Arraiais e vilas d'el rei: espaço e poder nas Minas setecentistas
A definição demográfica e econômica da cidade
O segundo sistema é qualitativo e parte do princípio de que “se a
geografia e a história das taxinomias urbanas não correspondem exatamente às da urbanização, elas constituem ao menos bons
indicadores”.3 As denominações genéricas utilizadas na França para classificar as concentrações humanas – ville, bourg, bourgade, village, hameau – eram definidas segundo determinados critérios que se modificaram ao longo do tempo, pois tais palavras designavam objetos que estavam, eles próprios, em contínua transformação. Assim, em meados do século XVIII, o desaparecimento progressivo das antigas representações culturais da cidade (que, na França, estavam ligadas à presença de muralhas, à história e aos privilégios) fez-se concomitantemente a uma multiplicação de imagens “funcionais” e foi uma consequência da modificação das realidades urbanas.
Segundo o autor, ao se fazer uma análise de longa duração das
representações referentes às cidades, “o jogo de oposições, os contrastes no vocabulário, as confrontações entre diferentes princípios de classificação” são tão reveladores quanto os indicadores estatísticos (como as taxas de urbanização), sendo, portanto, úteis para determinar os diferentes níveis e formas da urbanização das povoações de antanho. Seu método consiste, pois, em cruzar os dados quantitativos com os sistemas de denominações. Através desta operação intelectual, passa-se “dos números às palavras, de uma descrição quantitativa do fenômeno
urbano a uma análise dos modos de representação da cidade”.4
A aplicação deste método ao caso de Minas Gerais apresenta algumas
dificuldades, mas ainda assim merece ser tentada. A primeira delas é decorrente da insuficiência dos dados quantitativos disponíveis. Devido às lacunas e à falta de precisão e de homogeneidade das estatísticas demográficas e fiscais, tivemos que nos contentar em apresentar apenas vistas parciais da rede urbana mineira: uma série de flashes que se referem a um número restrito de localidades e a momentos específicos do período em estudo. Como veremos adiante, outras dificuldades de aplicação deste método relacionam-se à natureza das fontes qualitativas disponíveis e às especificidades do léxico urbano português.
A definição demográfica e econômica da
cidade