Fantasmas
Capítulo 25
Perguntas
O cabo Billy Velazquez, um dos m em bros da tropa de apoio do general Copperfield, desceu pela abertura que levava ao escoadouro.
Em bora não tivesse feito esforço algum , estava respirando com dificuldade. Porque estava com m edo.
O que acontecera ao sargento Harker?
Os outros tinham voltado, com ar apalerm ado. O velho Copperfield dissera que Harker estava m orto. Dissera que não tinham certeza do que m atara o sarj a, m as que pretendiam descobrir. Cara, isso era papo furado. Eles deviam saber o que o tinha m atado.
Sim plesm ente não queriam contar. Isso era típico dos figurões, fazer segredo de tudo.
A escada descia por um pedaço curto de cano vertical, depois entrava no cano de escoam ento principal e horizontal. Billy chegou ao fundo. As suas botas em itiram ruídos duros, secos, ao atingirem o chão de concreto.
O túnel não tinha altura suficiente para perm itir que ele ficasse ereto. Agachou-se ligeiram ente e correu o facho da lanterna elétrica ao seu redor.
Paredes de concreto cinzentas. Tubos das com panhias telefônica e de força. Algum a um idade. Alguns fungos aqui e ali. Nada m ais.
Billy se afastou da escada quando Ron Peake, outro m em bro do grupo de apoio, desceu até o escoadouro.
Por que ao m enos não tinham trazido com eles o corpo de Harker, quando retornaram do Mercado Gilm artin?
Billy ficava m ovendo a lanterna à sua volta e olhando nervosam ente por cim a do om bro.
Por que o velho cu-de-ferro Copperfield ficava enfatizando a necessidade de serem atentos e cuidadosos aqui em baixo?
Senhor, o que é que devem os procurar? — perguntara Billy.
Copperfield dissera:
Qualquer coisa. Tudo. Não sei se há perigo ou não. E m esm o que haj a, não sei exatam ente o que m andar vocês procurarem . Sej am apenas trem endam ente cuidadosos. E se qualquer coisa se m exer lá em baixo, não im porta o quanto pareça inocente, m esm o que sej a só um cam undongo, sebo nas canelas, dêem o fora de lá im ediatam ente.
Ora, que porra de resposta era aquela?
Jesus.
Ele estava todo arrepiado.
Billy gostaria de ter podido ter um a conversinha com Pascalli ou Fodor. Eles não eram nenhum m aldito figurão. Eles lhe contariam toda a história sobre Harker — se tivesse a chance de lhes perguntar.
Ron Peake chegou ao pé da escada. Olhou ansiosam ente para Billy.
Velazquez dirigiu o facho da lanterna para todos os cantos, para m ostrar ao outro hom em que não havia o que tem er.
Ron ligou a sua própria lanterna e sorriu constrangido, sem j eito por ter ficado tão nervoso.
Os hom ens lá em cim a com eçaram a enfiar um cabo de força através do orifício de entrada. O cabo provinha de dois laboratórios m óveis que estavam estacionados a poucos m etros da entrada do escoadouro.
Ron pegou a extrem idade do cabo, e Billy, arrastando-se, m eio agachado, foi abrindo cam inho para o leste. Na rua lá em cim a, os hom ens soltaram m ais cabo para dentro do escoadouro.
Este túnel devia cortar um conduto igualm ente grande ou ainda m aior sob a rua principal, a Sky line Road. Naquele ponto devia haver um a caixa de ligações elétricas da com panhia de força, onde diversos fios da rede elétrica da cidade se uniam . Enquanto seguia com toda a cautela que Copperfield sugerira, Hilly j ogava o facho da lanterna sobre as paredes do túnel, procurando o em blem a da com panhia de força.
A caixa de ligações elétricas estava à esquerda, a cerca de dois m etros do cruzam ento dos dois condutos, do lado de quem vinha. Billy passou por ela, foi até o cano da Sky line Road, debruçou-se na passagem , apontou a sua luz para a direita e para a esquerda, certificando-se de que não havia nada à espreita. O cano da Sky line Road era do m esm o tam anho daquele em que ele se encontrava, m as seguia a inclinação da rua que o encim ava, caindo m ontanha abaixo.
Não havia nada à vista.
Olhando para baixo, para o túnel que sum ia de vista, Billy Velazquez lem brou-se de um a história em quadrinhos que lera há m uitos anos num a revista de terror. Não se lem brava do título. A história era sobre um ladrão de bancos que m atara duas pessoas durante um assalto e depois, fugindo da polícia, penetrara no sistem a de escoam ento da cidade. O bandido entrara por um túnel que se inclinava para baixo, achando que o levaria ao rio, m as ele o levara, em vez disso, ao Inferno. Era isso o que o cano da Sky line Road parecia, descendo, descendo, descendo: um cam inho para o Inferno.
Billy virou-se para olhar m ontanha acim a, im aginando se aquele se pareceria com um cam inho para o Céu. Mas parecia a m esm a coisa, de um lado ou de outro. Para cim a ou para baixo, parecia um cam inho para o Inferno.
O que acontecera ao sargento Harker?
Será que a m esm a coisa aconteceria a todos, m ais cedo ou m ais tarde?
Até m esm o a William Luis Velazquez, que sem pre tivera tanta certeza (até agora) de que viveria para sem pre?
Ficou com a boca seca, de repente.
Virou a cabeça, dentro do capacete, e levou os lábios ressecados ao bico do seu tubo nutriente. Sugou, trazendo para a boca um fluido doce, fresco, cheio de carboidratos, rico em vitam inas e m inerais. O que ele queria era um a cervej a. Mas até que pudesse sair deste m acacão, a solução nutriente era a única coisa disponível. Carregava consigo um suprim ento para 48 horas — se não tom asse m ais de sessenta gram as por hora.
Afastando-se do cam inho para o Inferno, dirigiu-se à caixa de ligações elétricas. Ron Peake j á estava trabalhando. Movendo-se com eficiência, apesar dos traj es de descontam inação volum osos e do pouco espaço, eles fizeram a ligação do cabo deles com o suprim ento de força.
A unidade trouxera o seu próprio gerador, m as ele seria usado som ente se a energia elétrica m unicipal se perdesse.
Dentro de alguns m inutos, Velazquez e Peake tinham term inado.
Billy usou o seu rádio de m acacão-a-m acacão para ligar para a superfície.
— General, j á fizem os a ligação. Já devem ter energia agora, senhor. A resposta veio prontam ente: — Já lem os. Agora tratem de se arrancar daí, e bem rápido.
— Sim , senhor — respondeu Billy. Então ele escutou... algum a coisa.
Sussurrando.
Arfando.
Ron Peake agarrou o om bro de Billy. Apontou. Para além dele.
Para o cano do escoam ento da Sky line.
Billy deu m eia-volta, agachou-se ainda m ais e j ogou o facho da sua lanterna para o cruzam ento que a lanterna de Peake estava focalizando.
Anim ais vinham descendo o túnel da Sky line Road. Dúzias e dúzias deles.
Cães.
Brancos, cinzentos, pretos, castanhos, averm elhados e dourados, cães de todo tam anho e feitio; a m aioria era vira-lata, m as tam bém havia beagles, poodles m iniatura, poodles de tam anho norm al, pastores alem ães, spaniels, dois dinam arqueses, alguns airedales, um schnuzer, um par de doberm ans pretos retintos com o focinho adornado de m arrom . E havia gatos tam bém . Grandes e pequenos. Gatos m agros e gatos gordos. Gatos pretos, m alhados, brancos, am arelos, pintados, castanhos, listrados e cinzentos. Nenhum dos cães latia ou rosnava. Nenhum dos gatos m iava ou ronronava. Os únicos sons eram o seu arfar e o pisar e o raspar m acios das suas patas no concreto. Os anim ais derram avam -se cano abaixo com um a intensidade curiosa, todos olhando direto para a frente, nenhum deles sequer lançando um olhar ao cano do cruzam ento, onde se encontravam Billy e Ron Peake.
— O que estão fazendo aqui? — indagou Billy. — Com o chegaram aqui?
Da rua lá em cim a, Copperfield perguntou pelo rádio: — O que está havendo?
Velazquez?
Billy estava tão estupefato com a procissão de anim ais que não respondeu im ediatam ente.
Outros anim ais com eçaram a aparecer, m isturados aos cães e gatos. Esquilos, Coelhos. Um a raposa cinzenta. Guaxinins. Mais raposas e m ais esquilos. Cangam bás. Todos eles olhando direto para a frente, indiferentes a tudo, exceto à necessidade de continuar em m ovim ento. Gam bás e texugos. Cam undongos e tâm ias. Coiotes. Todos descendo o cam inho que levava ao Inferno, m isturando-se uns com os outros, por cim a e por baixo e ao redor, sem contudo j am ais tropeçar ou hesitar ou tentar atacar uns aos outros. O estranho desfile era tão veloz, contínuo e harm onioso quanto a água corrente.
— Velazquez! Peake! Com uniquem -se: — Anim ais — disse Billy para o general. — Cães, gatos, guaxinins, bichos de todo tipo. Um rio deles.
— Senhor, eles estão correndo pelo túnel da Sky line abaixo, logo além da boca deste cano — falou Peake.
— Em baixo da terra — disse Billy, perplexo. — É um a loucura.
— Batam em retirada, porra — explodiu Copperfield, ansiosam ente. — Saiam daí agora. Agora!
Billy lem brou-se da advertência do general, feita pouco antes de terem cruzado o orifício de entrada: Se qualquer coisa se m exer lá em baixo... m esm o que sej a só um cam undongo, sebo nas canelas, dêem o fora de lá im ediatam ente.
Inicialm ente, o desfile subterrâneo de anim ais fora surpreendente, m as não especialm ente assustador. Agora, a procissão bizarra ficou subitam ente sinistra, até am eaçadora.
E agora havia cobras no m eio dos anim ais. Dezenas delas.
Longas cobras negras, do tipo não venenosa, deslizando rapidam ente, as cabeças erguidas uns trinta ou sessenta centím etros acim a do chão do escoadouro, ali havia as cascavéis, as cabeças planas e m alévolas erguidas tam bém , em bora m ais baixo do que as das cobras negras m ais com pridas, porém m ovendo-se com igual rapidez e sinuosidade, dirigindo-se todas com um propósito m isterioso para um destino som brio e igualm ente m isterioso.
Em bora as cobras não tivessem dado a Velazquez e Peake nem m ais um pouco de atenção do que os cães e gatos, a sua chegada deslizante foi o bastante para tirar Billy do seu transe. Ele odiava cobras. Virou-se para o cam inho por onde viera e cutucou Peake.
— Ande; Ande logo. Saia daqui. Corra!
Algo guinchou-gritou-rugiu.
O coração de Billy com eçou a bater ferozm ente.
O som vinha do escoadouro da Sky line, lá do cam inho para o Inferno. Billy não teve coragem de olhar para trás.
Não era um grito hum ano, nem era um som anim al, no entanto, inquestionavelm ente, era o grito de um a coisa viva. Não havia com o se enganar quanto às em oções selvagens daquele berro estranho, de gelar o sangue. Não era um grito de m edo ou de dor. Era um a explosão de fúria, ódio, e de um a fom e de sangue febril.
Felizm ente, aquele rugido m alévolo não vinha de perto, vinha m ais do alto da m ontanha, da direção da extrem idade superior do conduto da Sky line. A fera — fosse lá em nom e de Deus o que fosse — pelo m enos ainda não estava bem perto deles. Mas se aproxim ava rapidam ente.
Ron Peake voltou rapidam ente para j unto da escada, e Billy foi atrás. Os traj es de descontam inação volum osos dificultavam seus m ovim entos, o chão curvo do cano atrasava o seu progresso, e eles corriam arrastando os pés e sacolej ando. Em bora não tivessem um a grande distância a percorrer, progrediam de m aneira irritantem ente lenta.
A coisa no túnel gritou de novo.
Mais perto.
Era um ganido e um rosnar e um uivo e um rugido e um guincho petulante, tudo a um só tem po, um som de aram e farpado que furava os ouvidos de Billy e raspava cravos grandes e frios de m etal sobre o seu coração.
Mais perto.
Se Billy Velazquez fosse um nazareno tem ente a Deus ou um cristão fundam entalista de bater no peito, sem pre agarrado à Bíblia e falando nos castigos do Inferno, teria sabido qual a fera que poderia em itir um grito daqueles. Se tivesse aprendido que o Maligno e Seus servos andam pela terra em carne e osso, buscando alm as incautas para devorar, teria identificado prontam ente esta fera. Teria dito "É Satanás". O rugido que ecoava pelos túneis de concreto era verdadeiram ente terrível a este ponto.
E m ais perto.
Aproxim ando-se.
Rapidam ente.
Mas Billy era um católico. O catolicism o m oderno tende a m inim izar as histórias das covas-cheias-de-enxofre-do-Inferno e, em troca, enfatizar a grande m isericórdia e infinita com paixão de Deus. Os protestantes fundam entalistas extrem istas enxergavam a m ão do Dem ônio em tudo, desde program as de televisão até os rom ances de Judy Blum e, passando pelos sutiãs de arm ação para erguer bem os seios. Mas o catolicism o optava por um tom m ais discreto, m ais leve. A Igrej a de Rom a agora dava ao m undo coisas tais com o as noviças cantoras, Bingo das Quartas à Noite, e padres com o Andrew Greeley.
Portanto, Billy Velazquez, criado com o católico, não associou im ediatam ente as forças satânicas sobrenaturais com o grito apavorante desta fera desconhecida — m uito em bora tivesse se lem brado tão sinistram ente daquela velha história em quadrinhos do cam inho-para-o-Inferno. Billy só sabia que a criatura aos berros que se aproxim ava pelas entranhas da terra era um a coisa ruim . Um a coisa m uito ruim .
E estava chegando perto. Muito m ais perto.
Ron Peake chegou à escada, com eçou a subir, deixou cair a sua lanterna, não se deu ao trabalho de voltar para pegá-la. Peake estava indo m uito devagar, e Billy gritou para ele: — Depressa, porra!
O grito da fera desconhecida tornara-se um a ululação sinistra que preenchia os canos de escoam ento subterrâneos tão com pletam ente quanto as águas de um a enchente. Billy nem m esm o conseguia escutar os seus próprios gritos.
Peake j á estava na m etade da escada.
Havia quase espaço suficiente para Billy se colocar debaixo dele e com eçar a subir. Ele botou um a das m ãos na escada.
O pé de Ron Peake escorregou. Ele caiu para o degrau abaixo.
Billy praguej ou e tirou a m ão do cam inho.
A gritaria estava cada vez m ais alta.
Mais perto, m ais perto.
A lanterna de Peake estava apontando na direção do escoadouro da Sky line, m as Billy não olhou para trás. Olhava som ente para cim a, para a luz do sol. Se olhasse para trás e visse um a coisa pavorosa, as suas forças falhariam , e ele não conseguiria se m exer, e a coisa o pegaria, por Deus que o pegaria.
Peake voltou a subir. Desta feita, seus pés perm aneceram nos degraus.
O cano de concreto estava transm itindo vibrações trovej antes que Billy podia sentir através das solas de suas botas. As vibrações eram com o passos pesados, desaj eitados, e no entanto velozes com o um raio.
Não olhe, não olhe!
Billy agarrou os lados da escada e foi subindo com a rapidez que o progresso do Peake lhe perm itia. Um degrau. Dois. Três.
Acim a dele, Peake atravessou o orifício e saiu para a rua.
Com Peake fora do cam inho, um j ato de luz do sol de outono caiu sobre Billy Velazquez, e havia algo nele que era com o a luz penetrando por um a j anela de igrej a — talvez porque representasse a esperança.
Estava na m etade da escada.
Vou chegar lá, vou chegar lá, sem dúvida que vou chegar lá, disse a si m esm o, sem fôlego.
Mas os gritos e os uivos, Jesus, era com o estar no centro de um ciclone!
Mais um degrau.
E m ais outro.
O traj e de descontam inação parecia m ais pesado do que j á parecera antes. Um a tonelada. Um a arm adura. Atrasando o seu progresso.
Estava agora no cano vertical, saindo do cano horizontal que corria por baixo da rua. Olhou ansioso para a luz e os rostos que espiavam a sua subida, e continuou firm e.
Vou chegar lá.
A sua cabeça passou pelo orifício de entrada.
Alguém estendeu a m ão. Era Copperfield em pessoa.
Atrás de Billy, os gritos tinham cessado.
Ele subiu m ais um degrau, soltou um a das m ãos da escada e estendeu-a para o general...
...m as algo agarrou as suas pernas por baixo antes que ele pudesse segurar a m ão de Copperfield.
— Não!
Algo o agarrou, soltou os seus pés da escada e o arrancou dali.
Gritando — estranham ente, ele se ouviu gritando pela m ãe —, Billy caiu, batendo com o capacete contra a parede do cano e depois contra um degrau da escada, atordoando-se, m achucando os cotovelos e j oelhos, tentando desesperadam ente agarrar-se a um degrau, sem conseguir, finalm ente desabando no abraço daquela coisa execrável que com eçou a arrastá-lo na direção do conduto da Sky line, puxando-o pelas costas.
Ele se retorceu, chutou, esm urrou, m as em vão. Estava seguro com firm eza e era arrastado cada vez m ais para as profundezas do escoadouro.
No fiapo de luz que vinha do orifício de entrada, depois no facho de luz cada vez m ais fraco da lanterna abandonada de Peake, Billy viu um pouco da coisa que o m antinha preso. Não m uito. Fragm entos que saíam das som bras, depois sum iam de novo na escuridão. Viu o suficiente para que se lhe soltassem os intestinos e a bexiga. Era com o um lagarto. Mas não era um lagarto. Com o um inseto. Mas não era um inseto. Sibilava e vagia e rosnava. Mordia e rasgava o seu m acacão enquanto o arrastava. Tinha m andíbulas cavernosas e dentes. Jesus, Maria e José — os dentes! Um a fila dupla de espigões afiados com o navalhas. Tinha garras e era im enso, e os olhos eram de um verm elho esfum açado com pupilas alongadas negras com o o fundo de um a sepultura. Tinha escam as em vez de pele e dois chifres, saindo da testa acim a dos olhos m alignos, curvando-se para fora e para cim a, com a ponta fina com o a de um punhal. Um focinho, em vez de um nariz, um focinho que vertia ranho. Um a língua bipartida que ficava entrando e saindo e entrando e saindo no m eio de todas aquelas presas m ortais, e algo que parecia o ferrão de um a vespa, ou quem sabe um a quela.
A coisa arrastou Billy Velazquez para dentro do conduto da Sky line. Ele raspava o concreto, buscando desesperadam ente algo em que se agarrar, m as conseguia apenas desgastar os dedos e palm as de suas luvas. Sentiu o ar subterrâneo fresco nas m ãos e se deu conta de que agora podia estar contam inado, m as aquilo era o m ínim o com que se devia preocupar.
A coisa o arrastou para dentro do coração pulsante da escuridão. Parou, apertou-o com força. Rasgou o seu m acacão. Rachou-lhe o capacete. Com eçou a retirar o visor de plexiglas. Parecia encará-lo com o a um a noz deliciosa dentro de um a casca dura.
Ele m al estava conseguindo m anter a sanidade, m as se esforçava para não se descontrolar com pletam ente, para tentar com preender. A princípio, pareceu-lhe que aquilo era um a criatura pré-histórica, algo com um m ilhão de anos de idade, que, de algum a form a, por algum a deform ação no tem po, viera cair nos escoadouros. Mas isso era um a loucura. Ele sentiu que ia soltar um a risadinha cristalina, estridente, lunática, e soube que estaria perdido se se perm itisse soltá-
la. O m onstro j á arrancara a m aior parte do seu traj e de descontam inação. Estava em contato com ele agora, pressionando com força, um a coisa fria e repulsivam ente escorregadia que parecia pulsar e, de algum a form a, se m odificar ao tocá-lo. Billy, arfando e chorando, lem brou-se de repente de um a ilustração de um antigo catecism o. O desenho de um dem ônio. Era isso que isto era. Com o o desenho. É, exatam ente com o ele. Os chifres. A língua escura e bipartida. Os olhos verm elhos. Um dem ônio saído do Inferno. E então ele pensou: Não, não, isso tam bém é loucura! E durante todo o tem po em que aqueles pensam entos fervilhavam na sua cabeça, a criatura esfaim ada o despia e praticam ente abria em dois o seu capacete. Na escuridão total, ele sentiu o focinho dela pressionando por entre as m etades do capacete quebrado, na direção do seu rosto, farej ando. Sentiu-lhe a língua adej ando de encontro à sua boca e seu nariz. Sentiu um cheiro vago m as repelente, com o j am ais sentira antes. A fera cutucava a barriga e as coxas dele, e então ele sentiu um fogo estranho e brutalm ente doloroso penetrando suas carnes: o fogo do ácido. Ele se retorceu, se contorceu, corcoveou, se debateu — tudo em vão. Billy ouviu a própria voz gritando de terror, dor e confusão.
— É o Diabo, é o Diabo?
Deu-se conta de que estivera berrando e gritando coisas quase continuam ente desde o m om ento em que fora arrancado da escada.
Agora, sem conseguir m ais falar, enquanto o fogo sem cham as transform ava-lhe os pulm ões em cinzas e se revolvia na sua garganta, ele orou num cantochão silencioso, para afastar o m edo, a m orte e a terrível sensação de pequenez e inutilidade que o acom etera: Maria, Mãe de Deus, ouve a m inha súplica... ouve a m inha súplica, Maria, ora por m im ... ora, ora por m im , Maria, Mãe de Deus, Maria, intercede por m im e...
A sua pergunta fora respondida.
Ele sabia o que tinha acontecido ao sargento Harker.
Galen Copperfield era um hom em de vida ao ar livre, e sabia m uita coisa a respeito dos anim ais selvagens da Am érica do Norte. Um a das criaturas que achava m ais interessantes era a aranha de alçapão.
Ela era um a engenheira esperta, construía um ninho profundo e tubular no chão, com um a tam pa articulada. A tam pa se harm onizava tão perfeitam ente com o solo na qual se encontrava que os outros insetos cam inhavam por cim a dela, inconscientes do perigo lá em baixo, e eram instantaneam ente sequestrados para dentro do ninho, arrastados lá para baixo e devorados. A rapidez com que a coisa acontecia era apavorante e fascinante. Num instante a presa ali estava, parada em cim a do alçapão, e no instante seguinte desaparecera, com o se nunca tivesse existido.
O desaparecim ento do cabo Velazquez foi tão súbito com o se ele tivesse pisado na tam pa da toca de um a aranha de alçapão.
Sum iu.
Os hom ens de Copperfield j á estavam nervosos com o desaparecim ento de Harker e assustados com os uivos de pesadelo que tinham cessado pouco antes de Velazquez ser arrastado para baixo.
Quando o cabo foi levado, todos eles recuaram , aos tropeções, tem endo que algo fosse sair de dentro da abertura.
Copperfield, no ato de estender a m ão para Velazquez quando ele foi apanhado, deu um salto para trás. Depois ficou im óvel. Indeciso. Ele não era assim . Jam ais fora indeciso num a crise.
Velasquez gritava pelo rádio de m acacão-a-m acacão. Rom pendo o gelo que im obilizava as suas j untas, Copperfield dirigiu-se à abertura e olhou para baixo. A lanterna elétrica de Peake j azia no chão do cano.
Porém não havia m ais nada. Nem sinal de Velazquez.
Copperfield hesitou.
O cabo continuava a berrar.
Mandar outros hom ens atrás do pobre filho da m ãe.
Não. Seria um a m issão suicida. Lem bre-se de Harker. Reduzir as perdas, aqui e agora.
Porém , santo Deus, os gritos eram terríveis. Não tão pavorosos quanto os de Harker. Aqueles tinham sido gritos de dor cruciante. Estes eram gritos de terror m ortal. Não tão ruins, talvez, porém bastante ruins. Tão ruins quanto qualquer coisa que Copperfield tivesse ouvido no cam po de batalha.
Havia palavras em m eio aos gritos, cuspidas em arquej os explosivos. O cabo estava fazendo um a tentativa desesperada, balbuciante, de explicar aos que estavam lá em cim a — e quem sabe a si m esm o — exatam ente o que estava vendo.
— ...lagarto...
— ...inseto...
— ...dragão...
— ...pré-histórico... .— ...dem ônio...
E finalm ente, com dor física e angústia da alm a na voz, o cabo exclam ou: — É o Diabo, é o Diabo!
Depois disso, os gritos foram tão pavorosos quanto os de Harker.
Pelo m enos, estes duraram m enos tem po.
Quando reinou apenas o silêncio, Copperfield recolocou a tam pa da abertura no lugar. Por causa do cabo de força, a tam pa de m etal não se encaixava corretam ente e ficou inclinada num dos cantos, m as cobria a m aior parte do buraco.
Ele colocou dois hom ens na calçada, a três m etros da entrada do escoadouro, e ordenou-lhes que atirassem em qualquer coisa que saísse dali.
Com o um a arm a de nada servira para Harker, Copperfield e m ais alguns outros hom ens reuniram tudo de que precisavam para fabricar coquetéis Molotov. Pegaram duas dúzias de garrafas de vinho da loj a de bebidas Brookhart, na Vail Lane, esvaziaram -nas, colocaram sabão em pó no fundo de cada um a, encheram -nas com gasolina e enrolaram m echas de trapos nos gargalos, até que elas estivessem bem arrolhadas.
Será que o fogo obteria êxito onde as balas tinham falhado?
O que acontecera a Harker?
O que acontecera a Velazquez?
O que acontecerá com igo, questionou-se Copperfield.
O prim eiro dos dois laboratórios de cam po m óveis tinha custado m ais de três m il dólares, e fazia j us a cada centavo que o Departam ento da Defesa gastara com ele.
O laboratório era um a m aravilha de m icrom iniaturização tecnológica. Por exem plo, o seu com putador — baseado num trio de m ódulos principais do m icro Intel 432; 690.000 transistores concentrados sobre apenas nove chips de silício — não ocupava m ais espaço do que um par de m alas, no entanto era um sistem a altam ente sofisticado, capaz de com plexas análises m édicas. Na verdade, era um sistem a m ais elaborado (com m aior lógica e capacidade de m em ória) do que os que podiam ser encontrados na m aioria dos laboratórios de patologia dos grandes hospitais universitários.
Havia um a grande quantidade de equipam ento para diagnóstico no m otor hom e, todo proj etado e posicionado para a utilização m áxim a do espaço lim itado. Além de um par de term inais de acesso ao com putador num a das paredes, havia vários dispositivos e m áquinas; um a centrífuga a ser usada para separar os principais com ponentes do sangue, da urina e outras am ostras fluidas; um espectrofotôm etro; um espectrógrafo; um m icroscópio de elétron com a leitura conectada a um a das telas do com putador, dando um a im agem interpretada e am pliada; um aparelho com pacto que congelava am ostras de sangue e tecido para arm azenagem e para uso em testes nos quais as extrações de elem entos fossem realizadas m ais facilm ente em m ateriais congelados; e m uito, m uito m ais.
Mais para a frente do veículo, por trás do com partim ento do m otorista, ficava um a m esa para autópsias que entrava para dentro da parede quando não estava em uso. No m om ento, a m esa estava abaixada, e o corpo de Gary Wechlas — sexo m asculino, 37 anos, caucasiano — j azia sobre a superfície de aço inoxidável. As calças azuis do pij am a tinham sido cortadas a tesoura, retiradas do corpo e postas de lado para exam e posterior.
O dr. Seth Goldstein, um dos três principais especialistas em m edicina legal da Costa Oeste, realizaria a autópsia. Ele estava parado num dos lados da m esa com o dr. Dary l Roberts, e o general Copperfield estava do outro lado, de frente para eles, com o cadáver a separá-los.
Goldstein apertou um botão num painel de controle engastado na parede à sua direita. Seria feita um a gravação de cada palavra dita durante a autópsia; este era o procedim ento norm al, m esm o em autópsias com uns. Um a gravação visual tam bém estava sendo feita: duas câm eras de videoteipe m ontadas no teto focalizavam o cadáver; elas tam bém foram acionadas quando o dr. Goldstein apertou o botão no painel da parede.
Goldstein com eçou pelo exam e atento e pela descrição do cadáver: a expressão facial fora do com um , as m achucaduras universais, o inchaço curioso. Ele estava procurando, especificam ente, perfurações, abrasões, contusões localizadas, cortes, lesões, bolhas, fraturas e outras indicações de pontos específicos de ferim ento. Não encontrou nenhum .
Com a m ão enluvada pairando sobre a bandej a de instrum entos, Goldstein hesitou, sem saber ao certo por onde com eçar. Geralm ente, no com eço de um a autópsia, ele j á tinha um a ideia bem definida da causa da m orte. Quando o autopsiado m orrera de doença, Goldstein em geral j á vira o relatório do hospital. Se a m orte resultará de acidente, havia traum as visíveis. Se fosse m orte causada por outrem , havia sinais de violência. Neste caso, porém , as condições do cadáver levantavam m ais perguntas do que as respondiam , perguntas estranhas com o ele j am ais encontrara antes.
Com o que lendo os pensam entos de Goldstein, Copperfield falou: — Tem que encontrar algum as respostas para nós, doutor.
Nossas vidas provavelm ente dependem disso.
O segundo m otor hom e tinha m uitas das m esm as m áquinas e instrum entos de diagnóstico que havia no veículo principal — um a centrífuga de tubos de ensaio, um m icroscópio de elétron, e assim por diante —, além de diversas peças de equipam ento que não estavam duplicadas no outro veículo. Não continha nenhum a m esa de autópsia, e apenas um sistem a de videoteipe. Havia três term inais de com putador, em vez de dois.
O dr. Enrico Valdez estava sentado a um a das tábuas de program ação, num a cadeira bem funda, proj etada para acom odar um hom em num traj e de descontam inação com tanque de ar. Ele estava trabalhando com , Houk e Niven nas análises quím icas das am ostras de diversas substâncias coletadas em diversos estabelecim entos com erciais e m oradias ao longo da Sky line Road e da Vail Lane — tais com o a farinha e a m assa tiradas da m esa na padaria dos Lieberm anns. Estava buscando vestígios de condensado do gás que afetava o sistem a nervoso ou outras substâncias quím icas. Até o m om ento, nada tinham encontrado de anorm al.
O dr. Valdez não acreditava que o gás ou algum a m oléstia acabariam sendo os culpados.
Estava com eçando a se perguntar se esta história toda não devia pertencer ao território de Isley e Arkham . Isley e Arkham , os dois hom ens sem nom e nos traj es de descontam inação, nem ao m enos eram m em bros da Unidade de Defesa Civil, pertenciam a um proj eto inteiram ente diferente. Hoj e de m anhã, pouco antes do alvorecer, quando o dr. Valdez fora apresentado a eles no ponto de encontro da equipe, em Sacram ento, quando soubera que tipo de pesquisa eles estavam fazendo, quase caíra na risada. Achara que o proj eto deles era um desperdício do dinheiro do contribuinte. Agora não tinha tanta certeza. Agora questionava-se...
Questionava-se... e preocupava-se.
A dra. Sara Yam aguchi tam bém se achava no segundo m otor hom e.
Estava preparando culturas de bactérias. Usando um a am ostra de sangue retirada do corpo de Gary Wechlas, ela contam inava m etodicam ente um a série de m eios de crescim ento de cultura, com postos gelatinosos cheios de nutrientes nos quais as bactérias geralm ente vicej avam : ágar-ágar de sangue de cavalo, ágar-ágar de sangue de ovelha, ágar-ágar de chocolate, e m uitos outros.
Sara Yam aguchi era um a geneticista que passara onze anos nas pesquisas de recom binação de ADN. Se ficasse com provado que Snowfield fora atacada por um m icroorganism o criado pelo hom em , o trabalho de Sara se tornaria o centro das investigações. Ela dirigiria o estudo da m orfologia do m icróbio, e quando este estivesse term inado, teria um papel relevante ao tentar determ inar a função do m icróbio.
Com o o dr. Valdez, Sara Yam aguchi estava com eçando a se perguntar se Isley e Arkham poderiam se tornar m ais essenciais à investigação do que ela tinha pensado. Pela m anhã, a área em que eles se destacavam parecera tão exótica quanto a m acum ba. Agora, porém , em vista do que ocorrera desde que a equipe chegara em Snowfield, viu-se forçada a adm itir que a especialidade de Isley e Arkham parecia cada vez m ais pertinente. E, com o o dr. Valdez, ela estava preocupada.
O dr. Wilson Bettenby, chefe do setor científico civil da Unidade de Defesa Civil da CBW, equipe da Costa Oeste, sentava-se a um term inal de com putador, duas cadeiras depois do dr. Valdez.
Bettenby estava rodando um program a de análises autom atizadas de diversas am ostras de água. As am ostras eram introduzidas num processador que destilava a água, arm azenava o destilado e suj eitava as substâncias filtradas a análises espectrográficas e outros testes. Bettenby não estava procurando m icroorganism os; isso exigiria procedim entos diferentes destes. Esta m áquina apenas identificava e quantificava todos os elem entos m inerais e quím icos presentes na água; os dados eram apresentados no tubo de raio catódico.
Todas as am ostras de água, exceto um a, tinham sido colhidas de bicas nas cozinhas e banheiros de casas e loj as na Vail Lane.
Com provou-se que estavam livres de im purezas quím icas perigosas.
A outra am ostra de água era aquela que o delegado Autry recolhera do chão da cozinha do apartam ento da Vail Lane, na véspera.
Segundo o xerife Ham m ond, poças d'água e tapetes encharcados tinham sido descobertos em diversos prédios. Hoj e de m anhã, contudo, a água j á tinha se evaporado, exceto em alguns tapetes úm idos, dos quais Bettenby não conseguiria obter um a am ostra lim pa. Ele colocou a am ostra do delegado no processador.
Dentro de alguns m inutos, o com putador apresentou a com pleta análise quím ico-m ineral da água e dos resíduos que perm aneciam depois que todo o líquido da am ostra fora destilado.
PERCENTUAL PERCENTUAL PERCENTUAL PERCENTUAL
DA SOLUÇÃO DO RESÍDUO DA SOLUÇÃO DO RESÍDUO
H 11,188 00.00 HE 00.00 00.00
LI 00.00 00.00 BE 00.00 00.00
B 00.00 00.00 C 00.00 00.00
N 00.00 00.00 O 88.812 00.00
NA 00.00 00.00 MG 00.00 00.00
AL 00.00 00.00 SI 00.00 00.00
P 00.00 00.00 S 00.00 00.00
CL 00.00 00.00 K 00.00 00.00
O com putador continuou por um tem po consideravelm ente m aior, apresentando os resultados de cada substância que podia ser ordinariam ente detectada. Os resultados eram os m esm os. No seu estado não destilado, a água não continha vestígio algum de quaisquer outros elem entos que não os seus dois com ponentes, hidrogênio e oxigênio. E a com pleta destilação e filtragem não produzira resíduo algum , nem m esm o sim ples traços de elem entos. A am ostra de Autry não podia vir do suprim ento de água da cidade, pois não continha cloro nem flúor. Tam pouco era água engarrafada. A água engarrafada teria tido um conteúdo m ineral norm al. Talvez houvesse um sistem a de filtragem sob a pia da cozinha daquele apartam ento — um a peça Culligan —, porém , m esm o que houvesse, a água que passava por ele ainda possuiria m ais conteúdo m ineral do que isto. O que Autry recolhera era o grau m ais puro de água destilada e m ultiplam ente filtrada obtido em laboratório.
Então... o que estava fazendo espalhada pelo chão daquela cozinha?
Bettenby fitou a tela do com putador, franzindo o cenho.
Será que o pequeno lago na loj a de bebidas Brookhart tam bém era com posto desta água ultrapura?
Por que alguém andaria pela cidade esvaziando galões e galões de água destilada?
E onde iriam encontrá-la em tais quantidades, para com eço de conversa?
Estranho.
Jenny, Bry ce e Lisa estavam a um a m esa num canto do refeitório do Hilltop Inn.
O m aj or Isley e o capitão Arkham , que vestiam os traj es de descontam inação sem nom es nos capacetes, sentavam -se em dois banquinhos, do outro lado da m esa. Eles tinham trazido a notícia sobre o cabo Velazquez. Tinham trazido tam bém um gravador, que estava agora no centro da m esa.
— Ainda não entendo por que isso não pode esperar — disse Bry ce.
— Não vam os dem orar m uito — falou o m aj or Isley.
— Estou com um a equipe de busca pronta para sair — disse Bry ce. — Tem os que revistar cada prédio na cidade, fazer um a contagem de corpos, descobrir quantos estão m ortos e quantos desaparecidos, e buscar um a pista para o que m atou toda aquela gente.
Tem os vários dias de trabalho pela frente, especialm ente desde que não podem os continuar com a busca depois do anoitecer. Não vou deixar m eus hom ens ficarem andando por aí à noite, quando as luzes podem se apagar a qualquer m om ento. Mas não vou m esm o.
Jenny pensou no rosto carcom ido de Wargle. Nas órbitas vazias.
O m aj or Isley falou: — Só um as perguntinhas. Arkham ligou o gravador.
Lisa olhava fixam ente para o m aj or e o capitão. Jenny ficou im aginando o que estaria se passando na cabeça da m ocinha.
— Vam os com eçar com o senhor, xerife — falou o m aj or Isley. — Nas 48 horas que antecederam esses acontecim entos, o seu gabinete recebeu algum inform e de falta de luz ou interrupção no serviço telefônico?
— Quando ocorrem problem as dessa natureza — respondeu Bry ce —, as pessoas em geral ligam para as próprias com panhias de prestação de serviços, não para o xerife.
— Sim , m as essas com panhias não o notificariam ? Os períodos de interrupção de luz e telefone não contribuem para as atividades crim inosas?
Bry ce assentiu.
— Claro. E, ao que m e consta, não recebem os nenhum alerta desse gênero.
O capitão Arkham se inclinou para diante.
— E quanto a dificuldades com recepção de rádio e TV nesta área?
— Nenhum a, que eu saiba — respondeu Bry ce.
— Algum inform e de explosões inexplicáveis?
— Explosões?
— Sim — confirm ou Isley. — Explosões ou estrondos sônicos ou quaisquer ruídos in vulgarm ente altos e indefiníveis.
— Não. Nada disso.
Jenny ficou se perguntando que diabo estariam querendo saber.
Isley hesitou e perguntou:
— Algum inform e de aeronaves fora do com um nas proxim idades?
— Não. Lisa falou:
— Vocês dois não fazem parte da equipe do general Copperfield, não é? É por isso que não têm nom es nos capacetes.
— E seus traj es de descontam inação não se aj ustam tão bem quanto os dos outros — disse Bry ce. — Os deles foram feitos sob m edida, os seus não.
— Muito observador — falou Isley.
— Se vocês não estão com o proj eto CBW — falou Jenny —, então o que estão fazendo aqui?
— Não queríam os contar logo no com eço — falou Isley. — Acham os que obteríam os respostas m ais diretas de vocês se não tivessem um a ideia im ediata do que estávam os procurando.
Arkham falou:
— Não som os do Corpo Médico do Exército. Som os da Força Aérea.
— Proj eto Sky watch — disse Isley. — Não som os exatam ente um a organização secreta, m as... bem ... digam os que desencoraj am os publicidade.
— Sky watch? — falou Lisa, anim ando-se. — Está falando de OVNIs? É isso? Discos voadores?
Jenny viu que Isley se crispou ante as palavras "discos voadores". Ele falou:
— Não saím os por aí checando cada inform e biruta de hom enzinhos de Marte. Para com eço de conversa, não tem os fundos para tanto. Nosso trabalho é planej ar com relação aos aspectos científicos, sociais e m ilitares do prim eiro encontro da hum anidade com um a inteligência alienígena. Na realidade, som os m ais um as "cabeças pensantes" do que outra coisa qualquer.
Bry ce sacudiu a cabeça.
— Ninguém por aqui andou inform ando sobre discos voadores.
— Mas é exatam ente isso o que o m aj or Isley quer dizer — falou Arkham . — Sabe, os nossos estudos indicam que o prim eiro encontro pode ter início de um a form a tão estranha que nós nem o reconheceríam os com o Tal. O conceito popular de naves espaciais descendo do céu... bem , pode não ser desse j eito. Se estiverm os lidando com inteligências verdadeiram ente alienígenas, as naves deles poderão ser tão diferentes do nosso conceito de nave que nem nos daríam os conta de que elas j á tinham pousado.
— É por esse m otivo que checam os os fenôm enos estranhos que não parecem ter ligação com os OVNIs logo à prim eira vista — continuou Arkham .
— Por exem plo, na prim avera passada, em Verm ont, havia um a casa em que um poltergeist extrem am ente ativo estava à solta. Os m óveis levitavam , os pratos voavam pela cozinha e se espatifavam de encontro à parede. Jatos d'água irrom piam de paredes em que não havia encanam entos. Bolas de fogo explodiam em pleno ar...
— Mas um poltergeist não é um fantasm a? — perguntou Bry ce.
— O que é que os fantasm as têm a ver com a sua área de interesse?
— Nada — respondeu Isley. — Não acreditam os em fantasm as.
Mas nos perguntam os se os fenôm enos do poltergeist poderiam resultar de um a tentativa m alsucedida de com unicação entre espécies. Se encontrássem os um a raça alienígena que se com unicasse som ente por telepatia, e se fôssem os incapazes de receber esses pensam entos telepáticos, talvez a energia psíquica não recebida produzisse fenôm enos destrutivos do tipo que às vezes se atribuem a espíritos m alignos.
— E o que vocês finalm ente decidiram sobre o poltergeist de Verm ont? — perguntou Jenny.
— Decidim os? Nada — respondeu Isley.
— Som ente que era... interessante — falou Arkham .
Jenny lançou um olhar para Lisa e viu que os olhos da garota estavam m uito arregalados. Isso era algo que Lisa podia perceber, aceitar, algo a se apegar. Esse era um m edo para o qual fora m eticulosam ente preparada, graças aos film es, aos livros e à televisão.
Monstros do espaço sideral. Invasores de outros m undos. Isso não tornava as m ortes de Snowfield m enos lúgubres. Mas era um a am eaça conhecida, e isso a tornava infinitam ente preferível ao desconhecido.
Jenny tinha as suas fortes dúvidas de que este era o prim eiro encontro da hum anidade com criaturas das estrelas, m as Lisa parecia ansiosa para acreditar.
— E quanto a Snowfield? — perguntou a m ocinha. — É isso o que está acontecendo? Algum a coisa lá de fora... pousou aqui?
Arkham olhou constrangido para o m aj or Isley. Este pigarreou.
Saindo do alto-falante no seu peito, o som parecia artificial, feito por m áquina.
— Ainda é m uito cedo para j ulgarm os. Acreditam os que exista um a pequena chance de que o prim eiro contato entre o hom em e o alienígena possa incluir o perigo da contam inação biológica. É por isso que tem os um trato de troca de inform ações com o proj eto de Copperfield. Um surto inexplicável de um a m oléstia desconhecida pode indicar um contato não reconhecido com um a presença extraterrestre.
— Mas se isso com que estam os lidando é um a criatura extraterrestre — falou Bry ce, obviam ente não convencido —, parece um bocado selvagem para um ser de inteligência "superior".
— Tive a m esm a ideia — disse Jenny. Isley ergueu as sobrancelhas.
— Não há garantia de que um a criatura com m aior inteligência sej a pacifista e benevolente.
— É — falou Arkham . — Esse é um conceito com um : a ideia de que os alienígenas teriam aprendido a viver em com pleta harm onia entre si e com as outras espécies. Com o diz a velha canção... "não é necessariam ente assim ". Afinal de contas, a hum anidade está consideravelm ente m ais adiantada no cam inho da evolução do que os gorilas, m as, com o espécie, som os definitivam ente m ais belicosos do que eles, no m áxim o de sua agressividade.
— Quem sabe algum dia vam os encontrar um a raça alienígena benevolente que nos ensinará a viver em paz? — disse Isley. — Quem sabe eles nos passarão o conhecim ento e a tecnologia para resolver todos os nossos problem as terrenos, e até m esm o alcançar as estrelas?
Quem sabe?
— Mas não podem os elim inar a alternativa — disse Arkham , som brio.