A Luneta Âmbar
30. A Montanha Nublada
bruxas, ficou desapontado; o pinheiro do pez e o betume
continuaram ardendo desafiadoramente contra as gotas, crepitando e
sibilando mais alto, quanto mais chuva caía sobre eles. As gotas de
chuva bateram no solo como se tivessem sido lançadas com maldade,
explodindo e respingando para cima no ar. Em menos de um minuto
Lyra e Will estavam ensopados até os ossos e tremendo de frio, e a
chuva golpeava-lhe a cabeça e os braços como minúsculas pedrinhas.
Em meio àquilo tudo os dois seguiram adiante, cambaleando e
se esforçando, limpando a água dos olhos, gritando: — Pan! Pan!
— em meio ao tumulto.
Os trovões acima agora eram quase contínuos, rasgando,
moen-do e explodindo como se os próprios átomos estivessem
sendo rompidos. Entre as explosões de raios e trovões e as pontadas
de medo, Will e Lyra corriam, urrando juntos:
— Pan! Meu Pantalaimon! Pan — e um grito sem palavra
de Will, que sabia o que havia perdido, mas não como ela se
chamava.
Com eles, por toda parte onde passavam, iam os galivespianos
advertindo-os para olhar nessa direção, para seguir por aquela, de
olho nos Espectros que as crianças ainda não podiam ver
claramente. Lyra tinha que segurar Salmakia nas mãos porque a
pequenina dama não tinha mais forças para se segurar no ombro de
Lyra. Tialys estava vasculhando os céus ao redor, em busca de seus
companheiros e gritando sempre que via uma faísca de cor brilhante
passar dardejando no ar acima. Mas a voz dele tinha perdido muito
de sua força e de qualquer maneira os outros galivespianos estavam
procurando as cores dos clãs de suas duas libélulas, a azul-elétrica e a
vermelho-e-amarela; e essas cores há muito haviam se apagado, e os
corpos que tinham brilhado com elas jaziam no mundo dos
mortos.
E então houve um movimento no céu que foi diferente do
resto. Enquanto as crianças olhavam para cima, protegendo os olhos
da chuva violenta, viram uma aeronave diferente de todas as que
tinham visto antes: deselegante, com seis pernas, escura e
totalmente silenciosa. Estava voando baixo, muito baixo, vinda da
fortaleza. Ela fez um vôo rasante bem acima, passando sobre a
cabeça deles na altura de um telhado, e então se afastou seguindo
para o coração da tempestade.
Mas eles não tiveram tempo para se perguntar sobre o que
seria, pois um outro latejar estonteante de náusea disse a Lyra que
Pan estava em perigo novamente, e então Will também o sentiu, e
os dois seguiram cambaleando cegamente em meio às poças de
água, lama e o caos de homens feridos e fantasmas lutando,
desprotegidos, apavorados e se sentindo enjoados.
A MONTANHA NUBLADA
E AO LONGE VÊ COM ATENÇÃO PAUSADA O EMPÍRIO CÉU,
QUE NOS SENTIDOS TODOS VAI A PERDER DE VISTA E
EXCELSO ENCOBRE A SUA FORMA NA GRANDEZA SUA:
OBSERVA-LHE COM HÓRRIDA SAUDADE DE OPALA AS
TORRES, DE SAFIRA OS MUROS...
JOHN MILTOM – CANTO II, 69
A nave da intenção estava sendo pilotada pela Sra.
Coulter. Ela e seu daemon estavam sozinhos na cabine de comando.
O altímetro barométrico era de muito pouca utilidade
por causa da tempestade, mas podia calcular aproximadamente
sua altitude observando as fogueiras que ardiam no chão onde os
anjos caíam; apesar da chuva torrencial, as chamas ainda estavam
altas. No que dizia respeito ao curso, também não era difícil: os
relâmpagos e raios que caíam sobre a montanha serviam como
faróis intensos. Mas ela tinha que evitar os vários seres voadores e
se manter longe das elevações no solo abaixo.
Não utilizou as luzes, porque queria se aproximar e encontrar
um lugar para pousar antes que a vissem. À medida que voou para
mais perto, as correntes de ar verticais tornaram-se mais
violentas, as rajadas mais repentinas e brutais. Um giróptero não
teria tido nenhuma chance: as selvagens rajadas de vento o teriam
lançado ao solo como uma mosca. Na nave da intenção ela podia se
mover suavemente com o vento, ajustando seu equilíbrio como
alguém numa prancha deslizando sobre uma onda no Oceano
Pacífico.
Cautelosamente, ela começou a subir, examinando o que
estava à sua frente, ignorando os instrumentos, navegando por
alcance visual e por instinto. Seu daemon saltava de um lado para outro na pequena cabine de vidro, olhando para o que estava à
frente, acima, à esquerda e à direita, e passando-lhe informações
constantemente. Os relâmpagos e raios, grandes clarões e lanças de
luminosidade fulgurante, refiilgiam e ribombavam, acima e ao
redor da aeronave. Em meio a tudo isso ela voava na pequena
aeronave, pouco a pouco ganhando altura e sempre seguindo adiante
em direção ao palácio coberto de nuvens.
E à medida que a Sra. Coulter se aproximava, viu sua atenção
deslumbrada e desconcertada com a natureza da montanha
propriamente dita.
Fazia com que se lembrasse de uma certa heresia abominável,
cujo autor agora merecidamente definhava nas masmorras do
Tribunal Consistorial. Ele havia sugerido que havia mais dimensões
espaciais que as três conhecidas; que, em uma escala muito
pequena, havia até sete ou oito outras dimensões, mas que elas eram
impossíveis de ser examinadas diretamente. O homem tinha até
construído um modelo para mostrar como poderiam funcionar e a
Sra. Coulter tinha visto o objeto antes de ser exorcizado e
queimado. Dobras dentro de dobras, cantos e bordas ao mesmo
tempo contendo e sendo contidos: seu interior estava em toda parte
e seu exterior em todas as outras partes. A Montanha Nublada a
afetava de uma maneira similar: não era bem como um rochedo,
era mais como um campo de força, manipulando o próprio espaço
para se envolver, se esticar e se dispor em camadas, formando
galerias e terraços, câmaras, colunatas e torres de observação, de ar,
de luz e de vapor.
Ela sentiu uma estranha exultação começar a crescer em seu
peito e viu ao mesmo tempo como pousar a aeronave em segurança
lá em cima no terraço no flanco sul. A pequena nave deu um
solavanco e lutou no ar turbulento, mas ela manteve o curso firme e
seu daemon a guiou na descida para pousar no terraço.
A luz que havia usado para enxergar até aquele momento
tinha vindo dos relâmpagos, dos ocasionais cortes profundos na
nuvem por onde o sol passava, das fogueiras dos anjos queimando,
dos focos de luz dos holofotes ambáricos; mas ali a luz era diferente.
Vinha da substância da própria montanha, que fulgurava e se
apagava num ritmo lento, semelhante ao da respiração, com uma
radiância de madrepérola.
A mulher e o daemon saltaram da nave e olharam em torno
para ver em que direção deveriam seguir.
Ela possuía a sensação de que outros seres estavam se
movimentando rapidamente acima e abaixo, correndo através da
própria substância da montanha com mensagens, ordens,
informações. Não conseguia vê-los; tudo o que conseguia ver eram
confusas perspectivas envolventes de colunata, escada, terraço e
fachada.
Antes que pudesse se decidir sobre que direção tomar, ouviu
vozes e se escondeu atrás de uma coluna. As vozes estavam cantando
um salmo e se aproximando, e então viu uma procissão de anjos
carregando uma liteira.
Quando se aproximaram do lugar onde estava escondida,
viram a nave da intenção e se detiveram. O cântico se calou, alguns
dos carregadores olharam em torno tomados pela dúvida e pelo
medo.
A Sra. Coulter estava perto o bastante para ver o ser na
liteira: um anjo, pensou ela, e indescritivelmente idoso. Ele não
era fácil de ver porque a liteira era toda fechada com cristal que
cintilava e refletia de volta a luz envolvente da montanha, mas ela teve a impressão de uma decrepitude aterradora, de uma face
encovada, mergulhada em rugas, de mãos trêmulas, de uma boca
balbuciante e olhos remelentos.
O ser idoso fez um gesto trêmulo para a nave da intenção,
deu uma risada estridente, desagradável, e balbuciou para consigo
mesmo, incessantemente puxando a barba, e então lançou a cabeça
para trás e emitiu um uivo de tamanha angústia que a Sra. Coulter
teve que cobrir os ouvidos.
Mas, evidentemente, os carregadores tinham uma missão a
cumprir, pois se recuperaram e seguiram adiante pelo terraço,
ignorando os gritos e resmungos do interior da liteira. Quando
alcançaram um espaço aberto, abriram bem as asas e depois de uma
palavra do líder começaram a voar, carregando a liteira juntos, até
saírem do campo de visão da Sra. Coulter nos vapores rodopiantes.
Mas não havia tempo para pensar naquilo. Ela e o macaco
dourado moveram-se rapidamente, subindo as grandes escadarias,
atravessando pontes, sempre seguindo para cima. Quanto mais alto
iam, mais tinham aquela sensação de atividade invisível por toda
parte ao redor deles, até que finalmente dobraram uma esquina,
num espaço amplo como uma praça coberta de neblina, e viram-se
confrontados por um anjo com uma lança.
— Quem é você? O que quer aqui? — perguntou ele.
A Sra. Coulter olhou para ele curiosamente. Aqueles eram os
seres que haviam se apaixonado por mulheres humanas, pelas filhas
de homens, tanto tempo atrás.
— Não, não — disse ela suavemente —, por favor, não
perca tempo. Leve-me ao Regente imediatamente. Ele está me
esperando.
Deixe-os desconcertados, pensou ela, mantenha-os
desestabilizados; e o anjo não sabia o que devia fazer, de modo que
fez o que ela mandou. A Sra. Coulter o seguiu durante alguns
minutos através daquelas perspectivas desnorteantes de luz, até que
chegaram a uma ante-câmara. Como tinham entrado ali, ela não
sabia, mas lá estavam eles e, depois de uma breve pausa, algo diante
dela se abriu como uma porta.
As unhas pontudas de seu daemon estavam cravadas na carne
da parte superior de seus braços e ela agarrou seu pêlo para se
acalmar.
Encarando-os havia um ser feito de luz. Tinha forma de
homem, tamanho de homem, pensou ela, mas estava demasiado
ofuscada para ver. O macaco dourado escondeu a face no ombro
dela e a Sra. Coulter levantou o braço para cobrir os olhos.
Metatron disse:
— Onde está ela? Onde está sua filha?
— Eu vim para dizer ao senhor, Regente.
— Se estivesse sob seu controle, você a teria trazido.
— Ela não está, mas seu daemon está. — Como é possível isso? — Eu juro, Metatron, seu daemon está sob meu controle.
Por favor, grande Regente, esconda-se um pouco. . . meus olhos
estão ofuscados.
Ele puxou um véu de nuvem diante de si. Agora era como
olhar para o sol através de vidro fume, e os olhos dela podiam vê-lo
mais claramente, embora ainda fingisse estar ofuscada pelo rosto
dele. Era exatamente como um homem no início da idade madura,
alto, forte e imponente. Estaria vestido? Tinha asas? Ela não sabia
dizer por causa da força de seus olhos. Não conseguia olhar para
mais nada.
— Por favor, Metatron, ouça o que tenho a dizer. Acabei de
fugir de Lorde Asriel. Ele está com o daemon da criança e sabe que a criança logo virá procurá-lo.
— O que ele quer com a criança?
— Mantê-la protegida, fora de seu alcance, até atingir a
maturidade. Ele não sabe para onde vim e devo voltar logo para
junto dele. Estou lhe dizendo a verdade. Olhe para mim, grande
Regente, uma vez que não posso olhar para o senhor com
facilidade. Olhe bem francamente para mim e diga-me o que vê.
O príncipe dos anjos olhou para ela. Foi o exame mais
penetrante a que Marisa Coulter jamais fora submetida. Cada
retalho de proteção e de engano foi-lhe arrancado e ela ficou parada
ali despida, de corpo, espírito e daemon, sob a ferocidade do olhar de Metatron.
E sabia que sua natureza teria que responder por ela, e estava
apavorada de que o que ele visse nela fosse insuficiente. Lyra tinha
mentido para Iofur Raknison com palavras; sua mãe estava mentindo
com toda a sua vida.
— Sim, estou vendo.
— O que vê?
— Corrupção, inveja e ambição pelo poder. Crueldade e
frieza. Uma curiosidade perversa incessante. Maldade pura,
venenosa, tóxica. Você nunca, desde os primeiros anos de vida,
demonstrou um fiapo de compaixão, solidariedade ou gentileza sem
antes calcular como usá-lo em seu próprio benefício. Você torturou
e matou sem arrependimento ou hesitação; você traiu, tramou,
conspirou e se rejubilou, glorificando sua perfídia. Você é um poço
de imundície moral.
Aquela voz, fazendo aquele julgamento, abalou
profundamente a Sra. Coulter. Sabia o que estava a caminho e o
temeu apavorada, mas ao mesmo tempo também esperava por
aquilo e, agora que tinha sido dito, sentiu um pequeno
arrebatamento de triunfo.
Ela se aproximou mais dele.
— Então compreende — declarou —, eu posso traí-lo
facilmente. Posso levá-lo para onde ele está levando o daemon de minha filha e você poderá destruir Asriel, e a criança virá direto para suas mãos
inocentemente.
Ela sentiu o movimento de vapor ao seu redor e seus sentidos
ficaram confusos: as palavras seguintes dele perfuraram sua carne
como dardos de gelo perfumado.
— Quando eu era homem — disse ele —, tive uma
quantidade de esposas, mas nenhuma era tão bela quanto você.
— Quando era homem?
— Quando eu era homem, era conhecido como Enoque, o
filho de Jared, filho de Mahalalel, filho de Kenan, filho de Enosh,
filho de Seth, filho de Adão. Vivi na terra durante 65 anos e então a
Autoridade me levou para seu reino.
— E teve muitas esposas?
— Adorava-lhes a carne. E compreendia quando os filhos do
céu se apaixonavam pelas filhas da terra, defendi a causa deles diante
da Autoridade. Mas seu coração estava decidido contra eles e ele me
fez profetizar a perdição deles.
— E não conheceu mais uma esposa durante milhares de
anos...
— Tenho sido o Regente do reino.
— E não está na hora de ter uma consorte?
Aquele foi o momento em que ela se sentiu mais exposta e
correndo mais perigo. Mas confiava em sua carne e na estranha
verdade que havia descoberto a respeito de anjos que outrora
tinham sido humanos: carecendo de carne, eles a cobiçavam e
ansiavam por ter contato com ela. E Metatron agora estava perto,
perto o bastante para sentir o perfume de seus cabelos e contemplar
a textura de sua pele, perto o bastante para tocá-la com mãos
escaldantes.
Houve um som estranho, como o murmúrio e o crepitar que
você ouve antes de se dar conta de que o que está ouvindo é sua
casa pegando fogo.
— Diga-me o que Lorde Asriel está fazendo e onde ele está —
ordenou ele.
— Posso levá-lo até ele agora — respondeu ela.
Os anjos carregando a liteira deixaram a Montanha Nublada e
voaram rumo ao sul. As ordens de Metatron tinham sido levar a
Autoridade para um lugar seguro, distante do campo de batalha, porque
queria que ainda fosse mantido vivo por algum tempo; mas, em vez de
dar-lhe um corpo de guarda de muitos regimentos, que só atrairiam a
atenção do inimigo, tinha confiado na obscuridade da tempestade,
calculando que naquelas circunstâncias um grupo pequeno seria mais
seguro que um grande.
E poderia ter sido assim, se um certo avantesma-dos-
penhascos, ocupado em se banquetear com um guerreiro
semimorto, não tivesse olhado para cima exatamente no momento
em que um holofote de busca, por acaso, iluminou o lado da liteira
de cristal.
Alguma coisa despertou na memória do avantesma-dos-
penhascos. Ele fez uma pausa, com uma das mãos no fígado ainda
quente, e, enquanto seu irmão o empurrava para o lado com um
safanão, a lembrança de uma raposa do Ártico tagarela surgiu em
sua mente.
Imediatamente ele abriu as asas e saltou para o alto; um
momento depois o resto da tropa o seguiu.
Xaphania e seus anjos tinham procurado diligentemente a
noite inteira e parte da manhã e, finalmente, tinham encontrado
uma rachadura minúscula na encosta da montanha ao sul da
fortaleza, que não estivera lá no dia anterior. Eles a haviam explorado e aumentado, e agora Lorde Asriel estava descendo por
uma série de cavernas e túneis que se estendiam por uma longa
distância abaixo da fortaleza.
Não estava totalmente escuro, como havia esperado. Havia
uma fraca fonte de luz, como uma corrente de bilhões de partículas
minúsculas, cintilando suavemente. Elas fluíam sem parar descendo
pelo túnel, como um rio de luz.
— Pó — disse ele para seu daemon. Ele nunca o tinha visto a olho nu, mas também nunca tinha
visto tanto Pó junto. Seguiu adiante até que, de maneira muito
repentina, o túnel se abriu, bem largo, e viu-se no alto de uma vasta
caverna: uma abóbada imensa o bastante para conter uma dúzia de
catedrais. Não havia solo; as paredes se inclinavam vertiginosamente
para baixo em direção à borda de um enorme abismo; centenas de
metros mais abaixo e para dentro do abismo corria a catarata
infinita de Pó, jorrando incessantemente para o fundo. Seus bilhões
de partículas eram como as estrelas de todas as galáxias no céu e
cada uma delas era um pequeno fragmento de pensamento
consciente. Era uma luz melancólica a que lhe permitia ver.
Ele fez a escalada com seu daemon, descendo em direção ao
abismo, e, à medida que desciam, gradualmente começaram a ver o
que estava acontecendo ao longo da extremidade oposta da
garganta, a centenas de quilômetros de distância na semi-
obscuridade. Teve a impressão de que havia um movimento lá, e
quanto mais descia, mais claramente se definia: uma procissão de
vultos pálidos, apagados, caminhando cautelosamente pela encosta
perigosa, homens, mulheres, crianças, seres de todos os tipos que ele
já tinha visto e muitos que nunca vira. Concentrados em manter o
equilíbrio, eles o ignoraram totalmente e Lorde Asriel sentiu os
cabelos se arrepiarem na nuca quando se deu conta de que eram
fantasmas.
— Lyra esteve aqui — disse baixinho para a pantera branca.
— Pise com cuidado — foi tudo o que ela disse em resposta.
A esta altura, Will e Lyra estavam completamente
encharcados, tremendo de frio, atormentados pela dor e tropeçando
cegamente em meio à lama, sobre pedregulhos e em pequenos
barrancos onde riachos alimentados pela tempestade corriam vermelhos
de sangue. Lyra temia que Lady Salmakia estivesse morrendo: ela não
dizia nenhuma palavra há vários minutos e estava deitada, o corpo
mole desmaiado na mão de Lyra.
Quando se abrigaram no leito de um riacho onde a água
estava clara, pelo menos, e encheram as mãos em concha várias vezes
levando-as à boca para beber e matar a sede, Will sentiu Tialys
despertar e dizer:
— Will, estou ouvindo cavalos se aproximando; Lorde Asriel
não tem cavalaria. Deve ser o inimigo. Atravessem o riacho e se
escondam... vi alguns arbustos naquela direção —
— Vamos — disse Will para Lyra, e eles chapinharam pela
água gelada de fazer doer os ossos e subiram correndo o barranco do
outro lado bem a tempo. Os cavaleiros que surgiram no alto da
encosta e desceram para beber não pareciam ser uma cavalaria: pareciam ter o mesmo tipo de pele de pêlo curto que seus cavalos e