A Luneta Âmbar

Philip Pullman · Capítulo 11 de 39

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A Luneta Âmbar

10. Rodas

RODAS

 

DO MAR ELEVOU-SE UMA NUVEM PEQUENINA

COMO A MÃO DE UM HOMEM

 

I REIS

 

P o i s é — disse menina ruiva no jardim deserto do

Cassino. — Nós vimos essa mulher, eu e o Paolo, nós dois vimos.

Ela apareceu por aqui já faz alguns dias.

— E se lembram de como ela era? — perguntou o Padre

Gomez.

— Ela parecia estar com calor — disse o

garotinho. — Estava com o rosto todo suado.

— Que idade ela parecia ter?

— Cerca de... — a menina parou para refletir. — Acho que

talvez uns 40 ou 50 anos. Não a vimos de perto. Poderia ter,

talvez, uns 30. Mas estava com calor, como disse o Paolo e estava

carregando uma mochila bem grande, muito maior que a sua, deste tamanho. . .

Paolo sussurrou alguma coisa para ela, franzindo e revirando

os olhos para espiar o padre enquanto o fazia. O sol batia forte em

seu rosto.

—Ah, é — disse a menina com impaciência —, eu sei. Os

Espectros — disse ela para o Padre Gomez —, ela não tinha medo

nenhum dos espectros. Simplesmente andou pela cidade e nem se

preocupou. Nunca vi um adulto fazer isso antes, é verdade. Ela parecia

nem sequer saber que eles existiam. Igual a você — acrescentou,

olhando para ele com desafio.

— Tem muita coisa que eu não sei — concordou o Padre

Gómez em voz branda.

O garotinho puxou a manga da menina e sussurrou

novamente.

— Paolo disse — ela contou ao padre — que acha que você

vai pegar a faca de volta.

O Padre Gomez sentiu a pele se arrepiar. Lembrou-se do

depoimento do Frei Pavel durante a investigação do Tribunal

Consistorial: devia ser esta a faca que ele tinha mencionado.

— Se eu puder — respondeu —, pegarei. A faca vem daqui?

— Da Torre degli Angeli — disse a menina, apontando para a torre quadrada de pedra que se elevava acima dos telhados

marrom-avermelhados. Ela cintilava ao sol forte do meio-dia. — E

o garoto que roubou a faca matou nosso irmão Tullio. Os

Espectros pegaram o Tullio, direitinho. Se você quiser matar esse

garoto, tudo bem. E a menina, ela era uma mentirosa, era tão má

quanto ele.

— Então a menina também esteve aqui? — perguntou o

padre tentando não parecer muito interessado.

— Uma mentirosa nojenta — disse a menina ruiva com ódio.

— Quase matamos os dois, mas então vieram umas mulheres,

mulheres voadoras —

— Bruxas — disse Paolo.

— Bruxas, e não pudemos lutar contra elas. Levaram os dois

embora, a menina e o garoto. Não sabemos para onde foram. Mas a

mulher, ela veio depois. Pensamos que talvez ela tivesse alguma espécie de faca, para conseguir manter os Espectros longe, ê verdade. E talvez você também tenha — disse ela, levantando o queixo para encará-lo com audácia.

— Eu não tenho nenhuma faca — respondeu o Padre

Gomez.

— Mas tenho uma tarefa sagrada a cumprir. Talvez isso esteja me

protegendo desses. . . Espectros.

— É — disse a menina —, pode ser. De qualquer maneira,

se quer encontrar a mulher, ela foi para o sul, para as montanhas.

Não sabemos para onde. Mas pode perguntar a qualquer um, eles

vão saber se ela tiver passado, porque não tem ninguém igual a ela

em CÍ'gazze, não tinha antes e não tem agora. Ela vai ser fácil de achar.

— Obrigado, Angélica — agradeceu o padre. — Deus as

abençoe, crianças.

Ele pós a mochila nas costas, saiu do jardim e seguiu seu

caminho pelas ruas quentes e silenciosas, sentindo-se satisfeito.

Depois de passar três dias na companhia dos seres de rodas,

Mary Malone sabia bastante mais coisas a respeito deles e eles

sabiam de muita coisa a respeito dela.

Naquela primeira manhã, eles a carregaram durante uma

hora, mais ou menos, pela estrada de basalto até um povoado à

margem de um rio, e a viagem foi desconfortável; ela não tinha

onde se apoiar e o lombo da criatura era duro. Seguiram

rapidamente, numa velocidade que a assustava, mas o trovar de suas

rodas sobre a superfície dura da estrada e o compasso rápido de suas

patas eram de tal maneira estimulantes que a deixavam animada a

ponto de esquecer o desconforto.

E durante o percurso ela foi compreendendo melhor a

fisiologia daqueles seres. Como os animais de pasto, seus

esqueletos tinham uma estrutura em forma de losango, com uma

perna em cada um dos cantos. Em algum momento, num passado

distante, uma linhagem de seres ancestrais deveria ter desenvolvido

aquela estrutura e descoberto que funcionava, exatamente como os

seres rastejantes no mundo de Mary haviam desenvolvido a coluna

dorsal.

A estrada de basalto seguia gradualmente para um terreno

mais baixo e, depois de algum tempo, o declive aumentava, de

modo que os seres podiam andar com as rodas livres. Eles

encolhiam as pernas laterais e pilotavam inclinando-se para um lado

ou para o outro, lançando-se numa velocidade que Mary achava

aterradora, embora tivesse que admitir que o ser em que estava

montada nunca lhe desse a menor sensação de perigo. Se ao menos

ela tivesse algo em que pudesse se apoiar, bem que teria gostado.

Na base da encosta de um quilômetro e meio, havia um

grupo de árvores imensas e nas vizinhanças um rio serpenteava em

meandros no terreno plano coberto de relva. A alguma distância

Mary viu um clarão que parecia uma extensão maior de água, mas

não passou muito tempo olhando para aquilo, porque os seres

estavam se dirigindo para um povoado na margem do rio e ela

estava louca de curiosidade para vê-lo.

Havia 20 ou 30 cabanas, mais ou menos agrupadas num

círculo, feitas de — ela teve que proteger os olhos contra o sol para

ver — vigas de madeira cobertas com uma espécie de mistura de

taipa nas paredes e com telhado de colmo. Os outros seres de rodas

estavam trabalhando: alguns consertavam os telhados, outros

puxavam uma rede do rio, outros ainda traziam lenha para uma

fogueira.

De maneira que eles possuíam uma língua, tinham fogo e

tinham uma sociedade. E, mais ou menos nesse momento, ela

percebeu uma mudança ocorrendo em sua mente, à medida que a

palavra criaturas se tornou a palavra pessoa. Aqueles seres não eram humanos, mas zrzm pessoas, disse a si mesma, não são eles, eles são nós.

Agora estavam bastante próximos e, vendo o que estava se

aproximando, alguns dos aldeões levantaram a cabeça e gritaram

uns para os outros para olhar. O grupo que vinha pela estrada

reduziu a velocidade até parar e Mary desmontou, sentindo os

músculos enrijecidos e sabendo que ficaria dolorida depois.

— Muito obrigada — disse para seu. . . seu o quê?

Seu cavalo? Sua bicicleta? Ambas as idéias eram absurdamente

erradas para a amabilidade de olhar brilhante e inteligente que estava

a seu lado. Ela se decidiu, escolhendo — amigo.

Ele levantou a tromba e imitou as palavras dela:

— Mutobigada — disse, e mais uma vez riram, satisfeitos da

vida.

Ela pegou a mochila que estava com um dos outros (bigada!

bigada!) e os seguiu, saindo da faixa de basalto para a terra batida

da aldeia.

E então a integração de Mary começou de verdade.

Nos dias que se seguiram, ela aprendeu tanta coisa que se

sentiu como se fosse novamente uma criança, desnorteada com a

escola. Para completar, as pessoas de rodas pareciam estar

igualmente maravilhadas com ela. Para começar, havia suas mãos.

Eles pareciam nunca se cansar delas: as trombas delicadas

examinavam cada articulação, percorrendo os polegares, os nós dos

dedos e as unhas, flexionando-os delicadamente e observando com espanto quando ela pegava a mochila, levava comida à boca, se

cocava, penteava o cabelo, se lavava.

Em troca, deixaram que ela examinasse suas trombas. Eram

infinitamente flexíveis e tinham aproximadamente o mesmo

comprimento do braço de Mary, mais grossas no ponto onde se

uniam à cabeça e suficientemente fones para esmagar seu crânio,

imaginava. As duas projeções semelhantes a dedos que ficavam na

ponta eram capazes de uma força enorme e de grande delicadeza; os

seres pareciam poder variar o tônus da pele no interior, no que seria o

equivalente às pontas dos dedos, de uma maciez de veludo a uma

solidez semelhante à madeira. Em resultado disso, podiam usá-las

tanto para tarefas delicadas, como ordenhar um dos animais de

pasto, quanto para tarefas mais duras, como arrancar e curvar

galhos.

Pouco a pouco, Mary se deu conta de que as trombas

também desempenhavam um papel na comunicação. Um

movimento de tromba podia modificar o significado de um som,

de modo que a palavra que soava como "tchah" significava água

quando acompanhada de um movimento circular da tromba da

esquerda para a direita, "chuva" quando a tromba se virava para

cima na ponta, "tristeza" quando se virava em curva para baixo e

"novos brotos de relva" quando fazia um rápido peteleco para a

esquerda. Tão logo percebeu isso, Mary os imitou, movendo o

braço o melhor que podia da mesma maneira, e os seres perceberam

que ela estava começando a falar com eles, e o encantamento deles

foi radiante.

Depois que começaram a conversar (principalmente na

língua deles, apesar de ela ter conseguido ensinar-lhes algumas

palavras em sua língua: sabiam dizer "bigadu" e "reuva", "áaavore",

"céu" e "rio", e pronunciar o nome dela, com alguma dificuldade),

progrediram muito mais rapidamente. A palavra deles para se

referirem a si mesmos como povo era mulefa, mas um indivíduo era zalif. Mary achava que havia uma diferença entre os sons para zalif macho e zalif fêmea, mas era demasiado sutil para que ela percebesse com facilidade. Começou a escrever tudo aquilo, a

compilar um dicionário.

Mas antes de se permitir se entregar verdadeiramente àquela

tarefa, pegou seu livro maltratado e as varetas de milefólio e

perguntou ao I Ching: eu deveria estar aqui fazendo isso ou deveria

seguir adiante para algum outro lugar e continuar procurando?

A resposta foi: A QUIETUDE significa deter-se, a verdadeira

quietude consiste em manter-se imóvel quando chega o momento de se

manter imóvel e avançar quando chega o momento de avançar. Desse

modo a inquietação se dissipa; então para além da luta e do tumulto

individuais, se pode compreender as grandes leis do universo e agir em

harmonia com elas.

E prosseguia: Montanhas próximas umas das outras: a imagem

da QUIETUDE. Assim o homem superior não permite que sua vontade

e seus pensamentos o levem além da situação em que se encontra.

Uma resposta mais clara seria impossível. Ela juntou as varetas

e guardou o livro e então percebeu que havia atraído a atenção de um círculo de seres que a observavam.

Um deles disse: Pergunta? Permissão? Curioso. Ela respondeu: Por favor. Pode olhar. Muito delicadamente as trombas se moveram, separando as

varetas no mesmo movimento de contagem que ela estivera fazendo,

ou virando as páginas do livro. Uma coisa que os deixava

espantadíssimos era o fato de ela ter duas mãos; o fato de que ela

podia segurar o livro e virar as páginas ao mesmo tempo. Adoravam

observá-la cruzar os dedos, ou fazer a brincadeira de criança: "Esta é

a igreja e esta é a torre da igreja", ou fazer o movimento repetido de

sobrepor, esfregando, o dedo polegar com o indicador que era o que

Ama estava fazendo, exatamente naquele mesmo momento, no

mundo de Lyra, como feitiço para afastar os maus espíritos.

Depois de terem examinado as varetas de milefólio e o livro,

eles os embrulharam cuidadosamente no pano e os puseram na

mochila de Mary. Ela sentia-se feliz e tranqüilizada pela mensagem

da China antiga, porque significava que o que mais queria fazer era,

naquele momento, exatamente o que deveria fazer.

De modo que se dedicou a aprender mais a respeito dos

mulefas, com o coração feliz.

Descobriu que havia dois sexos e que eles viviam em casais

monogamicamente. Seus filhos tinham uma infância bastante

longa: dez anos pelo menos, crescendo muito lentamente, pelo

menos até onde conseguia interpretar a explicação deles. Havia

cinco crianças naquele povoado, um quase crescido e os outros em

algum ponto no meio do caminho e, por serem menores que os

adultos, não conseguiam usar as rodas das nozes. As crianças se

moviam como os animais de pasto, com as quatro patas no chão,

mas a despeito de toda a sua energia e vontade de viver aventuras

(correndo até junto de Mary e então se afastando timidamente,

tentando subir pelos troncos das árvores, despencando nas águas

rasas, e assim por diante), pareciam desajeitadas, como se

estivessem fora de seu elemento. Em contraste, a velocidade e a

graça dos adultos era surpreendente, e Mary percebeu o quanto um

jovem em fase de crescimento devia ansiar pelo dia em que as

rodas lhe caberiam. Ela observou a criança mais velha, certo dia, ir

silenciosamente até a casa que servia de depósito, onde uma

quantidade de nozes eram guardadas, e experimentar encaixar sua

garra dianteira no buraco central; mas, quando tentou se levantar,

caiu imediatamente, ficando preso, e o som atraiu um adulto. A

criança lutou para se soltar, guinchando de aflição, e Mary não

conseguiu conter o riso diante do quadro, o pai indignado e a

criança travessa apanhada em flagrante, que conseguiu se soltar no

último minuto e sair correndo.

As rodas de nozes eram claramente da maior importância e

logo Mary começou a compreender exatamente o quanto eram

valiosas.

Para começar, os mulefas passavam a maior parte do tempo

cuidando da manutenção de suas rodas. Levantando e girando a

garra, com destreza, eles deslizavam-na para fora do buraco e então

usavam a tromba para examinar toda a roda, limpando a borda do buraco, verificando se havia rachaduras. A garra era

formidavelmente fone, como uma espora de chifre ou de osso,

saindo em ângulo reto com relação à perna e ligeiramente curvada

de modo que a parte mais alta, no meio, sustentava o peso ao se

apoiar no interior do buraco. Certo dia Mary ficou observando

enquanto uma zalif examinava o buraco em sua roda da frente,

tocando aqui e ali, levantando a tromba no ar e levando-a de volta,

como se testando o aroma.

Mary lembrou-se do óleo que havia descoberto em seus

dedos quando examinara a primeira noz. Depois de pedir

permissão à zalif, examinou sua garra e descobriu que a superfície

era mais lisa e escorregadia do que qualquer coisa que já havia

tocado em seu mundo. Seus dedos simplesmente não conseguiam

ficar parados sobre aquela superfície. A garra inteira parecia

impregnada do óleo ligeiramente perfumado e depois de ter visto

uma quantidade de aldeÕes experimentando o aroma, testando,

verificando o estado de suas rodas e garras, começou a se perguntar

o que teria vindo primeiro: roda ou garra? "Ciclista" ou árvore?

Embora, evidentemente, também houvesse um terceiro

elemento, e este era a geologia. Os seres só podiam usar rodas num

mundo que lhes oferecesse estradas naturais. Devia haver algum

aspecto na composição daqueles derramamentos de lava que os

fazia correr em tiras, como se fossem fitas estendidas, sobre a vasta

savana e serem tão resistentes às intempéries e rachaduras. Pouco a

pouco, Mary começou a ver a maneira como tudo era interligado e,

aparentemente, tudo aquilo era administrado pelos mulefas. Eles

sabiam qual era a localização de todos os rebanhos de animais de

pasto, de todos os bosques de árvores-das-rodas, de todos os

recantos de relva doce, e conheciam todos os indivíduos nos

rebanhos, e cada árvore separadamente, e discutiam seu bem-estar

e seu destino. Numa ocasião, ela viu os mulefas escolherem um

rebanho de animais de pasto, selecionando alguns indivíduos e

afastando-os do resto, para depois dar cabo deles quebrando-lhes o

pescoço com uma violenta torcida de tromba. Nada foi

desperdiçado. Segurando flocos de pedra afiados como gilete com a

tromba, os mulefas tiraram a pele e limparam os animais em

minutos, depois deram início a um cuidadoso trabalho de corte da

carne, separando as partes não aproveitadas, a carne macia e as

juntas mais duras, cortando a gordura, removendo os chifres e os

cascos, trabalhando de maneira tão eficiente que Mary admirou

com o prazer que sentia ao ver qualquer coisa ser bem-feita.

Em pouco tempo, tiras de carne estavam penduradas para

secar ao sol e outras tinham sido cobertas de sal e embrulhadas em

folhas; as peles tinham sido absolutamente limpas de toda gordura,

que foi separada para ser usada mais tarde, e depois postas de molho

em poços de água cheios de pedaços de casca de carvalho para curtir;

e a criança mais velha estava brincando com um par de chifres,

fingindo ser um animal de pasto, fazendo as outras crianças rirem.

Naquela noite houve carne fresca para comer e Mary se

banqueteou.

Da mesma maneira, os mulefas sabiam onde se podia apanhar os melhores peixes e exatamente quando e onde lançar suas redes.

Procurando alguma coisa que pudesse fazer, Mary se dirigiu aos

rendeiros e se ofereceu para ajudar. Quando ela viu como eles

trabalhavam, não cada um por si, mas de dois em dois, movendo as

trombas em conjunto para dar um nó, compreendeu como tinham

ficado surpreendidos com suas mãos, pois é claro que ela podia dar

nós sozinha. De início, acreditou que aquilo lhe dava uma vantagem

— não precisava de mais ninguém; mas depois percebeu como

aquilo a mantinha distante dos outros. Talvez todos os seres

humanos fossem assim. E, a partir daquele momento, usou só uma

das mãos para dar nós nas fibras, dividindo sua tarefa com uma

zalif fêmea que havia se tornado sua amiga pessoal, dedos e tromba

se movendo para dentro e para fora juntos.

Mas de todas as coisas vivas de que o povo de rodas cuidava,

era com as árvores-das-rodas que tinham maior cuidado.

Havia meia dúzia de arvoredos naquela área que estavam sob

os cuidados daquele grupo. Havia outros mais distantes, mas esses

eram de responsabilidade de outros grupos. A cada dia uma equipe

saía para verificar o bem-estar das grandiosas árvores e para colher

quaisquer nozes que tivessem caído. O que os mulefas tinham a

ganhar era evidente; mas como as árvores poderiam se beneficiar

desse intercâmbio? Um belo dia ela viu. Estava montada

acompanhando o grupo, quando, de repente, houve um ruído alto,

craque, e todo mundo parou imediatamente, rodeando um indivíduo cuja roda havia se partido. Todo grupo levava consigo

uma ou duas de reserva, de modo que o zalif com a roda

quebrada logo estava novamente aparelhado; mas a roda

quebrada foi cuidadosamente embrulhada num pano e levada

de volta para o povoado.

Lá eles a abriram, retiraram todas as sementes — ovais,

achatadas e de cor clara, do tamanho da unha do dedo mindinho

de Mary — e examinaram cada uma cuidadosamente. Então

explicaram que as nozes precisavam do atrito e do desgaste

constantes, que recebiam nas superfícies duras das estradas, para

poderem se partir e, também, que as sementes eram difíceis de

germinar. Sem os cuidados dos mulefas, as árvores morreriam

todas. Uma espécie dependia da outra e, além disso, era o óleo que

tornava tudo possível. Era difícil compreender, mas eles pareciam

estar dizendo que o óleo era o elemento mais importante para a

capacidade de pensar e de sentir que possuíam; que os jovens não

tinham a sabedoria dos mais velhos porque não podiam usar as

rodas e, desse modo, absorver o óleo através de suas garras.

E foi então que Mary começou a ver a ligação entre os

mulefas e a questão que havia ocupado os últimos anos de sua

vida.

Mas, antes que ela pudesse examiná-la melhor (e as

conversas com os mulefas eram longas e complexas, porque eles

adoravam qualificar e ilustrar seus argumentos com dúzias de

exemplos, como se não tivessem se esquecido de nada e todas as

coisas de que jamais tivessem tido conhecimento estivessem

imediatamente disponíveis para referências), o povoado foi atacado.

Mary foi a primeira a ver os atacantes se aproximando,

embora não soubesse o que eram.

Aconteceu no meio da tarde, quando estava ajudando a

consertar o telhado de uma cabana. Os mulefas só construíam um

andar, porque não eram muito chegados a subidas; mas Mary não

se incomodava de escalar até o telhado e podia colocar o colmo e

amarrá-lo na estrutura com suas duas mãos, depois que lhe

ensinaram a técnica, muito mais rapidamente que eles.

De modo que estava sentada, apoiada nas vigas de uma casa,

pegando os maços de colmo que eram jogados para cima, para ela, e

apreciando a brisa fresca que vinha da água, que estava amenizando

o calor do sol, quando seu olhar foi atraído por um lampejo

branco.

Vinha daquele lugar de brilho distante que pensava ser o

mar. Protegeu os olhos com a mão e viu uma — duas — mais —

uma frota de velas brancas altas emergindo da névoa quente, a

alguma distância, dirigindo-se com graça silenciosa para a foz do

rio.

Mary!, chamou o zalif lá embaixo. O que está vendo? Ela não conhecia a palavra para vela, ou barco, de modo que

disse alto, branco, muitos.

Imediatamente o zalif deu um grito de alarme e todo mundo

que chamando as crianças. Em menos de um minuto todos os

mulefas estavam prontos para fugir.

Atai, a sua amiga, chamou: Mary!Mary! Venha! Tualapi!

Tualapü

Tudo tinha acontecido tão depressa que Mary mal tivera

tempo de se mexer. A essa altura as velas já tinham entrado no rio,

avançando com facilidade contra a corrente. Mary ficou

impressionada com a disciplina dos marinheiros: manobravam tão

rapidamente, as velas se movendo juntas como um bando de

estorninhos, todas mudando de direção simultaneamente. E eram

tão bonitas, aquelas velas esguias, brancas como a neve, se

dobrando e se inclinando e se enfunando — Havia umas 40 velas,

no mínimo, e estavam subindo o rio muito mais rapidamente do

que ela havia imaginado. Mas não viu tripulantes a bordo e então

se deu conta de que não eram absolutamente barcos: eram pássaros

gigantes e as velas eram suas asas, uma na proa e uma na popa,

mantidas erguidas e flexionadas, sendo manobradas pela força de

seus próprios músculos.

Não havia tempo para parar e estudá-los, porque já haviam

chegado à margem e estavam subindo. Eles tinham pescoços como

os de cisnes e bicos tão compridos quanto seu antebraço. As asas

eram duas vezes mais altas que ela e — lançando um olhar rápido

para trás, por sobre o ombro, agora assustada, enquanto fugia —

eles tinham pernas poderosíssimas: não era de espantar que se

movessem tão depressa na água.

Ela correu muito atrás dos mulefas, que gritavam seu nome

enquanto corriam para fora do povoado e seguiam para a estrada.

Ela os alcançou bem a tempo: sua amiga Atai estava esperando, e

enquanto Mary montava em suas costas ela começou a bater com os pés na estrada, se afastando a toda a velocidade, e subindo a

encosta atrás de seus companheiros.

Os pássaros, que não podiam se mover com a mesma

velocidade em terra, logo desistiram da perseguição e se viraram

de volta para o povoado.

Eles abriram com violência os depósitos de alimentos,

rosnando e rugindo, atirando os bicos cruéis para o alto, enquanto

engoliam a carne-seca e todas as frutas em conserva e os cereais.

Tudo que havia de comestível desapareceu em menos de um

minuto.

E então os tualapi descobriram o depósito de rodas e

tentaram abrir a pancadas as grandes nozes, mas estava além de

suas forças. Mary sentiu seus amigos ficarem tensos de

preocupação ao seu redor, enquanto observavam do alto do

pequeno morro e viram uma noz depois da outra ser atirada no

chão, chutada, arranhada pelas garras das pernas poderosas, mas é claro que não sofreram nenhum dano por causa disso. O que

preocupava os mulefas era que várias delas estavam sendo

empurradas aos trancos e com cotoveladas para dentro da água do

rio, onde flutuavam pesadamente, descendo o rio em direção ao

mar.

Então os grandes pássaros brancos como a neve começaram a

demolir tudo que viam pela frente com brutais golpes

longitudinais de seus pés e com movimentos penetrantes,

destruidores, sacudindo e arrancando as coisas com seus bicos. Os

mulefas ao redor de Mary estavam sussurrando, quase chorando de

tristeza.

Eu ajudo, disse Mary. Nós fazemos de novo. Mas as criaturas vis não tinham acabado ainda; levantando as

belas asas bem alto, agacharam-se em meio à devastação e esvaziaram

seus intestinos. O cheiro subiu a encosta trazido pela brisa; pilhas e

poças de excrementos verde-preto-marrom-esbranquiçados se

espalhavam em meio as vigas partidas e aos maços de colmo

espalhados. Então, seus movimentos desajeitados em terra dando-

lhes um andar pomposo afetado, os pássaros seguiram de volta para

a água e saíram velejando, descendo o rio, em direção ao mar.

Só quando a última asa branca tinha desaparecido na neblina

da tarde foi que os mulefas tornaram a descer pela estrada. Estavam

cheios de dor e raiva, mas principalmente estavam tremendamente

preocupados com o depósito de nozes.

Das 15 nozes que tinham estado ali, só testavam duas. O testo

tinha sido emputiado até a água e perdido. Mas, havia um banco de

areia na curva seguinte do rio; e Mary teve a impressão de avistar

uma roda que tinha ficado presa ali; de modo que, para a surpresa e

aflição dos mulefas, ela titou as roupas, amarrou um pedaço de

corda em volta da cintura e nadou até lá. No banco de areia ela

encontrou não uma, mas cinco das preciosas rodas, e passando a

corda pelas suas macias cavidades centrais, nadou de volta

puxando-as atrás de si.

Os mulefas ficaram cheios de gratidão. Eles nunca entravam

na água e só pescavam da margem, tomando cuidado para manter os pés e as rodas secos. Mary sentiu que finalmente tinha feito