Fantasmas
Capítulo 11
Explorando
Bry ce curvou-se sobre um dos j oelhos ao lado de Paul Henderson.
As outras sete pessoas — seus próprios hom ens, a dra. Paige e Lisa — ficaram na área de recepção, do lado de fora da grade de m adeira, na subdelegacia de Snowfield. Estavam quietas na presença da Morte.
Paul Henderson fora um bom hom em com instintos decentes.
Sua m orte era um terrível desperdício.
Bry ce cham ou:
— Dra. Paige?
Ela se agachou do outro lado do corpo.
— Sim ?
A senhora não m udou o corpo de lugar? Nem m esm o toquei nele, xerife. Não havia sangue?
É com o o senhor está vendo agora. Nada de sangue. O ferim ento poderia ser nas costas — falou Bry ce. Mesm o que fosse, ainda haveria um pouco de sangue no chão. Pode ser. — Ele fitou-lhe os olhos im pressionantes — verdes pontilhados de dourado. — Norm alm ente eu não m exeria num corpo até que o legista o tivesse exam inado. Mas esta não é um a situação norm al, Terei que virar este hom em de barriga para baixo.
— Não sei se é seguro tocar nele.
— Alguém tem que fazê-lo — disse Bry ce.
A dra. Paige se levantou e todos recuaram um ou dois passos.
Bry ce levou a m ão ao rosto distorcido e enegrecido de Henderson.
— A pele ainda está ligeiram ente quente — exclam ou, surpreso.
A dra. Paige falou:
— Não creio que tenham m orrido há m uito tem po.
— Mas um corpo não fica descolorido e inchado em duas horas — falou Tal Whitm an.
— Estes corpos ficaram — replicou a doutora.
Bry ce virou o corpo de bruços, deixando as costas à m ostra.
Nenhum ferim ento.
Esperando encontrar um a depressão anorm al no crânio, Bry ce m eteu os dedos pela cabeleira espessa do m orto, tateando os ossos. Se o delegado tivesse sido atingido com força na parte de trás da cabeça...
Mas tam pouco fora isso o que acontecera. O crânio estava intacto.
Bry ce se pôs de pé.
— Doutora, essas duas decapitações que a senhora m encionou...
acho m elhor darm os um a olhada nelas.
— Será que um dos seus hom ens poderia ficar aqui com a m inha irm ã?
— Com preendo com o se sente — falou Bry ce. — Mas não creio que sej a sensato dividir os hom ens. Pode ser que não haj a segurança em ficarm os todos j untos; m as, por outro lado, pode ser que haj a.
— Tudo bem — assegurou Lisa a Jenny. — Eu não quero ficar para trás, de qualquer m aneira.
Era um a garota de coragem . Tanto ela quanto a irm ã intrigavam Bry ce Ham m ond. Estavam pálidas e seus olhos se achavam cheios de som bras roxas de choque e horror, m as enfrentavam este pesadelo vivo e bizarro m uito m elhor do que a m aioria das pessoas o faria.
As Paiges foram guiando o grupo todo para fora da subdelegacia e na direção da padaria.
Bry ce estava achando difícil acreditar que Snowfield tivesse sido um a aldeia norm al e m ovim entada há pouco tem po. A cidade parecia seca, extinta e m orta, com o um a antiga cidade perdida num deserto longínquo, num canto do m undo onde até o vento, às vezes, se esquecia de ir. A quietude que envolvia a cidade parecia um silêncio de inúm eros anos, de décadas, de séculos, um silêncio de épocas inim aginavelm ente longas, em pilhadas um as sobre as outras.
Pouco depois de chegar em Snowfield, Bry ce utilizara um m egafone elétrico para tentar obter um a resposta das casas silenciosas.
Agora parecia tolice ter sequer esperado um a resposta.
Entraram na padaria dos Lieberm anns pela porta da frente e foram para a cozinha nos fundos do prédio.
Na m esa de cepo de açougueiro, duas m ãos cortadas agarravam as pontas de um rolo de m acarrão.
Duas cabeças cortadas espiavam por duas portas de forno.
— Oh, m eu Deus — exclam ou Tal, baixinho.
Bry ce estrem eceu.
Jake Johnson se encostou num arm ário branco e alto, necessitando evidentem ente de um apoio. Wargle falou: — Cristo, eles foram abatidos com o se fossem duas vacas... E
logo estavam todos falando a um a voz.
— ...por que diabo alguém faria...
— ...doente, pervertido...
— ...e onde estão os corpos?
— Sim — disse Bry ce, erguendo a voz para se sobrepuj ar ao vozerio —, onde estão os corpos! Vam os procurá-los.
Durante dois segundos ninguém se m exeu, todos petrificados pela ideia do que poderiam encontrar.
— Dra. Paige, Lisa... não há necessidade de vocês nos aj udarem — continuou Bry ce. — Basta se afastarem .
A m édica assentiu. A m ocinha sorriu, agradecida.
Trepidantem ente, revistaram todos os arm ários, abriram todas as gavetas e portas. Gordy Brogan olhou dentro do grande forno, que não era equipado com visor, e Frank Autry exam inou o frigorífico. Bry ce inspecionou o banheiro pequeno e im pecável num dos cantos da cozinha. Mas não puderam achar os corpos (ou qualquer pedaço dos corpos) do casal idoso.
— Por que o assassino levaria os corpos? — perguntou Frank.
— Talvez estej am os lidando com gente de algum culto — falou Jake Johnson. Provavelm ente queriam os corpos para algum ritual m acabro.
— Se houver algum ritual — falou Frank —, parece-m e que foi realizado aqui m esm o.
Gordy Brogan se precipitou para o lavatório, tropeçando e oscilando, um garotão desaj eitado que parecia form ado apenas de pernas com pridas e braços com pridos, cotovelos e j oelhos. Sons de ânsias de vôm itos atravessaram a porta que ele fechara atrás de si.
Stu Wargle achou graça e falou:
— Jesus, que m aricas.
Bry ce se voltou para ele, de cara fechada.
— Em nom e de Deus, o que está achando tão engraçado, Wargle? Tem gente m orta aqui. Acho que a reação de Gordy é bem m ais natural do que qualquer um a das nossas.
O rosto pesado de Wargle, de olhinhos pequenos, toldou-se de raiva. Ele não tinha nem espírito para ficar encabulado. Deus, com o desprezo este hom em , pensou Bry ce. Quando Gordy voltou do banheiro, estava sem j eito.
— Desculpe, xerife.
— Não tem do quê, Gordy.
Eles saíram j untos da cozinha, passando pelo salão de Vendas e se dirigiram para a calçada.
Bry ce foi im ediatam ente até o portão de m adeira entre a padaria e a loj a vizinha. Olhou sobre o topo do portão para o corredor coberto e sem luz. A dia. Paige se acercou dele e Bry ce perguntou: — Foi aqui que a senhora pensou ter visto algum a coisa nos caibros do telhado?
— Bem , lisa achou que a coisa estava agachada j unto à parede.
— Mas do corredor era este!
— Era.
O túnel estava totalm ente às escuras.
Ele pegou a lanterna elétrica de cabo com prido de Tal, abriu o portão que rangia, sacou o revolver e entrou no corredor. Havia ali um odor vago de um idade desagradável. O guincho das dobradiças enferruj adas do portão e depois o som de seus próprios passos ecoaram túnel abaixo, precedendo-o.
A luz da lanterna era potente; cobria m ais da m etade da passagem . Todavia ele a m anteve próxim o de si, m ovendo-a para diante e para trás, cobrindo a área m ais im ediata, exam inando as paredes de concreto, depois olhando para o teto, que ficava uns três m etros acim a da sua cabeça. Pelo m enos nesta parte do corredor, os caibros do telhado estavam desertos.
A cada passo que dava, Bry ce se sentia m ais certo de que sacar o revólver fora desnecessário — até que chegou m ais ou m enos no m eio do túnel. Então, de repente, sentiu... algo estranho... um tinir, um trem or frio e agoureiro na espinha. Sentiu que não estava m ais sozinho.
Era um hom em que confiava nos seus palpites, e não ignorou este. Parou de andar, ergueu a arm a, prestou m ais atenção do que antes ao silêncio, passou rapidam ente a luz da lanterna pelas paredes e teto, olhou para os caibros com especial atenção, fitou a escuridão adiante quase até a entrada do beco, e chegou até a olhar para trás para ver se algo havia surgido m agicam ente às suas costas. Nada esperava na escuridão. No entanto, ele continuava a sentir que estava sendo observado por olhos inam istosos.
Adiantou-se de novo, e a sua luz ilum inou qualquer coisa.
Coberto por um a grade de m etal, um ralo de trinta centím etros quadrados se encontrava no chão da passagem . Dentro do ralo, algo indefinível cintilou, refletindo a luz da lanterna; m exeu-se.
Cautelosam ente, Bry ce se aproxim ou m ais e dirigiu o facho diretam ente para dentro do ralo. O que quer que cintilara j á tinha sum ido.
Ele se agachou j unto ao ralo e espiou pelas fendas da grade. O
facho de luz revelou apenas as paredes de um cano. Era um cano de escoam ento, de cerca de 45 centím etros de diâm etro, e estava seco, o que significava que ele não vira apenas água.
Um rato? Snowfield era um a estação de esportes que recebia turistas relativam ente afluentes. Portanto, a cidade tom ava m edidas invulgarm ente rígidas para se m anter livre de todo o tipo de anim ais nocivos. É claro que, a despeito de todas as precauções de Snowfield neste sentido, a existência de um ou dois ratos não era de todo im possível. Podia ter sido um rato. Mas Bry ce não acreditava que tivesse sido.
Ele cam inhou até o fundo do beco, depois voltou para o portão onde Tal e os outros estavam à espera.
— Viu algum a coisa? — perguntou Tal.
— Não vi grande coisa — respondeu Bry ce, passando para a calçada e fechando o portão atrás de si. Contou-lhes da sensação que tivera de estar sendo observado e do m ovim ento no cano.
— Os Lieberm anns foram m ortos por gente — falou Frank Autry. — Não por algo pequeno o bastante para se enfiar por um cano.
— Sem dúvida é o que parece — concordou Bry ce.
— Mas o senhor sentiu algum a coisa lá? — perguntou Lisa, ansiosa.
— Senti algum a coisa — disse Bry ce à garota. — Aparentem ente não m e afetou com a m esm a intensidade com que você disse que a afetou. Mas era definitivam ente... estranho.
— Que bom — falou Lisa. — Ainda bem que não acha que som os apenas m ulheres histéricas.
— Considerando o que passaram , vocês são o m ais “anti-histéricas " que se possa desej ar.
— Bem — falou a m ocinha —, Jenny é m édica, e eu acho que tam bém gostaria de ser m édica algum dia, e os m édicos sim plesm ente não podem se dar ao luxo de serem histéricos.
Ela era um a garota engraçadinha — em bora Bry ce não pudesse ter deixado de notar que a irm ã m ais velha era ainda m ais bonita. Tanto a garota quanto a doutora tinham o m esm o tom de cabelo: um castanho-averm elhado de cerej eira bem encerada, grosso e lustroso.
Am bas tam bém tinham a m esm a pele dourada. Com o, porém , as feições da dra. Paige eram m ais m aduras do que as de Lisa, eram tam bém m ais interessantes e atraentes, na opinião de Bry ce. Os olhos da doutora eram ainda de um tom m ais verde do que os da irm ã.
Bry ce falou:
— Dra. Paige, gostaria de ver aquela casa onde os corpos estavam dentro do gabinete de leitura com barricada.
— É — falou Tal. — Os assassinatos do quarto trancado.
— É na casa dos Oxley s, lá na Vail.
Ela os conduziu rua abaixo na direção da esquina da Vail Lane com a Sky line Road.
O arrastar seco dos passos deles era o único som , e fez Bry ce pensar novam ente em locais desertos, com escaravelhos pulando em pilhas de pergam inhos de papiro frágeis e antigos, em túm ulos do deserto.
Dobrando a esquina na Vail Lane, a dra. Paige parou e disse: — Tom e Karen Oxley... hã... m oravam a duas quadras daqui, descendo a rua.
Bry ce exam inou a rua. Falou:
— Em vez de irm os direto para a casa dos Oxley s, vam os dar um a olhada em todas as casas e loj as daqui até a casa deles... pelo m enos neste lado da rua. Acho que é seguro nos dividirm os em dois grupos de quatro. Não vam os tom ar direções inteiram ente diferentes.
Estarem os perto o bastante para nos aj udarm os uns aos outros, se houver encrenca. Dra. Paige, Lisa... vocês ficam com igo e com Tal.
Frank, você fica encarregado da segunda equipe. — Frank assentiu. — Vocês quatro fiquem bem j untos — advertiu Bry ce. — E quero dizer j untos m esm o. Cada um de vocês tem que ficar à vista dos outros três o tem po todo. Com preenderam ?
— Com preendem os, xerife — respondeu Frank Autry.
— Tudo bem , então vocês quatro exam inem o prim eiro prédio depois deste restaurante e nós exam inarem os o prédio vizinho a ele.
Vam os alternando os prédios até o fim do quarteirão, depois param os e trocam os im pressões. Se vocês encontrarem algo de realm ente interessante, algo m ais do que sim ples corpos adicionais, venham m e buscar. Se precisarem de aj uda, disparem dois ou três tiros.
Escutarem os os tiros m esm o que estej am os dentro de outro prédio, li vocês tam bém fiquem atentos a tiros disparados por nós.
— Posso fazer um a sugestão? — indagou a dra. Paige.
— Claro — retrucou Bry ce. Voltando-se para Frank Autry, ela falou:
— Se depararem com qualquer cadáver que apresente sinais de hem orragia nos olhos, ouvidos, nariz ou boca, avisem -m e im ediatam ente. E tam bém se houver quaisquer indícios de vôm ito ou diarreia.
— Porque essas coisas podem indicar um a m oléstia? — perguntou Bry ce.
— É — respondeu ela. — Ou envenenam ento.
— Mas j á elim inam os essas possibilidades, não foi? — perguntou Gordy Brogan.
Jake Johnson, aparentando m ais idade que seus 57 anos, falou: — Não foi um a m oléstia que cortou Fora a cabeça daquelas pessoas.
— Estive pensando nisso — replicou a dra. Paige. — E se se tratar de um a m oléstia ou um a toxina quím ica que j am ais encontram os antes — um a form a m utante de raiva, digam os —, que m ata algum as pessoas m as sim plesm ente deixa as outras loucas furiosas'? E se as m utilações foram feitas por aqueles que ficaram alucinados?
— Isso seria provável? — quis saber Tal Whitm an.
— Não. Mas, pensando bem , talvez não sej a im possível. Além disso, quem é capaz de dizer o que é provável ou im provável, agora?
Seria provável que um a coisa dessas acontecesse a Snowfield, para com eço de conversa?
Frank Autry puxou o bigode e falou: — Mas se há bandos de m aníacos raivosos correndo soltos por aí... onde estão eles?
Todos olharam para a rua tranquila. Para as poças de som bra m ais fundas que se derram avam por relvados, calçadas e carros estacionados. Para as j anelas de sótão apagadas. Para as j anelas de porão às escuras.
— Se escondendo — falou Wargle.
— Esperando — falou Gordy Brogan.
— Não, isso não faz sentido — falou Bry ce. — Maníacos raivosos não ficariam escondidos, esperando e planej ando. Eles nos,atacariam .
— Além disso — disse Lisa suavem ente —, não é gente com raiva. É algum a coisa bem m ais estranha.
— Ela provavelm ente tem razão — falou a dra. Paige.
— O que não m e faz sentir nem um pouquinho m elhor — disse Tal.
— Bem , se encontrarm os sinais de vôm itos, diarreia ou hem orragia — falou Bry ce —, então saberem os. E se não encontrarm os...
— Terei que apresentar um a nova hipótese — concluiu a dra.
Paige. Ficaram calados, sem anim ação para com eçar a busca porque não sabiam o que podiam encontrar — ou o que poderia encontrá-los.
O tem po parecia ter parado.
O alvorecer, pensou Bry ce Ham m ond, j am ais chegará se não nos m exerm os.
— Vam os indo — falou.
O prim eiro prédio era estreito e fundo, com um a com binação de galeria de arte e loj a de artesanato no prim eiro andar. Frank Autry quebrou um a vidraça na porta da frente, m eteu a m ão para dentro e destrancou a porta. Entrou e acendeu as luzes.
Fazendo sinal para os outros entrarem , falou: — Espalhem -se. Não fiquem j unto dem ais. Não querem os oferecer um alvo fácil.
Enquanto falava, Frank se lem brava do seu tem po de serviço no Vietnã, há quase vinte anos. Esta operação tinha a qualidade angustiante de um a m issão de busca-e-destruição em território dos guerrilheiros.
Percorreram cautelosam ente o salão de exposição da galeria, m as não acharam ninguém . Tam pouco havia pessoa algum a no pequeno escritório nos fundos do salão. Todavia, um a porta no escritório abria para um a escada que levava ao segundo andar.
Subiram a escada ao estilo m ilitar. Frank subiu sozinho até o alto, arm a na m ão, enquanto os outros esperavam . Localizou o interruptor no alto da escada, acendeu-o e viu que estava no canto da sala de estar do apartam ento do dono da galeria. Quando teve certeza de que a sala estava vazia, fez sinal aos seus hom ens para subirem .
Enquanto os outros subiam a escada, Frank penetrou na sala de estar, sem pre grudado à parede, atento.
Eles revistaram o resto do apartam ento, tratando cada porta com o ponto potencial de em boscada. Tanto o gabinete de leitura quanto a sala de j antar estavam desertos. Não havia ninguém escondido nos arm ários.
No chão da cozinha, contudo, encontraram um hom em m orto.
Ele estava usando apenas calças de pij am a azuis, m antendo aberta a poria da geladeira com o corpo pisado e inchado. Não havia ferim entos visíveis. Não havia expressão de horror no seu rosto. Aparentem ente, m orrera tão de repente que nem pudera ver o seu atacante... e sem o m enor sinal de advertência de que a m orte estivesse próxim a. No chão ao seu redor via-se m aterial para preparar um sanduíche: um vidro partido de m ostarda, um pacote de salam e, um tom ate parcialm ente am assado, um pacote de queij o suíço.
— Não foi doença algum a que o m atou — disse Jake Johnson, enfaticam ente. — Com o é que podia estar doente se ia com er salam e?
— E tudo aconteceu depressa m esm o — falou Gordy. — Ele estava com as m ãos cheias das coisas que tirou da geladeira, e quando se virou... a coisa aconteceu. Bum : sem m ais nem m enos.
Descobriram outro cadáver no quarto. Ela estava na cam a, nua.
Não tinha m enos de vinte anos, nem m ais de quarenta. Era difícil adivinhar a sua idade por causa das pisaduras e do inchaço globais.
Seu rosto estava contorcido de terror, precisam ente com o o de Paul Henderson, Ela havia m orrido no m eio de um grito.
Jake Johnson tirou um a caneta do bolso da cam isa e enfiou-a pelo gatilho de um a autom ática 22 que j azia nos lençóis am assados, ao lado do corpo.
— Não creio que sej a preciso tom ar cuidado com isso — falou Frank. — Ela não foi baleada. Não há nenhum ferim ento; nada de sangue. Se alguém usou a arm a, esse alguém foi ela m esm a. Deixe-m e vê-la.
Ele tirou a autom ática das m ãos de Jake e ej etou o pente.
Estava vazio. Ele m exeu no cursor, apontou a boca da arm a para a m esinha-de-cabeceira e exam inou o cano, não havia bala na câm ara.
Levou a boca da arm a ao nariz, farej ou, sentiu o cheiro de pólvora.
— Foi disparada recentem ente? — perguntou Jake.
— Muito recentem ente. Supondo-se que o pente estivesse cheio quando ela o usou, isso quer dizer que deu dez tiros.
— Olhe isto aqui — dizia Wargle.
Frank se virou e viu que Wargle apontava para um buraco de bala na parede em frente ao pé da cam a; ficava m ais ou m enos na altura de dois m etros.
— E aqui — falou Gordy Brogan, cham ando a sua atenção para outra bala localizada na m adeira lascada da côm oda escura de pinho.
Encontraram todos os dez invólucros de m etal na cam a ou ao redor dela, m as não conseguiram descobrir onde as outras oito balas estavam localizadas.
— Você acha que ela acertou oito vezes? — perguntou Gordy a Frank.
— Besteira, isso seria im possível! — exclam ou Wargle, aj eitando o cinturão nos quadris gordos. — Se tivesse acertado em alguém oito vezes, não seria o único cadáver no quarto, porra.
— Certo — disse Frank, em bora lhe desagradasse ter que concordar com Stu Wargle sobre qualquer coisa. — Além disso, não há sangue. Se tivesse acertado oito vezes, haveria um bocado de sangue.
Wargle foi até o pé da cam a e fitou a m ulher m orta. Ela estava recostada em dois travesseiros fofos, e tinha as pernas abertas num a paródia grotesca de desej o.
— O cara na cozinha devia estar aqui, trepando com essa dona — falou Wargle. — Quando acabou com ela, foi para a cozinha preparar algum a coisa para com erem . Enquanto estavam separados, alguém entrou aqui e a m atou.
— Mataram prim eiro o hom em na cozinha — falou Frank. — Ele não podia ter sido apanhado de surpresa se tivesse sido atacado depois que ela atirou dez vezes.
Wargle falou:
— Cara, eu bem que gostaria de ter passado o dia todo na cam a com um a gata dessas.
Frank olhou para ele, de boca aberta.
— Wargle, você é revoltante. Fica ouriçado até com um cadáver inchado... só porque está nu?
O rosto de Wargle ficou verm elho, e ele afastou os olhos do cadáver.
— Que diabo está havendo com você, Frank? O que acha que sou — algum tarado? Hein? Porra, não. Eu vi aquela foto ali na m esinha-de-cabeceira. — Apontou para um a fotografia em oldurada em prata ao lado do abaj ur. — Está vendo, ela está de biquíni. Dá para se ver que ela era um a gata bonitona. Mam as grandes. Pernas espetaculares. Foi isso que m e ouriçou, m eu chapa.
Frank balançou a cabeça.
— O que m e espanta é que você consiga ficar ouriçado com qualquer coisa no m eio disto, no m eio de tanta m orte.
Wargle achou que aquilo era um elogio. Piscou o olho.
Se eu sair disto aqui com vida, pensou Frank, não vou deixar nunca m ais que Bry ce Ham m ond destaque o Wargle para m eu parceiro.
Prefiro m e dem itir.
Gordy Brogan perguntou:
— Com o é que ela pode ter acertado oito vezes e não ter detido algum a coisa? Com o é que não há um a só gota de sangue?
Jake Johnson voltou a correr a m ão pela cabeleira branca.
— Não sei, Gordy. Mas um a coisa eu sei... gostaria que Bry ce não tivesse m e escolhido para vir para cá.
Ao lado da galeria de arte, o cartaz na frente do prédio pitoresco de dois andares dizia:
BROOKHART'S
________________________________________
CERVEJA — VINHO — BEBIDAS ALCOÓLICAS
FUMO — REVISTAS — JORNAIS — LIVROS
As luzes estavam acesas, e a porta destrancada. O Brookhart's ficava aberto até as nove, m esm o nas noites de dom ingo durante a baixa tem porada.
Bry ce entrou prim eiro, seguido por Jennifer e Lisa Paige. Tal entrou por últim o. Ao escolher um hom em para protegei a sua retaguarda num a situação de perigo, Bry ce sem pre preferia Tal Whitm an. Não confiava em m ais ninguém com o confiava em Tal, nem m esm o em Frank Autry.
Brookhart era um lugar atravancado, m as curiosam ente sim pático e agradável. Havia refrigeradores altos de porta de vidro cheios de latas e garrafas de cervej a, prateleiras, suportes e caixas cheios de garrafas de vinho e bebidas alcoólicas, e outras prateleiras atulhadas de livros, revistas e j ornais. Charutos e cigarros estavam em pilhados em caixas e caixotes, e latas de fum o para cachim bo ficavam expostas em m ontes, ao acaso, sobre diversos balcões. Um a variedade de guloseim as se encaixava em qualquer canto que houvesse espaço: barras de chocolate, dropes, gom a de m ascar, am endoim , pipoca, batatinhas fritas e m ais outros salgadinhos.
Bry ce foi na frente, procurando corpos nos corredores da loj a deserta. Mas não havia nenhum .
Havia, contudo, um a im ensa poça d'água, com cerca de dois centím etros de profundidade, que cobria m etade do chão. Eles a rodearam cuidadosam ente.
— De onde veio essa água toda? — indagou Lisa.
— Deve haver um vazam ento no tanque de condensação debaixo de um dos refrigeradores de cervej a — falou Tal Whitm an.
Passaram por um a caixa de vinho e deram um a boa olhada em todos os refrigeradores. Não havia água algum a nas proxim idades daqueles aparelhos elétricos, que roncavam baixinho.
— Quem sabe é um cano furado — falou Jennifer Paige.
Continuaram a exploração, descendo para a adega, que era usada para a arm azenagem de vinho e outras bebidas em caixotes de papelão, subindo depois para o últim o andar, acim a da loj a, onde havia um escritório. Não encontraram nada de anorm al.
Novam ente dentro da loj a, dirigiram -se para a porta da frente, Bruce parou e se agachou para olhar m ais de perto a poça no chão.
Um edeceu a ponta do dedo no líquido; parecia ser água, e não tinha cheiro.
— O que foi? — perguntou Tal. Novam ente de pé, Bry ce respondeu:
— É estranho... toda esta água aqui.
— Vai ver que é o que a dra. Paige falou... só um cano furado.
Bry ce assentiu. Todavia, em bora não soubesse dizer por que, a poça grande lhe parecia significativa.
A Farm ácia Tay ton era um local pequeno que atendia Snowfield e todas as cidades m ontanhesas vizinhas. Um apartam ento ocupava dois andares acim a da farm ácia; era decorado em tons de crem e e pêssego, com peças de realce verde-esm eralda, e com diversas antiguidades de boa qualidade.
Frank Autry conduziu os seus hom ens por todo o prédio, m as não acharam nada de extraordinário — a não ser o carpete ensopado da sala de visitas. Estava realm ente encharcado; praticam ente chapinharam nele.
A Candleglow Inn positivam ente irradiava encanto e classe: os beirais fundos e as cornij as prim orosam ente entalhadas, as j anelas com m ainel flanqueadas por persianas brancas entalhadas. Duas lâm padas de carruagem afixavam -se em pilastras de pedra, um a de cada lado do curto cam inho de pedra. Três holofotes pequenos espalhavam leques de luz, dram aticam ente, na fachada da estalagem .
Jenny, Lisa, o xerife e o tenente Whitm an pararam na calçada diante da Candleglow, e Ham m ond perguntou: — Estão funcionando nesta época do ano?
— Sim — respondeu Jenny. — Conseguem ter m etade dos quartos ocupados durante a baixa tem porada. Sua reputação é fantástica entre viaj antes exigentes... e têm apenas dezesseis quartos.
— Bem ... vam os dar um a olhada.
As portas da frente davam para um saguão pequeno e confortavelm ente m obiliado: piso de carvalho, tapete oriental escuro, sofás em bege-claro, um par de cadeiras Rainha Anne estofadas num tecido cor-de-rosa, m esinhas laterais de cerej eira, abaj ures de latão.
A m esa da recepção ficava à direita. Havia um a cam painha no balcão de m adeira e Jenny a apertou diversas vezes, rapidam ente, sem esperar resposta, e não obtendo nenhum a.
— Dan e Sy lvia têm um apartam ento por trás do escritório — disse ela, apontando para o escritoriozinho apertado do outro lado do balcão.
— São os donos disto aqui? — indagou o xerife.
— São. Dan e Sy lvia Kanarsky.
O xerife fitou-a por um m om ento.
— Am igos?
— É. Am igos íntim os.
— Então é m elhor não irm os olhar no apartam ento deles.
Com preensão e com paixão brilhavam nos seus olhos azuis de pálpebras pesadas. Jenny ficou surpresa ao se dar conta, repentinam ente, da bondade e inteligência que havia no rosto dele.
Durante esta últim a hora, vendo-o trabalhar, ela aos poucos com eçara a perceber que ele era consideravelm ente m ais alerta e eficiente do que aparentava ser a princípio. Agora, fitando aqueles olhos sensíveis, com passivos, ela se deu conta de que ele era perceptivo, interessante, digno de respeito.
— Não podem os sim plesm ente ir em bora — falou ela. — Este lugar vai ter que ser revistado, m ais cedo ou m ais tarde. A cidade inteira tem que ser revistada. É m elhor nos livrarm os logo desta parte.
Ela levantou um a parte do balcão de m adeira que tinha dobradiças e com eçou a cruzar a portinha para o escritório além dele.
— Por favor, doutora — falou o xerife —, deixe sem pre que um de nós, eu ou o tenente Whitm an, vá na frente.
Ela recuou obedientem ente e ele a precedeu ao entrarem no apartam ento de Dan e Sy lvia, m as não acharam ninguém . Nenhum cadáver.
Graças a Deus.
De volta à recepção, o tenente Whitm an folheou o livro de registros.
— Há som ente seis quartos alugados no m om ento, e ficam todos no segundo andar.
O xerife localizou um a chave m estra num porta-chaves j unto às caixas de correspondência.
Com cautela quase m onótona, eles subiram e revistaram os seis quartos. Nos cinco prim eiros encontraram bagagem , m áquinas fotográficas, postais parcialm ente escritos e outros indícios de que realm ente havia hóspedes na estalagem , m as não encontraram os hóspedes propriam ente ditos.
No sexto quarto, quando o tenente Whitm an tentou abrir a porta do banheiro conj ugado, viu que estava trancada. Bateu com força na porta e gritou:
— Polícia! Tem alguém aí? Ninguém respondeu.
Whitm an olhou para a m açaneta, depois para o xerife.
— Não tem trinco deste lado, então deve ter alguém aí dentro.
Arrom bo a porta?
— Parece m adeira sólida — falou Ham m ond. — Não vale a pena deslocar o seu om bro. Arrebente a fechadura com um tiro.
Jenny pegou o braço de Lisa e puxou a garota para o lado, para fora do cam inho de qualquer lasca que pudesse voar.
O tenente Whitm an gritou um a advertência para quem quer que estivesse no banheiro, depois disparou um único tiro. Abriu a porta com um pontapé e entrou rapidam ente.
— Não tem ninguém aqui.
— Quem sabe saíram pela j anela — disse o xerife.
— Aqui não tem nenhum a j anela — falou Whitm an, franzindo o cenho.
— Tem certeza de que a porta estava trancada?
— Absoluta. E só podia ser trancada por dentro.
— Mas com o... se não havia ninguém aí? Whitm an deu de om bros.
— Além do m ais, tem um a coisa aqui que acho que você deve vir ver.
Todos foram ver, na verdade, pois o banheiro era grande o bastante para acom odar quatro pessoas. No espelho que encim ava a pia, um a m ensagem fora escrita às pressas em letras grandes, pretas, gordurosas: Tim othy Fly te o inim igo antigo.
Noutro apartam ento, em cim a de outra loj a, Frank Autry e seus hom ens encontraram outro carpete ensopado e chapinharam nele tam bém . Na sala de visitas, sala de j antar e quartos, o carpete estava seco, m as no corredor que levava à cozinha estava encharcado. E na própria cozinha, três quartos do piso ladrilhado estavam cobertos de água, com poças que, em alguns lugares, chegavam a ter cerca de dois centím etros de profundidade. Parado no corredor, olhando para a cozinha, Jake Johnson falou:
— Deve ser um cano furado.
— Foi isso que você disse na outra casa — lem brou-lhe Frank.
— Parece m uita coincidência, não acha?
Gordy Brogan com entou:
— É só água. Não sei o que possa ter a ver com ... todos os assassinatos.
— Merda — falou Stu Wargle —, estam os perdendo tem po. Não tem nada aqui. Vam os em bora.
Ignorando-os, Frank entrou na cozinha, pisando com cuidado num a das extrem idades do laguinho, dirigindo-se para um a zona seca perto de um a fileira de arm ários. Abriu diversos arm ários antes de encontrar um pequeno recipiente de plástico usado para guardar sobras de com ida. Estava lim po e seco, e tinha um a tam pa de pressão que o vedava com pletam ente. Num a gaveta encontrou um a colher de m edida, e usou-a para colocar água no recipiente.
— O que está fazendo? — perguntou Jake, parado j unto à porta.
— Coletando um a am ostra.
— Am ostra? Por quê? Não passa de água.
— É — replicou Frank. — Mas há algum a coisa de esquisito nela.
O banheiro. O espelho. As letras grandes, pretas, gordurosas.
Jenny fitou as cinco palavras em letras de fôrm a.
— Quem é Tim othy Fly te? — perguntou Lisa.
— Pode ser o cara que escreveu isto — respondeu o tenente Whitm an.
— O quarto está alugado a Fly te? — perguntou o xerife.
— Tenho certeza de que não vi o nom e dele no livro de registro — disse o tenente. — Podem os verificar quando descerm os, m as tenho absoluta certeza.
— Talvez Tim othy Fly te sej a um dos assassinos — falou Lisa. — Provavelm ente o suj eito que alugou este quarto reconheceu-o e deixou esta m ensagem .
O xerife balançou a cabeça.
— Não. Se Fly te tem algum a coisa a ver com o que aconteceu nesta cidade, não deixaria o nom e no espelho deste j eito. Trataria de apagá-lo.
— A não ser que não soubesse que estava ali — falou Jenny.
— Ou talvez soubesse que estava ali, m as, sendo um daqueles m aníacos raivosos de que a senhora falou, não se im portasse com o fato de ser ou não apanhado — disse o tenente.
Bry ce Ham m ond olhou para Jenny.
— Há alguém na cidade cham ado Fly te?
— Não que eu saiba.
— Conhece todo m undo em Snowfield?
— Conheço.
— Todos os quinhentos habitantes?
— Praticam ente todo m undo — retrucou ela.
— Praticam ente todo m undo, não é? Então poderia haver um Tim othy Fly te aqui?
— Mesm o que não o conhecesse pessoalm ente, ainda assim teria ouvido alguém falar nele. É um a cidade pequena, xerife, pelo m enos durante a baixa tem porada.
— Poderia ser alguém de Mount Larson, Shady Roost ou Pineville — sugeriu o tenente.
Ela desej ou que eles pudessem passar a outro lugar para discutir a m ensagem no espelho. Do lado de fora. Ao ar livre. Onde nada pudesse se esgueirar na direção deles sem se revelar. Tinha a sensação fantástica, sem base, m as inegável, de que algum a coisa — algum a coisa m uito estranha — estava se m ovim entando noutra parte da estalagem neste exato m inuto, cum prindo sorrateiram ente algum a tarefa pavorosa que ela, o xerife, Lisa e o delegado ignoravam , para m al deles.
— E quanto à segunda parte da m ensagem ? — indagou Lisa, apontando para o INIMIGO ANTIGO.
— Bem , voltam os ao que Lisa falou prim eiro — disse Jenny, finalm ente. — Parece que o hom em que escreveu isto estava nos dizendo que Tim othy Fly te era seu inim igo. Nosso tam bém , acho eu.
— Talvez — retrucou Bry ce Ham m ond, com ar de dúvida. — Mas parece um j eito estranho de colocar a coisa — "o inim igo antigo".
Meio esquisito, quase arcaico. Se ele se trancou no banheiro para fugir de Fly te e depois escreveu um a advertência apressada, não teria dito "Tim othy Fly te, m eu velho inim igo", ou outra coisa m ais direta? O
tenente Whitm an concordou.
— Na verdade, se ele quisesse deixar um a m ensagem acusando Fly te, teria escrito "Foi Tim othy Fly te", ou talvez "Tim othy Fly te m atou todos eles". A últim a coisa que ele ia querer era ser obscuro.
O xerife com eçou a m exer nos artigos na prateleira funda que ficava acim a da pia, logo abaixo do espelho: um frasco de crem e para a pele, loção pós-barba com cheiro de lim ão, um barbeador elétrico de hom em , um par de escovas de dentes, pasta de dente, pentes, escovas de cabelo, um estoj o de m aquiagem para m ulher.
— Ao que parece, havia duas pessoas neste quarto. Adm itindo-se que elas se trancaram no banheiro, então duas pessoas desapareceram com o que por encanto. Mas com que escreveram no espelho?
— Parece que foi com lápis de sobrancelha — falou Lisa.
— Eu tam bém acho — concordou Jenny.
Revistaram o banheiro procurando um lápis de sobrancelha preto. Não conseguiram achá-lo.
— Form idável — falou o xerife, exasperado. — Quer dizer que o lápis de sobrancelha sum iu, j untam ente com duas pessoas que se trancaram aqui. Duas pessoas raptadas de um quarto trancado.
Desceram e foram até a recepção. Segundo o registro dos hóspedes, o quarto em que a m ensagem fora encontrada era ocupado pelo sr. e sra. Harold Ordnay, de São Francisco.
— Nenhum dos outros hóspedes se cham a Tim othy Fly te — disse o xerife Ham m ond, fechando o livro de registro.
— Bem — falou o tenente Whitm an —, acho que é só o que podem os fazer por aqui, no m om ento.
Jenny ficou aliviada ao ouvi-lo dizer aquilo.
— Está bem — concordou Bry ce Ham m ond. — Vam os nos encontrar com Frank e os outros. Talvez eles tenham achado algo que nós não acham os.
Com eçaram a cruzar o saguão. Depois de darem dois passos, Lisa os deteve com um grito.
Todos a viram um segundo depois que cham ou a atenção da garota. Estava num a m esinha lateral, diretam ente no facho de luz de um abaj ur de cúpula cor-de-rosa, tão lindam ente ilum inada que quase parecia um obj eto de arte em exposição. Um a m ão de hom em . Um a m ão cortada.
Lisa desviou o olhar da visão m acabra.
Jenny abraçou a irm ã, olhando por sobre o om bro de Lisa com um a fascinação apavorada. A m ão. A m ão m aldita, zom beteira, im possível.
Segurava com firm eza um lápis de sobrancelha entre o polegar e os dois prim eiros dedos. O lápis de sobrancelha. O m esm o. Tinha que ser.
O horror de Jenny foi tão grande quanto o de Lisa, m as ela m ordeu o lábio e conteve um grito. Não foi m eram ente a visão da m ão que a enj oou e aterrorizou. O que a fez prender a respiração até o peito arder foi o fato de que a m ão não estava naquela m esinha lateral m om entos atrás. Alguém a colocara ali enquanto eles estavam lá em cim a, sabendo que a encontrariam . Alguém estava debochando deles, alguém com um senso de hum or extrem am ente pervertido.
Os olhos encobertos de Bry ce Ham m ond estavam abertos com o Jenny j am ais os vira.
— Droga, m as esta coisa não estava aqui antes, estava?
— Não — respondeu Jenny.
O xerife e o delegado estavam carregando as arm as com a boca apontada para o chão. Agora, ergueram os revólveres com o se pensassem que a m ão cortada poderia largar o lápis de sobrancelha, saltar da m esa, j ogar-se sobre o rosto de alguém e arrancar-lhe fora os olhos.
Ficaram sem fala.
Os desenhos em espiral do tapete oriental pareciam ter-se transform ado em serpentinas de refrigeração, lançando ondas de ar gelado.
Lá em cim a, num quarto distante, um a tábua de chão ou um a porta sem lubrificação rangeu, gem eu, rangeu.
Bry ce Ham m ond ergueu os olhos para o teto do saguão.
Crrrééééc.
Podia ser apenas um barulho natural de acom odação. Ou podia ser outra coisa.
— Agora não há m ais dúvida — disse o xerife.
— Sobre quê? — perguntou o tenente Whitm an, olhando não para o xerife, m as para as outras entradas que davam para o saguão.
O xerife se voltou para Jenny.
— A senhora disse que, ao ouvir a sirene e o sino da igrej a, pouco antes de chegarm os, teve a consciência de que o que quer que tivesse acontecido a Snowfield ainda poderia estar acontecendo.
— Foi.
— Agora sabem os que tinha razão.