A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 21 de 39

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A Luneta Âmbar

20. A Escalada

Morte, eu quero sinceramente. E Will também. Nós dois tivemos

pessoas que no foram tomadas cedo demais e precisamos reparar

nossos erros, eu pelmenos preciso.

— Todo mundo deseja poder falar novamente com aqueles

que se foram para a terra dos mortos. Por que deveria haver uma

exceção para você?

— Porque — começou ela, mentindo —, porque tem uma

coisa que preciso fazer lá, não apenas ver meu amigo Roger. Uma

outra coisa. Foi uma tarefa de que fui encarregada por um anjo e

que mais ninguém pode fazer, só eu. É importante demais para

esperar até que eu morra da maneira natural, tem que ser feita

agora. Sabe, o anjo me ordenou. Foi por isso que viemos aqui, eu e Will. Nós temos que ir.

Atrás dela Tialys guardou seu instrumento e ficou sentado

observando a menina argumentando e implorando à sua própria

morte para ser levada para onde ninguém deveria ir.

O vulto da morte cocou a cabeça e levantou as mãos

espalmada mas nada seria capaz de deter as palavras de Lyra, nada

poderia desviar ou diminuir seu desejo, nem mesmo o medo: ela

tinha visto coisa pior que a morte, afirmava, e, de fato, tinha.

De modo que afinal sua morte disse:

— Se nada é capaz de convencê-la a desistir, então tudo o

que posso dizer é: venha comigo e eu a levarei até lá, para a terra

dos mortos. Eu serei seu guia. Posso lhe mostrar o caminho para

entrar, mas para sair de novo, você terá que se virar sozinha.

— E meus amigos também — disse Lyra. — Meu amigo

Will e os outros.

— Lyra — disse Tialys —, contrariando todos os instintos,

nós iremos com você. Estava furioso com você há um minuto

atrás. Mas você torna difícil. . .

Lyra sabia que aquele era um momento para buscar conciliação

e ficou feliz por fazer isso, tendo conseguido o que queria.

— Eu sei — disse ela —, sinto muitíssimo, Tialys, mas se não

tivesse ficado com raiva de mim, nunca teríamos encontrado este

cavalheiro para nos levar. De modo que estou feliz por você estar

aqui, você e a dama, realmente estou muito grata a vocês por

estarem conosco.

De maneira que Lyra convenceu sua própria morte a guiá-la e

aos outros até a terra para onde Roger tinha ido, bem como o pai de

Will, Tony Makarios e tantos outros; e sua morte disse-lhe que

descesse ao cais quando o primeiro raio de luz da alvorada surgisse

no céu e que estivesse pronta para partir.

Mas Pantalaimon estava tremendo, sacudido por calafrios, e

nada que Lyra fizesse foi capaz de acalmá-lo e fazê-lo parar de

tremer, ou calar o gemido baixinho que ele não conseguia conter.

De modo que ela dormiu um sono inquieto e interrompido, no chão

do casebre, junto com todos os outros, e o vulto de sua morte

ficou sentado e atento a seu lado.

A ESCALADA

 

— E EU CHEGEI LÁ — PORQUE SUBI DEVAGAR — PORQUE ME

AGARREI AOS GALHOS FINOS QUE CRESCEM ENTRE MIM — E A FELICIDADE —

Emily Dickinson

 

Os mulefas faziam muitos tipos de cordas, cabos e

cordões, e Mary Malone passou uma manhã inspecionando e

testando os que a família de Atai tinha armazenados antes de

escolher o que queria. O princípio de torcer as extremidades em

direções opostas e enrolar não havia se popularizado no mundo

deles, de modo que todos os tipos de cabos, cordões e cordas eram

trançados; mas eram fortes e flexíveis, e Mary logo encontrou

exatamente o que queria.

O que você está fazendo?, perguntou Atai. Os mulefas não tinham um termo para descrever a ação de

alçar-se, escalar, subir trepando, de modo que Mary teve que gesticular um bocado e fazer muitos rodeios, dando explicações

indiretas. Atai ficou horrorizada.

Ir até lá e entrar na parte alta das árvores?

Eu preciso ver o que está acontecendo, explicou Mary. Agora você

pode me ajudar a preparar as cordas.

Certa ocasião, na Califórnia, Mary havia conhecido um

matemático que passava todos os fins de semana subindo em árvores,

escalando seus galhos. Mary tinha alguma prática de alpinismo e

ouvira avidamente enquanto ele falava sobre as técnicas e o

equipamento, e havia decidido experimentar aquilo assim que tivesse

uma oportunidade. É claro, nunca havia imaginado que iria estar

escalando árvores em um outro universo e fazer a escalada solitária

também não lhe agradava muito, mas não havia alternativa quanto a

isso. O que podia fazer era tomar todas as providências,

antecipadamente, para fazê-lo da maneira mais segura possível.

Escolheu um rolo de corda suficientemente longo para passar

sobre um dos galhos de uma árvore alta e chegar de volta ao chão, e

forte o bastante para suportar várias vezes o seu peso. Então cortou

um grande número de pedaços de corda menores, mas muito

resistentes, e fez laços com eles: laçadas curtas unindo dois chicotes

em nó de pescador, que podiam servir de pontos de apoio para os

pés e para as mãos depois que os amarrasse à corda principal.

Depois, havia o problema de como conseguir lançar a corda

por sobre o galho para começar. Uma ou duas horas de

experiências com um cordão fino e resistente e um pedaço de galho

flexível resultaram em um arco; o canivete suíço cortou algumas

flechas, com folhas rijas no lugar de penas, para dar-lhes

estabilidade em vôo; e, finalmente, depois de um dia de trabalho,

Mary estava pronta para começar. Mas o sol estava se pondo e suas

mãos estavam cansadas, de modo que comeu e foi dormir,

preocupada, enquanto os mulefas falavam incessantemente a seu

respeito, em seus suaves sussurros musicais.

Logo que amanheceu, a primeira coisa que fez foi se preparar para

lançar a flecha por sobre um galho. Alguns dos mulefas se reuniram

para observar, preocupados com a segurança dela. Uma escalada era algo

tão estranho e exótico para seres com rodas que a simples idéia os

horrorizava.

Em seu íntimo, Mary sabia exatamente como se sentiam.

Tratou de engolir seu nervosismo e amarrou uma ponta do cordão

mais fino e mais leve a uma das flechas e a lançou voando para o

alto com o arco.

Mary perdeu a primeira flecha: ela se enfiou na casca da

árvore a meio caminho e não se desprendia. Ela perdeu a segunda

porque, embora tivesse voado por sobre o galho, não caiu longe o

bastante para ser alcançada do solo do outro lado e, quando a puxou

de volta, a flecha se enganchou no galho e se quebrou. O longo

cordão caiu de volta preso ao pedaço da flecha quebrada, e Mary

tentou de novo com a terceira e última flecha e, desta vez,

funcionou.

Puxando o cordão, cuidadosa e firmemente de maneira a não

prendê-lo e parti-lo, ela puxou e alçou a corda preparada por sobre o

galho até que ambas as pontas estivessem no chão. Então as amarrou

a um dos arcobotantes maciços de uma das raízes, tão grosso de

circunferência quanto seus quadris, de modo que deveria ser

bastante sólido, pensou. Seria bom que realmente fosse. O que não

podia dizer de onde estava no solo, é claro, era de que tipo de galho a

coisa inteira, inclusive ela, estaria dependendo para se sustentar. Ao

contrário de escaladas em rochas, em que você pode prender a corda em

pinos cravados na face da rocha, mais ou menos a cada metro, de

modo a nunca estar sujeito a grandes quedas, aquela operação

envolvia uma extensão muito longa de corda solta e uma queda

realmente muito grande, se alguma coisa saísse errada. Para se

proporcionar um pouco mais de segurança, ela trançou três pequenas

cordas formando um ames e passou-o em volta de ambas as pontas

penduradas da corda principal, com um nó corredio cuja laçada podia

apertar no momento em que começasse a escorregar.

Mary pôs o pé na alça da primeira laçada e começou a

escalada.

Ela alcançou a copa da árvore em menos tempo do que havia

esperado. A escalada foi simples, a corda não maltratou suas mãos e,

embora não tivesse querido pensar sobre o problema de como

subir ao topo do primeiro galho, descobriu que as fissuras na casca

a ajudavam a ter um sólido ponto de apoio e a se sentir segura. De

fato, apenas 15 minutos depois de ter deixado o solo, estava de pé

no primeiro galho e planejando a rota que seguiria para chegar ao

próximo.

Tinha trazido consigo mais dois rolos de corda, pretendendo

fazer uma rede de cabos fixos para substituir os pinos e esteios, os

"amigos" e outras peças de equipamento com que contava quando

estava escalando uma parede de rocha. Amarrá-las fixando-as nos

lugares adequados custou-lhe alguns minutos e depois que estava

segura com as laçadas atadas a elas, escolheu o que parecia ser o

galho mais promissor, enrolou sua corda sobressalente de novo e

seguiu adiante.

Depois de dez minutos de escalada cuidadosa, encontrou-se

na parte mais espessa da copa da árvore. Podia tocar nas folhas

longas e correr a mão de ponta a ponta; encontrou uma flor após

outra de um tom branco-cinzento-amarelado, todas absurdamente

pequenas, cada uma produzindo a coisa pequenina, do tamanho de

uma moeda, que mais tarde se tornaria uma daquelas grandes

nozes, duras como ferro.

Alcançou um ponto confortável onde três galhos se

dividiam fazendo uma forquilha, amarrou bem a corda, prendeu

seu arnês e descansou.

Através dos espaços entre as folhas podia ver o mar azul,

límpido e cintilante, até o horizonte; e na outra direção, por sobre o

ombro direito, avistava a sucessão de pequenas elevações na pradaria

castanho-dourada, toda listrada pelas estradas negras.

Havia uma brisa suave, que levantava um leve perfume das

flores e farfalhava as folhas duras, e Mary imaginou uma imensa e

indistinta benevolência levantando-a, como um par de mãos

gigantescas. Enquanto estava deitada na forquilha, sentiu uma espécie

de felicidade que só uma vez antes havia sentido; e não tinha sido

quando fizera seus votos de freira.

Afinal, acabou sendo trazida de volta para seu estado normal

de consciência por uma cãibra no tornozelo direito, que estava

apoiado de mau jeito no canto da forquilha. Ela mudou de posição

e voltou sua atenção para a tarefa, ainda estonteada pela sensação

de contentamento oceânico que a rodeava.

Mary havia explicado aos mulefas como tinha que manter as

placas de laça de seiva separadas, a um palmo de distância, para

poder ver o sraf; e, imediatamente, eles tinham compreendido o

problema e feito um tubo curto de bambu, fixando as placas cor de

âmbar nas extremidades, como se fosse um telescópio. Essa luneta

estava enfiada no bolso de sua blusa e naquele momento ela a tirou

do bolso. Quando olhou através dela, viu aquelas cintilações

douradas flutuando, o sraf, as Sombras, o Pó de Lyra, como uma

vasta nuvem de minúsculos seres flutuando com o vento. A maior

parte deles se deslocava ao acaso, como partículas de poeira num

raio de luz do sol, ou moléculas num copo de água.

A maior parte.

Mas, quanto mais ela olhava, mais começou a ver um outro

tipo de movimento. Subjacente ao deslocamento ao acaso, havia um

movimento universal mais profundo, mais lento, indo da terra para

o mar.

Bem, aquilo era curioso. Prendendo-se a um de seus cabos

fixos, ela se arrastou em direção à ponta de um galho horizontal,

examinando bem de perto todos os capítulos de flor que

conseguiu encontrar. E, finalmente, começou a entender o que

estava acontecendo. Ficou observando e esperou até estar

perfeitamente segura, e então deu início ao processo cuidadoso,

demorado e cansativo de descida.

Mary encontrou os mulefàs em estado de desespero, tendo

sofrido com milhares de preocupações pela amiga que estava tão

distante do solo.

Atai ficou especialmente aliviada e, nervosamente, apalpou o

corpo inteiro de Mary com a tromba, emitindo relinchos suaves de

prazer por encontrá-la a salvo, e rapidamente a carregou pelo

povoado acompanhada por mais ou menos uns outros 12.

Tão logo chegaram ao cume da colina, um chamado circulou

entre os que estavam no povoado e, quando finalmente chegaram

ao monte, o pódio onde se falava em público, era tão grande o

apinhado de gente que Mary calculou que houvesse muitos

visitantes de outros povoados, que tinham vindo para ouvir o que ela

iria dizer. Ela desejou que tivesse melhores notícias para dar a eles.

O velho zalif, Sattamax, subiu à plataforma e a recebeu

calorosamente, e Mary respondeu com toda a cortesia-mulefa de

que pôde se lembrar. Tão logo os cumprimentos se concluíram, ela

começou a falar.

Hesitante e expressando-se com muitos rodeios, ela disse:

Meus bons amigos, estive no alto da copa de suas árvores e

examinei com cuidado e de perto as folhas crescendo, as flores novas e as

nozes.

Verifiquei que há uma corrente de sraffluindo, bem alto, acima

das copas das árvores, prosseguiu ela, e se move contra o vento. O ar se move vindo do mar, em direção à terra, para o interior, mas o sraf está,

lentamente, se movendo na direção oposta. Vocês conseguem ver isso do

chão? Porque eu não consegui.

Não, respondeu Sattamax. Esta é a primeira vez que ouvimos

falar disso.

Bem, prosseguiu ela, as árvores estão filtrando o srafà medida que

vai passando através delas e parte dele é atraído para as flores. Pude

observar isso acontecendo: as flores são viradas para cima e se o sraf

estivesse caindo, em linha reta, para baixo, entraria nas pétalas e as

fertilizaria como o pólen das estrelas.

Mas o sraf não está caindo, está se deslocando para fora, em

direção ao mar. Quando uma flor calha de estar virada para a terra, o

sraf pode entrar nela. E por isso que ainda existem nozes crescendo.

Mas a maioria delas está virada para cima e o sraf simplesmente passa

flutuando sobre elas, sem entrar. As flores devem ter evoluído desta

maneira porque, no passado, todo o sraf devia cair descendo em linha

reta. Alguma coisa aconteceu com o sraf, não com as árvores. E só se

pode ver essa corrente de muito alto, e é por este motivo que nunca

tiveram conhecimento dela.

De modo que, se querem salvar as árvores e a vida mulefa,

devemos descobrir por que o sraf está fazendo isso. Ainda não consegui

pensar numa maneira de fazê-lo, mas tentarei.

Ela viu muitos deles esticando o pescoço para olhar para o alto

tentando ver aquela corrente de Pó. Mas do solo não se podia vê-la:

ela própria tinha olhado através da luneta, mas tudo o que

conseguiu ver foi o azul intenso do céu.

Eles ficaram conversando por muito tempo, tentando se

recordar de alguma menção ao vento de sraf entre suas lendas e

histórias, mas não havia nenhuma. Tudo o que sempre souberam era

que o sraf vinha das estrelas, como sempre viera.

Finalmente, perguntaram se ela tinha quaisquer outras idéias

e Mary respondeu:

Eu preciso fazer mais observações. Preciso descobrir se o vento

sempre sopra nessa direção ou se ele se altera, como as correntes de ar,

durante o dia e a noite. De modo que preciso passar mais tempo nas

copas das árvores e dormir lá e observar durante a noite. Precisarei da

ajuda de vocês para construir algum tipo de plataforma de modo que eu

possa dormir em segurança. Mas realmente precisamos de mais

observações.

Os mulefas, práticos e ansiosos para descobrir, imediatamente

se ofereceram para construir qualquer coisa de que ela precisasse.

Eles conheciam a técnica de utilização de polias e cordame e pouco

depois um deles sugeriu uma forma de alçar Mary com facilidade

até o dossel das árvores de maneira a poupá-la do esforço e do

perigo da escalada.

Felizes por terem algo a fazer, imediatamente começaram a

reunir os materiais, trançando, amarrando vergas de velame e cordas

e cabos, sob a orientação dela, e a organizar tudo de que ela

precisaria para a observação no topo da árvore.

Depois de falar com o casal idoso na plantação de oliveiras, o

Padre Gomez perdeu a pista da mulher. Passou vários dias

procurando e fazendo perguntas em todas as direções nos arredores,

mas a mulher parecia ter desaparecido completamente.

Ele nunca teria desistido, embora aquilo fosse desanimador; o

crucifixo pendurado no cordão em volta de seu pescoço e o rifle às

suas costas eram símbolos gêmeos de sua absoluta determinação de

completar a tarefa.

Mas teria levado muito mais tempo, se não tivesse sido pela

diferença de clima. No mundo em que estava, o tempo era quente e

seco, e ele estava sentindo cada vez mais sede; e, vendo um pedaço

de rocha molhada no alto de uma base de penhasco, subiu até lá

para ver se ali havia uma nascente. Não havia, mas no mundo das

árvores-das-rodas, acabara de cair um temporal; e foi assim que ele

encontrou a janela e descobriu para onde Mary tinha ido.