Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 23 de 48

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Fantasmas

Capítulo 21

A grande reportagem

 

Santa Mira.

Segunda-feira — 01h02.

— Alô?

— É do Santa Mira Daily Newsl

— É.

— Do j ornal?

— Dona, o j ornal está fechado. Passa de um a da m anhã.

— Fechado? Não sabia que j ornal fechava.

— Aqui não é o New York Tim es.

— Mas não estão im prim indo agora a edição de am anhã?

— A im pressão não é feita aqui. Aqui é o setor com ercial e editorial. Quer falar com o im pressor, ou o quê?

— Bem ... tenho um a reportagem .

— Se é um obituário ou um bazar de igrej a ou coisa assim , então ligue de novo de m anhã, depois das nove, e...

— Não, não. É um a reportagem das grandes.

— Sei, um a venda de obj etos usados, não é?

— Com o?

— Esqueça. Terá que ligar de novo pela m anhã.

— Espere, escute, trabalho para a com panhia telefônica.

— Isso não é um a grande reportagem .

— Não, escute, é porque trabalho para a telefônica que descobri essa coisa. O senhor é editor?

— Não, sou encarregado da venda de espaço publicitário.

— Bem ... m esm o assim , quem sabe pode m e aj udar.

— Dona, estou sentado aqui num dom ingo à noite — não, j á é segunda de m adrugada —, sozinho neste escritório som brio, tentando im aginar com o é que vou conseguir anunciantes suficientes para m anter este j ornal funcionando. Estou cansado, estou irritado...

— Que horrível.

— ...e receio que a senhora tenha que voltar a ligar pela m anhã.

— Mas unia coisa terrível aconteceu em Snowfield. Não sei exatam ente o quê, m as sei que tem gente m orta. Pode ter até um bocado de gente m orta, ou pelo m enos correndo risco de vida.

— Pom bas, eu devo estar m ais cansado do que im aginava.

Estou ficando interessado, m esm o a contragosto. Conte m ais.

— Mexendo no serviço telefônico de Snowfield, ele não está m ais no sistem a de discagem autom ática, e restringim os todos os telefonem as de fora. Agora só se pode falar com dois núm eros na cidade, e am bos estão sendo atendidos pelos hom ens do xerife. O

m otivo pelo qual fizeram essas m odificações é isolar o lugar antes que os repórteres descubram que tem coisa acontecendo.

— Dona, andou bebendo?

— Eu não bebo.

— Então, o que andou fum ando?

— Ouça, ainda sei m ais um pouco. Estão recebendo telefonem as do gabinete do xerife em Santa Mira o tem po todo, e do gabinete do governador, e de um a base m ilitar em Utah, e eles...

São Francisco.

Segunda-feira — 01h40.

— Aqui fala Sid Sandowicz. O que desej a?

— Estou dizendo a eles que quero falar com um repórter do San Francisco Chronicle, cara.

— Sou eu.

— Pô, cara, vocês desligaram na m inha cara três vezes! Porra, qual é a de vocês?

— Olha com o fala.

— Merda.

— Escute, você tem ideia do núm ero de garotos que liga para os j ornais, fazendo a gente perder tem po com brincadeiras idiotas e furos inventados?

— Hein? Com o é que soube que eu era um garoto?

— Por que você tem voz de doze anos.

— Tenho quinze.

— Parabéns.

— Merda!

— Escute, filho, tenho um garoto da sua idade, e é por isso que estou perdendo tem po com você, coisa que os outros não quiseram fazer. Portanto, se tem algum a coisa realm ente interessante para dizer, diga logo.

— Bem , m eu velho é professor em Stanford. É virologista e epidem iologista. Sabe o que isso quer dizer, cara?

— Ele estuda vírus, m oléstias, coisas assim .

— Certo. E se deixou corrom per.

— Com o assim ?

— Aceitou um a subvenção da porra dos m ilicos. Cara, está m etido com um grupo de guerra biológica. Dizem que vão fazer um a aplicação pacífica das suas pesquisas, m as você sabe que isso é um a babaquice. Ele vendeu a alm a, e agora eles vieram buscá-lo. Jogaram m erda no ventilador.

— O fato do seu pai ter se vendido — se é que se vendeu m esm o — pode ser um a grande notícia para o pessoal da sua fam ília, filho, m as duvido que desperte m uito o interesse dos nossos leitores.

— Escuta, cara, eu não liguei pra você só pra te sacanear, não.

Tenho um a reportagem de verdade. Hoj e eles vieram buscá-lo. Está havendo um a crise. Querem que eu pense que ele foi para o Leste a negócios, m as eu fui na m oita lá para cim a e escutei atrás da porta do quarto deles quando ele contou para a velha. Houve um a espécie de contam inação em Snowfield. Um a grande em ergência. Está todo m undo tentando guardar segredo.

— Snowfield, Califórnia?

— É, é. O que eu acho, cara, é que eles estavam fazendo algum teste secreto de arm a bacteriológica no nosso próprio pessoal e a coisa fugiu ao controle. Ou quem sabe foi algum derram am ento acidental. O certo é que a coisa por lá está feia.

— Com o se cham a, filho?

— Ricky Bettenby. O m eu velho se cham a Wilson Bettenby.

— Stanford, foi o que você disse?

— É. Vai até o fim nessa, cara?

— Pode ser que valha a pena. Mas antes de com eçar a ligar para o pessoal de Stanford, preciso lhe fazer m ais perguntas.

— Manda brasa. Vou lhe contar o que puder. Quero que isso vire um escândalo, cara. Quero que ele pague por ter se vendido.

Durante a noite, os vazam entos foram aparecendo, de um em um . Em Dugway, Utah, um oficial do Exército, que não podia ter feito isso, usou um telefone público fora da base para ligar para Nova York e contar a história para um irm ão caçula m uito querido que era foca do Tim es. Na cam a, depois de ter feito sexo, um assessor do governador contou para a am ante, um a repórter. Estes e outros buracos na represa fizeram com que o fluxo de inform ação crescesse de um filete para um a torrente.

Às três da m anhã, a m esa telefônica do departam ento policial do condado de Santa Mira não dava m ais conta do recado. Ao alvorecer, os repórteres de j ornal, televisão e rádio estavam invadindo Santa Mira.

Logo nas prim eiras horas da m anhã, a rua na frente dos escritórios do xerife estava lotada com carros de im prensa, furgões para film agem com os logotipos das estações de TV de Sacram ento e São Francisco, repórteres e curiosos de todas as idades.

Os delegados desistiram de tentar im pedir as pessoas de se reunir no m eio da rua, pois elas eram em núm ero grande dem ais para se lim itar às calçadas. Isolaram o quarteirão com cavaletes e transform aram -no num grande recinto ao ar livre para a im prensa. Dois garotos em preendedores de um prédio de apartam entos próxim o com eçaram a vender Tang, biscoitos e — com a aj uda da série m ais com prida de fios e extensões que alguém se lem brava de ter visto — café quente. A sua barraquinha tornou-se a central de boatos, onde os repórteres se reuniam para partilhar teorias e fofocas, enquanto esperavam pelas últim as inform ações oficiais.

Outros j ornalistas se espalharam por Santa Mira, procurando pessoas que tinham am igos ou parentes m orando em Snowfield, ou que tinham algum parentesco com os delegados que estavam lá no m om ento. No entroncam ento da estrada estadual e a Snowfield Road, ainda outros repórteres davam plantão j unto ao bloqueio da estrada feito pela polícia.

A despeito de toda essa m ovim entação, um a boa parte da im prensa ainda não tinha chegado. Muitos representantes da m ídia do Leste e da im prensa estrangeira ainda estavam em trânsito. Para as autoridades que vinham se esforçando para lidar com a confusão o pior ainda estava por vir. Segunda-feira à tarde o circo estaria form ado.