Fantasmas
Capítulo 8
Barricadas
Mãos cortadas. Cabeças cortadas.
Jenny não conseguia tirar do pensam ento aquelas im agens horrendas enquanto andava rapidam ente pela calçada, j unto com Lisa.
A dois quarteirões para leste da Sky line Road, na Vail Lane, a noite era tão quieta e discretam ente am eaçadora quanto no restante de Snowfield. As árvores aqui eram m aiores do que aquelas na rua principal; bloqueavam a m aior parte do luar. As luzes das m as tam bém eram m ais espaçadas, e as pequenas poças de luz âm bar eram separadas por lagos agourentos de escuridão.
Jenny cruzou dois m ourões e pisou num cam inho de tij olos que levava a um chalé estilo inglês de um só pavim ento que ocupava um terreno bem fundo. Um a luz suave se irradiava pelas j anelas de vidro de chum bo com as vidraças em form a de losango.
Tom e Karen Oxley m oravam no chalé enganadoram ente pequeno. Na verdade, ele tinha sete côm odos e dois banheiros. Tom era o contador da m aioria de pousadas e m otéis da cidade. Karen dirigia um encantador café francês na alta tem porada. Os dois eram radioam adores e tinham um aparelho de ondas curtas, e fora por esse m otivo que Jenny viera até aqui.
— Se alguém sabotou o rádio do gabinete do xerife — falou Lisa —, o que a faz pensar que tam bém não sabotaram este?
— Talvez não soubessem da existência dele. Vale a pena dar um a olhada.
Ela tocou a cam painha, e quando não houve resposta, experim entou abrir a porta. Estava trancada.
Dirigiram -se aos fundos da propriedade, onde um a luz tom de conhaque se filtrava pelas j anelas. Jenny olhou, desconfiada, para o gram ado dos fundos, que estava envolto nas som bras das árvores. Os passos delas ecoavam com som cavo no piso de m adeira da varanda dos fundos. Ela tentou abrir a porta da cozinha e encontrou-a trancada tam bém .
Na j anela m ais próxim a, as cortinas estavam abertas. Jenny olhou para dentro e viu apenas um a cozinha com um : balcões verdes, paredes de cor crem e, arm ários de carvalho, utensílios que brilhavam , nenhum sinal de violência.
Outras j anelas davam para a varanda, e um a delas, Jenny sabia, era de um gabinete de leitura. As luzes estavam acesas, m as as cortinas se achavam cerradas, Jenny bateu no vidro, m as ninguém respondeu.
Tentou abrir a j anela, viu que estava trancada. Agarrando o revólver pelo cano, ela estilhaçou a vidraça m ais próxim a do batente central. O
ruído do vidro que se partia foi alto e dissonante. Em bora isso fosse um a em ergência, ela se sentia com o um a ladra. Meteu a m ão pela vidraça quebrada, soltou o trinco, abriu as duas m etades da j anela e subiu pelo peitoril para dentro da casa. Atrapalhou-se um pouco com as cortinas, depois descerrou-as para Lisa poder entrar com m ais facilidade.
Havia dois corpos no pequeno gabinete de leitura. Tom e Karen Oxley.
Karen estava deitada no chão, de lado, as pernas puxadas para j unto da barriga, os om bros curvados para diante, os braços cruzados sobre os seios — um a posição fetal. Estava pisada e inchada. Tinha os olhos arregalados de terror. A boca estava escancarada, congelada para sem pre num grito.
— Os rostos deles são o pior — falou Lisa.
— Não consigo entender por que os m úsculos faciais não se relaxaram com a m orte. Não entendo com o podem perm anecer tensos deste j eito.
— O que será que viram ! — perguntou Lisa.
Tom Oxley se achava sentado diante do rádio de ondas curtas.
Estava caído por cim a do rádio, a cabeça voltada para o lado. Coberto de m achucaduras e horrendam ente inchado, igual a Karen. A m ão direita se agarrava a um m icrofone de m esa, com o se ele tivesse perecido enquanto se recusava a largá-lo. Era evidente que não conseguira m andar um pedido de socorro. Se tivesse conseguido enviar a m ensagem , a polícia sem dúvida j á teria chegado a Snowfield.
O rádio estava m udo.
Era o que Jenny im aginara tão logo vira os corpos.
Todavia, nem o estado do rádio nem o estado dos corpos eram tão interessantes quanto a barricada. A porta do gabinete estava fechada e, presum ivelm ente, trancada. Karen e Tom tinham arrastado um arm ário pesado até a frente da porta. Depois tinham em purrado um par de poltronas contra o arm ário, depois encostado um aparelho de televisão contra as poltronas.
— Estavam resolvidos a não deixar algum a coisa entrar aqui — falou Lisa.
— Mas ela entrou, de qualquer m aneira.
— Com o?
Am bas olharam para a j anela pela qual haviam entrado.
— Estava trancada pelo lado de dentro — falou Jenny. A sala tinha apenas um a outra j anela.
Elas foram até ela e afastaram as cortinas.
Tam bém estavam trancadas por dentro, com toda a segurança.
Jenny ficou olhando para a noite lá fora até que sentiu que algo oculto na escuridão tam bém a fitava, dando um a boa olhada nela enquanto estava ali, desprotegida, na j anela ilum inada. Ela fechou depressa as cortinas.
— Um quarto trancado — falou Lisa.
Jenny virou-se lentam ente e exam inou o gabinete de leitura.
Havia um a pequena saída de um duto de aquecim ento, coberta com um a placa de m etal cheia de fendas estreitas, e ainda cerca de um centím etro e m eio de espaço sob porta com barricada. Mas não havia j eito de alguém ter obtido acesso ao aposento.
Ela falou:
— Pelo que estou vendo, som ente bactérias, gás tóxico ou algum tipo de radiação poderiam ter entrado aqui para m atá-los.
— Mas nenhum a dessas coisas m atou os Lieberm anns. Jenny concordou.
— Além disso, ninguém arm aria um a barricada para im pedir a entrada de radiação, gás ou germ es.
Quantos dos habitantes de Snow field tinham se trancado em casa, pensando que tinham encontrado refúgios defensáveis — e acabaram m orrendo tão súbita e m isteriosam ente quanto aqueles que não tinham tido tem po de correr? E o que era aquilo que podia entrar em quartos trancados sem abrir portas ou j anelas? O que passara por essa barricada sem m exer nela?
A casa dos Oxley s estava tão silenciosa quanto a superfície da lua.
Finalm ente, Lisa falou:
— E agora?
— Acho que talvez vam os ter que nos arriscar a apanhar o contágio. Vam os sair da cidade e ir até o telefone público m ais próxim o ligar para o xerife em Santa Mira, contar a ele a situação e deixar que ele resolva com o lidar com ela. Depois voltarem os para cá e esperarem os. Não terem os contato direto com pessoa algum a, e eles poderão esterilizar a cabine telefônica, se acharem necessário.
— Detesto a ideia de voltar para cá, depois de ter saído — falou Lisa, ansiosa.
— Eu tam bém . Mas tem os que agir de m odo responsável.
Vam os indo — disse Jenny, virando-se para a j anela aberta pela qual tinham entrado.
O telefone tocou.
Espantada, Jenny se voltou para o som estridente. O telefone estava na m esa do rádio. Tocou de novo. Ela agarrou o fone e retirou-o do gancho.
— Alô? — Não houve resposta. — Alô? Um silêncio gélido.
A m ão de Jenny segurou com m ais força o fone.
Alguém estava prestando atenção, perm anecendo em silêncio com pleto, esperando que ela falasse. Ela estava resolvida a não lhe dar essa satisfação. Sim plesm ente apertou o fone de encontro ao ouvido e fez força para escutar algum a coisa, qualquer coisa, nem que fosse o débil fluxo da respiração da m isteriosa figura. Não foi em itido o m ais leve som , m as ela podia sentir, na outra extrem idade da linha, a presença que sentira ao pegar no telefone na casa dos Santinis e na subdelegacia do xerife.
Parada naquele aposento com barricada, naquela casa silenciosa onde a Morte penetrara de m odo im possivelm ente furtivo, Jenny Paige sentiu um a estranha transform ação ocorrendo na sua pessoa. Era um a m ulher instruída, de raciocínio e lógica, nem ao m enos ligeiram ente supersticiosa. Até o m om ento, tentara resolver o m istério de Snowfield aplicando as ferram entas da lógica e da razão. Pela prim eira vez na vida, porém , elas lhe haviam falhado totalm ente. Agora, no fundo da sua m ente, algo... se deslocou, com o se um a cobertura de ferro im ensam ente pesada estivesse sendo tirada de um a cova escura no seu subconsciente. Nessa cova, dentro de câm aras antigas da sua m ente, j azia um a legião de sensações e percepções prim itivas, um espanto supersticioso que era novo para ela. Virtualm ente ao nível da m em ória da raça arm azenada nos genes, ela pressentia o que estava acontecendo em Snowfield. Esse conhecim ento estava dentro dela; todavia, era tão estranho, tão fundam entalm ente ilógico, que ela lhe opôs resistência, lutando com força para suprim ir o terror supersticioso que fervia dentro de si.
Agarrando o fone, ela escutou a presença silenciosa na linha e discutiu consigo m esm a:
— Não é um hom em ; é um a coisa.
— Besteira.
— Não é hum ano, m as é consciente.
— Você está histérica.
— Indizivelm ente m alévolo; perfeita e puram ente perverso.
— Pare com isso, pare com isso, parei Teve vontade de bater o telefone. Não pôde fazê-lo. A coisa do outro lado da linha a hipnotizara. Lisa se acercou.
— O que foi? O que está acontecendo?
Trêm ula, ensopada de suor, sentindo-se m aculada pelo sim ples fato de estar escutando aquela presença desprezível, Jenny j á ia arrancar o telefone do ouvido quando ouviu um sibilar, um clique — e depois o sinal de linha.
Por um m om ento, atônita, não teve reação.
Então, com um gem ido, apertou o botão da telefonista no aparelho. Ele com eçou a tocar. Que som doce, m aravilhoso, reconfortante.
— Telefonista.
— Telefonista, é um a em ergência — disse Jenny. — Quero falar com o gabinete do xerife do condado, em Santa Mira.