Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 34 de 48

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Fantasmas

Capítulo 32

Destino

 

Em Santa Mira, Fletcher Kale passou a m aior parte da tarde de segunda-feira destroçando a casa de Jake Johnson, aposento por aposento. Divertiu-se a valer.

Num a grande despensa j unto à cozinha, onde até se podia entrar, ele finalm ente localizou o tesouro de Johnson. Não estava nas prateleiras, que se achavam abarrotadas com suprim entos para um ano, pelo m enos, de com ida enlatada e engarrafada, nem no chão, com pilhas de outros m antim entos. Não, o verdadeiro tesouro estava debaixo do piso da despensa: debaixo do linóleo solto, debaixo das tábuas, num com partim ento secreto.

Um a pequena coleção de arm as, fantástica, cuidadosam ente selecionada, estava escondida ali; cada um a das arm as em brulhada individualm ente em plástico im perm eável. Sentindo-se com o se estivesse num a m anhã de Natal, Kale desem brulhou todas elas. Havia um par de Sm ith & Wesson Com bat Magnum s, talvez a m elhor e m ais poderosa pistola do m undo. Carregada com balas calibre 357, era a arm a m ais m ortífera que um hom em podia carregar, com potência bastante para deter um urso feroz; carregada com balas calibre 38, era um a arm a igualm ente útil e extrem am ente precisa para caça de m enor porte. Um a espingarda de caça: um a Rem ington 870 Brushm aster, calibre 12, com m iras de rifle aj ustáveis, coronha dobrável, um a coronha de pistola, pente proj etado e um a alça. Dois rifles. Um a M-l sem iautom ática. Porém , m elhor do que tudo, havia um Heckler & Koch HK91, um soberbo rifle de ataque, com pleto, com oito pentes de trinta disparos, j á carregados, e uns dois m il cartuchos de m unição adicional.

Durante quase um a hora Kale ficou sentado exam inando os rifles e brincando com eles. Acariciando-os. Se os tiras deparassem com ele enquanto se dirigia para as m ontanhas, iam desej ar ter olhado para o outro lado.

O buraco sob a despensa tam bém continha dinheiro. Muito dinheiro. As notas estavam bem enroladas, presas com tiras de borracha, depois enfiadas em cinco vidros de conserva bem lacrados.

Havia de três a cinco rolos em cada vidro.

Ele levou os vidros para a cozinha e colocou-os sobre a m esa.

Procurou na geladeira um a lata de cervej a, teve que se contentar com um a de Pepsi, sentou-se à m esa e com eçou a contar o seu tesouro.

Sessenta e três m il, quatrocentos e quarenta dólares.

Um a das lendas m odernas m ais duradouras do condado de Santa Mira era a que dizia respeito à fortuna secreta de Big Ralph Johnson, construída (segundo os boatos) através de corrupção e suborno. Obviam ente, era isto o que restava dos ganhos ilícitos de Big Ralph. Exatam ente o tipo de grana de que Kale precisava para com eçar um a vida nova.

O irônico de tudo isso era que, se tivesse encontrado esta grana na sem ana passada, não precisaria ter m atado Joanna e Danny. Isto era m ais do que o suficiente para sair das suas dificuldades com a Investim entos High Country.

Um ano e m eio atrás, quando se tornara sócio da High Country, não poderia ter previsto que aquilo daria em desastre. Naquela época, aquilo lhe parecera a oportunidade que ele sabia que estava destinada a surgir na sua vida, m ais cedo ou m ais tarde.

Cada um dos sócios da Investim entos High Country levantara um sétim o dos fundos necessários para adquirir e subdividir um lote de trinta acres na extrem idade leste de Santa Mira, no alto da Highline Ridge, e construir nele. Para entrar na j ogada, Kale fora forçado a investir cada dólar disponível em que pudesse deitar as m ãos, m as o retorno em potencial parecera valer o risco.

Todavia, o proj eto Highline Ridge acabou sendo um m onstro devorador de dinheiro com um apetite voraz.

Do j eito que a sociedade fora form ada, cada sócio devia entrar com contribuições obrigatórias adicionais se o fundo com um inicial de capital provasse ser inadequado à tarefa. Se Kale (ou outro sócio qualquer) não conseguisse pagar a contribuição obrigatória necessária, estava fora da Investim entos High Country im ediatam ente, sem qualquer com pensação pelo que j á havia investido, m uito obrigado e adeus. Então os sócios restantes tornavam -se responsáveis por porções iguais da sua contribuição — e adquiriam frações iguais da sua parte no proj eto. Era o tipo de arranj o que facilitava o financiam ento do proj eto, atraindo (em geral) apenas aqueles investidores que tinham um bocado de liquidez — m as tam bém exigia um estôm ago de ferro e nervos de aço.

Kale pensara que não haveria outras contribuições adicionais. O fundo com um de capital original parecera-lhe m ais do que suficiente.

Mas estava errado.

Quando a prim eira das contribuições especiais, no valor de 35 m il dólares, fora cobrada, ele ficara chocado, m as não derrotado. Achou que poderiam tom ar em prestado dez m il dos pais de Joanna, a casa deles podendo facilm ente ser penhorada para render m ais vinte m il. Os últim os cinco m il poderiam ser arranj ados aqui e ali.

O único problem a era Joanna.

Desde o com eço, ela não quisera que ele se envolvesse na Investim entos High Country. Achava que era dem ais para o bico dele, que devia parar de tentar bancar o figurão cheio da grana.

Ele fora em frente, apesar de tudo, e então viera a contribuição e ela gozara o desespero dele. Não abertam ente, é claro. Era esperta dem ais para isso. Sabia que podia bancar m elhor a m ártir do que a m egera. Nunca falara eu-não-te-disse, não diretam ente, m as a acusação satisfeita estava no seu olhar, evidente de m odo hum ilhante no j eito com o o tratava,

Finalm ente, ele a convencera a usar a casa com o garantia e pedir um em préstim o aos pais dela. Não fora fácil.

Ele sorrira, balançara a cabeça e aceitara todos os conselhos m elosos e críticas disfarçadas deles, m as prom etera a si m esm o que acabaria por esfregar-lhes a cara em toda a bosta que tinham j ogado nele. Quando enriquecesse com a High Country, faria com que todos rastej assem , especialm ente Joanna.

Então, para sua consternação, a segunda contribuição obrigatória especial fora cobrada dos sete sócios. Era de quarenta m il dólares.

Ele tam bém teria levantado esse dinheiro, se Joanna tivesse desej ado sinceram ente que ele vencesse. Ela poderia ter tirado dinheiro do fundo de fideicom isso. Quando a avó de Joanna, aquela bruxa velha, m orrera, cinco m eses depois do nascim ento de Danny, deixara quase m etade do seu espólio (cinquenta m il dólares) num fundo de fideicom isso para o único bisneto. Joanna fora nom eada a principal adm inistradora do fundo. Portanto, quando viera a segunda cobrança da High Country, ela poderia ter tirado quarenta m il dólares do fundo e pago a conta. Mas Joanna se recusara. Ela dissera: "E se houver m ais outra contribuição obrigatória? Você perde tudo, Fletch, tudo, e Danny tam bém perde a m aior parte do dinheiro do seu fundo."

Ele tentara fazer com que ela enxergasse que não haveria um a terceira cobrança. Mas, é claro, ela não dera ouvidos a ele porque não queria realm ente que ele tivesse êxito, porque queria vê-lo perder tudo e ser hum ilhado, porque queria arruiná-lo, derrotá-lo.

Ele não tivera outra escolha senão m atá-la e tam bém a Danny.

Do j eito que o fundo fora estabelecido, se Danny m orresse antes de fazer 21 anos, o fundo seria dissolvido. O dinheiro, após o pagam ento dos im postos, tornar-se-ia propriedade de Joanna. E se Joanna m orresse, todo o seu espólio passaria às m ãos do m arido. Era o que constava do seu testam ento. Assim , se ele se livrasse de am bos, o dinheiro do fundo (e m ais um a bonificação de vinte m il dólares correspondentes à apólice do seguro de vida de Joanna) acabaria nas suas m ãos.

A vaca não lhe deixara outra escolha.

Não era culpa dele que estava m orta.

Ela m esm a fizera aquilo consigo. Aj eitara as coisas de tal form a que não havia outra saída para ele.

Sorriu, lem brando-se da expressão dela ao ver o corpo do garoto — e quando o vira apontar a arm a para ela.

Agora, sentado à m esa da cozinha de Jake Johnson, Kale olhou para todo aquele dinheiro e seu sorriso ficou ainda m ais am plo.

Sessenta e três m il, quatrocentos e quarenta dólares.

Algum as horas antes ele estivera na cadeia, virtualm ente sem tostão, enfrentando um j ulgam ento que poderia resultar em pena de m orte. A m aioria dos hom ens teria ficado im obilizada pelo desespero.

Mas Fletcher Kale não fora derrotado. Sabia que estava destinado a grandes coisas. E aqui estava a prova. Num espaço de tem po incrivelm ente curto, ele passara da cadeia para a liberdade, da penúria para 63.440 dólares. Agora tinha dinheiro, arm as, transporte e um esconderij o seguro nas m ontanhas vizinhas. Finalm ente com eçara. O seu destino especial com eçara a se desenrolar.