Fantasmas
Capítulo 31
Jogos de computador
O revólver de Bry ce j á estava sacado e engatilhado. Ele agarrou a porta com a outra m ão e escancarou-a. Ao m esm o tem po, deu um salto para trás, apontando a arm a para dentro do laboratório.
Estava deserto. Dois traj es de descontam inação am assados j aziam no Chão, e um outro estava j ogado sobre um a cadeira giratória na frente de um term inal de com putador.
Ele se dirigiu para a traseira do segundo laboratório.
Tal falou:
— Deixe esse com igo. Bry ce sacudiu a cabeça.
— Fique aqui. Protej a as m ulheres. Elas não têm arm as. Se algum a coisa sair daí quando eu abrir a porta, corram feito uns desesperados.
O coração batendo forte, Bry ce hesitou atrás do segundo laboratório m óvel. Botou a m ão na porta. Hesitou de novo. Depois abriu-a ainda com m ais cuidado do que tinha aberto a prim eira porta.
Tam bém estava deserto. Dois traj es de descontam inação. Nada m ais.
Enquanto Bry ce espiava para dentro do laboratório, todas as luzes do teto se apagaram , e ele recuou, surpreso, ante a súbita escuridão. Dali a um segundo, todavia, a luz se acendeu de novo, m as não no teto. Era um a luz estranha, um a luz verde que o deixou sobressaltado. Então, viu que eram apenas as três telas dos term inais que tinham se acendido todas de um a vez. Agora se apagaram . E se acenderam . Apagar, acender, apagar, acender, apagar... A princípio isso aconteceu sim ultaneam ente, depois em sequência, repetidas vezes.
Finalm ente, todas as telas se ilum inaram e assim perm aneceram , enchendo a área de trabalho, sem outro tipo de ilum inação qualquer, com um brilho fantasm agórico.
— Vou entrar — avisou Bry ce.
Os outros protestaram , m as ele j á tinha subido e passado pela porta. Dirigiu-se à prim eira tela do term inal, onde seis palavras ardiam em letras verde-claras contra um fundo verde-escuro.
JESUS ME AMA - DISSO EU SEI.
Bry ce lançou um olhar para as duas outras telas. Exibiam as m esm as seis palavras.
Foram apagadas. Agora havia novas palavras.
POIS A BÍBLIA ME DIZ QUE SIM.
Bry ce franziu o cenho.
Que tipo de program a seria esse? Era a letra de um a das canções que saíram de dentro do ralo da cozinha, no hotel.
A BÍBLIA SÓ DIZ MERDA, disse-lhe o com putador.
Apagar.
JESUS FODE CACHORROS.
As últim as três palavras perm aneceram na tela por vários segundos. Parecia a Bry ce que a luz verde das telas dos term inais era fria. Com o a luz de um a lareira transm ite um calor seco, assim essa ilum inação transm itia um a friagem que o penetrava.
Aquele não era nenhum program a com um sendo rodado nas telas. Aquilo não era coisa que o pessoal do general Copperfield tivesse colocado no com putador, nenhum a form a de código, nenhum exercício de lógica, nenhum teste de sistem as de qualquer tipo.
Apagar.
JESUS ESTÁ MORTO. DEUS ESTÁ MORTO.
Apagar.
EU ESTOU VIVO.
Apagar.
QUER BRINCAR DE VINTE PERGUNTAS?
Fitando a tela, Bry ce sentiu um terror supersticioso e prim itivo tom ando conta de si; terror e assom bro, retorcendo as suas entranhas e agarrando a sua garganta. Mas não sabia por quê. Num nível profundo, quase subconsciente, pressentia que estava na presença de algo m aligno, antigo e... fam iliar. Mas com o poderia ser fam iliar? Nem sabia o que era. E, no entanto... E, no entanto, talvez soubesse. Lá no fundo.
Instintivam ente. Se pudesse buscar dentro de si m esm o, passando pelo verniz civilizado que corporificava tanto ceticism o, se pudesse buscar na sua m em ória de raça, poderia achar a verdade sobre a coisa que pegara e chacinara o povo de Snowfield.
Apagar.
XERIFE HAMMOND?
Apagar.
QUER BRINCAR DE VINTE PERGUNTAS COMIGO?
O uso do seu nom e sobressaltou-o. E depois seguiu-se um a surpresa bem m aior e m ais perturbadora: ELLEN.
O nom e ardeu na tela, o nom e da sua m ulher m orta, e cada m úsculo de seu corpo ficou tenso, e ele esperou que m ais algum a coisa aparecesse; porém , durante longos segundos, ali ficou apenas o nom e precioso, e ele não conseguia desviar os olhos dele, e então...
ELLEN APODRECE.
Ele não podia respirar.
Com o aquilo podia saber de Ellen?
Apagar.
ELLEN ALIMENTA OS VERMES.
Que tipo de m erda seria essa? Qual a finalidade de tudo isso?
TIMMY VAI MORRER.
A profecia brilhava, verde no verde.
Ele soltou um a exclam ação abafada.
— Não — disse baixinho. No ano passado, ele tinha achado que seria m elhor se Tim m y sucum bisse. Melhor do que ir se acabando aos poucos. Até ontem , ele teria dito que a m orte rápida do filho seria um a bênção. Mas isso fora até ontem . Snowfield lhe ensinara que nada era pior do que a m orte. Nos braços da m orte, não havia esperança. Mas enquanto Tim m y vivesse, havia um a possibilidade de recuperação.
Afinal de contas, os m édicos tinham dito que o m enino não sofrerá danos cerebrais m aciços. Portanto, se Tim m y chegasse a acordar do seu sono inatural, tinha um a boa chance de conservar as suas faculdades e funções norm ais. Chance, prom essa, esperança. Portanto, Bry ce disse para o com putador: Não, não.
Apagar.
TIMMY
VAI
APODRECER.
ELLEN
APODRECE.
ELLEN
APODRECE NO INFERNO.
— Quem é você? — interpelou-o Bry ce.
No m om ento em que falou, sentiu-se um tolo. Não podia sim plesm ente conversar com um com putador com o se fosse um outro ser hum ano. Se quisesse fazer um a pergunta, teria que datilografá-la.
VAMOS BATER UM PAPINHO?
Bry ce deu as costas ao term inal. Dirigiu-se até a porta e debruçou-se para fora.
Os outros pareceram aliviados ao vê-lo.
Pigarreando, tentando esconder o fato de que estava profundam ente abalado, ele pediu: — Dra. Yam aguchi, preciso de sua aj uda aqui.
Tal, Jenny, Lisa e Sara Yam aguchi entraram no laboratório m óvel. Frank e Gordy continuaram do lado de fora, j unto à porta, vigiando nervosam ente a rua, de onde desaparecia rapidam ente a luz do dia.
Bry ce m ostrou a Sara as telas do com putador.
VAMOS BATER UM PAPINHO?
Ele lhes contou o que aparecera nas telas, e antes de poder term inar, Sara o interrom peu, dizendo: — Mas isso é im possível. Esse com putador não tem nenhum program a, nenhum vocabulário que lhe perm itisse...
— Algum a coisa assum iu o controle do seu com putador — disse ele. Sara fez um a careta.
— O controle? Com o?
— Não sei.
— Quem ?
— Quem , não — disse Jenny, abraçando a irm ã. — Digam os o quê.
— É — falou Tal. — Essa coisa, esse assassino, sej a lá o que for, assum iu o controle do seu com putador, dra. Yam aguchi.
Obviam ente incrédula, a geneticista sentou-se a um a das telas dos term inais e acionou um a m áquina de escrever autom ática.
— É m elhor term os um a saída im pressa para o caso de conseguirm os algum a coisa de concreto.
Ela hesitou, com as m ãos delicadas, quase infantis pairando acim a do teclado. Bry ce ficou olhando por sobre o om bro dela. Tal, Jenny e Lisa se voltaram para as duas outras telas — quando todas as três telas ficaram lim pas. Sara fitou o cam po liso de luz verde à sua frente; finam ente datilografou o código de acesso, e depois um a pergunta:
TEM ALGUÉM AÍ?
A m áquina de escrever autom ática funcionou, iniciando-se a saída im pressa, e a resposta veio im ediata: SIM.
QUEM É VOCÊ ?
INÚMEROS.
— O quer dizer isso? — perguntou Tal.
— Não sei! — respondeu a geneticista.
Sara repetiu a pergunta e recebeu a m esm a resposta obscura: INÚMEROS.
— Pergunte com o se cham a — falou Bry ce.
Sara datilografou, e as palavras que com pôs apareceram instantaneam ente nas três telas dos term inais: VOCÊ TEM UM NOME?
TENHO.
QUAL É O SEU NOME?
MUITOS.
TEM MUITOS NOMES?
TENHO.
QUAL É UM DOS SEUS NOMES?
CAOS.
QUE OUTROS NOMES VOCÊ TEM?
VOCÊ É UMA PUTINHA CHATA E BURRA. FAÇA OUTRA PERGUNTA.
Visivelm ente chocada, a geneticista ergueu os olhos para Bry ce.
— Esta, definitivam ente, não é um a palavra que se vá encontrar em qualquer linguagem de com putador.
Lisa falou: — Não lhe pergunte quem é. Pergunte o que é.
— É isso aí — falou Tal. — Vej a se consegue um a descrição física.
— Vai pensar que estam os pedindo para rodar testes diagnósticos sobre si m esm o — falou Sara. — Vai com eçar a apresentar diagram as de seus circuitos elétricos.
— Não, não vai — falou Bry ce. — Lem bre-se de que não está tendo um diálogo com o com putador. É outra coisa. O com putador é apenas o m eio de com unicação.
— Oh, é claro — falou Sara. — A despeito da palavra que usou, ainda quero pensar nele com o o bom e velho Meddy.
Depois de pensar um m om ento, ela datilografou: OFEREÇA UMA DESCRIÇÃO FÍSICA DE SI MESMO.
EU ESTOU VIVO.
SEJA MAIS ESPECÍFICO, orientou Sara.
EU SOU, POR NATUREZA, INESPECÍFICO.
VOCÊ É HUMANO?
TAMBÉM ENCERRO ESTA POSSIBILIDADE.
— Está brincando conosco — falou Jenny. — Divertindo-se.
Bry ce passou a m ão pelo rosto.
— Pergunte-lhe o que aconteceu a Copperfield.
ONDE ESTÁ GALEN COPPERFIELD?
MORTO.
ONDE ESTA O CORPO DELE?
SUMIU.
SUMIU PARA ONDE?
PIRANHA CHATA.
ONDE ESTÃO OS OUTROS QUE ESTAVAM COM GALEN COPPERFIELD?
MORTOS.
VOCÊ OS MATOU?
SIM.
POR QUE OS MATOU?
VOCÊS.
Sara bateu no teclado:
ESCLAREÇA.
VOCÊS ESTÃO
ESCLAREÇA.
VOCÊS ESTÃO TODOS MORTOS.
Bry ce notou que as m ãos da m ulher trem iam . No entanto, m oviam -se pelo teclado com habilidade e precisão: POR QUE QUER NOS MATAR?
É PARA ISSO QUE EXISTEM.
ESTÁ DIZENDO QUE EXISTIMOS APENAS PARA SER MORTOS?
SIM. VOCÊS SÃO GADO. SÃO PORCOS. NÃO VALEM NADA.
COMO É O SEU NOME?
VAZIO.
ESCLAREÇA.
NADA.
COMO É SEU NOME?
LEGIÃO.
ESCLAREÇA.
ESCLAREÇA O CARALHO, SUA PIRANHA CHATA.
Sara enrubesceu e disse: — Isso é um a loucura.
— Dá quase para senti-lo aqui com a gente, agora — disse Lisa.
Jenny apertou o om bro da irm ã, encoraj adoram ente, e falou: — Meu bem ... O que quer dizer com isso? A voz da garota estava tensa, trêm ula.
— Dá quase para sentir a sua presença. — Correu os olhos pelo laboratório. — O ar parece m ais espesso... não acham ? E m ais frio. É com o se algum a coisa fosse... se m aterializar bem aqui na nossa frente.
Bry ce sabia o que ela estava querendo dizer.
Tal fitou os olhos de Bry ce e m eneou a cabeça. Ele tam bém estava sentindo.
Todavia, Bry ce teve certeza de que o que estavam sentindo era um a sensação subj etiva. Nada ia realm ente se m aterializar. O ar não estava m ais espesso do que era um m inuto atrás; parecia m ais espesso porque estavam todos tensos, e quando se estava rígido de tensão, era naturalm ente um tanto m ais difícil inspirar. E se o ar estava m ais frio... bem , era apenas porque a noite vinha chegando.
As telas do com putador ficaram lim pas. Então: QUANDO ELE VIRÁ?
Sara datilografou.
ESCLAREÇA.
QUANDO VIRÁ O EXORCISTA?
— Santo Cristo — exclam ou Tal. — Que história é essa?
ESCLAREÇA, datilografou Sara.
TIMOTHY FLYTE.
— Santo Deus! — exclam ou Jenny.
— A coisa conhece esse tal de Fly te — disse Tal. — Mas com o?
E tem m edo dele... ou o quê?
VOCÊ TEM MEDO DE FLYTE?
PIRANHA BURRA.
VOCÊ TEM MEDO DE FLYTE? insistiu ela, sem se alterar.
NÃO TENHO MEDO DE NADA.
POR QUE ESTÁ INTERESSADO EM FLYTE?
DESCOBRI QUE ELE SABE.
O QUE ELE SABE?
A MEU RESPEITO.
— Evidentem ente — disse Bry ce —, podem os descartar a possibilidade de que Fly te sej a apenas m ais um vigarista.
Sara bateu nas teclas:
FLYTE SABE O QUE VOCÊ É?
SABE. EU O QUERO AQUI.
POR QUE VOCÊ O QUER AQUI?
ELE É MEU MATEUS.
ESCLAREÇA.
ELE É MEU MATEUS, MARCOS, LUCAS E JOÃO.
Franzindo a testa, Sara fez um a pausa, olhou para Bry ce.
Depois, seus dedos voaram novam ente sobre o teclado: QUER DIZER QUE FLYTE É SEU APÓSTOLO?
NÃO. É MEU BIÓGRAFO. FAZ AS CRÔNICAS DA MINHA OBRA. QUERO QUE ELE VENHA PARA CÁ.
QUER MATÁ-LO TAMBÉM?
NÃO. EU LHE DAREI SALVO-CONDUTO.
ESCLAREÇA.
TODOS VOCÊS MORRERÃO. MAS PERMITIREI QUE FLYTE VIVA. DIGAM ISSO A ELE. SE ELE NÃO SOUBER QUE TEM SALVO-CONDUTO, NÃO VIRÁ.
As m ãos de Sara trem iam m ais do que nunca. Ela pulou um a tecla, apertou um a letra errada, teve que cancelar tudo e com eçar de novo. Perguntou:
SE TROUXERMOS FLYTE A SNOWFIELD, VOCÊ NOS DEIXARÁ VIVER?
VOCÊS SÃO MEUS.
VOCÊ NOS DEIXARÁ VIVER?
NÃO.
Até então, Lisa fora m ais coraj osa do que se esperava, pela sua pouca idade. Todavia, ver o seu destino declarado sem rodeios num a tela de com putador foi dem ais para ela. Com eçou a chorar baixinho.
Jenny consolou a j ovem da m elhor m aneira possível.
— Sej a lá o que isso for — disse Tal —, sem dúvida é arrogante.
— Bem , ainda não estam os m ortos — disselhes Bry ce. — Ainda há esperança. Sem pre há esperança enquanto estiverm os vivos.
Sara usou de novo o teclado.
DE ONDE VOCÊ VEM?
DE TEMPOS IMEMORIAIS.
ESCLAREÇA.
PIRANHA CHATA.
VOCÊ É EXTRATERRESTRE?
NÃO.
— Isso responde às perguntas de Isley e Arkham — disse Bry ce, antes de se dar conta de que Isley e Arkham j á estavam m ortos.
— A não ser que estej a m entindo — disse Jenny.
Sara repetiu um a pergunta que j á tinha feito anteriorm ente: O QUE É VOCÊ?
VOCÊ ME ENCHE.
O QUE É VOCÊ?
PUTA BURRA.
O QUE É VOCÊ?
NÃO ENCHE O SACO.
O QUE É VOCÊ?, datilografou ela de novo, batendo nas teclas com tanta força que Bry ce achou que ia quebrá-las. A sua raiva parecia ter sobrepuj ado o seu m edo.
SOU GLASYALABOLAS.
ESCLAREÇA.
ESTE É MEU NOME. SOU UM HOMEM ALADO COM DENTES DE CÃO. A MINHA BOCA ESPUMA. FUI CONDENADO A ESPUMAR POR TODA A ETERNIDADE.
Bry ce fitou a tela, sem com preender. Será que falava sério? Um hom em alado com dentes de cão? É claro que não. Devia estar brincando com eles, divertindo-se de novo. Mas o que havia de tão divertido nisso?
As telas ficaram lim pas.
Um a pausa.
Novas palavras apareceram , em bora Sara não tivesse feito perguntas.
SOU HABORYM. SOU UM HOMEM DE TRÊS CABEÇAS: UMA HUMANA, UMA FELINA, UMA DE SERPENTE.
— Mas que bosta é essa? — perguntou Tal, frustrado. O ar no aposento estava definitivam ente m ais frio.
É só o vento, disse Bry ce a si m esm o. O vento na porta, trazendo consigo a friagem da noite que se aproxim a.
EU SOU RANTAN.
Apagar.
EU SOU PALLANTRE.
Apagar.
EU SOU AMLUTIAS, ALFINA, EPYN, FUARD, BELIAL, OMGORMA, NEBIROS, BAAL, ELIGOR E MUITOS OUTROS.
Os nom es estranhos brilharam nas três telas por um m om ento, depois se apagaram .
EU SOU TODOS E NENHUM. EU SOU NADA. EU SOU TUDO.
Apagar.
O trio de telas brilhou vivam ente, verdem ente, lim pam ente, por um , dois, três segundos. Depois escureceu.
As luzes do teto se acenderam .
— Fim da entrevista — disse Jenny.
Belial. Fora um dos nom es que ele dera a si m esm o.
Bry ce não era um hom em fervorosam ente religioso, m as era suficientem ente culto para saber que Belial ou era um dos nom es de Satanás ou o nom e de outro dos anj os caídos. Não estava bem certo.
Gordy Brogan era o m ais religioso dentre eles, um católico devoto. Quando Bry ce saiu do laboratório de cam po, o últim o a deixá-lo, pedia a Gordy para dar um a olhada nos nom es no final da saída im pressa.
Eles estavam na calçada j unto ao laboratório, no restinho da luz do dia, enquanto Gordy lia as linhas pertinentes. Em vinte m inutos, talvez m enos, estaria escuro.
— Aqui — disse Gordy. — Este nom e. Baal. — Apontou-o no papel de com putador dobrado feito um acordeom . — Não sei exatam ente onde o vi antes. Não foi na igrej a ou no catecism o. Talvez o tenha lido em algum livro.
Bry ce percebeu um tom e um ritm o estranhos na fala de Gordy.
Era m ais do que sim ples nervosism o. Ele falava m uito lentam ente, durante algum as palavras, depois m uito rapidam ente, depois lentam ente de novo, depois quase freneticam ente.
— Um livro? — perguntou Bry ce. A Bíblia!
— Não, acho que não. Não sou m uito de ler a Bíblia. Devia ser. Devia lê-la com regularidade. Eu vi esse nom e foi num livro com um . Num rom ance. Não m e lem bro direito.
— Então, quem é esse Baal? — perguntou Bry ce.
— Acho que é um dem ônio m uito poderoso — disse Gordy. E havia algo de definitivam ente errado com a voz dele; com ele.
— E quanto aos outros nom es? — perguntou Bry ce.
— Não significariam nada para m im .
— Pensei que podiam ser os nom es de outros dem ônios.
— Bem , com o sabe, a Igrej a Católica não é m uito dada a serm ões am eaçadores com as penas do Inferno — disse Gordy, ainda falando estranham ente. — Mas talvez devesse ser. É. Talvez devesse. Porque eu acho que o senhor está com a razão. Acho que aqueles são os nom es de dem ônios.
Jenny soltou um suspiro cansado.
— Quer dizer que aquilo estava apenas fazendo um a das suas brincadeirinhas conosco. Era só um j ogo.
Gordy sacudiu a cabeça, vigorosam ente.
— Não. Um j ogo não. De m aneira nenhum a. Estava dizendo a verdade.
Bry ce franziu o cenho.
— Gordy, você não está realm ente pensando que aquilo é um dem ônio ou o próprio Satanás ou coisa parecida, não é?
— Isso tudo é bobagem — falou Sara Yam aguchi.
— É — disse Jenny. — Todo o desem penho no com putador, essa im agem dem oníaca que quer proj etar... é só para nos desorientar ainda m ais. Nunca vai nos dizer a verdade a seu respeito, porque, se a conhecêssem os, então poderíam os achar um j eito de derrotá-lo.
— Com o vocês explicam o padre que foi crucificado no altar da Nossa Senhora das Montanhas? — perguntou Gordy.
— Mas isso era só m ais um a parte da charada — disse Tal.
Os olhos de Gordy estavam estranhos. Não era apenas m edo.
Eram os olhos de um hom em que estava sofrendo aflição espiritual, até m esm o agonia. Eu devia ter reparado antes que isso ia ocorrer, repreendeu-se Bry ce. Com voz baixa, m as com um a intensidade fascinada, Gordy falou:
— Eu acho que talvez a hora tenha chegado. O fim . A hora do fim . Finalm ente. Com o diz a Bíblia. Isso era algo em que eu nunca tinha acreditado. Acreditava em todo o resto que a igrej a pregava. Mas não nisso. Não no dia do Juízo. Eu achava que tudo ia continuar assim para sem pre. Mas agora chegou, não é? É. O Juízo Final. Não só para as pessoas que m oram em Snowfield. Para todos nós. O final. Então, venho m e perguntando com o serei j ulgado. E estou com m edo. Quero dizer, eu recebi um dom , um dom m uito especial, e o j oguei fora. Eu recebi o dom de São Francisco. Sem pre tive j eito com os anim ais. É verdade. Nenhum cão late para m im . Sabiam disso? Nenhum gato j am ais m e arranhou. Os anim ais reagem bem a m im , confiam em m im . Quem sabe até m e am em . Nunca conheci um que não agisse assim . Até fiz com que esquilos silvestres viessem com er na palm a da m inha m ão. É um dom . Então, m eus pais queriam que eu fosse veterinário. Mas eu dei as costas a eles e a m eu dom . Virei tira. Peguei num revólver. Num revólver. Eu não nasci para pegar num revólver. Eu não. Nunca. Mas eu agi assim em parte porque sabia que ia incom odar os m eus pais. Estava expressando a m inha independência, sabem ? Mas eu esqueci, esqueci do que diz na Bíblia: honrarás teu pai e tua m ãe. O que eu fiz, em vez disso, foi m agoá-los. E voltei as costas ao dom que Deus m e dera. Mais do que isso. Pior do que isso. O que eu fiz foi cuspir no dom . Na noite passada eu resolvi largar a polícia, deixar de lado o revólver e m e tornar um veterinário. Mas acho que foi tarde dem ais. O Juízo j á estava em andam ento, e eu não tinha m e dado conta. Cuspi no dom que Deus m e deu e agora... estou com m edo.
Bry ce não sabia o que dizer a Gordy. Seus pecados im aginários estavam tão longe do m al genuíno, que dava quase vontade de rir. Se havia alguém aqui que estava destinado ao Céu era Gordy. Não que Bry ce acreditasse que tinha chegado o dia do Juízo. Não acreditava.
Mas não conseguia pensar em nada para dizer a Gordy, pois o garoto alto e graúdo j á estava fora da faixa dem ais para que alguém o trouxesse de volta à realidade.
— Tim othy Fly te é um cientista, não um teólogo — disse Jenny, com firm eza. — Se Fly te tiver um a explicação para o que está acontecendo aqui, será estritam ente científica, não religiosa.
Gordy não a escutava. As lágrim as lhe escorriam pelo rosto. Os olhos estavam vidrados. Quando inclinou a cabeça e olhou para o céu, não estava vendo o pôr-do-sol. Estava vendo, aparentem ente, um a grande rodovia celestial pela qual logo desceriam os arcanj os e as legiões do Céu em carruagens de fogo.
Ele não estava em condições de estar de posse de um a arm a carregada. Bry ce tirou o revólver de Gordy do coldre e ficou com ele. O delegado nem pareceu reparar.
Bry ce viu que a falação bizarra de Gordy tivera um sério efeito sobre Lisa. Ela parecia m uito abalada, aturdida.
— Está tudo bem — disse-lhe Bry ce. — Não é realm ente o fim do m undo. Não é o dia do Juízo. Gordy está apenas... perturbado.
Vam os sair dessa m uito bem . Não m e acredita, Lisa? Não pode ficar com esse lindo queixinho levantado? Não pode ser coraj osa só m ais um pouquinho?
Ela não respondeu im ediatam ente. Então, procurou dentro de si m esm a e encontrou m ais um a reserva de força e coragem . Assentiu. Até m esm o conseguiu dar um sorriso débil, incerto.
— Você é um a garota e tanto — disse ele. — Um bocado parecida com a sua irm ã.
Lisa lançou um olhar para Jenny, depois voltou os olhos novam ente para Bry ce.
— Você é um xerife e tanto — disse.
Ele se perguntou se o seu próprio sorriso estaria tão trêm ulo quanto o dela.
Sentiu-se encabulado com a confiança da m ocinha, pois não era digno dela.
Menti para você, m enina, pensou. A m orte ainda está conosco.
Vai atacar de novo. Talvez não dentro de um a hora. Talvez nem m esm o dentro de um dia inteiro. Porém , m ais cedo ou m ais tarde, ela atacará de novo.
Na verdade, m uito em bora ele não tivesse possibilidade de sabê-
lo um deles m orreria no m inuto seguinte.