A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 20 de 39

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A Luneta Âmbar

19. Lyra e Sua Morte

planície em direção à fonte da fumaça.

O terreno agora era de encosta em declive e, cada vez mais,

parecendo ser um aterro de depósito de lixo. O ar estava carregado e

cheio de fumaça, e também de outros cheiros: o cheiro acre de

substâncias químicas, de matéria vegetal em decomposição, de

esgoto. E, à medida que iam descendo, o cheiro ficava pior. Não

havia um retalho de solo limpo que se pudesse ver e as únicas

plantas que cresciam por toda parte eram ervas fétidas e um mato

áspero acinzentado.

Mais adiante deles, acima da água, estava a neblina. Erguia-se

como um penhasco fundindo-se com o céu sombrio e de algum

lugar em seu interior vinham aqueles gritos de pássaros de que Tialys

havia falado.

Bem no meio, entre os montes de lixo e a neblina, estava a

primeira cidade dos mortos.

LYRA E SUA MORTE

 

SENTIA RAIVA DO MEU AMIGO; DEI A CONHECER

MINHA RAIVA E ASSIM ELA TEVE FIM.

 

William Blake

 

Aqui e ali, tinham sido acesas entre as ruínas. A cidade era

uma confusão, sem ruas, sem praças e sem espaços abertos,

exceto onde um prédio havia desabado. Umas poucas igrejas ou

prédios públicos ainda erguiam-se sobre o resto, embora estivessem

esburacados ou com as paredes rachadas e, em um caso, um pórtico

inteiro havia desmoronado sobre suas colunas. Entre os esqueletos das

ruínas das construções de pedra, um amontoado desordenado de barracos

e casebres tinha sido erguido com pedaços de vigas de madeira, latões de

gasolina ou latas de biscoitos destroçados, chapas de polietileno, pedaços

de compensado ou de madeira maciça.

Os espíritos que tinham vindo com eles estavam seguindo

apressados para a cidade e, de todas as direções, havia mais espíritos

chegando, tantos que pareciam os grãos de areia que escorrem em direção

ao buraco de uma ampulheta. Os espíritos se encaminharam direto para a

esquálida confusão da cidade, como se soubessem exatamente para onde

estavam indo, e Lyra e Will estavam prontos para segui-los; mas

então foram detidos.

Um vulto saiu do vão de uma porta remendada e disse:

— Esperem, esperem.

Uma luz fraca brilhava atrás dele e não era fácil distinguir suas

feições; mas sabiam que não era um espírito. Como eles, estava vivo.

Era um homem magro que poderia ter qualquer idade, vestido num

terno sujo, desbotado e esgarçado, e segurava um lápis e um maço de

papéis que mantinha presos com um grande clipe. O prédio de onde

havia saído tinha o aspecto de um posto de alfândega numa

fronteira raramente visitada.

— O que é este lugar? — perguntou Will. — E por que não

podemos entrar?

— Vocês não estão mortos — respondeu o homem em

tom cansado. — Têm que esperar na área de transição. Sigam

adiante pela rua à esquerda e entreguem estes papéis ao

funcionário que controla o portão.

— Mas, perdoe-me, senhor — disse Lyra —, espero que

não se aborreça com minha pergunta, mas como podemos ter

chegado até aqui se não estamos mortos? Porque aqui é o mundo dos mortos, não é?

— Isso aqui é um subúrbio do mundo dos mortos. Por vezes,

os vivos vêm para cá, por engano, mas têm de esperar na área de

transição antes de poderem seguir.

— Esperar quanto tempo?

— Até morrerem.

Will sentiu a cabeça ficar zonza. Viu que Lyra estava pronta

para discutir e, antes que ela pudesse falar, disse:

— Poderia apenas nos explicar o que acontece depois? Quero

dizer, esses espíritos que vêm para cá, eles ficam nesta cidade para

sempre?

— Não, não — respondeu o funcionário. — Isso aqui é

apenas um porto de trânsito. Daqui eles seguem adiante de barco.

— Para onde? — perguntou Will.

— Isso é uma coisa que não posso lhe dizer — respondeu o

homem, e um sorriso amargo puxou para baixo os cantos de sua

boca. — Agora têm que ir andando. Vocês têm que ir para a área de

transição.

Will recebeu os papéis que o homem estava estendendo e

então pegou Lyra pelo braço e fez com que se afastasse dali.

As libélulas agora voavam vagarosamente e Tialys explicou que

precisavam descansar; de modo que elas se empoleiraram na mochila

de Will e Lyra deixou que os espiões sentassem em seus ombros.

Pantalaimon, em forma de leopardo, olhou para eles enciumado, mas

não disse nada. Eles seguiram adiante pela trilha estreita, contornando

os casebres miseráveis e as poças de esgoto e observando o fluxo

interminável de espíritos que chegavam e entravam sem

impedimentos na cidade.

— Temos que conseguir chegar até a água, como todos eles

— disse Will. — E talvez as pessoas nessa área de trânsito nos

digam como. De qualquer maneira, não parecem estar com raiva,

nem ser perigosos. E estranho. E estes papéis. . .

Eram simplesmente pedaços de papel arrancados de um

bloco, com palavras escritas ao acaso, a lápis, e depois riscadas. Era

como se aquelas pessoas estivessem fazendo um jogo e esperando

para ver quando os viajantes contestariam sua autoridade ou

desistiriam e cairiam na gargalhada. E, no entanto, tudo parecia tão

real.

Estava ficando mais escuro e mais frio, e era difícil ter uma

idéia distinta da passagem do tempo. Lyra achava que tinham

caminhado durante meia hora; mas talvez tivesse sido o dobro; o

aspecto do lugar não mudava. Finalmente chegaram a um pequena

cabana de madeira, parecida com a outra, onde tinham parado

antes, onde uma lâmpada fraca estava acesa pendurada num fio

descoberto acima da porta.

Quando se aproximaram, um homem vestido quase que

exatamente como o outro saiu com um pedaço de pão com

manteiga numa das mãos e, sem dizer uma palavra, examinou os

papéis e balançou a cabeça em sinal de assentimento.

Ele devolveu os papéis e estava prestes a entrar, quando Will

perguntou:

— Por favor, para onde devemos ir agora?

— Devem ir procurar algum lugar para ficar — respondeu o

homem, com alguma gentileza. — Devem apenas perguntar. Todo

mundo está esperando, exatamente como vocês.

Ele lhes deu as costas e fechou a porta por causa do frio, e os

viajantes penetraram no coração do agrupamento de casebres onde as

pessoas vivas tinham que ficar.

Era muito semelhante à parte principal da cidade: pequenos

casebres mal-ajambrados, que haviam sido reparados dúzias de

vezes, remendados com pedaços de plástico ou de chapas de ferro

corrugado, apoiando-se estranhamente uns contra os outros ao longo

de becos estreitos e lamacentos. Em alguns lugares, um cabo de

eletricidade descia em laçadas de uma arandela e fornecia energia

suficiente para acender uma ou duas lâmpadas nuas, dispostas em

fila sobre os casebres próximos. Contudo, a maior parte da pouca luz

que havia vinha das fogueiras. Seu brilho enfumaçado bruxuleava em

reflexos vermelhos sobre os pedaços e retalhos de material de

construção, como se fossem as derradeiras chamas remanescentes de

alguma grandiosa conflagração, permanecendo vivas por pura

malevolência.

Mas, à medida que Will, Lyra e os galivespianos se

aproximaram e conseguiram enxergar mais detalhes, puderam ver

que havia inúmeros — muitos mais — realmente muitos vultos,

sentados no escuro sozinhos ou encostados nas paredes ou em

pequenos grupos, conversando em voz baixa.

— Por que essas pessoas não estão dentro de casa? —

perguntou Lyra. — Está frio.

— Não são pessoas — disse Lady Salmakia. — Não são nem

espíritos. São alguma outra coisa, mas não sei o quê.

Os viajantes chegaram ao primeiro grupo de casebres, que era

iluminado por uma daquelas grandes lâmpadas elétricas, de luz

fraca, balançando ligeiramente num fio sob o vento frio e Will pôs a

mão sobre a faca em seu cinto. Havia um grupo daquelas coisas com

forma de pessoas do lado de fora, agachadas sobre os calcanhares e

jogando dados e, quando as crianças se aproximaram, eles se

levantaram: eram cinco, todos homens, os rostos nas sombras e as

roupas velhas e sujas.

— Como se chama esta cidade? — perguntou Will.

Não houve resposta. Alguns deles deram um passo atrás e

todos os cinco chegaram mais perto uns dos outros, como se eles estivessem com medo. Lyra sentiu a pele se arrepiar e todos os

minúsculos pêlos em seus braços ficarem em pé, embora não

soubesse dizer por quê. Enfiado dentro de sua camisa, Pantalaimon

tremia e sussurrava:

— Não, não, Lyra, não, vamos embora, vamos voltar, por

favor...

As "pessoas" não fizeram nenhum movimento e, finalmente, Will

deu de ombros e disse:

— Bem, de qualquer maneira, boa noite para vocês — e

seguiu adiante. Receberam uma reação semelhante de todos os

outros vultos com quem falaram e, o tempo todo, a apreensão deles

foi crescendo.

— Will, eles são Espectros? — perguntou Lyra baixinho. —

Será que já estamos bastante crescidos para ver Espectros?

— Acho que não. Se fossem, nos atacariam, mas eles próprios

parecem estar com medo. Não sei o que são.

Uma porta se abriu e a luz se espalhou sobre o solo

enlameado. Um homem — um homem de verdade, um ser

humano — apareceu no vão da porta, observando-os se

aproximarem. O pequeno grupo de vultos em torno da porta se

afastou dando um ou dois passos para trás, como se em sinal de

respeito, e eles viram o rosto do homem: imperturbável, inofensivo

e gentil.

— Quem são vocês? — perguntou.

— Viajantes — respondeu Will. — Não sabemos onde

estamos. Que cidade é esta?

— Aqui é a área de trânsito — respondeu o homem. —

Vieram de muito longe?

— Sim, viemos de muito longe e estamos cansados —

respondeu Will. — Poderíamos comprar alguma comida e pagar por

um abrigo?

O homem estava olhando para algum ponto atrás deles na

escuridão e então veio para o lado de fora e olhou em volta para mais

além, como se alguém estivesse faltando. Então virou-se para os

estranhos vultos parados ali por perto e perguntou:

— E vocês viram alguma morte? Eles sacudiram a cabeça e as crianças ouviram um

murmúrio dizendo:

— Não, não, nenhuma.

O homem voltou para a porta. Atrás dele, no vão da porta,

havia rostos olhando para fora: uma mulher, duas crianças pequenas,

um outro homem. Todos estavam nervosos e apreensivos.

— Morte? — questionou Will. — Não estamos trazendo

morte.

Mas isso parecia ser exatamente o que os estava preocupando, porque

depois que Will falou, houve um suspiro baixo e temeroso dos vivos e

até mesmo os vultos do lado de fora se encolheram, se afastando um

pouco.

— Com licença — disse Lyra, dando um passo adiante, em

sua melhor forma, falando muito educadamente, como se a

governanta da Faculdade Jordan estivesse lhe lançando um olhar

furioso. — Não pude deixar de reparar, mas esses cavalheiros aqui,

estão mortos? Desculpe-me por perguntar, se estiver sendo indelicada,

mas de onde viemos isso é muito estranho e nunca vimos ninguém

como eles antes. Se estiver sendo mal-educada, realmente gostaria

que me perdoassem. Mas sabem, em meu mundo, nós temos

daemons, todo mundo tem um daemon e ficaríamos chocados se víssemos alguém sem um, exatamente como vocês estão chocados ao

nos ver. E agora que estivemos viajando, Will e eu — este é Will e eu

sou Lyra —, descobri que existem algumas pessoas que parecem não

ter daemons, como Will, que não tem, e fiquei assustada até que descobri que, na verdade, são pessoas comuns como eu. Assim tal

vez seja por isso que alguém de seu mundo poderia ficar meio

nervoso quando nos vê, se pensam que somos diferentes.

O homem disse:

— Lyra? E Will?

— Sim senhor — disse humildemente.

— E estes são seus daemons. — perguntou ele, apontando para

os espiões no ombro dela.

— Não — respondeu Lyra, e sentiu-se tentada a dizer: "Eles

são nossos criados", mas achava que Will teria considerado aquilo

uma péssima idéia; de modo que disse: — Eles são nossos amigos, o

Cavaleiro Tialys e Lady Salmakia, pessoas muito importantes e

inteligentes, que estão viajando conosco. Ah, e este é meu daemon — disse, tirando o camundongo-Pantalaimon do bolso. — O senhor

compreende, somos inofensivos e prometemos que não vamos lhes

fazer mal. Realmente precisamos de comida e de um abrigo. Amanhã

iremos embora. Prometo.

Todo mundo esperou. O nervosismo do homem diminuiu um

pouco com o tom humilde de Lyra e os espiões tiveram o bom senso

de parecerem modestos e inofensivos. Depois de uma pausa, o homem disse:

— Bem, embora seja estranho, suponho que os nossos

sejam tempos estranhos. . . Podem entrar, sejam bem-vindos. . .

Os vultos do lado de fora assentiram, um ou dois fizeram

peque nas mesuras e se afastaram respeitosamente enquanto Will e

Lyra caminhavam em direção ao calor e à luz. O homem fechou a

porta atrás deles e enganchou um arame num prego para mantê-la

fechada.

Era um único aposento, iluminado por uma lamparina à nafta

limpo, porém mal-ajambrado. As paredes de compensado eram

decora das com fotografias de artistas, recortadas de revistas sobre

cinema, e cor um desenho feito com marcas de dedos sujos de

fuligem. Havia um fogão de ferro encostado numa parede, com uma

armação para secar roupas bem defronte, onde algumas camisas

puídas soltavam vapor, e, no console, havia um relicário de flores de

plástico, conchas, frascos de perfume coloridos e outras bugigangas

de mau gosto, todas rodeando um quadro de um elegante esqueleto de

cartola e óculos escuros.

O casebre estava lotado: além do homem, da mulher e das

duas crianças pequenas, havia um bebê num berço, um homem mais

idoso e, num canto, sob uma pilha de cobertores, uma senhora muito

idosa estava deitada observando tudo com olhos faiscantes num rosto

enrugado como seus cobertores amassados. Enquanto Lyra olhava

para ela, teve um choque: os cobertores se mexeram e um braço muito

magro emergiu, numa manga de camisa preta, e então apareceu um

outro rosto, de homem, tão velho, que era quase um esqueleto. De

fato, ele se parecia mais com o esqueleto no quadro que com um ser

humano e então Will também o viu, e todos os viajantes se deram

conta juntos que ele era um daqueles vultos sombrios e bem-

educados, como os que estavam lá fora. E todos se sentiam tão

perplexos como o homem ficara quando os viu primeiro.

Na verdade, todas as pessoas no pequeno casebre abarrotado

— todas, menos o bebê, que estava dormindo — ficaram sem saber

o que dizer. Foi Lyra quem conseguiu se recuperar primeiro.

— É muito gentil de sua parte — disse ela —, muito

obrigada, boa noite, estamos muito contentes de estar aqui. E, como

disse, lamentamos ter chegado sem nenhuma morte, se essa é a

maneira normal de fazer as coisas. Mas procuraremos não incomodar,

na medida do possível. Sabem, estamos procurando a terra dos

mortos e foi assim que acabamos chegando aqui. Mas não sabemos

onde fica, nem se isso aqui faz parte dela, nem como chegar lá nem

nada. De modo que se puderem nos dizer alguma coisa a respeito

disso, ficaríamos muito gratos.

As pessoas no casebre ainda os estavam olhando fixamente,

mas as palavras de Lyra tranqüilizaram um pouco a atmosfera e a

mulher os convidou a sentarem-se à mesa, puxando um banco. Will

e Lyra colocaram as libélulas adormecidas no alto de uma prateleira

num canto escuro, onde Tialys disse que descansariam até o dia

seguinte, e então os galivespianos se juntaram a eles na mesa.

A mulher estivera preparando um cozido de carne e legumes,

e descascou mais um par de batatas, cortando-as em pedaços para

aumentar a quantidade de comida, insistindo com o marido que

oferecesse aos viajantes alguma coisa para beber, enquanto acabava

de cozinhar. Ele trouxe uma garrafa de aguardente límpida, de

cheiro forte, que pareceu a Lyra semelhante à genebra dos gípcios, e

os dois espiões aceitaram um copo, do qual se serviram com suas

pequeninas taças.

Lyra teria esperado que a família ficasse olhando mais para os

galivespianos, mas a curiosidade deles estava igualmente

concentrada, pensou, nela e em Will. Não demorou muito a

perguntar por quê.

— Vocês são as primeiras pessoas que jamais vimos sem o

espectro da morte — explicou o homem, cujo nome, descobriram,

era Peter. — Isto é, desde que viemos para cá, sabe. Éramos como

vocês, viemos para cá antes de estarmos mortos, por alguma

casualidade ou acidente. Temos que esperar até que nossa morte

nos diga que está na hora.

— A sua morte diz a você? — perguntou Lyra. — Diz. O que descobrimos quando viemos para cá, ah, isso

faz muito tempo para a maioria de nós, mas descobrimos que

todos nós trazíamos o espectro de nossa morte conosco. Foi aqui

que descobrimos. Tinha estado conosco o tempo todo, só que não

sabíamos. Sabe, todo mundo tem sua morte. Ela nos acompanha a

todos os lugares, durante a vida inteira, está sempre por perto. Os

espectros de nossas mortes, eles estão lá fora, tomando ar; eles

entram de vez em quando. O da vovó está lá com ela, ele está bem

perto dela, muito perto.

— Isso não assusta o senhor, ter sua morte por perto o tempo

todo? — perguntou Lyra.

— Por que me assustaria? Se ela está por perto, você pode ficar

de olho nela. Eu ficaria muito mais nervoso se não soubesse onde

está.

— E todo mundo tem sua própria morte? — perguntou

Will, com surpresa e admiração.

— Mas claro que tem, no momento em que você nasce, sua

morte vem ao mundo junto com você e é sua morte que o leva

embora.

— Ah — exclamou Lyra —, é disso que precisamos saber,

por que estamos tentando encontrar o mundo dos mortos e não

sabemos como chegar lá. Então para onde vamos, quando

morremos?

— Sua morte bate em seu ombro, pega sua mão e diz: venha

comigo, está na hora. Pode acontecer quando você está doente, com

uma febre, ou quando se engasga com um pedaço de pão seco, ou

quando cai de um prédio alto; no meio de seu sofrimento e de suas

dificuldades, ela vem gentilmente procurar você e diz: agora vamos

com calma, calma, criança, venha comigo, e você vai com ela num

barco que atravessa o lago coberto de neblina. O que acontece

lá, ninguém sabe. Ninguém nunca voltou para contar.

A mulher disse a uma das crianças para chamar as mortes e

dizer que entrassem, e ela correu até a porta e falou com os vultos.

Will e Lyra observaram maravilhados, e os galivespianos chegaram

mais perto um do outro, enquanto os vultos de mortes — um para

cada membro da família — vinham entrando pela porta: vultos

pálidos, indistintos, com roupas gastas, simplesmente desbotados,

silenciosos e desinteressantes.

— Esses são as mortes de vocês? — perguntou Tialys.

— São sim, senhor — respondeu Peter.

— Sabe quando dirão que está na hora de ir?

— Não. Mas a gente sabe que estão por perto e isso é um

consolo.

Tialys não disse nada, mas era evidente que não achava que

aquilo fosse consolo nenhum. Os vultos de mortes ficaram parados,

educadamente, encostados na parede, e era estranho ver como

ocupavam pouco espaço e perceber como atraíam pouca atenção.

Lyra e Will logo se viram ignorando-os totalmente, embora Will

pensasse: aqueles homens que matei. . . suas mortes estavam bem

perto, ao lado deles o tempo todo. . . eles não sabiam e eu não

sabia. . .

A mulher, Martha, serviu o cozido em pratos esmaltados

lascados, e pôs um pouco numa tigela para que os vultos de mortes

dividissem entre si. Eles não comeram, mas o cheiro gostoso os

deixou satisfeitos. Logo depois a família inteira e seus convidados

estavam comendo com grande apetite e Peter perguntou as crianças

de onde vinham e como era o mundo delas.

— Eu vou contar a vocês — disse Lyra.

Quando disse isso, quando assumiu o comando, parte dela

sentiu uma pequena corrente de prazer jorrar e subir em seu peito,

como as borbulhas no champanhe. E sabia que Will estava

observando e sentiu-se feliz pelo fato de ele poder vê-la fazer o que ela

sabia fazer melhor, fazendo-o por ele e por todos.

Começou falando sobre seus pais. Eles eram um duque e uma

duquesa, muito importantes e ricos, que tinham sido afastados de

suas propriedades por um inimigo político e jogados na prisão. Mas

tinham conseguido escapar, descendo por uma corda, com o bebê,

Lyra, nos braços do pai e tinham recuperado a fortuna da família,

mas, pouco depois, tinham sido atacados e assassinados por

criminosos. Lyra teria sido morta também, e cozida e comida, se

Will não a tivesse resgatado bem a tempo e levado de volta para os

lobos, na floresta onde ele estava sendo criado pelos lobos. Will

tinha caído no mar, da amurada do navio de seu pai, quando ainda

era bebê e fora levado pelas ondas para uma praia deserta, onde uma

loba o amamentara e o mantivera vivo.

As pessoas engoliram aqueles absurdos com plácida

credulidade, e mesmo as mortes chegaram mais perto para ouvir,

aboletando-se no banco ou deitando no chão por perto, olhando para

ela com rostos suaves e corteses, enquanto ela ia inventando e

contando a história de sua vida com Will na floresta.

Ele e Lyra tinham ficado com os lobos durante algum tempo

e então tinham se mudado para Oxford, para trabalhar na cozinha

da Universidade Jordan. Lá haviam conhecido Roger e quando a

Jordan foi atacada pelos filhos dos fabricantes de tijolos que

moravam perto dos Barreiros, tiveram que fugir às pressas; de modo

que Will e Roger capturaram uma das barcaças dos gípcios e

velejaram nela, descendo pelo Tâmisa, quase sendo capturados na

Eclusa de Abington, e depois tinham sido postos a pique pelos

piratas de Wapping, nas vizinhanças das docas de Londres, tendo

que nadar até estarem em segurança num clíper, um veleiro de três

mastros que estava de partida rumo a Hang Chow, na China, para

vender mercadorias e comprar chá.

E no clíper tinham conhecido os galivespianos, que eram

estrangeiros vindos da Lua, tendo sido soprados para a terra por uma

violenta tempestade vinda da Via Láctea. Eles haviam se refugiado

no cesto de vigia de um dos mastros e ela, Will e Roger costumavam

se revezar para ir até lá em cima visitá-los, só que um dia, Roger

escorregou e mergulhou caindo nas mãos de Davy Jones, o

espírito maligno do mar.

Eles tentaram convencer o capitão a voltar com o navio e

procurar por ele, mas era um homem duro e violento que só estava

interessado no lucro que obteria chegando rapidamente à China e

os pusera a ferros. Mas os galivespianos tinham trazido uma lixa

para eles e...

E assim por diante. De vez em quando, ela se virava para Will

ou para os espiões para pedir confirmação, e Salmakia acrescentava

um ou dois detalhes ou Will balançava a cabeça, concordando, e a

história foi se desenrolando até acabar no ponto em que as crianças

e seus amigos da Lua tinham que encontrar o caminho para chegar

à terra dos mortos de modo a poderem descobrir, através de seus

pais, o segredo de onde a fortuna da família havia sido enterrada.

— E se, em nossa terra, conhecêssemos nossas mortes — disse

ela — como vocês conhecem aqui, provavelmente seria mais

fácil; mas acho que realmente tivemos muita sorte em conseguir

encontrar o caminho até aqui, de modo a podermos ouvir seus

conselhos. E muito obrigada por serem tão gentis e ouvirem, e por

nos darem esta refeição, que estava realmente muito gostosa —

concluiu.

— Mas, sabem, o que precisamos agora, ou talvez amanhã de

manhã, é encontrar uma maneira de atravessar o lago até o lugar

para onde os mortos vão e ver se também podemos chegar lá. Por

acaso existem barcos que possamos, quem sabe, alugar?

A expressão dos outros era de dúvida. As crianças, coradas

de cansaço, olharam com olhos sonolentos do rosto de um adulto

para outro, mas nenhum deles pôde sugerir onde poderiam

encontrar um barco.

Então veio uma voz de alguém que não tinha falado antes.

Das profundezas das roupas de cama no canto veio uma voz seca,

quebradiça e anasalada — não era uma voz de mulher, não era a

voz de um ser vivo: era a voz do vulto da morte da avó.

— A única maneira de atravessarem o lago e irem até a terra

dos mortos — disse ele, e estava apoiado no cotovelo, apontando

com um dedo magro para Lyra — é com suas próprias mortes.

Devem chamar suas mortes. Ouvi falar de gente como vocês, que

mantêm o vulto da morte à distância. Não gostam deles e por

cortesia eles se mantêm escondidos. Mas nunca estão muito longe.

Sempre que você vira a cabeça, o vulto de sua morte se esconde

atrás de você. Para onde quer que olhem, eles se escondem. Podem

se esconder numa xícara de chá. Ou numa gota de orvalho. Ou num

sopro de vento. Não é como acontece comigo e com a Magda, aqui

— disse ele, e beliscou-lhe a face enrugada e ela afastou a mão dele.

— Nós vivemos juntos com gentileza e amizade. Esta é a resposta, é

isso, isso é o que vocês têm que fazer, dar as boas-vindas, fazer

amizade, ser gentis, convidar os vultos de suas mortes a se

aproximarem de vocês e ver o que conseguem fazer para que ele

concordem em ajudá-los.

As palavras dele caíram na mente de Lyra como pedras muito

pesadas e Will também sentiu o peso mortal delas.

— Como deveríamos fazer isso? — perguntou.

— Você tem apenas que desejar isso, fazer esse pedido e estará

feito.

— Um momento — disse Tialys.

Todos os olhos voltaram-se para ele e aquelas mortes deitadas

no chão se ergueram, apoiadas nos cotovelos, para virar seus rostos

suaves e inexpressivos para aquele rosto pequenino e apaixonado.

Tialys estava de pé, ao lado de Salmakia, com a mão sobre o ombro

dela. Lyra sabia o que ele estava pensando: ia dizer que aquilo tinha

ido longe demais, que deveriam voltar, que estavam levando aquela

tolice irresponsavelmente longe demais. De modo que se adiantou.

— Por favor, se me dão licença — disse para o homem

chamado Peter —, mas eu e nosso amigo, o cavaleiro, precisamos

ir até lá fora um minuto, porque ele precisa falar com seus amigos na

Lua através de meu instrumento especial. Não vamos demorar.

E ela o pegou cuidadosamente, evitando as esporas, e o levou

para fora da casa, para o escuro, onde um pedaço de chapa de ferro

corrugado no telhado batido pelo vento frio fazia um som

melancólico.

— Você tem que parar — disse ele, enquanto ela o colocava

num barril de gasolina virado, sob a luz fraca de uma daquelas

lâmpadas elétricas que balançava em seu fio mais acima. — Já fomos

longe demais. Chega.

— Mas fizemos um acordo — disse Lyra.

— Não, não. Não de chegar a esses extremos.

— Está bem. Então nos deixem. Podem voar de volta. Will

pode cortar uma janela para o mundo de vocês, ou para qualquer

mundo que quiserem, e vocês poderão seguir voando e estar em

segurança, não faz mal, nós não nos importamos.

— Você tem consciência do que está fazendo?

— Tenho.

— Não tem. Você é uma criança sem consideração,

irresponsável e mentirosa. Inventar fantasias é algo que é tão fácil

para você que todo o seu caráter, a sua natureza estão tomados pela

desonestidade e você não admite a verdade nem mesmo quando

ela está bem na sua frente, olhando para a sua cara. Bem, se não

consegue vê-la, vou lhe dizer francamente: você não pode, você não

deve arriscar sua morte. Tem que voltar conosco agora. Vou chamar

Lorde Asriel e poderemos estar a salvo na fortaleza em algumas

horas.

Lyra sentiu um grande soluço de raiva crescer como uma

onda em seu peito e bateu o pé, não conseguindo se manter parada.

— Você não sabe— exclamou —, você simplesmente não

sabe o que tenho em minha cabeça ou em meu coração, sabe? Eu

não sei se seu povo tem filhos, talvez vocês ponham ovos ou coisa assim, não ficaria surpreendida, porque você não é gentil, você não

é generoso, não tem consideração com os outros; nem mesmo cruel vocè é: isso seria melhor, se fosse cruel, porque significaria que nos levou a sério, que não nos seguiu e concordou conosco apenas

quando lhe convinha. . . Ah, eu realmente não posso confiar em

você! Você disse que iria ajudar e que faríamos isso juntos, e agora

quer nos impedir, você é quem é desonesto, Tialys.

— Eu não permitiria que um filho meu falasse comigo dessa

maneira insolente e arrogante como está falando, Lyra; não a

castiguei antes porque —

— Então vá em frente! Me dê um castigo, já que pode! Pegue

as drogas de suas esporas e enfie bem fundo, vá em frente! Tome,

aqui está minha mão, faça logo! Você não tem idéia do que está em

meu coração, seu egoísta orgulhoso, você não tem nenhuma idéia

de como me sinto triste e má, e de como lamento o que aconteceu

com meu amigo Roger... você mata pessoas com a maior facilidade,

assim — ela estalou os dedos —, elas não têm importância para você, mas para mim, é um tormento e um grande sofrimento o fato

de nunca ter me despedido de meu amigo Roger e quero pedir

desculpas, dizer como me sinto e tentar corrigir o melhor que

puder... você nunca compreenderia, apesar de todo o seu orgulho,

apesar de toda a sua esperteza de adulto. . . e se eu tiver que morrer para fazer o que é correto, então, vou morrer e vou estar feliz enquanto morro. Já vi coisas piores que isso. De modo que se

quiser me matar, seu homem duro, seu homem forte, seu portador

de veneno, seu cavaleiro, faça, vá em frente, pode me matar. Então

eu e Roger poderemos brincar na terra dos mortos para sempre e rir

de você, criatura infeliz.

O que Tialys poderia ter feito naquele momento não era

difícil de ver, pois ele estava ardendo de raiva dos pés à cabeça, uma

raiva furiosa e passional, que o fazia tremer; mas não teve tempo de

se mover antes que uma voz falasse atrás de Lyra, e ambos sentiram

o frio descer e envolvê-los. Lyra fez meia-volta, sabendo o que veria

e apavorada, a despeito de toda a sua bravata.

O vulto da morte estava muito perto dela, sorrindo

gentilmente, seu rosto exatamente igual ao de todos os outros que

tinha visto; mas esse era o dela, o vulto de sua própria morte, e

Pantalaimon aninhado em seu peito uivou e tremeu, e sua forma de

arminho saltou agarrando-se no pescoço dela e tentou empurrá-la,

afastando-a da morte. Mas, ao fazer isso, ele simplesmente chegava

mais perto e, percebendo, Pan tornou a se enroscar, encolhendo-se

contra o corpo dela, em volta do pescoço quente e o pulso forte de

seu coração.

Lyra apertou-o contra si e enfrentou o vulto francamente.

Não conseguia se lembrar do que ele havia dito e pelo canto do

olho podia ver Tialys montando rapidamente o magneto

ressonante, em plena atividade.

— Você é minha morte, não é? — perguntou. — Sou, minha querida — respondeu ele.

— Mas não vai me levar ainda, vai?

— Você me quis, me chamou. Estou sempre aqui.

— Sim, mas. . . eu chamei, é verdade, mas. . . eu quero ir à

terra dos mortos, isso é verdade. Mas não morrer. Não quero morrer.

Adoro estar viva e adoro meu daemon e. .. Daemons não descem até lá, não é? Eu os vi desaparecerem e simplesmente se apagarem

quando as pessoas morrem. Existem daemons na terra dos mortos?

— Não — respondeu ele. — Seu daemon desaparece no ar e

você desaparece debaixo da terra.

— Então quero levar meu daemon comigo quando for à terra

dos mortos — disse ela com firmeza. — E quero voltar de lá.

Alguma vez já aconteceu de pessoas fazerem isso?

— Isso nunca aconteceu, em muitas e muitas eras. Um dia,

finalmente, você irá para a terra dos mortos, sem nenhum esforço,

sem nenhum risco, fará uma jornada segura e calma em companhia

de sua própria morte, de seu amigo especial e devotado, que esteve

a seu lado em todos os momentos de sua vida, que a conhece

melhor que voe mesma —

— Mas Pantalaimon é meu amigo especial e devotado! Não

conheço você, Senhor Morte, conheço Pan e amo Pan, e se algum dia

ele... se algum dia nós —

O vulto da morte estava assentindo. Ele parecia interessado e

gentil, mas Lyra não conseguia se esquecer nem por um segundo

quem ele era: o espectro de sua própria morte e ali, tão perto.

— Eu sei que será um esforço seguir adiante agora — disse

ela mais controladamente —, e perigoso, mas quero ir, Senhor