A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 8 de 39

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A Luneta Âmbar

7. Mary, Sozinha

você é Lyra.

Então ela compreendeu o que aquilo significava. Sentiu-se tonta,

mesmo em seu sonho; sentiu um grande fardo se acomodar sobre seus

ombros. E para torná-lo ainda mais pesado, o sono estava ficando de novo

mais intenso e o rosto de Roger estava começando a se desfazer em

sombra.

— Bem, eu sei . . eu sei. . . Há uma porção de gente diferente do

nosso lado, como a Dra. Malone. . . sabe que existe uma outra Oxford,

Roger, exatamente como a nossa? Bem, ela. .. eu a encontrei na. .. Ela

ajudaria. . . Mas existe apenas uma pessoa em quem realmente. . .

Agora havia se tornado quase impossível para ela ver o garotinho,

e seus pensamentos estavam se espalhando e se dispersando como ovelhas

num campo.

— Mas podemos confiar nele, Roger, juro — disse, fazendo um es

forço final—,

MARY, SOZINHA

 

LEVANTAVAM-SE DEPOIS, COMO OSCILADAS, AS

ÁRVORES CORPULENTAS, CURVANDO OS

LONGOS RAMOS CO’O PENDOR DOS FRUTOS...

JOHN MILTON – C ANTO VII, 207

 

Quase que no mesmo momento, a tentadora que o Padre

Gomez estava planejando seguir estava sendo, ela própria, tentada.

— Obrigada, não, não, isto é tudo o que preciso, não preciso de

mais nada, obrigada — Disse a Dra. Mary Malone para o casal idoso na

plantação de oliveiras, enquanto tentavam lhe dar mais comida do

que poderia carregar. Moravam isolados ali, não tinham filhos e

viviam com medo dos Espectros que tinham visto entre as árvores

cinza-prateado; mas, quando Mary Malone tinha aparecido subindo

pela estrada, com sua mochila, os Espectros haviam se assustado e se

afastado. O velho casal tinha acolhido Mary calorosamente na casinha

de fazenda cercada por vinhedos, oferecendo-lhe uma fartura de vinho,

queijo, pão e azeitonas, e agora não queriam deixá-la ir embora.

— Eu preciso seguir adiante — disse Mary novamente —,

muito obrigada, foram muito gentis, eu não consigo carregar. . . Ah,

está bem, mais um queijinho, obrigada.

Evidentemente eles a viam como um talismã contra os Espectros.

Ela desejava que fosse verdade. Na semana que havia passado no

mundo de Cittàgazze tinha visto tanta devastação, tantos adultos

comidos por Espectros e crianças selvagens vivendo de pilhagem e

carniça, que havia tomado horror àqueles vampiros etéreos. Tudo o

que sabia era que eles, de fato, se afastavam quando ela se aproximava;

mas não podia ficar com todo mundo que queria que ficasse, porque

tinha que seguir adiante.

Encontrou espaço para o último queijo de cabra embrulhado em

folha de videira, sorriu e fez mais uma mesura, bebeu um último gole

de água da fonte que borbulhava entre as pedras cinzentas. Então

juntou as palmas das mãos, gentilmente, como o casal idoso estava

fazendo, e, com firmeza, fez meia-volta e partiu.

Aparentava estar mais determinada do que se sentia. A última

comunicação com aquelas entidades que chamava de Partículas de

Sombra e que Lyra chamava de Pó havia sido na tela de seu

computador que, seguindo as instruções delas, Mary havia destruído.

Agora não sabia o que fazer. As instruções tinham ordenado que

atravessasse pela abertura na Oxford onde morava, a Oxford do mundo

de Will, e fizera isso — para se descobrir zonza e trêmula de espanto naquele extraordinário outro mundo. Além disso, sua única tarefa seria

encontrar o menino e a menina e então bancar a serpente, o que quer

que aquilo significasse.

De modo que tinha caminhado, feito explorações e perguntas, e

não havia descoberto nada. Mas agora, pensou, enquanto dobrava na

pequena trilha que se afastava da plantação de oliveiras, teria que

buscar orientação.

Depois que estava longe o suficiente da fazenda para ter certeza

de que não seria interrompida, sentou-se debaixo dos pinheiros e abriu

a mochila. No fundo, embrulhado num lenço de seda vermelho, estava

o livro que tinha já há 20 anos: um comentário do método chinês de

adivinhação, o I Ching.

Ela o trouxera consigo por dois motivos. Um era sentimental: seu

avô lhe dera o livro e ela o usara muito quando menina na escola. O

outro era que quando Lyra tinha aparecido pela primeira vez no

laboratório de Mary, havia perguntado: "O que é aquilo?", e apontado

para o pôster na porta que mostrava os símbolos do I Ching; e, pouco

depois, em sua leitura espetacular do computador, Lyra havia

descoberto (ela afirmara) que o Pó tinha muitas outras maneiras de falar

com os seres humanos e uma delas era o método da China que usava

aqueles símbolos.

De modo que, em seus rápidos preparativos para deixar seu

próprio mundo, Mary Malone havia trazido consigo o Livro das Mutações, como era chamado, e as pequenas varetas de milefólio que usava para a leitura. E agora havia chegado a hora de usá-las.

Ela estendeu o lenço de seda no chão e começou o processo de

dividir e contar, dividir e contar e separar, como havia feito tantas

vezes quando era uma adolescente curiosa e apaixonada, e que quase

nunca mais usara desde então. Quase tinha esquecido como fazer,

mas logo percebeu que os detalhes do ritual lhe voltavam à memória

e com a recordarão veio aquela sensação de calma e de atenção

concentrada que desempenhava um papel tão importante para falar

com as Sombras.

Finalmente, ela chegou aos números que indicavam o hexagrama

que ela havia tirado, o grupo de seis linhas inteiras ou partidas, e então

consultou o significado. Esta era a parte mais difícil, porque o Livro se

expressava num estilo demasiado enigmático. Ela leu:

 

Voltar-se para o cume

Em busca de provisões e de alimentos

Traz boa fortuna.

Ficar à espreita, observar ao redor, com os olhos aguçados

Como um tigre com uma fome insaciável.

Isso parecia encorajador. Continuou lendo, seguindo o

comentário através dos caminhos labirínticos por onde ele a conduzia;

até que chegou à seguinte passagem: A quietude ê a montanha; é uma

vereda; significa pequenas pedras, portas e aberturas.

Teria que adivinhar. A menção de "aberturas" fazia lembrar a

misteriosa janela no ar por onde havia entrado neste mundo; e as

primeiras palavras pareciam dizer que ela deveria se mover em direção

ao alto.

Ao mesmo tempo confusa e encorajada, tornou a guardar o livro

e as varetas e começou a subir pela trilha.

 

Quatro horas depois estava com muito calor e cansada. O sol

estava baixo no horizonte. A trilha irregular que estivera seguindo

havia acabado por desaparecer e ela estava subindo cada vez com mais

dificuldade em meio a pedregulhos e pedras menores. À sua esquerda a

encosta descia em direção a uma paisagem de plantações de oliveiras e

limoeiros, de vinhedos malcuidados e moinhos de vento abandonados,

envoltos pela névoa, sob a luz do crepúsculo. A direita, um amontoado

de pequenas rochas e cascalho subia em direção à base de um penhasco

de pedra calcária esfarelada.

Exausta, ela tornou a levantar a mochila e pôs o pé sobre a pedra

achatada seguinte — mas, antes mesmo de transferir o peso, parou. A

luz estava batendo em alguma coisa curiosa e ela cobriu os olhos para

protegê-los do reflexo intenso do entulho na base do penhasco e tentou

encontrar aquilo de novo.

E lá estava: era como uma vidraça pairando em pleno ar, sem que

nada a sustentasse, mas sem reflexos que chamassem atenção para ela:

apenas um retalho quadrado destoante. E então ela se lembrou do que o

I Ching dissera: uma vereda, pequenas pedras, portas e aberturas.

Era uma janela como a da Avenida Sunderland. Só conseguia vê-

la por causa da luz; se o sol estivesse um pouco mais alto,

provavelmente não seria absolutamente visível.

Ela se aproximou do pequeno retalho de ar com uma

curiosidade apaixonada, pois não tinha tido tempo de examinar a

primeira: fora obrigada a fugir o mais rápido possível. Mas examinou

esta em detalhe, tocando a borda, movendo-se em volta, de um lado

para o outro, para ver como se tornava invisível do outro lado,

reparando na diferença absoluta entre este e aquele, e descobriu que sua

mente estava quase explodindo de excitação com o fato de tais coisas

existirem.

O portador da faca que fizera a abertura, na época da Revolução

Americana, tinha sido descuidado demais para fechá-la, mas pelo menos

tinha cortado num ponto muito similar ao mundo deste lado: junto a

uma parede de rocha. Mas a rocha do outro lado era diferente, não era

calcário e sim granito, e quando Mary atravessou para o novo mundo,

descobriu que estava não na base de um enorme penhasco, mas quase no

topo de uma pequena elevação de onde podia ver uma vasta planície.

Ali, também estava anoitecendo, e ela sentou para respirar o ar,

descansar as pernas e saborear a maravilha sem pressa.

Uma ampla luz dourada e uma pradaria ou savana sem fim,

diferente de tudo o que ela jamais havia visto em seu mundo. Para

começar, embora a maior parte fosse coberta por relva baixa numa variedade infinita de tons de marrom-desbotado-verde-ocre-amarelo e

matizes dourados, e ondulando muito suavemente, de tal maneira que a

luz alongada do entardecer a mostrava muito claramente, a pradaria

parecia ser mesclada, completamente mesclada, com o que pareciam

ser rios de rocha com uma superfície cinza-claro.

E, em segundo lugar, aqui e ali, na planície, havia grupos de

árvores, as árvores mais altas que Mary jamais havia visto. Certa vez,

depois de assistir a uma conferência sobre física de alta energia, na

Califórnia, tirou algum tempo para ir ver as grandiosas sequóias e ficou

maravilhada; mas, qualquer que fosse a espécie dessas árvores, eram

pelo menos umas duas vezes e meia mais altas que as sequóias. A

folhagem era densa e verde-escura, os vastos troncos, vermelho-

dourados, sob a luz pesada do crepúsculo.

E, finalmente, rebanhos de animais, demasiado distantes para ver

claramente, pastavam na pradaria. Havia uma estranheza no

movimento deles que Mary não sabia definir exatamente.

Ela estava desesperadamente cansada, com sede e faminta, para

completar. Em algum lugar ali perto, contudo, podia ouvir o som bem-

vindo de água gotejando numa fonte e, apenas um minuto depois, ela

a encontrou: apenas uma infiltração de água límpida saindo de uma

fissura coberta de musgo e uma minúscula corrente de água que descia

serpenteando pela encosta. Bebeu bastante, sentindo-se grata, e encheu

suas garrafas, depois tratou de se instalar confortavelmente porque a

noite estava caindo depressa.

Reclinada na rocha, enrolada no saco de dormir, ela comeu um

pouco de pão com queijo de cabra e então adormeceu profundamente.

 

Acordou cedo com o sol da manhã batendo em cheio em seu

rosto. O ar estava fresco e o orvalho havia se depositado em

minúsculas gotículas sobre seus cabelos e o saco de dormir. Ficou

deitada por alguns minutos banhada pelo frescor, sentindo-se como se

fosse o primeiro ser humano que jamais viveu.

Depois sentou-se, se espreguiçou, tremeu um pouco de frio e

lavou-se na água fria da fonte, antes de comer dois figos secos e passar

o local em revista.

Arras da pequena elevação que ela havia atravessado, o terreno se

inclinava gradualmente para baixo e depois subia de novo; o panorama

mais amplo ficava logo à frente, do outro lado da imensa pradaria. As

sombras compridas das árvores agora estavam viradas para ela e podia ver

bandos de passarinhos rodopiando diante delas, tão pequeninos contra

o fundo das copas verdes gigantescas que pareciam partículas de poeira.

Pondo a mochila de volta nas costas, começou a descer a

caminho da relva espessa e vicejante da pradaria, tendo como objetivo

alcançar o grupo de árvores mais próximo, a uns seis ou oito

quilômetros de distância.

A relva lhe chegava à altura dos joelhos e crescendo em meio a ela

havia moitas e arbustos de galhos tão baixos que não lhe alcançavam os

calcanhares, de alguma coisa parecida com junípero; e havia flores

semelhantes a papoulas, a botões-de-ouro, a centáureas, dando um

colorido de tons variados à paisagem; e então ela viu uma grande

abelha, do tamanho da articulação superior de seu polegar, visitando

um capítulo de flor azul e fazendo-o dobrar-se e balançar. Mas quando

o bichinho se afastou das pétalas recuando e recomeçou a voar, ela viu

que não era um inseto, pois um momento depois veio até sua mão e

pousou em seu dedo, encostando um bico longo como uma agulha

contra sua pele, com a maior delicadeza, e então levantou vôo, de novo,

quando não encontrou néctar. Era um minúsculo beija-flor, as asas

cobertas de penas cor de bronze movendo-se depressa demais para que

ela pudesse ver.

Como todos os biólogos da Terra não a invejariam, se pudessem

ver o que ela estava vendo!

Ela seguiu adiante e viu que estava se aproximando de um

rebanho daqueles animais que tinha visto na tarde anterior e cujo

movimento a intrigara sem que soubesse por quê. Tinham mais ou

menos o tamanho de veados ou antílopes e cor de pêlo semelhante, mas

o que a fez parar de supetão onde estava e esfregar os olhos foi a

disposição de suas pernas. Cresciam em forma de losango: duas no

centro, uma na frente e uma debaixo da cauda, de modo que os animais

se locomoviam com um curioso movimento balouçante. Mary ficou

ansiosa para examinar um esqueleto e ver como a estrutura

funcionava.

Por seu lado, os animais pastando a examinaram com olhares

mansos e sem curiosidade, não demonstrando medo algum. Teria

adorado chegar mais perto e dedicar algum tempo a observá-los, mas

estava ficando quente e a sombra das grandes árvores parecia

convidativa; e, afinal, haveria muito tempo.

Pouco depois ela estava saindo da relva e entrando num daqueles

rios de pedra que tinha visto do morro: era mais uma coisa a respeito

da qual ficara curiosa.

Poderia ter sido, em tempos antigos, alguma espécie de

derramamento de lava. A cor no fundo era escura, quase preta, mas a

superfície era mais clara, como se tivesse sido triturada ou desgastada

por esmaga-mento. Era lisa como uma estrada bem pavimentada no

mundo de Mary e, certamente, era mais fácil caminhar por ali do que

em meio à relva.

Ela seguiu pelo rio de rocha onde estava, que fluía numa curva

larga em direção às árvores. Quanto mais perto chegava, mais

estarrecida ficava com o tamanho enorme dos troncos, tão largos,

estimava, quanto a casa onde ela morava e tão altos quanto — tão altos

quanto. . . ela náo conseguia nem fazer uma estimativa.

Quando chegou ao primeiro tronco, descansou as mãos na casca

da árvore vermelho-dourada de sulcos profundos. O solo estava

coberto até a altura de seus calcanhares com esqueletos de folhas

marrons, do comprimento de seu pé, macias e aromáticas quando

andava sobre elas. Logo se viu cercada por uma nuvem de diminutas

coisas voadoras, bem como um pequeno bando dos minúsculos beija-

flores, uma borboleta amarela com asas do tamanho de seu palmo e um

número excessivo de coisas rastejantes para que pudesse se sentir à

vontade. O ar estava cheio de zumbidos, trinados e rangidos.

Mary foi andando pelo solo do arvoredo com a sensação de estar

numa catedral: havia a mesma quietude, a mesma sensação de altura

das estruturas, o mesmo sentimento de respeito e encantamento em seu

íntimo.

Havia levado mais tempo do que imaginara para chegar ali. Era

quase meio-dia, pois os raios de luz atravessando a copa das árvores

estavam quase verticais. Sonolenta, Mary se perguntou por que os

animais que pastavam não vinham para a sombra das árvores durante

aquela parte mais quente do dia.

Logo ela descobriu.

Sentindo calor demais para continuar andando, deitou-se para

descansar entre as raízes de uma das árvores gigantes, com a cabeça

apoiada na mochila, e cochilou.

Estava com os olhos fechados há uns 15 minutos ou coisa assim, e

não estava exatamente dormindo quando, de repente, de muito perto,

veio um estrondo ressonante de um impacto que fez o solo tremer.

E então veio outro. Assustada, Mary sentou, tratou de ficar alerta,

e viu um movimento que se definiu num objeto redondo, com cerca de

90 centímetros, rolando no solo, parando e tombando de lado.

E então um outro caiu, mais longe; ela viu a coisa maciça

despencar e a observou se chocar contra a raiz, semelhante a um

botaréu, do tronco mais próximo e sair rolando.

A idéia de uma daquelas coisas caindo em cima dela foi o

bastante para fazê-la agarrar a mochila e sair correndo de debaixo das

árvores. O que seria aquilo? Nozes?

Olhando cuidadosamente para cima, ela se aventurou mais uma

vez sob a copa das árvores para examinar de peno um daqueles objetos.

Ela o virou e ergueu, rolou-o para fora do grupo de árvores e então o

ajeitou na relva para examiná-lo melhor.

Era perfeitamente circular e largo como a palma de sua mão.

Tinha uma depressão no centro, onde estivera preso à árvore. Não era

pesado, mas era incrivelmente duro e coberto por pêlos fibrosos que se

estendiam ao longo do arco da circunferência de tal modo que ela

podia correr a mão em torno do objeto acompanhando o sentido deles

com facilidade, mas não no sentido oposto. Tentou enfiar a faca na

superfície, mas não obteve nenhum resultado.

Seus dedos pareciam mais lisos. Ela os cheirou: havia uma leve

fragrância neles, sob o cheiro de poeira. Examinou a fruta esférica de

novo. No centro havia um ligeiro brilho e quando ela o tocou

novamente, sentiu-o deslizar com facilidade sob seus dedos. Estava

exalando uma espécie de óleo.

Mary colocou a coisa no chão e refletiu sobre as maneiras como

aquele mundo havia evoluído.

Se seus cálculos a respeito daqueles universos estivessem certos e

eles fossem os múltiplos mundos previstos pela teoria quântica, então

alguns deles teriam se separado do seu muito antes que outros. E,

claramente, naquele mundo a evolução havia favorecido árvores

enormes e grandes animais com esqueleto em forma de losango.

Estava começando a ver como seus horizontes científicos eram

estreitos. Nada de botânica, nada de geologia, nenhum conhecimento

de qualquer espécie sobre biologia — era ignorante como um bebê.

E então ouviu um rugido baixo, semelhante a um trovão, que foi

difícil de localizar até que viu uma nuvem de poeira se movendo ao

longo de uma das estradas — vindo em direção ao grupo de árvores,

em direção a ela. Estava a cerca de um quilômetro e meio, mas não

estava se movendo devagar e, de repente, Mary sentiu medo.

Voltou correndo para dentro do arvoredo. Encontrou um espaço

estreito entre duas enormes raízes e se enfiou nele, espiando sobre o

grande arcobotante a seu lado na direção de onde a nuvem de poeira se

aproximava.

O que ela viu fez sua cabeça girar e ficar tonta. De início, parecia

uma gangue de motociclistas. Depois ela pensou que fosse um rebanho

de animais providos de rodas. Mas isso era impossível. Nenhum animal

podia ter rodas. Não estava vendo aquilo. Mas estava.

Havia cerca de uma dúzia deles. Tinham mais ou menos o

mesmo tamanho dos animais que pastavam, mas eram mais esguios e de

cor cinza, com chifres na cabeça e trombas curtas como as de elefantes.

Tinham a mesma estrutura em formato de losango que os outros, mas

de alguma forma haviam evoluído; nas patas isoladas da frente e de trás,

tinham uma roda.

Mas rodas não existiam na natureza, insistiu sua mente; não

podiam; era preciso que houvesse um eixo, com uma superfície de

sustentação, que era completamente separado da parte que rodava, não

podia acontecer, era impossível —

Então, quando eles pararam, a menos de 50 metros de distância,

e a poeira assentou, ela de repente fez a ligação, e não pôde deixar de rir

alto, com uma tossidela de puro deleite.

As rodas eram nozes. Perfeitamente circulares, incrivelmente

duras e leves — não poderiam ter sido melhor projetadas. As criaturas

enganchavam uma garra no centro das nozes com as pernas da frente e

de trás e usavam as duas pernas laterais para dar impulso contra o solo e

se mover. Enquanto ela se maravilhava com aquilo, também sentiu

uma certa ansiedade, pois os chifres pareciam formidavelmente afiados

e, mesmo àquela distância, podia perceber inteligência e curiosidade no

olhar daqueles seres.

E estavam procurando por ela.

Um deles tinha avistado a noz que ela havia tirado da árvore e

rodou para fora da estrada em direção a ela. Quando a alcançou, ele a

carregou até uma pequena elevação com a tromba e a fez rolar na

direção de seus companheiros.

Eles se reuniram em volta da noz e a tocaram delicadamente com

aquelas trombas fortes, flexíveis, e Mary viu-se interpretando os

gorjeios, estalidos e apupos que estavam emitindo como expressões de

desaprovação. Alguém havia mexido naquilo: estava errado.

Então ela pensou: eu vim aqui com um propósito, embora ainda

não o compreenda. Mary, seja ousada. Tome a iniciativa.

De modo que se levantou e gritou, muito constrangida:

— Aqui. Eu estou aqui. Eu dei uma olhada na noz. Sinto muito.

Por favor, não me machuquem.

Imediatamente a cabeça deles virou rápido para olhar para ela, as

trombas estendidas, os olhos brilhantes voltados para a frente. As

orelhas deles tinham se empinado.

Ela saiu do abrigo entre as raízes e os encarou francamente,

estendeu as mãos, percebendo que aquele gesto poderia não significar

nada para seres que não possuíam mãos. Contudo, era o que podia

fazer. Pegando a mochila, foi andando pela relva e entrou na estrada.

De perto — a menos de cinco passos de distância — podia ver

muito mais da aparência deles, mas sua atenção foi capturada por

alguma coisa viva e consciente nos seus olhares, por uma

inteligência.

Aqueles seres eram quase tão diferences dos animais pastando

quanto um ser humano de uma vaca.

Mary apontou para si mesma e disse:

— Mary.

A criatura mais próxima estendeu sua tromba para ela. Mary

chegou mais perto e a tromba tocou seu peito, onde ela havia

apontado, e ela ouviu uma voz vindo em sua direção da garganta da

criatura:

—Merry.

—O que é você? — perguntou, e: — Uquiévocê —, respondeu

a criatura.

A única coisa a fazer era responder.

—Eu sou um ser humano — disse.

—Eusôum Sorumano — disse a criatura e então uma coisa ainda

mais estranha aconteceu: os seres riram.

Seus olhos se franziram, as trombas balançaram, eles lançaram a

cabeça para trás — e de suas gargantas veio o som inconfundível de

riso. Ela não pôde se conter: riu também.

Então um outro ser se aproximou e tocou sua mão com a tromba.

Mary ofereceu a outra mão a seu toque suave, hirsuto, inquisitivo.

—Ah — disse ela —, você está sentindo o cheiro do óleo da noz.

—Nóss — disse o ser.

—Se vocês conseguem emitir os sons de minha língua, pode ser

que um dia possamos nos comunicar. Deus sabe como. Mary — disse apontando para si mesma mais uma vez.

Nada. Eles ficaram olhando. Ela repetiu o gesto.

— Mary.

O ser mais próximo tocou seu próprio peito e falou. Foram três

sílabas ou duas? O ser falou de novo e dessa vez Mary fez um grande

esforço para repetir os mesmos sons.

— Mulefa — ela disse hesitante.

Os outros repetiram "Mulefa" na voz dela, rindo, e pareciam até

mesmo estar implicando com o ser que havia falado. — Mulefa! —

disseram novamente, como se fosse uma excelente piada.

— Bem, se podem rir, suponho que não vão me comer — disse

Mary. E, a partir daquele momento, houve descontração e afabilidade

entre eles, e ela não se sentia mais nervosa.

E o próprio grupo relaxou: eles tinham coisas a fazer, não

estavam vagando ao acaso. Mary viu que um deles tinha uma sela ou

um fardo nas costas e dois outros levantaram o fruto esférico até ali e o

prenderam, amarrando-o com tiras, com movimentos hábeis e

intricados das trombas. Quando ficavam parados, se equilibravam com

as pernas laterais e quando se moviam, viravam tanto a perna da frente

como a de trás para seguir numa direção. Os movimentos deles eram

ao mesmo tempo muito graciosos e vigorosos.

Um deles rodou até a beira da estrada e levantou a tromba para

emitir um bramido de chamado. O rebanho inteiro que pastava

levantou a cabeça simultaneamente e começou a trotar na direção

deles. Quando chegaram, os animais pararam pacientemente nas

proximidades e permitiram que as criaturas se movimentassem

lentamente entre eles, examinando-os, tocando-os e contando.

Então Mary viu um estender a tromba abaixo de um deles e

ordenhá-lo; então a criatura veio até junto dela e levantou a tromba

delicadamente até a boca de Mary.

De início, ela recuou, mas havia uma expectativa nos olhos

daquele ser, de modo que ela tornou a se adiantar e abriu a boca. O

animal esguichou um pouco do leite doce e fino dentro de sua boca,

observou-a engolir e deu um pouco mais a ela, repetindo a operação

várias vezes. O gesto era tão inteligente e gentil que Mary

impulsivamente atirou os braços em volta da cabeça do animal e o beijou,

cheirando o calor empoeirado do pêlo e sentindo os ossos duros por

baixo e a força musculosa da tromba.

Pouco depois, o líder barriu suavemente e os animais do pasto se

afastaram. Os mulefas estavam se preparando para ir embora. Ela sentia

alegria pelo fato de terem-na recebido bem e tristeza por estarem

partindo; mas então também sentiu surpresa.

Um dos animais estava se abaixando, se ajoelhando na estrada e

acenando com a tromba, e os outros também acenavam para ela,

convidando-a. . . Não havia dúvida quanto a isso: estavam se

oferecendo para carregá-la, para levá-la com eles.

Um outro pegou sua mochila e a prendeu na sela de um terceiro

e, desajeitadamente, Mary montou no dorso do que estava ajoelhado,

perguntando a si mesma onde poria as pernas — na parte da frente ou

na parte de trás da criatura? E em que poderia se segurar?

Mas, antes que pudesse descobrir, a criatura havia se levantado e

o grupo começou a se deslocar pela estrada, com Mary cavalgando

entre eles.

porque ele é Will