram tão rápidos
que era quase impossível seguir os movimentos. Os soldados se
viraram e saíram correndo em pânico, sua disciplina totalmente destruída.
Mas então veio o ruído de cascos, num estrondo repentino
partindo de trás, e as crianças se viraram desalentadas: aquele povo
montado a cavalo estava caindo sobre eles a galope e um ou dois já
tinham redes nas mãos, girando-as acima da cabeça e capturando as
libélulas, então batendo com as redes como se fossem chicotes e
atirando no chão os corpos partidos dos insetos.
— Por aqui — chamou a voz da dama e então ela disse: —
Agora abaixem-se, para baixo, colados no chão!
Eles obedeceram e sentiram a terra tremer sob seus corpos.
Poderia aquilo ser o ruído de cascos? Lyra levantou a cabeça e afastou
o cabelo molhado dos olhos, e viu algo bem diferente de cavalos.
— Iorek! — exclamou, a alegria se acendendo como uma
chama saltando em seu peito. — Ah, Iorek!
Will puxou-a para baixo de novo imediatamente, pois não
somente Iorek Byrnison mas um regimento de ursos de armadura
estavam vindo diretamente para eles. Foi por um triz: Lyra
abaixou a cabeça bem a tempo e então Iorek saltou, passando acima
deles, rugindo ordens para seus ursos para irem para a esquerda,
para irem para a direita e acabar com os inimigos que os cercavam.
Com imensa leveza, como se sua armadura não pesasse mais
que seu pêlo, o urso rei girou para encarar Will e Lyra, que estavam
lutando para se levantar.
— Iorek, atrás de você, eles têm redes! — gritou Will, porque
os cavaleiros estavam quase em cima deles.
Antes que o urso pudesse se mover, a rede do cavaleiro sibilou
voando no ar e no mesmo instante Iorek foi envolvido por uma teia
de aranha de fios fortes como aço. Ele rugiu, levantando-se bem alto
nas patas traseiras, golpeando o cavaleiro com as patas imensas. Mas
a rede era forte e embora o cavalo relinchasse e empinasse,
assustado, Iorek não conseguiu se libertar dos anéis da rede.
— Iorek! — gritou Will. — Fique parado! Não se mexa!
E saiu correndo para a frente, chapinhando em meio às
poças e saltando sobre as moitas de capim, enquanto o cavaleiro
tentava controlar o cavalo, e alcançou Iorek justo no momento
em que um segundo cavaleiro chegava e uma segunda rede era
lançada sibilando no ar.
Mas Will manteve a cabeça fria: em vez de golpear com a faca
a torto e a direito e se enredar ainda mais, observou o fluxo da
trama da rede e cortou-a em questão de instantes. A segunda rede
caiu inutilizada no chão e então Will saltou para Iorek, tateando
com a mão esquerda e cortando com a direita. O grande urso
manteve-se imóvel enquanto o menino corria de um lado para
outro sobre seu corpo vasto, corando, libertando, abrindo
passagem.
— Agora vá! — berrou Will afastando-se com um salto, e
Iorek pareceu explodir para cima bem no peito do cavalo mais
próximo.
O cavaleiro tinha levantado a cimitarra para golpear o pescoço
do urso, mas Iorek Bymison em sua armadura pesava quase duas
toneladas e nada, àquela distância, seria capaz de resistir a ele. Cavalo
e cavaleiro, ambos espatifados e esmagados, tombaram para o lado
inofensivamente. Iorek recuperou o equilíbrio, olhou em volta para
ver como estava o terreno e rugiu para as crianças.
— Subam nas minhas costas! Agora!
Lyra montou com um salto e Will a seguiu. Apertando o
ferro frio entre as pernas, eles sentiram o vagalhão de força maciça
quando Iorek começou a se mover.
Atrás deles, o demais ursos estavam lutando contra a
estranha cavalaria, ajudados pelos galivespianos, cujas ferroadas
enfureciam os cavalos. A dama montada no falcão azul aproximou-
se num vôo rasante e gritou:
— Agora siga reto, bem em frente! Entre as árvores no vale!
Iorek alcançou o topo de uma pequena elevação no terreno e se
deteve. À frente deles o terreno irregular descia numa encosta em
direção a um arvoredo a cerca de 400 metros de distância. Em
algum lugar depois disso, uma bateria de armas pesadas estava
disparando uma bomba atrás da outra que subiam voando alto, e
alguém também estava disparando foguetes luminosos, que
explodiam pouco abaixo das nuvens e desciam flutuando em
direção às árvores.
E, lutando para ganhar o controle do arvoredo propriamente
dito, havia um grupo de 20 Espectros ou mais, sendo impedidos por
um bando desalinhado de fantasmas. Tão logo viram o grupo de
árvores, tanto Lyra quanto Will tiveram a certeza que seus daemons estavam ali dentro e que se não os alcançassem logo, eles morreriam.
Mais Espectros estavam chegando lá a cada minuto, fluindo sobre a
elevação estreita e comprida, vindos da direita. Agora Will e Lyra
podiam vê-los muito claramente.
Uma explosão bem acima da elevação sacudiu o solo e lançou
pedras e nuvens de terra bem alto no ar. Lyra deu um grito e Will
teve que apertar o peito.
— Segurem-se bem — rosnou Iorek, e partiu para o ataque.
Um foguete luminoso explodiu lá em cima, muito alto, depois
outro e mais outro, descendo flutuando lentamente com um clarão
intenso de magnésio. Uma outra bomba explodiu, dessa vez mais
perto, e eles sentiram o impacto do deslocamento de ar e, um ou
dois segundos depois, as agulhadas de terra e pedras sobre seus
rostos. Iorek não vacilou, mas eles acharam difícil se segurar: não
podiam enfiar os dedos e agarrar seu pêlo — tinham que apertar a
armadura entre os joelhos, e as costas dele eram tão largas que
ambos ficavam escorregando.
— Olhe! — exclamou Lyra, apontando para o alto
enquanto uma outra bomba explodia nos arredores.
Uma dúzia de bruxas estavam se dirigindo para os foguetes,
empunhando galhos bastos, densamente carregados de folhas, e com
eles elas afastaram as luzes intensas, varrendo-as para longe no céu
mais além. A escuridão caiu novamente sobre o arvoredo,
escondendo-o da artilharia.
E agora as árvores estavam a apenas alguns metros de
distância. Tanto Will quanto Lyra sentiram a parte deles que faltava
ali por perto — uma animação, uma esperança descontrolada,
gelada de medo: pois havia um grande número de Espectros em
meio às árvores e eles teriam que entrar e passar abertamente entre
eles, e o simples fato de vê-los evocava aquela fraqueza nauseante no
coração.
— Eles têm medo da faca — disse uma voz ao lado deles, e
o urso rei parou tão de repente que Will e Lyra despencaram de
suas costas.
— Lee! — exclamou Iorek. — Lee, meu camarada, nunca vi
isso antes. Você está morto; com o que estou falando?
— Iorek, meu velho, você não sabe de metade da história.
Nós assumiremos o comando agora, os Espectros não têm medo de
ursos. Lyra, Will, venham por aqui e levantem essa faca —
O falcão azul veio voando mais uma vez num movimento
lento circular para pousar no punho de Lyra, e a senhora de cabelos
grisalhos disse:
— Não percam nem um segundo; entrem e encontrem seus
daemons e fujam! Há mais perigo se aproximando.
— Obrigada, senhora! Muito obrigada a todos vocês! —
exclamou Lyra e o falcão azul levantou vôo.
Com dificuldade, Will conseguia enxergar o fantasma de Lee
Scoresby ao lado deles, insistindo para que seguissem para o
arvoredo, mas eles tinham que se despedir de Iorek Byrnison.
— Iorek, meu querido, não tenho palavras, vá em paz,
abençoa do seja você!
— Obrigado, Rei Iorek — disse Will.
— Não temos tempo. Andem! Andem logo!
Ele os empurrou, afastando-os com a cabeça coberta pela
armadura.
Will mergulhou atrás do fantasma de Lee Scoresby em meio
aos arbustos e plantas rasteiras no bosque, golpeando e cortando à
esquerda e à direita com a faca. Ali a luz era irregular e amortecida, e
as sombras densas, emaranhadas, desnorteantes.
— Fique bem perto — gritou para Lyra, e então deu um grito
dedor quando um galho de espinheiro cortou-lhe o rosto.
Por toda parte ao redor havia movimento, barulho e luta. As
sombras se moviam para a frente e para trás como galhos sob um
vento forte. Poderiam ter sido fantasmas; as duas crianças sentiam os
pequenos choques de frio que conheciam tão bem, e então ouviram
vozes por toda parte.
— Por aqui!
— Venham por aqui!
— Sigam adiante, estamos conseguindo impedir que eles
passem.
— Agora estão quase chegando!
E então veio um grito numa voz que Lyra conhecia e amava
mais que qualquer outra.
— Ah, venha depressa! Depressa, Lyra!
— Pan, querido. . . estou aqui —
Ela se arremessou na escuridão, soluçando e tremendo, e Will
arrancou galhos e hera, cortou galhos de espinheiros e urtigas,
enquanto por toda parte ao redor deles as vozes de fantasmas se
elevavam num clamor de encorajamento e de advertência.
Mas os Espectros também tinham encontrado o alvo deles e
avançaram penetrando através do emaranhado traiçoeiro de plantas
rasteiras, trepadeiras e arbustos espinhosos, só encontrando fumaça
como resistência. Uma dúzia, um grande número das pálidas
malignidades pareceu afluir rapidamente em direção ao centro do
pequeno bosque, onde o fantasma de John Parry punha-se em
posição de combate e comandava seus companheiros para lutar
contra eles.
Will e Lyra estavam tremendo e enfraquecidos de medo,
exaustão, náusea e dor, mas desistir era inconcebível. Lyra arrancava
os galhos cheios de espinhos com as mãos nuas, Will golpeava e
cortava à esquerda e à direita, enquanto em torno deles o combate
de seres fantasmagóricos se tornava cada vez mais selvagem.
— Ali! — exclamou Lee. — Estão vendo? Junto daquela
pedra grande —
Um gato selvagem, dois gatos selvagens, cuspindo, sibilando
e dando golpes cortantes. Os dois eram daemons e Will sentiu que se houvesse tempo ele teria facilmente conseguido dizer qual era
Pantalaimon; mas não havia tempo, porque com uma facilidade
horripilante um Espectro se moveu lentamente para fora do
trecho de sombra mais próximo e foi planando silenciosamente
em direção a eles.
Will saltou por cima do último obstáculo, um tronco de
árvore caído, e enfiou a faca na luz trêmula no ar sem encontrar
resistência. Ele sentiu seu braço ficar dormente, mas cerrou os dentes
como estava cerrando os dedos em volta do cabo da faca e a forma
pálida pareceu se afastar borbulhando e se fundir de volta na
escuridão.
Estavam quase lá; e os daemons estavam loucos de medo,
porque mais e mais Espectros vinham avançando através das árvores,
e somente os valentes fantasmas os estavam impedindo de passar.
— Você pode cortar uma abertura? — perguntou o fantasma
de John Parry.
Will levantou a faca e teve que parar quando uma onda
violenta de náusea o sacudiu da cabeça aos pés. Não havia mais nada
em seu estômago e o espasmo doeu terrivelmente. Ao lado dele,
Lyra estava no mesmo estado. O fantasma de Lee, vendo o porquê
daquilo, saltou para junto dos daemons e lutou contra a coisa pálida que estava surgindo, saindo através da rocha atrás deles.
— Will, por favor — disse Lyra, arquejando.
E a faca entrou, cortou para o lado, para baixo e para cima. O
fantasma de Lee Scoresby olhou através da janela e viu uma ampla
prada-ria silenciosa sob uma lua brilhante, tão parecida com sua
terra natal que pensou que tivesse recebido uma graça.
Com um salto, Will atravessou a clareira e agarrou o daemon
mais próximo, enquanto Lyra apanhava o outro.
E mesmo naquela pressa terrível, mesmo naquele momento
de extremo perigo, cada um deles sentiu o mesmo pequeno choque
de agitação: pois Lyra estava segurando o daemon de Will, a gata selvagem sem nome, e Will estava carregando Pantalaimon.
Com dificuldade, eles afastaram os olhos um do outro.
— Adeus, Sr. Scoresby! — gritou Lyra, olhando em volta,
procurando por ele. — Eu gostaria.. . Ah, muito obrigada, muito
obrigada. . . adeus!
— Adeus, minha menina. . . Adeus, Will. . . vão em paz!
Lyra atravessou a janela rapidamente, mas Will se manteve
imóvel e olhou nos olhos do fantasma de seu pai, brilhantes em
meio às sombras. Antes de deixá-lo, havia uma coisa que tinha que
dizer.
— O senhor disse que eu era um guerreiro — falou para o
fantasma de seu pai. — Disse que eu era um guerreiro, disse que
essa era a minha natureza e que eu não devia contestá-la. Pai, o
senhor estava errado. Eu lutei porque tive que lutar. Não posso
escolher minha natureza, mas posso escolher o que faço. E vou escolher, porque agora estou livre.
O sorriso de seu pai se abriu cheio de orgulho e ternura.
— Muito bem, meu filho. Faz realmente muito bem —
disse.
Will não conseguia mais vê-lo. Então virou-se e atravessou a
janela atrás de Lyra.
E agora que o objetivo deles havia sido atingido, agora que as
crianças tinham encontrado seus daemons e fugido, os guerreiros mortos permitiram que seus átomos relaxassem e finalmente se
separassem flutuando.
Para fora do pequeno bosque, para longe dos Espectros
perplexos, para fora do vale, passando pelo vulto poderoso de seu
velho companheiro, o urso de armadura, até que o último
minúsculo fragmento de consciência do que fora o aeronauta Lee
Scoresby flutuou para o alto, exatamente como seu grande balão
havia feito tantas vezes. Sem se incomodar com os foguetes
luminosos e bombas eclodin-do e voando pelos ares, surdo às
explosões, gritos e urros de raiva, de advertência e de dor,
consciente apenas de seu movimento para cima, o que restava de Lee
Scoresby passou através das nuvens pesadas e saiu sob a abóbada
de estrelas brilhantes, onde os átomos de seu daemon tão amado, Hester, estavam esperando por ele.