Fantasmas
Capítulo 6
Novidades e noções
Elas seguiram pela Sky line Road, m ovendo-se alternadam ente por som bras, luz am arelada dos postes de rua, escuridão e luar fosfórico. Árvores regularm ente espaçadas cresciam em j ardineiras j unto ao m eio-fio, à esquerda. À direita, passaram por um a loj a de presentes, um pequeno café e a loj a de artigos de esqui dos Santinis.
Em cada um dos estabelecim entos, fizeram um a pausa para espiar pelas j anelas e vitrines, buscando sinais de vida, sem nada encontrar.
Tam bém passaram por residências que davam diretam ente para a calçada. Jenny subiu os degraus de cada um a das casas e tocou a cam painha da frente. Ninguém veio atender, nem m esm o naquelas casas em que havia luzes acesas no interior. Ela chegou a pensar em experim entar para ver se algum as daquelas portas estavam destrancadas e depois entrar. Mas não o fez, porque desconfiava, a exem plo de Lisa, que os ocupantes (se é que haveria algum ) estariam nas m esm as condições grotescas de Hilda Beck e Paul Henderson. Ela precisava localizar pessoas vivas, sobreviventes, testem unhas. Não podia saber de m ais nada por m eio de cadáveres.
— Existe algum a usina nuclear aqui por perto? — perguntou Lisa.
— Não. Por quê?
— Algum a grande base m ilitar?
— Não.
— É que pensei... quem sabe, radiação.
— Radiação não m ata assim tão de repente.
— Um a explosão bem forte de radiação?
— Não deixaria as vítim as com essa aparência.
— Não?
— Haveria queim aduras, bolhas, lesões.
Chegaram ao Salão de Beleza Linda Dam a, onde Jenny sem pre cortava o cabelo. A loj a estava deserta, com o era norm al num dom ingo com um . Jenny ficou im aginando o que teria acontecido com Madge e Dani, as esteticistas proprietárias do salão. Gostava delas. Torcia para que tivessem passado o dia fora da cidade, visitando os nam orados em Mount Larson.
— Veneno? — indagou Lisa, ao se afastarem do salão de beleza.
— Com o é que a cidade toda poderia ser envenenada sim ultaneam ente?
— Algum tipo de com ida estragada.
— É, talvez todos estivessem num m esm o piquenique, com endo a m esm a salada de batata estragada ou porco contam inado, ou qualquer coisa no gênero. Mas não estavam . Só existe um piquenique com unitário aqui, no Quatro de Julho.
— Água envenenada?
— Só se todos resolvessem beber água exatam ente no m esm o m om ento, para que não houvesse tem po de avisar uns aos outros.
— O que é praticam ente im possível.
— Além disso, isso não se parece com nenhum tipo de reação a veneno de que eu tenha conhecim ento, A padaria dos Lieberm anns. Lira um prédio lim po e branco com toldo de listras azuis e brancas. Durante a tem porada de esqui, os turistas faziam fila até o m eio do quarteirão, o dia todo, sete dias por sem ana, só para com prar as grandes roscas de canela, os bolinhos pegaj osos, os biscoitos com pedacinhos de chocolate, os bolos de am êndoas recheados com chocolate m ole e outras guloseim as que Jakob e Aida Lieberm ann produziam com trem endo orgulho e raro talento artístico. Os Lieberm anns gostavam tanto do seu trabalho que até optaram por m orar perto dele, num apartam ento por cim a da padaria (não havia luz visível ali no m om ento), e em bora não houvesse tanto lucro nas atividades de abril a outubro quanto havia no resto do ano, ainda assim eles perm aneciam abertos de segunda a sábado, na baixa tem porada. As pessoas vinham de todas as cidades m ontanhesas próxim as — Mount Larson, Shady Roost e Pineville — para com prar sacos e caixas cheios das gulodices dos Lieberm anns.
Jenny se aproxim ou da grande vitrine e Lisa encostou a testa no vidro. Na parte de trás do prédio, lá onde ficavam os fornos, a luz j orrava vivam ente por um a porta aberta, inundando um a ponta do salão de vendas e ilum inando indiretam ente o resto do lugar. À
esquerda ficavam pequenas m esas de café, cada um a delas com um par de cadeiras. Os m ostruários de esm alte branco e frente de vidro estavam vazios.
Jenny rezou para que Jakob e Aida tivessem escapado do destino que parecia ter sido reservado ao restante de Snowfield. Eles eram duas das pessoas m ais m eigas e bondosas que ela j á conhecera.
Gente com o os Lieberm anns fazia de Snowfield um bom lugar para se viver, um refúgio cio m undo rude onde a violência e a m aldade eram desconcertantem ente com uns.
Afastando-se da vitrine da padaria, Lisa falou: — E quanto a resíduos tóxicos? Um vazam ento quím ico. Algo que tivesse levantado um a nuvem de gás m ortífero.
— Aqui não — explicou Jenny. — Aqui não existe nenhum vazadouro de resíduos quím icos. Nem fábricas. Nada no gênero.
— Às vezes isso acontece quando um trem descarrila e um vagão cheio de substâncias quím icas se arrebenta.
— A ferrovia m ais próxim a fica a 32 quilôm etros.
O cenho franzido, pensando, Lisa com eçou a se afastar da padaria.
— Espere, quero dar um a olhada aqui dentro — falou Jenny, aproxim ando-se da porta da frente da loj a.
— Por quê? Não tem ninguém aí.
— Não podem os ter certeza. — Forçou a m açaneta da porta, m as não conseguiu abri-la. — As luzes estão acesas nos fundos, na cozinha. Eles podem estar lá, preparando as coisas para assar am anhã, sem saber o que aconteceu no resto da cidade. Esta porta está trancada. Vam os dar a volta pelo outro lado.
Por trás de um portão sólido de m adeira, um corredor de serviço estreito e coberto atendia tanto à padaria dos Lieberm anns quanto ao Salão de Beleza Linda Dam a. O portão se fechava com um trinco de correr, que logo cedeu aos dedos trêm ulos de Jenny. Abriu-se com um guincho e um ranger das dobradiças sem óleo. O túnel entre os dois prédios era assustadoram ente escuro; a única luz ficava na extrem idade oposta, um a m ancha cinzenta e apagada em form a de arco, onde o corredor term inava num beco.
— Não estou gostando disso — falou Lisa.
— Tudo bem , querida. Venha atrás de m im e fique bem j untinho. Se ficar desorientada, vá passando a m ão pela parede.
Em bora Jenny não quisesse contribuir para o m edo da irm ã, revelando as suas próprias dúvidas, o corredor às escuras tam bém a deixava nervosa. A cada passo, a passagem parecia ficar m ais estreita, esprem endo-as.
Quando j á estavam a cerca de um quarto do cam inho, dentro do túnel, Jenny sentiu-se tom ada da estranha sensação de que ela e Lisa não estavam sozinhas. Dali a um instante, percebeu algo que se m ovia no espaço m ais escuro, sob o telhado, a uns três m etros da sua cabeça.
Não soube dizer exatam ente com o o percebeu. Não ouvia nada que não fosse o eco de seus passos e dos de Lisa; tam bém não enxergava grande coisa. Só que, de repente, pressentiu um a presença hostil, e ao fitar atentam ente o teto escuro com o breu do corredor, teve certeza de que a escuridão estava... m udando.
Mexendo-se. Movendo-se. Movendo-se lá em cim a nos caibros do telhado.
Disse a si m esm a que estava im aginando coisas, m as quando chegou à m etade do túnel os seus instintos anim ais estavam berrando para que fugisse dali, para que corresse. Os m édicos não deviam entrar em pânico; a serenidade fazia parte do treinam ento. Apertou o passo um pouco, m as só um pouquinho, não m uito, não em pânico. Depois de alguns passos, andou ainda m ais depressa, e m ais, até que se pegou correndo, m esm o a contragosto.
Irrom peu beco adentro. Estava som brio aqui, m as não tão escuro quanto no túnel.
Lisa saiu da passagem correndo, aos tropeções, escorregou num trecho de asfalto m olhado e quase caiu.
Jenny agarrou-a e im pediu-a de ir ao chão.
Elas foram andando de costas, espiando a saída do corredor coberto e sem luz. Jenny ergueu o revólver que trouxera da subdelegacia.
— Você sentiu? — indagou Lisa, sem fôlego.
— Qualquer coisa debaixo do telhado. Provavelm ente pássaros, ou quem sabe, na pior das hipóteses, vários m orcegos.
Lisa sacudiu a cabeça.
— Não, não. Debaixo do telhado, não. Estava agachado contra a parede.
Continuaram fitando a boca do túnel.
— Eu vi algum a coisa nos caibros do telhado — falou Jenny.
— Não - insistiu a j ovem , sacudindo vigorosam ente a cabeça.
— O que foi que você viu então?
— Estava contra a parede. À esquerda. Mais ou m enos na m etade do túnel. Quase tropecei nele.
— O que era?
— Eu... não sei exatam ente. Não pude ver direito.
— Escutou algum a coisa?
— Não — falou Lisa, os olhos grudados no corredor.
— Sentiu algum cheiro?
— Não. Mas a escuridão era... bem , houve um lugar em que a escuridão ficou... diferente. Pude sentir algum a coisa se m ovendo... sei lá... se m exendo...
— Foi isso que eu pensei que vi... m as lá em cim a nos caibros do telhado.
Elas esperaram . Nada saiu do corredor.
Aos poucos, os batim entos do coração de Jenny baixaram de um galope desenfreado para um trote rápido. Ela baixou o revólver.
A respiração delas ficou calm a. O silêncio noturno voltou a se derram ar com o óleo grosso.
As dúvidas vieram à tona. Jenny com eçou a desconfiar de que ela e Lisa sim plesm ente haviam sucum bido à histeria. Não gostava nem um pouquinho dessa explicação, pois não com binava com a im agem que fazia de si própria. Mas era suficientem ente honesta consigo m esm a para enfrentar o fato desagradável de que, pelo m enos desta vez, entrara em pânico.
— Estam os apenas nervosas — falou para Lisa. — Se houvesse algum a coisa ou alguém perigoso aí dentro, j á teria vindo atrás de nós a essa altura... não acha?
— Talvez.
— Ei, sabe o que pode ter sido?
— O quê? — quis saber Lisa.
O vento frio soprou de novo e sussurrou baixinho no beco.
— Gatos — falou Jenny. — Alguns gatos. Eles gostam de ficar nesses corredores cobertos.
— Não acho que fossem gatos.
— Podia ser. Uns dois gatos lá em cim a nos caibros. E um ou dois aqui no chão, j unto da parede, onde você viu algum a coisa.
— Parecia m aior do que um gato. Parecia bem m aior do que um gato — falou Lisa, nervosam ente.
— Está certo, então não eram gatos. O m ais provável é que não fosse nada. Estam os m uito excitadas. Nossos nervos estão à flor da pele. — Soltou um suspiro. — Vam os ver se a porta dos fundos da padaria está aberta. Foi isso que viem os aqui verificar — está lem brada?
Elas se dirigiam para os fundos da padaria dos Lieberm anns, m as olhando repetidam ente para trás, para a boca da passagem coberta.
A porta de serviço da padaria estava destrancada, e havia luz e calor por detrás dela. Jenny e Lisa entraram num depósito com prido e estreito.
A porta interna levava do depósito até a im ensa cozinha, que tinha uni cheiro gostoso de canela, farinha, nogueira-preta e extrato de laranj a. Jenny inspirou profundam ente. As fragrâncias apetitosas que inundavam a cozinha eram tão caseiras, tão naturais, tão pungentes e tranquilizadoram ente rem iniscentes de épocas norm ais e lugares norm ais, que ela sentiu um pouco da sua tensão se esvair.
A padaria era bem equipada com pias duplas, um enorm e frigorífico, diversos fornos, vários arm ários im ensos de esm alte branco para arm azenagem , um a m áquina de am assar farinha, e m ais um a grande variedade de outros utensílios. O m eio do aposento era ocupado por um balcão com prido e largo, a principal área de trabalho; um a das pontas do balcão tinha um tam po de aço inoxidável brilhante, e a outra um a superfície de cepo de açougueiro. A parte de aço inoxidável, que ficava m ais perto da porta do depósito, pela qual Jenny e Lisa tinham entrado, estava cheia de panelas, fôrm as de bolo, fôrm as de abrir, tabuleiros, tudo em pilhado, lim po e brilhando. A cozinha inteira brilhava.
— Não tem ninguém aqui — falou Lisa.
— É o que parece — falou Jenny, ficando m ais anim ada ao se adiantar m ais para dentro da cozinha.
Se a fam ília Santini tinha escapado, e se Jakob e Aida tinham sido poupados, então quem sabe a m aioria da cidade não estava m orta.
Quem sabe...
Oh, Deus.
Do outro lado dos utensílios em pilhados, no m eio do cepo de açougueiro, estava um grande disco de m assa de torta. Um rolo de m acarrão de m adeira apoiava-se na m assa. Duas m ãos agarravam as pontas do rolo de m acarrão. Duas m ãos hum anas cortadas.
Lisa se encostou a um arm ário de m etal com tanta força que as coisas que estavam dentro chacoalharam ruidosam ente.
— Que diabo está acontecendo? Que diabo!
Atraída por um a fascinação m órbida e pela necessidade urgente de com preender o que estava acontecendo ali, Jenny se aproxim ou m ais do balcão e fitou as m ãos sem corpo, encarando-as com igual m edida de repulsa e descrença — e com um m edo afiado com o lâm inas. As m ãos não estavam m achucadas nem inchadas; tinham a cor de carne norm al, em bora m uito pálidas. O sangue — o prim eiro sangue que via até então — escorrera dos pulsos cortados irregularm ente e brilhava em gotas e borrões, em m eio a um a nuvem fina de farinha. As m ãos eram fortes; ou m ais precisam ente — tinham sido fortes. Dedos rom budos. Nós dos dedos grandes. Indubitavelm ente m ãos de hom em , com pelos brancos e crespos nas costas. As m ãos de Jakob Lieberm ann.
— Jenny !
Jenny ergueu os olhos, espantada.
O braço de Lisa estava erguido, estendido; apontava para o outro lado da cozinha.
Por trás do balcão de cepo de açougueiro, instalados na com prida parede do lado oposto da cozinha, ficavam três fornos. Um deles era im enso, com um par de portas sólidas de aço inoxidável. Os outros dois fornos eram m enores do que o prim eiro, em bora ainda m aiores do que os m odelos convencionais usados na m aioria dos lares; havia um a porta em cada um deles, e cada um a delas tinha um a parte de vidro no centro. Nenhum dos fornos estava ligado no m om ento, o que era um a felicidade, pois se os m enores estivessem funcionando, a cozinha teria estado tom ada de um fedor nauseante.
Cada um deles continha um a cabeça cortada.
Jesus.
Rostos m ortos e pavorosos olhavam sem ver para dentro da cozinha, os narizes apertados de encontro ao vidro do forno.
Jakob Lieberm ann. O cabelo branco m anchado de sangue. Um dos olhos pluvialm ente fechado, o outro olhando fixo. Os lábios apertados num a careta de dor.
Ainda Lierm ann. Os dois olhos abertos. A boca escancarada com o se m axilares se tivessem deslocado.
Por um m om ento, Jenny não conseguiu acreditar que as cabeças fossem reais. Era dem ais, chocante dem ais. Pensou em m áscaras do Dia das Bruxas, dispendiosas e naturais, espiando através das j anelas de celofane nas caixas de fantasia, e pensou nas novidades pavorosas vendidas nas loj as de artigos de m ágicas e brincadeiras — aquelas cabeças de cera com cabelo de náilon e olhos de vidros, aquelas coisas assustadoras que os m eninos às vezes achavam divertidíssim as (e sem dúvida era isso o que estas eram ) —, e, absurdam ente, pensou num a fala de um com ercial de m isturas de bolo para a TV: Nada é tão carinhoso quanto o que sai de um forno!
O coração dela batia com força.
Estava febril, tonta.
No balcão de cepo de açougueiro, as m ãos ainda estavam segurando o rolo de m acarrão. Jenny quase esperava que elas saíssem andando de repente sobre o balcão, com o se fossem dois caranguej os.
Onde estavam os corpos decapitados dos Lieberm anns? Enfiados no grande forno, por trás das portas de aço sem j anelas? Rígidos e congelados no im enso frigorífico?
A bile subiu à sua garganta, m as ela a sufocou.
O revólver 45 agora parecia um a defesa ineficaz contra este inim igo desconhecido e terrivelm ente violento.
Outra vez, Jenny teve a sensação de estar sendo observada, e a batida de seu coração não era m ais um tam bor de parada, m as sim tím panos.
Ela se voltou para Lisa.
— Vam os dar o fora daqui. — A garota se dirigiu para a porta do depósito. — Por aí não! — exclam ou Jenny vivam ente. Lisa se virou, pestanej ando, confusa. — O beco não — falou Jenny. — E aquele corredor escuro de novo, não.
— Santo Deus, não — concordou Lisa.
Atravessaram rapidam ente a cozinha e a outra porta, e entraram no salão de vendas da padaria. Passaram pelos m ostruários vazios, pelas m esinhas de café e as cadeiras.
Jenny teve problem as com a tranca da porta da frente. Estava em perrada. Ela pensou que teriam que sair pelo beco, afinal de contas.
E então se deu conta de que estava tentando girar o trinco ao contrário.
Girando-o na direção certa, a tranca correu com um claque e Jenny escancarou a porta.
Saíram para o ar fresco da noite.
Lisa atravessou a calçada até um pinheiro alto. Parecia ter necessidade ele se encostar em algum a coisa.
Jenny foi se j untar à irm ã, lançando um olhar apreensivo à padaria. Não ficaria surpresa de ver os dois corpos decapitados vindo em sua direção com intenções dem oníacas. Mas nada se m ovia na região da padaria, exceto a beira recortada do toldo listrado de azul e branco que ondulava à brisa inconstante.
A noite perm anecia silenciosa.
A lua estava um tanto m ais alta no céu, desde a hora em que Jenny e Lisa tinham entrado na passagem coberta.
Dali a um pouco, a garota falou:
— Radiação, m oléstia, veneno, gás tóxico — puxa vida, estávam os com pletam ente enganadas. Som ente outras pessoas, pessoas doentes, fazem esse tipo de barbaridade. Certo? Algum psicopata tarado fez tudo isso.
Jenny sacudiu a cabeça.
— Um hom em sozinho não podia ter feito tudo isso. Para dom inar um a cidade de quase quinhentas pessoas, teria sido preciso um exército de assassinos psicopatas.
— Então foi isso o que aconteceu — disse Lisa, toda trêm ula.
Jenny correu os olhos nervosam ente pela rua deserta. Parecia im prudente, até m esm o inconsequente, estar parada ali, à vista de tudo e todos, m as ela não conseguia pensar em outro lugar que fosse m ais seguro.
— Os psicopatas não entram para clubes nem planej am assassinatos em m assa com o se fossem rotarianos planej ando um baile de caridade. Quase sem pre agem sozinhos.
Dardej ando olhares de som bra em som bra, com o se esperasse que um a delas tivesse substância e intenções m alévolas, Lisa falou: — E quanto ao grupo de Charles Manson, nos anos 60, aquelas pessoas que m ataram aquela artista de cinem a — com o era o nom e dela?
— Sharon Tate.
— É. Não podia ser um grupo de pirados com o eles?
— No m áxim o, havia m eia dúzia de pessoas no núcleo da fam ília Manson, e aquele foi um desvio m uito raro do padrão do lobo solitário. De qualquer m odo, m eia dúzia não poderia fazer isso com Snowfield. Teriam que ser cinquenta, cem , quem sabe m ais. Um núm ero tão grande de psicopatas não poderia agir j unto. — Ficaram am bas caladas por algum tem po. Depois, Jenny falou: — Tem outra coisa que não faz sentido. Por que não havia m ais sangue na cozinha?
— Havia um pouco.
— Praticam ente nenhum . Um as poucas m anchas no balcão.
Devia haver sangue por toda parte.
Lisa esfregou os braços vivam ente, para cim a e para baixo, tentando gerar um pouco de calor. O seu rosto era com o cera à luz am arelada do poste de rua m ais próxim o. Parecia ter bem m ais do que quatorze anos. O terror a am adurecera.
A m ocinha falou:
— Tam bém não havia sinais de luta. Jenny franziu o cenho.
— É m esm o, não havia.
— Reparei logo nisso — falou Lisa. — Parecia tão esquisito.
Parece que eles não ofereceram nenhum a resistência. Nada arrem essado. Nada quebrado. O rolo de m acarrão teria dado um a boa arm a, não é? Mus de não o usou. Tam bém não havia nada derrubado.
— É com o se eles não houvessem resistido, com o se... tivessem posto o pescoço na guilhotina de bom grado.
— Mas por que fariam um a coisa dessas? Por que fariam um a coisa dessas?
Jenny ficou olhando para a Sky line Road na direção da sua casa, que ficava a m enos de três quadras de distância, depois desviou o olhar para a Taverna Ye Olde Towne, a Loj a de Variedades Big Nickle, a Sorveteria Patterson, a Pizzaria Mario.
Há silêncios e silêncios. Um nunca é igual ao outro. Há o silêncio da m orte, encontrado em túm ulos e cem itérios desertos, na geladeira do necrotério de um a cidade e, em certas ocasiões, em quartos de hospital; é um silêncio sem m ácula, não sim plesm ente um a quietude, m as um vácuo. Com o m édica que j á tivera o seu quinhão de pacientes com m oléstias term inais, Jenny conhecia bem esse silêncio som brio e especial.
Era isso. Era o silêncio da m orte.
Ela não quisera adm iti-lo. Fora por isso que ainda não gritara um "Alô" nas ruas funéreas. Tivera m edo de que ninguém respondesse.
Agora não gritava porque tinha m edo de que alguém respondesse. Alguém ou algum a coisa. Alguém ou algum a coisa perigosa.
Finalm ente, não tinha outra escolha senão aceitar os fatos.
Snowfield estava indisputavelm ente m orta. Não era m ais um a cidade: era um cem itério, um a coleção prim orosa de túm ulos de pedra-m adeira-tij olo-telha-em pena-sacada, um cam po-santo construído à m oda de um a pitoresca aldeia alpina.
O vento recom eçou a soprar, assobiando debaixo dos beirais dos prédios. Soava com o a eternidade.