Fantasmas
Capítulo 19
Na calada da noite
O hotel era um a fortaleza.
Bry ce ficou satisfeito com os preparativos que tinham sido feitos.
Finalm ente, após duas horas de trabalho árduo, ele se sentou à m esa da lanchonete im provisada, sorvendo café sem cafeína num a caneca branca de cerâm ica em que estava gravado o tim bre azul do hotel.
Por volta de um a e m eia da m adrugada, com a aj uda dos dez delegados que tinham vindo de Santa Mira, m uita coisa tinha sido feita.
Um a das duas salas fora convertida em dorm itório; havia vinte colchões enfileirados no chão, o suficiente para acom odar qualquer turno da equipe de investigação, m esm o depois da chegada do pessoal do general Copperfield. Na outra m etade do restaurante, duas m esas com pridas foram arm adas num a das extrem idades, onde se poderia form ar um a fila de pessoas para se servirem na hora das refeições. A cozinha fora lim pa e posta em ordem . O grande saguão fora transform ado num enorm e centro de operações, com escrivaninhas, algum as im provisadas, m áquinas de escrever, arquivos, quadros de avisos e um grande m apa de Snowfield.
Além disso, fora feita um a m eticulosa inspeção de segurança no hotel, e foram tom adas m edidas para im pedir um a invasão pelo inim igo.
As duas entradas dos fundos — um a através da cozinha, outra através do saguão — estavam trancadas, e um a segurança adicional fora conseguida por m eio de grandes tábuas enfiadas sob as trancas e pregadas nas m olduras das portas. Bry ce m andara tom ar essa precaução extra para evitar o desperdício de guardas nessas entradas.
A porta que dava para as escadas de em ergência estava lacrada da m esm a form a; nada podia entrar nos andares superiores do hotel e descer para surpreendê-los. Agora, som ente um par de pequenos elevadores ligava o térreo aos três andares superiores, e havia dois guardas de vigia ali. O outro guarda vigiava a entrada principal. Um grupo de quatro hom ens se assegurara de que todos os quartos superiores estavam vazios. Um outro grupo verificara que todas as j anelas do térreo estavam trancadas; a m aior parte tam bém estava fechada pela própria tinta com que fora pintada. Apesar disso, as j anelas eram o ponto fraco nas fortificações deles.
Se algum a coisa tentar entrar por m eio de um a j anela, pensou Bry ce, pelo m enos terem os o ruído do vidro se partindo para nos alertar.
Cuidara-se tam bém de diversos outros detalhes. O corpo m utilado de Stu Wargle fora tem porariam ente guardado num quartinho para m aterial de lim peza adj acente ao saguão. Bry ce m ontara um a escala de serviço e criara turnos de doze horas para os próxim os três dias, prevendo a hipótese da crise durar tanto tem po. Finalm ente, não pôde pensar em m ais nada para ser feito até o alvorecer.
Agora estava sentado sozinho a um a das m esas redondas no refeitório, sorvendo o café, tentando equacionar os acontecim entos daquela noite. Os seus pensam entos acabavam voltando sem pre para um a ideia indesej ada:
O cérebro dele tinha sum ido. O sangue todo fora chupado... até a últim a m aldita gota.
Afastou da cabeça a im agem nauseante do rosto destruído de Wargle, levantou-se, foi buscar m ais café, depois voltou para a m esa.
O hotel estava m uito quieto.
Na outra m esa, três dos hom ens do turno da noite — Miguel Hernandez, Sam Potter e Henry Wong — j ogavam cartas, m as não falavam m uito. Quando falavam , era quase aos sussurros.
O hotel estava m uito quieto.
O hotel era um a fortaleza.
O hotel era um a fortaleza, porra.
Mas seria seguro?
Lisa escolheu um colchão num canto do dorm itório, onde podia dar as costas a um a parede.
Jenny desdobrou um dos dois cobertores em pilhados ao pé do colchão e cobriu a m ocinha.
— Quer o outro?
— Não — falou Lisa. — Esse chega. Mas é gozado, eu m e deitar toda vestida.
— Logo as coisas voltarão ao norm al — disse ela, m as m al acabou de falar percebeu com o era vazia essa afirm ação.
— Vai dorm ir agora?
— Ainda não.
— Gostaria que viesse — falou Lisa. — Gostaria que viesse se deitar neste colchão aqui ao lado.
— Você não está sozinha, m eu bem — disse Jenny, afagando o cabelo da j ovem .
Alguns delegados — inclusive Tal Whitm an, Gordy Brogan e Frank Autry — tinham se deitado nos outros colchões. Havia tam bém três guardas fortem ente arm ados que vigiariam todos os dem ais durante a noite.
— Eles vão apagar m ais um pouco a luz? — indagou Lisa.
— Não. Não podem os nos arriscar a ter escuridão.
— Ótim o. Para m im j á estão baixas o suficiente. Você fica com igo até eu pegar no sono? — pediu Lisa, parecendo bem m ais j ovem do que os seus quatorze anos.
— Claro.
— E conversa com igo?
— Claro. Mas vam os conversar baixinho, para não incom odar os outros.
Jenny se deitou ao lado da irm ã, a cabeça apoiada num a das m ãos.
— Quer conversar sobre o quê?
— Não im porta. Qualquer coisa. Qualquer coisa m enos... esta noite.
— Bem , há um a coisa que eu queria lhe perguntar — falou Jenny. — Não é sobre esta noite, m as é sobre um a coisa que você disse esta noite. Lem bra quando estávam os sentadas no banco em frente à cadeia, esperando pelo xerife? Lem bra que estávam os falando da m am ãe e você disse que ela costum ava... contar vantagem a m eu respeito?
Lisa sorriu.
— A filha dela, a m édica. Ah, ela tinha tanto orgulho de você, Jenny. Com o acontecera antes, a frase perturbou Jenny.
— E m am ãe nunca m e culpou pelo derram e do papai? — perguntou.
— Por que culparia? — indagou Lisa, franzindo o cenho.
— Bem ... porque acho que causei a ele algum sofrim ento, num a certa época. Sofrim ento e m uita preocupação.
— Você? — perguntou Lisa atônita.
— E quando o m édico do papai não pôde controlar a sua pressão alta e ele teve o derram e...
— Segundo a m am ãe, a única coisa ruim que você fez em toda a sua vida foi quando resolveu pintar o gato m alhado de preto para o Dia das Bruxas e m anchou de tinta toda a m obília da varanda.
Jenny riu, surpresa.
— Havia m e esquecido disso. Eu tinha apenas oito anos.
Sorriram um a para a outra, e naquele m om ento sentiram -se irm ãs, m ais do que nunca.
E então Lisa perguntou:
— Por que você acha que m am ãe a culpava pela m orte do papai? Foi de causas naturais, não foi? Um derram e. Com o isso poderia ser culpa sua?
Jenny hesitou, voltando o pensam ento para treze anos atrás, quando tudo com eçara. O fato da m ãe j am ais tê-la culpado pela m orte do pai lhe dava um a sensação profundam ente libertadora. Sentiu-se livre pela prim eira vez desde os dezenove anos.
— Jenny ?
— Hein?
— Está chorando?
— Não, estou bem — disse, engolindo as lágrim as. — Se a m am ãe não m e culpava, então eu acho que estava errada m e culpando.
Só estou feliz, m eu hem . Feliz por causa do que você m e contou.
— Mas o que foi que você pensou que fez? Se vam os ser boas irm ãs, não devem os guardar segredos. Me conte, Jenny.
— É um a longa história, m ana. Um dia eu conto para você, m as não agora. Agora quero ouvir falar de você.
Conversaram sobre banalidades durante m ais alguns m inutos, e os olhos de Lisa foram ficando cada vez m ais pesados.
Jenny ficou pensando nos olhos gentis e encobertos de Bry ce Ham m ond.
E nos olhos de Jakob e Aida Lieberm ann, arregalados nas cabeças cortadas.
E nos olhos do delegado Wargle. Sum idos. Aquelas cavidades vazias no crânio oco.
Tentou se forçar a não pensar naquelas coisas m acabras, naquele olhar sinistro da m orte. Mas os seus pensam entos teim avam em voltar para aquela im agem de violência e m orte m onstruosas.
Desej ou ter alguém para conversar com ela até pegar no sono, com o estava fazendo agora com Lisa. Ia ser um a noite m uito intranquila.
No quartinho para m aterial de lim peza adj acente ao saguão e encostado ao poço do elevador, a luz estava apagada. Não havia j anelas.
Havia no quartinho um leve odor de fluidos de lim peza. Pinho-sol. Ly sol. Lustra-m óveis. Cera. Outros artigos de lim peza estavam estocados nas prateleiras ao longo de um a das paredes.
No canto direito do aposento que ficava m ais longe da porta, havia um a grande pia de m etal. A água escorria de um a bica com defeito... um a gota a cada dez ou doze segundos. Cada gota d'água atingia a bacia de m etal com um ping m acio e cavo.
No centro do quarto, tão am ortalhado na com pleta escuridão quanto todo o resto, o corpo sem rosto de Stu Wargle j azia sobre um a m esa, coberto por um pedaço de pano.
Tudo estava quieto.
Exceto pelo ping m onótono da água que gotej ava.
Um a expectativa ansiosa pairava no ar.
Frank Autry se encolheu debaixo da coberta, de olhos fechados, e pensou em Ruth. Ruthie, alta, esguia, de rosto m eigo. Ruthie, da voz doce m as decidida, Ruthie da risada rouca que a m aioria das pessoas achava contagiante, sua m ulher há 26 anos. Ela era a única m ulher que j á am ara; ainda a am ava.
Falara com ela ao telefone durante alguns m inutos, pouco antes de vir se deitar. Não pudera lhe contar m uito sobre o que estava acontecendo... só que havia um a situação de cerco ocorrendo em Snowfield, que estavam m antendo isso em sigilo enquanto pudessem , e que, pelo j eito, não iria para casa esta noite. Ruthie não insistira pedindo detalhes. Tinha sido um a boa esposa de m ilitar durante os seus anos no Exército. Ainda era.
Pensar em Ruth era o seu prim eiro m ecanism o de defesa psicológico. Nas horas de tensão, nas horas de m edo, dor e depressão, ele sim plesm ente pensava em Ruth, concentrava-se unicam ente nela, e o m undo árduo desaparecia. Para um hom em que passara a m aior parte da vida entregue a trabalhos perigosos, para um hom em cuj a profissão raram ente perm itia que ele esquecesse que a m orte era um a parte íntim a da vida, um a m ulher com o Ruth era um rem édio indispensável, um a inoculação contra o desespero.
Gordy Brogan estava com m edo de fechar os olhos de novo. Cada vez que os fechara, fora atorm entado por visões sangrentas que surgiam da sua própria escuridão particular. Agora j azia sob a coberta, olhos abertos lixos nas costas de Frank Autry.
Mentalm ente, com punha a sua carta de dem issão para Bry ce Ham m ond, Só poderia datilografar e entregar a carta depois que toda essa história de Snowfield tivesse acabado. Não queria deixar os seus com panheiros em m eio a um a batalha; não era correto. Poderia até prestar-lhes algum a aj uda, j á que parecia não ser necessário que ele atirasse em gente. Todavia, tão logo essa coisa estivesse resolvida, tão logo estivessem de volta a Santa Mira, ele escreveria a carta e a entregaria ao xerife, em m ãos.
Não tinha m ais dúvidas: o serviço de polícia não era (e j am ais tinha sido) coisa para ele.
Ainda era m oço; ainda tinha tem po de trocar de profissão.
Tornara-se um tira em parte com o um gesto de rebeldia contra os pais, pois era a últim a coisa que eles queriam que fosse. Tinham notado o j eito fantástico que ele tinha para lidar com anim ais, a sua capacidade de ganhar a confiança e a am izade de qualquer criatura de quatro pernas em m eio m inuto cravado, e tinham desej ado que se tornasse veterinário. Gordy sem pre se sentira sufocado pela afeição infatigável da m ãe e do pai, e quando eles o tinham incentivado para um a carreira na m edicina veterinária, ele rej eitara a possibilidade. Agora via que eles estavam com a razão e que só queriam o que era m elhor para ele. Na verdade, bem no fundo, sem pre soubera que eles estavam certos. Ele nascera para curar, não para m anter a ordem .
Tam bém se sentira atraído para o uniform e e o distintivo porque ser um tira lhe parecera um a boa form a de provar a sua m asculinidade.
A despeito de seu tam anho e m úsculos im pressionantes, a despeito do seu interesse agudo por m ulheres, sem pre acreditara que os outros o consideravam andrógino. Quando garoto, nunca se interessara por esportes, que era a obsessão dos seus contem porâneos m asculinos. E
aquela conversa Interm inável sobre carros velozes sim plesm ente o entediava. Os seus interesses eram outros, m eio afem inados aos olhos de alguns. Em bora o seu talento fosse apenas m édio, adorava pintar.
Tocava trom pa. A natureza o fascinava, era um ávido observador de pássaros. A sua aversão pela violência não fora adquirida na vida adulta; m esm o em criança, evitara confrontos. O seu pacifism o, quando considerado j unto com a sua reticência na com panhia das m oças, fazia-o parecer, pelo m enos aos próprios olhos, um pouco m enos do que m ásculo. Porém agora, finalm ente, ele viu que não precisava provar coisa algum a.
Iria para a faculdade, tom ar-se-ia um veterinário. Ficaria satisfeito. Os pais tam bém ficariam felizes. A sua vida entraria nos eixos novam ente.
Fechou os olhos, suspirando, profundam ente, procurando dorm ir. Porém , vindas da escuridão, surgiam im agens apavorantes de cabeças cortadas de cães e gatos, im agens arrepiantes de anim ais esquartej ados e torturados.
Abriu depressa os olhos, ofegando.
O que acontecera a todos os anim ais de estim ação em Snowfield?
O quartinho de m aterial de lim peza, adj acente ao saguão.
Sem j anelas, sem luz.
O ping m onótono da água caindo na pia de m etal tinha parado.
Mas agora não havia silêncio. Algo se m exia na escuridão. Em itia um ruído m acio, m olhado, sorrateiro, enquanto deslizava pelo quarto escuro com o breu.
Jenny ainda não estava pronta para dorm ir. Foi para a lanchonete, serviu-se de um a xícara de café e se reuniu ao xerife num a m esa de canto.
— Lisa está dorm indo? — perguntou ele.
— Com o um a pedra.
— E você, com o está? Isso deve ser m uito difícil para você.
Todos os seus vizinhos, am igos...
— É difícil lam entar do m odo adequado — disse ela. — Estou m eio entorpecida. Se m e perm itisse reagir a todas as m ortes que m e afetaram , estaria um bagaço. Então, m antenho as m inhas em oções entorpecidas.
— É um a reação sadia e norm al. É assim que todos estam os lidando com a situação.
Beberam o café, papearam um pouco. E então: — Casada? — perguntou ele.
— Não. E você?
— Fui.
— Divorciado?
— Ela m orreu.
— Ah, Jesus, é claro. Li a respeito. Desculpe. Um ano atrás, não foi? Acidente de trânsito?
— Um cam inhão desgovernado.
Ela estava olhando nos olhos dele e achou que estavam nublados, um pouco m enos azuis do que antes.
— Com o vai indo o seu filho?
— Ainda está em com a. Acho que nunca vai sair.
— Sinto m uito, Bry ce, sinto de verdade.
Ele envolveu a caneca com as m ãos e ficou fitando o café.
— Do j eito que está, será um a benção, na verdade, se finalm ente ele se for. Eu fiquei entorpecido durante algum tem po. Não sentia nada, não só em ocional, m as fisicam ente tam bém . Houve um a vez em que cortei o dedo quando estava descascando um a laranj a; sangrei por toda a cozinha, e até com i uns pedaços de laranj a com sangue antes de reparar que havia algo errado. Mesm o assim não senti nenhum a dor.
Ultim am ente , estou com eçando a com preender, a aceitar. — Ergueu os olhos e encarou Jenny. — O estranho é que, desde que cheguei aqui em Snowfield, as coisas não estão m ais cinzentas.
— Cinzentas?
— Há m uito tem po que todas as coisas perderam o colorido, tem sido tudo cinzento. Mas esta noite...foi o contrário. Esta noite houve tanta em oção, tanta tensão, tanto m edo, que tudo ficou extraordinariam ente vívido. Então Jenny falou da m orte da m ãe, do efeito surpreendentem ente forte que tivera sobre ela, a despeito dos doze anos de separação parcial que deviam ter am ortecido o golpe.
Novam ente, Jenny ficou im pressionada com a capacidade de Bry ce Ham m ond de fazê-la ficar à vontade. Pareciam conhecer-se há anos.
Ela até m esm o se pegou contando a ele os erros que com etera aos dezoito e dezenove anos, o seu com portam ento ingênuo e cabeçudo que tanta dor causara aos pais. No final do seu prim eiro ano na faculdade, ela viera a conhecer um hom em que a cativara. Ele fazia pós-graduação, cham ava-se Cam pbell Hudson, apelidado de Cam , cinco anos m ais velho do que ela. Fora conquistada pela atenção dele, seu charm e, sua corte apaixonada. Até então, tivera um a vida protegida; nunca tivera nam orado firm e, nem m esm o era de sair m uito. Era um alvo fácil. Apaixonando-se por Cam Hudson, ela se tornou não apenas sua am ante, m as sua aluna e discípula em bevecida e praticam ente sua escrava dedicada.
— Não consigo im aginá-la subm etendo-se a alguém — disse Bry ce.
— Eu era j ovem .
— Sem pre um a desculpa aceitável.
Ela fora viver com Cam , sem tom ar as devidas precauções para esconder da m ãe e do pai o seu pecado. E eles achavam m esm o que era pecado. Depois, ela decidira — ou m elhor, deixara que Cam decidisse por ela — que abandonaria os estudos e iria trabalhar com o garçonete para aj udá-lo a se m anter enquanto ele concluía o seu m estrado e doutorado.
Depois de aprisionada no cenário servil de Cam Hudson, passou, aos poucos, a achá-lo m enos atencioso e m enos encantador do que fora no passado. Descobriu que ele tinha um gênio violento. O pai dela m orreu quando ela ainda estava vivendo com Cam , e, no enterro, ela sentiu que a m ãe a culpava pelo falecim ento prem aturo. Contando um m ês exato do dia em que o pai fora enterrado, descobriu que estava grávida. Já estava grávida quando ele m orrera. Cam ficou furioso e insistiu num aborto rápido. Ela pediu um dia para pensar no assunto, m as ele ficou enraivecido até m esm o com um atraso de 24 horas.
Espancou-a tão brutalm ente que ela abortou. Tudo term inou então. A tolice term inou, ela am adureceu de um dia para o outro... em bora o seu am adurecim ento abrupto tivesse vindo tarde dem ais para agradar ao pai.
— Desde então — contou a Bry ce — passei a m inha vida trabalhando duro — talvez duro dem ais — para provar à m inha m ãe que estava arrependida e que era, afinal de contas, digna do seu am or.
Trabalhei nos fins de sem ana, recusei inúm eros convites para festas, cortei as férias na m aior parte dos últim os doze anos, tudo com o propósito de m e aperfeiçoar. Não visitei a fam ília tanto quanto devia.
Não podia enfrentar a m inha m ãe. Podia ler a acusação em seus olhos.
E então, hoj e à noite, soube por Lisa a coisa m ais espantosa.
— A sua m ãe j am ais a culpou — disse Bry ce, exibindo aquela sensibilidade e percepção fantásticas que ela j á vira nele antes.
— Acertou! —disse Jenny. — Ela nunca m e acusou de nada.
— Provavelm ente tinha até orgulho de você.
— Acertou de novo. Nunca m e considerou culpada pela m orte de papai. Eu é que vivia m e culpando. A acusação que eu achava que via nos olhos dela era apenas um reflexo dos m eus próprios sentim entos de culpa. — Jenny riu baixinho e am argam ente, sacudindo a cabeça. — Seria engraçado se não fosse tão triste.
Nos olhos de Bry ce Ham m ond ela viu a com paixão e com preensão que vinha buscando desde o enterro do pai.
— Som os m uito parecidos em algum as coisas, você e eu. Acho que am bos tem os com plexo de m ártir.
— Não tenho m ais — disse ela. — A vida é curta dem ais. Isso é algo que acabei aprendendo hoj e. De agora em diante vou viver, viver de verdade... se Snowfield deixar.
— Vam os vencer essa situação — disse ele.
— Gostaria de ter certeza.
— Sabe — falou Bry ce —, ter algum a coisa pela qual esperar vai nos aj udar a vencer. Então, que tal m e dar um a coisa pela qual esperar?
— Hein?
— Um encontro. — Ele se inclinou para a frente. O cabelo espesso e averm elhado lhe caiu nos olhos. — Ristorante Gervasio, em Santa Mira. Minestrone. Cam arões na m anteiga e alho. Um a boa vitela, quem sabe um filé. Acom panham ento de m assa. Eles fazem um m aravilhoso verm icelli al pesto. Um bom vinho.
Ela abriu um sorriso.
— Eu adoraria.
— Esqueci de falar no pão de alho.
— Ah, adoro pão de alho.
— Zabaglione de sobrem esa.
— Vão ter que carregar a gente para fora — disse ela.
— Vou providenciar os carrinhos de m ão.
Papearam por m ais alguns m inutos, aliviando a tensão; depois, finalm ente, am bos se sentiram prontos para dorm ir.
Ping.
No quartinho de lim peza escuro onde o corpo de Stu Wargle j azia sobre um a m esa, a água recom eçara a pingar na pia de m etal.
Ping,
Algo continuava a se m over sorrateiram ente na escuridão, rodeando e rodeando a m esa. Fazia um ruído untuoso, m olhado, de quem deslizava na lam a.
Aquele não era o único som no aposento; havia m uitos outros ruídos, Iodos baixos e suaves. O arfar de um cão cansado. O sibilar de um gato zangado. Um riso tranquilo, cristalino, persistente; o riso de um a criança pequena. Depois, o choram ingar doloroso de um a m ulher.
Um gem ido. D in suspiro. O gorj eio de um pardal, em itido com clareza, m as baixinho, para não cham ar a atenção dos guardas colocados no saguão. O chocalhar de um a cascavel. O zum bido de m angangás. O
zunido m ais estridente e sinistro das vespas. Um cão rosnando.
Os ruídos cessaram tão abruptam ente quanto tinham com eçado.
O silêncio retornou.
O silêncio perdurou, total, exceto pelas notas regularm ente espaçada da água que caía, durante cerca de um m inuto.
Ping.
Houve um farfalhar de pano no quarto sem luz. A m ortalha que cobria o cadáver de Wargle. A m ortalha escorregara de cim a do m orto e caíra ao chão.
Um deslizar, de novo.
E um ruído de m adeira seca se lascando. Um ruído frágil, abafado, m as violento. Com o um osso se partindo, vivam ente.
Novam ente o silêncio.
Ping.
Silêncio.
Ping. Ping. Ping.
Enquanto Tal Whitm an esperava pelo sono, pensou no m edo.
Esta era a palavra-chave; era a em oção básica que o forj ara. O m edo. A sua vida era um a longa e vigorosa negação do m edo, um a refutação da sua existência. Ele se recusava a ser afetado (e hum ilhado e m otivado) pelo m edo. Não adm itia que coisa algum a pudesse lhe dar m edo. Bem cedo, na vida, a dura experiência lhe ensinara que até o m ero adm itir do m edo poderia expô-lo ao seu apetite voraz.
Ele nascera e se criara no Harlem , onde o m edo estava em toda a parte; m edo de quadrilhas de rua, m edo dos viciados, m edo da violência sem sentido, m edo da privação econôm ica, m edo de ser excluído do fluxo da vida. Naqueles cortiços, naquelas ruas cinzentas, o m edo esperava para engolir você no instante em que você lhe fazia o m ais leve sinal de reconhecim ento.
Na infância, não estivera seguro nem m esm o no apartam ento que dividia com a m ãe, um irm ão e três irm ãs. O pai de Tal fora um sociopata, um espancador de m ulheres que aparecia em casa um a ou duas vezes por m ês pelo sim ples prazer de bater na m ulher até deixá-la sem sentidos e de aterrorizar os filhos. Claro que a m ãe não era m uito m elhor do que o velho. Bebia vinho dem ais, fum ava baseados dem ais e era quase tão im placável com os filhos quanto o pai.
Quando Tal estava com nove anos, num a das raras noites em que o pai estava em casa, houvera um incêndio no cortiço. Tal fora o único sobrevivente da fam ília. A m ãe e o pai tinham m orrido na cam a, sufocados pela fum aça enquanto dorm iam . O irm ão de Tal, Oliver, e as suas irm ãs (Heddy, Louisa e o bebê Francesca) tam bém se foram , e agora, tantos anos m ais tarde, às vezes era até difícil acreditar que tinham realm ente existido.
Depois do incêndio, ele foi m orar com a irm ã da m ãe, tia Rebecca. Ela tam bém m orava no Harlem . Becky não bebia. Não consum ia drogas. Não tinha filhos, m as tinha um em prego, frequentava a escola noturna, acreditava na auto-suficiência e era cheia de ideais.
Muitas vezes dizia a Tal que nada havia a tem er exceto o Próprio Medo, e que o Próprio Medo era com o o bicho-papão, apenas um a som bra, não sendo digno que se tivesse m edo dele. "Deus lhe deu saúde, Talbert, e um a boa cabeça. Se você puser tudo a perder, a culpa será só sua, de m ais ninguém ", dizia ela.
Com o am or, a disciplina e a orientação da tia Becky, o j ovem Talbert acabara por se convencer de que era virtualm ente invencível.
Não tinha m edo de coisa algum a na vida; tam bém não tinha m edo de m orrer.
Fora por esse m otivo que, anos m ais tarde, depois de sobreviver ao tiroteio no m ercado 7-Eleven, em Santa Mira, ele pudera dizer a Bry ce Ham m ond que a coisa fora um a sopa.
Agora, pela prim eira vez em m uitos, m uitos anos, ele se deparava com um nó de m edo.
Tal pensou em Stu Wargle, e o nó de m edo ficou m ais apertado, esprem endo as suas entranhas.
Os olhos tinham sum ido com pletam ente do crânio.
O Próprio Medo.
Mas esse bicho-papão era real.
Faltando m eio ano para o seu 31º. aniversário, Tal Whitm an estava descobrindo que ainda podia sentir m edo, não im portava o quão veem entem ente o negasse. O seu destem or m uito o aj udara na vida.
Porém , opondo-se a tudo aquilo em que acreditara antes, dava-se conta agora de que havia vezes em que ter m edo era sim plesm ente ser inteligente.
Pouco antes do alvorecer, Lisa acordou de um pesadelo de que não conseguia se lem brar.
Olhou para Jenny e os outros que estavam dorm indo, depois voltou-se para as j anelas. Do lado de fora, a Sky line Road estava enganadoram ente tranquila ao se aproxim ar o fim da noite.
Lisa sentiu vontade de urinar. Levantou-se e cam inhou sem fazer barulho por entre duas filas de colchões. Na abertura em arco da sala, sorriu para o guarda, que piscou para ela.
Havia um hom em no refeitório, folheando um a revista.
No saguão havia dois guardas postados j unto às portas dos elevadores. As duas portas enceradas de carvalho na entrada do hotel, cada um a com um vidro oval chanfrado no centro, estavam trancadas, m as havia uni terceiro guarda postado j unto a elas. Ele segurava um a espingarda e espiava para fora através de um dos vidros ovais, vigiando o principal cam inho que dava para o prédio.
Um quarto hom em estava no saguão. Lisa fora apresentada a ele antes um delegado calvo de rosto verm elho cham ado Fred Turpner.
Estava sentado à m aior das m esas, cuidando do telefone, que devia ter tocado com frequência durante a noite, pois havia duas páginas de papel alm aço elidas de recados. Quando Lisa ia passando, o telefone tocou de novo. Fred ergueu um a das m ãos para cum prim entá-la, depois tirou o fone do gancho.
Lisa foi direto para os banheiros, que ficavam num canto do saguão:
GATINHAS DA NEVE
GATÕES DA NEVE
Aquela j ocosidade não com binava com o restante do Hilltop Inn.
Ela atravessou a porta m arcada GATINHAS DA NEVE. OS banheiros tinham sido considerados território seguro porque não tinham j anelas e podiam ser alcançados som ente através do saguão, onde sem pre havia guardas. O banheiro fem inino era grande e lim po, com quatro reservados e pia. Os pisos e paredes eram de cerâm ica branca m argeados por ladrilhos azul-escuros nas beiradas do chão e no alto das paredes.
Lisa usou o prim eiro reservado e depois a pia m ais próxim a.
Quando term inou de lavar as m ãos e ergueu os olhos para o espelho que encim ava a pia, ela o viu. Ele. O delegado m orto. Wargle.
Estava parado atrás dela, a uns três m etros de distância, no m eio do aposento. De sorriso aberto.
Ela girou o corpo, certa de que era algum a falha no espelho, um truque qualquer do espelho. Claro que ele não estava ali.
Mas ele estava ali. Nu. Sorrindo obscenam ente.
O seu rosto fora recom posto. As faces gordas, a boca de lábios grossos e aparência gordurosa, o nariz de porco, os olhinhos furtivos. A carne estava inteira de novo, com o que por m ágica.
Im possível.
Antes que Lisa pudesse reagir, Wargle se interpôs entre ela e a porta. Seus pés descalços batiam surdam ente no chão de ladrilhos.
Alguém estava batendo com força na porta.
Wargle parecia não estar ouvindo.
Batendo e batendo e batendo...
Por que sim plesm ente não abriam a porta e entravam ?
Wargle estendeu os braços e fez sinais de venha-a-m im com as m ãos. Sem pre sorrindo abertam ente.
Desde o m om ento em que o vira, Lisa não tinha gostado de Wargle. Percebera que ele sem pre olhava para ela quando pensava que ela estava olhando para outro lado, e a expressão nos seus olhos era perturbadora.
— Venha cá, tesãozinho — disse ele.
Ela olhou para a porta e se deu conta de que não havia ninguém batendo nela. Ela estava escutando apenas o bater frenético de seu próprio coração.
Wargle lam beu os lábios.
Lisa ofegou subitam ente, surpreendendo a si m esm a. Estivera tão totalm ente paralisada pela volta do hom em dentre os m ortos, que tinha se esquecido de respirar.
— Venha cá, sua putinha.
Ela tentou gritar. Não conseguiu. Wargle se tocou, obscenam ente.
— Aposto que você está querendo um bocado disto aqui, não é?
— falou, sorriso aberto, os lábios úm idos, constantem ente lam bidos.
Mais um a vez, ela tentou gritar. Mais um a vez, não conseguiu.
Mal conseguia arrancar cada respiração dos pulm ões que ardiam .
Ele não é real, disse consigo m esm a.
Se fechasse os olhos por alguns segundos, apertando-os bem , e contasse até dez, ele não estaria aqui quando ela olhasse de novo.
— Putinha.
Ele era um a ilusão. Talvez até parte de um sonho. Quem sabe sua vinda ao banheiro não era apenas outra parte do seu pesadelo?
Mas ela não pôs à prova a sua teoria. Não fechou os olhos e contou até dez. Não teve coragem .
Wargle deu um casso na sua direção, ainda se bolinando.
Ele não é real. E um a ilusão.
Mais um passo.
Ele não é real é um a ilusão.
— Venha cá, tesãozinho, deixe eu m am ar nesses seus peitinhos.
Ele não é real, é um a ilusão, ele não é real, e um a...
— Você vai adorar, tesãozinho. Ela recuou, afastando-se dele.
— Corpinho engraçadinho que você tem , tesãozinho. Muito engraçadinho.
Ele continuou a avançar.
A luz agora estava por trás dele. A sua som bra caiu sobre ela. Os fantasm as não lançavam som bras.
A despeito da sua risada e de seu sorriso fixo, a voz dele foi ficando cada vez m ais áspera, m ais irritada.
— Sua piranha estúpida. Vou usar você pra valer. Mas pra valer m esm o. Melhor do que qualquer daqueles garotos de ginásio. Você não vai conseguir andar direito por um a sem ana quando eu acabar com você, tesãozinho.
A som bra dele a engolira com pletam ente.
Com o coração batendo com tanta força que parecia querer sair do peito, Lisa recuou m ais, e m ais — m as logo colidiu com a parede.
Estava encurralada.
Olhou ao seu redor à procura de um a arm a, algo que pelo m enos pudesse j ogar em cim a dele. Não havia nada.
Estava cada vez m ais difícil respirar. Ela se sentia tonta e fraca.
Ele não é real. É um a ilusão.
Mas ela não podia m ais se iludir: não podia m ais acreditar em sonhos.
Wargle parou quase em cim a dela. Olhou-a fixam ente. Oscilou de um lado para o outro e balançou-se para a frente e para trás nas plantas dos pés descalços, com o se algum a m úsica louca-som bria-particular estivesse crescendo e dim inuindo e crescendo dentro dele.
Fechou os olhos odiosos, oscilando sonhadoram ente.
Passou-se um segundo.
O que ele está fazendo!
Dois segundos, três, seis, dez.
Ainda assim , os olhos dele perm aneciam fechados.
Ela se sentiu transportada num redem oinho de histeria.
Será que poderia se esgueirar e passar por ele? Enquanto estava de olhos fechados? Jesus. Não. Ele estava perto dem ais. Para escapar, teria que roçar nele. Jesus. Roçar nele? Não. Deus, aquilo faria com ele saísse do transe, ou fosse lá o que era aquilo, e ele a agarraria, e as suas m ãos seriam frias, m ortalm ente frias. Ela não conseguiria se forçar a tocar nele. Não.
Então ela notou que algo estranho estava acontecendo por trás dos olhos dele. Movim entos sinuosos... As pálpebras não m ais se aj ustavam à curvatura dos globos oculares.
Ele abriu os olhos.
Eles tinham sum ido.
Por trás das pálpebras havia apenas cavidades negras e vazias.
Ela finalm ente gritou, m as o grito que em itiu ficava além da capacidade hum ana de ouvir. A respiração saiu do seu corpo num a velocidade de trem expresso, e ela sentiu a garganta se m over convulsivam ente, m as não saiu absolutam ente som algum que pudesse trazer auxílio.
Os olhos dele.
Os olhos vazios dele.
Ela estava certa de que aquelas órbitas vazias ainda podiam vê-
la. Sugavam -na com seu vácuo.
O sorriso largo não desaparecera.
— Gostosa — falou.
Ela gritava o seu grito silencioso.
— Gostosa. Me beij a, gostosa.
De algum a form a, escuras com o a m eia-noite, aquelas cavidades orladas de ossos ainda cintilavam com um a percepção m alévola.
— Me beij a.
Não.
Deixe que eu m orra, ela rezava. Deus, por favor, deixe que eu m orra prim eiro.
— Quero chupar a sua língua suculenta - disse Wargle ansiosam ente, dando um a risadinha.
Estendeu a m ão para ela.
Ela apertou o corpo contra a parede im óvel.
Wargle tocou-lhe a face.
Ela se crispou e tentou se afastar.
As pontas dos dedos dele correram de leve pela sua face.
A m ão dele estava fria e escorregadia.
Ela escutou um gem ido fraco, seco, sinistro. - Uh-uh-uh-uh uhhhhhh -, e percebeu que estava escutando a si m esm a.
Sentiu um cheiro estranho, acre. O hálito dele? O hálito fétido de um m orto, expelido de pulm ões apodrecidos? Acaso os m ortos-vivos respiravam ? O fedor era leve, m as insuportável. Ela teve ânsias de vôm ito. Ele baixou o rosto na direção do rosto dela.
Ela fitou os seus olhos carcom idos, a escuridão hedionda para além deles, e era com o espiar por duas portinholas para as câm aras m ais profundas do Inferno.
A m ão dele apertou-lhe a garganta.
Ele falou:
— Me dá...
Ela inspirou com dificuldade.
— ...um beij inho.
Ela expirou, soltando outro grito.
Só que desta vez o grito não foi m udo. Desta vez ela em itiu um som que parecia alto o bastante para estilhaçar os espelhos do banheiro e lascar os ladrilhos de cerâm ica.
Enquanto o rosto m orto e sem olhos de Wargle baixava lentam ente na sua direção, enquanto ela escutava o próprio grito ecoando pelas paredes, o redem oinho de histeria no qual estava girando tornou um redem oinho de escuridão, e ela foi atraída para o oblívio.