Fantasmas

Dean R. Koontz · Capítulo 41 de 48

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Fantasmas

Capítulo 39

A aparição

 

Fletcher Kale acordou a tem po de ver o raiar da aurora.

A floresta ainda estava escura, na sua m aior parte. A luz Jeitosa do dia descia em lanças pelos furos espalhados no dossel verde form ado pelos galhos densam ente entrelaçados das árvores im ensas. A luz do sol ficava difusa pela neblina, e pouco revelava.

Ele passara a noite na perua que pertencera ao falecido Jake Johnson. Agora saltara do veículo e estava parado ao seu lado, escutando os sons dos bosques, alerta a qualquer sinal de perseguição.

Na noite anterior, poucos m inutos depois das onze, dirigindo-se para o retiro secreto de Jake Johnson, Kale subira a Mount Larson Road, entrara com a perua na trilha de incêndio sem pavim entação que levava às encostas agrestes setentrionais de Snowtop — e dera de cara com encrenca. Dali a seis m etros, os faróis ilum inaram cartazes colocados nos dois lados da estrada: letras verm elhas e grandes num fundo branco diziam QUARENTENA. Com o ele ia depressa dem ais, dobrou a curva; diretam ente à sua frente havia um a barricada policial, um carro-patrulha atravessado no m eio da estrada. Dois delegados com eçaram a saltar do carro.

Ele se lem brou de ter ouvido falar de um a zona de quarentena rodeando Snowfield, m as pensou que só estava funcionando do outro lado da m ontanha. Meteu o pé no freio, desej ando, ao m enos por essa vez, ter prestado m ais atenção ao noticiário.

Havia um alerta geral circulando com a sua foto. Esses hom ens o reconheceriam , e dentro de algum as horas ele estaria de volta à cadeia.

A surpresa era a sua única esperança. Eles não estariam esperando encrenca. Manter um posto de controle de quarentena seria um a tarefa fácil, tranquila.

O rifle de ataque HK91 estava no assento ao seu lado, coberto com um a m anta. Ele agarrou a arm a, saltou do carro e abriu fogo contra os policiais. A arm a sem i-autom ática trovej ou e os delegados executaram um a dança da m orte, breve e errática, figuras espectrais na neblina.

Ele rolou os corpos para dentro de um a vala, tirou o carro-patrulha do cam inho e passou com a perua para o outro lado do posto de controle. Depois, voltou e recolocou o carro em posição, para que parecesse que o assassino dos delegados não tinha prosseguido m ontanha acim a.

Rodou os quase cinco quilôm etros pela trilha de incêndio irregular, até que chegou a um a trilha ainda m ais irregular, cheia de vegetação. Um quilôm etro e m eio depois, no final da trilha, ele estacionou o carro num túnel de arbustos e saltou.

Além do HK91, ele tinha um saco cheio das outras arm as da casa de Johnson, m ais os 63.440 dólares que estavam distribuídos pelos sete bolsos com zíper da j aqueta de caça que usava. A única outra coisa que levava era um a lanterna elétrica, e realm ente não precisava de m ais nada, pois as cavernas de calcário estariam bem estocadas com outros suprim entos.

Os últim os quatrocentos m etros tinham que ser percorridos a pé, e ele pretendia term inar prontam ente a viagem , m as logo descobriu que, m esm o com a lanterna, a floresta era confusa à noite, na neblina.

Perder-se era quase um a certeza. Depois de perdido neste deserto, podia-se ficar andando em círculos, a poucos m etros do destino, sem j am ais descobrir o quanto se estava perto da salvação. Depois de dar apenas alguns passos, Kale voltara para j unto do carro, a fim de esperar a luz do dia.

Mesm o que os dois delegados m ortos no bloqueio fossem descobertos antes do am anhecer, e ainda que os tiras concluíssem que o assassino subira a m ontanha, não iriam com eçar a caçada hum ana antes do dia clarear. Quando os policiais chegassem até aqui, am anhã, Kale j á estaria bem escondido nas cavernas.

Dorm ira no banco da frente do carro. Podia não ser o Hotel Plaza, m as era m ais confortável do que a cadeia.

Agora, parado ao lado do carro, na débil luz do am anhecer, ele prestava atenção para ver se ouvia os ruídos de um a equipe de busca.

Não ouviu nada. Não esperava m esm o ouvir nada. Não era o seu destino apodrecer na prisão. O seu futuro era dourado. Tinha certeza disso.

Bocej ou, espreguiçou-se, depois m ij ou de encontro ao tronco de um grande pinheiro.

Dali a trinta m inutos, quando havia m ais luz, ele seguiu a vereda de pedestres que não conseguira encontrar na noite anterior. E notou algo que não fora evidente na escuridão: a vegetação estava extensam ente pisada. Tinha passado gente por aqui, recentem ente.

Ele seguiu com cautela, apoiando o HK91 no braço direito, pronto para m andar para o espaço qualquer um que tentasse atacá-lo.

Em m enos de m eia hora ele saiu do m eio das árvores, chegou à clareira que rodeava a cabana rústica — e viu por que a vereda de pedestres estava toda pisada. Oito m otocicletas se achavam enfileiradas ao lado da cabana, oito Harley 's grandes, nas quais estava gravado o nom e DEMON CHROME.

O bando de desaj ustados de Gene Terr. Não todos. Cerca de m etade da gangue, ao que parecia.

Kale agachou-se j unto a um afloram ento de calcário e exam inou a cabana envolta em névoa. Não havia ninguém à vista. Ele rem exeu silenciosam ente na sacola que trouxera, localizou um pente para o HK91, colocou-o no lugar.

Com o é que Terr e seus am iguinhos sádicos tinham chegado até aqui? Um a viagem de m oto m ontanha acim a teria sido difícil, loucam ente perigosa, um a m otocross de deixar os nervos à flor da pele.

É claro que aqueles filhos da m ãe m alucos curtiam adoidado o perigo.

Mas que diabo estavam fazendo aqui? Com o tinham encontrado a cabana, e por que tinham vindo?

Enquanto ficava atento a um a voz, a algum indício de onde estavam os m otoqueiros, e do que estavam fazendo, Kale se deu conta de que não havia nenhum som de anim al ou de inseto. Nenhum a ave.

Absolutam ente nada. Era fantasm agórico.

E então, às suas costas, um farfalhar no m atagal. Um som suave. Naquele silêncio sobrenatural, era com o se fosse um tiro de canhão.

Kale estivera aj oelhado no chão. Com rapidez felina, caiu para um lado, rolou de costas, ergueu o HK91.

Estava preparado para m atar, m as não para o que viu. Era Jake Johnson, a uns oito m etros de distância, saindo de dentro das árvores e da neblina. Despido. Nuzinho da silva.

Outro m ovim ento. À esquerda de Johnson. Um pouco m ais adiante, no lim iar das árvores.

Kale percebeu-o com o canto dos olhos e girou rapidam ente a cabeça, virando o rifle naquela direção.

Outro hom em saiu dos bosques, através da névoa, com a gram a alta se agitando ao redor das pernas nuas. Tam bém estava despido, e com um largo sorriso.

Mas isso não era o pior. O pior era que o segundo hom em tam bém era Jake Johnson.

Kale olhou de um para o outro, sobressaltado e confuso. Eles eram tão perfeitam ente iguais quanto um par de gêm eos idênticos.

Mas Jake era filho único — não era? Kale nunca soubera de gêm eo algum .

Um a terceira figura avançou das som bras por baixo dos ram os frondosos de um grande abeto verm elho. Tam bém esta era Jake Johnson. Kale não conseguia respirar.

Talvez houvesse um a chance fortuita de que Johnson tivesse um irm ão gêm eo, m as era absolutam ente certo que não tinha dois.

Havia algo horrivelm ente errado. De repente, não eram apenas os trigêm eos im possíveis que assustaram Kale. De repente, tudo parecia am eaçador: a floresta, a névoa, os contornos pedregosos da m ontanha...

Os três Jake Johnson subiram lentam ente a encosta em que Kale estava esparram ado, aproxim ando-se dele de ângulos diferentes.

Tinham olhos estranhos e bocas cruéis.

Kale se pôs de pé, o coração aos saltos.

— Parados aí!

Mas eles não pararam , m uito em bora ele brandisse o rifle de ataque.

— Quem são vocês? O que são vocês? O que significa isso? — vociferou Kale.

Eles não responderam . Continuaram vindo. Com o zum bis.

Ele agarrou a sacola que estava cheia de arm as e recuou rápida e desaj eitadam ente, fugindo daquele trio de pesadelo.

Não. Não era m ais um trio. Era um quarteto. Encosta abaixo, um quarto Jake Johnson saiu do m eio das árvores, nu em pelo, com o os dem ais.

O m edo de Kale estava quase virando pânico.

Os quatro se m overam na direção de Kale praticam ente sem fazer ruído; folhas secas sob os pés; nada m ais. Não se queixavam das pedras, ervas daninhas cortantes e carrapichos que deviam estar m agoando seus pés. Um deles com eçou a lam ber os lábios, com ar fam into. Os outros im ediatam ente tam bém com eçaram a lam ber os lábios.

Um trem or de pavor gelado percorreu as entranhas de Kale e ele se perguntou se teria perdido o j uízo. Mas esse pensam ento teve curta duração. Pouco habituado a ter dúvidas sobre a sua pessoa, não se deteve por m uito tem po nelas.

Largou a sacola, agarrou o HK91 nas duas m ãos e atirou, descrevendo um arco com a boca da arm a que cuspia fogo. As balas acertaram o alvo. Ele as viu entrando nos quatro hom ens, viu as feridas se abrindo. Mas não havia sangue. E m al as feridas desabrochavam , logo m urchavam ; fechavam , sum iam dentro de segundos.

Os hom ens continuavam vindo.

Não, hom ens não. Outra coisa.

Alucinações? Há m uitos anos, na escola secundária, Kale consum ira m uito tóxico. Agora ele se lem brava de que, m esm o depois de se ter parado de fazer uso do LSD, podia-se ter alucinações durante m eses, até anos. Ele nunca tivera alucinações por causa do LSD antes, m as j á tinha ouvido falar nelas. Será que era isso que estava acontecendo agora?

Talvez.

Por outro lado — os quatro hom ens estavam cintilando, com o se a neblina m atinal estivesse se condensando na sua pele nua, e isso não era . o tipo de detalhe que se notava num a alucinação. E toda esta situação era m uito diferente de qualquer experiência com drogas que ele j á tivera.

Ainda sorrindo am plam ente, o Doppelganger* m ais próxim o ergueu um dos braços e apontou para Kale. De m odo incrível, a carne daquela m ão se abriu e foi se descolando dos dedos, da palm a. A carne parecia que ia voltando para dentro do braço, sem sangrar, com o se fosse cera se derretendo e fugindo de um a cham a. O pulso engrossou com esse tecido e a m ão ficou sendo apenas ossos, ossos brancos. Um dedo descarnado apontava para Kale.

*Do alemão — um sósia fantasmagórico de uma pessoa real,

especialmente um que vive assombrando o ser em carne e osso. (N. da T.)

Apontava com raiva, desdém e acusação.

Kale ficou estonteado.

Os outros trigêm eos tinham sofrido transform ações ainda m ais m acabras. Um deles perdera a carne da parte do rosto. Um osso m alar estava à m ostra, um a fieira de dentes. O olho direito, sem pálpebra e sem todo o tecido circundante, brilhava um idam ente na órbita caiada.

Ao terceiro hom em faltava um pedaço de carne do tórax; dava para se ver as suas costelas e os órgãos pulsando som briam ente lá dentro. O quarto cam inhava sobre um a perna norm al e outra que era apenas ossos e tendões.

Enquanto iam se aproxim ando de Kale, fechando o cerco, um deles falou: — Assassino de bebês.

Kale berrou, largou o rifle e correu. Parou de chofre ao ver m ais dois Johnsons idênticos se aproxim ando, por detrás, vindos da cabana.

Não havia para onde fugir. Exceto para os altos afloram entos de calcário acim a da cabana. Ele se m andou para aquele lado, ofegando e resfolegando, chegou ao m atagal, choram ingando, m eteu-se pelo m eio dele até chegar à entrada da caverna, olhou para trás, viu que os seis ainda vinham atrás dele e se m eteu caverna adentro, na escuridão, desej ando não ter largado a lanterna elétrica; colocou um a m ão contra a parede, andou arrastando os pés, tateando, tentando se lem brar de com o era o local, achando que era m ais ou m enos um túnel longo que term inava num a série de curvas abruptas — e de repente se deu conta de que este poderia não ser um lugar seguro; podia era ser um a arm adilha; é, tinha certeza disto; eles queriam que ele viesse para cá — ele olhou para trás, viu dois hom ens em decom posição na entrada, ouviu-se gem er e entrou depressa, cada vez m ais depressa, na escuridão profunda, porque não havia outro lugar para onde ir, m esm o que fosse um a arm adilha; arranhou a m ão na proj eção aguçada de um a rocha, tropeçou, quase caiu, continuou em frente, chegou às curvas abruptas, um a depois da outra, e depois à porta; cruzou-a, fechou-a atrás de si, m as sabia que isso não os im pediria de entrar; então se deu conta de um a luz, na câm ara seguinte, e se dirigiu para lá entorpecido de terror, passando por pilhas de suprim entos e equipam entos.

A luz vinha de um a lanterna Colem an.

Kale entrou na terceira câm ara.

À luz pálida e fria, ele viu algo que o fez ficar petrificado.

Erguera-se do rio subterrâneo, subindo pelo chão da caverna, saindo pelo buraco em que Jake Johnson m ontara a bom ba-d'agua. Contorcia-se. Revolvia-se, pulsava, ondulava. Carne escura, m osqueada de sangue. Inform e.

Asas com eçaram a se form ar, depois se dissolveram .

Um cheiro de enxofre, não forte, m as nauseante.

Olhos se abriram ao longo de toda a coluna de dois m etros de lim o. Focalizaram Kale.

Ele recuou fugindo deles, foi de encontro a um a parede, agarrou-se à pedra com o se fosse a realidade, um últim o lugar para se segurar no precipício da loucura.

Alguns dos olhos eram hum anos. Outros não. Fixaram -se nele — depois se fecharam e desapareceram .

Bocas se abriram onde antes não havia nenhum a. Dentes.

Presas. Línguas bipartidas lam biam lábios negros. De outras bocas, tentáculos parecidos com verm es brotaram , contorceram -se no ar, retrocederam . Com o as asas e os olhos, as bocas acabaram por desaparecer na carne inform e.

Um hom em estava sentado no chão. Achava-se a curta distância da coisa pulsante que brotara de sob a caverna, sentado na penum bra deixada pela luz da lanterna, o rosto nas som bras.

Percebendo que Kale reparara nele, o hom em se inclinou para a frente ligeiram ente, colocando o rosto na luz. Tinha 1,90m ou m ais, longos cabelos crespos e barba. Usava um lenço colorido enrolado na cabeça, e um brinco de ouro pendurado. Deu o sorriso m ais estranho que Kale j á vira e ergueu um a das m ãos para cum prim entá-lo; na palm a da m ão havia um globo ocular tatuado em verm elho e am arelo.

Era Gene Terr.