Fantasmas
Capítulo 28
Contagem de corpos
Enquanto a unidade do general Copperfield realizava a autópsia e os testes no laboratório de cam po m óvel, Bry ce Ham m ond form ou duas equipes de busca e com eçou um a revista prédio-a-prédio na cidade. Frank Autry liderava o prim eiro grupo, e o m aj or Isley ia j unto com o observador para o proj eto Sky watch. Da m esm a form a, o capitão Arkham se reuniu ao grupo de Bry ce. Quadra por quadra, rua por rua, as duas equipes nunca se deixavam ficar separadas por m ais de um prédio, e m antinham um contato constante por m eio dos walkie-talkies.
Jenny acom panhava Bry ce. Mais do que qualquer outra pessoa, ela conhecia os residentes de Snowfield, e era a pessoa m ais indicada para identificar quaisquer corpos que fossem encontrados. Na m aioria dos casos, tam bém poderia dizer-lhes quem m orava em cada casa e o núm ero de pessoas em cada fam ília — inform ação de que necessitavam para fazer a lista dos desaparecidos.
Aborrecia-a ter que expor Lisa a outras cenas horripilantes, m as não podia se recusar a aj udar a equipe de busca. Tam pouco podia deixar a irm ã sozinha no Hilltop. Não depois do que acontecera a Harker. E a Velazquez. Mas a m ocinha aguentou bem a tensão da revista de casa em casa. Ainda estava provando o seu valor a Jenny, e esta se sentia cada vez m ais orgulhosa da irm ã.
Durante algum tem po não encontraram corpo algum . As prim eiras loj as e casas em que entraram estavam desertas. Em várias casas, a m esa estava posta para o j antar de dom ingo. Em outras, as banheiras estavam cheias de água que esfriara. Em diversos lugares os aparelhos de TV ainda estavam ligados, m as não havia ninguém para assistir aos program as.
Em um a das cozinhas eles descobriram o j antar de dom ingo no fogão elétrico. A com ida nas três panelas tinha cozinhado por tantas horas que toda a água se,evaporara. As sobras estavam secas, duras, queim adas, em poladas, inidentificáveis. As panelas de aço inoxidável, destruídas — preto-azuladas por dentro e por fora. Os cabos de plástico das panelas tinham am olecido e derretido parcialm ente. A casa inteira recendia ao fedor m ais acre e nauseante que Jenny j á encontrara.
Bry ce torceu os botões e desligou o fogão.
— É um m ilagre que a casa toda não tenha pegado fogo.
— Provavelm ente teria, se o fogão fosse a gás — disse Jenny.
Acim a das três panelas havia um a coifa de aço inoxidável com um exaustor. Quando a com ida pegara fogo, a coifa contivera a explosão de cham as de curta duração e im pedira que o fogo se alastrasse para os arm ários vizinhos.
Novam ente do lado de fora, todo m undo, exceto o m aj or Arkham no seu traj e de descontam inação, inspirou profundam ente o ar lim po da m ontanha. Precisaram de alguns m inutos para extirpar dos pulm ões aquela coisa asquerosa que tinham aspirado dentro da casa.
Então, na rasa ao lado, eles encontraram o prim eiro corpo do dia. Era John Farley, dono da Mountain Tavern, que abria som ente durante a tem porada de esqui. Estava na casa dos quarenta anos. Fora um hom em m uito atraente, os cabelos pintalgados de preto e branco, nariz grande e boca generosa que frequentem ente se curvara num sorriso im ensam ente cativante. Agora estava inchado e pisado, os olhos saltando das órbitas, as roupas estourando nas costuras por causa do inchaço do corpo.
Farley se achava sentado à m esa do café, num a das extrem idades da sua cozinha grande. Num prato à sua frente havia um a refeição de ravióli recheado com queij o e alm ôndegas. Havia tam bém um copo de vinho tinto. Farley estava sentado na cadeira, corpo ereto.
Um a das m ãos no colo, de palm a para cim a. A outra m ão em cim a da m esa, agarrando um a côdea de pão. Sua boca estava parcialm ente aberta, e havia um naquinho de pão preso entre seus dentes. Ele perecera no ato de m astigar; os m úsculos do m axilar nem haviam se relaxado.
— Santo Deus — disse Tal —, ele nem teve tem po de cuspir fora a com ida, ou engoli-la. A m orte deve ter sido instantânea.
— E ele tam bém não a viu chegar — falou Bry ce. — Olhe só para o rosto dele. Não há expressão de horror ou surpresa ou choque, com o na m aioria dos outros.
Fitando os m axilares retesados do m orto, Jenny falou: — O que eu não entendo é por que a m orte não traz o m enor relaxam ento dos m úsculos. É extraordinário.
Na igrej a de Nossa Senhora da Montanha, a luz do sol varava os vitrais, com postos predom inantem ente de azuis e verdes. Centenas de m anchas irregulares de azul-real, azul-celeste, turquesa, água-m arinho, verde-esm eralda e m uitas outras tonalidades pingavam por sobre os bancos de m adeira encerados, em poçavam -se nos corredores e cintilavam nas paredes.
É com o estar dentro d'água, pensou Gordy Brogan, seguindo atrás de Frank Autry pela nave estranha e lindam ente ilum inada.
Logo além da nártex, um j ato de luz carm esim ilum inava a pia de m árm ore branco que continha a água benta. Era o carm esim do sangue de Cristo. O sol penetrava um a im agem de vitral do Sagrado Coração de Jesus e lançava raios sanguíneos sobre a água que brilhava na pia de m árm ore pálido.
Dos cinco hom ens da equipe de busca, apenas Gordy era católico. Ele Um edeceu dois dedos na água benta, fez o sinal-da-cruz e se aj oelhou.
A igrej a era solene, silenciosa, quieta.
O ar era suavizado por um leve traço agradável de incenso.
Não havia fiéis nos bancos. A princípio parecia que a igrej a estava deserta.
Então Gordy olhou m ais atentam ente para o altar e soltou um a exclam ação abafada.
Frank tam bém o viu.
— Oh, m eu Deus.
O santuário estava envolto em m ais som bras do que o restante da igrej a, e por isso os hom ens não tinham reparado im ediatam ente na coisa horrenda — e sacrílega — acim a do altar. As velas do altar tinham ardido até o fim e se queim ado.
Todavia, à m edida que os hom ens da equipe de busca cam inhavam hesitantes pelo corredor central, iam tendo um a visão cada vez m ais clara do crucifixo em tam anho natural que se erguia do centro do altar, ao longo da parede dos fundos do santuário. Era um a cruz de m adeira, com um a figura de Cristo de gesso vitrificado, pintada a m ão, m eticulosam ente detalhada no lenho. No m om ento, grande parte da im agem piedosa estava obscurecida por outro corpo que pendia na sua frente. Um corpo de verdade, não outra figura de gesso. Era o padre, de batina; estava pregado, à cruz.
Dois coroinhas aj oelhavam -se no chão diante do altar. Estavam m ortos, pisados, intum escidos.
A carne do padre com eçara a escurecer e a m ostrar outros sinais de decom posição im inente. Seu corpo não estava na m esm a condição bizarra dos que tinham sido encontrados até então. No caso dele, a descoloração era o que se esperaria de um cadáver de um dia.
Frank Autry, o m aj or Isley e os outros dois delegados atravessaram a portinhola na grade do altar e entraram no santuário.
Gordy não conseguiu entrar com eles. Estava abalado dem ais e teve que se sentar no banco da frente para não cair.
Depois de inspecionar o santuário e dar um a olhada pela porta da sacristia, Frank usou o seu walkie-talkie para cham ar Bry ce no prédio ao lado.
— Xerife, encontram os três aqui na igrej a. Precisam os da dra.
Paige para as identificações. Mas a coisa é m uito horripilante, portanto é m elhor deixar Lisa no Vestíbulo com alguns hom ens.
— Estarem os aí em dois m inutos — disse o xerife.
Frank saiu do santuário, atravessou a portinhola na grade e veio sentar-se ao lado de Gordy. Segurava o aparelho transm issor-receptor num a das m ãos e um revólver na outra.
— Você é católico.
— Sou.
— Lam ento que tenha sido forçado a ver isso.
— Tudo bem — falou Gordy. — Não é m ais fácil para você só porque não é católico.
— Conhece o padre?
— Acho que o nom e dele é padre Callahan. Mas eu não frequentava esta igrej a. Ia à m issa na St. Andrew, lá em Santa Mira.
Frank largou o walkie-talkie e coçou o queixo.
— Por todos os indícios que j á tínham os, parecia que o ataque acontecera ontem à noitinha, pouco antes da doutora e Lisa chegarem à cidade. Mas agora, isso... Se esses três m orreram de m anhã, durante a m issa...
— Provavelm ente foi durante a bênção — falou Gordy. — Não a m issa.
— Benção?
— A bênção do Sacram ento Consagrado, o serviço religioso do anoitecer de dom ingo.
— Ah. Então se encaixa direitinho com a hora em que aconteceu com os outros. — Correu os olhos pelos bancos vazios. — O que aconteceu aos fiéis? Por que só o padre e os coroinhas estão aqui?
— Bem , não é m uita gente que com parece à bênção — explicou Gordy. — Provavelm ente havia m ais duas ou três pessoas. Mas aquilo certam ente as levou.
— Por que não levou todo m undo? — Gordy não deu resposta.
— Por que tinha que fazer um a coisa dessas"! — insistiu Frank.
— Para nos ridicularizar. Para debochar de nós. Para roubar a nossa esperança — disse Gordy, com profunda tristeza.
Frank o fitava. Gordy continuou:
— Talvez alguns de nós estivéssem os contando com Deus para nos tirar com vida disso tudo. Provavelm ente a m aioria de nós estivesse.
Eu sei que tenho rezado m uito desde que chegam os aqui.
Provavelm ente você tam bém . Aquilo sabia que faríam os isso. Sabia que pediríam os aj uda a Deus. Então, essa é a sua m aneira de nos m ostrar que Deus não pode nos aj udar. Ou, pelo m enos, é o que quer que a gente acredite. Por que esse é o seu j eito. Instilar dúvidas sobre Deus.
Esse sem pre foi o seu j eito.
Frank disse:
— Você fala com o se soubesse exatam ente o que estam os enfrentando aqui.
— Talvez — replicou Gordy. Fitou o padre crucificado, depois se voltou novam ente para Frank. — Você não sabe? Não sabe m esm o, Frank?
Depois que saíram da igrej a e dobraram a esquina que levava à rua transversal, encontraram dois carros batidos.
Um Cadillac Seville percorrera o gram ado fronteiro à casa paroquial, destruindo a vegetação rasteira no seu cam inho, e fora colidir com um poste da varanda num dos cantos da casa. O poste quase fora rachado em dois. O telhado da varanda tinha cedido.
Tal Whitm an espiou pelo vidro lateral do Cadillac.
— Tem um a m ulher ao volante.
— Morta? — perguntou Bry ce.
— É. Mas não do acidente.
Do outro lado do carro, Jenny tentou abrir a porta do m otorista.
Estava trancada. Todas as portas estavam trancadas, os vidros levantados até em cim a.
Apesar disso, a m ulher ao volante — Edna Gower; Jenny a conhecia — estava com o os outros cadáveres. Cheia de pisaduras escuras. Inchada. Um grito de terror congelado no rosto retorcido.
— Com o é que a coisa pôde entrar aí e m atá-la? perguntou Tal em voz alta.
— Lem bre-se do banheiro trancado na Candleglow — falou Bry ce.
— E do quarto com barricadas na casa dos Oxley s — falou Jenny. O capitão Arkham falou:
— É quase um argum ento a favor da teoria do general quanto ao gás que afeta o sistem a nervoso.
Então Arkham retirou do cinto de utilidades um contador Geiger em m iniatura e exam inou o carro cuidadosam ente. Mas não fora radiação o que m atara a m ulher lá dentro.
O segundo carro, a m eia quadra de distância, era um Ly nx branco-perolado. No chão às costas dele viam -se m arcas pretas de derrapagem . O Ly nx estava atravessado no m eio da rua, bloqueando-a.
A parte dianteira colidira com a lateral de um furgão Chevrolet am arelo.
Mas os danos não tinham sido grandes porque o Ly nx quase conseguira frear com pletam ente antes de atingir o veículo estacionado.
O m otorista era um hom em de m eia-idade com fartos bigodes.
Estava usando j eans cortados à altura dos j oelhos e um a cam iseta dos Dodgers. Jenny tam bém o conhecia. Marty Sussm an. Há seis anos era o adm inistrador m unicipal de Snowfield. O sim pático e interessado Marty Sussm an. Morto. Mais um a vez, a causa da m orte evidentem ente não se relacionava com a colisão.
As portas do Ly nx estavam trancadas, os vidros levantados até em cim a, exatam ente com o no Cadillac.
— Parece que am bos estavam tentando escapar de algum a coisa — falou Jenny.
— Talvez — disse Tal. — Ou podem ter apenas saído para dar um passeio ou cum prir algum a tarefa quando chegou o ataque. Se estavam tentando fugir, algum a coisa os deteve abruptam ente, forçando-os a sair da rua.
— Dom ingo foi um dia quente. Quente, m as não quente dem ais — falou Bry ce. — Não quente o suficiente para se rodar com os vidros fechados e o ar-condicionado ligado. Era o tipo do dia em que a m aioria das pessoas arria os vidros, aproveitando o ar puro. Portanto, m e parece que, depois que eles foram forçados a parar, ergueram os vidros e trancaram as portas, tentando im pedir que algo entrasse.
— Mus esse algo os pegou, de qualquer m aneira — disse Jenny.
Aquilo.
Ned e Sue Marie Bischoff eram donos de um a linda casa em estilo Tudor, num lote de terreno duplo, aninhada entre im ensos pinheiros. Moravam ali com seus dois filhos. Lee Bischoff, aos oito anos, tocava piano surpreendentem ente bem , a despeito da pequenez das suas m ãos, e certa feita dissera a Jenny que ia ser o próxim o Stevie Wonder, "só que sem ser cego". Terry, de seis anos, parecia-se exatam ente com um Pim entinha de pele negra, m as tinha bom gênio.
Ned era um artista bem -sucedido. As suas telas a óleo eram vendidas até por seis ou sete m il dólares, e as suas gravuras em edição lim itada custavam de quatrocentos a quinhentos dólares cada.
Ele era paciente de Jenny. Em bora tivesse apenas 32 anos e j á fosse um sucesso na vida, ela o tratava de úlcera.
A úlcera não o incom odaria m ais. Estava no estúdio, deitado no chão na frente de um cavalete, m orto.
Sue Marie estava na cozinha. Com o Hilda Beck, a governanta de Jenny, e com o m uitas outras pessoas por toda a cidade, Sue Marie m orrera enquanto preparava o j antar. Fora um a m ulher bonita. Não era m ais.
Encontraram os dois m eninos num dos quartos.
Era um quarto m aravilhoso para crianças, espaçoso e arej ado, com cam as beliche. Havia estantes em butidas cheias de livros infantis.
Das paredes pendiam os quadros que Ned pintara para os seus garotos, cenas extravagantes e fantásticas, bem diferentes das telas que o tornaram fam oso: um porco de sm oking, dançando com um a vaca de vestido de baile; o interior da câm ara de com ando de um a nave espacial, onde todos os astronautas eram sapos; um a cena sinistra m as encantadora de um play ground escolar à noite, banhado pela luz da lua cheia, vazio de crianças, m as com um lobisom em im enso e de aparência m onstruosa divertindo-se à grande nos balanços.
Os m eninos estavam num canto, para além de um m onte de brinquedos espalhados. O m ais m oço, Terry, achava-se atrás de Lee, que parecia ter feito um violento esforço para proteger o irm ão m enor.
Os m eninos fitavam o quarto com olhos saltados, os olhares m ortos ainda fixos naquilo que os am eaçara na véspera. Os m úsculos de Lee tinham se travado, deixando seus bracinhos finos na m esm a posição em que tinham estado nos últim os segundos de sua vida: erguidos diante do corpo, protegendo-o, as m ãos espalm adas com o que a im pedir golpes.
Bry ce aj oelhou-se na frente das crianças. Levou um a m ão trêm ula ao rosto de Lee, com o se não quisesse acreditar que o m enino estivesse realm ente m orto.
Jenny aj oelhou-se ao lado dele.
— Estes são os dois filhos dos Bischoffs, — falou, sem conseguir controlar a em oção na voz. — Então agora a fam ília está com pleta.
As lágrim as escorriam pelo rosto de Bry ce.
Jenny tentou se lem brar da idade do filho dele. Sete ou oito?
Mais ou m enos a m esm a idade de Lee Bischoff. O pequeno Tim m y Ham m ond estava deitado no hospital em Santa Mira neste exato m om ento, em com a, do j eito que tinha estado neste ano que passara.
Era praticam ente um vegetal. É, m as até um a coisa dessas era m elhor do que isto aqui. Qualquer coisa era m elhor do que isto aqui.
Aos poucos, as lágrim as de Bry ce foram secando. Ele estava cheio de raiva agora.
— Vou pegá-los por isto — falou. — Sej a quem for que fez isto...
vou fazê-los pagar.
Jenny j am ais conhecera um hom em com o ele. Tinha força e determ inação m asculinas consideráveis, m as tam bém era capaz de ternura.
Teve vontade de abraçá-lo. E de ser abraçada.
Porém , com o sem pre, era discreta dem ais quanto à expressão do seu estado em ocional. Se fosse m ais aberta, com o ele, j am ais teria se afastado da m ãe. Mas não era assim , ainda não, em bora desej asse ser.
Assim , em resposta ao j uram ento dele de pegar os m atadores dos filhos dos Bischoffs, ela falou:
— Mas, e se o que os m atou não for hum ano? Nem todo o m al está nos hom ens. Existe o m al na natureza. A m alignidade cega de um terrem oto. O m al indiferente do câncer. Isso aqui pode ser algo assim — rem oto e irresponsável. Não poderem os levá-lo aos tribunais se nem for hum ano. E então?
— Sej a quem diabo for ou o que diabo for, vou pegá-lo. Vou detê-lo. Vou
fazer com que pague pelo que foi feito aqui — falou ele, teim osam ente.
A equipe de busca de Frank Autry vasculhou m ais três casas desertas depois de sair da igrej a católica. A quarta casa não estava vazia. Encontraram Wendell Hulbertson, um professor de escola secundária que trabalhava em Santa Mira m as optara por m orar aqui nas m ontanhas, num a casa que j á pertencera à sua m ãe. Gordy fora aluno de inglês de Hulbertson cinco anos antes. O professor não estava inchado ou m achucado com o os outros cadáveres; tirara a própria vida.
Acuado num canto do seu quarto, ele pusera o cano de um a 32 autom ática na boca e puxara o gatilho. Evidentem ente, a m orte pelas próprias m ãos fora preferível ao que aquilo estava prestes a fazer com ele.
Depois de deixar a residência dos Bischoffs, Bry ce conduziu o seu grupo por m ais algum as casas, sem encontrar corpo algum . Então, na quinta casa, descobriram um casal idoso trancado no banheiro, onde tinham tentado se esconder do assassino. A m ulher estava largada dentro da banheira. O m arido, encolhido no chão.
— Eram pacientes m eus — disse Jenny. — Nick e Melina Papandrakis.
Tal anotou os seus nom es na lista dos m ortos.
Com o Harold Ordnay e a m ulher na Candleglow, Nick Papandrakis tentara deixar um a m ensagem que pudesse indicar o assassino. Tirara um pouco de iodo do arm ário de rem édios e usara-o para escrever na parede. Não tivera chance de term inar ao m enos um a palavra. Havia apenas duas letras e parte de um a terceira:
— Alguém consegue adivinhar o que ele queria escrever? — perguntou Bry ce.
Um de cada vez, entraram no banheiro e, passando por cim a do corpo de Nick Papandrakis, foram espiar as letras m arrom -alaranj adas na parede, m as nenhum deles teve um lam pej o de inspiração.
— Balas.
Na casa ao lado da de Papandrakis, o chão da cozinha estava coalhado de balas. Não cartuchos inteiros. Apenas dúzias de balas de chum bo, sem os invólucros de m etal.
O fato de não haver invólucros ej etados em parte algum a indicava que os disparos não tinham sido feitos aqui. Não havia cheiro de pólvora. Nenhum buraco de bala nas paredes ou arm ários.
Havia apenas balas espalhadas por todo o chão, com o se tivessem chovido m agicam ente, vindas do nada.
Frank Autry pegou do chão um punhado dos pedaços cinzentos de m etal. Não era um perito em balística, porém , com o estranham ente nenhum a das balas estava fragm entada ou m uito deform ada, ele pôde perceber que elas provinham de um a variedade de arm as. A m aioria delas — dezenas e dezenas delas — parecia ser do tipo e do calibre de m unição que era disparada pelas m etralhadoras portáteis com as quais as tropas de apoio do general Copperfield estavam arm adas.
Será que essas balas são da arm a do sargento Harker?
questionou-se Frank. Será que são os tiros que Harker disparou no seu assassino no frigorífico do Mercado Gilm artin?
Franziu o cenho, perplexo.
Largou as balas e elas caíram ruidosam ente ao chão. Ele apanhou dos ladrilhos diversas outras balas. Havia um a 22 e um a 32, outra 22 e um a 38. Havia até m esm o um bocado de chum bo de espingarda de caça.
Apanhou um a única bala calibre 45 e exam inou-a com interesse especial. Era exatam ente o tipo de m unição que usava no seu revólver.
Gordy Brogran agachou-se ao seu lado.
Frank não olhou para Gordy. Continuou a fitar atentam ente a bala. Estava se debatendo com um pensam ento sinistro.
Gordy pegou algum as balas do piso da cozinha.
— Elas não estão nem um pouco deform adas.
Frank assentiu.
— Devem ter acertado em algum a coisa — continuou Gordy. — Então, deveriam estar deform adas. Pelo m enos algum as delas. — Fez um a pausa, depois falou: — Ei, você está a um m ilhão de quilôm etros de distância. No que está pensando?
— Paul Henderson. — Frank ergueu a bala 45 diante do rosto de Gordy. — Paul disparou três destas ontem à noite, lá na subdelegacia.
— Contra o seu assassino.
— É.
— E daí?
— Daí que estou com o palpite m aluco de que, se pedíssem os ao laboratório para fazer um teste de balística nela, eles descobririam que saiu do revólver de Paul.
Gordy pestanej ou, fitando-o.
— E — continuou Frank — tam bém acho que, se procurarm os no m eio de todas essas balas no chão, irem os encontrar m ais duas exatam ente com o esta. Não apenas m ais um a. Nem tam pouco m ais três. Só m ais duas, exatam ente com as m esm as m arcas desta aqui.
— Quer dizer, as m esm as três que Paul disparou ontem à noite.
— É.
— Mas com o é que vieram de lá para cá?
Frank não respondeu. Em vez disso, ficou de pé e apertou o botão do walkie-talkie.
— Xerife?
A voz de Bry ce Ham m ond saiu vivam ente do pequeno alto-falante.
— O que é, Frank?
— Ainda estam os aqui na casa dos Sheffields. Acho que é m elhor o senhor vir até aqui. Há um a coisa que precisa ver.
— Mais corpos?
— Não, senhor. Hã... um a coisa m eio esquisita.
— Já vam os para aí — falou o xerife. Depois, para Gordy, Frank disse:
— O que eu acho é que... nestas duas últim as horas, depois que o sargento Harker foi levado do Mercado Gilm artin, aquilo esteve aqui, bem neste quarto. Livrou-se de todas as balas que levou ontem à noite e hoj e de m anhã.
— Os tiros que levou?
— É.
— Livrou-se delas? Sem m ais nem m enos?
— Sem m ais nem m enos — confirm ou Frank.
— Mas com o?
— Parece que sim plesm ente... as expeliu. Parece que deixou cair as balas do m esm o j eito que um cão se sacode para deixar cair os, pelos soltos.