Fantasmas
Capítulo 43
Apóstolos
Fletcher Kale não estava m ais com m edo. Sentou-se ao lado de Jeeter e ficou vendo a carne satânica m etam orfoseando-se em form as ainda m ais bizarras.
Aos poucos, tom ou consciência de que a barriga da sua perna direita estava coçando. Ficou coçando o local continuada e distraidam ente, enquanto observava a transform ação verdadeiram ente m ilagrosa do visitante dem oníaco.
Confinado nas cavernas desde dom ingo, Jeeter nada sabia do que se tinha passado em Snowfield. Kale contou o pouco que sabia, e Jeeter ficou fascinado.
— Sabe o que é, é um sinal. O que Ele fez em Snowfield é com o um sinal dizendo ao m undo que é chegada a Sua hora. O Seu reinado vai com eçar em breve. Vai governar a terra por m il anos. A própria Bíblia diz isso, cara... m il anos de Inferno na terra. Todo m undo vai sofrer... m enos você e eu e outros com o nós. Porque som os os escolhidos, cara. Som os os Seus apóstolos. Vam os governar a terra com Lúcifer e ela vai nos pertencer, e vam os poder fazer qualquer porra com qualquer pessoa que tiverm os vontade. Qualquer pessoa. E ninguém vai tocar na gente, ninguém , nunca. Está com preendendo? — perguntou Terr, incisivam ente, agarrando o braço de Kale, a voz se alteando de em oção, trem endo de paixão evangélica, um a paixão que facilm ente se com unicou a Kale e fez nascer nele um êxtase perverso, estonteante.
Com a m ão de Jeeter no braço, Kale im aginou que podia sentir o olhar quente do olho tatuado de verm elho e am arelo. Era um olho m ágico, que espiava para dentro da sua alm a e reconhecia um certo parentesco som brio.
Kale pigarreou, coçou o tornozelo, coçou a barriga da perna.
Falou: — É. É, estou com preendendo. De verdade.
A coluna de lim o no centro do aposento com eçou a form ar um a cauda feito um chicote. Asas em ergiram , abriram -se, agitaram -se um a vez. Braços cresceram , grandes e sinuosos. As m ãos eram enorm es, com dedos potentes que term inavam em garras. No alto da coluna, um rosto se form ou na m assa ressum brante: queixo e m axilares com o granito esculpido; um a boca rasgada de lábios finos, dentes tortos e am arelos, presas viperinas; um nariz com o o focinho de um porco; olhos alucinados, carm esim , nem ao m enos rem otam ente hum anos, com o os olhos em prism a de um a m osca. Chifres brotaram na testa, um a concessão às concepções dos m itos cristãos. O cabelo parecia feito de verm es; brilhavam , gordos e preto-esverdeados, retorcendo-se continuam ente em nós em aranhados.
A boca cruel se abriu. O Diabo falou: — Vocês acreditam ?
— Sim — disse Terr, com adoração. — Você é m eu senhor.
— Sim — disse Kale, com voz trêm ula. — Acredito. — Coçou a barriga da perna direita. — Acredito.
— Vocês são m eus? — perguntou a aparição.
— Sim , para sem pre — disse Terr, e Kale concordou.
— Algum a vez m e abandonarão? — perguntou.
— Não.
— Nunca.
— Querem m e agradar?
— Sim — respondeu Terr, e Kale falou: — Qualquer coisa que queira.
— Daqui a pouco eu partirei — disse a m anifestação. — Ainda não chegou a m inha hora de governar. Esse dia chegará. Em breve. Mas há condições a serem atendidas, profecias a serem cum pridas. Então eu voltarei de novo, não apenas para dar um sinal para toda a hum anidade, m as para ficar por m il anos. Até lá, eu deixarei vocês com a proteção do m eu poder, que é vasto; ninguém será capaz de ferir ou frustrar vocês. Eu lhes darei a vida eterna. Prom eto que, para vocês, o Inferno será um local de grande prazer e recom pensas enorm es. Em troca, vocês terão que com pletar cinco tarefas.
Ele lhes disse o que queria que fizessem para provar o seu valor e agradá-lo. Enquanto falava, abriu-se em pústulas, erupções e lesões que purgavam um líquido fino e am arelo.
Kale ficou pensando o que poderiam significar todas aquelas feridas, depois se deu conta de que Lúcifer era o pai de todas as m oléstias. Talvez esse fosse um lem brete nada sutil das pestes terríveis que poderia infligir a eles se não estivessem dispostos a cum prir as cinco tarefas.
A carne espum ou, se dissolveu. Pedaços dela caíram ao chão.
Outros foram lançados contra as paredes enquanto a figura se agitava e se retorcia. A cauda do Diabo se soltou do corpo principal e se contorceu no chão; dentro de segundos estava reduzida a um a papa inanim ada que fedia a m orte.
Quando term inou de dizer o que queria deles, Ele perguntou: — Tem os um trato?
— Sim — disse Terr, e Kale falou: — Sim , um trato.
O rosto de Lúcifer, coberto de feridas que purgavam , dissolveu-se. Os chifres e as asas tam bém se derreteram . Revolvendo-se, vazando um a pasta tipo pus, a coisa m eteu-se pelo chão adentro, desapareceu no rio lá em baixo.
Estranham ente, o tecido m orto m alcheiroso não desapareceu. O ectoplasm a devia desaparecer quando a presença sobrenatural desaparecesse, m as perm anecia ali: noj ento, nauseante, brilhando à luz da lanterna de gás.
Aos poucos, o êxtase de Kale foi desaparecendo. Ele com eçou a sentir o frio irradiando-se do calcário, penetrando pelos fundilhos das suas calças.
Gene Terr tossiu: — Ora... ora, vej am só... não foi um barato?
Kale cocava a barriga da perna. Por baixo da coceira, havia agora um pontinho latej ante de dor.
A criatura chegara ao fim do seu período de alim entação. Na verdade, alim entara-se em excesso. Pretendia m over-se na direção do m ar ainda hoj e, m ais tarde através de um a série de cavernas, canais e cursos d'água subterrâneos. Queria viaj ar para além do lim iar do continente, para dentro dos fossos oceânicos. Inúm eras vezes antes passara por seus períodos de letargia — que às vezes duravam m uitos anos — nas profundezas frescas e escuras do m ar. Lá em baixo, onde a pressão era tão grande que poucas form as de vida podiam sobreviver, lá em baixo onde a falta de luz e o silêncio absoluto forneciam pouco estím ulo, o inim igo antigo conseguia tornar m ais lentos os seus processos m etabólicos; lá em baixo, podia entrar num estado sem elhante ao sonho que tanto desej ava, no qual podia rum inar em perfeita solidão.
Mas j am ais alcançaria o m ar. Nunca m ais. Estava m orrendo.
O conceito de sua própria m orte era tão novo que a criatura não se adaptara ainda à realidade som bria. Na subestrutura geológica da Snowtop Mountain, o transm orfo continuou a largar pedaços infectados de si m esm o. Ele foi penetrando cada vez m ais fundo, cruzando o rio do outro m undo que corria na escuridão tenebrosa, m ais fundo ainda, descendo cada vez m ais para as regiões infernais da terra, para as câm aras de Orcus, Plutão, Osíris, Érebo, Minos, Loki, Satanás. Cada vez que acreditava estar livre do m icroorganism o devorador, um a sensação estranha de form igam ento surgia em algum lugar do tecido am orfo, um a sensação de coisa errada, e então vinha um a dor bem diferente da dor hum ana, e ele era forçado a se livrar de m ais carne infectada. Foi ainda m ais fundo, penetrou na Geena, no Sheol, no Abadon, no Inferno. No decorrer dos séculos, assum ira ansiosam ente o papel de Satanás e de outras figuras m alignas que os hom ens lhe atribuíram , e se divertia brincando com as superstições deles. Agora, estava condenado a um destino consistente com a m itologia que aj udara a criar. Tinha um a consciência am arga desta ironia. Fora arrem essado para baixo. Fora am aldiçoado. Viveria na escuridão e no desespero pelo resto da vida... que poderia ser m edido em horas.
Pelo m enos deixara para trás dois apóstolos. Kale e Terr. Eles continuariam a sua obra m esm o depois que ele tivesse deixado de existir. Espalhariam o terror e se vingariam . Eram perfeitam ente adequados para o serviço.
Agora, reduzido som ente a um cérebro e um m ínim o de tecido de apoio, o transm orfo se encolheu num nicho etoniano de rochas densam ente agrupadas e ficou esperando o fim . Passou os seus últim os m inutos espum ando de ódio, furioso com toda a hum anidade.
Kale levantou a perna da calça e olhou para a panturrilha de sua perna direita. À luz da lanterna, viu dois pontinhos verm elhos. Estavam inchados, cocavam e eram m uito sensíveis.
— Mordidas de insetos — falou.
Gene Terr olhou. — Carrapatos. Eles se enfiam sob a pele. A coceira só vai passar quando você tirar eles daí. Faça eles virem para fora com um cigarro.
— Tem algum ?
— Tenho uns baseados — riu Terr. — Funciona do m esm o j eito, cara, e os carrapatos vão m orrer felizes.
Eles fum aram os baseados e Kale usou a ponta ardente do seu para trazer para fora os carrapatos. Não doeu m uito.
— No m ato — falou Terr —, fique com as pernas das calças enfiadas nas botas.
— Elas estavam enfiadas nas m inhas botas.
— É? Então com o é que os carrapatos se m eteram por baixo?
— Não sei.
Depois de fum arem m ais um pouco de erva, Kale franziu o cenho e falou: — Ele prom eteu que ninguém poderia nos ferir ou nos deter. Falou que ficaríam os sob a Sua proteção.
— É isso aí, cara. Invencíveis.
— Então com o é que tenho que aturar m ordidas de carrapatos? — perguntou Kale.
— Qual é, cara, isso não é nenhum fim do m undo.
— Mas se nós estam os realm ente protegidos...
— Escute, quem sabe as m ordidas de carrapato são o Seu j eito de selar o trato que você fez com Ele. Com um pouco de sangue. Sacou?
— Então por que você não tem m ordidas de carrapatos?
Jeeter deu de om bros.
— Não é im portante, cara. Além disso, as porras dos carrapatos m orderam você antes de você fazer o seu trato... não foi?
— Ah. — Kale assentiu, m eio doidão com a m aconha. — É. É verdade.
Ficaram calados por algum tem po. Então, Kale perguntou: — Quando acha que vam os poder sair daqui?
— Provavelm ente ainda estão procurando você adoidado.
— Mas se não podem m e ferir...
— Não vale a pena tornar as coisas m ais difíceis para nós m esm os — falou Terr.
— Acho que tem razão.
— Ficam os na nossa por alguns dias. Até lá, a pressão m aior j á terá acabado.
— Então fazem os as cinco coisas com o ele quer. E depois disso?
— Seguim os em frente, cara. Nos m andam os por aí, deixando as nossas m arcas.
— Para onde?
— Algum lugar. Ele nos m ostrará o cam inho. — Terr ficou calado por algum tem po. Depois falou: — Me conte. Me conte com o foi m atar a sua m ulher e o seu filho
— O que quer saber?
— Tudo que há para saber, cara. Me conte qual foi a sensação. Que tal foi acabar com a sua patroa. Principalm ente, m e conte sobre o garoto. Qual foi a sensação de apagar um a criança? Hein? Eu nunca m atei um assim tão pequeno, cara. Você m atou ele depressa ou foi aos pouquinhos? Foi diferente de m atar ela? O que você fez exatam ente com o garoto?
— Só o que eu precisava fazer. Eles estavam no m eu cam inho,
— Te atrapalhando, não é?
— Os dois.
— Claro. Estou entendendo. Mas o que você fez?
— Atirei nela.
— Atirou no garoto tam bém ?
— Não. Fiz ele em pedaços. Com um cutelo de açougueiro.
— É sério, cara?
Fum aram m ais baseados; a lanterna sibilava, e o sussurro-risada do rio subterrâneo chegava até eles pelo buraco no chão; Kale falou com o m atara Joanna, Danny e os delegados do condado.
Lá um a vez ou outra, pontuando as palavras com um a risadinha de quem está doidão, Jeeter dizia: — Ei, cara, com o vam os nos divertir. Com o vam os nos divertir j untos, você e eu. Me conte. Me conte m ais. Cara, com o vam os nos divertir.