A Luneta Âmbar
35. Além das Colinas e Muito Longe
ALÉM DAS COLINAS E MUITO LONGE
O DIA CHEGOU EM QUE NASCEU MINHA VIDA, MEU AMOR
CHEGOU PARA MIM.
C HRISTINA R OSSETI
,
— ra D Malone — disse Lyra logo de manhã —, Will e eu
temos que procurar nossos daemons. Quando os encontrarmos, saberemos o que temos de fazer.
Mas não podemos continuar muito tempo mais sem eles.
De modo que queremos sair para procurar.
— Para onde irão? — perguntou Mary, com os olhos
pesados e dor de cabeça, depois de sua noite perturbadora. Ela e
Lyra estavam na margem do rio, Lyra para se lavar e Mary para
procurar, disfarçadamente, as marcas das pegadas do homem.
Até o momento não tinha encontrado nenhuma.
— Não sei — respondeu Lyra. — Mas eles estão por aí, em
algum lugar. Assim que atravessamos a janela, saindo da batalha, eles
fugiram, como se não confiassem mais em nós. Também não posso
nem dizer que os culpe por isso. Mas sabemos que estão neste
mundo e tivemos a impressão de que os vimos umas duas vezes, de
modo que talvez possamos encontrá-los.
— Ouça — disse Mary, com relutância, e contou a Lyra o
que tinha visto na noite anterior.
Enquanto falava, Will veio se juntar a elas e tanto ele quanto
Lyra ouviram, com os olhos arregalados e o rosto sério.
— Provavelmente é um viajante que encontrou uma janela e
a atravessou, vindo de algum outro lugar — disse Lyra, quando
Mary concluiu. Intimamente, ela possuía coisas bastante diferentes
em que pensar e esse homem não era interessante como elas eram.
— Como fez o pai de Will — prosseguiu. — Deve haver todo tipo
de aberturas agora. De qualquer maneira, se ele simplesmente deu
as costas e foi embora, não deve ter querido fazer nada de mau,
não acha?
— Não sei. Não gostei daquilo. E estou preocupada com
vocês saindo por aí sozinhos, ou ficaria, se não soubesse que já
fizeram coisas muito mais perigosas que isso. Ah, eu não sei. Mas,
por favor, tenham cuidado. Por favor, examinem bem os lugares
por onde vão andar. Pelo menos na pradaria pode-se ver de muito
longe quando alguém se aproxima. . .
— Se os encontrarmos, poderemos fugir direto para um
outro mundo, de modo que ele não vai poder nos fazer mal —
disse Will.
Estavam decididos a ir e Mary sentia-se relutante em discutir
com eles.
— Pelo menos — pediu ela — prometam que não entrarão
nos bosques, no meio das árvores. Se esse homem ainda estiver por
perto, pode estar se escondendo num bosque ou numa moita e
vocês não o veriam a tempo de escapar.
— Nós prometemos — disse Lyra.
— Bem, vou preparar um farnel para vocês, caso fiquem fora
o dia inteiro.
Mary juntou alguns dos pães achatados e queijo, algumas
frutas vermelhas, doces e suculentas para matar a sede,
embrulhou-os num pano e amarrou com um barbante, fazendo
uma alça para que um deles levasse o embrulho pendurado no
ombro.
— Boa caçada — disse ela, quando iam saindo. — Por favor,
tomem cuidado.
Ainda estava preocupada. Ficou parada vendo os dois se
afastarem até chegarem ao sopé da encosta.
— Gostaria de saber por que ela está tão triste — comentou
Will, enquanto ele e Lyra subiam pela estrada que levava à cadeia de
colinas.
— Provavelmente está se perguntando se algum dia tornará a
voltar para casa — respondeu Lyra. — E se o laboratório ainda será
seu, quando voltar. E talvez esteja triste por causa do homem por
quem foi apaixonada.
— Humm — retrucou Will. — Você acha que nós
voltaremos para casa algum dia?
— Não sei. De qualquer maneira, não creio que eu tenha
uma casa. Eles provavelmente não podem me aceitar de volta na
Faculdade Jordan, e não posso viver com os ursos nem com as
bruxas. Talvez pudesse viver com os gípcios. Bem que gostaria
disso, se me aceitassem.
— E o mundo de Lorde Asriel? Não gostaria de viver lá?
— Não vai dar certo, lembre-se — disse ela.
— Por quê?
— Por causa do que o fantasma de seu pai disse, pouco antes
de sairmos. Sobre os daemons e como só podem viver muito tempo se ficarem em seu próprio mundo. Mas provavelmente Lorde Asriel,
quero dizer, meu pai não poderia ter pensado nisso, porque
ninguém tinha muitos conhecimentos a respeito de outros mundos
quando ele começou... Aquilo tudo — comentou em tom de
admiração e tristeza —, toda aquela bravura e talento. . . Tudo
aquilo, tudo desperdiçado! Tudo para nada!
Continuaram subindo, achando o caminho fácil na estrada de
rocha, e quando alcançaram o alto da cadeia de colinas pararam e
olharam para trás.
— Will, e se não os encontrarmos? — perguntou ela. — Tenho certeza que encontraremos. O que ando querendo
saber é como será o meu daemon.
— Você a viu. E eu a peguei no colo — disse Lyra,
enrubescendo, porque, é claro, era uma tremenda violação das
regras de boas maneiras tocar em algo tão pessoal como o daemon
de outra pessoa. Era proibido não só por educação, mas também por
algo mais profundo que isso, algo como vergonha. Um rápido olhar
de relance para as faces vermelhas de Will mostrou que ele sabia
disso tão bem quanto ela. Não sabia dizer se ele também sentia aquela
sensação estranha, que era metade medo, metade excitação, que ela
sentia, aquela sensação que tinha começado a se apoderar dela na
noite anterior: ali estava novamente.
Continuaram caminhando lado a lado, de repente
tímidos um com o outro. Mas Will, que não se deixava vencer
pela timidez, perguntou:
— Quando o daemon da gente pára de mudar de forma? — Mais ou menos. . . acho que com a sua idade, ou um
pouco depois. Costumávamos falar sobre Pan fixar forma, ele e eu.
A gente se perguntava que forma ele teria —
— As pessoas não têm nenhuma idéia?
— Não quando ainda são crianças. À medida que você vai
crescendo, bem, poderia ser isso ou poderia ser aquilo. . . E,
geralmente, eles acabam fixando forma em alguma coisa que se
encaixa. Quero dizer, alguma coisa que combina com sua verdadeira
natureza. Como por exemplo, se seu daemon é um cachorro, isso significa que você gosta de ser obediente, de saber quem manda e
de cumprir ordens, de agradar as pessoas que estão no comando.
Muitos criados são pessoas cujos daemons são cachorros. De modo que ajuda saber que tipo de pessoa você é e descobrir as coisas que
saberá fazer bem. Como as pessoas em seu mundo sabem quem e
como elas são?
— Não sei. Não conheço muita coisa a respeito de meu
mundo. Tudo o que sei é guardar segredos, não me mostrar, ficar
bem quieto e escondido, de modo que não sei muita coisa sobre...
adultos e amigos. Ou amantes. Acho que seria difícil ter um daemon porque todo mundo saberia tanta coisa a respeito de você só de olhar.
Gosto de não me mostrar, guardar meus segredos e de ficar fora do
alcance de olhares.
— Então talvez seu daemon seja um animal que sabe se
esconder bem. Um desses animais que parecem com um outro. . .
uma borboleta que se pareça com uma vespa, para se disfarçar.
Deve haver animais assim em seu mundo, porque nós temos e
somos tão parecidos.
Continuaram caminhando juntos em silêncio amigável. Por
toda parte, em torno deles, a manhã vasta e clara estava límpida nas
ravinas e azul-perolada na atmosfera quente acima. Até onde o olhar
podia alcançar, a grandiosa savana se estendia, marrom, dourada,
verde-fosca, cintilando na direção do horizonte e vazia. Eles
poderiam ter sido as únicas pessoas no mundo.
— Mas na verdade não é vazio — observou Lyra.
— Está falando do tal homem?
— Não. Você sabe o que estou querendo dizer.
— E, sei. Posso ver sombras na relva. . . talvez sejam
passarinhos — disse Will.
Ele estava acompanhando pequenos movimentos
dardejantes aqui e ali. Descobriu que era mais fácil ver as sombras se
não olhasse diretamente para elas. Pareciam mais dispostas a se
mostrar para os cantos de seu olho e, quando falou disso para Lyra,
ela comentou:
— É a capacidade negativa.
— O que é isso?
— Foi o poeta Keats quem falou disso pela primeira vez. A
Dra. Malone sabe. É assim que leio o aletômetro. E é assim que
você usa a faca, não é?
— É, imagino que seja. Mas estava pensando agora mesmo
que poderiam ser os daemons.
— Eu também, mas. . .
— Olhe — disse ele —, lá está uma daquelas árvores caídas. Era a árvore da plataforma de Mary. Eles se aproximaram
dela cuidadosamente, mantendo um olho vigilante no arvoredo,
para o caso de uma outra cair também. Na calma da manhã, com
apenas uma ligeira brisa agitando as folhas, parecia impossível que
uma coisa imensa e imponente assim pudesse algum dia desabar,
mas lá estava ela.
O vasto tronco, apoiado no solo do bosque por suas raízes
arrancadas e na relva pela massa de galhos, estava lá no alto, muito
acima da cabeça dos dois. Alguns de seus galhos esmigalhados e
partidos eram, só eles, de uma circunferência tão grande quanto a das
maiores árvores que Will já tinha visto; a copa da árvore, compacta,
com ramagens que ainda pareciam robustas, folhas que ainda estavam
verdes, erguia-se nas alturas como um palácio em ruínas na
atmosfera agradável.
De repente, Lyra agarrou o braço de Will.
— Psiu — cochichou. — Não olhe. Tenho certeza que eles
estão lá em cima. Vi alguma coisa se mexer eu juro que era Pan.
A mão de Lyra estava quente. Ele tinha mais consciência disso
do que da grande massa de folhas e galhos acima deles. Fingindo
contemplar distraidamente o horizonte, ele deixou sua atenção vagar
relaxada para cima, para a massa confusa de verde, marrom e azul, e
lá — ela estava com a razão! — havia alguma coisa que não era a árvore. E, ao lado, uma outra.
— Afaste-se — cochichou Will. — Vamos para algum outro
lugar e ver se eles nos seguem.
— E se não seguirem. . . Mas, sim, está bem — cochichou
Lyra em resposta.
Eles fingiram olhar ao redor; puseram as mãos num dos galhos
descansando no chão, como se estivessem pretendendo subir nele;
fingiram mudar de idéia, sacudindo a cabeça um para o outro e se
afastando.
— Gostaria de poder olhar para trás — disse Lyra quando
estavam a alguns metros de distância.
— Apenas continue andando. Eles estão nos vendo e não vão
se perder. Virão nos procurar quando quiserem vir.
Saíram da estrada preta e entraram na relva alta, que chegava à
altura dos joelhos, as pernas se movendo com um som sibilante ao
roçar nos talos altos, observando os insetos esvoaçando, dardejando,
borboleteando, dando vôos rasantes, ouvindo o coro de milhões de
vozes chilrear e cricrilar.
— O que você vai fazer, Will? — perguntou Lyra baixinho,
depois de terem andado um bom pedaço em silêncio.
— Bem, tenho que voltar para casa — respondeu ele.
No entanto, ela achou que sua voz soava insegura. Esperava
que soasse insegura.
— Mas eles ainda podem estar atrás de você — argumentou.
— Aqueles homens.
— Mas já enfrentamos coisa pior que eles.
— É, acho que sim. . . Mas eu queria lhe mostrar a
Faculdade Jordan e os Pântanos. Queria que nós. . .
— Eu sei — concordou ele —, e eu queria. . . Seria bom
voltar até mesmo a Cittàgazze. Era um lugar bonito, e se os
Espectros tiverem todos ido embora. . . Mas tenho minha mãe.
Tenho que voltar e cuidar dela. Eu simplesmente a deixei com a Sra.
Cooper e não é justo com nenhuma das duas.
— Mas não é justo que você tenha que fazer isso. — Não — concordou ele —, mas é um tipo de não ser justo
diferente. É exatamente como um terremoto ou uma tempestade.
Pode não ser justo, mas não é culpa de ninguém. Mas se eu
simplesmente deixar minha mãe com uma senhora idosa que também
não está muito bem, isso, então, é um outro tipo de não ser justo.
Isso seria errado. Eu tenho que ir para casa, e pronto. Mas
provavelmente vai ser difícil voltar a ser como era antes. Agora,
provavelmente, o segredo não é mais segredo. Não imagino que a
Sra. Cooper tenha conseguido cuidar dela, não se minha mãe tiver
passado por um daqueles seus períodos em que fica com
medo das coisas. De modo que ela provavelmente teve que procurar
ajuda, e quando eu voltar vão me obrigar a ir para algum tipo de
instituição.
— Não! Como um orfanato?
— Acho que é o que eles fazem. Na verdade, não sei. Vou
detestar.
— Você poderia escapar com a faca, Will! Poderia vir para
meu mundo!
— Mas de qualquer maneira o meu lugar é um lugar onde
possa estar com ela. Quando for adulto, vou poder cuidar dela
direito, na minha casa. Então ninguém vai poder interferir.
— Você acha que vai se casar?
Ele ficou calado durante muito tempo. Contudo, ela sabia que
estava pensando.
— Não consigo pensar numa coisa tão distante no futuro —
respondeu. — Teria que ser com alguém que pudesse
compreender... não acho que exista ninguém assim em meu mundo.
E você, se casaria?
— Eu também não — respondeu ela, e sua voz não estava
muito firme. — Não com ninguém em meu mundo, não acredito.
Continuaram andando devagar, sem rumo certo, seguindo
em direção ao horizonte. Eles tinham todo o tempo do mundo:
todo o tempo que o mundo tinha.
Depois de alguns instantes, Lyra perguntou:
— Você vai guardar a faca, não vai? De modo que possa
visitar meu mundo?
— É claro. Eu certamente não a daria a nenhuma outra
pessoa, nunca.
— Não olhe — disse ela, sem alterar o passo. — Lá estão eles
denovo. À esquerda.
— Eles estão nos seguindo — comentou Will, radiante. — Psiu!
— Bem que achei que nos seguiriam. OK, agora vamos fingir,
vamos andar por aí fazendo de conta que estamos procurando por
eles e vamos olhar em todos os lugares mais idiotas.
E tornou-se uma brincadeira. Eles encontraram um laguinho e
procuraram entre os juncos e na lama, dizendo em voz alta que os
daemons deveriam estar com forma de sapos, de besouros d'água ou lesmas; eles arrancaram a casca de uma árvore, há muito caída, na
beira de um bosque de eucaliptos, fingindo ter visto os dois daemons se escondendo debaixo dela, sob a forma de lacrainhas; Lyra fez uma
cena, dando uma enorme atenção a uma formiga em que ela
afirmava ter pisado, lamentando os machucados que havia causado,
dizendo que a carinha da formiga era igual à de Pan, perguntando
com tristeza fingida por que a formiga se recusava a falar com ela.
Mas quando achou que realmente estavam fora do alcance
dos ouvidos dos daemons, disse seriamente para Will, chegando bem perto dele para falar rapidamente:
— Nós tivemos que deixá-los, não tivemos? Realmente não
tínhamos escolha, não é?
— Sim, tivemos. Foi pior para você do que para mim, mas
nós não tínhamos nenhuma outra escolha. Porque você fez uma
promessa a Roger e tinha que cumpri-la.
— E você precisava falar novamente com seu pai. . .
— E tínhamos que tirar todos eles de lá.
— É, tínhamos. Estou tão feliz por termos feito isso. Um dia,
Pan também vai ficar feliz, quando eu morrer. Não vamos ser separados. Aquilo foi uma coisa boa que fizemos.
À medida que o sol subia mais alto no céu e o ar se tornava
mais quente, eles começaram a procurar uma sombra. Por volta do
meio-dia, estavam na encosta que se elevava em direção ao topo de
uma cadeia de colinas e quando chegaram lá, Lyra deixou-se cair na
relva e declarou:
— Bem! Se não encontrarmos logo um lugar que esteja na
sombra...
Havia um vale que descia até o outro lado, e era coberto de
arbustos, de modo que imaginaram que ali também poderia haver
uma nascente. Atravessaram a cadeia de colinas até o outro lado da
encosta, onde começava a descer para a parte mais alta do vale, e
ali, como haviam imaginado, entre samambaias e juncos, uma
nascente borbulhava saindo da rocha.
Molharam os rostos acalorados na água e beberam satisfeitos,
depois foram descendo, seguindo a corrente d'água, observando-a se
acumular, formando redemoinhos em miniatura e jorrando sobre
minúsculas saliências de pedra, e o tempo todo ia tornando-se mais
larga e mais forte, virando um pequeno córrego.
— Como ela faz isso? — perguntou Lyra maravilhada. —
Não tem mais água entrando nela, vinda de nenhum outro lugar, mas tem uma quantidade de água tão maior aqui do que lá em
cima.
Will, vigiando as sombras pelo canto do olho, as viu se
esgueirarem adiante deles, saltando sobre as samambaias para
desaparecer nos arbustos mais abaixo. Ele apontou silenciosamente.
— É que vai mais devagar — respondeu. — Não jorra tão
depressa como na nascente, de modo que vai se juntando nesses
baixios... Eles foram para lá — sussurrou, apontando para um
pequeno grupo de árvores na base da encosta.
O coração de Lyra estava batendo tão depressa que o sentia
pulsar na garganta. Ela e Will trocaram um olhar, um olhar
curiosamente formal e sério, antes de continuarem a seguir o curso
d'água. A vegetação rasteira tornou-se mais espessa à medida que
entraram no vale; o curso d'água entrava em túneis de verde e
emergia em clareiras com áreas de luz e sombra, apenas para
despencar sobre um beiço de pedra e se enterrar no verde de novo, e
eles tinham que segui-lo tanto com o olhar como com o ouvido.
Na base da colina, o curso d'água corria para o interior de um
pequeno bosque de árvores de troncos prateados.
O Padre Gomez observava do alto da cadeia de colinas. Não
tinha sido difícil segui-los; a despeito da confiança de Mary na
savana aberta, havia uma variedade de esconderijos na relva e as
moitas ocasionais de eucaliptos e arbustos de seiva de laça. Os dois
jovens tinham passado um bocado de tempo olhando ao redor por
toda parte, como se pensassem que estivessem sendo seguidos, e
ele tinha tido que se manter a uma certa distância, mas à medida
que a manha tinha passado, haviam se tornado cada vez mais
interessados um no outro, prestando menos atenção na paisagem.
A única coisa que ele não queria fazer era ferir o menino. Ele
tinha verdadeiro horror a fazer mal a uma pessoa inocente. A única
maneira de se assegurar de acertar seu alvo era chegar perto o
suficiente para vê-la claramente, o que significava segui-los e entrar
no bosque.
Silenciosa e cautelosamente, ele foi descendo seguindo o curso
da corrente d'água. Seu daemon, o besouro fêmea de dorso verde, voava logo acima farejando o ar; sua visão era menos aguçada que
a dele, mas seu olfato era acuradíssimo e ela sentiu o cheiro da
carne das crianças muito claramente. Podia seguir um pouco mais
à frente, pousar num caule de relva e esperar por ele, depois seguir
adiante de novo; e à medida que ela farejava o rasto que os corpos
deles deixavam no ar, o Padre Gomez viu-se louvando a Deus por sua
missão, porque estava mais claro que nunca que o menino e a
menina estavam se encaminhando para o pecado mortal.
E lá estava: o movimento louro-escuro que eram os cabelos
da menina. Ele se aproximou mais um pouco e empunhou o rifle.
Tinha mira telescópica: a lente não era de grande alcance, mas era
tão magnificamente feita que olhar através dela era sentir sua visão
ficar nítida, bem como ser ampliada. Sim, lá estava ela, e a menina
parou e olhou para trás, de modo que ele viu a expressão em seu
rosto e não conseguiu entender como alguém tão impregnado pelo
mal pudesse ter uma expressão tão radiante de esperança e
felicidade.
Seu espanto fez com que ele hesitasse e então o momento
passou, as duas crianças tinham entrado no meio das árvores e
estavam fora de vista. Bem, não iriam muito longe. Ele as seguiu
descendo pela beira do leito do pequeno córrego, movendo-se
agachado, segurando o rifle em uma das mãos e se equilibrando
com a outra.
Agora, estava tão próximo do sucesso que pela primeira vez
se viu tecendo especulações sobre o que faria depois e se daria
mais satisfação ao reino do céu voltando para Genebra ou ficando
ali para evangelizar aquele mundo. A primeira coisa a fazer ali
seria convencer os seres de quatro pernas, que pareciam ter os
rudimentos de uma inteligência, de que seu hábito de circular
sobre rodas era abominável e satânico, e contrário à vontade de
Deus. Se os afastasse daquilo, a salvação se seguiria.
Ele alcançou o sopé da encosta, onde as árvores começavam, e
colocou o rifle no chão silenciosamente.
Olhou fixamente para as sombras dourado-esverdeado-
prateadas e ficou escutando atentamente, com as duas mãos em
concha atrás das orelhas, para captar e localizar quaisquer vozes
baixas em meio ao chilrear dos insetos e o borbulhar da água do
pequeno córrego. Sim, lá estavam eles. Tinham parado.
Ele se abaixou para pegar o rifle — E viu-se emitindo um
grito rouco sufocado, enquanto alguma coisa agarrava seu daemon e a levava para longe dele.
Mas não havia nada ali! Onde estava ela? A dor era atroz. Ele
a ouviu gritando e olhou em volta desesperado, para a esquerda e
para a direita, procurando-a.
— Não se mova — disse uma voz saída do ar — e fique
calado. Estou com seu daemon em minha mão.
— Mas. . . onde está você? Quem é você?
— Meu nome é Balthamos — disse a voz.
Will e Lyra seguiram o pequeno córrego e entraram no
bosque, andando cautelosamente, falando pouco, até estarem
bem no centro.
Havia uma pequena clareira no meio do arvoredo, que era
atapetada de grama macia e pedras cobertas de musgo. Os galhos se
entrelaçavam acima, quase escondendo o céu e deixando passar
pequenas palhetas e lantejoulas dançantes de luz, de modo que tudo
estava salpicado de ouro e prata.
E era silencioso. Só o borbulhar do pequeno riacho e o
farfalhar ocasional das folhas lá no alto, numa pequena ondulação de
brisa, quebravam o silêncio.
Will pôs no chão o embrulho de comida; Lyra deixou junto
sua pequena sacola. Não havia sinal dos daemons sombras em lugar nenhum. Estavam completamente sozinhos.
Tiraram os sapatos e as meias e sentaram nas rochas cobertas
de musgo na beira do riacho, mergulhando os pés na água fria e
sentindo o choque da temperatura revigorar-lhes o sangue.
— Estou com fome — declarou Will.
— Eu também — disse Lyra, embora estivesse sentindo mais
que isso, alguma coisa evidente, silenciosa e urgente, meio feliz, meio
dolorosa, de modo que não tinha muita certeza do que era.
Eles desfizeram o embrulho, abriram o pano e comeram pão
com queijo. Por algum motivo as mãos deles estavam lentas e
desajeitadas, e mal sentiram o gosto da comida, embora o pão
estivesse saboroso e crocante por ter sido assado nas pedras bem
aquecidas e o queijo fosse macio, salgado e muito fresco.
Então Lyra pegou uma daquelas frutinhas vermelhas. Com o
coração batendo acelerado, virou-se para ele e disse:
— Will...
E levou a fruta delicadamente até a boca de Will.
Ela pôde ver pelo olhar de Will que, imediatamente, havia
compreendido o que ela queria fazer, e que estava feliz demais para
falar. Os dedos de Lyra ainda estavam nos lábios dele e Will os
sentiu tremer, e levantou a mão para segurar os dedos dela ali, e
nenhum dos dois conseguia olhar para o outro; estavam confusos;
estavam transbordando de felicidade.
Como duas mariposas desajeitadamente se esbarrando, sem
mais peso que isso, seus lábios se tocaram. Então, antes que
soubessem como havia acontecido, estavam abraçados, cada um
cegamente apertando o rosto colado no do outro.
— Como Mary disse. . . — sussurrou ele —, você sabe
imediatamente quando gosta de alguém. . . quando você estava
dormindo, na montanha, antes que ela levasse você embora, eu
disse a Pan —
— Eu ouvi — sussurrou ela —, estava acordada e queria
dizer a mesma coisa para você, e agora sei o que eu estava sentindo o
tempo todo: eu amo você, Will, eu amo você —
A palavra amor incendiou os nervos de Will. Seu corpo inteiro
se encheu de prazer ao ouvi-la e ele respondeu com as mesmas
palavras, beijando a face quente de Lyra uma porção de vezes, todos
os sentidos absorvendo com adoração o aroma de seu corpo, dos
cabelos mornos perfumados de mel e a boca úmida de Lyra que
tinha o sabor da frutinha vermelha.
Ao redor deles não havia nada senão um grande silêncio, era
como se o mundo inteiro estivesse prendendo a respiração.
Balthamos estava aterrorizado.
Ele foi subindo o curso do leito do rio e se afastou do bosque,
segurando o daemon inseto que picava, mordia e arranhava, e tentando se esconder, tanto quanto podia, do homem que vinha
cambaleando atrás deles.
Não podia deixar que ele o alcançasse. Sabia que o Padre
Gomez o mataria num instante. Um anjo de sua hierarquia não era
adversário para um homem, mesmo se o anjo fosse forte e saudável,
e Balthamos não era nenhuma dessas duas coisas; além disso, estava
enfraquecido pela tristeza por ter perdido Baruch e pela vergonha de
ter abandonado Will antes. Não tinha mais forças nem para voar.
— Pare, pare — implorou o Padre Gomez. — Por favor,
fique parado. Eu não consigo ver você... vamos conversar, por
favor, não machuque meu daemon, eu suplico —
Na verdade, o daemon estava machucando Balthamos. O anjo
podia ver vagamente a coisinha verde através das costas de suas
mãos cerradas e ela estava cravando suas mandíbulas poderosas
repetidamente nas palmas de suas mãos. Se abrisse as mãos apenas
por um instante, ela escaparia. Balthamos as manteve fechadas, bem
apertadas.
— Por aqui — disse ele —, siga-me. Afaste-se desse bosque.
Quero falar com você e este não é o lugar certo.
— Mas, quem é você? Não consigo ver você. Chegue mais
perto. . . Como posso saber o que você é se não vejo você? Pare,
não ande tão depressa!
Mas andar depressa era a única defesa que Balthamos tinha.
Tentando ignorar as picadas do daemon, foi seguindo adiante, evitando obstáculos, subindo pelo pequeno vale estreito por onde
corria o riacho, saltando de pedra em pedra.
Então ele cometeu um erro: tentando olhar para trás,
escorregou e pôs um pé na água.
— Ah — veio um suspiro de satisfação quando o Padre
Gómez ouviu a água se agitar e respingar.
Balthamos imediatamente tirou o pé da água e prosseguiu
rapidamente — mas, agora, uma pegada molhada aparecia nas
pedras secas cada vez que ele pisava nelas. O padre viu isso, saltou
para a frente e sentiu penas roçarem em sua mão.
Ele estacou, espantadíssimo: a palavra anjo reverberou em sua
mente. Balthamos aproveitou o momento para sair cambaleando
de novo e o padre sentiu-se arrastado atrás dele, enquanto uma outra
pon-tada brutal lhe torcia o coração.
Balthamos disse por sobre o ombro:
— Um pouco mais adiante, só até o topo da cadeia de
colinas, e então conversaremos, prometo.
— Fale aqui! Pare onde está e juro que não tocarei em você!
O anjo não respondeu: estava muito difícil se concentrar. Ele
tinha que dividir sua atenção em três direções: ver o que vinha atrás
dele, para evitar o homem, ver o que estava à frente, para ver para
onde estava indo, e se concentrar no daemon, a coisa furiosa que estava torturando suas mãos.
Já o padre estava com a mente funcionando a pleno vapor.
Um adversário realmente perigoso teria matado seu daemon imediatamente e encerrado a questão ali, na mesma hora: este
antagonista estava com medo de atacar.
Com isso em mente, deixou-se tropeçar e emitiu pequenos
gemidos de dor, e suplicou uma ou duas vezes que o outro parasse
— o tempo todo vigiando atentamente, chegando cada vez mais
perto, calculando que tamanho o outro teria, com que velocidade
poderia se deslocar, para que lado estava olhando.
— Por favor — implorou, como se estivesse sucumbindo —,
você sabe como isso dói... eu não posso lhe fazer nenhum mal. ..
por favor, vamos parar e conversar?
Ele não queria perder de vista o bosque. Agora estavam no
ponto onde a nascente começava e podia ver a forma dos pés de
Balthamos comprimindo muito levemente a relva. O padre
observou cada centímetro do caminho e agora tinha certeza que o
anjo estava de pé.
Balthamos se virou. O padre levantou os olhos para o lugar
onde achava que o rosto do anjo estaria e o viu pela primeira vez:
apenas uma cintilação no ar, mas não havia dúvida de que estava ali.
Contudo, ainda não estava bastante próximo para alcançá-
lo num só movimento e, na verdade, o afastamento de seu
daemon tinha sido doloroso e debilitante. Talvez devesse dar mais um ou dois passos. . .
— Sente-se — ordenou Balthamos. — Sente aí, onde está.
Não dê mais nem um passo.
— O que você quer? — perguntou o Padre Gomez, sem se
mover.
— O que eu quero? Quero matar você, mas não tenho força
para isso.
— Mas você é um anjo?
— Que importância tem isso?
— Você pode ter cometido um erro. Poderíamos estar do
mesmo lado.
— Não, não estamos. Eu venho seguindo você. Sei de que
lado você está. . . não, não, não se mova. Fique aí.
— Não é tarde demais para se arrepender. Mesmo anjos
podem fazer isso. Deixe-me ouvir sua confissão.
— Ah, Baruch, ajude-me! — gritou Balthamos desesperado,
dando as costas para o padre.
E no instante em que ele gritou, o Padre Gomez saltou em
cima dele. Seu ombro acertou o ombro do anjo e desequilibrou
Balthamos; e, ao estender a mão para se salvar, o anjo soltou o
daemon inseto. O besouro imediatamente saiu voando e o Padre Gomez sentiu uma onda de alívio e de força. Na verdade, foi isso que
o matou, para sua grande surpresa. Ele se atirou com tanta força
contra a frágil silhueta do anjo e esperava encontrar uma resistência
tão maior que a que encontrou, que não conseguiu manter o
equilíbrio. Seu pé escorregou; o impulso o levou para baixo em
direção ao riacho; e Balthamos, pensando no que Baruch teria feito,
chutou a mão do padre para o lado, quando ele a estendeu para se
segurar.
O Padre Gomez caiu com violência. Sua cabeça bateu numa
pedra e ele ficou caído, atordoado, com o rosto na água. O choque
da água fria o reanimou imediatamente, mas enquanto engasgava e,
enfraquecido, tentava se levantar, Balthamos, desesperado, ignorou
o daemon picando-lhe o rosto, os olhos e a boca, e usou todo o pouco peso que tinha para manter a cabeça do homem enfiada na
água, e a manteve lá, e a manteve lá, e a manteve lá.
Quando o daemon desapareceu de repente, Balthamos o
largou. O homem estava morto. Tão logo teve certeza disso,
Balthamos tirou o corpo do riacho e deitou-o cuidadosamente sobre
a relva, cruzando as mãos do homem sobre o peito e fechando-lhe
os olhos.
Então Balthamos se levantou, nauseado, exausto e cheio
de dor.
— Baruch — disse. — Ah, Baruch, meu querido, não há
mais nada que eu possa fazer. Will e a menina estão salvos e tudo
vai correr bem, mas isto é o fim para mim, embora eu tenha
realmente morrido quando você morreu, Baruch, meu amado.
Um instante depois, ele havia desaparecido.
Na plantação de feijão, sonolenta, no final da tarde, Mary
ouviu a voz de Atai e não soube distinguir entre entusiasmo e
preocupação: será que outra árvore tinha caído? Será que o homem
do rifle tinha aparecido?
Olhe! Olhe!, dizia Atai, puxando o bolso de Mary com a
tromba, de maneira que Mary pegou a luneta e fez o que sua amiga
mandava, apontando a luneta para o céu.
Diga-me o que ele está fazendo!, pediu Atai. Estou sentindo que
está diferente, mas não consigo ver.
A terrível torrente de Pó jorrando no céu havia parado de
fluir. Não estava parada, de forma alguma; Mary vasculhou o céu
inteiro com as lentes âmbar, vendo uma corrente aqui, um
redemoinho ali, um vórtice mais adiante; estava em perpétuo
movimento, mas não estava mais fluindo para longe. Na verdade,
muito pelo contrário, estava caindo como flocos de neve.
Ela pensou nas árvores-das-rodas: as flores que se abriam para
cima estariam absorvendo aquela chuva dourada. Mary quase podia
senti-las recebendo-a satisfeitas em suas pobres gargantas sedentas,
que eram tão perfeitamente moldadas para isso e que tinham sido
privadas dela por tanto tempo.
As crianças, disse Atai. Mary virou-se, de luneta em punho e viu Will e Lyra
voltando. Eles ainda estavam a alguma distância; não vinham
andando depressa. Estavam de mãos dadas, conversando, as cabeças
bem juntas, sem dar atenção a nada do que os cercava; mesmo de
longe ela podia ver isso.
Ela quase pôs a luneta no olho, mas se conteve e a colocou de
volta no bolso. Não havia necessidade de usar a luneta; ela sabia o
que veria; eles pareceriam feitos de ouro vivo. Eles pareceriam a
imagem verdadeira do que seres humanos sempre poderiam ser,
depois que tivessem descoberto sua herança.
O Pó descendo como uma chuva vinda das estrelas havia
encontrado novamente um lar para viver, e aquelas crianças-que-
não-eram-mais-crianças, embebidas e transbordando de amor, eram
a causa de tudo aquilo.