Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 4 de 48

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Fantasmas

Capítulo 3

A mulher morta

 

Jenny Paige j am ais vira um corpo com o aquele. Nada na faculdade ou na sua própria prática de m edicina a tinha preparado para a condição estranha do cadáver de Hilda Beck. Agachou-se j unto ao corpo e exam inou-o com tristeza e desprazer — m as tam bém com um a curiosidade considerável e com um a perplexidade cada vez m aior.

O rosto da m ulher estava intum escido; era agora um a caricatura redonda, m acia e um tanto lustrosa da fisionom ia que ela tivera em vida. O corpo tam bém estava inchado, e em alguns lugares fazia pressão contra as costuras do vestido de andar em casa, cinza e am arelo. Onde a carne era visível — pescoço, braços e m ãos, panturrilhas, tornozelos —, ela tinha um ar m acio, de coisa m adura dem ais. Contudo, o inchaço não parecia ser aquele form ado pelos gases, que era um a consequência natural da decom posição. Por exem plo, o estôm ago devia estar im ensam ente distendido pelos gases, m uito m ais inchado do que qualquer outra parte do corpo, m as estava apenas m oderadam ente dilatado.

Além disso, não havia cheiro de decom posição.

Vista de perto, a pele escura e m anchada não parecia ser o resultado de deterioração dos tecidos. Jenny não conseguia localizar nenhum sinal visível da decom posição em progresso; nenhum a lesão, nenhum a bolha, nenhum a pústula purgando. Com o se com põem de tecidos com parativam ente m acios, os olhos de um cadáver, em geral, dão m ostras de degeneração física antes da m aior parte das outras porções do corpo. Os olhos de Hilda Beck, porém — arregalados, fixos —, eram espécim es perfeitos. Os brancos dos olhos eram lím pidos, nem am arelados nem descoloridos por vasos sanguíneos estourados. As íris tam bém eram lím pidas. Nem sequer havia as cataratas leitosas pós-m orte para obscurecer a cor azul e cálida.

Em vida, geralm ente havia alegria e bondade nos olhos de Hilda.

Ela estava com 62 anos, um a m ulher grisalha de rosto m eigo e j eito de vovó. Falava com ligeiro sotaque alem ão e tinha um a voz surpreendentem ente linda. Cantava com frequência enquanto lim pava a casa ou cozinhava, e encontrava alegria nas coisas m ais sim ples.

Jenny sentiu um a pontada aguda de dor ao dar-se conta do quanto sentia a falta de Hilda. Fechou os olhos por um m om ento, sem conseguir olhar para o cadáver. Controlou-se, prendeu as lágrim as.

Finalm ente, quando tinha readquirido o seu distanciam ento profissional, abriu os olhos e prosseguiu com o exam e.

Quanto m ais olhava para o corpo, m ais a pele parecia m achucada. O colorido indicava m achucaduras severas: preto, azul e um am arelo profundo, as cores se m isturando um as com as outras.

Mas nada se parecia nem rem otam ente com qualquer outra contusão que Jenny j á vira. Pelo que podia perceber, a contusão era universal: não havia um a única polegada quadrada de pele visível que estivesse livre dela. Segurou com cuidado a m anga do vestido da governanta e em purrou-o para cim a até onde perm itia o braço inchado. Sob a m anga, a pele tam bém estava escura, e Jenny desconfiou que o corpo inteiro estava coberto com um a série incrível de pisaduras contíguas.

Olhou de novo para o rosto da sra. Beck. Cada centím etro de pele apresentava sinais de contusão. Às vezes, a vítim a de um sério acidente de carro sofria ferim entos que lhe causavam pisaduras na m aior parte do rosto, m as um a condição tão severa era sem pre acom panhada de um traum a pior, tal com o um nariz quebrado, lábios partidos, m axilar quebrado... Com o é que a sra. Beck poderia ter adquirido pisaduras tão grotescas quanto aquelas sem sofrer igualm ente outros ferim entos m ais sérios?

— Jenny ? — falou Lisa. — Por que está dem orando tanto?

— Só m ais um m inutinho. Continue aí m esm o.

Bem ... talvez as contusões que cobriam o corpo da sra. Beck não fossem resultantes de golpes adm inistrados externam ente. Seria possível que a descoloração da pele fosse causada, em vez disso, por pressão interna, pelo intum escim ento do tecido subcutâneo? Esse intum escim ento estava, afinal de contas, vividam ente presente. Para ter causado pisaduras tão com pletas, porém , sem dúvida, o inchaço teria que ter ocorrido repentinam ente, com um a violência incrível. Mas isso não fazia sentido, droga. O tecido vivo não podia inchar assim tão depressa. O inchaço abrupto era sintom ático de certas alergias, é claro.

Um dos piores era um a severa reação alérgica à penicilina. Mas Jenny não tinha ciência de nada que pudesse causar um inchaço crítico com tal rapidez que resultasse naquelas m achucaduras horrendas e universais.

E m esm o que o intum escim ento não fosse sim plesm ente o inchaço clássico pós-m orte — e ela tinha certeza que não era —, ainda que fosse a causa das pisaduras, em nom e de Deus, o que teria causado o intum escim ento, para início de conversa? Ela j á elim inara a reação alérgica.

Se um veneno fosse o responsável, era de um a variedade extrem am ente exótica. Mas onde Hilda teria entrado em contato com um veneno exótico? Ela não tinha inim igos. A sim ples ideia de assassinato era absurda. E conquanto um a criança fosse capaz de colocar um a substância estranha na boca apenas para descobrir o gosto, Hilda não faria um a coisa tão idiota. Não, veneno não.

Moléstia?

Se fosse m oléstia, causada por bactéria ou vírus, não era nada parecido com as coisas que ensinaram Jenny a reconhecer. E se provasse ser contagioso?

— Jenny ? — cham ou Lisa. Moléstia.

Aliviada por não ter tocado diretam ente no corpo, desej ando nem m esm o ter tocado na m anga do vestido, Jenny se pôs rapidam ente em pé, oscilou e se afastou do cadáver.

Sentiu um calafrio.

Pela prim eira vez, reparou no que estava sobre a tábua de carne ao lado da pia. Havia quatro batatas grandes, um repolho, um pacote de cenouras, um a faca com prida e um descascador de legum es. Hilda estivera preparando a refeição quando caíra m orta. Sem m ais nem m enos. Hum . Aparentem ente não estava doente, não tinha tido nenhum sinal. Que diabo, um a m orte tão repentina não era indicativa de m oléstia.

Que m oléstia resultava em m orte sem prim eiro passar pelos estágios m ais debilitantes de doença, desconforto e deterioração física?

Nenhum a. Nenhum a que fosse do conhecim ento da m edicina m oderna.

— Jenny, podem os sair daqui? — pediu Lisa.

— Shhh. Num m inuto. Deixe-m e pensar — falou Jenny, apoiando-se na ilhota, olhando para a m ulher m orta.

Um pensam ento vago e assustador estava com eçando a acossá-

la: a peste. A peste — tanto bubônica quanto sob outras form as — não era desconhecida em partes da Califórnia e do Sudoeste. Nos últim os anos, um as duas dúzias de casos haviam sido registradas. Contudo, era raro alguém m orrer de peste hoj e em dia, pois ela podia ser curada pela adm inistração de estreptom icina, cloranfenicol ou qualquer um a das tetraciclinas. Algum as form as de peste se caracterizavam pelo aparecim ento na pele de m anchas pequenas, arroxeadas, hem orrágicas.

Em casos extrem os, as m anchas se tornavam quase negras e se espalhavam até que grandes porções do corpo fossem tom adas por elas.

Na Idade Média, essa peste se tornara conhecida sim plesm ente com o a Morte Negra. Mas será que as m anchas podiam nascer com tal abundância a ponto de o corpo da vítim a ficar tão com pletam ente preto com o o de Hilda?

Além disso, Hilda m orrera subitam ente, enquanto estava cozinhando, sem prim eiro sofrer de vôm itos, incontinência, febre — o que elim inava a peste. E o que, na verdade, elim inava tam bém todas as outras m oléstias contagiosas conhecidas.

No entanto, não havia sinais visíveis de violência. Não havia ferim entos sangrentos de arm a de fogo, nem de facadas. Não havia indicação algum a de que a governanta tivesse sido espancada ou estrangulada.

Jenny rodeou o corpo e foi até o balcão j unto à pia. Tocou o repolho e ficou espantada ao notar que ainda estava frio. Não estivera aqui na tábua de carne m ais do que um a hora, aproxim adam ente.

Afastou-se da pia e olhou de novo para Hilda, m as com pavor ainda m aior do que antes.

A m ulher m orrera nesta últim a hora. O corpo ainda podia estar quente,

Mas o que a m atara!

Jenny não estava m ais perto da resposta agora do que estivera antes de exam inar o corpo. E em bora a m oléstia parecesse não ser a culpada aqui, ela não podia elim iná-la. A possibilidade de contágio, em bora rem ota, era assustadora.

Ocultando de Lisa a sua preocupação, Jenny falou: — Vam os indo, m eu bem , posso usar o telefone do consultório.

— Já estou m e sentindo m elhor — disse Lisa, m as se levantou prontam ente, e era evidente que estava ansiosa para ir em bora.

Jenny abraçou a garota e deixaram a cozinha.

Um silêncio irreal parecia encher a casa. O silêncio era tão profundo que o sussurro dos passos delas no tapete do corredor, em contraste, parecia estrondoso.

A despeito das luzes fluorescentes do teto, o consultório de Jenny não era um a sala árida e im pessoal com o as que a m aioria dos m édicos de hoj e em dia prefere. Ao contrário, era um consultório antiquado de m édico do interior, com o se fosse um a das ilustrações de Norm an Rockwell para o Saturday Evening Post. As prateleiras estavam lotadas de livros e revistas m édicas. Havia seis arquivos de m adeira antigos que Jenny com prara por um precinho bom num leilão. Nas paredes estavam pendurados diplom as, quadros de anatom ia e duas grandes aquarelas de Snowfield. Ao lado do arm ário de rem édios trancado havia um a balança, e ao lado desta, num a m esinha, um a caixa de brinquedos baratos — carrinhos de plástico, soldadinhos, bonecas em m iniatura — e pacotes de gom a de m ascar sem açúcar que eram dados com o recom pensa (ou suborno) para as crianças que não choravam durante os exam es.

Um a escrivaninha de pinho, grande, riscada, escura, era a peça central da sala, e Jenny levou Lisa até a grande cadeira de couro que ficava por trás dela.

— Desculpe — disse a m ocinha.

— Por quê? — perguntou Jenny, sentando-se na beirada da escrivaninha e puxando o telefone para j unto de si.

— Desculpe a m inha fraqueza. Quando vi... o corpo... bem ...

fiquei histérica.

— Não ficou nada histérica. Só chocada e assustada, o que é com preensível.

— Mas você não ficou chocada nem assustada.

— Ah, fiquei — disse Jenny. — Não apenas chocada: atordoada.

— Mas não ficou assustada, com o eu fiquei.

— Fiquei assustada, e ainda estou assustada. — Jenny hesitou, depois concluiu que, afinal de contas, não devia esconder a verdade da garota. Falou-lhe da possibilidade perturbadora de contágio. — Não creio que sej a um a m oléstia isso que estam os enfrentando, m as posso estar errada. E se estiver...

A garota fitou Jenny espantada, de olhos arregalados.

— Você estava assustada, com o eu, m as ainda assim passou todo aquele tem po exam inando o corpo. Pom bas, eu não poderia fazer isso. Eu não. Nunca.

— Bem , querida, m as é que eu sou m édica. Fui treinada para isso.

— Mesm o assim ...

— Você não fraquej ou, pode estar certa — tranquilizou-a Jenny.

Lisa assentiu, aparentem ente sem ter se convencido.

Jenny tirou o fone do gancho, pretendendo cham ar o xerife em Snowfield, antes de ligar para o legista em Santa Mira, a sede do condado. Não houve ruído de discar, apenas um sibilar suave. Ela m exeu no aparelho, apertando e soltando as traves de desligar, m as nenhum sinal de linha.

Havia algo de sinistro no fato de um telefone estar enguiçado quando um a m ulher j azia m orta na cozinha. Talvez a sra. Beck tivesse sido assassinada. Se alguém cortara a linha do telefone e entrara na casa, e se esgueirara por trás de Hilda com cuidado e astúcia... bem ... poderia tê-la apunhalado nas costas com um a faca de lâm ina com prida que afundara o bastante para penetrar no coração, m atando-a instantaneam ente. Nesse caso, o ferim ento estaria onde Jenny não podia vê-lo, a não ser que tivesse virado o corpo com pletam ente, de bruços. Isso não explicava por que não havia sangue algum . E nem explicava as pisaduras universais, o inchaço. Apesar disso, a ferida podia estar nas costas da governanta, e com o ela m orrera nesta últim a hora, tam bém era concebível que o assassino — se houvesse um assassino — ainda pudesse estar aqui, dentro da casa.

Estou dando asas dem ais à im aginação, pensou Jenny.

Mas decidiu que seria um a atitude sensata ela e Lisa saírem da casa im ediatam ente.

— Vam os ter que dar um pulo no vizinho e pedir a Vince ou Angie Santini que dêem os telefonem as para nós — explicou Jenny suavem ente, levantando-se da beirada da m esa. — Nosso telefone está enguiçado.

Lisa piscou os olhos.

— Isso tem algo a ver com ... o que aconteceu?

— Não sei — falou Jenny.

Seu coração batia com força enquanto ela cruzava o consultório em direção à porta sem icerrada. Ficou im aginando se haveria alguém à espera do outro lado.

Acom panhando Jenny, Lisa falou:

— Mas o telefone estar enguiçado agora... é um pouco estranho, não acha?

— Um pouco.

Jenny estava quase esperando encontrar um estranho im enso e sorridente com um a faca. Um desses sociopatas que parecem proliferar hoj e em dia. Um desses im itadores de Jack, o Estripador, cuj o trabalho sangrento m antém os repórteres de TV bem supridos de film es repulsivos para O noticiário das seis.

Espiou para o corredor antes de se aventurar a sair, preparada para dar um salto para trás e bater a porta se visse qualquer pessoa. O

corredor estava deserto.

Lançando um olhar para Lisa, Jenny viu que a garota se apercebera rapidam ente da situação.

Atravessaram rapidam ente o corredor em direção à parte da frente da casa: ao se acercarem das escadas que levavam ao segundo andar, que ficavam j untinho do Vestíbulo, os nervos de Jenny estavam m ais tensos do que nunca. O assassino — se é que existe um assassino, lem brou a si m esm a, cheia de exasperação — podia estar nas escadas, escutando enquanto elas passavam na direção da porta da frente. Podia saltar degraus abaixo enquanto elas passavam por ele, a faca erguida bem no alto...

Mas ninguém esperava nas escadas.

Ou no Vestíbulo. Ou na varanda.

Do lado de fora, o crepúsculo rapidam ente se transform ava em noite. A luz rem anescente era arroxeada, e as som bras — um exército zum bi de som bras — se erguiam de dezenas de m ilhares de locais nos quais se tinham ocultado da luz do sol. Dentro de dez m inutos estaria escuro.