Arraiais e vilas d'el rei: espaço e poder nas Minas setecentistas

Cláudia Damasceno Fonseca · Capítulo 118 de 124

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Arraiais e vilas d'el rei: espaço e poder nas Minas setecentistas

O olhar dos funcionários metropolitanos e dos eruditos locais

Fazenda, tesoureiro da Intendência de Vila Rica, entre outros.140

Como se sabe, após a transferência da Corte portuguesa para o

Rio de Janeiro, os estrangeiros foram, enfim, autorizados a viajar pelo Brasil e a visitar a célebre região das Minas Gerais. Diversos homens de ciência e artistas percorreram o país e registraram suas impressões numa vasta produção de escritos e desenhos. Auguste de Saint-Hilaire, botanista enviado pelo Muséum de Paris, foi quem mais descreveu as Minas Gerais, suas paisagens naturais, suas cidades, os costumes dos seus habitantes, a economia e a administração da capitania. Ao contrário das memórias acima citadas, o relato de Saint-Hilaire, que já exploramos em capítulos precedentes, faz referências não apenas às vilas, mas também a um número considerável de arraiais.

Nas páginas seguintes tentaremos, portanto, comparar dois tipos

de olhares lançados sobre os espaços e paisagens urbanas de Minas Gerais, entre o fim do século XVIII e o início do XIX: de um lado, o olhar do funcionário português ou luso-brasileiro; do outro, a percepção do viajante estrangeiro. É importante observar que estas diferentes representações referem-se a uma mesma realidade objetiva, a formas urbanas que estavam ainda em processo de construção. De fato, uma parte significativa das habitações, das igrejas e dos edifícios públicos que admiramos hoje nas cidades mineiras data da segunda metade do século XVIII, e muitos deles só foram terminados no início do século seguinte.

 

O olhar dos funcionários metropolitanos e dos

eruditos locais

 

As funções exercidas pelas sedes de concelhos de Minas Gerais

são um aspecto particularmente evidenciado pelos autores portugueses, sobretudo por José João Teixeira Coelho, cujas “instruções” tinham justamente por objetivo estabelecer um quadro geral das estruturas administrativas da capitania, a fim de reformá-las. Os três memorialistas dedicaram-se quase exclusivamente à descrição das vilas, que pode ser sucinta ou mais detalhada, em função da importância atribuída à localidade. Não por acaso, o único arraial mencionado nos três relatórios é o Tijuco, sede da Intendência dos Diamantes.

De modo geral, o sítio é o primeiro aspecto da materialidade das

paisagens urbanas abordado, seguido pelos comentários sobre o traçado das ruas e sobre a forma e a implantação das construções. Nota-se que cada autor atribuiu uma importância distinta a estes diferentes aspectos. O cartógrafo Rocha preocupou-se, sobretudo, com a topografia, o clima, a salubridade do sítio; assim, em sua descrição da cidade episcopal de Mariana, encontramos considerações do seguinte tipo: “É salutífera, os ares são

temperados e produzem muita fruta (…).”141 Sobre a Vila de São João del-Rei, informa apenas estar ela “situada em terreno plano e

agradável, pelos deliciosos campos que a cercam”.142 Em seu relato, os dados sobre a geografia e as produções agrícolas dos termos frequentemente ocupam mais espaço do que as descrições das sedes urbanas. Contudo, conforme já vimos, ao se referir a certas localidades, Rocha também faz alusões às irmandades e à qualidade arquitetônica das igrejas. Suas considerações sobre o espaço urbano de Vila Rica são um pouco menos lacônicas do que as referentes às outras vilas: “A situação desta terra é bastante desagradável, não só pela arquitetura das casas, mas ainda pelo elevado de suas ruas, que fatigam a todos aqueles que as passeiam; porém, é abundante dos víveres necessários para passar

a vida.”143

Rocha foi um dos primeiros a expressar este tipo de julgamento

sobre o sítio da capital de Minas Gerais, criticando suas ruas inclinadas e a implantação irregular dos seus edifícios. Esta imagem negativa de Vila Rica iria se perpetuar por mais de um século; embora a capital mineira não fosse a única a apresentar tais “defeitos”, era ali que as adversidades topográficas e os efeitos perversos da extração aurífera se faziam sentir de maneira extrema.

Na mesma época, Teixeira Coelho, o intendente de Vila Rica,

também descrevia Vila Rica: “está fundada (…) em sítio montanhoso; as ruas são irregulares; os edifícios não têm nobreza; os templos das matrizes e das Ordens Terceiras do Carmo e de São

Francisco são majestosos e ricos”. 144 Ainda mais econômico nos detalhes do que Rocha, mas servindo-se do mesmo tipo de vocabulário, Teixeira Coelho mostra-se mais indulgente com as vilas instaladas em sítios menos inóspitos, nos quais fora possível organizar um traçado viário mais regular. Como em São João del-Rei, onde “as ruas são vistosas, os templos e mais edifícios têm

alguma nobreza”. 145 Também era o caso da cidade episcopal de Mariana, assim descrita pelo intendente: “O sítio em que está fundada é quase plano e dos mais agradáveis que há nos matos; os ares são puros e, as águas, excelentes. Os edifícios são baixos e de

madeira, o arruamento é regular e os templos são decentes.” 146

Pode-se notar que nenhuma dessas descrições oferece uma

imagem de conjunto das formas urbanas: a cidade aparece, assim,

como “a simples soma dos elementos que a compõem”.147 Cada um dos elementos é avaliado isoladamente: analisam-se as condições topográficas, a regularidade das ruas e contabilizam-se as igrejas e os edifícios mais notáveis.

Além disso, nestes textos, assim como em outras descrições

deixadas por autoridades coloniais, sobressaem duas características: “a contenção e a objetividade”. As observações de Laura de Mello e Souza acerca da narrativa de Costa Matoso poderiam ser aplicadas ao relato de Teixeira Coelho:

 

Poucos adjetivos, nenhum excesso, raros momentos de admiração. Aqui

estamos longe dos arroubos edenizadores dos séculos precedentes, ou

das edenizações tardias que continuaram pontuando escritos variados ao

longo do século XVIII (…).

Costa Matoso descreve, enumera, repete de forma quase monótona,

pautando-se antes pelo pragmatismo que pela fantasia (…).148

 

Sem dúvida, a visão dos espaços urbanos manifestada por estas

autoridades foi bastante influenciada pelo pragmatismo que caracterizava todas as ações da colonização portuguesa. Os raros julgamentos estéticos sobre a materialidade das povoações são inseparáveis de avaliações sobre a “utilidade” e a funcionalidade de cada um dos seus componentes. Assim, as localidades descritas pelos três autores não são fundamentalmente belas ou feias; elas serão “agradáveis” ou “desagradáveis”, dependendo da existência, ou não, de uma qualidade aparentemente prioritária, de uma condição sine qua non do embelezamento urbano: a “comodidade”.

Segundo o pensamento da época, o “embelezamento das cidades

consiste na construção de edifícios dispostos em linha reta, de

maneira que uma rua inteira pareça uma única casa”. 149 A cidade ideal deveria apresentar um sítio salubre e de topografia suave, sobre o qual se pudesse traçar praças amplas e bem ordenadas e, sobretudo, ruas planas e retas, margeadas por fachadas alinhadas, homogêneas e simétricas, seguindo as regras clássicas. Tal era o modelo de cidade concebido pelos engenheiros militares, que foi implantado em determinados períodos e em certas regiões da América portuguesa.

Os três autores aqui estudados não emitiram, portanto, nenhum

julgamento estético sobre o conjunto das formas urbanas, somente sobre alguns de seus componentes. Somos, assim, levados a pensar que eles não viram as povoações mineiras enquanto “paisagens”; o fato de que o termo jamais tenha sido empregado nos seus escritos parece confirmar tal hipótese.

É preciso notar, contudo, que a época em que tais descrições

foram feitas corresponde a um período bastante particular do pensamento europeu, no qual a apreciação da paisagem constituiu

“pela primeira vez, objeto de um debate bastante amplo”. 150 Na Europa, o termo “paisagem”, entendida como “quadro” ou representação pictórica de lugares campestres existia desde o Renascimento; porém, os “rituais de apreciação estética da própria natureza”, associados à pintura de paisagem, surgiram somente no século XVIII, com o desenvolvimento da arte dos jardins e, paralelamente, com a renovação estilística e temática da arte e da

literatura de inspiração clássica. 151

Em países como a Inglaterra e a França, os membros da elite

social e intelectual aprendem então a serem apreciadores e conhecedores da pintura. Em meados do século XVIII, o grande tour d’Italie torna-se indispensável à formação de jovens de boa família. Através destas viagens, ou simplesmente por meio do estudo e da cópia de estampas de paisagens italianas pintadas pelos grandes mestres da época – Claude Lorrain, Poussin, Salvatore Rosa etc. –, eles aprendiam a olhar a natureza com olhos de pintor e a reconhecer “paisagens” – ou seja, cenas que mereciam ser

transferidas para a tela. 152 Graças, sobretudo, aos ingleses, disseminou-se pela Europa o gosto pela pintura de paisagem, bem como outros “rituais” e manifestações artísticas que a ela se associam, como as “viagens pitorescas” ou os “poemas

topográficos”. 153

Mas foi somente a partir de 1780 que “a viagem estética” se

difundiu, “juntamente com o interesse pela aquarela, pelo desenho ou pela estampa de paisagem”. Segundo Bernard Lepetit, as convenções pictóricas contidas nos relatos ilustrados de viagem e nas obras teóricas do inglês William Gilpin:

 

(…) contribuíram para disseminar o gosto pré-romântico pela solidão, pela

simplicidade primitiva, pela beleza pitoresca. A apreensão estética dos

lugares que é manifesta nessas obras constitui o oposto da percepção

prosaica desenvolvida pelas diferentes formas de viagens

administrativas.154

 

Com efeito, é um olhar do tipo “prosaico” que se expressa nas

dissertações dos funcionários portugueses, que foram redigidas a partir de verificações objetivas, feitas em campo. Tanto mais quanto, em Portugal e seus domínios, a “cultura da paisagem” só se afirmaria a partir de meados do século XIX. No século XVIII, raros artistas praticavam a pintura de paisagem em Portugal; a principal referência nacional era, então, o francês Pillement, pintor e decorador da Corte e da grande burguesia comercial de Lisboa, onde ele criou uma escola de pintura em 1780. Como observou Fernando de Azevedo, a “paisagem romântica” chegou tardiamente em Portugal e não se impôs antes da emergência do

Naturalismo. 155 O interesse pelo gênero surgiu simultaneamente ao desenvolvimento das técnicas de gravura no país, que permitiu a reprodução e a divulgação de “paisagens” e “vistas pitorescas” dos