Fantasmas
Capítulo 29
Fugindo
Rodando por Santa Mira no Datsun roubado, Fletcher Kale ouviu as notícias sobre Snowfield no rádio.
Em bora tivessem prendido a atenção do restante do país, Kale não estava m uito interessado. Nunca se interessava particularm ente pelas tragédias dos outros.
Estendeu a m ão para desligar o rádio, j á cansado de ouvir falar em Snowfield, quando j á tinha tantos problem as, ele próprio — e então escutou um nom e que significava algo para ele. Jake Johnson. Johnson era um dos delegados que fora enviado para Snowfield na véspera.
Agora estava desaparecido, podia até estar m orto.
Jake Johnson...
Um ano atrás, Kale vendera a Johnson um a cabana rústica de m adeira de construção sólida com cinco acres de terreno, nas m ontanhas.
Johnson afirm ara ser um caçador inveterado e fingira desej ar a cabana para esse fim . Todavia, por diversas coisas que o delegado deixara escapar, Kale concluíra que Johnson era, na verdade, um hom em preocupado com a sobrevivência, um daqueles pessim istas que acreditam que o m undo está cam inhando a largos passos para o Arm agedom e que a sociedade vai desm oronar, quer por causa da inflação desenfreada, quer pela guerra nuclear ou outra catástrofe qualquer. Kale ficara cada vez m ais convencido de que Johnson queria a cabana para servir de esconderij o, onde ele poderia estocar com ida e m unição — um local facilm ente defensável em épocas de convulsão social.
A cabana era afastada o bastante para tal fim . Ficava na Snowtop Mountain, do lado diam etralm ente oposto à cidade de Snowfield. Para se chegar lá, era preciso subir um a estrada de incêndio m unicipal, um a pista de terra estreita que só dava passagem , virtualm ente, a um veículo de tração nas quatro rodas, e depois passar para um a outra trilha, ainda m ais árdua. Os últim os quatrocentos m etros tinham que ser percorridos a pé.
Dois m eses depois de Johnson ter adquirido a propriedade da m ontanha, Kale se esgueirara até lá, num a cálida m anhã de j unho em que sabia que o delegado estava de plantão em Santa Mira. Queria ver se Johnson estava transform ando a cabana num a fortaleza do deserto, com o ele supunha.
Encontrara a cabana intacta, m as descobrira que Johnson estava trabalhando ativam ente em algum as das cavernas de calcário para as quais havia um a entrada nas suas terras. Do lado de fora das cavernas havia sacos de cim ento e areia, um carrinho de m ão e um a pilha de pedras.
Logo na entrada da prim eira caverna, encontrara duas lanternas a gás Colem an no piso de pedras, j unto à parede. Pegara um a das lanternas e penetrara nas câm aras subterrâneas.
A prim eira caverna era longa e estreita, pouco m ais do que um túnel. No final dela, ele seguira por um a série de curvas abruptas percorrendo antecâm aras irregulares de calcário, até que chegara à prim eira caverna do tam anho de um côm odo.
Em pilhadas de encontro a um a das paredes havia caixas contendo latas de dois quilos, seladas a vácuo, de leite em pó preservado à base de nitrogênio, frutas e legum es desidratados, sopa desidratada, ovos em pó, latas de m el, barris de cereais. Um colchão de ar. E m uito m ais. Jake andara ocupado.
O prim eiro aposento subterrâneo levava a outro. Neste, havia um buraco de form ação natural no chão, de cerca de 25cm de diâm etro, e uns barulhos estranhos saíam de dentro dele. Sussurros. Risos am eaçadores. Kale quase dera m eia-volta e correra, m as depois se dera conta de que não estava ouvindo nada m ais sinistro do que o ruído da água corrente. Um regato subterrâneo. Jake Johnson descera um a m angueira de um a polegada para dentro do poço natural e m ontara um a bom ba m anual ao lado dele.
Todos os confortos do lar.
Kale concluíra que Johnson não era m eram ente cauteloso. O hom em era um obcecado.
Num outro dia no final do m esm o verão, lá para fins de agosto, Kale retornara à propriedade da m ontanha. Para sua surpresa, a entrada da caverna, que tinha cerca de 1,20m de altura por 1,50 de largura, não estava m ais visível. Johnson criara um a barreira eficaz de vegetação para ocultar a entrada do seu esconderij o.
Kale se m etera pelo m eio da vegetação, tom ando cuidado para não esm agá-la.
Desta feita, trouxera a sua própria lanterna. Passara de gatinhas pela entrada da caverna, ficara de pé depois de estar lá dentro, seguira o túnel passando por três curvas abruptas — e de repente deparara com um beco sem saída inesperado. Sabia que devia haver m ais um a passagem curta e sinuosa, e depois a prim eira das cavernas grandes.
Em vez disso, havia som ente um a parede de calcário, um a fachada que isolava o restante das cavernas.
Por um m om ento Kale fitara a barreira, confuso. Depois exam inara atentam ente até encontrar o segredo escondido. A rocha era, na verdade, um a fina fachada que fora ligada com durepóxi a um a porta que Johnson fixara habilm ente na m oldura natural entre a passagem derradeira e a prim eira das cavernas do tam anho de um aposento.
Naquele dia de agosto, encantando-se com a porta oculta, Kale decidira que tom aria para si o esconderij o, caso algum dia necessitasse dele. Afinal de contas, talvez aquele pessoal ligado em sobrevivência não estivesse tão por fora. Quem sabe eles tinham razão. Quem sabe aqueles idiotas no poder tentariam explodir o m undo, um dia desses. Se assim fosse, Kale chegaria ao esconderij o em prim eiro lugar, e quando Johnson cruzasse a porta tão habilm ente oculta, Kale sim plesm ente o m andaria desta para m elhor.
A ideia lhe dera prazer.
Fizera com que se sentisse sagaz. Superior.
Treze m eses m ais tarde, para sua surpresa e horror, ele via chegar o fim do m undo. O fim do seu m undo. Trancafiado na cadeia m unicipal, acusado de assassinato, ele sabia para onde iria, se tivesse chance de escapar: para as m ontanhas, para as cavernas. Poderia ficar lá por sem anas, até que os tiras finalm ente parassem de procurá-lo no condado de Santa Mira e suas proxim idades.
Obrigado, Jake Johnson.
Jake Johnson...
Agora, no Datsun am arelo roubado, a curta distância da cadeia m unicipal, Kale ouviu no rádio a notícia sobre Johnson. Enquanto escutava, com eçou a sorrir. A sorte estava do seu lado.
Depois de fugir, o seu m aior problem a era livrar-se das roupas de prisioneiro e obter roupas apropriadas para as m ontanhas. Não tinha m uita certeza de com o ia fazer isso.
Logo que ouviu o locutor do rádio dizer que Jake Johnson estava m orto — ou pelo m enos longe dali, em Snowfield —, Kale soube que iria direto para a casa de Johnson, aqui em Santa Mira. Johnson não tinha fam ília. Era um esconderij o seguro e tem porário. Johnson não era exatam ente do tam anho de Kale, m as a diferença não era m uito grande e ele poderia trocar o seu uniform e de prisioneiro pelas peças m ais adequadas do guarda-roupa do delegado.
E arm as. Jake Johnson, tão ligado na sobrevivência, sem dúvida teria um a coleção de arm as em algum lugar da casa.
O delegado m orava na m esm a casa de um pavim ento e três quartos que herdara do pai, Big Ralph Johnson. Não era um a casa grandiosa. Big Ralph não gastara o seu dinheiro de suborno e corrupção com abandono desenfreado; sabia m uito bem com o ser discreto para não atrair a atenção do Im posto de Renda. Não que a casa de Johnson fosse um barraco. Ficava na quadra central da Pine Sandow Lane, um a vizinhança bem conceituada de casas m aiores, terrenos bem espaçosos e árvores antigas. A casa de Johnson, um a das m enores, tinha um a grande banheira térm ica instalada na varanda dos fundos, um enorm e salão de j ogos com um a m esa de sinuca antiga e diversos outros bens m ateriais invisíveis do lado de fora.
Kale estivera ali duas vezes na época em que estava vendendo a Johnson a propriedade da m ontanha. Não teve dificuldades em tornar a encontrar a casa.
Entrou com o Datsun no acesso de autom óveis, desligou o m otor e saltou. Esperava que não houvesse nenhum vizinho olhando.
Dirigiu-se para a parte de trás da casa, quebrou um a das j anelas da cozinha e pulou para dentro.
Foi direto para a garagem . Tinha espaço suficiente para dois carros, m as só havia ali um a perua com tração nas quatro rodas. Sabia que Johnson tinha aquele j ipe e esperava encontrá-lo ali. Abriu a porta da garagem e trouxe para dentro o Datsun roubado. Quando a porta se fechou de novo e o Datsun não podia m ais ser visto da rua, sentiu-se m ais seguro.
No quarto principal, ele vasculhou o arm ário de Johnson e encontrou um par de botas resistentes apenas m eio núm ero m aior do que o que ele usava. Johnson era uns cinco centím etros m ais baixo do que Kale, portanto as calças não eram do com prim ento certo, m as m etidas para dentro das botas não ficaram m al. A cintura era grande dem ais para Kale, m as ele apertou-a com um cinto. Escolheu um a cam isa esporte e experim entou-a. Dava para o gasto.
Depois que se vestiu, ele se olhou no espelho de corpo inteiro.
— Está legal — disse ao seu reflexo.
Depois foi revistar a casa à procura de arm as. Não encontrou nenhum a.
Muito bem , então elas estariam escondidas em algum canto. Se fosse preciso, desm ontaria a casa inteira até encontrá-las.
Com eçou no quarto principal. Esvaziou as gavetas da côm oda e da escrivaninha. Nada de arm as. Revistou os dois criados-m udos. Nada de arm as. Tirou tudo de dentro do closet: roupas, sapatos, m alas, caixas, um a m ala-arm ário. Nada de arm as. Levantou as pontas do carpete e procurou algum esconderij o secreto debaixo dele. Não achou nada.
Dali a m eia hora, ele estava suado, m as não se m ostrava cansado. Na verdade, sentia-se eufórico. Correu os olhos pela destruição que tinha feito e descobriu-se estranham ente satisfeito. O quarto parecia ter sido bom bardeado.
Entrou no quarto seguinte — devassando, rasgando, virando e quebrando tudo no seu cam inho.
Ele queria m uito encontrar aquelas arm as.
Mas tam bém estava se divertindo.