Fantasmas
Capítulo 20
Ladrões de corpos
No saguão do Hilltop Inn, num sofá cor de ferrugem , encostado à parede que ficava m ais longe dos banheiros, Jennifer Paige sentava-se ao lado da irm ã, abraçando-a.
Bry ce estava agachado na frente do sofá, segurando a m ão de Lisa, que ele não conseguia aquecer não im porta o quanto a apertasse e esfregasse.
Excetuando os guardas de serviço, todo m undo estava reunido atrás de Bry ce, form ando um sem icírculo na frente do sofá.
Lisa tinha um a aparência terrível. Seus olhos estavam fundos, velados, atorm entados. O rosto, tão branco quanto o chão de ladrilhos no banheiro fem inino, onde a haviam encontrado inconsciente.
— Stu Wargle está m orto — assegurou-lhe Bry ce, m ais um a vez.
— Ele queria que eu o b-b-beij asse — repetia a garota, insistindo resolutam ente na sua história absurda.
— Não havia m ais ninguém no banheiro, só você — disse Bry ce.
— Só você, Lisa.
— Ele estava lá — insistiu a j ovem .
— Viem os correndo logo que você gritou. Você estava sozinha...
— Ele estava lá.
— ...caída no chão, no canto, desm aiada.
— Ele estava lá.
— O corpo dele está no quartinho de lim peza — disse Bry ce suavem ente, apertando-lhe a m ão. — Nós o colocam os lá antes. Não está lem brada?
— Ainda está lá? — perguntou a garota. — Seria m elhor vocês darem um a olhada.
Bry ce e Jenny trocaram olhares. Ela assentiu. Lem brando-se de que qualquer coisa era possível esta noite, Bry ce se pôs de pé, soltando a m ão da m oça. Dirigiu-se para o quartinho de m aterial de lim peza.
— Tal?
— Sim ?
— Venha com igo. Tal sacou o revólver.
Tirando a própria arm a do coldre, Bry ce falou: — Os outros ficam aqui.
Com Tal ao seu lado, Bry ce cruzou o saguão até a porta do quartinho e parou diante dela.
— Não acho que ela sej a do tipo que inventa histórias — disse Tal.
— Sei que não é.
Bry ce pensou em com o o corpo de Paul Henderson tinha sum ido da subdelegacia. Pom bas, pensou, aquilo era m uito diferente da situação atual. O corpo de Paul estava acessível, sem ninguém a vigiá-
lo. Mas ninguém poderia ter chegado ao corpo de Wargle — e ele não poderia ter se levantado e cam inhado sozinho — sem ter sido visto por um dos três delegados postados no saguão. No entanto, ninguém e nada fora visto.
Bry ce dirigiu-se para a esquerda da porta e fez sinal a Tal para ir para a direita.
Prestaram atenção durante vários segundos. O hotel estava silencioso. Não vinha som algum de dentro do quartinho.
Mantendo o corpo longe da abertura da porta, Bry ce se inclinou para diante e estendeu a m ão para a m açaneta, girou-a lenta e silenciosam ente até onde foi possível. Hesitou. Lançou um olhar a Tal, que indicou estar pronto. Bry ce inspirou fundo, escancarou a porta para dentro e deu um salto para trás, para se proteger.
Nada saiu correndo do quarto às escuras.
Tal foi se m ovendo devagarinho para a om breira da porta, estendeu a m ão para dentro do quarto, tateou em busca do interruptor, encontrou-o.
Bry ce estava agachado, à espera. Tão logo a luz se acendeu, ele se arrem eteu para dentro, o revólver apontado para a frente.
A luz fluorescente nua j orrava dos painéis gêm eos do teto e cintilava nas beiradas da pia de m etal e nas garrafas e latas de m aterial de lim peza.
A m ortalha em que tinham enrolado o corpo j azia am ontoada no chão, ao lado da m esa.
O cadáver de Wargle desaparecera.
Deke Coover era o guarda que estava de vigia nas portas de entrada do hotel. Não aj udou m uito a Bry ce. Passara a m aior parte do tem po olhando para fora, para a Sky line Road, de costas para o saguão.
Alguém poderia ter retirado o corpo de Wargle sem que Coover tom asse conhecim ento.
— O senhor m andou que eu vigiasse a entrada da frente, xerife — falou Deke. — Contanto que não estivesse cantando, Wargle poderia ter saído dali sozinho, dançando e agitando um a bandeira em cada m ão, e não teria cham ado a m inha atenção.
Os dois hom ens postados j unto aos elevadores, perto do quartinho de lim peza, eram Kelly MacHeath e Donny Jessup. Eram dois dos hom ens m ais m oços de Bry ce, com vinte e poucos anos, m as am bos capazes, dignos de confiança e razoavelm ente experientes.
MacHeath, um suj eito louro e corpulento, de pescoço taurino e om bros cheios, balançou a cabeça e falou: — Ninguém entrou ou saiu daquele quartinho a noite toda.
— Ninguém — concordou Jessup. Era um hom em m agro e m usculoso, de cabelos crespos e olhos cor de chá. — A gente teria visto.
— A porta é logo ali — observou MacHeath.
— E passam os a noite toda aqui.
— O senhor nos conhece, xerife — disse MacHeath.
— Sabe que não som os relaxados — disse Jessup.
— Quando estam os de serviço...
— ...estam os de serviço — concluiu Jessup.
— Porra — exclam ou Bry ce —, o corpo de Wargle sum iu. Não saiu de cim a da m esa e atravessou a parede!
— Mas tam bém não saiu de cim a da m esa e atravessou aquela porta — insistiu MacHeath.
— Senhor — disse Jessup —, Wargle estava m orto. Eu m esm o não vi o corpo, m as, pelo que m e contaram , estava bem m orto. Os m ortos ficam onde a gente os bota.
— Não necessariam ente — falou Bry ce. — Não nesta cidade.
Não esta noite.
No quartinho de m aterial de lim peza, j unto com Tal, Bry ce falou: — Não há outra saída aqui, exceto a porta. Cam inharam lentam ente pelo quarto, exam inando-o.
A bica com defeito deixou cair um a gota d'água que atingiu a bacia da pia de m etal com um ping suave.
— A saída de aquecim ento — disse Tal, apontando para um a grade num a das paredes, diretam ente sob o teto. — O que você acha?
— Está falando sério?
— É m elhor a gente dar um a olhada.
— Não tem tam anho para passar um hom em .
— Lem bra do roubo na Joalheria Kry binsky ?
— Com o vou esquecer? Ainda não foi resolvido, com o Alex Kry binsky fica m e lem brando cada vez que nos encontram os.
— O suj eito entrou no porão de Kry binsky por um a j anela destrancada do tam anhinho daquela grade.
Bry ce sabia, com o o sabia qualquer tira que lidava com roubo e invasão de dom icílio, que um hom em de porte com um não precisava de m ais que um a abertura surpreendentem ente pequena para obter acesso a um edifício. Qualquer buraco em que coubesse a cabeça de um hom em tam bém tinha tam anho suficiente para deixar passar todo o seu corpo. Os om bros eram m ais m agros do que a cabeça, é claro, m as podiam ser j ogados para a frente ou contorcidos de form a a poderem passar; igualm ente a largura dos quadris era quase suficientem ente m aleável para seguir o m esm o cam inho dos om bros. Mas Stu Wargle não tinha sido um hom em de porte com um .
— A barriga de Stu teria entalado ali com o um a rolha num a garrafa — disse Bry ce.
Apesar disso, ele pegou um banquinho que estava num canto, subiu nele e foi olhar m ais de perto a saída em questão.
— A grade não é presa por parafusos — disse ele a Tal. — É um m odelo de encaixe, portanto poderia ter sido recolocada pelo lado de dentro do conduto, depois de Wargle ter passado, desde que ele tivesse entrado com os pés em prim eiro lugar.
Retirou a grade da parede.
Tal passou-lhe um a lanterna elétrica.
Bry ce dirigiu o facho de luz para o conduto de aquecim ento escuro e franziu a testa. A passagem estreita de m etal percorria apenas um a curta distância antes de dar um a guinada abrupta de noventa graus para cim a.
Desligando a lanterna e passando-a a Tal, Bry ce falou: — Im possível. Para passar por aqui, Wargle não poderia ser m aior do que Sam m y Davis Jr., e teria que ser tão flexível quanto o hom em -borracha de um parque de diversões.
Frank Autry se aproxim ou de Bry ce Ham m ond na m esa central de operações no m eio do saguão, onde o xerife estava sentado, lendo as m ensagens que tinham chegado durante a noite.
— Senhor, tem um a coisa que precisa saber sobre Wargle. Bry ce ergueu os olhos.
— E o que é?
— Bem ... não gosto de ter que falar m al dos m ortos...
— Nenhum de nós gostava m esm o dele — disse Bry ce, sem m eias palavras. — Qualquer tentativa de honrar a sua m em ória seria hipócrita. Portanto, se souber de algum a coisa que possa m e aj udar, Frank, não faça cerim ônia.
Frank sorriu.
— O senhor se teria dado m uito bem no Exército. — Sentou-se na beirada da m esa. — Na noite passada, quando Wargle e eu estávam os desm ontando o rádio lá na subdelegacia, ele fez vários com entários noj entos sobre a dra. Paige e Lisa.
— Papo de sexo?
— É.
Frank contou a conversa que tivera com Wargle.
— Santo Deus — disse Bry ce, sacudindo a cabeça.
— O que ele falou sobre a garota foi o que m ais m e incom odou — disse Frank. — Wargle não estava brincando quando falou sobre, quem sabe, dar um a prensa nela se a oportunidade se apresentasse.
Não creio que tivesse ido aos lim ites do estupro, m as era capaz de dar um a prensa das grandes e usar a sua autoridade, o seu distintivo, para coagi-la. Não creio que aquela garota pudesse ser coagida, tem garra dem ais. Mas acho que Wargle poderia tentar. — O xerife bateu com o lápis na m esa, fitando o ar, pensativo. — Mas Lisa não estava sabendo disso — continuou Frank.
— Será que não podia ter escutado a conversa de vocês?
— Nem um a palavra.
— Ela podia ter desconfiado do tipo de hom em que Wargle era, pelo j eito com o ele olhava para ela.
— Mas não podia saber — falou Frank. — Entende aonde estou querendo chegar?
— Entendo.
— Qualquer criança — falou Frank —, se inventasse um a história a esse respeito ficaria satisfeita dizendo que um m orto correra atrás dela. Norm alm ente não enfeitaria a história dizendo que o m orto queria m olestá-la.
Bry ce concordou.
— A cabeça das crianças não é assim tão barroca. As suas m entiras em geral são sim ples, não elaboradas.
— Exatam ente — disse Frank. — O fato de ter dito que Wargle estava nu e que queria m olestá-la... bem , para m im isso acrescenta credibilidade à história dela. Bem , todos gostaríam os de acreditar que alguém se esgueirou para dentro do quartinho de lim peza e roubou o corpo de Wargle. E gostaríam os de im aginar que colocaram o corpo no banheiro fem inino, que Lisa o viu, entrou em pânico e im aginou o resto.
E que, depois que ela desm aiou, alguém tirou o corpo de lá, de algum a form a incrivelm ente inteligente. Mas esta explicação está toda furada. O
que aconteceu foi m uito m ais estranho do que isso.
Bry ce largou o lápis e se recostou na cadeira.
— Merda. Você crê em fantasm as, Frank? Em m ortos-vivos?
— Não. Existe um a explicação real para isso — falou Frank. — Não um m onte de baboseiras e superstições. Um a explicação real.
— Concordo. Mas o rosto de Wargle estava...
— Eu sei. Eu vi.
— Com o é que o rosto dele podia ter sido recom posto?
— Não sei.
— E Lisa falou que os olhos dele...
— É. Ouvi o que ela falou. Bry ce soltou um suspiro.
— Já tentou resolver o Cubo de Rubik? Frank pestanej ou.
— Não, nunca.
— Bem , eu j á — falou o xerife. — O danado quase m e deixou m aluco, m as eu não desisti, e acabei resolvendo. Todo m undo acha que é um quebra-cabeça difícil, m as, com parado a este caso, é brincadeira de j ardim de infância.
— Tem m ais um a diferença — falou Frank.
— Qual é?
— Se você não conseguir resolver o Cubo de Rubik, o castigo não é a m orte.
Em Santa Mira, na sua cela na cadeia m unicipal, Fletcher Kale, assassino da m ulher e do filho, acordou antes do alvorecer. Ficou im óvel no colchão fino de espum a e olhou para a j anela, que apresentava um a faixa retangular do céu antes da aurora para a sua inspeção.
Ele não ia passar a vida na prisão. Não ia.
Tinha um destino m agnífico. Era isso que ninguém com preendia. Eles viam o Fletcher Kale que existia agora, sem conseguir enxergar aquilo em que ele se transform aria. Estava destinado a ter tudo: dinheiro a perder de vista, um poder que transcendia a im aginação, fam a, respeito.
Kale sabia que era diferente da ralé da hum anidade, e era esta certeza que fazia com que seguisse em frente, a despeito de toda a adversidade. As sem entes de grandeza dentro dele j á estavam brotando.
Com o tem po, faria com que todos vissem o quanto estavam errados a seu respeito.
A percepção, pensou, fitando a j anela com grades, a percepção é m eu m aior dom . Sou extraordinariam ente perceptivo.
Ele via que, sem exceção, os seres hum anos eram im pulsionados pelo interesse. Nada de errado nisso. Era a natureza da espécie. Era assim m esm o que a hum anidade tinha que ser. Mas a m aioria das pessoas não suportava enfrentar a verdade. Inventavam uns conceitos ditos inspiradores com o am or, am izade, honra, verdade, fé, confiança e dignidade individual. Alegavam acreditar em todas essas coisas e em outras m ais. Todavia, bem no fundo, sabiam que era tudo babaquice.
Só que não queriam adm itir. E então, burram ente, se atavam a um código de conduta piegas e autocongratulatório, a sentim entos nobres m as vazios, frustrando assim os seus verdadeiros desej os, destinando-se ao fracasso e à infelicidade.
Idiotas. Deus, com o os desprezava.
Da sua perspectiva singular, Kale via que a hum anidade era, na realidade, a espécie m ais im placável, perigosa e inexorável na face da terra. E ele curtia essa certeza. Tinha orgulho de pertencer a um a raça assim .
Sou m uito avançado para a m inha época, pensou Kale, sentando-se na beirada do catre e pondo os pés descalços no chão frio da cela. Sou o passo seguinte na evolução. Evoluí além da necessidade de acreditar em m oralidade. É por isso que m e olham com tanto asco.
Não porque tenha m atado Joanna e Danny. Eles m e odeiam porque sou m elhor do que eles, m ais com pletam ente afinado com a m inha verdadeira natureza hum ana.
Ele não tivera outra escolha a não ser m atar Joanna. Ela se recusara a lhe dar o dinheiro, afinal de contas. Estava pronta para hum ilhá-lo profissionalm ente, arruiná-lo financeiram ente e destruir o seu futuro inteiro.
Tivera que m atá-la, ela estava no seu cam inho.
Quanto a Danny, fora um a pena. Kale lam entava um pouco essa parte. Não sem pre. Só de vez em quando. Um a pena. Necessário, m as um a pena.
De qualquer m aneira, Danny sem pre fora um filhinho da m am ãe. Na verdade, era totalm ente distante do pai. Isso fora obra de Joanna. Provavelm ente fazia lavagem cerebral no m enino, voltando-o contra o seu velho. No final, Danny j á nem era m ais filho de Kale.
Tornara-se uni estranho.
Kale deitou-se no chão da cela e com eçou a fazer flexões.
Um -dois, um -dois, um -dois.
Pretendia m anter-se em form a para o m om ento em que se lhe apresentasse um a oportunidade de fuga. Sabia exatam ente aonde iria quando fugisse. Não para o Oeste, não para fora do condado, não para os lados de Sacram ento. Era isso o que esperavam que fizesse.
Um -dois, um -dois.
Conhecia um esconderij o perfeito. Ficava bem aqui no condado.
Não iriam procurá-lo bem debaixo de seus narizes. Quando não conseguissem encontrá-lo dentro de um dia ou dois, concluiriam que j á se tinha m andado e parariam de procurar ativam ente nas vizinhanças.
Depois de passadas varias sem anas, quando j á nem estivessem pensando m ais nele, então ele sairia do esconderij o, voltaria a passar pela cidade e se dirigiria para o Oeste.
Um -dois.
Mas, prim eiro, iria para as m ontanhas. Era lá que ficava o esconderij o. As m ontanhas lhe ofereciam a m elhor chance de escapar dos tiras, depois de fugir. Estava com um palpite. As m ontanhas. É.
Sentia-se atraído para as m ontanhas.
O alvorecer chegou nas m ontanhas, espalhando-se com o um a m ancha viva no céu, em bebendo-se na escuridão, descolorindo-a.
A floresta que ficava acim a de Snowfield estava quieta. Muito quieta.
Na vegetação rasteira, as folhas estavam orladas de orvalho. O
cheiro agradável do hum o rico se erguia do chão esponj oso da floresta.
O ar estava frio, com o se a últim a expiração da noite ainda pairasse sobre a terra.
A raposa estava im óvel sobre um a form ação calcária que se proj etava de um declive aberto, pouco abaixo da linha das árvores. O
vento eriçava levem ente o seu pelo cinzento.
Seu hálito form ava um a pequena plum a fosfórica no ar revigorante.
A raposa não era um a caçadora noturna, no entanto estava à espreita desde um a hora antes do alvorecer. Não com ia há quase dois dias.
Não conseguia encontrar caça. Os bosques estavam invulgarm ente silenciosos e despidos do cheiro das presas.
Em todas as suas tem poradas com o caçadora, a raposa j am ais encontrara um a quietude tão estéril quanto esta. Os dias m ais am argos do inverno tinham m ais prom essas do que este. Mesm o nas nevascas de j aneiro havia sem pre o cheiro do sangue, o cheiro da caça.
Agora não.
Agora não havia nada.
A m orte parecia ter cham ado todas as criaturas nesta parte da floresta — excetuando a pequena raposa fam inta. No entanto, não havia nem ao m enos o cheiro da m orte, nem m esm o o fedor forte de um a carcaça apodrecendo na vegetação rasteira.
Finalm ente, porém , ao cruzar a baixa form ação calcária, tom ando cuidado para não pisar num a das fendas ou buracos acanalados que levavam às cavernas lá em baixo, a raposa vira algo se m over no declive à sua frente, algo que não fora apenas agitado pelo vento. Ela se im obilizara nas pedras baixas, olhando para cim a, para o perím etro im preciso deste novo braço da floresta.
Um esquilo. Dois esquilos. Não, havia m ais deles ainda — cinco, dez, vinte. Estavam alinhados lado a lado na penum bra ao longo da linha das árvores.
Prim eiro, nenhum a caça. Agora, um a abundância igualm ente estranha de caça.
A raposa farej ou.
Em bora os esquilos estivessem apenas a cinco ou seis m etros de distância, ela não conseguia sentir o cheiro deles.
Os esquilos olhavam diretam ente para ela, m as não pareciam assustados.
A raposa inclinou a cabeça para o lado, a desconfiança m oderando a sua fom e.
Os esquilos se m overam para a esquerda, todos de um a só vez, num grupinho com pacto, e depois saíram das som bras das árvores, afastando-se da proteção da floresta, entrando em cam po aberto, dirigindo-se diretam ente para a raposa. Eles se m isturavam uns com os outros, por cim a, por baixo, ao redor, form ando um a confusão de peles castanhas, um borrão de m ovim ento na gram a m arrom . Quando pararam abruptam ente, todos no m esm o instante, estavam apenas a três ou quatro m etros da raposa. E j á não eram m ais esquilos.
A raposa estrem eceu e em itiu um som sibilante.
Os vinte pequenos esquilos eram agora quatro grandes guaxinins.
A raposa rosnou baixinho.
Ignorando-a, um dos guaxinins ergueu-se nas patas traseiras e com eçou a lam ber as dianteiras.
O pelo das costas da raposa ficou todo eriçado.
Ela farej ou o ar.
Não havia cheiro.
Ela baixou bem a cabeça e observou atentam ente os guaxinins.
Os seus m úsculos lisos ficaram ainda m ais tensos do que estavam , não porque pretendesse dar o bote, m as porque pretendia fugir.
Havia algum a coisa m uito errada.
Todos os quatro guaxinins agora estavam sentados nas patas traseiras, as patas dianteiras erguidas, a barriga à m ostra.
Estavam observando a raposa.
Geralm ente, o guaxinim não era presa para a raposa. Era agressivo dem ais, tinha os dentes afiados dem ais, era ligeiro dem ais com as garras. Mas em bora estivesse a salvo da raposa, o guaxinim não apreciava o confronto; nunca se pavoneava com o aqueles quatro estavam fazendo.
A raposa lam beu com a língua o ar frio.
Farej ou de novo e, finalm ente, conseguiu sentir um cheiro.
As suas orelhas grudaram -se ao crânio e ela rosnou.
Não era cheiro de guaxinim . Não era cheiro de nenhum habitante da floresta que j á tivesse encontrado antes. Era um odor desconhecido, ativo, desagradável. Leve. Mas repelente.
Esse odor repulsivo não vinha de nenhum dos quatro guaxinins que se postavam diante da raposa. Ela não conseguia detectar exatam ente de onde estava vindo.
Pressentindo um grave perigo, a raposa deu m eia-volta no calcário, afastando-se dos guaxinins, em bora sentisse relutância em dar-lhes as costas.
As suas patas rasparam e as suas garras fizeram ruído na superfície dura quando ela se precipitou encosta abaixo, por cim a da rocha plana, desgastada pelo tem po, a cauda ondeando atrás de si. Ela saltou por cim a de um a fenda de trinta centím etros na pedra...
...e, em pleno salto, foi agarrada no ar por algo escuro, frio e pulsante.
A coisa irrom peu de dentro da fenda com força e velocidade brutais, chocantes.
O guincho agoniado da raposa foi agudo e breve.
Com a m esm a rapidez com que foi agarrada, a raposa foi atraída para dentro da fenda. Um m etro e m eio m ais abaixo, no fundo do abism o em m iniatura, havia um pequeno buraco que levava às cavernas por baixo do afloram ento de calcário. O buraco era pequeno dem ais para deixar passar a raposa, m as a criatura que se debatia foi arrastada por ali assim m esm o, com os ossos se partindo pelo cam inho.
Sum iu.
Tudo isso num piscar de olhos. Em m eio piscar.
Na verdade, a raposa fora sugada para dentro da terra m esm o antes que o eco de seu últim o grito tivesse ressoado de volta de um a colina distante.
Os guaxinins tinham sum ido.
Agora, um a torrente de pequenos ratos silvestres escorria por sobre as superfícies lisas do calcário. Dezenas deles, vintenas. Pelo m enos uns cem .
Dirigiam -se para a beira da fenda.
Ficaram olhando para baixo.
De um em um , os ratinhos pularam da beirada para o fundo do buraco, depois passaram pela pequena abertura natural que levava à caverna lá em baixo.
Logo, todos os ratinhos tam bém tinham desaparecido.
Mais um a vez a floresta acim a de Snowfield ficou em sossego.